terça-feira, 5 de dezembro de 2017

O amor da minha vida


Foi ao chegar frente às portas da rodoviária naquele domingo ensolarado que eu enfim tive a certeza. A confirmação de uma sensação que sempre tive; de que um momento importante da minha vida ocorreria naquele cenário.

Foi mesma a sensação que tive quando voltei para visitar Londrina pela primeira vez após ir embora. E ao colocar os pés no chão da rodoviária, o inevitável se tornou claro: uma vida havia ficado para trás. A mesma sensação, anos depois em Cascavel, tomou-me novamente em uma noite fresca de junho: tudo que vivi e construí naquela cidade havia alcançado o seu fim. Aquela vida terminou. E o que eu ainda procurava, apesar de tudo que conquistei, não estava lá. Um caminhão de mudança depois, e aqui estamos: Foz do Iguaçu.

A essa altura você já deve estar se questionando sobre porque estou te contando isso.

Bom... É porque toda vez que me encontro diante de uma situação que sei que irá mudar a minha vida para sempre, eu me apoio nas duas grandes mudanças que vivenciei antes. Por nenhum outro motivo a não ser para me amparar na segurança de que não houve arrependimentos. A vida que você tem precisa ficar para trás, para dar lugar à vida que você quer.

Eu mudei muito. De cidade a cidade. Por quitinetes e apartamentos. Conheci amigos novos, reencontrei antigos, e perdi colegas. Tive empregos, experiências, brigas, dores de cabeça, dias de cansaço e risadas que me tiraram o fôlego. Tive uma vida mais plena do que muitos outros caras neuróticos de 26 anos que eu conheço. E acima de tudo, aprendi a reconhecer a minha sorte. E o amor que existe não só ao meu redor, mas em mim.

Demorou; eu admito. Foram precisos anos, quilômetros, desvios e acidentes de percurso. Pessoas boas e outras nem tanto assim, que sem querer me ensinaram a avisar quais são aquelas que se deve manter por perto. Nem todos os dias foram bons. Alguns deles, inclusive, me desanimaram o suficiente para acreditar que eu iria adorar o amanhã. Mas esse é o segredo. O clichê passado de geração para geração, entre pais e filhos, irmãos e irmãs, amigos e amantes. As coisas acontecem por um motivo. E minha vida imperfeita e quebrada, embora ainda determinada a sonhar com o que eu tanto procurava no mundo lá fora, foi o que me levou até aquele momento.

O sentimento que tive ao me deparar com as portas da rodoviária naquele domingo ensolarado era mais que familiar. Era a certeza de que minha vida estava prestes a mudar de novo, e que tudo que eu conhecia e tinha como parâmetros ficariam para trás. E ao entrar e procurar ao meu redor pela última vez, eu a vi.

A garota do sorriso iluminado. A virginiana teimosa. A morena de pele clara e olhos castanhos. A mulher que sabia ser má de um jeito bom. A menina que também passou a vida não à procura, mas à espera de algo. Alguém que a enxergasse como ela era, com toda a sua beleza. O esplendor que ia além do seu rosto, até o seu coração enorme e apaixonante. Natural de uma cidade pequena, caseira, dedicada à família, ao trabalho e ao amor pelas causas que só estavam perdidas por quem não percebeu do que estava diante.

Aquele foi o dia em que eu a encontrei. A pessoa que torna novo todo o mundo ao redor. Que te faz esquecer todo o cansaço e solidão que já sentiu um dia. Que faz você se sentir ridículo por ter chego a acreditar que isso era só um sonho, que contos de fada não existem, que o que você procurava não estava lá fora, e que você um dia pensou em abrir mão.


Naquele domingo ensolarado, eu encontrei você. O amor da minha vida. Desculpe pelo atraso, meu bem. Eu estava ocupado tentando me tornando a pessoa que precisava ser para te conhecer. Mas eu cheguei. E eu te amo.


No final das contas, você não é tudo aquilo que eu procurava. É muito, mas muito mais. E, por isso, eu sou tão grato.

domingo, 26 de novembro de 2017

O que amor tem a ver com isso?

Seis e quinze da manhã, toca o despertador. Levanto com os gatos chorando como se não fossem alimentados há meses, quando na verdade faz só algumas horas. Entro na área de serviço para abastecer o potinho e me deparo com sérias evidências de que eles deveriam entrar em uma greve forçada de fome: um dos filhotes passou mal. Muito mal. Pelo banheiro inteiro da área de serviço. No chão, nas paredes... E deixou pegadas disso até a sala. Como se eu fosse esquecer o que aconteceu. Seis e trinta e cinco. Banheiro limpo, definições de trauma atualizadas com sucesso, e a dúvida pairando sobre tomar banho ou café antes de trocar de roupa e correr atrás do primeiro ônibus que surgir, após eu perder o das 6h45. Há quem consiga ser otimista diante de todas as situações adversas possíveis que possam surgir pelo caminho. Eu não sou uma dessas pessoas. Mesmo sendo pessimista por natureza, simplesmente não havia como negar: meu dia seria uma merda.

***

Algum tempo depois, eu fiquei pensando nas variáveis equivalentes a uma zona na área de serviço, que têm acontecido ao longo de 2017. As brigas com os amigos, os problemas de família, os transtornos no trabalho... O amor que não encontrei. E que procurei, e procurei... Até continuar sozinho. Magoado. Frustrado. E agora, graças ao episódio tragicômico mais recente, na merda.

Quando dias assim acontecem, é fácil distribuir mau humor, sarcasmo, e culpa a todos ao seu redor. É assim que surgem as brigas entre amigos, os problemas de família, os transtornos no trabalho... Mas, e o amor? O que amor tem a ver com isso?

É a pergunta que carrego comigo há anos.

O que acontece é simples. Todo dia, às 6h15 da manhã, eu me levanto pensando que talvez hoje possa ser o dia. O dia em que eu finalmente a encontre. Talvez seja por uma amiga de uma amiga minha. Ou então, por uma conhecida de alguém próxima da família. Pode até mesmo acontecer com uma colega de trabalho. Eu não sei. Ainda é cedo pra dizer o que esse dia irá trazer. E eu confesso que, por muito tempo, me senti envergonhado por esse tipo de raciocínio. E sou assombrado por colegas próximos que insistem em me dizer que amor não se procura; “ele simplesmente acontece”.

Os mesmos colegas que, por acaso, já encontraram alguém. Não seja essa pessoa. Não grite conselhos sobre como vencer a maratona para quem ainda está correndo. Cada um tem sua velocidade. Cada pessoa é diferente.

Quanto a mim, já faz algum tempo que me conheço bem. Sou alguém à procura de amor. Amor ridículo, inconveniente, consumidor, do tipo um-não-vive-sem-o-outro. E mesmo quando os dias são bons, o fato de eu ainda não tê-la encontrado faz de tudo... Bom, uma merda. E é por isso que eu não preciso da metáfora materializada perante mim, espalhada por todo o meu banheiro, às 6h15 da manhã. A vida já é difícil o bastante.

Foi uma semana difícil. Em um ano muito complicado que já poderia ter acabado há uns três meses, se dependesse de mim. Foi corrida, atarefada, cansativa. Com horários a cumprir, compromissos a comparecer, provas a serem feitas, ônibus a serem pegos e, como se tudo isso já não bastasse, merdas a serem limpas.

***

Mas durante a maratona diária da vida, algumas coisas pelas quais passei pelo caminho me vieram à mente. Algumas coisas que, por acaso, incluí em um recente trabalho de faculdade – entre tantos que precisavam ser entregues essa semana. Fiz o que precisava ser feito, do jeito que precisava ser feito, e dediquei tanto amor àquelas palavras quanto pude, na falta de alguém que estivesse disposta a recebê-lo.

Passei dias escrevendo, enquanto minha família cuidava das tarefas de casa por mim. Passei horários de almoço no trabalho escrevendo, enquanto meus colegas entendiam o motivo pelo qual não pude sair para comer com eles. Passei noites escrevendo, enquanto meus amigos pediam ajuda para que pudessem escrever o deles também. E quando chegou o dia de escrever as considerações finais, salvar o arquivo e clicar em “imprimir” para enfim entregá-lo à avaliação, o dia começou daquele jeito: com merda para tudo quanto é lado. Definitivamente não parecia ser um bom sinal, mas o dia precisava continuar.

Antes que eu te conte o que aconteceu no fim, preciso confessar outra coisa. Viver em busca de amor não é mesmo saudável, nem aconselhável. Ele realmente acontece, simples e leve, ao longo dos pequenos detalhes do dia a dia. É o que acontece quando sua irmã mais nova comemora junto com você, quando consegue escrever as quatro páginas de fundamentação teórica que havia jurado pra si mesmo que escreveria naquele dia. É o que surge quanto seus colegas de trabalho tiram um momento entre as brincadeiras e todo o serviço que precisa ser feito, para te dizer que você escreve muito bem. E é o que existe quando seus amigos pedem sua ajuda para que também possam fazer um trabalho bem feito, porque confiam em você para ensiná-los.


E como se não fosse o bastante, amor é o que está envolvido quando você chega em casa e encontra isso:


Amor é o que acontece ao seu redor enquanto você está ocupado demais, distraído, alegando que ele não existe. Eu não sabia disso ainda, porque estava concentrado em higienizar aquele banheiro, mas descobri quando recebi uma mensagem da minha professora Elogiando meu trabalho e sugerindo que, se eu tivesse vontade, poderíamos adaptá-lo para um artigo. Meu primeiro artigo publicado.

Merdas acontecem. E fica difícil ás vezes enxergar o amor à sua volta. Mas ele está logo ali: nos seus amigos, no seu trabalho, na sua família, e no empenho que você coloca dia após dia para manter tudo em ordem. Aquelas pessoas tinham razão, mas erraram em um pequeno detalhe. Não adianta viver a vida à procura de amor, se você não sabe como enxergá-lo. E no maior dos clichês – tão clichê quanto filhotes que bagunçam a casa durante a noite – eu percebi, ao fim de uma semana difícil e de um ano muito complicado que ainda não acabou, que o amor esteve aqui comigo o tempo todo. Compartilhado com você aí que está lendo isso.

Faça um favor a nós dois, por gentileza. Leve-o adiante.

domingo, 19 de novembro de 2017

O bêbado e o malabarista

Fui ali e voltei.

Esta é a melhor maneira de explicar por onde andei. Claro, você provavelmente chegou a me encontrar naquele mesmo bar perto da faculdade, ou então cruzamos olhares enquanto eu me servia de mais uma xícara de café em uma manhã qualquer no trabalho, ou quem sabe nós nem realmente chegamos perto de nos vermos. Não seria a primeira vez. Nem a última, por sinal.

Eu andei por aí, silencioso, porque não sabia mais o que dizer. Talvez eu nunca realmente soube. E não senti vontade de continuar preenchendo linhas em vão, ainda sem saber o que queria dizer. Ou então, não sabia para quem queria dizer. Foi aí que as coisas começaram a ficar claras.

Já faz alguns anos desde que isso começou. A maioria de vocês já conhece a história, mas para quem desceu do ônibus agora, o resumo da ópera é simples. Um dia eu saí de casa e passei a escrever sobre tudo e todos que encontrei por aí. Na esperança de que os registros me ajudassem a voltar caso a vida lá fora não cumprisse todas as promessas que fez. Mas, sobretudo, foi uma maneira de não me perder pelo caminho.

Bom, eu estive percorrendo este caminho pelos últimos oito anos. E por ele já se passaram três cidades, alguns apartamentos, momentos especiais (e outros nem tanto) em família, incontáveis relacionamentos (reais e imaginários), os dramas cotidianos que compõem a grade curricular de uma faculdade e meia, e as trilhas sonoras que tocavam nos meus fones de ouvido enquanto estive por aí. Andando, correndo, falando, rindo, brigando, amando, pedindo desculpas e tentando aprender a simplesmente abrir mão da bagagem que não precisa ser levada adiante. Vale ressaltar que os dois últimos aspectos da lista ainda são um trabalho em progresso. Assim como eu. Assim como você.

A questão agora não envolve por onde andei, quem encontrei, o que tudo isso me fez sentir, ou quais músicas foram inspiradas ou arruinadas pelo que houve. O que importa agora é isso: eu não sei mais o que quero dizer. E a principal consequência disso é evidente pra quem está acompanhando mais de perto: eu não sei mais para onde ir. E é nisso que estive pensando enquanto tornei meus registros aqui inacessíveis para quem estivesse interessado em ler. Coisa que, confesso, vai além de toda a minha compreensão.

Por que você está lendo isso?

Tudo bem; eu avisei que havia algo novo a ser lido. Mas o que te realmente te trouxe até aqui? Você queria saber como eu estava? Poderia ter me perguntado. Queria saber por quem estou sofrendo por amor? Faz diferença a essa altura, ou só queria saber se ainda era por você? Queria saber qual música ando dando replay ao ponto de encaixar sua melodia aqui? “Evidências”. É sempre “Evidências”.

***

Dia desses, eu estava andando por aí – porque às vezes parece que é só isso que eu faço mesmo; a pé, de ônibus, na rua, na chuva, na fazenda... – quando um malabarista de sinaleiro me parou. “Você tem um limão?”, ele perguntou. “Não, desculpe. Por que?”, eu disse, inexplicavelmente me engajando nesse diálogo infame e me desculpando por não dar a resposta que ele esperava. “Por que essa cara de azedo então?”, ele respondeu. E enquanto ele seguiu seu caminho, eu fiquei parado por alguns instantes, em dúvida sobre qual caminho eu mesmo deveria seguir agora: refletir sobre a cara de azedo que estava inconscientemente exibindo, ou sobre quais repercussões sociais eu enfrentaria caso puxasse briga com um malabarista de sinaleiro. Optei por seguir em frente, porque já estava atrasado para meu próximo compromisso, que provavelmente também envolveria diálogos sarcásticos desse tipo.

Vale ressaltar também que, pouco tempo depois, eu fui parar naquele mesmo bar perto da faculdade.

Eu não sei porque estava com cara de azedo. E o malabarista não era sequer o primeiro naquele dia a apontar isso para mim. Era uma sexta-feira, era quase happy hour, era o princípio de mais um fim de semana que poderia incluir desde a escrita de trabalhos acadêmicos atrasados até uma soneca de dois dias. Eram todas as possibilidades do mundo, e eu estava com cara de azedo. Talvez porque não estivesse escrevendo há algum tempo. Talvez por algum perfume que me lembrou de uma decepção amorosa. Talvez porque eu sabia que alguns boletos só seriam pagos em atraso no próximo mês. Ou talvez eu só estivesse cansado de tudo: da semana, das pessoas, dos horários dos ônibus, dos trabalhos acadêmicos atrasados, e por lembrar que não havia limões em casa para fazer uma caipirinha.

E diante da falta de escrever, de um amor, de dinheiro para quitar as contas e de limões para um drink, pensei na vida que estava teoricamente em andamento, mas aparentemente sem chegar a lugar algum. A não ser com faltas e cara de azedo para mostrar.

***

Dias depois, em uma manhã preguiçosa de domingo – muito parecida com a manhã que inspirou o último texto que deixei aqui – passei horas na cama pensando sobre porque não havia ninguém deitada ao meu lado. Será que depois de anos de relacionamentos, haveria ainda um motivo para explicar porque nenhuma delas estava ali? Infelizmente, eu não soube dizer. Felizmente, a vontade de escrever sobre mim, e para mim, me motivou a colocar a cafeteira e minhas palavras para funcionarem.

Não sei quanto a você, que inexplicavelmente ainda está aí, mas eu senti a minha falta.

Anos atrás, quando decidi que iria escrever sobre tudo e todos que encontrasse por aí, foi a primeira decisão sensata que senti que havia feito por mim. Foi o que senti vontade de fazer para viver. Para trabalhar, para amar, para seguir adiante quanto tudo mais falhasse. Quanto tudo mais faltasse. Claro que eu me divirto quando escrevia sobre você e nossa vida que poderia ter sido, mas não foi. Faz com que eu me sinta melhor sobre você não estar aqui agora, e me ajuda a ter ideias para o próximo capítulo da minha vida que ainda será escrito. E essa motivação, essa superação, essa inspiração toda, é bonita...

Talvez seja por isso que eu ame escrever. Talvez seja por isso que você ame ler. Talvez seja por isso que a gente insista em adorar o amanhã. Eu não sei. Por um tempo eu não tive as respostas, e não sei se as tenho agora. Mas a falta de vontade de perguntar quase me matou. No mínimo, me deixou com cara de azedo. Pode não fazer sentido, pode ser baseado em fatos irreais, e pode ou não sofrer com a influência do álcool, mas minhas palavras são a melhor coisa do mundo. Meu mundo, ao menos. Se forem do seu também, vamos conversar. Mas vamos deixar algo claro, isto não é sobre você. Nunca será sobre você. Isto é sobre mim, e para mim. Talvez nada disso irá mudar o mundo lá fora, mas faz um bem imensurável a mim aqui dentro.

Eu ainda não sei para onde estou indo, mas antes recuperar o fôlego para seguir adiante do que desistir até mesmo de olhar para trás e questionar a viagem inteira. Talvez eu não precise das respostas. Talvez eu só precise continuar me movendo.

Fui ali e voltei.

sábado, 4 de novembro de 2017

Ela


Era um domingo de manhã. A chuva era intensa lá fora. Você estava adormecida ainda nos meus braços quando acordei. Sua pele morena refletida levemente pelos primeiros raios de luz que invadiam o quarto. Você estava em paz. Pensei em levantar e preparar o nosso café da manhã, mas não queria interrompê-la. Você estava dormindo tão profundamente. Descansando suavemente. Existindo perfeitamente. Eu não queria que aquele momento acabasse. Então fiquei deitado ali, ao seu lado, com meus braços ao seu redor, me sentindo grato por você. Por nós. Pela sinfonia da chuva. Pelo amor que estava entre nós, são e salvo de tudo. Nós poderíamos ficar ali para sempre. Nós deveríamos ter ficado ali um pouco mais. Mas, não. Eu quis levantar, preparar o café, começar o dia. Eu, afobado pela vida como sempre, nunca soube discernir o que realmente importava nela. Nós importávamos, disso eu tinha certeza. Mas a insistência em querer levantar fez com que eu a soltasse.

Aquele foi o último domingo que passamos juntos.

***

Ultimamente eu não consigo parar de pensar em você. Em como você está, o que tem feito, com quem tem falado. Se está feliz...

Sinto sua falta como nunca sentira antes. Como se uma parte de mim estivesse faltando, e nada nem ninguém me desmotivaria de continuar te procurando. Saudade é o nome, e usava o seu perfume.

Queria que estivesse em casa quando eu chegasse. Eu cuidaria de tudo. Deixe-me preparar o jantar, servir o vinho, puxar sua cadeira. Como sobremesa, podemos só nos aconchegar no sofá, em uma noite amena, com um cobertor e o calor do seu corpo junto ao meu. Você pode me contar como foi o seu dia, ou pode se entregar à preguiça, apoiada em mim. Eu passei o dia só esperando para abraçá-la de novo. Beijá-la de novo. Confessar baixinho em seu ouvido que estou feliz por esta vida. O mundo recomeçou quando você apareceu, e tudo vale mais a pena quando é compartilhado contigo. Pode ficar tranquila. Pode relaxar. Estou aqui, meu bem. Estamos aqui agora. Não sei se pode me ouvir, mas isso era tudo que eu queria.

Sabe quanto tempo eu esperei por você? Você não faz ideia de quantos encontros, quantos quilômetros, quantas promessas foram necessárias para que eu chegasse até você. Eu sei que não sou perfeito. Falo demais, escuto de menos, faço muito caso de coisas pequenas. Não sei reconhecer quando estou errado. Mas soube reconhecer que você era certa. Sei que nossa vida não é fácil. Entre os problemas, a correria, os horários, os compromissos, o cansaço... Às vezes parece que nunca voltaremos para casa. Às vezes tenho medo de que você não estará mais aqui. Mas cá estamos... E eu cheguei a pensar que você não existia. E que viver sozinho não seria tão ruim. Mas aí eu não teria conhecido sua mãe, e minha mãe não teria conhecido nossos filhos. Não teríamos tido a alegria de deixar nossa casa do jeito exato com o qual sonhamos. Eu não teria sentido aquele arrepio quando você topou sair comigo. Ou aquela emoção na igreja quando você aceitou passar o resto da sua vida comigo. Olha onde estamos agora... Eu nunca imaginei que esse tipo de amor pudesse existir, meu bem. Obrigado pela vida que construímos. Pela paciência. Pelas piadas sem graça. Pelo som da sua risada. Pelo brilho dos seus olhos. Por ter ficado.

***

E tudo isso poderia ser verdade hoje, se eu não tivesse insistido em levantar para fazer o café. Eu fui aquele que partiu. À procura de algo que nem sei o que é, e que provavelmente nunca encontrarei.

Mas se eu encontrá-la de novo – por favor, meu amor – não me deixe ir.

domingo, 29 de outubro de 2017

26


O que eu aprendi aos 26 anos...

Pra começar, eu fico escrevendo “16” em vez de “26”, o que já indica claramente por onde anda a minha maturidade. Também ajuda a explicar o meu crescente desapego por contatos de WhatsApp que poderiam ter sido bloqueados há muito tempo. Como meu primeiro ato a entrar em vigor neste novo mandato de vida, eu declaro a substituição de discussões recheadas de comentários sarcásticos por um bloqueio objetivo e silencioso. Não é fácil ser sarcástico, e nem todos são capazes de entender. Logo, o reservarei para ocasiões especiais e pessoas próximas. Ou ocasiões próximas com pessoas especiais. Ou a hora que eu quiser. O plano de governo ainda está em construção. Mais detalhes em um release posterior.

***

Vinte e seis anos. Cronologicamente, representam a passagem do primeiro quarto de uma vida relativamente saudável. Emocionalmente, representa a curva derradeira entre o território mais ameno dos vinte-e-poucos, e a ladeira alucinada até a linha de chegada dos 30.  Sabe quando você era jovem e se recusava a dar um dos adesivos para qualquer um dos seus amigos, porque estava guardando-os para depois? Este é o depois.

Não é o fim, como eu costumava pensar outrora. “O fim” está programado para daqui quatro anos, se eu cruzar aquela linha de chegada solteiro, acima do peso, e ganhando menos do que preciso para sobreviver e garantir meu vinho para as terças-feiras de Masterchef. Esses são os meus objetivos de vida a serem atingidos até os 30. Seria bom estar casado aos 30, e começar a descobrir outros aspectos desta vida como, por exemplo, a sensação de passear pela sessão de utensílios domésticos do mercado e discutir com a esposa sobre quantos kits de jogos americanos nós precisamos para o uso cotidiano e os jantares com amigos aos fins de semana. É clichê, é arcaico, é ridículo, e é o que eu quero.

O casamento, até onde eu sei, é algo demorado de se planejar. Deve ser para isso que o noivado serve. Subtrai-se um ano e meio do tempo restante para o impacto final, e chegamos aos 28 ½. Quanto tempo leva para elevar um relacionamento ao noivado? Meus pais levaram cinco anos; meu melhor amigo levou dois. Se dependesse de mim, eu teria casado aos 14 com a Fulana, durante nosso primeiro ano do ensino médio. Mas ela disse “não”, ficou com vários outros caras, eventualmente engravidou e, dois anos depois, casou com o pai do Enzo. Talvez tenha sido pra melhor, mas enfim...

Estamos falando de mim, sob um grau de maturidade que ainda não atingi, nem fiz por merecê-lo, mas gostaria de aspirá-lo. Um relacionamento de um ano poderia se transformar em noivado. Com o mundo globalizado, as mídias digitais, a desconstrução do Mercosul, a base aliada dividida sobre o Temer... As coisas fluem mais rápido agora. Subtraia mais um ano do tempo restante, e chegamos aos 26 ½. O que significa que, para os fins desejados, eu tenho mais seis meses para conhecer o amor da minha vida, ou aprovar a que tiver a pontuação mais alta no meu processo seletivo.

Valendo.

***

Quem dera fosse tão simples assim. Aos 26, eu aprendi que não existem coisas simples. Só relacionamentos complicados, familiares distantes, idas ao mercado entre o trabalho e a faculdade, e a impressão de segundas vias de boletos, porque a primeira não chegou a tempo pelo correio. Mas no início derradeiro dos meus vinte-e-poucos, decidi que este seria o tempo de cometer o maior número de erros possíveis, incluindo mas não limitados a ir à baladas que eu não queria ir, marcar encontros com expectativas altíssimas, me apaixonar pelas garotas erradas, confiar em pessoas que minha mãe desaprovava, e não me importar em dormir menos de oito horas por noite. E depois de anos de pesquisas em campo, tenho, enfim, alguns resultados a apresentar que me dão o direito de construir algumas definições concretas.*

*Eu queria dizer que agora tenho novas regras, mas a Dua Lipa já possui os direitos autorais sobre isso, eu acho.

Enfim, segue abaixo os meus dez mandamentos:

01. Trabalhe como se não precisasse do dinheiro. Ame como se nunca tivesse se decepcionado antes. Dance como se ninguém estivesse olhando.
02. Nunca vá a um happy hour em meio de semana. Nunca durará só uma “hour”, e o dia seguinte não será “happy”.
03. Nunca dê segundas chances para pessoas que falam mal de você para terceiros. Mantenha os prints como provas documentais para discussões futuras.
04. Nunca sugira um cinema como plano para um primeiro encontro.
05. Não faça joguinhos com seus amigos que ainda insistem em ser seus amigos após o período inicial de seis meses. Os fracos vão arrumar coisa melhor pra fazer. Os fortes merecem que você vá direto ao ponto.
06. Música favorita: “One”, do U2. Cor favorita: verde. Melhor pessoa do mundo: mamãe. Comida favorita: strogonoff. Bebida favorita: depende do objetivo (encher a cara: cerveja; contemplação: vinho; choro: uísque; passar vergonha em público: tequila).
07. Sorria mais. É de graça.
08. Não há vergonha alguma em contar moedas para pagar por algo.
09. Passe tempo com a sua família.
10. Aceite que o mundo não gira ao seu redor. Nem mesmo o seu mundo.

***

Obrigado aos que continuam comigo, por não sucumbirem ao meu pior. Eu não sou uma pessoa fácil, tampouco tenho planos de me tornar uma. É mais provável que eu só piore com o tempo, como meu pai e meu avô antes dele. As melhores pessoas do mundo geralmente são insuportáveis de se ter por perto, mas isso não torna impossível amá-las. Quanto aos que partiram, ou os que por ventura mandei embora... Bom. Segue o baile. Mas acima de tudo, há algo que eu espero e muito desse novo ciclo que se inicia...

Absolutamente nada. 2017 desconstruiu tudo que eu conhecia como certo nesta vida, e me jogou num redemoinho de horários de ônibus e fadiga muscular. O que só pode significar que, de uma vez por todas, não adianta fazer planos. Assim como não adianta deixar as coisas pra depois.

Lembre-se, Igor: este é o depois.