terça-feira, 16 de janeiro de 2018

O ponto de restauração


Algum tempo atrás, meu computador foi infectado por um vírus. Os acessos que levaram a isso não vem ao caso agora... mas, sim, foi por um daqueles sites. Acontece. O tempo livre, a rotina cansativa... Quem nunca? Mas não é disso que quero falar, e provavelmente não é sobre isso que você veio ler.

O que quero dizer é o que houve depois do acesso, e do vírus se hospedar no meu disco rígido. Por um tempo os sintomas pareciam inofensivos: a máquina, que não é nova, passou a travar um pouco mais; os acessos a outros sites demoravam a carregar... Até que um dia o inevitável aconteceu: o vírus se alastrou pelos arquivos, corrompendo-os por onde passava, até bloquear totalmente o acesso à internet.

Depois de uma breve pesquisa, descobri que tratava-se de um tipo de “Ransomware”; traduzido livremente do inglês, é um tipo de vírus que sequestra seu computador e te bloqueia para fora dos acessos. Nenhum dos anti-vírus que eu conhecia foi capaz de identificá-lo, mesmo depois de inúmeras varreduras. E os fóruns da internet em que procurei ajuda, usando um notebook empresado, eram unânimes sobre a solução: formatar a máquina. O que implicaria na perda permanente dos meus arquivos que não existem em nenhum outro backup reserva.

Uma pessoa normal simplesmente levaria a máquina para um técnico. Ele faria o possível para recuperar o máximo que pudesse dos meus arquivos pessoais e formataria o computador em seguida, definitivamente livrando-o de qualquer vírus que estivesse instalado. É o que uma pessoa centrada, madura, com recursos e capacidade de solucionar problemas por meio deles, faria. Não haveria um minuto de dúvida sequer sobre isso.

O que eu fiz foi passar três dias obcecado por aprender sobre a remoção de ransomware, esperar pacientemente pelo download de diversos tipos de anti-vírus e por suas respectivas varreduras, até me desesperar por completo e quase perder todas as esperanças. Até meu pai brigar comigo, dizendo que levaria o computador para o conserto, independente do custo. Até eu amanhecer e anoitecer em frente ao notebook emprestado, estudando, pesquisando e aplicando diferentes técnicas para remover o vírus e recuperar o meu disco rígido. Totalmente rígido e determinado a realizar a manutenção que fosse necessária por contra própria, independente do tempo que levasse, só para provar a mim mesmo que não seria vítima das minhas escolhas ruins e acessos descuidados. E se um dia você já sentiu algum estresse diante de um computador lento, ou que não estivesse operando como deveria, multiplique a sensação por 72 horas.

Não havia nada de “Black Mirror” no que há armazenado aqui. Apenas textos e fotos antigas com valor sentimental, somados à incapacidade financeira de comprar um computador novo e, convenhamos, minha incorrigível teimosia diante de situações adversas que requerem ajuda. Ou eu resolvo esse problema sozinho, ou ateio fogo a essa máquina no terreno baldio na frente de casa. Não sou nada senão um exemplo de auto-suficiência e maturidade.

E depois de três dias, incontáveis anti-vírus, procedimentos de reinicialização, e a descoberta de algo revolucionário chamado “ponto de restauração” – que retorna seu disco rígido às condições em que ele se encontrava antes de ser afetado por qualquer ameaça – eu consegui. Meus acessos voltaram, minha máquina foi consertada, e meu orgulho permaneceu intacto. É como eu sempre digo: não é a fé que move montanhas, mas a teimosia. Deve ter sido preciso só um olhar incrédulo para aquele monte intransigente, para Maomé declarar: “Duvido que isso não sai do lugar!”.

***

Por que estou te contando isso? Porque se num futuro não tão distante, a realidade “Black Mirror” realmente tomar conta da humanidade, esses são alguns conceitos que eu acredito serem importantes para a nossa sobrevivência. E não, eu não estou exagerando.

Um dia você irá conhecer alguém. E irá permitir que ela acesse livremente o seu banco de dados, as senhas das suas inseguranças e todo o seu histórico de navegação. E sem que você perceba que está envolvido em uma rede insegura, ela irá te infectar. Sequestrando toda a segurança que você conhece, e te bloqueando para fora. Tornando-o incapaz de retomar seus procedimentos padrões que costumavam ser tão rotineiros, até que ela se hospedasse na sua casa e se instalasse no seu coração. E entre o desespero e a sensação de impotência, você irá pensar que não há mais nada que pode ser feito. Temendo que não há mais como viver, a não ser bloqueado de sentir que pode confiar ou amar alguém de novo.

É assim que irá parecer: ela se apossou da sua placa mãe – seu coração – e te fará sentir que é possível simplesmente substituí-la ou mandá-la para uma assistência técnica. Mas não. Ele é único, insubstituível e vital para a sua saúde. É a fonte de todos os acessos que você pode ter para o mundo lá fora, e é o que também te traz de volta. E eu penso muito nisso, não só porque meu computador nunca mais foi o mesmo – ainda operando aos travamentos e fadado a lentidões temporárias – mas porque eu também nunca mais serei.

Talvez você não seja a pessoa mais experiente, assim como eu, em se tratando de tecnologia ou relacionamentos. Mas entre tentativas e erros, suportes técnicos e emocionais, eu estou reencontrando aos poucos o meu ponto de restauração. Ainda não tenho toda a minha autoconfiança de volta, mas estou chegando perto. É um processo de reinicialização, e às vezes pode mesmo demorar um pouco, mas eu vou voltar. E eu sei que estarei perpetuamente quebrado, em partes, para operar 100% de novo. Mas o meu orgulho por saber que fiz sempre a coisa certa, por nós, permanece intacto.

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E o motivo pelo qual estou escrevendo isso é simples: haverão outros acessos mal impensados, ameaças indetectáveis e relacionamentos capazes de me sequestrar de novo. Este é o meu novo ponto de restauração. Um backup recomendável para que eu me lembre de que, independente do que acontecer, eu ficarei bem.

domingo, 14 de janeiro de 2018

Ainda louco depois de todos esses anos

Eu tenho minhas dúvidas quanto à vida que eu quero ter um dia. Não sobre o futuro que imaginei para mim, ou sobre a incorrigível vontade de dividi-lo com quem não pode mais ser chamada de “o amor da minha vida”. Digo isso, porque esvaziei o título de significado depois de desperdiçá-lo nas histórias erradas. Mas não é o que vem ao caso agora. O que me tira mesmo o sono vai além de estar à espera, à procura ou à deriva de uma pessoa, um lugar ou uma oportunidade. Se a vida que eu sempre quis ter se tornasse realidade amanhã, eu estaria pronto para vivê-la?

Bom, provavelmente não sem um Engov antes.

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É mais do que óbvia a minha insensatez perante o amor. Não porque não sei amar, ou demonstrar, ou preservar o mundo que construiríamos juntos. Mas por não saber enxergá-lo, ainda, diante dos meus olhos. E quando me pego tentando convencê-la de que pode dar certo, em vez de simplesmente sufocar a minha ansiedade e contemplar a naturalidade da nossa sintonia... Bom, é evidente que algo está errado. Geralmente, sou eu.

Sobre planos para o futuro, é preciso atribuir planejamento a eles. Depois de uma certa idade, testes do Buzzfeed sobre como seria o seu apartamento ideal não são o bastante para que você se sinta maduro, ou um jovem adulto em ascensão. Você precisa trabalhar, dia após dia, economizar, cotar, procurar, arquitetar e inspecionar para, somente então, atualizar seu Instagram com o novo papel de parede da sua sala de estar.

Um papel de parede que, convenhamos, será escolhido por ela, que sempre implica com o meu gosto para decoração. Com o tempo você aprende também que realmente “não é sobre ter todas as pessoas do mundo pra si”. É sobre ter vontade de oferecer todas as coisas do mundo a ela, e ser presenteado pela reciprocidade do gesto. Mesmo que a sensação de ser atropelado por um Trem Bala permaneça por um tempo se ela for embora.

Talvez isso não faça sentido para você, e perdoe-me se não estou preocupado com isso. Estou de ressaca, e não só do sábado à noite. Estou de ressaca há anos, sem me recuperar totalmente, com um zumbido constante na cabeça me atordoando a cada novo dia que chega e passa com uma sensação de que foi em vão. Por não ter sido contemplado com a vida que eu sempre sonhei, ou com a pessoa com quem sempre sonhei, ainda.

Sabe aquela sensação de desconstrução do mundo ao seu redor? Quando você acorda na sua cama pela manhã sem se lembrar de como foi parar lá, e mesmo assim agradece por estar a salvo, apesar da dor de cabeça? Assimile isso a um nível emocional, e seja bem vindo ao mundo infinitamente inconstante dos vinte e poucos anos. Onde nada mais é o que parece, e não há como deixar de sentir que você está atrasado para a vida que quer ter. Jovem demais para se preocupar com aposentadoria, e velho demais para descuidar do número de cervejas registradas na sua comanda. Inquieto, paranóico, e silenciosamente desesperado. Este era eu.

Por outro lado, essa versão de mim que habitava aqui – comprometido com a pessoa errada e fazendo planos para a cor dos armários de uma cozinha planejada – nunca realmente pareceu verossímil para mim. Não era exatamente um estado de felicidade, mas de quem estava disposto a chegar lá a todo custo. Clichês e decepções à parte, nunca irei me contentar com a noção de que a felicidade é algo que simplesmente chega até você. E com base nas conquistas que tive ao longo desses vinte e poucos anos, quando eu decidi ir atrás do que acreditava fazer parte da vida que queria ter, ainda parece uma crença mais razoável. Ainda faz sentido. Ainda faz com que eu me sinta melhor sobre mim e o mundo ao meu redor.

Talvez seja por isso que eu esteja tentando convencê-la de que vale a pena. Falando como alguém que recentemente descobriu que ainda está louco por amor, mesmo depois de todos esses anos, você deveria dar uma chance. Não se preocupe com o título de “amor da minha vida”, porque eu o desgastei ao longo do caminho. Você merece um nome melhor, e eu serei seu autor. Eu prometo. Ainda esperançoso. Ainda à procura. Ainda de ressaca. Este sim, sou eu.

À caminho.

domingo, 7 de janeiro de 2018

Os últimos primeiros dias


Ela era um amuleto. Levou alguns dias para que eu finalmente entendesse isso, mas faz sentido agora. Estamos recém sobrevivendo à primeira semana de 2018, e mesmo sabendo que fazer qualquer tipo de declaração agora não é aconselhável, é algo que eu preciso fazer. Não pelos outros, e definitivamente não para ela. Por mim. O calendário não para só porque você não está com coragem de levantar da cama. E felizmente para mim, essa coragem não desapareceu. Tampouco, a vontade de escrever a vida afora. Mas se vamos levar 2018 adiante, essas palavras precisam sair. E é algo que esteve em minha mente durante não só os últimos primeiros dias desse ano, mas há muito tempo: eu vou ficar bem.

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Uma das minhas professoras do curso de Jornalismo – talvez a mais brava de todas – sempre tentou frisar para nós a importância das palavras que usamos. São armas que podem ser usadas a favor ou contra nós; depende de como você as escolhe. E talvez por isso mesmo ela fosse tão brava: alguns alunos simplesmente não sabiam como trabalhar com a matéria prima da profissão que escolheram. Em vez disso, optam por abrir mão de conjugações, pontuações e acentuações, para que suas mensagens se tornem cada vez mais instantâneas. Mas o que é certo, bem feito e digno de um verdadeiro autor, não pode ser feito às pressas. Exige trabalho, disciplina e paciência. Habilidades que, confesso, sempre estiveram um pouco fora do meu alcance. Não sou um completo discípulo das mensagens instantâneas, mas também não sou o mestre soberano do meu silêncio. Falo muito sem pensar, e escrevo mais ainda sem revisar. Não são feitos dos quais me orgulho, mas vale refletir sobre quantos erros de ortografia existiram em qualquer magnum opus antes dessa chegar ao clamor público.

Em um exemplo paralelo, uma conversa com uma colega de trabalho dia desses também chamou minha atenção. Um papo leve, sobre viagens para o exterior e como, digamos, conhecer Dubai na verdade não é algo tão inalcançável assim. A palavra chave aqui é “planejamento” – e, por que não?, determinação o suficiente para navegar pelos sites de compras de passagens aéreas até encontrar uma promoção feita sob medida para o seu orçamento. Minha amiga disse que tiraram muito sarro dela depois que suas fotos na Espanha surgiram nas redes sociais. Brincavam com ela, chamando-a de rica e ostentadora. Pouco sabiam que ela havia planejado a viagem um ano antes, sob circunstâncias totalmente diferentes das que realmente permearam seu mochilão pela Europa.

Por que estou te contando isso? Porque são lembranças que me vieram à mente recentemente. Histórias curiosas que antecederam a história mais intensa que escrevi – com ela – até um ponto final ser determinado – por ela. E como é da minha natureza ser questionador ao ponto da obsessão, não vou negar que o ponto final pareceu mais uma interrogação para mim. Uma que me deixou suficientemente instigado a descobrir o que estaria por trás dela. Mas quando ela disse adeus, apenas com palavras, eu as tomei para mim e decidi que deveriam ser o bastante.

Pode ficar com o seu ponto final, os últimos primeiros dias de 2018 e tudo que veio antes deles também. Eu estou bem.

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O tempo que levou para que eu finalmente me sentisse confortável o bastante para escrever, foi proporcional ao que levei para repetir nossa música até que ela deixasse de ser nossa. Nesse meio tempo, estive focado em uma das minhas palavras favoritas: resiliência. A capacidade de lidar com situações adversas sem entrar em um completo surto psicológico. A habilidade de solucionar problemas e seguir adiante. Uma característica que, caso você siga a minha história há algum tempo, sabe que não é novidade para mim.

E foi graças à resiliência – e, convenhamos, à minha professora brava também – que eu acordei pensando sobre o que exatamente viria a ser um amuleto. Pelo que dizem, trata-se de um objeto capaz de trazer sorte ou proteção, envolvido em uma superstição que afasta más energias e potenciais desgraças. E foi aí que eu entendi: é exatamente o que ela representou. Ainda com base em matéria de amor, mas sobre prevenção. As lembranças dos nossos dias juntos agora fazem parte da minha história, até o fim dos meus dias. E são elas que irão me proteger de qualquer outro amor rápido, intenso e avassalador, recheado de interrogações que só virão à tona quando for tarde demais. Quando já estiver dizendo por aí que ama demais.

A essa altura eu já deveria saber que amor não é algo que surge da noite pro dia. Nem por Tinder ou por encontros acidentais em livrarias que levam a cafezinhos que levam à troca de telefones. Já tivemos essa conversa um milhão de vezes antes. O amor vem de você primeiro, e só depois te leva para onde acredita que irá ser feliz. E foi aí que a história da minha amiga me veio à mente, e toda a sua espera e planejamento para finalmente conseguir chegar ao destino que ela traçou para si. Não posso ser injusto ao ponto de dizer que foi uma completa bagunça, porque não foi. Eu planejei sim, mas não dei tempo suficiente para que os planos pudessem respirar. E só existe um resultado para viagens alucinantes instantâneas e desorganizadas: você se perde. Ou então, perde alguém.

A primeira boa notícia é que eu amo a mim mesmo e a minha história exatamente do jeito que são: inconsequentes às vezes, mas sempre dispostos a aprender com os erros para escrever o próximo capítulo. Os últimos primeiros dias de 2018 foram estranhos, e talvez tudo isso seja apenas mais uma maneira apressada de atribuir significado a algo para facilitar o fôlego que será necessário pela estrada adiante.

A segunda boa notícia é que a previsão do tempo é de sol. Feliz ano novo!

domingo, 26 de novembro de 2017

O que amor tem a ver com isso?

Seis e quinze da manhã, toca o despertador. Levanto com os gatos chorando como se não fossem alimentados há meses, quando na verdade faz só algumas horas. Entro na área de serviço para abastecer o potinho e me deparo com sérias evidências de que eles deveriam entrar em uma greve forçada de fome: um dos filhotes passou mal. Muito mal. Pelo banheiro inteiro da área de serviço. No chão, nas paredes... E deixou pegadas disso até a sala. Como se eu fosse esquecer o que aconteceu. Seis e trinta e cinco. Banheiro limpo, definições de trauma atualizadas com sucesso, e a dúvida pairando sobre tomar banho ou café antes de trocar de roupa e correr atrás do primeiro ônibus que surgir, após eu perder o das 6h45. Há quem consiga ser otimista diante de todas as situações adversas possíveis que possam surgir pelo caminho. Eu não sou uma dessas pessoas. Mesmo sendo pessimista por natureza, simplesmente não havia como negar: meu dia seria uma merda.

***

Algum tempo depois, eu fiquei pensando nas variáveis equivalentes a uma zona na área de serviço, que têm acontecido ao longo de 2017. As brigas com os amigos, os problemas de família, os transtornos no trabalho... O amor que não encontrei. E que procurei, e procurei... Até continuar sozinho. Magoado. Frustrado. E agora, graças ao episódio tragicômico mais recente, na merda.

Quando dias assim acontecem, é fácil distribuir mau humor, sarcasmo, e culpa a todos ao seu redor. É assim que surgem as brigas entre amigos, os problemas de família, os transtornos no trabalho... Mas, e o amor? O que amor tem a ver com isso?

É a pergunta que carrego comigo há anos.

O que acontece é simples. Todo dia, às 6h15 da manhã, eu me levanto pensando que talvez hoje possa ser o dia. O dia em que eu finalmente a encontre. Talvez seja por uma amiga de uma amiga minha. Ou então, por uma conhecida de alguém próxima da família. Pode até mesmo acontecer com uma colega de trabalho. Eu não sei. Ainda é cedo pra dizer o que esse dia irá trazer. E eu confesso que, por muito tempo, me senti envergonhado por esse tipo de raciocínio. E sou assombrado por colegas próximos que insistem em me dizer que amor não se procura; “ele simplesmente acontece”.

Os mesmos colegas que, por acaso, já encontraram alguém. Não seja essa pessoa. Não grite conselhos sobre como vencer a maratona para quem ainda está correndo. Cada um tem sua velocidade. Cada pessoa é diferente.

Quanto a mim, já faz algum tempo que me conheço bem. Sou alguém à procura de amor. Amor ridículo, inconveniente, consumidor, do tipo um-não-vive-sem-o-outro. E mesmo quando os dias são bons, o fato de eu ainda não tê-la encontrado faz de tudo... Bom, uma merda. E é por isso que eu não preciso da metáfora materializada perante mim, espalhada por todo o meu banheiro, às 6h15 da manhã. A vida já é difícil o bastante.

Foi uma semana difícil. Em um ano muito complicado que já poderia ter acabado há uns três meses, se dependesse de mim. Foi corrida, atarefada, cansativa. Com horários a cumprir, compromissos a comparecer, provas a serem feitas, ônibus a serem pegos e, como se tudo isso já não bastasse, merdas a serem limpas.

***

Mas durante a maratona diária da vida, algumas coisas pelas quais passei pelo caminho me vieram à mente. Algumas coisas que, por acaso, incluí em um recente trabalho de faculdade – entre tantos que precisavam ser entregues essa semana. Fiz o que precisava ser feito, do jeito que precisava ser feito, e dediquei tanto amor àquelas palavras quanto pude, na falta de alguém que estivesse disposta a recebê-lo.

Passei dias escrevendo, enquanto minha família cuidava das tarefas de casa por mim. Passei horários de almoço no trabalho escrevendo, enquanto meus colegas entendiam o motivo pelo qual não pude sair para comer com eles. Passei noites escrevendo, enquanto meus amigos pediam ajuda para que pudessem escrever o deles também. E quando chegou o dia de escrever as considerações finais, salvar o arquivo e clicar em “imprimir” para enfim entregá-lo à avaliação, o dia começou daquele jeito: com merda para tudo quanto é lado. Definitivamente não parecia ser um bom sinal, mas o dia precisava continuar.

Antes que eu te conte o que aconteceu no fim, preciso confessar outra coisa. Viver em busca de amor não é mesmo saudável, nem aconselhável. Ele realmente acontece, simples e leve, ao longo dos pequenos detalhes do dia a dia. É o que acontece quando sua irmã mais nova comemora junto com você, quando consegue escrever as quatro páginas de fundamentação teórica que havia jurado pra si mesmo que escreveria naquele dia. É o que surge quanto seus colegas de trabalho tiram um momento entre as brincadeiras e todo o serviço que precisa ser feito, para te dizer que você escreve muito bem. E é o que existe quando seus amigos pedem sua ajuda para que também possam fazer um trabalho bem feito, porque confiam em você para ensiná-los.


E como se não fosse o bastante, amor é o que está envolvido quando você chega em casa e encontra isso:


Amor é o que acontece ao seu redor enquanto você está ocupado demais, distraído, alegando que ele não existe. Eu não sabia disso ainda, porque estava concentrado em higienizar aquele banheiro, mas descobri quando recebi uma mensagem da minha professora Elogiando meu trabalho e sugerindo que, se eu tivesse vontade, poderíamos adaptá-lo para um artigo. Meu primeiro artigo publicado.

Merdas acontecem. E fica difícil ás vezes enxergar o amor à sua volta. Mas ele está logo ali: nos seus amigos, no seu trabalho, na sua família, e no empenho que você coloca dia após dia para manter tudo em ordem. Aquelas pessoas tinham razão, mas erraram em um pequeno detalhe. Não adianta viver a vida à procura de amor, se você não sabe como enxergá-lo. E no maior dos clichês – tão clichê quanto filhotes que bagunçam a casa durante a noite – eu percebi, ao fim de uma semana difícil e de um ano muito complicado que ainda não acabou, que o amor esteve aqui comigo o tempo todo. Compartilhado com você aí que está lendo isso.

Faça um favor a nós dois, por gentileza. Leve-o adiante.

domingo, 19 de novembro de 2017

O bêbado e o malabarista

Fui ali e voltei.

Esta é a melhor maneira de explicar por onde andei. Claro, você provavelmente chegou a me encontrar naquele mesmo bar perto da faculdade, ou então cruzamos olhares enquanto eu me servia de mais uma xícara de café em uma manhã qualquer no trabalho, ou quem sabe nós nem realmente chegamos perto de nos vermos. Não seria a primeira vez. Nem a última, por sinal.

Eu andei por aí, silencioso, porque não sabia mais o que dizer. Talvez eu nunca realmente soube. E não senti vontade de continuar preenchendo linhas em vão, ainda sem saber o que queria dizer. Ou então, não sabia para quem queria dizer. Foi aí que as coisas começaram a ficar claras.

Já faz alguns anos desde que isso começou. A maioria de vocês já conhece a história, mas para quem desceu do ônibus agora, o resumo da ópera é simples. Um dia eu saí de casa e passei a escrever sobre tudo e todos que encontrei por aí. Na esperança de que os registros me ajudassem a voltar caso a vida lá fora não cumprisse todas as promessas que fez. Mas, sobretudo, foi uma maneira de não me perder pelo caminho.

Bom, eu estive percorrendo este caminho pelos últimos oito anos. E por ele já se passaram três cidades, alguns apartamentos, momentos especiais (e outros nem tanto) em família, incontáveis relacionamentos (reais e imaginários), os dramas cotidianos que compõem a grade curricular de uma faculdade e meia, e as trilhas sonoras que tocavam nos meus fones de ouvido enquanto estive por aí. Andando, correndo, falando, rindo, brigando, amando, pedindo desculpas e tentando aprender a simplesmente abrir mão da bagagem que não precisa ser levada adiante. Vale ressaltar que os dois últimos aspectos da lista ainda são um trabalho em progresso. Assim como eu. Assim como você.

A questão agora não envolve por onde andei, quem encontrei, o que tudo isso me fez sentir, ou quais músicas foram inspiradas ou arruinadas pelo que houve. O que importa agora é isso: eu não sei mais o que quero dizer. E a principal consequência disso é evidente pra quem está acompanhando mais de perto: eu não sei mais para onde ir. E é nisso que estive pensando enquanto tornei meus registros aqui inacessíveis para quem estivesse interessado em ler. Coisa que, confesso, vai além de toda a minha compreensão.

Por que você está lendo isso?

Tudo bem; eu avisei que havia algo novo a ser lido. Mas o que te realmente te trouxe até aqui? Você queria saber como eu estava? Poderia ter me perguntado. Queria saber por quem estou sofrendo por amor? Faz diferença a essa altura, ou só queria saber se ainda era por você? Queria saber qual música ando dando replay ao ponto de encaixar sua melodia aqui? “Evidências”. É sempre “Evidências”.

***

Dia desses, eu estava andando por aí – porque às vezes parece que é só isso que eu faço mesmo; a pé, de ônibus, na rua, na chuva, na fazenda... – quando um malabarista de sinaleiro me parou. “Você tem um limão?”, ele perguntou. “Não, desculpe. Por que?”, eu disse, inexplicavelmente me engajando nesse diálogo infame e me desculpando por não dar a resposta que ele esperava. “Por que essa cara de azedo então?”, ele respondeu. E enquanto ele seguiu seu caminho, eu fiquei parado por alguns instantes, em dúvida sobre qual caminho eu mesmo deveria seguir agora: refletir sobre a cara de azedo que estava inconscientemente exibindo, ou sobre quais repercussões sociais eu enfrentaria caso puxasse briga com um malabarista de sinaleiro. Optei por seguir em frente, porque já estava atrasado para meu próximo compromisso, que provavelmente também envolveria diálogos sarcásticos desse tipo.

Vale ressaltar também que, pouco tempo depois, eu fui parar naquele mesmo bar perto da faculdade.

Eu não sei porque estava com cara de azedo. E o malabarista não era sequer o primeiro naquele dia a apontar isso para mim. Era uma sexta-feira, era quase happy hour, era o princípio de mais um fim de semana que poderia incluir desde a escrita de trabalhos acadêmicos atrasados até uma soneca de dois dias. Eram todas as possibilidades do mundo, e eu estava com cara de azedo. Talvez porque não estivesse escrevendo há algum tempo. Talvez por algum perfume que me lembrou de uma decepção amorosa. Talvez porque eu sabia que alguns boletos só seriam pagos em atraso no próximo mês. Ou talvez eu só estivesse cansado de tudo: da semana, das pessoas, dos horários dos ônibus, dos trabalhos acadêmicos atrasados, e por lembrar que não havia limões em casa para fazer uma caipirinha.

E diante da falta de escrever, de um amor, de dinheiro para quitar as contas e de limões para um drink, pensei na vida que estava teoricamente em andamento, mas aparentemente sem chegar a lugar algum. A não ser com faltas e cara de azedo para mostrar.

***

Dias depois, em uma manhã preguiçosa de domingo – muito parecida com a manhã que inspirou o último texto que deixei aqui – passei horas na cama pensando sobre porque não havia ninguém deitada ao meu lado. Será que depois de anos de relacionamentos, haveria ainda um motivo para explicar porque nenhuma delas estava ali? Infelizmente, eu não soube dizer. Felizmente, a vontade de escrever sobre mim, e para mim, me motivou a colocar a cafeteira e minhas palavras para funcionarem.

Não sei quanto a você, que inexplicavelmente ainda está aí, mas eu senti a minha falta.

Anos atrás, quando decidi que iria escrever sobre tudo e todos que encontrasse por aí, foi a primeira decisão sensata que senti que havia feito por mim. Foi o que senti vontade de fazer para viver. Para trabalhar, para amar, para seguir adiante quanto tudo mais falhasse. Quanto tudo mais faltasse. Claro que eu me divirto quando escrevia sobre você e nossa vida que poderia ter sido, mas não foi. Faz com que eu me sinta melhor sobre você não estar aqui agora, e me ajuda a ter ideias para o próximo capítulo da minha vida que ainda será escrito. E essa motivação, essa superação, essa inspiração toda, é bonita...

Talvez seja por isso que eu ame escrever. Talvez seja por isso que você ame ler. Talvez seja por isso que a gente insista em adorar o amanhã. Eu não sei. Por um tempo eu não tive as respostas, e não sei se as tenho agora. Mas a falta de vontade de perguntar quase me matou. No mínimo, me deixou com cara de azedo. Pode não fazer sentido, pode ser baseado em fatos irreais, e pode ou não sofrer com a influência do álcool, mas minhas palavras são a melhor coisa do mundo. Meu mundo, ao menos. Se forem do seu também, vamos conversar. Mas vamos deixar algo claro, isto não é sobre você. Nunca será sobre você. Isto é sobre mim, e para mim. Talvez nada disso irá mudar o mundo lá fora, mas faz um bem imensurável a mim aqui dentro.

Eu ainda não sei para onde estou indo, mas antes recuperar o fôlego para seguir adiante do que desistir até mesmo de olhar para trás e questionar a viagem inteira. Talvez eu não precise das respostas. Talvez eu só precise continuar me movendo.

Fui ali e voltei.