domingo, 19 de novembro de 2017

O bêbado e o malabarista

Fui ali e voltei.

Esta é a melhor maneira de explicar por onde andei. Claro, você provavelmente chegou a me encontrar naquele mesmo bar perto da faculdade, ou então cruzamos olhares enquanto eu me servia de mais uma xícara de café em uma manhã qualquer no trabalho, ou quem sabe nós nem realmente chegamos perto de nos vermos. Não seria a primeira vez. Nem a última, por sinal.

Eu andei por aí, silencioso, porque não sabia mais o que dizer. Talvez eu nunca realmente soube. E não senti vontade de continuar preenchendo linhas em vão, ainda sem saber o que queria dizer. Ou então, não sabia para quem queria dizer. Foi aí que as coisas começaram a ficar claras.

Já faz alguns anos desde que isso começou. A maioria de vocês já conhece a história, mas para quem desceu do ônibus agora, o resumo da ópera é simples. Um dia eu saí de casa e passei a escrever sobre tudo e todos que encontrei por aí. Na esperança de que os registros me ajudassem a voltar caso a vida lá fora não cumprisse todas as promessas que fez. Mas, sobretudo, foi uma maneira de não me perder pelo caminho.

Bom, eu estive percorrendo este caminho pelos últimos oito anos. E por ele já se passaram três cidades, alguns apartamentos, momentos especiais (e outros nem tanto) em família, incontáveis relacionamentos (reais e imaginários), os dramas cotidianos que compõem a grade curricular de uma faculdade e meia, e as trilhas sonoras que tocavam nos meus fones de ouvido enquanto estive por aí. Andando, correndo, falando, rindo, brigando, amando, pedindo desculpas e tentando aprender a simplesmente abrir mão da bagagem que não precisa ser levada adiante. Vale ressaltar que os dois últimos aspectos da lista ainda são um trabalho em progresso. Assim como eu. Assim como você.

A questão agora não envolve por onde andei, quem encontrei, o que tudo isso me fez sentir, ou quais músicas foram inspiradas ou arruinadas pelo que houve. O que importa agora é isso: eu não sei mais o que quero dizer. E a principal consequência disso é evidente pra quem está acompanhando mais de perto: eu não sei mais para onde ir. E é nisso que estive pensando enquanto tornei meus registros aqui inacessíveis para quem estivesse interessado em ler. Coisa que, confesso, vai além de toda a minha compreensão.

Por que você está lendo isso?

Tudo bem; eu avisei que havia algo novo a ser lido. Mas o que te realmente te trouxe até aqui? Você queria saber como eu estava? Poderia ter me perguntado. Queria saber por quem estou sofrendo por amor? Faz diferença a essa altura, ou só queria saber se ainda era por você? Queria saber qual música ando dando replay ao ponto de encaixar sua melodia aqui? “Evidências”. É sempre “Evidências”.

***

Dia desses, eu estava andando por aí – porque às vezes parece que é só isso que eu faço mesmo; a pé, de ônibus, na rua, na chuva, na fazenda... – quando um malabarista de sinaleiro me parou. “Você tem um limão?”, ele perguntou. “Não, desculpe. Por que?”, eu disse, inexplicavelmente me engajando nesse diálogo infame e me desculpando por não dar a resposta que ele esperava. “Por que essa cara de azedo então?”, ele respondeu. E enquanto ele seguiu seu caminho, eu fiquei parado por alguns instantes, em dúvida sobre qual caminho eu mesmo deveria seguir agora: refletir sobre a cara de azedo que estava inconscientemente exibindo, ou sobre quais repercussões sociais eu enfrentaria caso puxasse briga com um malabarista de sinaleiro. Optei por seguir em frente, porque já estava atrasado para meu próximo compromisso, que provavelmente também envolveria diálogos sarcásticos desse tipo.

Vale ressaltar também que, pouco tempo depois, eu fui parar naquele mesmo bar perto da faculdade.

Eu não sei porque estava com cara de azedo. E o malabarista não era sequer o primeiro naquele dia a apontar isso para mim. Era uma sexta-feira, era quase happy hour, era o princípio de mais um fim de semana que poderia incluir desde a escrita de trabalhos acadêmicos atrasados até uma soneca de dois dias. Eram todas as possibilidades do mundo, e eu estava com cara de azedo. Talvez porque não estivesse escrevendo há algum tempo. Talvez por algum perfume que me lembrou de uma decepção amorosa. Talvez porque eu sabia que alguns boletos só seriam pagos em atraso no próximo mês. Ou talvez eu só estivesse cansado de tudo: da semana, das pessoas, dos horários dos ônibus, dos trabalhos acadêmicos atrasados, e por lembrar que não havia limões em casa para fazer uma caipirinha.

E diante da falta de escrever, de um amor, de dinheiro para quitar as contas e de limões para um drink, pensei na vida que estava teoricamente em andamento, mas aparentemente sem chegar a lugar algum. A não ser com faltas e cara de azedo para mostrar.

***

Dias depois, em uma manhã preguiçosa de domingo – muito parecida com a manhã que inspirou o último texto que deixei aqui – passei horas na cama pensando sobre porque não havia ninguém deitada ao meu lado. Será que depois de anos de relacionamentos, haveria ainda um motivo para explicar porque nenhuma delas estava ali? Infelizmente, eu não soube dizer. Felizmente, a vontade de escrever sobre mim, e para mim, me motivou a colocar a cafeteira e minhas palavras para funcionarem.

Não sei quanto a você, que inexplicavelmente ainda está aí, mas eu senti a minha falta.

Anos atrás, quando decidi que iria escrever sobre tudo e todos que encontrasse por aí, foi a primeira decisão sensata que senti que havia feito por mim. Foi o que senti vontade de fazer para viver. Para trabalhar, para amar, para seguir adiante quanto tudo mais falhasse. Quanto tudo mais faltasse. Claro que eu me divirto quando escrevia sobre você e nossa vida que poderia ter sido, mas não foi. Faz com que eu me sinta melhor sobre você não estar aqui agora, e me ajuda a ter ideias para o próximo capítulo da minha vida que ainda será escrito. E essa motivação, essa superação, essa inspiração toda, é bonita...

Talvez seja por isso que eu ame escrever. Talvez seja por isso que você ame ler. Talvez seja por isso que a gente insista em adorar o amanhã. Eu não sei. Por um tempo eu não tive as respostas, e não sei se as tenho agora. Mas a falta de vontade de perguntar quase me matou. No mínimo, me deixou com cara de azedo. Pode não fazer sentido, pode ser baseado em fatos irreais, e pode ou não sofrer com a influência do álcool, mas minhas palavras são a melhor coisa do mundo. Meu mundo, ao menos. Se forem do seu também, vamos conversar. Mas vamos deixar algo claro, isto não é sobre você. Nunca será sobre você. Isto é sobre mim, e para mim. Talvez nada disso irá mudar o mundo lá fora, mas faz um bem imensurável a mim aqui dentro.

Eu ainda não sei para onde estou indo, mas antes recuperar o fôlego para seguir adiante do que desistir até mesmo de olhar para trás e questionar a viagem inteira. Talvez eu não precise das respostas. Talvez eu só precise continuar me movendo.

Fui ali e voltei.

sábado, 4 de novembro de 2017

Ela


Era um domingo de manhã. A chuva era intensa lá fora. Você estava adormecida ainda nos meus braços quando acordei. Sua pele morena refletida levemente pelos primeiros raios de luz que invadiam o quarto. Você estava em paz. Pensei em levantar e preparar o nosso café da manhã, mas não queria interrompê-la. Você estava dormindo tão profundamente. Descansando suavemente. Existindo perfeitamente. Eu não queria que aquele momento acabasse. Então fiquei deitado ali, ao seu lado, com meus braços ao seu redor, me sentindo grato por você. Por nós. Pela sinfonia da chuva. Pelo amor que estava entre nós, são e salvo de tudo. Nós poderíamos ficar ali para sempre. Nós deveríamos ter ficado ali um pouco mais. Mas, não. Eu quis levantar, preparar o café, começar o dia. Eu, afobado pela vida como sempre, nunca soube discernir o que realmente importava nela. Nós importávamos, disso eu tinha certeza. Mas a insistência em querer levantar fez com que eu a soltasse.

Aquele foi o último domingo que passamos juntos.

***

Ultimamente eu não consigo parar de pensar em você. Em como você está, o que tem feito, com quem tem falado. Se está feliz...

Sinto sua falta como nunca sentira antes. Como se uma parte de mim estivesse faltando, e nada nem ninguém me desmotivaria de continuar te procurando. Saudade é o nome, e usava o seu perfume.

Queria que estivesse em casa quando eu chegasse. Eu cuidaria de tudo. Deixe-me preparar o jantar, servir o vinho, puxar sua cadeira. Como sobremesa, podemos só nos aconchegar no sofá, em uma noite amena, com um cobertor e o calor do seu corpo junto ao meu. Você pode me contar como foi o seu dia, ou pode se entregar à preguiça, apoiada em mim. Eu passei o dia só esperando para abraçá-la de novo. Beijá-la de novo. Confessar baixinho em seu ouvido que estou feliz por esta vida. O mundo recomeçou quando você apareceu, e tudo vale mais a pena quando é compartilhado contigo. Pode ficar tranquila. Pode relaxar. Estou aqui, meu bem. Estamos aqui agora. Não sei se pode me ouvir, mas isso era tudo que eu queria.

Sabe quanto tempo eu esperei por você? Você não faz ideia de quantos encontros, quantos quilômetros, quantas promessas foram necessárias para que eu chegasse até você. Eu sei que não sou perfeito. Falo demais, escuto de menos, faço muito caso de coisas pequenas. Não sei reconhecer quando estou errado. Mas soube reconhecer que você era certa. Sei que nossa vida não é fácil. Entre os problemas, a correria, os horários, os compromissos, o cansaço... Às vezes parece que nunca voltaremos para casa. Às vezes tenho medo de que você não estará mais aqui. Mas cá estamos... E eu cheguei a pensar que você não existia. E que viver sozinho não seria tão ruim. Mas aí eu não teria conhecido sua mãe, e minha mãe não teria conhecido nossos filhos. Não teríamos tido a alegria de deixar nossa casa do jeito exato com o qual sonhamos. Eu não teria sentido aquele arrepio quando você topou sair comigo. Ou aquela emoção na igreja quando você aceitou passar o resto da sua vida comigo. Olha onde estamos agora... Eu nunca imaginei que esse tipo de amor pudesse existir, meu bem. Obrigado pela vida que construímos. Pela paciência. Pelas piadas sem graça. Pelo som da sua risada. Pelo brilho dos seus olhos. Por ter ficado.

***

E tudo isso poderia ser verdade hoje, se eu não tivesse insistido em levantar para fazer o café. Eu fui aquele que partiu. À procura de algo que nem sei o que é, e que provavelmente nunca encontrarei.

Mas se eu encontrá-la de novo – por favor, meu amor – não me deixe ir.

domingo, 29 de outubro de 2017

26


O que eu aprendi aos 26 anos...

Pra começar, eu fico escrevendo “16” em vez de “26”, o que já indica claramente por onde anda a minha maturidade. Também ajuda a explicar o meu crescente desapego por contatos de WhatsApp que poderiam ter sido bloqueados há muito tempo. Como meu primeiro ato a entrar em vigor neste novo mandato de vida, eu declaro a substituição de discussões recheadas de comentários sarcásticos por um bloqueio objetivo e silencioso. Não é fácil ser sarcástico, e nem todos são capazes de entender. Logo, o reservarei para ocasiões especiais e pessoas próximas. Ou ocasiões próximas com pessoas especiais. Ou a hora que eu quiser. O plano de governo ainda está em construção. Mais detalhes em um release posterior.

***

Vinte e seis anos. Cronologicamente, representam a passagem do primeiro quarto de uma vida relativamente saudável. Emocionalmente, representa a curva derradeira entre o território mais ameno dos vinte-e-poucos, e a ladeira alucinada até a linha de chegada dos 30.  Sabe quando você era jovem e se recusava a dar um dos adesivos para qualquer um dos seus amigos, porque estava guardando-os para depois? Este é o depois.

Não é o fim, como eu costumava pensar outrora. “O fim” está programado para daqui quatro anos, se eu cruzar aquela linha de chegada solteiro, acima do peso, e ganhando menos do que preciso para sobreviver e garantir meu vinho para as terças-feiras de Masterchef. Esses são os meus objetivos de vida a serem atingidos até os 30. Seria bom estar casado aos 30, e começar a descobrir outros aspectos desta vida como, por exemplo, a sensação de passear pela sessão de utensílios domésticos do mercado e discutir com a esposa sobre quantos kits de jogos americanos nós precisamos para o uso cotidiano e os jantares com amigos aos fins de semana. É clichê, é arcaico, é ridículo, e é o que eu quero.

O casamento, até onde eu sei, é algo demorado de se planejar. Deve ser para isso que o noivado serve. Subtrai-se um ano e meio do tempo restante para o impacto final, e chegamos aos 28 ½. Quanto tempo leva para elevar um relacionamento ao noivado? Meus pais levaram cinco anos; meu melhor amigo levou dois. Se dependesse de mim, eu teria casado aos 14 com a Fulana, durante nosso primeiro ano do ensino médio. Mas ela disse “não”, ficou com vários outros caras, eventualmente engravidou e, dois anos depois, casou com o pai do Enzo. Talvez tenha sido pra melhor, mas enfim...

Estamos falando de mim, sob um grau de maturidade que ainda não atingi, nem fiz por merecê-lo, mas gostaria de aspirá-lo. Um relacionamento de um ano poderia se transformar em noivado. Com o mundo globalizado, as mídias digitais, a desconstrução do Mercosul, a base aliada dividida sobre o Temer... As coisas fluem mais rápido agora. Subtraia mais um ano do tempo restante, e chegamos aos 26 ½. O que significa que, para os fins desejados, eu tenho mais seis meses para conhecer o amor da minha vida, ou aprovar a que tiver a pontuação mais alta no meu processo seletivo.

Valendo.

***

Quem dera fosse tão simples assim. Aos 26, eu aprendi que não existem coisas simples. Só relacionamentos complicados, familiares distantes, idas ao mercado entre o trabalho e a faculdade, e a impressão de segundas vias de boletos, porque a primeira não chegou a tempo pelo correio. Mas no início derradeiro dos meus vinte-e-poucos, decidi que este seria o tempo de cometer o maior número de erros possíveis, incluindo mas não limitados a ir à baladas que eu não queria ir, marcar encontros com expectativas altíssimas, me apaixonar pelas garotas erradas, confiar em pessoas que minha mãe desaprovava, e não me importar em dormir menos de oito horas por noite. E depois de anos de pesquisas em campo, tenho, enfim, alguns resultados a apresentar que me dão o direito de construir algumas definições concretas.*

*Eu queria dizer que agora tenho novas regras, mas a Dua Lipa já possui os direitos autorais sobre isso, eu acho.

Enfim, segue abaixo os meus dez mandamentos:

01. Trabalhe como se não precisasse do dinheiro. Ame como se nunca tivesse se decepcionado antes. Dance como se ninguém estivesse olhando.
02. Nunca vá a um happy hour em meio de semana. Nunca durará só uma “hour”, e o dia seguinte não será “happy”.
03. Nunca dê segundas chances para pessoas que falam mal de você para terceiros. Mantenha os prints como provas documentais para discussões futuras.
04. Nunca sugira um cinema como plano para um primeiro encontro.
05. Não faça joguinhos com seus amigos que ainda insistem em ser seus amigos após o período inicial de seis meses. Os fracos vão arrumar coisa melhor pra fazer. Os fortes merecem que você vá direto ao ponto.
06. Música favorita: “One”, do U2. Cor favorita: verde. Melhor pessoa do mundo: mamãe. Comida favorita: strogonoff. Bebida favorita: depende do objetivo (encher a cara: cerveja; contemplação: vinho; choro: uísque; passar vergonha em público: tequila).
07. Sorria mais. É de graça.
08. Não há vergonha alguma em contar moedas para pagar por algo.
09. Passe tempo com a sua família.
10. Aceite que o mundo não gira ao seu redor. Nem mesmo o seu mundo.

***

Obrigado aos que continuam comigo, por não sucumbirem ao meu pior. Eu não sou uma pessoa fácil, tampouco tenho planos de me tornar uma. É mais provável que eu só piore com o tempo, como meu pai e meu avô antes dele. As melhores pessoas do mundo geralmente são insuportáveis de se ter por perto, mas isso não torna impossível amá-las. Quanto aos que partiram, ou os que por ventura mandei embora... Bom. Segue o baile. Mas acima de tudo, há algo que eu espero e muito desse novo ciclo que se inicia...

Absolutamente nada. 2017 desconstruiu tudo que eu conhecia como certo nesta vida, e me jogou num redemoinho de horários de ônibus e fadiga muscular. O que só pode significar que, de uma vez por todas, não adianta fazer planos. Assim como não adianta deixar as coisas pra depois.

Lembre-se, Igor: este é o depois.

domingo, 15 de outubro de 2017

Deixe ela ir


Eu sinceramente esperava que não chegasse a esse ponto, mas às vezes acontece. Não importa quantas vezes ao dia você pense nela. Ou quantas músicas parecem ter sido feitas só para vocês. Ou as noites passadas em claro, porque não havia o que fazer a não ser esperar o sol nascer para, quem sabe, encontrá-la de novo por aí. E a verdade é que talvez você a encontre mesmo; só não será mais como antes. Dessa vez vocês serão estranhos. Você não tem mais nada a ver com ela. E ela... Bom...

Ela não é sua.

***

Aos vinte e poucos anos, eu confesso que acreditava que minha vida estaria mais organizada do que isso. Talvez não financeiramente... E ao julgar pelas minhas opções profissionais, talvez nunca financeiramente. E quem sabe não precisaria envolver um apartamento só meu de novo. Com o tempo você aprende que fazer parte de uma família significa que você jamais estará sozinho... Lide com isso. Mas, emocionalmente, ah... Eis aqui a eterna variável da equação. E por “variável”, entenda como a série de primeiros encontros, segundas intenções e terceiras pessoas às quais me refiro em textos como esse, quando as coisas entre nós não dão certo.

Por que não deram certo? Era só isso que eu queria saber. Você pode não se importar mais comigo, ou com o que faço ou deixo de fazer por aí. Pode até não dar a mínima para quem se arrisca a me dar uma chance, mesmo em meio à desconstrução que você deixou para trás. Mas seria injusto da minha parte dizer que é tudo culpa sua – claro que não é. Relacionamentos começam e terminam do mesmo jeito: com um consenso entre duas pessoas. Mesmo que o consenso seja obrigatório, no fim.

Eu não posso obrigá-la a ficar comigo. E não posso me obrigar a fingir que você não existe. Afinal, você ainda está por aí; freqüentando os mesmos bares, passando pelas mesmas ruas, falando com as mesmas pessoas que eu. Mas há uma coisa que você não pode me impedir de fazer: sentir a sua falta. E é algo que eu decidi que faria, por mim, até que não sobre mais nada para sentir. Você foi embora, mas não desapareceu.

Nós tínhamos tudo. O companheirismo, a química, as promessas... E é possível que a minha frustração esteja mesmo na sua partida, da noite pro dia, que deixou interrogações abertas até agora. Foi algo que eu fiz? Algo que não fiz? Ou eu simplesmente não era “o cara” que você procurava?  Eu não sei. E se depender de você, eu nunca saberei.

Houve um momento em que você faria qualquer coisa por mim. Contava os minutos para me encontrar. Confessava que nunca havia encontrado alguém como eu. E se entregou sem medo ou culpa alguma, porque eu estava lá para te abraçar. E foi bom. Muito bom. Eterno, inclusive, enquanto durou. Até que em algum momento similar àqueles, acabou para você. E eu preciso aprender a lidar com isso de uma vez por todas. Precisa acabar para mim também.

Eu quero as mãos dadas no shopping. As mensagens de “bom dia” e “boa noite”. Os lembretes do que preciso comprar no mercado a caminho de casa. Os pitacos enquanto escolho qual vinho iremos beber. As implicâncias com o meu jeito grosso de falar às vezes. As alfinetadas quando você percebe que não estou falando direito com a minha mãe ao telefone. Os jantares à luz de velas. Os almoços de domingo com a sua família. As conversas sussurradas em corredores tumultuados. As pernas entrelaçadas debaixo do edredom. O meu nome em sua voz ao pé do ouvido. O amor... Eu quero o amor. E queria que simbolizasse você.

***

Eu sinceramente esperava que não chegasse a esse ponto, mas aconteceu. Acabou. Eu não quero mais você. Só o que restam são os seus defeitos, suas desavenças, suas inconstâncias, suas más companhias, suas manias irritantes, e o símbolo de vários outros sentimentos que nada tem a ver com amor. É triste, mas aqui estamos... Bom, ao menos, eu estou. Você nem chegará perto desse texto. Nem ninguém próximo de você. Estou sozinho, emoldurando o que restou de nós para deixar guardado aqui. Como lembrete de que, quando foi bom, foi incrível. Você gostava assim. Mas quando o amor acaba, as lembranças se desprendem, os beijos parecem nunca ter existido, as promessas são esquecidas, e tudo que um dia houve de bom entre vocês enfim fica para trás, só resta uma coisa a fazer.

Deixe ela ir.

domingo, 8 de outubro de 2017

Eu sei que te amo


Diz que é verdade. Nós precisamos conversar. Ou talvez, só eu precise. Mas algumas coisas precisam ser ditas, e só o que eu posso fazer é esperar que cheguem até você. Mas conhecendo você como eu conheço, aposto que chegarão sim. E é exatamente esse o ponto: por que não deixar de me acompanhar de longe, e admite que sua vontade é mesmo andar ao meu lado. De mãos dadas no shopping, e tudo mais.

Você sempre foi péssima em negar as aparências, meu bem. E é por isso que se mantém próxima o bastante para cuidar do que ando fazendo, mas longe o suficiente para tentar mostrar ao mundo que você não quer nada comigo. E me recrimina, me odeia, me xinga, me ignora e finge que não existo. Passa reto por mim quando nos encontramos, mas foca em mim quando estamos bebendo no mesmo bar. Tentando, em vão, esquecer um ao outro.

Eu preciso do teu beijo. Era isso que eu pensava, desde aquela primeira conversa. Lembra de como eu chamei a sua atenção? Ninguém havia te atraído tão instantaneamente antes. Ninguém nunca nem te deu flores antes. Em vez disso, te deixaram acostumada com frases feitas, clichês e chavões direcionados a levá-la para a cama mais próxima. Eu não. Eu queria conhecê-la. Decifrá-la. Senti-la. Revivê-la. E planejei cada passo, ensaiei cada fala, porque queria que tudo fosse perfeito. Um romance que entregasse tudo que você merecia receber.

Chega de mentiras. Como você estava antes de mim? A vida ia bem? As coisas estavam em ordem? E o coração? Estava disposto a acolher alguém de novo, ou já estava partido demais para acreditar que qualquer um que surgisse optaria por realmente ficar? E agora que estou aqui, pairando sem rumo e pensando somente em você, está melhor? Que mal havia em admitir que essa vida era mesmo o que você queria?

Pra que viver fingindo? Lembra de como você estava ansiosa para me encontrar pela primeira vez? Lembra de como contamos os minutos do dia até aquele momento chegar? Você se encolheu no meu abraço, me enfeitiçou com o seu perfume, e eu confirmei o que já suspeitava há dias: eu era seu. E você, minha linda, admita: também queria ser minha.

Você se afasta e se defende de mim, porque é essa possessão te incomoda. E os sentimentos que você não sentia há tempos, porque estava acostumada com decepções e domingos chuvosos a sós debaixo do edredom. E como “ser de alguém” vai contra tudo que você acredita. Tudo que está convicta a não aceitar. Só tente se lembrar, meu anjo, que eu nunca quis roubar sua liberdade. Só queria mesmo voar com você, porque eu também preciso ser salvo dessa vida.

Essa loucura em dizer que não te quero já foi longe demais. Eu sei o que sinto por você, e é o que senti desde a primeira vez em que encontrei seu olhar. E ouvi a sua risada. E desci minhas mãos pela sua cintura. E escutei você dizer que queria mais, e mais... E eu prometi que te daria tudo que quisesse, tudo que pudesse, porque era você.

Eu te quero mais que tudo. Mesmo sabendo que eu posso estar errado. Mesmo pensando que você realmente não quer me encontrar. Mesmo aceitando que sejam só coincidências. Mesmo dizendo o contrário em voz alta por aí. Mesmo querendo te enxergar em cada multidão que passa por mim.

Quando eu digo que deixei de te amar, é por mágoa. Pela decepção que tive ao ver que você achava mesmo que eu poderia de fato ser um cara controlador, possessivo, machista, insensato, disfuncional, carente, ciumento e amargo, que te disseram que eu sou. Você sabe que não é verdade. E eu sei que tudo isso serve como uma desculpa muito próspera para justificar uma saída à francesa da minha vida. E um modo muito eficaz de camuflar todo esse seu medo. Essa ansiedade de ser feliz, que te desespera quando chega muito perto de ser realizada.

Faça o que quiser de mim. Por ser a mulher mais fascinante, bela, engraçada, inteligente, louca, desvairada, impulsiva, e apaixonante que eu já tive a sorte de encontrar. Como eu poderia desistir assim, enquanto ainda a vejo vagando por aí. Com o olhar desconcertado de quem sabe o que perdeu, mas não sabe como recuperar? Bom, coração, essa é a sua chance. Eu ainda estou aqui: honestamente, loucamente, profundamente apaixonado por você. Só quero ouvir você dizer que sim!

Agora, você pode admitir que tem saudade, ou continuar disfarçando as evidências. Quanto a mim, não dá mais pra enganar meu coração.