sábado, 28 de fevereiro de 2009

Desorientação

Algumas pessoas quando se aventuram em experiências novas, como mudar de cidade, fazer faculdade e arranjar um emprego, são questionadas por seus amigos sedentos por novidades e recontam tudo pelo que passaram com uma história envolvente e interessante. Eu queria ser uma dessas pessoas.

“Como vai a faculdade?”, “E o trabalho?”, “Já fez amigos?”, “Enfim, ta gostando?”; eu consigo responder tudo com “aham” sem nem me preocupar em não ter nada relevante para adicionar, e também me questionam por isso. Eu gostaria de viver em um mundo onde meu “aham” tivesse valor, mas só o meu. As vidas dos outros podem permanecer como “best sellers”, se não for incômodo.

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Eu não questionei a razão de ter aulas de economia em Jornalismo, mesmo com apenas a teoria, mas certas matérias “fundamentais” aprofundam-se tanto que me deixa desorientado – mais do que o normal. E é com base nisso que eu desabafo: fotografia é uma coisa chata.

Não tive aulas práticas ainda, com exceção de uma breve visita a um laboratório, e apesar da minha afeição por teorias, toda conceituação (que, na maioria das vezes, foge do senso comum) tem que ter limite. E, por favor, não tentem fazer com que eu mude de idéia; eu fico satisfeito em não estudar sobre erros de paralaxe e só aparecer na foto. Com os olhos abertos, de preferência.

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Não gosto de escrever a mão, mas tem suas vantagens. Pra começar, é algo cansativo e até meio chato, mas cria limites para minhas divagações e a humanidade agradece. Porque eu não sou uma pessoa normal com pensamentos rotineiros; eu sou o cara que riu por dois meses após ouvir a expressão “xepa da feira”, que caminha voluntariamente em tempestades, que toma todinho na faculdade, que fala com clientes igual fala com os pais, e que coloca catchup em salgadinhos. Imagine então esta pessoa com tempo e uma lapiseira – ou, na maior das calamidades, com o Word 2001.

E ainda me encorajam.

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Eu não escrevo bem, eu só... não escrevo mal.

sábado, 21 de fevereiro de 2009

Em um mundo onde os reis são empregados

Dia desses no shopping, chega um cliente na loja. Avisam-me que é um cliente regular, então apesar das frescuras rotineiras preciso manter o sorriso tatuado no rosto mesmo depois dele pagar a conta. E realmente não era um cliente qualquer; era daqueles que puxa conversa.

- Qual é o seu nome?

- Igor.

- Mesmo? E você sabe a origem do seu nome?

- Até onde eu sei, é de origem russa.

- Sim, sim. É o nome de um príncipe russo muito poderoso que ganhou várias batalhas na antiguidade.

- Ahn... Sério?

- Precisamente. Obrigado pelo chope, rei Igor.

Algum tempo depois, deixei de lado o Orkut um pouco e fiz uma pesquisa. E era verdade mesmo; príncipe Igor Svyatoslavich governou Novhorod-Siverskyi, uma cidade histórica da Ucrânia a 45km sul da Rússia, no período de 1180 a 1202. Eu aproveitei o momento para apreciar a ironia, mas foi breve. Eu tive que ir dormir cedo pra trabalhar bem no dia seguinte.

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Além do necessário, eu já aprendi muito trabalhando. Eu aprendi que tudo é muito caro dentro do shopping, que realmente existem pessoas de todos os tipos, e que garrafas de Smirnoff e Natu Nobilis também podem ser usadas para guardar água e assustar crianças. Aprendi também a exercitar a paciência – mas que fique registrado; daqui cinco meses, quando eu já tiver direito de receber seguro-desemprego, mandarei um cliente à merda. E sorrindo.

sábado, 14 de fevereiro de 2009

Três semanas depois

Eu não previ nada disto.

Eu trabalho numa chopperia em um shopping (ignore a aliteração), e por mais movimento que tenha, eu ainda sim tenho o turno da manhã/começo de tarde e as coisas podem ficar meio paradas. Na praça de alimentação tem duas televisões que passam videoclipes de músicas e propagandas do shopping o dia todo – as mesmas músicas, todos os dias. Quando tem movimento, o som é diminuído ao extremo e somente surdos-mudos acompanham os vídeos. Eu já decorei a programação, e até mesmo algumas coreografias.

Nesses dias eu fico escorado no balcão vendo as poucas pessoas no shopping passarem para lá e para cá, com seus olhares distraídos e sacolas recheadas de supérfluos. Essa é a pior parte do trabalho; quando não há trabalho. Minha rotina mudou completamente de três semanas atrás para hoje, e eu não tenho mais tanto tempo livre – vide minha ausência virtual.

Eu não consigo nem mesmo escrever tanto quanto gostaria, não dá tempo de ligar o computador. Escrever à mão também não é mais uma opção; é tarde demais, eu fiz amizades na faculdade e não passo mais os intervalos escrevendo sem sair da sala. Nesses raros momentos que já não existem mais, eu parava pra pensar nas coisas. Descobri que é perigoso parar e pensar nas coisas, pelo menos para mim. Agora eu sou ocupado demais, mas sem querer dizer que eu não penso mais. Só que esses pequenos intervalos são emocionalmente letais.

E então eu fico me torturando com flashbacks do ano passado, dos bons momentos que tive e das lembranças que carrego comigo. Relembro também de eventos não tão agradáveis, de escolhas tolas e se existe sequer o menor arrependimento. E aí eu penso... Fiz a decisão certa ao vir para cá? Fui o melhor amigo que poderia ser? Cresci de acordo com o que meus pais sonhavam? Quando foi que comecei a mudar? Eu não sei responder nada disso, e nem sei para quem deveria perguntar.

As pessoas da minha sala na faculdade acham que sou CDF. Eu sinto falta de ter pessoas ao meu redor que me conhecem, e bem. Por isso eu não gosto mais de ter tempo livre. Eu paro, e penso. E sinto saudades. E questiono as últimas três semanas. E, e... E aí eu me perco. Nos meus momentos de fraqueza, eu sento e espero tudo passar. Não incomodo ninguém, e funciona.

Mas no geral, eu estou bem. Aliás, mais do que bem. “De boa”.

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

Sonhando acordado

Há quase uma semana eu venho tendo o mesmo sonho, todas as noites. Na verdade é mais uma sensação do que um sonho, mas ocorre sempre de noite quando já estou na cama, virando de um lado para o outro na esperança de ficar sonolento. Ontem eu deitei à 00h; eu ainda estava acordado à 1h30.

No sonho, eu me livrei de todo o senso teatral/dramático que me acompanhou durante o colegial, sou bem-resolvido quanto a minha vida (trabalho, estudo, pouco tempo para lazer), e não possuía sequer a mínima complicação amorosa passional que sempre costumava gerar desde os últimos anos em que adquiri consciência. E o mais estranho do sonho é que, até o presente momento, ele ainda não acabou. Mais assustador do que qualquer pesadelo que já tive; tudo isso era real.

No trabalho, eu temo que tudo acabará quando um cliente se impor e reclamar da comida. Na faculdade, eu me fecho para evitar que eu por ventura acorde caso eu finalmente me comunique com alguém. Eu não consigo entender; cadê aquela subjetividade toda que estava aqui?

Eu jamais esperei uma entrada suave no tal “mundo real”, muito menos então que eu me portasse com calma e destreza para assumir responsabilidades, aprender lições novas e – a maior das causalidades – crescer. E então eu percebi; eu não apenas me mudei... EU mudei.

Sem motivo para pânico... ?

O "feeling"

Depois de toda a calmaria e despreocupação no 1º ato da peça, é de costume que o 2º ato desencadeie dificuldades, obstáculos e desafios que precedem o tal “final feliz” no 3º ato. E como se a mudança, a adaptação, o incômodo de dividir o quarto em um apartamento pequeno, e o primeiro emprego que forçou a exposição e o poder da fala não fossem o bastante, a nova barreira surgiu na forma mais aterrorizante para uma pessoa tímida (que, na maior das ironias, escolheu como projeto de profissão a comunicação social) – o primeiro dia de aula na faculdade.

Era possível perceber as semelhanças que o ensino superior e o médio compartilhavam ao reunir seus alunos pela primeira vez na mesma sala de aula; existem os mega-comunicativos que logo se enturmam, aqueles que fazem uso das companhias conhecidas para sobreviverem, e eu – eu estava tão nervoso quanto um animal assustado fora de casa. Por sorte (ou qualquer outra circunstância) eu não era o único, mas isso não fez da experiência muito menos inquieta.

Assim como em qualquer escola, o professor fez com que cada um se apresentasse – felizmente, não era um sádico então pudemos fazê-lo sentados. Alguns nomes e dados eu pude guardar, à medida que o coração – que estava a ponto de sair pela boca – permitia. Era um mar de rostos desconhecidos, e eu debatia com todas as forças para não me afogar. Porém, a sensação de surpresa similar a água entrando pelo nariz tomou conta de mim quando chegou minha vez de apresentar-me. Uma voz que eu nunca ouvira antes, mas que estava saindo de mim, proferiu o curto discurso:

- *tosse* “Meu nome é Igor, tenho 17 anos, sou de Londrina, moro em Cascavel há uma semana... E eu escolhi Jornalismo porque gosto de escrever...”

Um olhar desconcertado e uma erguida de ombros depois, a vez passou para o próximo da fila. Eram muitos os motivos que levaram as outras quarenta e nove pessoas daquela sala a escolher Jornalismo; alguns já trabalhavam na área e buscavam aprimorar-se, outros já eram formados em outros cursos que no fim não atenderam às expectativas estimadas, tinham aqueles que visavam áreas específicas como fotografia, rádio, repórter, etc. E então, havia eu e outros dois ou três que, como eu gaguejei antes, “gostam de escrever”.

Tivemos um intervalo de 10 minutos para “esticar as pernas”, banheiro e afins. Eu mal me mexi na cadeira, a não ser para mexer na minha mochila, e pegar meu caderno ainda virgem para escrever exatamente isto – como era do hábito, buscava refúgio em parágrafos, travessões e dois-pontos.

A primeira aula fora de Introdução à Comunicação Social (mais ironia?), e em seguida passamos para Fotografia (ou, Fundamentos da Fotografia & Fotojornalismo, só para ficar mais chique). O professor foi o primeiro a fazer chamada, só para associar os nomes aos rostos presentes. Com alguns fazia piadas e usou o gancho para anunciar que seu jeito era assim mesmo. Falou meu sobrenome errado, mas não de propósito. “Móresca”. Não tive forças para corrigi-lo e evitar ficar vermelho ao mesmo tempo, e nem tive sucesso ao menos em uma das duas. Ficou por isso mesmo, mas ninguém pareceu interessado.

Os professores eram instigantes e chamativos, o que evitava que as duas aulas com quase 4 horas de duração ficassem cansativas ou chatas. Ás vezes, direcionavam a voz para os alunos, mas ninguém se atrevia a responder tão cedo. Algumas respostas estavam na ponta da minha língua, mas a boca não abria. Ou então, abria mas não emitia voz (nem ao menos aquela voz desconhecida que eu produzi).

O que o professor de fotografia mais comentava era de como deveríamos aprender a ter um senso de perceber detalhes em não somente fotos mas em qualquer objeto – algo que uma aluna imediatamente nomeou como “feeling”, e o professor validou-a. Daquele dia, duas coisas me marcaram: o nervosismo e o “feeling”. O resto eventualmente viria a mim.

Entrei na sala mudo e saí calado. Minha sala era no terceiro andar; errei as escadarias para ir embora, quase fui parar no bloco 3 e tive que dar a volta no prédio. São 4 blocos dentro do campus, 4 blocos gigantes. Eu estava perdido no bloco 2, que era o meu, mas logo quando avistei a saída corri para ela e não olhei para trás. Estranhamente, não tive dificuldades para encontrar minha van no meio de tantas outras, iluminadas somente por alguns postes que forneciam aquela luz fosforescente fraquinha, e debaixo do começo de uma chuva.

Voltei para casa sem saber exatamente o que responder quando me perguntavam como tinha sido meu primeiro dia de aula, não comi nada e fui dormir. Só de pensar que amanhã eu veria tudo de novo, me fez supor que talvez tudo tivesse sido um sonho. Isto é, até eu reler tudo no meu caderno para ter certeza. Mesmo assim, dormi com meu “feeling” ligado, tentando me dizer que a tão comentada “vida nova” tinha começado, mas eu estava mais preocupado em me esconder debaixo nas cobertas e acordar na manhã seguinte com 21 anos.

No mais, meu primeiro dia de aula foi bom.

domingo, 1 de fevereiro de 2009

Da noite pro dia

Meu nome é Igor Costa Moresca. Se você perguntar como foi meu dia, direi que não houve nada de diferente. Acordei, tomei café, fui trabalhar, e voltei para casa. Claro, se você perguntar há quanto tempo eu venho feito isto, terá uma resposta diferente. Há dois dias atrás, eu nem tomava café. Há quatro dias atrás, eu nem tinha emprego. E há uma semana atrás, eu tinha outra vida.

Sete dias atrás, eu ainda estava em Londrina, onde nasci e cresci. Um mês antes do vestibular da UEL, recebi um telefonema do meu pai – que reside em Cascavel – sobre um outro vestibular que ocorreria na cidade dele, e que eu deveria optar por mais uma opção caso a UEL não resultasse bem. E foi exatamente o que aconteceu, mais ou menos. Passei no vestibular em Cascavel, enquanto meu desempenho na UEL foi catastrófico (o que uma redação não faz...).

E então, meu destino estava praticamente traçado – a faculdade em Cascavel me esperava. O que eu não esperava era exatamente o quão difícil seria desapegar de uma cidade após 17 anos, de amigos que significam o mundo para mim, e da família que sempre me recebeu de braços abertos seja ao final do dia, nos almoços de domingo, ou nas eventuais reuniões.

Despedi-me de quase todos, à medida que as férias em Janeiro me favoreciam, fiz as malas, de uma vez por todas separei aqueles que permaneceriam na minha vida daqueles que eu precisava abrir mão, e segui em frente... Mais ou menos.

Tenho uma nova vida agora. Novos arredores, novas companhias, e uma longa jornada pela frente. Saí debaixo da saia da mãe para morar com o pai e a família dele, para correr atrás do futuro que eu quero, e para atingir aquela tal independência da qual tanto comentam. “Você vai virar um homem agora, até agora você era criança!” Eu ouço isso bastante, e na maioria das vezes eu faço parecer que entra por um ouvido e sai pelo outro. Ninguém percebe quais coisas entram debaixo da minha pele e ficam – pelo menos, agora não mais.

Só que o otimismo não bate no peito o tempo todo. De noite costuma ser pior. Eu sinto falta dos meus amigos, da minha família, da minha cidade. Eu parei de demonstrar tanto isso, guardo pra mim. Subjetivismo demais causa dor de cabeça – aprendi isso do jeito difícil. Quando o sol nasce, melhora. Tudo fica mais claro. E eu paro de me preocupar tanto, porque sei que não vou “perder” nenhum deles.

Amanhã é o primeiro dia de aula na faculdade... Eu não tenho idéia de como vai ser. E quer saber? Eu mal posso esperar. Dizem também que será a melhor fase da minha vida, mas eu custo a acreditar. Principalmente porque a fase que mal terminou foi espetacular.

Se tudo isso fosse uma peça de teatro, esse seria o começo do 2º ato. Pelo menos, drama nunca falta. E lá vamos nós de novo.