terça-feira, 26 de maio de 2009

Promessa

Esta é uma carta destinada à Igor Costa Moresca somente para daqui quatro anos.

Como vai? As coisas continuam ruins pra você? Ou você se conformou/acostumou? Espero que não. Á essa altura acho que você já deve ter percebido a oportunidade única que conseguiu criar para si, apesar das circunstâncias que não vem ao caso. Quantas pessoas você conhece que, em menos de quatro meses, conseguiram o que você conseguiu? Aposto que a maioria ainda mora com os pais e passa o dia todo cutucando os pés, ou qualquer outra coisa sem importância. Achando que estão na melhor fase de suas vidas. E pior, você costumava concordar com eles. Enfim, você já deve ter superado isso, assim espero.

Aqui quem fala é você mesmo, quatro anos após você criar coragem de escrever isto. Não, ainda não existem carros voadores e você ainda não experimentou aquela batata recheada do shopping que sempre prometeu experimentar. Mas relaxe; de todas as promessas que fez para si mesmo, está é a menos importante. Só uma dica; ela não é tão ruim, mas ainda custa caro. Faça outra pessoa comprar para você e seja feliz.

Do que estávamos falando? Ah, sim, promessas. Por acaso se lembra das promessas que fez quando saiu de Londrina, ou melhor, quando percebeu que tinha saído de Londrina? Duas coisas que tiveram um espaço de tempo bastante significativo entre elas, não é? Mas não te culpo, você sempre teve problemas com desapego, e podemos confirmar isto com qualquer um.

Não se preocupe, seus amigos de verdade ainda estarão aqui esperando por você. Não vou mentir, um ou outro seguirá em frente e não estarão mais aqui, mas infelizmente não sei dizer se por ventura te esqueceram. Mas não se preocupe com a falta de internet, você já passou por isso antes e deveria estar acostumado. Enquanto isso, pare de reclamar e use o wi-fi do shopping; lembre-se que poderia ser pior. Anos atrás, você nem isso tinha. Imagine, então, um notebook.

A verdade é que ainda tem muitas mudanças por vir, a maioria delas boas. Venhamos e convenhamos, você já passou por muita coisa desde que chegou aí. Eu me lembro. A boa notícia é que venho por meio desta diretamente da sua cidade. Sim, você vai voltar para cá. Apenas siga o plano original que traçou e tudo ficará bem. Quanto às outras promessas que fez, não se surpreenda comigo quando digo que ainda quebrará algumas, como a da batata, mas já disse que não são importantes. As que realmente importam, você sabe quais são. Honre-as.

Continue seguindo em frente, agora as coisas só tem a melhorar e você sabe disso. No fundo, eu sei que você ainda sente todo aquele otimismo com o dia de amanhã. Você vai adorar o amanhã, certo? Nos vemos em breve, falta o que? Três anos e meio agora, mais ou menos? Vai passar num piscar de olhos que vai até te deixar assustado. Ah, e continue escrevendo. Eu te garanto, você vai querer ler todas as suas angústias depois e rir.

O mundo não é mais um lugar romântico. Algumas pessoas, porém, ainda são, e a elas cabe uma promessa. Uma promessa muito especial.

Não deixe o mundo vencer, Igor Costa Moresca.

Sem fio

Talvez seja a maturidade ou a sabedoria que vem com a idade, mas hoje eu entendo a necessidade e até preocupação que eu sentia com coisas pequenas que antes faziam parte do meu cotidiano. Coisas que pareciam irracionais, à primeira vista... E irracionalidade é comigo mesmo. Hoje eu percebo como era bom estar apenas há quarenta minutos de distância da minha cidade, ao contrário das cinco horas que é o que me divide dela hoje. Cinco horas de carro, claro; de ônibus, eu até me sinto mais velho quando chego.
A biblioteca da minha escola, também é algo da qual sinto muita falta. Só de pensar nos momentos que passei lá dentro - ao contrário do número de livros que realmente cheguei a ler - me faz pensar o quanto eu tinha em mãos, sem saber exatamente seu valor. Uma única coisa nela me incomodava; os computadores eram até piores que o meu. E olha que o meu faz barulhos assustadores sem motivo.
Agora eu tenho uma nova realidade, novos ambientes e novos rostos; enfim, uma nova rotina; apurada, porém lentamente tornando-se divertida também. O que me irrita? Lógico, os computadores. O que mudou? De repente tudo ficou sem fio. Já que a falta de internet em casa me deixa mais agoniado do que deveria, trilho as cinco quadras que me distanciam do shopping e ponho-me a utilizar o wi-fi gratuito que disponibilizam; mas é aquela coisa, sabe. As pessoas ficam passando ao meu redor, o barulho (que o shopping chama de “música ambiente”) me desconcentra completamente, e ainda consigo sentir as luzes fosforescentes lentamente queimando meus globos oculares.
Eu gosto de pensar que estou à frente do meu tempo, mas as pessoas preferem me chamar de velho precoce. Acontece que, desde que me conheço por gente (mas na verdade isso não faz tanto tempo assim), fui acostumado a usar os MSN e Orkut da vida de 1900 e bolinha dentro de casa, com comodidade e privacidade. Antes, preciso explicar que meu notebook não é revolucionário, 100% eficiente, ou muito menos tem luzinhas laterais piscando igual já vi por aí. A bateria está viciada e, ou ele fica na tomada, ou desliga após vinte minutos. Uma beleza.
Aí já viu, não dá nem pra ir ao banheiro no shopping. Bom, até que dá, mas com duas opções: ou desinstala todos os cabos, desliga, guarda na mochila tudo certinho e vai, ou deixa tudo na mesa e vai, correndo o risco de que um arrastão sempre pode acontecer. A cidade às vezes também não ajuda.
Acho que ainda vai demorar um pouco para que eu me acostume com toda essa realidade sem fio que tomou conta da minha vida, mas sempre vou preferir mil cabos dentro da minha casa, do que usar um notebook com a bexiga cheia. Sou antiquado. E nem me deixem começar a falar de como odeio usar meu dedo como mouse.

segunda-feira, 25 de maio de 2009

Impossível

Como eu consegui ser uma bagunça tão grande, tão cedo na minha vida? Meu nome é Igor Costa Moresca e hoje eu quase trombei numa àrvore.

***

É um momento surpreendente quando você descobre que 24 horas por dia é pouco para fazer tudo que se tem para fazer. Há certo tempo atrás, quando não planejava nada interessante para fazer, minha rotina diária era simplesmente ficar em casa o dia todo e refazer coisas que já tinha feito antes apenas para com que o tempo passasse. Outro momento chocante é quando você se dá conta de que passou mais tempo do que parece, e que você está mais a frente do que esperava.
Estive aprendendo tais lições graças às drásticas mudanças na minha rotina. Agora eu mal fico dentro de casa - detalhe, da minha casa - e, quando fico, preciso sempre ter certeza de que esta está limpa, ou se a roupa suja está acumulando, ou se está na hora de fazer compras de novo. E não, eu não esperava que iria me preocupar com algo assim, assim tão cedo.
Ao longo do meu dia agora-atarefado, a sensação persiste. No trabalho, o que parecia ser inconsistente e irritante no começo, agora parece mais importante. Significativo, até. Não pela função, mas porque estou atendendo pessoas de todos os tipos - desde aqueles que saem do inferno para atrapalharem-se com seus pedidos e me culparem por isso, até aqueles com os quais falho mas, por sorte, nem percebem que o refrigerante que pediram na verdade era outro, ou que a carne não foi tão bem passada. E, dia após dia, antes de sair de casa, eu me lembro porque estou saindo. Porque se eu quiser continuar na minha casa, fazendo compras e aproveitando o pouco tempo que me resta para coisas mais irracionais, como divagar sobre a chuva, eu preciso me bancar - nem que, por ora, seja apenas metade do aluguel.
Faculdade, então. Vou pular esse parágrafo. A questão é que, há certo tempo atrás, nada disso parecia possível para mim. Repito; para mim. Mas aconteceu, graças às minhas próprias escolhas. E se aconteceu, foi por dois motivos: porque estava na hora, ou porque era mesmo para acontecer. Não sei, tudo que sei é que, ultimamente, 24 horas por dia tem sido pouco. Por sorte, eu sempre me relembro que, dia após dia, eu estou 24 horas mais perto de realizar meu sonho; voltar para casa, e passar a ser um pouco menos retardado e pouco mais maduro.

Apesar de tudo, eu ainda odeio essa parte. O lado bom é que agora eu tenho uma geladeira.

***

Talvez seja aparente, mas meus textos são como aqueles subnicks de MSN; não são apenas frases, são estados de espírito.

Inverno

Acho que eu ficaria mais tranquilo se alguém aparecesse para me acalmar, seja pessoalmente ou até mesmo por mensagens em uma garrafa. Junto com a distância, vieram o medo e a dúvida. Eu não estou mais aí para ajudar vocês, muito menos para que vocês cuidem de mim como sempre fizeram. Talvez, se alguém me dissesse que eu fui o melhor amigo que eu poderia ter sido enquanto estava presente, eu ficaria menos inseguro. Laços que pareciam ser tão indestrutíveis, pessoas que estavam sempre do meu lado, agora parecem ser tão frágeis. Tenho medo de fazer algo errado à distância e desapontá-los, ou eventualmente perdê-los ao longo do tempo. Mas eu simplesmente não posso perdê-los; vocês ainda são parte de mim.

Ontem à noite trovejou bastante, e hoje amanheceu ainda com a chuva. Quando eu passava as férias aqui, costumava chover mais regularmente. Claro, eram estações mais propícias do ano. Desde que vim para cá, não tem chovido tanto. Pelo contrário; fui surpreendido pelo calor, e ainda mais pelo frio tenebroso. Eu gosto da chuva; é a desculpa perfeita para ficar em casa e... fazer nada. O barulho da chuva é reconfortante também; acaba com o silêncio do apartamento, quando eu sozinho não consigo fazê-lo somente com música ambiente. Dentre as lembranças mais vívidas que possuo da minha cidade, a maioria delas incluem chuva. Eu tomava bastante chuva por aí; enquanto visitava amigos, quando era pego de surpresa meio a caminhadas, ou simplesmente quando eu sentia a necessidade de limpar minha vida. Minha mãe achava que eu era problemático, mas em alguns dias cinzas em especial, eu não encontrava nada mais revigorante do que encontrar qualquer desculpa para simplesmente sair na rua e me purificar.
São nos dias chuvosos que tenho a maior parte de meus flashbacks; as lembranças me animam a ponto de fazer com que eu deseje desesperadamente para revive-las nem que fosse só por mais um único dia, e acordar sorrindo e de bom humor torna-se consequência.
A melhor parte dos dias chuvosos é que eles deixam tudo limpo de novo, e eu não consigo deixar de sentir o menor pingo de esperança por isso. Quem diria, eu aguentei ficar aqui até o inverno chegar.

***

“Come what may...”

Bandeira branca

Talvez eu deva apenas admitir por escrito aquilo que todos já sabem; eu não sou muito adaptável a mudanças. Eu não aceitei de cara as pessoas e os lugares com os quais eu agora me deparo todo dia, como eu achei que aceitaria. Como resultado, eu não tive um bom começo. Eu não tive satisfação nas novidades que experimentei, ao conhecer pessoas incríveis, ou ao visitar lugares novos. Porque a parte de mim, que nunca morrerá por sinal, continua quase que inteiramente apegada á vida que deixei para trás, de maneira bastante abrupta devo acrescentar. E não é algo tão fácil de esquecer. Eu não quero esquecer.
Eu não quero me desapaixonar pelas pessoas que ocupam meu coração, cuja saudade faz com que meu coração sangre toda noite antes de dormir. Antes mesmo que eu deite a cabeça no travesseiro e sonhe com todos os momentos que passei com vocês. Momentos inigualáveis, inesquecíveis, que passaram rápido demais. Mas apesar da dor do desapego com a qual estou tentando me conformar, eu sei que preciso seguir em frente com minha decisão. Eu preciso usar esse tempo para fazer tudo o que prometi a mim mesmo que faria; eu vim aqui para crescer. Principalmente, para fazer com que vocês se orgulhem de mim. E para finalmente virar gente; porque já viu, né.
Quem sabe, num futuro não tão distante, eu olhe para trás e relembre todas as sensações que tive ao passar por mil mudanças de uma vez só, e sorria ao perceber que consegui superá-las. Sabe, é mais difícil do que eu achei que seria. Eu não consigo me desapaixonar pela minha cidade, minha família, meus amigos. E é em tudo isso que penso quando respiro fundo ao fim de cada dia; fico feliz por encerrar mais um pequeno expediente pois significa que estou cada vez mais perto de voltar, e de construir a vida com qual sonho no lugar a qual pertenço. Tudo bem que às vezes eu falo meio embolado, mas às vezes parece que não consigo nem entender a língua das pessoas daqui.
Eu já disse, o começo é a pior parte, e infelizmente esta parte ainda não acabou. Apesar de tudo que já me aconteceu, ainda é só o começo da jornada. Uma jornada incrível que farei questão de terminar, por mim e por vocês. Tudo vai dar certo no final. Tudo tem que dar certo. Só uma coisa; não se esqueçam de mim. Meu coração ainda está aí.

Porta aberta

- Bom, chegamos. Deixe-me só achar a chave certa para o port--Ah, abriu. Entrem, entrem. Podem ir em frente, a porta de vidro já está aberta. Os moradores a mantém aberta durante o dia, mas a vizinhança é muito segura, não se preocupem. Mencionei que é um dos melhores bairros da cidade, senão o melhor? Pois então, veja só que prestígio. E por esse preço, vocês não vão encontrar algo tão bom. Aqui vamos nós, entrem, fiquem à vontade. Como vocês podem ver, tem o tamanho ideal para uma pessoa morar; sala, cozinha, banheiro, e um quarto grande. Você pode muito bem colocar uma cama aqui, um guarda-roupa ali, e ainda sobra espaço. Agora, a sala, como vocês podem ver, divide-se com a cozinha, mas claro, fica a seu critério. Alguns moradores incrementam a sala, outros não se incomodar. Você não vai precisar de sala, não é? Deixe um espaçozinho para uma geladeira, um fogão, não há necessidade de um sofá, certo? Coloque uma mesa aqui e pronto, está feito. Claro, precisamos fazer uma vistoria antes para conferir o estado do apartamento antes da mudança; quais arranhões já estavam nas paredes e quais não estavam, quais buracos já estavam feitos, enfim. Você estará acompanhando a vistoria, para não termos problemas depois. O banheiro é consideravelmente grande para uma pessoa, como vocês podem ver. A janela da cozinha abre-se assim, viram? Tudo bem que é no térreo, é só colocar uma boa cortina e você estará livre de bisbilhoteiros. Não que tenha preocupação com isso, os vizinhos são excelentes. Nada de bagunça por aqui. O primeiro que fizer bagunça pode considerar-se fora daqui num piscar de olhos. Somos muito exigentes quanto a isso. Ali fora temos o espaço para o seu bujão de gás, cada morador tem o seu. O seu é aquele ali, da ponta, vazio. É só conectar ali e pronto, viu? Temos cinco garagens, rotativas é claro. Se chegar e alguma estiver vazia, fique à vontade. Melhor do que deixar o carro na rua, não que a segurança seja problema. Mencionei que é o melhor bairro da cidade? E então?
- O que achou, filho?
- É ótimo. Fico com ele.

E assim, eu aluguei meu primeiro apartamento.

quinta-feira, 21 de maio de 2009

Tudo ou nada

Dizem que não se pode ter tudo. O motivo pelo qual isto me parece ser verdade vem do fato de que eu possuo o dom inigualável de complicar quaisquer situações que me são apresentadas. Ninguém consegue criar uma tempestade em copo d’água como eu. Claro, isto não é algo bom.
E como é de costume, eu me prendo em situações das quais não consigo escapar. A única coisa a se fazer é sentar e simplesmente esperar esses momentos passarem. O truque é avançar por tudo; deixar que o agora, a parte ruim, aconteça rapidamente para que a parte boa venha logo. É estranho, mas aprendi a fazer isso há muito tempo atrás e ainda funciona bem. Eu preciso ter em mente que o amanhã será melhor quando deito a cabeça no travesseiro à noite, mesmo quando o dia foi horrível. Eu me convenço de que esse desagrado momentâneo passará. Também não é pra menos, minha família e meus amigos sempre significaram tudo para mim; não é a toa que me sinto sem nada aqui.
Comecei a testar essa ferramenta meio a filas de banco ou viagens de ônibus, tudo depois que a bateria do mp4 acaba e não se sobra nada para fazer. Nem mesmo meus monólogos internos ajudam a passar o tempo. E hoje, o que eu mais preciso é acreditar mais em mim. Preciso acreditar que os momentos infelizes são apenas momentos, e que amanhã será mesmo melhor. Devido a tantas mudanças acabei por perder alguns ideais, mas estou lentamente recuperando-os. Por exemplo, acabei de reencontrar minha vontade de escrever perto da caixa onde está minha louça. Mencionei que estou morando sozinho?
Nem tudo são desagrados; por alguns instantes, consigo me sentir como eu mesmo de novo. Quem sabe, talvez tudo volte ao normal amanhã, ou depois. Por enquanto, vou avançando a parte chata. É sempre a mesma coisa; sem internet, nostalgia, saudade e drama, muito drama. Por pior e mais previsível que seja, é bom saber que eu ainda continuo o mesmo, fazendo as mesmas coisas, sentindo as mesmas irracionalidades. As situações ao meu redor podem continuar mudando, contudo que não mudem a mim meio à confusão.
Isto talvez não signifique nada para mais ninguém, mas eu estou começando a me sentir melhor quanto a reconstruir tudo para mim.

***

Às vezes quando se espera por tudo, você pode acabar sem nada.

Entre as linhas de medo e culpa

Basicamente, é uma mistura de culpa e medo. Não sei explicar melhor do que isso. Culpa por ter deixado para trás uma vida repleta de amor, sorrisos e risadas sinceras, e medo de que a distancia eventualmente faça com que eu perca aqueles causadores de sorrisos e risadas, e de amor.
É assustador demais porque não estou mais por perto; continua sendo apenas um ônibus de distância, se não fosse pelo diferencial da tarifa e do tempo de viagem. O que antes era tão viável agora parece inalcançável. Não posso dizer isso a ninguém, muito menos reclamar. Afinal, foi minha decisão. Eu escolhi isso. Parecia ser a opção mais sensata, no momento. Se eu soubesse que iria acabar sozinho e arrependido, eu teria reconsiderado algum cursinho por um ano.
Às vezes eu saio de casa desejando secretamente por encontrar com um amigo, um conhecido, alguém do meu passado, de repente na rua; seria maravilhoso. Às vezes eu não consigo sequer respirar aqui; a respiração agita-se, o coração acelera, e a garganta parece se fechar lentamente. Talvez seja a tal saudade que sufoca, talvez seja o arrependimento que mata. Seja lá o que for, está me matando. A cada dia que passa, é a mesma rotina; não há nenhum acontecimento que origina melhoras ou sequer esperanças. Morar aqui está sendo como encontrar-me encurralado em um beco sem saída, onde não há para onde correr a não ser de volta para onde vim; de volta para o familiar e desistir de desbravar o desconhecido. Por medo e por culpa.

Apartamento vazio

Quatro meses depois. Uma e quinze da manhã.
Com meus pés doendo e minha vista cansada, após dias e dias de esforçada negação, eu decidi tomar uma atitude em nome da minha paz de espírito. Parece que, a cada mês que se passa, as coisas tendem a mudar drasticamente. Para deixar tudo ainda mais estranho, não tenho direito de ficar zangado ou chateado com ninguém; são apenas conseqüências de minhas próprias decisões. Fui eu quem recusou um ano de cursinho e saiu de Londrina para ingressar numa faculdade distante. Fui eu quem aceitou trabalhar para bancá-la, e também para obter um mínimo de autoridade sobre meu dinheiro. E fui eu quem enfrentou batalhas desprezíveis para abandonar um segundo lar familiar, e adquirir um lugar que pudesse chamar de só meu. E assim, após certa pesquisa, alguns comprometimentos e um recibo com meu nome, eu aluguei meu primeiro apartamento. Sozinho.
É estranho quando a vida que você teve por anos de repente aparece diante dos seus olhos, principalmente se seguinte de tantas mudanças em tão pouco tempo. Semana passada, neste mesmo horário, eu estava dentro de um ônibus a caminho de volta para cá; de Londrina.
Não tive tempo nem condições de avisar a todos que eu gostaria sobre minha visita-relâmpago, mas fui irreverente o bastante para aparecer na porta de alguns simplesmente para dizer olá, para dar-lhes um abraço, e simplesmente para dizer que eu não tinha desaparecido. Em meio a ruas e rostos familiares, parecia que eu estava finalmente conseguindo respirar pela primeira vez em muito, muito tempo. Tal pensamento que me veio à cabeça no ônibus de volta, quando fui me sentindo mais e mais sufocado após cada pedágio em direção a minha nova cidade, e ao meu apartamento vazio.
Uma dor inacreditável tomava conta de mim, algo que eu não conseguia explicar para ninguém do meu cotidiano. Não considerava que alguém pudesse realmente entender. Era a dor de não conseguir gritar para minha família, meus amigos, meu tudo, que eu ainda os amava apesar dos trezentos e quarenta e seis quilômetros que coloquei entre nós. Trezentos e quarenta e seis quilômetros que, inconsequentemente, coloquei entre nós.
Sentado à uma hora e trinta e sete da madrugada, após um trabalhoso domingo, no meu apartamento vazio, está claro de que não era isso com o que eu sonhava. Não era isso que eu esperava que acontecesse. Não era isso que eu queria. E é exatamente por isto que estava em negação, desde que me mudei para cá; com medo de voltar a escrever. Com medo de expor ao mundo sentimentos que, seis meses atrás, eu não tinha problemas em desabafar. Alguns chamam de amadurecimento, eu chamo de infelicidade.
O fato de eu não escrever nada há um mês e meio é mais do que alarmante. Irônico; estudar teorias e mais teorias de jornalismo, comunicação e escrita, e não colocar nada em prática no final do dia, quando finalmente tenho tempo de me recompor do trabalho e das aulas. O que mais me mete medo é saber que isto é a vida real; nada de despreocupação, festas constantes ou martirizar-me por amores frustrados. Não há tempo para desperdiçar com problemas pequenos, e adiar recompensas torna-se mais rotineiro do que se pensa.
Para trucidar-me ainda mais, tem a saudade. A saudade da vida que eu costumava ter; a vida que passou diante dos meus olhos quando visitei minha cidade, meu berço. Saudade das pessoas com quem eu falava todo dia, das risadas que compartilhávamos, e dos momentos únicos que nunca esqueci. Se ao menos eu pudesse dizer que eu ainda me lembro de todos, e que nunca os amei tanto quanto agora, eu me daria por satisfeito. Por favor, não pensem que eu me esqueci.
E, se puderem, não se esqueçam de mim.

***

Mentir é fácil. Admitir arrependimento e chorar por saudade é difícil.

***

Estranho mesmo é estar em casa, e desejar estar de volta para minha casa.