domingo, 22 de abril de 2018

O que eu escrevi por amor



Talvez a tragédia de qualquer escritor more ao lado do seu suposto talento de traduzir a vida ao seu redor em palavras. Porque é um talento invariavelmente posto à prova em rascunhos envelhecidos numa gaveta do criado mudo, ou escondidos em uma pasta oculta do computador. Palavras que envelhecem mais rápido do que seu autor, com o passar dos anos, cuja mensagem original cede seu lugar para outros sentimentos mais atemporais do que o preferível: arrependimento, inocência, saudade. A meu ver, escrever nunca foi um gosto a ser aperfeiçoado a cada artigo científico que precisei escrever, ou a cada mensagem de aniversário que dediquei a um amigo. E, definitivamente, não foi algo afinado a cada declaração de amor que divulguei por aí. A tragédia de qualquer escritor é ter um histórico de mensagens ao seu dispor.

O que um ego reúne para a posteridade, ele destrói na mesma intensidade. Toda vez que relê o que deixou marcado numa folha de papel de outrora, e se depara com a frequência do uso de certas palavras que já não fazem mais parte do seu vocabulário. É nessas horas que me lembro da minha professora de português do ensino médio, nos alertando constantemente sobre evitar o uso de termos absolutistas. “Tudo”. “Nada”. “Nunca”. O que explica meu movimento involuntário de fundamentar meus pensamentos pelo prefixo de um “talvez”. Uma atitude positiva para a vida, mas fantasmagórica para um texto.

Em um mundo cada vez mais online, estar sem internet é como viver em uma ilha deserta. Para sobreviver, o que resta é procurar conforto no que permanece offline. As cartas guardadas, os rascunhos amassados, os desenhos em contracapas de cadernos escolares. A máxima alegoria de Fernando Pessoa sobre “uma vida inteira que poderia ter sido e não foi”, resumida a documentos sem nome do Word e lembranças efêmeras amaldiçoadas com as piores palavras do mundo: “para sempre”.

O número de pessoas para quem prometi estar sempre presente é proporcional ao número de cadeiras vazias ao meu redor. Nomes sem rostos ligados a eles, atrelados a promessas aparentemente definitivas feitas em lugares que sequer existem mais. A única coisa que existe para sempre é o nosso descaso com o tempo. O resto está salvo no meu disco rígido, sem significado algum a não ser pelas músicas que anexei às minhas crônicas. E ao julgar pelas evidências, eu escuto as mesmas músicas há quase dez anos. Imaturidade musical, felizmente, é o único tipo ainda permitido por lei.

Se você me conhece por um tempo similar ao da minha trilha sonora, existe algo escrito aqui sobre nós. Sobre como nos conhecemos. Os momentos que tivemos. As risadas que compartilhamos. As brigas que resolvemos. A vida que poderia ter sido e realmente foi para nós, até seguirmos em frente. Nesse meio tempo eu também escrevi sobre o quanto amei você, até o tempo nos empurrar em direção ao amor por outras pessoas. Porque é isso que o tempo faz conosco. No mínimo, é o que “sempre” fez.

Eu ainda considero que os melhores textos escritos por mim foram aqueles dedicados a alguém. Em aniversários, desejando os meus parabéns por mais um ano. Em ocasiões especiais, como forma de comemorar e deixar algo registrado naquela data. E principalmente, quando nosso amor precisava ser compartilhado do modo mais romântico de todos: por palavras. Emolduradas em uma história estrelada por nós, para fazer você sorrir e para inspirar outras pessoas a continuarem procurando alguém que fizesse valer a pena o empenho. A árdua tarefa de traduzir um sentimento único por um meio comum, acessível, e universal.

Quase dez anos, mais de 700 textos, inúmeras músicas e incontáveis pessoas depois, eu ainda estou aqui. Escrever não é um passatempo, é uma necessidade. Cada um encontrará um meio de se situar nesse mundo. Um suporte que lhes ampare e ajude a recuperar o fôlego quando a vida parecer sem sentido. Este é o meu. “Sempre” foi. “Sempre” será. Na saúde e na doença, na riqueza e na pobreza, abrindo mão de todos os outras palavras em prol de uma em especial, até que a morte nos separe. E quando isso acontecer, você poderá ao menos se reconfortar com a possibilidade de reler a minha história.

Eu não sei aonde isso irá levar. Não sei como irá acabar. Não sei o que mais pode acontecer e, ao julgar pela experiência até agora, jamais estarei preparado para o que vier. Só o que posso fazer é continuar tomando notas sobre a minha realidade e as pessoas em sua órbita. Algo que fiz, faço e pretendo continuar fazendo por amor. Ou como diria Vinicius de Moraes, nas molduras daquele soneto que jamais decorarei por inteiro: “De tudo ao meu amor serei atento / mas que seja eterno enquanto dure.”

Continue lendo. Talvez o próximo capítulo seja sobre você.


domingo, 15 de abril de 2018

Eu ainda estou aqui


A vida é muito curta. Quando eu penso sobre todas as cidades nas quais morei, todos os empregos que tive, todas as ruas por onde andei, até todas as pessoas que conheci, é difícil concordar com autores como T. S. Elliot. “A vida é muito longa”, ele escrevera. Talvez seja uma questão de perspectiva: eu não teria um histórico tão abrangente na memória, se a vida não fosse tão longa. Mas o que explicaria então, escrever sobre essas coisas no tempo passado? Ou quem sabe, a vida não tenha sido feita para ser definida. O que explicaria, ironicamente, porque as cidades, os empregos, as ruas e as pessoas sempre mudam. “Que seja eterno enquanto dure”, já dizia Vinícius de Moraes. Convenhamos que um autor nada mais é do que alguém com tempo demais em mãos.

O que eu quero mesmo dizer, independente de qual for o tempo que esta vida dure, é isso: até que se prove o contrário, esta é a sua única chance de fazer o que quiser. O projeto em si é brilhante: você sabe para onde está caminhando, mas não sabe até quando estará livre para caminhar. É impossível voltar atrás, por isso é mais fácil abrir mão do que estiver arrastando para seguir em frente sem o tempo passado te atrasando. E, sim, eu sei o quanto é distorcido ler isso, vindo de mim. Alguém acostumado a emoldurar amarguras em poesias, e depois as disponibiliza para exposição. Mas não pense que faço isso por rancor ou incapacidade de seguir adiante – a verdade é que eu simplesmente não confio totalmente no tempo.

Pode ser que a dor amenize a medida que os dias passem. Pode ser que o novo tome o lugar do familiar, e se torne mais confortável do que o esperado. Pode ser que as coisas melhorem mesmo. Pode ser que não. Acontece que, mesmo esperando pelo que o amanhã irá trazer, o tempo por trás dessa operação é o mesmo que sutilmente te faz esquecer do ontem. E eu não gosto de esquecer. Nem do bom, nem do ruim, nem do que dizem ser inesquecível. Nada é, a não ser que você faça um esforço para isso. Os homens cro-magnon deixaram desenhos nas paredes de cavernas, os artistas renascentistas pincelaram tetos de catedrais e esculpiram arcos do triunfo, e eu... Bom, eu estou aqui, fazendo a minha parte, um parágrafo de cada vez.

Longa ou curta, fácil ou difícil, compartilhada ou solitária, seja lá em qual cidade eu esteja ou quem esteja lendo isso agora, a vida é minha. Não tenho pretensões de tornar-me inesquecível, porque pouco fiz para tornar o mundo à minha volta um lugar melhor do que aquele que encontrei. Mas por dez minutos antes da minha última hora chegar, eu terei fotos, textos, e todos os registros que consegui arquivar durante a minha viagem, para relembrar o caminho que percorri.

Tenho comigo todas as vezes que recebi um “não” em vez de um “sim”. Todas as pessoas que juraram sempre estar comigo, e todas aquelas que não precisaram prometer nada para cumprir isso. Todas as vezes que tive certeza de algo, e errei. E todas as vezes em que arrisquei tudo, podendo ficar sem nada, só para acabar com uma vida totalmente diferente. Em outro lugar, fazendo outra coisa, seguindo outros caminhos, com outro alguém. Eu vivi, e sobrevivi para contar a história.

Eu não sei como você enxerga a sua vida – ou, muito menos, como pode enxergar a minha. Talvez pareça irreverente para um espectador distraído. Talvez minhas atitudes pareçam impulsivas. Talvez minhas palavras soem exageradas. Talvez as atitudes variem entre graus de infantilidade e teatralidade. Talvez você desconfie que, honestamente, eu nunca tive um plano. Eu não sei, mas ainda estou aqui. Tentando dar sentido ao mundo à minha volta, por mais que isso não seja requerido para existir nele.

Ou, quem sabe, talvez eu esteja divagando sobre isso só para te contar que nada até agora foi capaz de me fazer desistir de tentar. Acordar, levantar da cama e fazer o café, é um exercício diário de reconstrução. À curto e à longo prazo, essa é a única explicação para justificar a coragem necessária que encontrei para dizer “eu te amo” a alguém de novo.

A vida é muito Igor às vezes. Ao me citar por aí, não se esqueça da bibliografia.

segunda-feira, 2 de abril de 2018

Medianeira

Dez minutos. Este deve ter sido o tempo máximo durante o qual o ônibus ficou parado na rodoviária. Mas eu não precisei procurar por nenhuma placa que me informasse aonde estávamos. Eu senti um arrepio na espinha quando olhei de relance por uma das janelas e reconheci aquela parte da estrada. Entre o mundo novo e o antigo, há sempre um lugar por onde o caminho se desdobra. 

Eu sabia exatamente aonde estava e, principalmente, quem estava por perto. Alguém que desapareceu para mim desde o último calendário. Alguém que, ao que recordo, nunca quis que eu estivesse naquele lugar.  Alguém que, entre falsas promessas e dedos cruzados, partiu meu coração. 

Por cerca de dez minutos, eu perdi o fôlego. A verdade é que eu não conhecia a cidade - nunca adentrei seus limites, nunca percorri suas ruas, e nunca conheci o seu centro. Há quem diga que haviam mais paralelos entre você e a cidade do que um mero olhar pela janela de um ônibus era capaz de perceber. Eu mesmo costumava pensar que era capaz de enxergá-la mesmo quando esteve diante de mim. Dizendo que me amava, jurando que era só o começo, e mentindo que iria voltar. 

A última vez que a vi, estava tão ansiosa para partir que acabaria por deixar muito mais para trás do que de fato ficou. Eu fui aquele que a ajudou a refazer a mala, incluindo presentes que sequer haviam sido abertos e lembranças que logo se dissipariam pela estrada afora. Só depois eu me dei conta de que aquela seria a última vez que a veria. E por que iria pensar nisso? Você disse que voltaria. 

Em aproximadamente dez minutos, tudo voltou a mim. O sorriso que estampava seu rosto na primeira vez que nos vimos. O vestido que emoldurou seu corpo na noite de Natal. O perfume que se apossou da minha cama por dias após a sua despedida. Só havia uma coisa faltando, pensei, até um olhar despercebido flagrar algo na estação. Algo com a sua silhueta, o tom da sua pele, o mesmo cabelo escuro, e o som da sua risada. 

Em menos de dez minutos, o mundo acabou mais uma vez. Sentado na poltrona 18, cercado de estranhos, em um ônibus de viagem estacionado naquela cidade onde jamais coloquei os pés, revivendo o passado e assombrado pelo futuro que nunca aconteceu, eu chorei. Chorei por tudo que não soube dizer quando me deixou. Chorei por tudo que senti desde a primeira vez que enfrentei a falta que criou. E chorei  pela incerteza imensa sobre um dia voltar ao jeito que o mundo era, antes de você existir tanto pra mim. Ninguém ao meu redor entendeu, e ninguém quis entender. 

O que diria, afinal, se perguntassem? Diria que estava de passagem por um lugar aonde nunca estive, nem nunca estarei. Por não ter sido convidado, e por não ter descoberto quem realmente morava ali. Alguém cujo sorriso ia muito além do que presenciei. Alguém que sabia mentir para quem sabia acreditar. Alguém que, só de imaginar que poderia estar por perto de novo, roubou a minha respiração.

Quando o ônibus tremeu com a partida, a figura na plataforma revelou seu rosto. Não era você. E os significados disso me acompanharam pelo resto da viagem. Não era você, porque provavelmente estava em casa, com seu novo alguém. Nunca será você, porque não está à minha espreita, por mais que eu ande com cautela, aonde quer que eu vá. Sem saber quando finalmente voltarei a seguir meu próprio caminho. 

Levou dez minutos para perceber que essa história ainda não acabou. Eu só não soube dizer por quanto tempo ela ainda iria durar. Algumas viagens às vezes parecem durar para sempre.

quarta-feira, 28 de março de 2018

O outono do amor

Eu sempre considerei o outono como o ensaio geral para o inverno. É a época de transição entre o fim temporário das peles expostas ao sol fins de tarde na beira de um bar, e o começo do nosso reencontro com os cobertores que passam meses guardados em cima do guarda-roupa e as blusas que hibernam enterradas dentro dele. E de todos os cafés e taças de vinho que acompanham a estação mais impiedosa do ano. Mas que, pelo menos, compensa por fazer durar mais os perfumes e embelezar um pouco mais a cidade com aquele tom levemente melancólico e nostálgico que só o ar ridiculamente rarefeito consegue produzir.

É durante esta época transicional, em que as folhas das árvores caem para que possam florescer ainda mais belas na primavera seguinte, que as pessoas podem se inspirar a realizar algumas mudanças em suas vidas também. E para alguns poucos sortudos em especial, esta pode ser a hora de dar um tempo com os bares e as madrugadas em claro para passar mais tempo dentro de casa e debaixo de cobertores. Com um cappuccino em uma mão, e a mão de alguém especial na outra.

Antes do pôr do sol e o nascer da primeira madrugada gelada na cidade, eu me atrevi ir até o extremo do meu outono e vivenciar o amor de verão com o qual eu sempre sonhei. Capaz de causar inveja em qualquer primavera que eu já havia pensado que tinha sido boa. Isto porque, até então, eu sempre parei para apreciar o aroma das rosas sozinho. E com o passar dos dias e o cair das folhas, nem o frio ou a chuva que forçavam sua entrada sob a cidade e em minha vida eram capazes de esfriarem aquilo que parecia aquecer meu coração. A cada beijo trocado, cada passo dado em uníssono, e cada rua atravessada de mãos dadas. Pelo visto o amor não era possível apenas no verão enquanto ainda exista calor o suficiente para dar luz a ele. 

Nada tem a ver com a estação ou a temperatura, enquanto duas pessoas estiverem dispostas a enfrentarem quaisquer tempestades que não podem ser previstas, ou frentes-frias das quais não podemos escapar. Mas o outono, assim como tudo nesta vida, tem um começo, meio e fim. E apesar dele ainda não ter chego ao fim, deparei-me com um iceberg em meu coração tão grande que me senti perdido entre as estações. Como o meu amor pôde esfriar tão rápido, se nem as folhas terminaram de cair ainda?

Meu amor de outono durou quase o mesmo tempo que a estação. Foi uma temporada seca, sem chuvas à vista, com um sol escancarado durante as tardes, mas que sempre criava brecha para que se carregasse um casaco quando se saía de casa à noite. Foi uma estação de sorrisos e risadas como eu jamais pude imaginar ser capaz de expor em meu rosto. De longas caminhadas pela cidade e a redescoberta de lugares tão comuns, como praças, bancos, ou até mesmo as próprias ruas e suas curvas que agora possuíam tamanho significado para mim. Tanto significado que não é mais possível caminhar por eles sem sentir a nostalgia e a saudade do que construímos através deles. Por que não continuei em frente, se a caminhada estava me fazendo tão bem? Por que o outono não poderia durar para sempre?

Porque nada dura para sempre, e eu precisei parar quando senti que o inverno estava chegando. E que eu não seria capaz de enfrentá-lo com um compromisso suficiente para alcançar a primavera. Eu simplesmente não pude, porque você não está destinada a admirar as flores comigo. E a primavera que está reservada para você – a primavera que você merece – não receberia todo o sol que lhe é garantido, enquanto minha sombra estivesse no caminho. Você merece alcançar as borboletas e eu também, mas não chegaremos a elas se continuarmos de mãos dadas e insistindo em seguir direções opostas, sem encontrar nada a não ser chuva. Nada contra a chuva, mas em algum ponto nós precisamos admitir que permanecer debaixo dela nos faria mal. Nos adoeceria. E a nossa estação não teria um final feliz.

E assim o outono continua, porém sem nossas caminhadas enfeitando a cidade enquanto o gelo lentamente toma conta do ar e dos sentimentos das pessoas. A geada está próxima, trazendo medo a cada passo frívolo que dá em nossa direção. E a insegurança, a incerteza, a insensatez também... E talvez tenha sido isso o que acabou com o meu outono: descobrir que apesar de todos os planos de alcançar as borboletas, eu esteja frio demais para sobreviver até a primavera. E não seria capaz de manter você aquecida como deve ser até o calor do sol tomar conta da cidade de novo.

A estação ainda é a mesma, mas eu preciso admitir o inevitável, vestir minhas blusas e preparar um café bem quente e forte mais cedo este ano. Aproveite as últimas folhas que caem. Quanto a mim: seja bem vindo, inverno.

*Escrito em 13 de maio de 2013.

segunda-feira, 26 de março de 2018

Próxima

Eu estou procurando por um “talvez”. E pra quem passou os últimos meses intercalando entre reclamar sobre o passado, evitar o futuro, e beber por ambos, isso pode ser considerado um avanço. Mas o tempo – sempre o tempo – tem seu jeito de nos empurrar adiante, independente de estarmos prontos para seguir em frente ou não. A regra é clara: nós iremos. Você só precisa de tempo para se adequar, bom... Ao tempo. Eventualmente tudo volta ao seu lugar. A poeira abaixa, e aos poucos a estrada volta a ser visível. Eu já escrevi sobre sentir que estava voltando ao normal, já divaguei sobre os meus clichês favoritos, e já enrolei sobre como é melhor esperar por algo real do que esconder-se atrás de alguém imaginário.

Eu tive um relacionamento. Foi bom por um tempo, até deixar de ser. Ela foi embora, e eu sofri por um tempo. O mundo não parou por causa disso, e aqui estamos. 

Próxima?

***

Minha inabilidade de abrir mão das coisas e das pessoas é ironicamente proporcional à quantidade de mudanças pelas quais já passei na vida. De cidade para cidade, a cada novo apartamento, entre um relacionamento e outro, a vida não é nada senão um constante exercício de desconstrução. Nada dura para sempre, e mudar é inevitável. E mesmo quando você tenta evitar, com todas as suas forças, entregar-se a algo novo, as mudanças acontecem por você. A geografia, a economia, e um mutirão de ex-namoradas estão aí para comprovar isso.

A verdade é que eu estive procurando por um “talvez” desde que me conheço por gente. E nada tem a ver com algum sentimento de incompletude que existe em mim, porque tem dias em que eu mesmo sou obrigado a admitir que sou eu mesmo até demais. É sobre querer alguém para compartilhar isso, nos dias ruins e nos bons, entre as minúcias do cotidiano e os grandes acontecimentos. Sobre a emoção da sexta-feira à noite e o tédio do domingo à tarde. 

Não é sobre precisar de alguém para amar, nem sobre ter medo de ficar sozinho. É sobre simplesmente entender que viver à dois, embora deveras desafiador, é mais interessante do que ser livre para pular de bar em bar, ou de cama em cama. Eu estaria casado hoje se “o amor da minha vida” aos 14 anos tivesse dito “sim”. E ao que parece, eu estaria noivo hoje se “o amor da minha vida” do ano passado também tivesse dito isso. 

Há quem diga que esse tipo de raciocínio está influenciado por pressa, desespero, ansiedade, inquietação, ou qualquer outro adjetivo pejorativo cujo qual você consiga pensar, mas não. Eu, desde os 14 anos, sei o que quero para a minha vida. E eu, aos 26 e meio, nunca estive tão cansado de justificar isso para os outros. Ou então, cansado de precisar lembrar a mim mesmo de que, quando é ruim, é passageiro, mas quando é bom, é tudo. 

Eu não tenho culpa se você não sabe o que quer, ou se não sabe lidar com alguém que sabe. Não tenho culpa de acordar, sozinho, pensando em como gostaria de tê-la deitada ao meu lado. E de poder ser feliz ao preparar o café que levaria até ti na cama. Com um domingo preguiçoso inteiro pela frente, sem nada planejado a não ser admirá-la, toda descabelada, sem maquiagem, usando alguma camiseta minha, reclamando do calor ou qualquer outra coisa, só para se certificar de que estou prestando atenção em você. 

Eu quero uma união. Um casamento. Uma parceria. E para isso eu faço planos, perco a paciência, tenho crises de ansiedade, escrevo mais do que deveria para quem menos merecia ler, dedico músicas e músicas à pessoas que nunca realmente pararam para ouvi-las, confio cegamente e me humilho publicamente, à espera de que, um dia, eu encontre um “talvez”. Alguém que esteja disposta a relevar minhas manias, meus dramas, meus excessos, minhas faltas, meus descuidos, minhas desventuras e meus desgostos, porque sabe que há algo adiante na estrada que faz tudo isso valer a pena.

Todo dia eu procuro dar o meu melhor para manter a vida que tenho. A vida que tem sido possível ter. Mas, pra ser sincero, estou mesmo cansado é de esperar que a vida que eu quero comece. Só que, para chegar até ela, eu preciso de você. Preciso de um encontro, uma chance, um beijo. Um “talvez”.

Próxima!