domingo, 15 de outubro de 2017

Deixe ela ir


Eu sinceramente esperava que não chegasse a esse ponto, mas às vezes acontece. Não importa quantas vezes ao dia você pense nela. Ou quantas músicas parecem ter sido feitas só para vocês. Ou as noites passadas em claro, porque não havia o que fazer a não ser esperar o sol nascer para, quem sabe, encontrá-la de novo por aí. E a verdade é que talvez você a encontre mesmo; só não será mais como antes. Dessa vez vocês serão estranhos. Você não tem mais nada a ver com ela. E ela... Bom...

Ela não é sua.

***

Aos vinte e poucos anos, eu confesso que acreditava que minha vida estaria mais organizada do que isso. Talvez não financeiramente... E ao julgar pelas minhas opções profissionais, talvez nunca financeiramente. E quem sabe não precisaria envolver um apartamento só meu de novo. Com o tempo você aprende que fazer parte de uma família significa que você jamais estará sozinho... Lide com isso. Mas, emocionalmente, ah... Eis aqui a eterna variável da equação. E por “variável”, entenda como a série de primeiros encontros, segundas intenções e terceiras pessoas às quais me refiro em textos como esse, quando as coisas entre nós não dão certo.

Por que não deram certo? Era só isso que eu queria saber. Você pode não se importar mais comigo, ou com o que faço ou deixo de fazer por aí. Pode até não dar a mínima para quem se arrisca a me dar uma chance, mesmo em meio à desconstrução que você deixou para trás. Mas seria injusto da minha parte dizer que é tudo culpa sua – claro que não é. Relacionamentos começam e terminam do mesmo jeito: com um consenso entre duas pessoas. Mesmo que o consenso seja obrigatório, no fim.

Eu não posso obrigá-la a ficar comigo. E não posso me obrigar a fingir que você não existe. Afinal, você ainda está por aí; freqüentando os mesmos bares, passando pelas mesmas ruas, falando com as mesmas pessoas que eu. Mas há uma coisa que você não pode me impedir de fazer: sentir a sua falta. E é algo que eu decidi que faria, por mim, até que não sobre mais nada para sentir. Você foi embora, mas não desapareceu.

Nós tínhamos tudo. O companheirismo, a química, as promessas... E é possível que a minha frustração esteja mesmo na sua partida, da noite pro dia, que deixou interrogações abertas até agora. Foi algo que eu fiz? Algo que não fiz? Ou eu simplesmente não era “o cara” que você procurava?  Eu não sei. E se depender de você, eu nunca saberei.

Houve um momento em que você faria qualquer coisa por mim. Contava os minutos para me encontrar. Confessava que nunca havia encontrado alguém como eu. E se entregou sem medo ou culpa alguma, porque eu estava lá para te abraçar. E foi bom. Muito bom. Eterno, inclusive, enquanto durou. Até que em algum momento similar àqueles, acabou para você. E eu preciso aprender a lidar com isso de uma vez por todas. Precisa acabar para mim também.

Eu quero as mãos dadas no shopping. As mensagens de “bom dia” e “boa noite”. Os lembretes do que preciso comprar no mercado a caminho de casa. Os pitacos enquanto escolho qual vinho iremos beber. As implicâncias com o meu jeito grosso de falar às vezes. As alfinetadas quando você percebe que não estou falando direito com a minha mãe ao telefone. Os jantares à luz de velas. Os almoços de domingo com a sua família. As conversas sussurradas em corredores tumultuados. As pernas entrelaçadas debaixo do edredom. O meu nome em sua voz ao pé do ouvido. O amor... Eu quero o amor. E queria que simbolizasse você.

***

Eu sinceramente esperava que não chegasse a esse ponto, mas aconteceu. Acabou. Eu não quero mais você. Só o que restam são os seus defeitos, suas desavenças, suas inconstâncias, suas más companhias, suas manias irritantes, e o símbolo de vários outros sentimentos que nada tem a ver com amor. É triste, mas aqui estamos... Bom, ao menos, eu estou. Você nem chegará perto desse texto. Nem ninguém próximo de você. Estou sozinho, emoldurando o que restou de nós para deixar guardado aqui. Como lembrete de que, quando foi bom, foi incrível. Você gostava assim. Mas quando o amor acaba, as lembranças se desprendem, os beijos parecem nunca ter existido, as promessas são esquecidas, e tudo que um dia houve de bom entre vocês enfim fica para trás, só resta uma coisa a fazer.

Deixe ela ir.

domingo, 8 de outubro de 2017

Eu sei que te amo


Diz que é verdade. Nós precisamos conversar. Ou talvez, só eu precise. Mas algumas coisas precisam ser ditas, e só o que eu posso fazer é esperar que cheguem até você. Mas conhecendo você como eu conheço, aposto que chegarão sim. E é exatamente esse o ponto: por que não deixar de me acompanhar de longe, e admite que sua vontade é mesmo andar ao meu lado. De mãos dadas no shopping, e tudo mais.

Você sempre foi péssima em negar as aparências, meu bem. E é por isso que se mantém próxima o bastante para cuidar do que ando fazendo, mas longe o suficiente para tentar mostrar ao mundo que você não quer nada comigo. E me recrimina, me odeia, me xinga, me ignora e finge que não existo. Passa reto por mim quando nos encontramos, mas foca em mim quando estamos bebendo no mesmo bar. Tentando, em vão, esquecer um ao outro.

Eu preciso do teu beijo. Era isso que eu pensava, desde aquela primeira conversa. Lembra de como eu chamei a sua atenção? Ninguém havia te atraído tão instantaneamente antes. Ninguém nunca nem te deu flores antes. Em vez disso, te deixaram acostumada com frases feitas, clichês e chavões direcionados a levá-la para a cama mais próxima. Eu não. Eu queria conhecê-la. Decifrá-la. Senti-la. Revivê-la. E planejei cada passo, ensaiei cada fala, porque queria que tudo fosse perfeito. Um romance que entregasse tudo que você merecia receber.

Chega de mentiras. Como você estava antes de mim? A vida ia bem? As coisas estavam em ordem? E o coração? Estava disposto a acolher alguém de novo, ou já estava partido demais para acreditar que qualquer um que surgisse optaria por realmente ficar? E agora que estou aqui, pairando sem rumo e pensando somente em você, está melhor? Que mal havia em admitir que essa vida era mesmo o que você queria?

Pra que viver fingindo? Lembra de como você estava ansiosa para me encontrar pela primeira vez? Lembra de como contamos os minutos do dia até aquele momento chegar? Você se encolheu no meu abraço, me enfeitiçou com o seu perfume, e eu confirmei o que já suspeitava há dias: eu era seu. E você, minha linda, admita: também queria ser minha.

Você se afasta e se defende de mim, porque é essa possessão te incomoda. E os sentimentos que você não sentia há tempos, porque estava acostumada com decepções e domingos chuvosos a sós debaixo do edredom. E como “ser de alguém” vai contra tudo que você acredita. Tudo que está convicta a não aceitar. Só tente se lembrar, meu anjo, que eu nunca quis roubar sua liberdade. Só queria mesmo voar com você, porque eu também preciso ser salvo dessa vida.

Essa loucura em dizer que não te quero já foi longe demais. Eu sei o que sinto por você, e é o que senti desde a primeira vez em que encontrei seu olhar. E ouvi a sua risada. E desci minhas mãos pela sua cintura. E escutei você dizer que queria mais, e mais... E eu prometi que te daria tudo que quisesse, tudo que pudesse, porque era você.

Eu te quero mais que tudo. Mesmo sabendo que eu posso estar errado. Mesmo pensando que você realmente não quer me encontrar. Mesmo aceitando que sejam só coincidências. Mesmo dizendo o contrário em voz alta por aí. Mesmo querendo te enxergar em cada multidão que passa por mim.

Quando eu digo que deixei de te amar, é por mágoa. Pela decepção que tive ao ver que você achava mesmo que eu poderia de fato ser um cara controlador, possessivo, machista, insensato, disfuncional, carente, ciumento e amargo, que te disseram que eu sou. Você sabe que não é verdade. E eu sei que tudo isso serve como uma desculpa muito próspera para justificar uma saída à francesa da minha vida. E um modo muito eficaz de camuflar todo esse seu medo. Essa ansiedade de ser feliz, que te desespera quando chega muito perto de ser realizada.

Faça o que quiser de mim. Por ser a mulher mais fascinante, bela, engraçada, inteligente, louca, desvairada, impulsiva, e apaixonante que eu já tive a sorte de encontrar. Como eu poderia desistir assim, enquanto ainda a vejo vagando por aí. Com o olhar desconcertado de quem sabe o que perdeu, mas não sabe como recuperar? Bom, coração, essa é a sua chance. Eu ainda estou aqui: honestamente, loucamente, profundamente apaixonado por você. Só quero ouvir você dizer que sim!

Agora, você pode admitir que tem saudade, ou continuar disfarçando as evidências. Quanto a mim, não dá mais pra enganar meu coração.

sábado, 23 de setembro de 2017

O amor não vem do Tinder


O amor não vem do Tinder. Não é algo que irá surgir em uma primeira conversa com alguém novo. Ou na primeira vez em que vocês criarem coragem o suficiente para se encontrarem. Ou quando você arrisca segurar a mão dela em um momento descontraído. Ou durante aquele beijo, o primeiro beijo, que te enche de sonhos e promessas. Não. O amor não vem disso.
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O amor não vem do cineminha. Não irá aparecer magicamente na sintonia de vocês ao escolherem o mesmo filme. Ou em concordarem que um pega a pipoca e o refrigerante, enquanto o outro tenta encontrar os ingressos no bolso. Também não é naquele primeiro momento após as luzes se apagarem, quando ela encosta a cabeça no seu ombro. E você a abraça, querendo dizer que ela pode se sentir confortável ali, porque você irá apoiá-la. O amor não surge na cena de sexo explícito, ou de conflito frustrante, e muito menos do final feliz. O amor não acompanha os créditos que sobem na tela quando as luzes se acendem de novo.
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O amor não é posto à mesa em um jantar romântico. Não acompanha o cardápio que você preparou cuidadosamente, pensando nos temperos que ela gosta e no vinho que vocês provaram quando se conheceram naquele bistrô no centro da cidade. O amor não está nos talheres alinhados, no mise en place, no decantador, nos pratos fundos ou nas taças rasas. O amor também não vem com a sobremesa, ou com os cumprimentos ao chef, ou com aquela provocação boba sobre o quanto ela está ficando mal acostumada, e você terá que continuar se superando se quiser agradar. O amor, definitivamente, não está na cozinha bagunçada e na louça suja que fica para trás.
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O amor não vem à tona quando você conhece os pais dela. Não se torna visível só porque o pai dela não vai com a sua cara, mas você tenta causar uma boa impressão por ela. Por vocês. O sentimento não é descoberto quando você prova a comida da mãe dela, e é pego desprevenido quando a sogra pergunta quais são as suas intenções com a filha dela enquanto você engole, e quase engasga com o risoto. O amor não é posto à prova quando o irmão mais velho dela te encara do outro lado da mesa, porque sabe o que você está fazendo com a irmãzinha dele. O amor não vem até vocês quando você promete que estarão lá de novo no próximo domingo.
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O amor não vem do sexo. Entre roupas jogadas aos cantos, suspiradas profundas, suor escorrendo, gemidos baixinhos, lençóis repuxados, pernas embaralhadas, beijos com mordidas no lábio inferior, sacanagens ao pé do ouvido, pressão, fricção, tesão, emoção, tapas, puxadas de cabelo, pegada, mordidas, arranhões e explosões... O amor não está entre o seu corpo e o dela. Ou no fogo que surge enquanto estão juntos. Ou no silêncio que paira quando se separam, esgotados, mas já pensando na próxima vez.
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O amor não vem nas notificações do seu celular, na forma de um “bom dia” ou “boa noite”. O amor não cabe no seu espaço de armazenamento, nem no seu cartão de memória, nem no seu HD externo. O amor também não está na nuvem ou no drive. O amor não está na sua linha do tempo, no seu feed de notícias, nos seus stories mais recentes, na sua atualização de status, ou guardado na sua galeria de imagens. O amor também não pode ser enviado, zipado, compactado, decupado, transferido ou compartilhado. O amor não está disponível para Android ou iOS.
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O amor vem de você. De quem você é. E mais ainda, da pessoa que você ainda procura ser. O amor vem da educação que os seus pais te deram, e do quanto você a passa adiante. O amor vem da sua preocupação com aquele velho amigo com quem você não fala há algum tempo. O amor vem dos gestos que você pratica sem pensar no que pode ganhar em troca. O amor vem do quanto a sua mãe fez por você, colocando a si mesma em segundo lugar, para fazer você sorrir. O amor vem do que o seu pai consegue te dar, quando dizer “eu te amo” não é o forte dele. O amor vem da sua irmã pedindo ajuda com o dever de casa, porque quer passar tempo com você. O amor vem da sua capacidade de abrir os olhos e enxergá-lo ao seu redor, nas pequenas vitórias do dia a dia. O amor vem do seu caráter. Do quanto você tem noção de quem é, do que é capaz, de tudo que já passou para chegar até aqui, e do que está fazendo para alcançar aonde mais deseja chegar. O amor está aí. Ela não o levou embora. Ele não roubou de ti a capacidade de acreditar em outra pessoa. O amor só depende de você, e só existe contigo. 

E se você finalmente descobrir isso, talvez possa ter algo em comum com alguém que também sabe de onde o amor vem. E, juntos, quem sabe, possam descobrir para onde ele vai.

domingo, 10 de setembro de 2017

Os arrependimentos certos

Entre doses de uísque, um amigo me disse algo marcante.

- Igor, se você se arrependeu de algo nessa vida, você simplesmente não viveu.

E eu fiquei com isso na cabeça por alguns dias. Porque se há algo que eu coleciono nessa vida, além de comentários sarcásticos e ironias do destino, são arrependimentos. Independente da sua natureza; se nasceram de algo que optei por fazer sem pensar direito, ou algo que escolhi não fazer por pensar demais. Seja como for, eu os carrego comigo. Assim como o meu amigo carregou no dia seguinte, após as doses de uísque.

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A vida é um grande, caótico ciclo de tentativa e erro. Por muito tempo eu acreditei que havia algo além disso nos guiando. Fosse o destino, ou as teorias sobre a pessoa certa no lugar certo e na hora certa. Sempre foi demais pra mim acreditar na noção de que não há nada a não ser desordem e sorte. Como se tudo não passasse de um jogo de tetris, onde às vezes as peças se encaixam perfeitamente, às vezes não.

A vida não é um jogo, nem uma completa bagunça, nem um esquema cujo segredo nós devemos procurar. Há quem passe a vida inteira procurando respostas sem nunca perceber que estava fazendo as perguntas erradas o tempo todo.

Eu não sei se ainda acredito em destino. Ou na pessoa certa, e em um timing que colabore conosco. Por muito tempo carreguei alguns sonhos desse tipo comigo: sobre a última garota certa, o amor da sua vida, a teoria das mãos dadas no shopping, os clichês... E ainda estou aqui.

Claro, eu não sou mais o mesmo cara que escreveu esses textos. Assim como não sou o mesmo cara que chegou aqui, dois anos atrás. Nós mudamos, crescemos, erramos e aprendemos. Evoluímos, mesmo que o resultado nos decepcione, o que só acaba servindo como motivador para nos transformarmos de novo. E entre um texto e outro, uma rua sem saída e outra, uma garota e outra, eu errei. Muito. E é nisso que pensei quando meu amigo bêbado disse sua teoria sobre a vida, arrependimentos e etc.

Sim, eu estava bêbado também. Trabalhar no dia seguinte foi difícil. Mas com o tempo e os erros, eu aprendi a usar alguns macetes: manter-se hidratado, carregar Engov comigo sempre, treinar a fazer o número quatro com a perna sempre para exercitar o equilíbrio... Alguns truques eu já domino, e só foram possíveis quando me pus à prova, sem saber se daria certo ou não. Essa é a graça das bebedeiras infames, dos relacionamentos errados, e todas as outras experiências de vida que nós acumulamos com o passar dos invernos.

Dá pra acreditar que já estamos quase na primavera? Não sei como foi pra você, mas o meu inverno foi difícil...

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Eu já apostei corrida bêbado em uma cervejada, tropecei e rasguei as calças em um estacionamento. Já fui convidado a ser retirado de um pub por dois seguranças depois que invadi o palco no meio de um show. Já estraguei uma festa surpresa que organizaram para mim, dizendo que eu já sabia dela. Já abandonei a faculdade de Jornalismo, acreditando que aquele não era o curso para mim. Já disse que nunca mais falaria com meus pais, ou com minha irmã, porque eles fizeram algo que me magoou demais. E mais vezes do que eu gostaria de admitir, eu já confessei estar apaixonado por alguém, mesmo sabendo que ela não sentia o mesmo.

Eu já fiz todas essas coisas. Agora existem histórias embaraçosas sobre mim, e fraturas no meu coração que talvez nunca realmente se curem. Mas eu também aprendi com elas, chorei, e cresci. Não é porque algo não deu certo, que não teve valor. Não estou te dizendo que era algo pelo qual você precisava passar, como se estivesse escrito nas estrelas. Mas a experiência, os esforços dedicados, e a vida que passou pelas suas veias, estarão contigo para sempre. Eternamente, enquanto nós estivermos aqui.

O segredo não é evitar os arrependimentos. Isso é impossível. O melhor que nós podemos fazer, no final das contas, é acabar com os arrependimentos certos.

domingo, 3 de setembro de 2017

8/80

Existem dois grandes medos que lideram a vida de um escritor diante de uma folha em branco. Ele pode começar aos poucos e, palavra por palavra, ponto a ponto, acabar submetendo mais da sua alma do que esperava. Ou, então, enrolar por períodos, parágrafos e pontuações infames, até descobrir que realmente não havia nada que precisava ser escrito. Quanto a mim, que ainda estou tentando descobrir qual caminho quero seguir para tentar chegar ao que eu acredito que deva ser dito, eu não sabia por onde começar. Uma indecisão que, por si só, resumiu exatamente o conflito que aqui reside: a insustentável leveza dos meios-termos. A noção de que as coisas, as pessoas e os lugares devem ser aproveitados ao máximo, ou então não há pra quê dar uma chance a eles. Enquanto a vida que pode ser vivida em equilíbrio entre um extremo e outro parece morna demais para valer a pena.

Para você que está lendo e pensando “Uau, eu sou muito assim, 8 ou 80!”, pare. Você não é assim. Você nem faz ideia do que é ser assim. Mas este sou eu, caindo em hábitos extremos mais uma vez, pra variar. Esvaziando o valor do que outras pessoas pensam, por já me considerar a pessoa mais quebrada do mundo. E também não há lugar no pódio para você. As outras posições já estão ocupadas pelas pessoas que eu mesmo quebrei pelo caminho.

Eu penso nisso todos os dias, o tempo todo. Desde a primeira xícara de café do dia, até os questionamentos noturnos sobre porque estou indo dormir sozinho. Alguns anos atrás eu tive um pensamento parecido, envolvendo meu repúdio absoluto sobre o café com leite. Quando somos crianças, aprendemos que quem é rotulado como “café com leite” é considerado frágil, fraco, sensível. Incapaz de lidar com as regras impiedosas do jogo da vida e, por isso, precisam ter algumas vantagens especiais para conseguirem acompanhar os outros. Eu já fui a criança café-com-leite e odiei cada experiência do tipo. Mesmo quando tentava jogar conforme as regras padrões e descobria que os outros tinham razão.

Alguns feitos, e algumas situações, não foram feitas para todos nós. E não há nada de errado em admitir derrota, aceitar ajuda, ou pedir um tempo. E se não fosse pelo mundo ao nosso redor, constantemente nos lembrando de que é preciso ser sempre o melhor, independente e invencível, talvez as memórias da infância não nos assombrassem até hoje.

O meio que eu encontrei para ter paz sobre isso foi aceitar o fato de que às vezes quem faz o café, o faz muito forte. Às vezes é o meu pai, às vezes é a moça da firma, e, às vezes, a própria vida. E adicionar leite pode ajudar a suavizar as doses de cafeína que preciso para continuar operando normalmente.

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Quando eu saí de casa, minha mãe me deu o abraço mais forte do mundo. O abraço que silenciosamente me pedia para não ir embora, mas eu fui. Talvez na maior demonstração de todas sobre como toda vez em que eu me deparo com amor, meu instinto é fugir por não saber lidar com ele. Oito anos depois, minha mãe ainda me liga todos os dias, sem falta e até mesmo sem assunto. Só para saber se eu estou bem, se estou vivo... Se consegui encontrar amor por aí. Em dias mais estressantes, minha ingratidão questionava o motivo das ligações diárias. Minha mãe, a santa, sempre diz que em matéria de amor, é melhor pecar pelo excesso do que pela falta. Eu acredito que ela tem razão. Eu também acredito que realmente não dou conta disso.

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A expressão “8 ou 80” vem de um game show dos anos 70. Nele, os participantes concorriam a prêmios ao responder perguntas feitas pelo apresentador. Respostas parciais valiam 8 pontos; as completas valiam 80. Para aumentar o suspense, o apresentador puxava o bordão: “É 8 ou 80?!”. E foi assim que nós aprendemos que o 8 quer dizer pouco, o 80 deve ser a nossa meta, e qualquer número entre um e outro na verdade não vale nada.

Foi assim que deixei minha ansiedade tomar o melhor de mim em relacionamentos que estavam só começando – só para afugentar o amor de vez. Similarmente, outros optei por nem dar uma chance, acreditando que a longo prazo o resultado seria apenas o eco que causaríamos na vida do outro. Ou eu sinto muito medo ou muita dúvida para arriscar te dar um “oi”, ou a gente casa semana que vem. Se não for pra ser assim, fico sozinho. Eu sei lidar com os meus extremos quando estou sozinho. A questão ultimamente tem sido: isso é algo que eu quero fazer até o extremo da minha vida?

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Quando começamos a conversar, eu te disse que existem dois grandes medos na vida de um escritor. Entre eles, eu sempre prefiro enfrentar o segundo. No mínimo, aprendo a lidar com algo que passa a semana adormecido em mim. Entre a correria do dia a dia, os deslocamentos entre um ônibus e outro, as segundas vias de boletos que preciso imprimir e pagar, e as idas ao bar que tem me mantido de pé. Agora, eu entendo também que a divisória entre o 8 e o 80 não é maniqueísta. O 8 pode ser pouco, mas não necessariamente ruim. O 80 pode ser muito, mas não necessariamente bom. São só duas pontas de um cabo de guerra onde quem decide se é possível achar o equilíbrio, ou acabar caído e arrependido em um dos lados, sou eu.

Eu não sei se encontrarei meu ponto de equilíbrio algum dia. E não sei se isso é bom ou ruim também. O que eu sei, com certeza, é que até a presente data não há como delimitar nenhum tipo de extremo para o meu 2017. Esse ano todo não tem passado de um exercício de desconstrução após o outro, onde tudo é possível e nada está a salvo. Isso não quer dizer que eu devo abandonar todo e qualquer sonho de alcançar um meio termo sobre quem eu sou, e quem eu ainda espero ser.

Só significa que, em meios termos de 2017, uma coisa é clara: não há mais regras.

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Espero que isso te ajude a entender pelo menos porque eu vivo sozinho, na defensiva, cercado de sarcasmo e armado de olhares desconfiados. Entre tudo e nada, convenhamos: é mais fácil aprender a lidar com o nada.