sábado, 16 de junho de 2018

A vida boa



Existem dois tipos de pessoas: as que saem em busca da felicidade, e as que acreditam que a felicidade as encontrará. Eu sempre fui do primeiro tipo, inquieto ao ponto de perder meu ônibus, olhar descrente para o horizonte, e pensar: “Quer saber de uma coisa? Eu consigo chegar até onde eu preciso, a pé!”. Talvez não seja o modo mais eficaz de viver, mas uma coisa é certa: mais cedo ou mais tarde, eu sempre cheguei aonde queria.

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Aos vinte e poucos anos, é difícil não deixar-se levar pela bagagem que você já acumulou pelo caminho. Pelos lugares onde morou, as pessoas que conheceu, os cursos que estudou. Tudo influencia o modo como você pensa agora e, invariavelmente, tudo que ainda quer conquistar para si. Não é segredo pra ninguém o quanto eu sempre quis, mais do que tudo, alguém para amar. Não por não saber ser feliz sozinho – isso seria até uma ofensa ao meu Igorcentrismo. Mas por entender que a vida vale mais a pena, a dois. Seja um parente, um amigo, ou o que possa vir a tornar-se o amor da sua vida, isso é fato: quando se está viajando pela longa estrada da vida, você vai precisar de alguém ao seu lado. Se não para impedir que você se perca, que seja para rir das suas piadas sem graça.

Pra falar a verdade, eu defenderia qualquer motivo para justificar a necessidade humana mais básica de todas: não sentir-se sozinho. E talvez seja difícil para que você imagine o quão fundamental é isso, estando rodeado de amigos, familiares e colegas de trabalho o dia inteiro. Mas depois de quase dez anos longe de casa, inúmeros endereços, souvenirs de pessoas queridas e cicatrizes de outras menos gentis, eu percebo hoje como não existe nada mais importante do que isso. Você pode morar sozinho se quiser, mas acredite em mim: em algum momento frágil, de um inverno aparentemente sem fim, você vai sentir falta de alguém do seu lado.

É claro que trago esse desabafo sob a total distinção entre encontrar uma cura para a solidão e assumir um relacionamento com alguém. Mesmo sendo sincero ao admitir que nunca pensei que alguém poderia julgar-me digno de viver uma vida ao seu lado. Logo eu, com minha coleção de neuroses e inseguranças, meus tiques nervosos e minha ansiedade, meus vícios e meu sarcasmo sempre engatilhado, pronto para me defender de qualquer ameaça – ou só para me fazer rir às custas de algo injustamente infame. Talvez morar sozinho não tenha sido uma opção minha, mas algo predestinado a acontecer. Bom, isso se você acredita nessas coisas. Para isso, teríamos que acreditar também que o universo não é regido por um caos completo e que, apesar dos pesares, nós ficaremos bem quando o amanhã chegar.

Não, espera... Eu acredito mesmo nisso. E é por isso que nunca senti tanto medo assim, em sair pela vida afora à procura do que pudesse me fazer feliz. E não me canso de ressaltar quantas cidades, quantas pessoas, quantos lugares passaram por mim, para chegar até aqui. Mais vezes do que também me sentia capaz de suportar, tive meu coração partido. Mais vezes do que julgo ter sido necessário, o mundo ao meu redor mudou, acabou e ressurgiu. E mais vezes do que consigo lembrar, eu repeti a mim mesmo que tudo ficaria bem.

Talvez a minha quilometragem seja de fato pequena em comparação a outras pessoas por aí que viajaram o mundo em busca da realização de um sonho, mas eu não me importo. Às vezes eu tenho a sensação de que cheguei mesmo até aqui a pé, e estou cansado. Então permita-me a soberba e o orgulho de suspirar aliviado por estar aqui, quase inteiro, escrevendo isso. Já que estamos sendo sinceros, eu não pensei que conseguiria chegar tão longe. Muito menos, acompanhado.

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Existem dois tipos de pessoas: as que saem em busca da felicidade, e as que acreditam que a felicidade as encontrará. Geralmente uma encontra a outra, e descobrem juntos que a vida é boa, mas que é muito melhor com você.

domingo, 3 de junho de 2018

Nós



A verdade é que ninguém realmente saberá responder à eterna pergunta: “o que faz um relacionamento funcionar?” O mesmo pode ser dito sobre suas variantes: “estou em um relacionamento saudável?”, “é isso mesmo que eu quero para a minha vida?”, “quando se sabe que tal pessoa é de fato a pessoa?”.

Eu li certa vez em algum lugar sobre como você realmente se descobre como pessoa pelo modo de criar seus próprios filhos. Apesar de ainda não ter a experiência em arquivo, eu prefiro pensar que existe um estágio anterior a este. Um bem mais antigo e registrado por sociólogos, psicólogos, antropólogos, e quaisquer outros especialistas que estudaram para adicionar o sufixo “ólogo” ao seu título. Você se descobre mesmo a partir do outro. Ou, melhor dizendo, a partir de momento em que duas pessoas completamente diferentes – com endereços distantes, educações paralelas, dotados de uma constelação de amigos, familiares e ex-pessoas que vieram antes – decidem assumir a posição mais comprometedora de todas. A irônica primeira pessoa do plural: nós.

Por que irônica?”, você já deve estar pensando. Bom, em se tratando de prioridades, quem vem primeiro: nós ou ele(a)? Estar em um relacionamento é estar invariavelmente fadado a não só questionar-se, mas ao outro também. Do “bom dia” ao “boa noite”, passando pelos entraves mais simples do tipo “o que você quer comer?” e circulando as rotatórias do tipo “o que você quis dizer com isso?”. É passar horas, dias, semanas pensando sobre quem realmente é aquela pessoa, até finalmente trazer o questionamento de volta para si na forma de “é com ela com quem eu deveria estar?”.

Viver sozinho é fácil, acredite em mim. Sartre não cunhou sua célebre frase, “o inferno são os outros”, à toa. Mais do que isso: ele criou uma linha completa de raciocínio psicológico dedicado a esse exato princípio – algo que você ouviu por aí chamado de Existencialismo. E você não precisa ser ter um diploma em Psicologia para entender certos conceitos: o conteúdo fenomenológico-existencial registrado em livros de pesquisa é o mesmo aplicado por abaixar sutilmente a cabeça enquanto caminha pela rua para evitar cumprimentar um semi-conhecido.

“Antes só do que mal acompanhado” é outro clichê famoso. Geralmente empregado por pessoas que, antes de conceberem a possibilidade de interagir com alguém, ainda sequer dominaram a arte de conviver consigo mesmo. Falando por mim, eu costumava praticar “a dor e a delícia de ser” quem eu sou (créditos: Caetano Veloso) ao ponto de amigos de longa data sequer terem chego a conhecer o interior do meu apartamento. O outro existia até onde eu podia controlá-lo: no limite exato entre a minha real intimidade e a sua destrutiva exposição.

Eu gosto das minhas coisas no exato local em que as deixo, e se algo um dia mudar será por opção minha. O que, por sua vez, explica a minha completa falta de destreza para lidar com mudanças originadas pelo mundo real – sejam elas familiares, afetivas ou imobiliárias. O único objeto verdadeiramente imóvel da vida é a morte. O que acontece entre o nascimento e a próxima vez que algo despencar de um prédio na minha cabeça, é puro e indisciplinado caos. Salve-se quem puder, literalmente. É mais fácil fazer isso com alguém ao seu lado? A melhor resposta para tudo na vida é e sempre será: talvez.

A essa altura você deve estar se perguntando, mais uma vez, o que isso sinceramente tem a ver com relacionamentos. Provavelmente estava lendo até aqui na esperança de que eu produzisse respostas satisfatórias o bastante para tornar o seu domingo mais leve. Bom, eu não tenho as respostas – não foi o que eu disse desde o começo, lá em cima? Mas é a curiosidade, a procura, o “talvez”, que nos tira da cama todas as manhãs. A incerteza sobre o que acontecerá conosco hoje, ou amanhã, ou depois. Não só conosco, mas com aqueles que amamos. Será que continuarão ao nosso lado? Será que nos deixarão a partir do momento que descobrirem quem realmente somos? Ou então, continuaremos ao lado deles depois que nossa primeira impressão tornar-se rarefeita? Eu também não sei. É impossível mensurar quem é uma bagunça maior: você ou eu.

Cada questionamento é um novo aperto do nó enlaçado entre a sua vida e a minha. Porque é isso que decidimos ser: nós. Algo unido ao ponto de quase mesclar-se ao outro, porém diretamente proporcional na segurança e na dor que tende a causar. Talvez ainda exista um nível superior a esse, quando os filhos entram em cena, mas por enquanto tudo que posso dizer com certeza é que viver a dois, embora deveras desafiador, ainda faz a vida valer a pena. Todos procuramos respostas para os “talvez” que nos rodeiam. Mas a partir do momento em que você disse “sim”, a dor parou. Entre neuroses, ansiedades e inseguranças, a outra verdade é que eu nunca mais vivi sozinho.

Sabe o que também não recebeu seu nome à toa? Aliança.

domingo, 6 de maio de 2018

A princesa e o adulto



Por mais que existam diversas definições sobre o que é o amor – seja por uma música, um gesto, ou um poema – talvez nunca seja realmente possível retratá-lo por inteiro. Como orquestrar em acordes e estrofes, algo que vai além de todos os gêneros? Como dedicar uma determinada atitude a este sentimento, se a sensação que fica é de que ele deve existir em todos os momentos? Como emoldurar em versos uma vida a dois, que vai muito mais além do que palavras?

No final das contas nós fazemos de tudo – as músicas, os gestos, os poemas, e muito mais – não necessariamente porque não sabemos o que fazer. Mas porque ela merece mais do que só uma canção, ou uma grande atitude romântica, ou algumas palavras em especial. E é nesse momento em que você finalmente mais se aproxima de descobrir o que amor significa: é tentar descobrir o que ela merece, todos os dias, para fazê-la feliz.

Não é toda que mudamos o nome daquela pessoa especial por “amor” na nossa agenda de contatos. Entre todas as definições do mundo, eu escolho que amor signifique você.

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Claro que não é fácil. Leva tempo para descobrirmos exatamente o que amor significa para nós, e o que definitivamente passa longe de ser o que procuramos. Ninguém é a pessoa errada de ninguém à primeira vista, o que por sua vez explica dois movimentos paralelos das pessoas: enquanto uns saem à procura, encontro após encontro, do que possa vir a ser a última vez em que vivem em um mundo sem ela, outros preferem não se arriscar a encontrar algo que por acaso possam ter dificuldades para lidar. Só uma coisa mais assustadora do que não encontrar o que você tanto procura: encontrá-la enfim.

Falando como alguém que sempre esteve à procura do que pode ser comparado como um verdadeiro conto de fadas, ou um Dom Quixote que deu certo, nunca houve dúvidas sobre o que eu escolhi para a minha vida. Eu vou sair por aí, encontrá-la, convencê-la de que nós valemos a pena, implorar por perdão quando eu invariavelmente ser humano e fracassar diante dela, e passar o restante dos nossos dias juntos tentando traduzir o que eu sinto por ela para fazê-la feliz.  Seja por músicas, por gestos, por poemas, ou qualquer outra forma de amor que esteja à nossa disposição.

Eu sempre sonhei em ser feliz para sempre, mas não esperava encontrar uma princesa de fato. Provavelmente porque não saberia lidar com ela, com as adversidades envolvidas, ou com a fatal simplicidade de amar e ser amado. De não ser um babaca, não sofrer por ansiedade, não deixar que um dia ao lado dela fosse desperdiçado, e não deixar que as promessas do amanhã ofuscassem o que nós temos hoje. E essas são coisas que admito com mais facilidade do que nunca ultimamente, porque sempre acreditei que fossem os sonhos de várias outras pessoas por aí. Se não estivéssemos tão ocupados tentando ser adultos – reimprimindo boletos da Tim, calibrando os pneus do carro, estudando para provas da faculdade, passando na padaria para buscar pão na saída do trabalho e a caminho de casa – talvez alguns sonhos não pareceriam tão infames.

Aos 26, eu já me sinto seguro o bastante para tomar alguns conceitos de vida como base para tudo que ainda espero construir nela. Sobre quem eu quero ser, o que espero das pessoas com quem compartilho a minha vida, e o que posso fazer para ajudar as pessoas ao meu redor em troca. Sei dos meus gostos, dos caminhos que prefiro percorrer, e do modo sarcástico que algumas coisas podem soar quando saem de mim – e quando é apropriado deixá-las ecoarem assim. O que eu não sabia – e acho que nenhum de nós realmente sabe até que isso aconteça – era como reconhecer o amor.  O que invariavelmente põe em risco algumas conclusões como, por exemplo, elencar alguém como “o amor da sua vida”.

A verdade é que você só descobrirá quem é o amor da sua vida quando estiver prestes a deixá-la. É o último grande gesto a ser declarado antes de partir. Depois de passarem dias, meses, anos juntos. Firmes e fortes, na alegria e na tristeza, na riqueza e na pobreza, na saúde e na doença. Seguros e reconhecidos na presença do outro, abrindo mão de qualquer outra pessoa que não lhes cause borboletas no estômago, como ela causou em ti desde a primeira vez em que se encontraram. Apaixonado e perpetuamente insatisfeito com o quanto o tempo voa ao lado dela, mas como parece se arrastar na sua ausência. É por isso que, adultos à parte, nós mantemos nossos rituais de contos de fadas, nosso instinto romântico, diante da pessoa que escolhemos para nós. A pessoa que – entre músicas, gestos e poemas – se torna o amor que eu quero para a vida. Não a próxima, mas a última.

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Eu não estava pronto para encontrar você. E tem momentos nos quais eu ainda me perco, entre a insegurança e a ansiedade, quando só o que eu gostaria era estar segurando a sua mão. Cada um sabe o que sente e demonstra à sua maneira. Eu descobri que era amor, ironicamente, quando não soube mais o que escrever. Quando todas as definições do mundo fugiram do papel, e só o que restou foi um sentimento imenso, incapaz de ser traduzido de um único jeito.

Quando não existem mais comparações a ser feitas, nem uma segurança sobre como agir ou o que dizer, depois de todos os desenganos, os comentários impensados, as brigas infames, a saudade que te mantém desperto por noites que parecem não ter fim, e a expectativa constante de que seja o seu nome aparecendo no visor do celular a cada nova mensagem recebida, você finalmente descobre que não existem outras explicações, outras definições, ou outros sonhos. Só resta o amor – que, por sua vez, é tudo que eu procurava.

Embora não aconteça de maneira simples como um conto de fadas, nem tão burocrático quanto a vida real, por mais que bagunce por completo a vida que você conhecia, não há nada mais gratificante do que encontrar amor. E descobrir não apenas como ele se define, mas qual o seu verdadeiro nome.


Meu amor se chama Mayara de Camargo.

domingo, 22 de abril de 2018

O que eu escrevi por amor



Talvez a tragédia de qualquer escritor more ao lado do seu suposto talento de traduzir a vida ao seu redor em palavras. Porque é um talento invariavelmente posto à prova em rascunhos envelhecidos numa gaveta do criado mudo, ou escondidos em uma pasta oculta do computador. Palavras que envelhecem mais rápido do que seu autor, com o passar dos anos, cuja mensagem original cede seu lugar para outros sentimentos mais atemporais do que o preferível: arrependimento, inocência, saudade. A meu ver, escrever nunca foi um gosto a ser aperfeiçoado a cada artigo científico que precisei escrever, ou a cada mensagem de aniversário que dediquei a um amigo. E, definitivamente, não foi algo afinado a cada declaração de amor que divulguei por aí. A tragédia de qualquer escritor é ter um histórico de mensagens ao seu dispor.

O que um ego reúne para a posteridade, ele destrói na mesma intensidade. Toda vez que relê o que deixou marcado numa folha de papel de outrora, e se depara com a frequência do uso de certas palavras que já não fazem mais parte do seu vocabulário. É nessas horas que me lembro da minha professora de português do ensino médio, nos alertando constantemente sobre evitar o uso de termos absolutistas. “Tudo”. “Nada”. “Nunca”. O que explica meu movimento involuntário de fundamentar meus pensamentos pelo prefixo de um “talvez”. Uma atitude positiva para a vida, mas fantasmagórica para um texto.

Em um mundo cada vez mais online, estar sem internet é como viver em uma ilha deserta. Para sobreviver, o que resta é procurar conforto no que permanece offline. As cartas guardadas, os rascunhos amassados, os desenhos em contracapas de cadernos escolares. A máxima alegoria de Fernando Pessoa sobre “uma vida inteira que poderia ter sido e não foi”, resumida a documentos sem nome do Word e lembranças efêmeras amaldiçoadas com as piores palavras do mundo: “para sempre”.

O número de pessoas para quem prometi estar sempre presente é proporcional ao número de cadeiras vazias ao meu redor. Nomes sem rostos ligados a eles, atrelados a promessas aparentemente definitivas feitas em lugares que sequer existem mais. A única coisa que existe para sempre é o nosso descaso com o tempo. O resto está salvo no meu disco rígido, sem significado algum a não ser pelas músicas que anexei às minhas crônicas. E ao julgar pelas evidências, eu escuto as mesmas músicas há quase dez anos. Imaturidade musical, felizmente, é o único tipo ainda permitido por lei.

Se você me conhece por um tempo similar ao da minha trilha sonora, existe algo escrito aqui sobre nós. Sobre como nos conhecemos. Os momentos que tivemos. As risadas que compartilhamos. As brigas que resolvemos. A vida que poderia ter sido e realmente foi para nós, até seguirmos em frente. Nesse meio tempo eu também escrevi sobre o quanto amei você, até o tempo nos empurrar em direção ao amor por outras pessoas. Porque é isso que o tempo faz conosco. No mínimo, é o que “sempre” fez.

Eu ainda considero que os melhores textos escritos por mim foram aqueles dedicados a alguém. Em aniversários, desejando os meus parabéns por mais um ano. Em ocasiões especiais, como forma de comemorar e deixar algo registrado naquela data. E principalmente, quando nosso amor precisava ser compartilhado do modo mais romântico de todos: por palavras. Emolduradas em uma história estrelada por nós, para fazer você sorrir e para inspirar outras pessoas a continuarem procurando alguém que fizesse valer a pena o empenho. A árdua tarefa de traduzir um sentimento único por um meio comum, acessível, e universal.

Quase dez anos, mais de 700 textos, inúmeras músicas e incontáveis pessoas depois, eu ainda estou aqui. Escrever não é um passatempo, é uma necessidade. Cada um encontrará um meio de se situar nesse mundo. Um suporte que lhes ampare e ajude a recuperar o fôlego quando a vida parecer sem sentido. Este é o meu. “Sempre” foi. “Sempre” será. Na saúde e na doença, na riqueza e na pobreza, abrindo mão de todos os outras palavras em prol de uma em especial, até que a morte nos separe. E quando isso acontecer, você poderá ao menos se reconfortar com a possibilidade de reler a minha história.

Eu não sei aonde isso irá levar. Não sei como irá acabar. Não sei o que mais pode acontecer e, ao julgar pela experiência até agora, jamais estarei preparado para o que vier. Só o que posso fazer é continuar tomando notas sobre a minha realidade e as pessoas em sua órbita. Algo que fiz, faço e pretendo continuar fazendo por amor. Ou como diria Vinicius de Moraes, nas molduras daquele soneto que jamais decorarei por inteiro: “De tudo ao meu amor serei atento / mas que seja eterno enquanto dure.”

Continue lendo. Talvez o próximo capítulo seja sobre você.


domingo, 15 de abril de 2018

Eu ainda estou aqui


A vida é muito curta. Quando eu penso sobre todas as cidades nas quais morei, todos os empregos que tive, todas as ruas por onde andei, até todas as pessoas que conheci, é difícil concordar com autores como T. S. Elliot. “A vida é muito longa”, ele escrevera. Talvez seja uma questão de perspectiva: eu não teria um histórico tão abrangente na memória, se a vida não fosse tão longa. Mas o que explicaria então, escrever sobre essas coisas no tempo passado? Ou quem sabe, a vida não tenha sido feita para ser definida. O que explicaria, ironicamente, porque as cidades, os empregos, as ruas e as pessoas sempre mudam. “Que seja eterno enquanto dure”, já dizia Vinícius de Moraes. Convenhamos que um autor nada mais é do que alguém com tempo demais em mãos.

O que eu quero mesmo dizer, independente de qual for o tempo que esta vida dure, é isso: até que se prove o contrário, esta é a sua única chance de fazer o que quiser. O projeto em si é brilhante: você sabe para onde está caminhando, mas não sabe até quando estará livre para caminhar. É impossível voltar atrás, por isso é mais fácil abrir mão do que estiver arrastando para seguir em frente sem o tempo passado te atrasando. E, sim, eu sei o quanto é distorcido ler isso, vindo de mim. Alguém acostumado a emoldurar amarguras em poesias, e depois as disponibiliza para exposição. Mas não pense que faço isso por rancor ou incapacidade de seguir adiante – a verdade é que eu simplesmente não confio totalmente no tempo.

Pode ser que a dor amenize a medida que os dias passem. Pode ser que o novo tome o lugar do familiar, e se torne mais confortável do que o esperado. Pode ser que as coisas melhorem mesmo. Pode ser que não. Acontece que, mesmo esperando pelo que o amanhã irá trazer, o tempo por trás dessa operação é o mesmo que sutilmente te faz esquecer do ontem. E eu não gosto de esquecer. Nem do bom, nem do ruim, nem do que dizem ser inesquecível. Nada é, a não ser que você faça um esforço para isso. Os homens cro-magnon deixaram desenhos nas paredes de cavernas, os artistas renascentistas pincelaram tetos de catedrais e esculpiram arcos do triunfo, e eu... Bom, eu estou aqui, fazendo a minha parte, um parágrafo de cada vez.

Longa ou curta, fácil ou difícil, compartilhada ou solitária, seja lá em qual cidade eu esteja ou quem esteja lendo isso agora, a vida é minha. Não tenho pretensões de tornar-me inesquecível, porque pouco fiz para tornar o mundo à minha volta um lugar melhor do que aquele que encontrei. Mas por dez minutos antes da minha última hora chegar, eu terei fotos, textos, e todos os registros que consegui arquivar durante a minha viagem, para relembrar o caminho que percorri.

Tenho comigo todas as vezes que recebi um “não” em vez de um “sim”. Todas as pessoas que juraram sempre estar comigo, e todas aquelas que não precisaram prometer nada para cumprir isso. Todas as vezes que tive certeza de algo, e errei. E todas as vezes em que arrisquei tudo, podendo ficar sem nada, só para acabar com uma vida totalmente diferente. Em outro lugar, fazendo outra coisa, seguindo outros caminhos, com outro alguém. Eu vivi, e sobrevivi para contar a história.

Eu não sei como você enxerga a sua vida – ou, muito menos, como pode enxergar a minha. Talvez pareça irreverente para um espectador distraído. Talvez minhas atitudes pareçam impulsivas. Talvez minhas palavras soem exageradas. Talvez as atitudes variem entre graus de infantilidade e teatralidade. Talvez você desconfie que, honestamente, eu nunca tive um plano. Eu não sei, mas ainda estou aqui. Tentando dar sentido ao mundo à minha volta, por mais que isso não seja requerido para existir nele.

Ou, quem sabe, talvez eu esteja divagando sobre isso só para te contar que nada até agora foi capaz de me fazer desistir de tentar. Acordar, levantar da cama e fazer o café, é um exercício diário de reconstrução. À curto e à longo prazo, essa é a única explicação para justificar a coragem necessária que encontrei para dizer “eu te amo” a alguém de novo.

A vida é muito Igor às vezes. Ao me citar por aí, não se esqueça da bibliografia.