terça-feira, 20 de fevereiro de 2018

Bem vindo ao fim


Eu sinto muito. Permita-me antecipar o questionamento e confirmar que sim; isto é para você, que está lendo agora e pensando que o motivo pelo qual não nos falamos mais é porque estávamos ocupados demais nos engasgando com as coisas que não conseguimos dizer um ao outro. Coisas como “eu estava errado” e “me desculpe”. Caso esteja sentindo a minha falta, e tudo o que você precisava ouvir de mim era o consenso de que esta distância também é culpa minha, sinta-se à vontade.

Porque a verdade é que eu sou mesmo ridiculamente difícil – com ênfase tanto no ridículo quanto na teimosia. E convenhamos, você há de concordar que também é assim. Senão o que mais explicaria as fotos deletadas, as conversas abandonadas pela metade, e o eco que passou a preencher a presença que costumávamos ter na vida do outro? Eu posso ser ruim, meu bem – muito ruim – mas você também não é fácil. E talvez, quem sabe, seja melhor assim. Cada um do seu lado, vivendo a sua vida, tentando não perder tudo o que aprendemos um com o outro. Por mais que no fundo a gente saiba que não seríamos o que somos hoje, nem teríamos tudo o que conquistamos, se por um breve momento da história nós não tivéssemos vivido juntos. Eu não me arrependo. Mas também não quero replay.

***

Eu sempre tive o péssimo hábito de enxergar a vida como uma grande competição. E talvez essa concepção não esteja totalmente errada, pois o que mais justificaria os sentimentos de vitória e perda que sempre oscilam em mim? Mas no nosso caso, enquanto estávamos juntos, parecia que não havia nada lá fora que fosse páreo para nós. Éramos imbatíveis, invencíveis, inigualáveis... até deixarmos de ser. Até nos voltarmos um contra o outro, e que vencesse o melhor. Cegos pela raiva, inconformados com a injustiça, e alucinados pelo poder. Mas... Pelo que estávamos brigando? O que estava em disputa? E até agora eu me pergunto: quem ganhou?

Você era como eu; incapaz de admitir derrota. Mesmo quando não estava exatamente claro o que significava ganhar ou perder em um relacionamento. Em algum momento – aliás, por vários momentos – parecia que estar certo sobre você era o que mais importava. Até mais do que nós. Eis o meu egoísmo, a par com a sua intransigência, lentamente trabalhando para que os momentos mais felizes do mundo que tivemos juntos, passassem a dar um gosto amargo na boca. Eu me importava com você. Queria dividir minha vida com você. Queria ser seu, e que todos soubessem que você era minha. Como foi que nós chegamos aqui? Eu não suporto mais o som da sua voz, ou a dissimulação nos seus olhos. Cheios de prepotência, arrogância e desdém. Agindo com superioridade, só esperando que um dia eu me desse conta de que na verdade era eu quem estava errado. E que eu fosse capaz um dia de amadurecer o bastante para pedir o seu perdão.

Ah, meu bem... Prefiro cortar a minha língua fora, a profanar minhas palavras com tal confissão. E caso todo o nosso amor vá parar nas profundezas do inferno, que seja. Nos vemos lá.

***

Ao menos, era assim que eu me sentia. Com meus dias acinzentados e noites envenenadas por rancor e vaidade. Olheiras e cansaço intermináveis, demonstrando o quanto as minhas forças para lutar estavam chegando ao fim. Até que enfim, o impensável aconteceu. O dia do meu juízo final finalmente chegou. Eu não aguento mais... Você estava certa. Era isto que você queria ouvir?

Eu não me importo mais. Não com isso. Eu quero ser feliz. Ou pelo menos, quero tentar ser menos miserável. Talvez seja melhor admitir derrotas, erros, falhas e desvios de percurso, do que lutar tanto para permanecer estável ou indiferente a algo que costumava significar tanto para mim. Eu amava você. Você ainda consegue me ouvir? Eu amava você! E amei até agora. Até não sobrar mais nada. Bem vinda ao fim.

O oposto de amor não é o ódio; é a indiferença. Porque o ódio ainda mexe conosco. Nos mostra o quanto algo ainda nos importamos, e que mesmo nos nossos piores momentos ainda existe uma chance de voltarmos ao jeito que éramos antes. Inocentes, gentis, compreensivos. Felizes. Mas só enquanto eu ainda permitir que você me mova. E, por Deus, como você me movia! Isto é, até me mover para longe. Tão longe, por sinal, que eu não me lembro mais daquele seu olhar. Ou do tom da sua voz. Ou dos motivos que me levaram para o seu lado em primeiro lugar. Eu não me lembro... E eu não me importo.

Você venceu; seja lá o que isto signifique. Valeu a pena?


*Escrito em 4 de setembro de 2016.

domingo, 18 de fevereiro de 2018

Razões para acreditar


Coisas ruins irão acontecer. Problemas surgem, pessoas traem, oportunidades escapam. Não tem como fugir disso: viver significa estar em constante ameaça de ser jogado para fora da estrada que decide percorrer. E quando isso acontecer, você pode se deixar levar ou voltar ao seu caminho. Pode reclamar, chorar, beber, negar, evitar falar sobre o assunto, pular de bar em bar só para evitar voltar para um apartamento vazio... Ou pode assumir o controle do vazio, e o preencher com a próxima etapa da sua vida. Mesmo que não saiba qual será ainda.

Os psicólogos chamam isso de aceitação. O senso comum encara como esperança. Pessoas normais que seguem dia após dia sem se importar em procurar fazer algo diferente entre uma rotina repetida e outra, sequer pensam nisso. E quanto a mim... Talvez eu só finalmente tenha descoberto a real diferença entre ser pessimista e ser realista. O segredo está em não esperar pelo ruim constantemente. Apenas admita que a margem de erro existe. Agora, se errar fosse mesmo algo tão apocalíptico, não haveria nada no mundo. Ninguém sairia de casa a não ser para comprar mais vinho, mas aí não existiram motivos para beber vinho. A vida é feita de ciclos, no final das contas.

Algo ruim aconteceu em 2018. Não foi nem a primeira ocorrência, porque 2017 deixou uma conta aberta, e nem será a última porque ainda insisto em sair de casa à procura de novos problemas. Agora, passado algum tempo desde o último B.O, algo aconteceu comigo enquanto caminhava pela rua ao som das minhas trilhas sonoras, a caminho do mercado para comprar mais vinho: eu percebi que estava de volta. Os textos, os drinks, as risadas em bares, as conversas até altas horas da madrugada, os sábados à noite reservados para receitas e maratonas de filmes, os comentários sarcásticos em hora errada. Até a maior de todas as ironias – morar sozinho de novo – aconteceu.

Pela primeira vez em muito tempo, me senti como eu mesmo de novo. E o que aconteceu, aconteceu. Passou. Morreu. Vamos em frente, rumo ao próximo capítulo.

Aceitação não é um processo linear. Não existem padrões ou regras para te guiar enquanto passa pelas outras fases – negação, raiva, barganha, depressão. Você simplesmente reconfirma os termos de uso da vida ao levantar da cama de manhã, e sai de casa esperando pelo melhor. Você anda, corre, trabalha, brinca, ri, chora, passa calor, perde um ônibus e espera 15 minutos pelo próximo, passa no mercado e percebe que amanhã terá que ir de novo porque se esqueceu do creme de leite, chega em casa e precisa largar as compras para ir colocar mais ração para a gata que já está desesperada com o potinho vazio, finalmente vai ao banheiro, prepara algo pra comer e engole rápido porque precisa sair de novo para ir à faculdade... E quando volta para casa à noite, pensa em mais um longo dia que passou e percebe que nem se lembrou de sofrer por aquela pessoa. O que era de se esperar, já que não faz mais parte do seu dia, da sua rotina... A vida é feita de ciclos, e esse em particular acabou.

As razões para acreditar que pode dar certo com outra pessoa surgem no exato momento em que você enfim para de se preocupar com isso. É uma lição que vamos reaprendendo, relacionamento após relacionamento, até que alguém apareça para ficar. Alguém que aceite suas manias, suas infantilidades, sua noção falha de que canta bem no chuveiro, suas frescuras para comer, sua gata brava de estimação, seu jeito grosso, sua teimosia, seu egoísmo, suas mudanças de humor, sua saudade de casa, e seus traumas herdados de relacionamentos passados. Alguém que estenda a mão e caminhe contigo para onde quer que inventem ir, desde que sigam juntos.

Coisas ruins irão acontecer. E quando acontecerem, você irá descobrir o melhor das pessoas que permanecem do seu lado, durante o seu pior. E quando menos se der conta, irá reencontrar o melhor de você também. Nós nunca realmente perdemos nossas razões para acreditar; só nos esquecemos delas às vezes. Bom, eu me lembrei. E com isso, eu voltei. Já era tempo; estava com saudade de mim.

Agora só falta você, amor.

quarta-feira, 14 de fevereiro de 2018

O estado de sublimação

Sexo é o meu esporte favorito. Ou então, tornou-se o meu esporte favorito. Desde o primeiro beijo que inaugura as preliminares, até as mãos que descem pela cintura e ousam passear pela coxa. As palavras sussurradas ao ouvido, enquanto os corpos lentamente entrelaçam-se. O calor que aumenta com a proximidade – com a intimidade. A respiração ofegante, o pulso acelerado. O gosto da boca. O cheiro da pele. O toque do outro. O mundo de sensações que vem à tona no espaço entre nós, cada vez menor. A intensidade do olhar, a pegada no quadril, a mão que desliza até o seu ponto mais vulnerável. A pressão, a fricção, o êxtase...

Eu costumava pensar que não existia sexo sem amor. Aí eu cresci e descobri que só não queria acreditar que poderia existir. Porque pensava que sexo deveria ser consequência do amor, não um ato paralelo a ele. A verdade é que não existem regras, limites, pudores ou fetiches que estejam fora de cogitação.

A única coisa que sexo deve ser é bom.

Desde que o impensável aconteceu, sinto falta de intimidade. De ter outro corpo com quem pudesse contar, e não apenas agarrar. Mas os temos mudaram, as mãos dadas no shopping se desfizeram, e existem atos de intimidade que me intimidam muito mais do que passar a madrugada acordado, entre roupas jogadas pelo chão do quarto, ao som de suspiros fundos.

É mais fácil abrir a porta do meu quarto para alguém, do que o meu coração de novo. E compartilhar essa dificuldade é o maior ato de intimidade que eu poderia dar conta hoje. Suspeito ainda que seja mais saudável do que se estivesse entre as pernas de alguém.

O desenvolvimento psicosexual de qualquer pessoa tem início na infância, segundo teorias psicanalíticas com as quais não sou particularmente a favor. No entanto, não pude deixar de pensar sobre meus comportamentos mais recentes – resultantes de um determinado trauma – como uma forma de voltar a me valorizar. Era meu novo mecanismo de defesa, junto à ironia e o sarcasmo, trabalhando para proteger o meu ego. E como não poderia deixar de ser da natureza Freudiana, tudo isso eventualmente teria a ver com sexo.

Mecanismos de defesa são maneiras inconscientes de proteção do indivíduo, por meio de ações que reduzam situações ameaçadoras ao seu ego. Podem não passar de pequenas neuroses, ou evoluírem até grandes patologias. A mais comum, desde o desenvolvimento pré-adolescente e, ao meu ver, perpetuado por toda a existência, é a sublimação. O deslocamento da pulsão sexual para atividades socialmente aceitáveis, como a prática de esportes, desenvolvimento cognitivo, excesso de trabalho, aumento do consumo de álcool, entre outros comportamentos populares expressos em público.

O que não é expresso pela mente, é refletido pelo corpo. Não há quem não pense em sexo, mas não há quem consiga viver disso. Até atores pornôs eventualmente precisam dar uma pausa para descontrair – e não me venha com aquela história de que “quem faz o que gosta não precisa trabalhar nunca.” Trabalho é trabalho, independente do tipo de orgasmo que ele te provoca. No caso da sublimação, cada um tem seu jeito de expressar a pulsão acumulada pelo corpo. Sair para festas, beber além do ponto, falar demais, se jogar numa rotina de exercícios – sempre há um excesso para cada falta que existe em nossas vidas. Segundo Freud, não eu.

Comigo tem sido pior. Ao contrário da via de regra de Freud, onde todos os caminhos levam a sexo, eu – pra variar – ando na contramão. Sexo tem sido o meu jeito de evitar, a todo custo, intimidade. Porque da última vez que alguém chegou perto o bastante de mim, bom... Eu ainda não sei como terminar essa frase.

Alguns anos atrás, quando sexo era só um desejo distante da minha realidade, fui entregue aos clichês da pré-adolescência e passei a praticar caminhadas. Mas quando a velocidade não estava sincronizada à minha pulsão, as caminhadas tornaram-se corridas. E quando as distâncias também deixavam de suprir minhas necessidades, uma volta ao redor do lago da cidade não era mais o bastante. Duas já aliviavam um pouco. Três pareciam ser o bastante. Freud pode ser um pervertido, mas contra satisfações pessoais não há argumentos.

É por isso que decidi retomar meu antigo passatempo – para fortalecer meu ego e, por que não? – minha barriga. Eventualmente o que te assombra irá te alcançar, e só existem duas alternativas para isso: você pode continuar em negação, ou assumir o que te aflige e ultrapassá-lo. Vou literalmente correr dos meus problemas, nem que seja a última coisa que eu faça.

Sexo é saúde, é bom, é vida, mas nunca realmente foi meu foco. Meu sonho sempre foi – e em parte ainda é – preparar o café para levar até ela na cama, na manhã seguinte. E é atrás disso que eu vou correr.

terça-feira, 13 de fevereiro de 2018

A técnica da linha

De acordo com o Google, existem diversas maneiras para retirar uma aliança presa no dedo. Em casos extremos envolvendo inchaço ou corte parcial da circulação, é necessário o uso de equipamentos como um alicate, um tesourão corta-a-frio ou uma micro-retifica, que é uma espécie de serra elétrica.  Mas em se tratando de ocorrências mais amenas, a maioria dos tutoriais recomendados pelo corpo de bombeiros sugere que se tente primeiro a técnica da linha: basta levantar um pouco do anel preso até que uma linha passe por ele, e usar a mesma para puxar a peça até a extremidade do dedo, desprendendo-o aos poucos conforme é empurrado para fora. É avaliado por especialistas como o procedimento menos agressivo e invasivo, capaz de prevenir a segurança do usuário e danos acidentais à peça.

No entanto, não há nenhum tutorial disponível no Google sobre como retirar do coração a pessoa para quem você deu a aliança. Sim, eu procurei.

***

Ser traído sempre foi o meu maior medo. Pra quem é acostumado a se aventurar no amor como eu – quase como quem pratica vôos no trapézio sem uma rede de proteção – não há como negar a possibilidade de que, eventualmente, você pode cair e quebrar a cara. Arriscando, inclusive, nunca mais ser capaz de voar. Mas uma traição não é algo tão fugaz que pode ser traduzido em um simples texto, ou por meio de uma simples metáfora. É algo que mexe com você – quem você é, o que procura na vida, e aonde ainda espera chegar. Se é que ainda espera alguma coisa.

Ser traído é como ficar paralisado. Você acorda de manhã e reencontra o lado esquerdo da cama, vazio. E então passa alguns minutos ali, revivendo toda a história que levou àquele lado esquerdo vazio da cama. E considera se vale mesmo a pena sair dali. Até respirar fundo, sentar-se na beirada por alguns instantes, e só então levantar-se. Para onde vai, ou o que vai fazer primeiro, você não sabe. Só sabe que não está realmente paralisado, e que a vida continua. Com ou sem ela.

Meu medo sempre contemplou as duas alternativas: a incapacidade de seguir em frente, e a determinação para levantar da cama de novo mesmo sem saber o motivo. Não havia mais motivo. Nós tínhamos tudo. E pela primeira vez na vida, era mesmo o bastante para mim. Mas não para ela. Ela queria mais do que tudo. E no final das contas, é uma lógica sobre a qual eu não posso questionar. Pra quem esteve acostumado a seguir em frente, à procura do inalcançável, deixando corações partidos para trás, eu entendo. Agora, ser aquele deixado para trás... Ainda é novo. Ainda dói. E sou relembrado disso todas as manhãs em que acordo sozinho.

A única pessoa com todas as respostas que procuro, é a única para quem eu sequer faria uma pergunta de novo. E não estou me referindo a ela, mas a quem eu pensava que ela era. A mulher por quem eu me apaixonei. A mulher com quem eu queria passar o resto da minha vida. A mulher que fez amizade com a minha mãe, que conquistou meus amigos, que ocupava parte do meu guarda-roupa e que controlava a temperatura do ar condicionado no quarto. A mulher que tinha sonhos distantes, e que ao mesmo tempo fez com que os meus se tornassem realidade. Tudo o que eu queria nessa vida, encontrei nela. Em nós. O mundo fazia sentido. Felicidade era rotina. Amar não soava impossível.

E então, com uma mensagem de texto, ela desapareceu. Quando me dei conta, seus pertences não estavam mais aqui. Seu perfume dissipou no ar. A cama dobrou de tamanho, mas não sem antes me esvaziar por completo. E a única vez que a vi depois disso, ela estava nos braços de outro. Sorrindo. Foi o bastante para que nunca mais quisesse vê-la.

Sou grato, ao menos, por ter sido finalmente apresentado aos meus limites.

Ser traído muda quem você é. Mexe com seu jeito de encarar as coisas. Tira o significado de tudo que já fizeram juntos, e tudo que pensa em fazer sozinho agora. Ou com outra pessoa. Ser traído te quebra como um copo que cai ao chão e se transforma em um milhão de cacos de vidro. E quanto mais você tenta seguir em frente, mais você se corta nos pedaços escondidos pelo caminho. Estou sangrando de saudade – não dela, mas de quem eu costumava ser. Alguém que acreditava que amanhã seria melhor. Alguém que amava sem medo. Alguém que se jogava no desconhecido, tentando voar, sem olhar para baixo.

Eu caí. Eu quebrei. Eu morri. E mesmo assim, eu levantei da cama.

***

Eu ainda tenho a aliança. Está guardada no mesmo lugar em que a atirei, no dia em que o mundo acabou – no fundo da minha mochila. Ironia ou não, mesmo quando estava tentando seguir em frente, estive carregando-a comigo esse tempo todo. Às vezes um coração partido vai além das metáforas e mágoas que você tenta encobrir numa terça-feira qualquer, quando acorda com o som da música que costumava ser de vocês, tocando em algum lugar lá fora. Quebrar uma aliança parece mesmo ser algo simples, já que existem tutoriais para isso. Mas eu não penso em quebrá-la, até porque já existem coisas demais quebradas ao meu redor.

Eu sei o que você está pensando – “onde já se viu compartilhar esse tipo de coisa?” Bom, todos os outros procedimentos falharam: fingir que está tudo bem, me afundar em trabalho, colocar a casa em ordem, tentar sair com alguém nova, beber até acreditar que canto bem, viajar de bar em bar para evitar parar em casa e ser obrigado a pensar – ou pior: sentir.

Essa é a minha versão da técnica da linha – ou melhor, linhas. Muitas linhas. Quantas forem necessárias até que eu escreva, desabafe e abra mão de tudo que está cortando a minha circulação. E farei isso até finalmente me desprender desse trauma e empurrá-lo para fora da minha vida. Ao contrário do que dizem os especialistas – e amigos próximos – esse é o procedimento mais invasivo e agressivo de todos. Mas a peça que vos escreve já sofreu danos demais.

Tempos desesperados requerem textos desesperados. Ainda segundo o Google, uma aliança de aço cirúrgico, com aproximadamente 0,6 cm de largura e 2,2 mm de espessura, leva em média dez anos para se decompor naturalmente.

Eu vou esperar...

sábado, 3 de fevereiro de 2018

O legado das mãos dadas no shopping


Eu quero acreditar que funciona. Casamento, parcerias, envolvimento, intimidade. Mesmo tendo em mente que absolutamente todos os relacionamentos da minha vida são disfuncionais, de alguma maneira. E que não é preciso pensar muito para chegar à conclusão de que eu sou o denominador em comum entre eles. Alguns eu desequilibrei pela falta, outros pelo excesso. Há ainda os que nunca conheceram a luz do dia por insegurança de ambas as partes. Por pensar demais em toda a estrada adiante de nós, e nos assustarmos em tentar dar sequer o primeiro passo. Acontece. Quando tudo desmorona e todas me abandonam, independente do que ocasionou o deslocamento, eu ainda continuo aqui. Perdidamente apaixonado pela ideia de que, apesar de todos os pesares, é algo que funciona.

Agora, não me peça para argumentar e tentar convencê-la disso. É uma escolha. Algo que se dispõe perante mim a cada novo desastre que vem, vê e me vence. Eu estou cansado. Quebrado. Ridiculamente perdido. Mas quero acreditar que funciona, e é o suficiente para mim. Se não for o bastante para você, fique longe de mim. Estou recuperando minhas razões para acreditar e preciso de fidelidade, não pagãos. Amor existe.

***

Era um domingo. Acordamos cedo, mas levantamos tarde. Passamos um bom tempo na cama, envolvidos nos lençóis, na preguiça, e em nós mesmos. Na vida que estávamos começando a construir juntos. Até o dia anterior, já havíamos passado por todos os estágios que levam à tão sonhada estabilidade emocional em um relacionamento – as definições de status, as reuniões em família, as declarações de amor. As implicâncias sobre com quem andar e para onde ir, as descobertas sobre quais temperos eu poderia usar ou não na comida, e os costumes aos quais ela se dispôs a lidar para ficar comigo. As mudanças de humor dela e, convenhamos, as minhas também. E por fim, as mãos dadas no shopping.

Caso esta não seja a sua primeira vez no meu mundo, você sabe do que estou falando. Pra quem chegou agora, permita-me explicar mais uma vez. Até porque, tem gente que não entendeu na primeira vez, interpretou errado e pegou ódio de mim pelo resto da vida. Faz parte. É por isso, crianças, que interpretação de texto é importante. Dominar figuras de linguagem também. Se souber o que quer dizer e como manobrar as palavras para fugir dos clichês, meus parabéns. Você venceu na vida. Literariamente, ao menos.

É uma metáfora. As mãos dadas representam o compromisso, o relacionamento, a aliança. O shopping é a sociedade. Você pode ter seus encontros aqui e ali – tomar um café naquele lugar bacana no centro da cidade, ou simplesmente se deixar levar no escuro da balada – mas a partir do momento em que estão andando de mãos dadas no shopping, não adianta mais disfarçar as evidências. É o atestado de mudança do estado civil, embora esse ainda não seja válido num tribunal. A mensagem é simples – entre todas as pessoas, os esquemas, os “remembers” e as ligações para ex às quatro da manhã, você a escolheu. Aquela pessoa é a sua pessoa agora. Para amar e cuidar, honrar e respeitar, enquanto discutem sobre qual é o conjunto de roupa de cama mais bonito da loja de departamentos, até que a validação do estacionamento os separe. É a parte mais clichê, cansativa e cro-magnon de um relacionamento. E era o meu sonho.

A tragédia embutida em qualquer sonho, no entanto, está sempre na sua realização. E eu tenho todo o direito de criar minhas próprias teorias sobre o amor, o mundo e as pessoas, com base nas minhas experiências.

Aquele foi o último domingo que passamos juntos. Tomamos café com a família, almoçamos juntos, passamos a tarde na cama... Tudo bem caseiro, cômodo, crente. Até chegar a hora dela voltar para casa. Algo que aparentemente seria só mais um deslocamento, se não fosse pelo fato de que era ano novo. Trinta e um de dezembro de 2017 foi o fim de muito mais que um ano péssimo para a economia e a política da nação. Também foi o meu.

Ela realizou todos os meus sonhos, e os virou contra mim em questão de suspiros. E pra quem já era desajustado, disfuncional e destrutivo, o impacto veio em estágios. Depressão, raiva, barganha, depressão... E por enquanto é só, pessoal.

Não é que eu não tenha aceitado o fim. Só não soube exatamente como recomeçar ainda. Quando algo no qual você acreditou por anos deixa de ter significado, o que resta?

Eu te odeio. Não pelo fim, a traição, ou as mentiras encobertas. Odeio o sonho que você roubou de mim. Porque eu não me vejo andando de mãos dadas no shopping com alguém de novo tão cedo. Essa é a verdade que esteve borbulhando pelos últimos 30 dias. Eu não quero um relacionamento. Não estou forte o bastante ainda.

E ao mesmo tempo, eu preciso acreditar que funciona. É o que me faz sobreviver à vida quando ela se sobrepõe em meus ideais, e é o que me leva a acreditar em outra pessoa de novo, mas não estou lá ainda. Pelo contrário: estou perdido, acima do peso e alcoolizado. Só não tenho certeza de que não sejam mesmo sinônimos de ser solteiro.

***

Por anos eu repasso essa teoria aos amigos nas mesas de bar. Mesmo que não saibam, tudo o que procuram é alguém com quem andar de mãos dadas no shopping. E de lá, seguem adiante pelo resto da vida. É o que nos tira da cama de manhã, nos encoraja a dar uma chance a alguém novo, e nos faz beber e reinstalar o Tinder todas as vezes. O amor que pode vir a existir.

Risadas e interpretações erradas à parte, tudo o que queria hoje era conseguir acreditar. Relacionamentos vem e vão, mas o legado das mãos dadas no shopping é pra sempre.