domingo, 31 de janeiro de 2010

Você ainda é você

O que faz uma pessoa ser o que ele ou ela é? As coisas que gosta e desgosta, os lugares que visitou, as pessoas que conheceu, os amores que teve, as saudades que sente, as lágrimas que derramou, os sorrisos que estampou no rosto... Agora, quando a vida traz essas mudanças que ninguém consegue impedir, como uma pessoa mantém o que ele ou ela é? Quando o cotidiano lentamente toma conta de pequenos fragmentos e obriga atitudes novas, o que fazer para continuar sendo... si mesmo? Não sei, mas lá se foi um ano e ainda estou aqui.

A neurose aprofundou-se e eventualmente criou uma personalidade que estava ali e ninguém tinha visto bem - nem o próprio dono - , as frases de efeito tornaram-se mais afiadas, e a vida... a vida não é como antes. É tudo real agora, e às vezes é difícil. Às vezes dá vontade de fugir, de fingir que não é comigo, de sair por aí e andar reto, ouvindo música, sem olhar pra trás, e ir até aonde der. E foi o que eu fiz pra não enlouquecer de vez, ou pra não me submeter á teoria infame de que as melhores pessoas são as mais equilibradas. Equilíbrio é superestimado. E quando tudo isso pesa demais, ajuda mentir pra mim mesmo e pensar que felicidade é superestimada também. Só até eu a encontrar.

E então, eu ainda sou eu. Sobrevivi á frieza e a agitação de uma cidade nova e sorrio frente aos relances de uma nova vida que eu comecei a construir e que só agora parece tomar forma. E de quebra, tirei uma trilha sonora de tudo isso:

01. What I Did For Love - "A Chorus Line" Original Soundtrack

02. The Wasteland - Elton John

03. Reason to Believe - Rod Stewart

04. For Once in My Life - Vonda Shepard

05. Hush Hush (I Will Survive) - The Pussycat Dolls

06. Love is Alive - Anastacia & Vonda Shepard

07. Will You Still Love Me Tomorrow - Amy Winehouse

08. So Very Hard to Go - Tower of Power

09. Every Breath You Take - Robert Downey, Jr. & Sting

10. You're Still You - Josh Groban

11. Lead the Way - Mariah Carey

12. You're My First, My Last, My Everything - Barry White

Tirando o aparente péssimo gosto musical, acho que esse será mesmo um bom ano. Nada de repetir os mesmos erros; me comprometi seriamente a novos desastres. Afinal, depois de tudo, eu ainda sou eu.

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

O amor está vivo

"Yeah, yeah, whoooo..."

Admito que não sei explicar grande parte disto. Simplesmente aconteceu, e ela também. Não a vi chegar, nem sei de onde veio, mas de algum modo senti sua presença quando ela apareceu no recinto. E a música, claro. "My heart is on fire / my soul's like a wheel that's turning / my love is alive..." Estava junto de outra mulher, mãe, tia, vizinha, não sei, mas nem se comparava. E estava vestida de modo bastante... Revelador, para dizer o mínimo. A blusa que revelava o bronzeado, e escancarava a marca do biquini, e o shorts que acabava logo no começo da coxa - e da felicidade, eu aposto. E sentou, logo ali, no meio da praça de alimentação, completamente convencida (corretamente) de que todos estavam olhando para ela. E estavam, inclusive eu, que fui pego de surpresa enquanto lutava contra o sono durante o trabalho.

"My heart is on fire..." E estava mesmo. Assim, do nada. Lembrei-me de um programa que havia assistido certo tempo atrás, da capacidade inacreditável que fêmeas possuem de captar a atenção de tudo e todos á sua volta apenas com a força de seus feromônios (a substância química que atrai, estimula, excita, e possibilita todo tipo de reprodução). Acontece em coméias com a abelha-raínha e suas operárias, que fazem de tudo para agradá-la, e acontece na vida. Estava acontecendo ali, e ela sabia disso. E, pelo pouco do olhar que pude perceber, ela gostava. Como todo macho de sangue quente, não pude deixar de olhar - a ponto de esquecer coisas relevantes, como o trabalho e tudo mais, apenas para... olhar.

"My soul's like a wheel that's turning..." E foi. Percebi que ela me pegou olhando. E a amiga feia também. Pude ver rápidamente murmurinhos mudos à distância, e sabia que era sobre mim. Ela me pegou no flágra. Nada de novidade para ela, eu pensei. Ela, portanto, pensaria "Mais um" e seria o fim. Mas não foi. Ela gostou de me ver olhando. E ao perder o movimento dos pés e ao ouvir o soar de um alarme dentro de mim - o tipo que deixa o rosto vermelho e as mãos trêmulas - eu percebi exatamente o quanto ela havia percebido; e como ela decidiu se divertir com isto. E levantou, tentei negar mas seus passos vinham em minha direção. Ao meu balcão, sem defesas, sem ajuda, sem álibi. Desprotegido e pego em flagrante por minha própria natureza; o lado cro-magnon que todo homem possui e passa o resto da vida tentando camuflar.

"My love is alive..." E parou na minha frente. Lembro que a situação não tomou mais que um minuto, quem sabe até fração de um minuto sequer, mas pela primeira vez em muito tempo... Eu me senti vivo. Sorriu com um olhar que me confrontava, que sabia que era para ela que eu estava olhando, que era sua marquinha de biquini e seu shorts que haviam me prendido. Tudo por causa dos feromônios que não deixavam ninguém escapar. Percebi como ela estava apreciando o momento, o prazer do meu flagrante e a confirmação do seu poder - uma vez mais, eu presumi - antes de começar a falar. Três frases que em qualquer outro contexto, saídas de qualquer outra boca, não carregariam a mesma energia. Três frases que guardei, que me assombraram, e que quase levou ao declínio de mais um homem fraco que se rendeu à fragância inodora de uma mulher. Uma mulher que sabia o que seus feromônios causavam, e que gostava. E falou. "Uma coca" "Dois copos" "Obrigada" Atendi seu pedido, estranhamente contente por trazer prazer a ela, da forma mais infâme, porém a única que parecia possível. E desfilou de volta à sua mesa, sem sequer olhar para trás para o homem que havia destruído com o calor da sua presença e o reflexo da sua marquinha de biquini. Sem falar do shorts, visto de trás, porque não lembro mais de nada.

Logo ela se levantou, junto à companheira feia, e foi estonteante em direção à saída. Certa de que todos a estavam vendo partir - e estavam mesmo - e, novamente, sem nem olhar pra trás, se foi. Depois de sentar e recuperar o ar, imaginei como seria se todas as mulheres descobrissem o poder que existe nelas, sob a filosofia da abelha raínha e do poder de submeter completamente os machos ao seu redor. Todos os homens se tornariam zangões? Estaríamos perdidos. Por um shorts, por uma marquinha de biquini, por um olhar... e por química. Pura química, capaz de levar à ruína, à queda e à decadência. E como seria bom...

"Yeah, yeah, yeah, yeah..."

Música De Hoje: Love Is Alive – Anastacia & Vonda Shepard.

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

Bons tempos

Eu tive um sonho ontem a noite. Eu estava numa sala de cirurgia, com médicos e enfermeiras ao meu redor, todos com seus bisturis e anestesia direcionados ao meu coração. De repente, um dos médicos se assusta com algo e todos param. Ele estuda cuidadosamente com uma pinça uma fratura no meu coração jamais vista antes. E afirma com horror, "Este coração foi partido". Os médicos ao redor balançam a cabeça em uníssono e adjetivos parecidos; "Quebrado", "Estraçalhado", "Incurável". O cirurgião pega meu coração em mãos e o avalia uma vez mais com choque, e o joga no lixo. Acordei.

***

Estranho mesmo é não direcionar mais minhas palavras para “você”. Me faz sentir mais sozinho agora que começo a tomar conta que “você” nunca lerá isto.

***

Na manhã seguinte eu decidi levantar cedo e levar meu coração partido para passear. Estava frio e levemente chuvoso, mas eu nem liguei. Depois de um ano, eu me dei conta exatamente de como Cascavel é o lugar perfeito para se estar sozinho. Uma verdadeira terra de ninguém onde o desdém toma o ar e fica até difícil atravessar as ruas. De manhã pelo menos é um pouco mais sossegado. Ao passar das esquinas e das músicas, eu percebi o quanto ainda pensava em você. Quem dizer, nela. Escrever como se fosse para ela parece mais suave, e menos doloroso de admitir que ela não está mais aqui. Alucinações e fantasias dela me faziam companhia, junto a meus artistas favoritos. Barry White cantava sobre como amar você era bom (“You’re My First, My Last, My Everything”), Gloria Gaynor berrava sobre como eu nunca conseguiria realmente dizer adeus (“Never Can Say Goodbye”), e Al Green perguntava a todos por mim como fazer a chuva parar de cair e como reparar um coração partido (“How Can You Mend a Broken Heart”). Ao longo da avenida, parei para tomar café no McDonalds e deixar a chuva cair na cidade em vês da minha cabeça. Olhando pela janela, parecia que todas que passavam por ali tinham algo parecido com ela. O cabelo, o perfume, eu procurava qualquer vestígio para alimentar minhas lembranças, mesmo sabendo da dor que poderia causar não só à minha cabeça, mas à fratura em questão. Segui meu caminho de volta pra casa e a chuva começou a cair mais forte. Estava difícil de enxergar com o vento levantando a chuva e jogando-a nos rostos de todos. Estranhamente, pela primeira vez, eu me senti "confortável" com o clima cinza e frio que me cercava. Como se eu finalmente sentisse que poderia fazer parte disso tudo.

Depois de chegar em casa, voltei a tomar café e refletir com a chuva batendo na janela. A verdade era que eu esperava ver ela de novo por aí, no mais aleatório dos momentos, e não sei exatamente porque. Talvez porque a memória do rosto dela parece estar se esvaziando a cada dia que passa. Não digo mais seu nome constantemente e não faço mais planos para dois. A maioria dos lugares pelos quais eu passava guardavam resquícios de saudade pelos bons tempos. Não sei o que diria se eu a visse de novo nem o que faria. Ouço músicas sobre como agora fujo do amor que eu procurava e de como não sei por quanto tempo ainda viveria assim. Antes parecia um insulto dizer que a vida continuaria sem ela; não parecia fazer jus. Não parece uma idéia tão ruim dedicar meus dias cinzas a ela. Enquanto a sensação de separação inacabada continua a me assombrar, sinto-me bem com a companhia de minhas fantasias. E quem sabe foi pelo melhor. Nenhum de nós realmente conseguiria ter dito adeus.

Algumas nostalgias atrás, eu tive um pensamento. Acho que prefiro sentir falta dela do que estar com ela. Não pergunte porque. Parece menos doloroso.

Música de Hoje: Chances Are – Robert Downey, Jr. & Vonda Shepard.

sexta-feira, 1 de janeiro de 2010

Um bom ano

Um ano depois. Eu parei de escrever por uns tempos, e por mais vontade que sinta de culpar o trabalho ou qualquer outra coisa que justifique a falta de tempo, eu sei exatamente da onde vem a razão da ausência das minhas palavras. De uns meses pra cá, parecia que minha vida estava sendo levada a base de bom senso e medo, e a pressão de abrir mão do que se quer fazer e priorizar o que se deve fazer que só serviu para alimentar sentimentos ainda mais arrepiadores, como solidão. Tudo isso só para evitar dizer o que realmente aconteceu; eu amei de novo, e eu perdi de novo. Aliás, não perdi porque nunca foi minha, e não posso culpar ninguém por não saber onde você está agora já que fui eu mesmo quem fez questão de não querer saber mais. Mas acabou, assim como 2009, e se um novo ano pode começar da noite pro dia, eu posso começar de novo - de novo - também. Parece que começar de novo nunca é demais.

A história ainda é a mesma, e eu continuo neurótico. Talvez não tanto quanto um ano atrás... É pior agora. Ainda estou aqui, Cascavel, não mais lutando por sobrevivência mas para encontrar o ítem que ficou em falta na minha lista do ano passado: amor. E por não ter conseguido passar as festas de fim de ano sozinho igual eu achei que gostaria passar, eu sei que não estou sozinho. Tenho minha família, meus amigos, e de quebra Barry White ("You're My First, My Last, My Everything") e Al Green ("Let's Stay Together") cantam pra mim sempre que eu preciso. Sem contar que agora também apareceu Lily Allen, que manda as pessoas se fuderem pra mim ("Fuck You"). É nisso que dá levar a vida através de músicas.

Na maior parte do tempo eu me sinto feliz e sem noção disto, mesmo dormindo sozinho todos os dias. E os 364 dias que estão por vir me dão esperança o bastante para não precisar mais do timer da televisão para dormir. Acho que estou pronto para um ano novo, e mesmo que eu não esteja, que escolha eu tenho? Mas tudo bem, dessa vez eu sei que tenho um bom ano pela frente. E quanto às promessas de revellion, como voltar a caminhar e a escrever todos dias, parar de roer unhas e cutucar espinhas, ser menos preguiçoso e estressado, e criar vergonha na cara para limpar a casa mais vezes, eu decidi começar pelos mais fáceis; duas caminhadas e meu primeiro texto do ano já foram. A vida se tornou mais fácil quando eu comecei a tratar e a fazer tudo por amor.

Música de Hoje: What I Did For Love - "A Chorus Line" Original Soundtrack.