sábado, 23 de setembro de 2017

O amor não vem do Tinder


O amor não vem do Tinder. Não é algo que irá surgir em uma primeira conversa com alguém novo. Ou na primeira vez em que vocês criarem coragem o suficiente para se encontrarem. Ou quando você arrisca segurar a mão dela em um momento descontraído. Ou durante aquele beijo, o primeiro beijo, que te enche de sonhos e promessas. Não. O amor não vem disso.
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O amor não vem do cineminha. Não irá aparecer magicamente na sintonia de vocês ao escolherem o mesmo filme. Ou em concordarem que um pega a pipoca e o refrigerante, enquanto o outro tenta encontrar os ingressos no bolso. Também não é naquele primeiro momento após as luzes se apagarem, quando ela encosta a cabeça no seu ombro. E você a abraça, querendo dizer que ela pode se sentir confortável ali, porque você irá apoiá-la. O amor não surge na cena de sexo explícito, ou de conflito frustrante, e muito menos do final feliz. O amor não acompanha os créditos que sobem na tela quando as luzes se acendem de novo.
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O amor não é posto à mesa em um jantar romântico. Não acompanha o cardápio que você preparou cuidadosamente, pensando nos temperos que ela gosta e no vinho que vocês provaram quando se conheceram naquele bistrô no centro da cidade. O amor não está nos talheres alinhados, no mise en place, no decantador, nos pratos fundos ou nas taças rasas. O amor também não vem com a sobremesa, ou com os cumprimentos ao chef, ou com aquela provocação boba sobre o quanto ela está ficando mal acostumada, e você terá que continuar se superando se quiser agradar. O amor, definitivamente, não está na cozinha bagunçada e na louça suja que fica para trás.
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O amor não vem à tona quando você conhece os pais dela. Não se torna visível só porque o pai dela não vai com a sua cara, mas você tenta causar uma boa impressão por ela. Por vocês. O sentimento não é descoberto quando você prova a comida da mãe dela, e é pego desprevenido quando a sogra pergunta quais são as suas intenções com a filha dela enquanto você engole, e quase engasga com o risoto. O amor não é posto à prova quando o irmão mais velho dela te encara do outro lado da mesa, porque sabe o que você está fazendo com a irmãzinha dele. O amor não vem até vocês quando você promete que estarão lá de novo no próximo domingo.
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O amor não vem do sexo. Entre roupas jogadas aos cantos, suspiradas profundas, suor escorrendo, gemidos baixinhos, lençóis repuxados, pernas embaralhadas, beijos com mordidas no lábio inferior, sacanagens ao pé do ouvido, pressão, fricção, tesão, emoção, tapas, puxadas de cabelo, pegada, mordidas, arranhões e explosões... O amor não está entre o seu corpo e o dela. Ou no fogo que surge enquanto estão juntos. Ou no silêncio que paira quando se separam, esgotados, mas já pensando na próxima vez.
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O amor não vem nas notificações do seu celular, na forma de um “bom dia” ou “boa noite”. O amor não cabe no seu espaço de armazenamento, nem no seu cartão de memória, nem no seu HD externo. O amor também não está na nuvem ou no drive. O amor não está na sua linha do tempo, no seu feed de notícias, nos seus stories mais recentes, na sua atualização de status, ou guardado na sua galeria de imagens. O amor também não pode ser enviado, zipado, compactado, decupado, transferido ou compartilhado. O amor não está disponível para Android ou iOS.
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O amor vem de você. De quem você é. E mais ainda, da pessoa que você ainda procura ser. O amor vem da educação que os seus pais te deram, e do quanto você a passa adiante. O amor vem da sua preocupação com aquele velho amigo com quem você não fala há algum tempo. O amor vem dos gestos que você pratica sem pensar no que pode ganhar em troca. O amor vem do quanto a sua mãe fez por você, colocando a si mesma em segundo lugar, para fazer você sorrir. O amor vem do que o seu pai consegue te dar, quando dizer “eu te amo” não é o forte dele. O amor vem da sua irmã pedindo ajuda com o dever de casa, porque quer passar tempo com você. O amor vem da sua capacidade de abrir os olhos e enxergá-lo ao seu redor, nas pequenas vitórias do dia a dia. O amor vem do seu caráter. Do quanto você tem noção de quem é, do que é capaz, de tudo que já passou para chegar até aqui, e do que está fazendo para alcançar aonde mais deseja chegar. O amor está aí. Ela não o levou embora. Ele não roubou de ti a capacidade de acreditar em outra pessoa. O amor só depende de você, e só existe contigo. 

E se você finalmente descobrir isso, talvez possa ter algo em comum com alguém que também sabe de onde o amor vem. E, juntos, quem sabe, possam descobrir para onde ele vai.

domingo, 10 de setembro de 2017

Os arrependimentos certos

Entre doses de uísque, um amigo me disse algo marcante.

- Igor, se você se arrependeu de algo nessa vida, você simplesmente não viveu.

E eu fiquei com isso na cabeça por alguns dias. Porque se há algo que eu coleciono nessa vida, além de comentários sarcásticos e ironias do destino, são arrependimentos. Independente da sua natureza; se nasceram de algo que optei por fazer sem pensar direito, ou algo que escolhi não fazer por pensar demais. Seja como for, eu os carrego comigo. Assim como o meu amigo carregou no dia seguinte, após as doses de uísque.

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A vida é um grande, caótico ciclo de tentativa e erro. Por muito tempo eu acreditei que havia algo além disso nos guiando. Fosse o destino, ou as teorias sobre a pessoa certa no lugar certo e na hora certa. Sempre foi demais pra mim acreditar na noção de que não há nada a não ser desordem e sorte. Como se tudo não passasse de um jogo de tetris, onde às vezes as peças se encaixam perfeitamente, às vezes não.

A vida não é um jogo, nem uma completa bagunça, nem um esquema cujo segredo nós devemos procurar. Há quem passe a vida inteira procurando respostas sem nunca perceber que estava fazendo as perguntas erradas o tempo todo.

Eu não sei se ainda acredito em destino. Ou na pessoa certa, e em um timing que colabore conosco. Por muito tempo carreguei alguns sonhos desse tipo comigo: sobre a última garota certa, o amor da sua vida, a teoria das mãos dadas no shopping, os clichês... E ainda estou aqui.

Claro, eu não sou mais o mesmo cara que escreveu esses textos. Assim como não sou o mesmo cara que chegou aqui, dois anos atrás. Nós mudamos, crescemos, erramos e aprendemos. Evoluímos, mesmo que o resultado nos decepcione, o que só acaba servindo como motivador para nos transformarmos de novo. E entre um texto e outro, uma rua sem saída e outra, uma garota e outra, eu errei. Muito. E é nisso que pensei quando meu amigo bêbado disse sua teoria sobre a vida, arrependimentos e etc.

Sim, eu estava bêbado também. Trabalhar no dia seguinte foi difícil. Mas com o tempo e os erros, eu aprendi a usar alguns macetes: manter-se hidratado, carregar Engov comigo sempre, treinar a fazer o número quatro com a perna sempre para exercitar o equilíbrio... Alguns truques eu já domino, e só foram possíveis quando me pus à prova, sem saber se daria certo ou não. Essa é a graça das bebedeiras infames, dos relacionamentos errados, e todas as outras experiências de vida que nós acumulamos com o passar dos invernos.

Dá pra acreditar que já estamos quase na primavera? Não sei como foi pra você, mas o meu inverno foi difícil...

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Eu já apostei corrida bêbado em uma cervejada, tropecei e rasguei as calças em um estacionamento. Já fui convidado a ser retirado de um pub por dois seguranças depois que invadi o palco no meio de um show. Já estraguei uma festa surpresa que organizaram para mim, dizendo que eu já sabia dela. Já abandonei a faculdade de Jornalismo, acreditando que aquele não era o curso para mim. Já disse que nunca mais falaria com meus pais, ou com minha irmã, porque eles fizeram algo que me magoou demais. E mais vezes do que eu gostaria de admitir, eu já confessei estar apaixonado por alguém, mesmo sabendo que ela não sentia o mesmo.

Eu já fiz todas essas coisas. Agora existem histórias embaraçosas sobre mim, e fraturas no meu coração que talvez nunca realmente se curem. Mas eu também aprendi com elas, chorei, e cresci. Não é porque algo não deu certo, que não teve valor. Não estou te dizendo que era algo pelo qual você precisava passar, como se estivesse escrito nas estrelas. Mas a experiência, os esforços dedicados, e a vida que passou pelas suas veias, estarão contigo para sempre. Eternamente, enquanto nós estivermos aqui.

O segredo não é evitar os arrependimentos. Isso é impossível. O melhor que nós podemos fazer, no final das contas, é acabar com os arrependimentos certos.

domingo, 3 de setembro de 2017

8/80

Existem dois grandes medos que lideram a vida de um escritor diante de uma folha em branco. Ele pode começar aos poucos e, palavra por palavra, ponto a ponto, acabar submetendo mais da sua alma do que esperava. Ou, então, enrolar por períodos, parágrafos e pontuações infames, até descobrir que realmente não havia nada que precisava ser escrito. Quanto a mim, que ainda estou tentando descobrir qual caminho quero seguir para tentar chegar ao que eu acredito que deva ser dito, eu não sabia por onde começar. Uma indecisão que, por si só, resumiu exatamente o conflito que aqui reside: a insustentável leveza dos meios-termos. A noção de que as coisas, as pessoas e os lugares devem ser aproveitados ao máximo, ou então não há pra quê dar uma chance a eles. Enquanto a vida que pode ser vivida em equilíbrio entre um extremo e outro parece morna demais para valer a pena.

Para você que está lendo e pensando “Uau, eu sou muito assim, 8 ou 80!”, pare. Você não é assim. Você nem faz ideia do que é ser assim. Mas este sou eu, caindo em hábitos extremos mais uma vez, pra variar. Esvaziando o valor do que outras pessoas pensam, por já me considerar a pessoa mais quebrada do mundo. E também não há lugar no pódio para você. As outras posições já estão ocupadas pelas pessoas que eu mesmo quebrei pelo caminho.

Eu penso nisso todos os dias, o tempo todo. Desde a primeira xícara de café do dia, até os questionamentos noturnos sobre porque estou indo dormir sozinho. Alguns anos atrás eu tive um pensamento parecido, envolvendo meu repúdio absoluto sobre o café com leite. Quando somos crianças, aprendemos que quem é rotulado como “café com leite” é considerado frágil, fraco, sensível. Incapaz de lidar com as regras impiedosas do jogo da vida e, por isso, precisam ter algumas vantagens especiais para conseguirem acompanhar os outros. Eu já fui a criança café-com-leite e odiei cada experiência do tipo. Mesmo quando tentava jogar conforme as regras padrões e descobria que os outros tinham razão.

Alguns feitos, e algumas situações, não foram feitas para todos nós. E não há nada de errado em admitir derrota, aceitar ajuda, ou pedir um tempo. E se não fosse pelo mundo ao nosso redor, constantemente nos lembrando de que é preciso ser sempre o melhor, independente e invencível, talvez as memórias da infância não nos assombrassem até hoje.

O meio que eu encontrei para ter paz sobre isso foi aceitar o fato de que às vezes quem faz o café, o faz muito forte. Às vezes é o meu pai, às vezes é a moça da firma, e, às vezes, a própria vida. E adicionar leite pode ajudar a suavizar as doses de cafeína que preciso para continuar operando normalmente.

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Quando eu saí de casa, minha mãe me deu o abraço mais forte do mundo. O abraço que silenciosamente me pedia para não ir embora, mas eu fui. Talvez na maior demonstração de todas sobre como toda vez em que eu me deparo com amor, meu instinto é fugir por não saber lidar com ele. Oito anos depois, minha mãe ainda me liga todos os dias, sem falta e até mesmo sem assunto. Só para saber se eu estou bem, se estou vivo... Se consegui encontrar amor por aí. Em dias mais estressantes, minha ingratidão questionava o motivo das ligações diárias. Minha mãe, a santa, sempre diz que em matéria de amor, é melhor pecar pelo excesso do que pela falta. Eu acredito que ela tem razão. Eu também acredito que realmente não dou conta disso.

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A expressão “8 ou 80” vem de um game show dos anos 70. Nele, os participantes concorriam a prêmios ao responder perguntas feitas pelo apresentador. Respostas parciais valiam 8 pontos; as completas valiam 80. Para aumentar o suspense, o apresentador puxava o bordão: “É 8 ou 80?!”. E foi assim que nós aprendemos que o 8 quer dizer pouco, o 80 deve ser a nossa meta, e qualquer número entre um e outro na verdade não vale nada.

Foi assim que deixei minha ansiedade tomar o melhor de mim em relacionamentos que estavam só começando – só para afugentar o amor de vez. Similarmente, outros optei por nem dar uma chance, acreditando que a longo prazo o resultado seria apenas o eco que causaríamos na vida do outro. Ou eu sinto muito medo ou muita dúvida para arriscar te dar um “oi”, ou a gente casa semana que vem. Se não for pra ser assim, fico sozinho. Eu sei lidar com os meus extremos quando estou sozinho. A questão ultimamente tem sido: isso é algo que eu quero fazer até o extremo da minha vida?

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Quando começamos a conversar, eu te disse que existem dois grandes medos na vida de um escritor. Entre eles, eu sempre prefiro enfrentar o segundo. No mínimo, aprendo a lidar com algo que passa a semana adormecido em mim. Entre a correria do dia a dia, os deslocamentos entre um ônibus e outro, as segundas vias de boletos que preciso imprimir e pagar, e as idas ao bar que tem me mantido de pé. Agora, eu entendo também que a divisória entre o 8 e o 80 não é maniqueísta. O 8 pode ser pouco, mas não necessariamente ruim. O 80 pode ser muito, mas não necessariamente bom. São só duas pontas de um cabo de guerra onde quem decide se é possível achar o equilíbrio, ou acabar caído e arrependido em um dos lados, sou eu.

Eu não sei se encontrarei meu ponto de equilíbrio algum dia. E não sei se isso é bom ou ruim também. O que eu sei, com certeza, é que até a presente data não há como delimitar nenhum tipo de extremo para o meu 2017. Esse ano todo não tem passado de um exercício de desconstrução após o outro, onde tudo é possível e nada está a salvo. Isso não quer dizer que eu devo abandonar todo e qualquer sonho de alcançar um meio termo sobre quem eu sou, e quem eu ainda espero ser.

Só significa que, em meios termos de 2017, uma coisa é clara: não há mais regras.

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Espero que isso te ajude a entender pelo menos porque eu vivo sozinho, na defensiva, cercado de sarcasmo e armado de olhares desconfiados. Entre tudo e nada, convenhamos: é mais fácil aprender a lidar com o nada.

domingo, 27 de agosto de 2017

O deslocamento


Eu já pensei em absolutamente todas as teorias para tentar entender porque você foi embora. Talvez eu tenha sido “eu” demais, com minhas manias incorrigíveis, meus dramas épicos e minha ansiedade desenfreada. Talvez você tenha conhecido outra pessoa – alguém do seu passado, ou simplesmente alguém novo, presente e menos “eu” o bastante para te agradar. Talvez a graça da novidade tenha se dissipado com o passar dos dias, como se a rotina tivesse tornado a paixão rarefeita e à mercê dos ventos do inverno. Ou talvez, quem sabe, na pior das hipóteses e encarando o maior dos meus medos de hoje em dia, você simplesmente não estivesse disposta a ter um relacionamento. Completo com todas as manias, dramas e ansiedade que o acompanham.

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Eu não queria escrever sobre isso. Juro que não queria. Mas eu não consigo parar de pensar em você, Fulana. Não consigo deixar de me preocupar contigo, e de imaginar como seria bom tê-la em meus braços de novo, e sussurrar que tudo ficará bem. E já faz dias que penso sobre o mais posso dizer, o que mais posso escrever, que me leve de uma vez por todas para longe de você e rumo ao meu próximo desengano – já que esta parece ser a pauta recorrente de 2017. E então eu me peguei pensando em uma nova teoria, recém formulada, que talvez explique porque você se foi e, inclusive, porque eu não deveria mais pensar sobre isso. E não tem nada a ver com a sua teimosia, ou sua infantilidade, ou sua intransigência. Até porque, se você estralasse os dedos, eu estaria de volta aos seus pés. E o pior: eu estaria feliz por isso. E foi aí que eu comecei a pensar, enfim, no verdadeiro vilão. O deslocamento.

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A parte mais difícil de um relacionamento – qualquer relacionamento que seja – é e sempre será o deslocamento. E não estou falando dos clichês sobre andar de mãos dadas no shopping e seguir adiante, juntos, pela vida afora. Não. Estou falando de uma jornada mais intrínseca, impiedosa e insensata do que a dor e a delícia de uma vida a dois: a dor e a delícia de ser um só, e de se entregar ao outro para que possam, então, ser dois. E a magnitude envolvida no deslocamento é e sempre será o que desmotiva qualquer um a tentar algo com qualquer outro.

Porque eu tenho uma vida aqui, entende? Uma que existe bem antes de eu descobrir que você estava por aí. E que tem muitos, mas muitos problemas no dia a dia, que se misturam na correria da semana e que sempre me destroem a ponto de me motivar a ficar deitado, escondido da cama, vendo todas as oportunidades e experiências novas passarem por mim.

Viver é cansativo. É acordar às seis e pouco da manhã pra tomar uma ducha e um café rápidos, porque se eu parar pra pensar sobre como seria bom ter você dormindo ao meu lado, eu vou me atrasar e perder meu ônibus para o trabalho. E se eu perder o primeiro ônibus, vou perder o segundo, e o terceiro, e lá se foi toda a segunda-feira. Que chances eu tenho de recuperar o meu bom humor ao longo da semana? Sem falar que estamos no fim do mês, e mais uma vez tem mais dias do que dinheiro sobrando aqui. O que eu vou almoçar? Tem algum lugar perto daquela lanchonete em que eu posso passar pra pagar aquele boleto? Mas eu trouxe aquele boleto comigo? Não, ficou em cima da mesa, perto do café. Como faz pra emitir uma segunda via? Tem que se cadastrar no site?! Meu Deus, que empenho. E essa hora que não passa?

Entre trocas de ônibus, horários a cumprir, trabalhos a serem feitos, aulas que não posso perder, amigos que preciso rever, familiares que preciso cuidar, mensagens que devo responder e contas que preciso pagar, eu pensei em algo essa semana. Eu não estive ignorando a sua existência e sofrendo sozinho pela lembrança do seu beijo de propósito; eu só estava ocupado demais para sofrer por você. E quando eu finalmente decidi colocar a minha sofrência em dia – relendo tudo o que você escreveu, revendo todas as fotos que postou, e relembrando todas as vezes que passei por você nesse último mês – eu descobri algo incrível: a Fulana cuja falta ando sentindo era bem mais interessante do que você. E não há absolutamente nada que eu possa fazer sobre você ter ido embora. Assim como não há nenhum sinal escondido no fato de que – ironicamente – nós ainda iremos nos encontrar todos os dias.

É difícil manter um emprego, uma faculdade, uma casa organizada, uma família feliz, uma gata de estimação satisfeita com o tanto de comida que tem no potinho de ração dela, e os cadastros em dia para conseguir emitir a segunda via de um boleto quando necessário. Envolve empenho, comprometimento, e muito, mas muito amor por tudo para continuar seguindo adiante. Agora imagine um relacionamento no meio de tudo isso: alguém com medos, vontades, inseguranças, opiniões e compromissos totalmente diferente dos seus. E quando eu parei pra pensar no que realmente significaria estarmos juntos, você e eu, eu percebi o quanto somos diferentes.

Bom mesmo seria passar por você todos os dias, sem eu precisar me deslocar para qualquer outro lugar. Você já estaria no meu caminho. Que maravilha!

Então, eu entendi. Relacionamentos envolvem deslocamentos. Envolvem abrir mão, em parte, de quem você é e dos compromissos que você julga tão importantes, para dar espaço à outra pessoa com quem você queira viver junto. E me contentar com alguém pelo simples fato dela já estar no meu caminho não é nenhum sinal cósmico ao qual eu devo me apegar.

Obrigado, meu bem, por ir embora, porque eu não seria capaz de deixá-la. Obrigado por me mostrar, todos os dias quando eu a reencontro, que conveniência não é um pré-requisito para o amor. E se eu quiser mesmo encontrar amor de verdade, terei que ir além. Começando por sair da minha zona de conforto, até enfim ser capaz de deixar eu mesmo de lado um pouco para que mais alguém consiga viver aqui.

Pela primeira vez, no último mês, sinto que estou de volta à direção certa.

domingo, 20 de agosto de 2017

Pra não dizer que não falei das flores


Tem sido um inverno difícil. Eu sinceramente não me lembro da última vez que me senti assim. Inquieto, incompleto, inconstante. Como se nada fosse capaz de me satisfazer. Nem o café fresco na manhã de domingo, nem o conforto da minha cama ao fim do dia. Para falar a verdade, o que eu ando fazendo à noite também não pode ser chamado de “dormir”. E nem de algo mais divertido de se fazer em uma cama. Eu só fico deitado, acordado, em alerta. Na esperança de que o barulho de mensagem nova no celular me chamasse, avisando que alguém se lembrou de mim. E que bom seria se fosse você. Mas não tem sido. Já faz algum tempo que não é você, e é nisso que eu fico pensando...

Você ainda pensa em mim, ou as vezes em que tem cruzado por mim na rua são indiferentes? Comparadas aos dias em que estávamos ansiosos para nos encontrarmos... Lembra da primeira vez que nos vimos? Do sorriso largo que eu inspirei em você? E do quão bobo eu parecia ser, tentando chamar a sua atenção? Eu sinto falta de ser bobo, ao contrário da infâmia sarcástica na qual eu estou habituado a viver. A verdade é que, quando você surgiu, o mundo parecia estar recomeçando. E todos os lugares pelos quais passei estavam subitamente reabertos para serem experimentados. E os momentos que eu queria que fossem inesquecíveis, mas que desperdicei com as garotas erradas, poderiam ser revividos com você.

Era isso que eu mais vi em nós: o recomeço. Aquela vida que poderia ter sido e não foi, mas que agora – finalmente! – poderia ser. E eu não sei se foi o calor do momento que te deixou esperançosa, mas ao compartilhar contigo a promessa que fiz sobre nunca deixar o mundo vencer, você aceitou lutar comigo. Em algum momento isso foi verdade – eu despertei algo em você, fui diferente dos outros caras que você já havia conhecido – ou você estava só tentando ser gentil? Isto é, até o momento em que decidiu não ser mais, e foi embora. Sem explicação, sem grandes gestos, e sem se despedir.

A última coisa que eu tive capacidade de dizer foi para jogar fora as flores que eu havia te dado. Talvez tenha sido fácil para você, que dizia nunca ter ganho flores antes, logo o desapego não levaria tanto tempo assim. Mas para mim, que nunca deu flores a ninguém antes, tem sido mais difícil do que eu esperava. Só de pensar em dar flores à alguém de novo, eu opto por não plantar expectativa alguma. Por ninguém. Sobre nada.

Eu me sinto quebrado. Mais do que o de costume. Menos do que eu estava pronto para lidar. Eu me odeio por estar cercado de rostos em cada multidão que atravesso, e não conseguir parar de procurar o seu. E me odeio mais ainda quando eu a encontro, e percebo o quão sem reação você consegue me deixar. Sem saber para onde ir, ou o que dizer, ou como fugir de tudo que me assombra.

Eu me odeio por ter admitido que queria amar você. E me odeio por reconhecer que é só isso que restou. Espero, do fundo do meu coração, que você tenha jogado fora as flores. Se em algum momento eu signifiquei alguma coisa para você, esse é o mínimo que poderia fazer por mim. Não deixe que o gesto mais significativo que eu já fiz por alguém em muito, mas muito tempo, se torne um souvenir da última vez em que acreditei que as coisas poderiam dar certo para mim. Jogue fora do mesmo jeito que fez comigo.

O lado bom de não saber viver em meios termos, limbos ou purgatórios, é ser esperançoso diante do vazio que resta no meu coração. Porque eu ainda acredito em mim mesmo o bastante para sair por aí e tentar preencher esse vazio de novo.

Acho que já passei por todas as fases possíveis. Os dias atordoados, as noites em claro. As músicas que evitei ouvir por um tempo, e as atualizações sobre você que afastei dos meus olhos. A raiva por ter sido dispensado sem nunca realmente saber o motivo, e a tristeza que pesa na minha voz toda vez que repito o seu nome para algum amigo que não agüenta mais me ouvir falar disso. Dia desses até criei a coragem de passar por você sem fingir estar olhando para outra direção, porque é inevitável: nós ainda nos encontraremos por aí, por mais que eu queira me iludir do contrário. E agora que me atrevi a arriscar o impensável – admitir por escrito o que eu ainda sinto – talvez eu esteja pronto para dar o verdadeiro ponto final nisso.

Eu te desejo amor, mesmo que não possa ser o meu. Espero que fique bem, porque sei o quanto você se sente insegura e confusa sobre a vida. Quero que seja feliz, por mais tempo que os passatempos aos quais você se entrega são capazes de te distrair. E, enfim, desejo tudo isso a mim mesmo também. Talvez tenha sido melhor partir, aqui e agora, do que me decepcionar no futuro. E se por acaso esse tenha sido o motivo da sua desistência, eu o aceito.


Eu sou muito mais feliz quando acredito que o amanhã será melhor. Quem sabe, na próxima vez, a primavera dure. Obrigado por me mostrar que ainda sou capaz de cultivar flores.