domingo, 28 de fevereiro de 2010

Mostre o caminho

Eu me perdi, eu admito. Nada de gestos tresloucados ou caminhar sob a chuva, e nada de devaneios sobre como seria se em vês de estar dormindo sozinho, vivendo sozinho, eu estivesse chegando em casa todas as noites e encontrasse seu rosto lá. A nova rotina, e toda a sua exaustão, já tomou forma e até que eu sinta meu coração dar algum sinal de vida de novo, é assim que vai ser. O amor não lidera mais o caminho que sigo, e talvez seja por isso que eu me sinto tão...

Se prestar bastante atenção, você consegue sentir quando aquela parte mais imatura do seu ser, que não se preocupava com o amanhã, era inconsequente até o limite, e era feliz vivendo assim, começa a desaparecer, e uma coisa muito estranha chamada razão toma o lugar que antes era da emoção em se tratando de como levar a vida, e como decidir o que você quer para si.

Mas essa parte de mim não morreu por completo. Pelo contrário, arrisco dizer que esta apenas amadureceu - não que eu concorde com isto. A parte "e se..." de mim ainda sonha acordado com a possibilidade de, não sei, um dia desses conhecer alguém que, em questão de milésimos de segundos, eu saberia que foi feita para mim. E seria mútuo, se não for sonhar demais. Tem sido difícil tentar se deixar levar pelo amor de novo, o que eu temo que facilite ainda mais que eu me perca completamente dela.

Não acho que realmente existam erros em se tratando de amor; gostar de alguém nunca me parece ser em vão. E se eu amei como amei antes, tem um motivo. Talvez tenha sido para me preparar; cada amor que tive me levou a crescer e a ver a vida de um modo diferente, mas por ser tão apegado à minha insconsequencia pré-adolescente, talvez seja por isso que eu tenha me sentido cada vez mais longe de ser feliz.

Quem sabe um dia desses eu perceba que é o contrário; que amor e felicidade estão lado a lado no meu caminho. Tudo que eu preciso fazer é deixar o amor tomar conta de novo. E se admitir que me perdi é o primeiro passo, acredito que estou chegando perto.

***

O que eu andei ouvindo em Fevereiro:

01. Magic Carpet Ride – Steppenwolf

02. Ooh Child – Nina Simone

03. I’m So Tired of Being Alone – Al Green

04. Love is All Around – Sonny Curtis

05. 22 – Lily Allen

06. Last Dance – Donna Summer

07. The Happening – The Supremes

08. We Gotta Get You a Woman – Todd Rundgren

09. Flashdance… What a Feeling – Irene Cara

10. You’re Nobody ‘Till Somebody Loves You – Michael Bublé

11. Something Stupid – Robbie Williams & Nicole Kidman

12. One Hundred Tears Away – Vonda Shepard

Bonus Track: You’re My First, My Last, My Everything – 2002 Club Ibiza Remix

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

100 lágrimas de distância

Minhas aulas começaram há três semanas, e o motivo de ainda não ter comentado sobre elas é porque desta vez eu realmente estou prestando atenção no que dizem na sala de aula em vês de me esconder dentro do caderno como eu fiz da última vez. Quando eu decidi abrir mão do Jornalismo por aguardar durante sete meses de puro ócio - em teoria - até que a classe de Psicologia de 2010 se formasse, ninguém foi a favor. Geralmente, decidir algo sozinho sem apoio externo é o que me motiva a levar certas causas em frente. "Você não tem cara de psicólogo" (colegas de trabalho), "Você vai ser pobre" (mãe), "Jornalismo é mais barato" (pai), "É coisa de mulher" (secretamente, todo mundo; salvo exceção uma prima desbocada) foram algumas das idéias que as pessoas tentaram usar para me persuadir a voltar para o Jornalismo - afinal, era mesmo mais barato. E começou, com as expectativas mais altas que eu já havia criado para algo e contra o que todos achavam que era certo para mim... E eu senti muito em afirmar que, me desculpem, eu gostei.

Tem sido tudo muito natural a ponto de não parecer real. Depois de anos batendo a cabeça na parede com a idéia de que deve-se conhecer tristeza e passar por vários dramas antes de encontrar a felicidade, não parecia certo que algo tão bom pudesse vir assim de bandeja. Sabe-se lá se não era coisa do Ivo Holanda. Palavras como "subjetividade", "alma", "emoção" e "normal" agora fazem parte do meu cotidiano acadêmico - e não apenas dos meus monólogos internos - e servem para me fazer acreditar de que talvez seja isso mesmo o que eu queria, mas tem seu preço (e não estou falando da mensalidade).

Como um abrir de olhos para a realidade além do subjetivismo, da alma e das emoções, um conceito de normalidade faz com que cada um que almeja mesmo este caminho o aceite para si mesmo antes de julgar-se capaz de ajudar outros a encontrá-lo. A linha tênue entre razão e sentimentalismo finalmente torna-se clara, assim como em que lado você deve estar para suceder. Foi quando eu descobri que apesar de toda a subjetividade, não havia espaço para amor no estudo do comportamento humano. E o que realmente me assustou; eu entendi isto. Racionalidade sempre me pareceu algo inalcançável, como estabilidade mental ou coordenação motora, mas é o que tomou conta. Nada de "amor pra vida toda"; apenas nomes de filósofos, e outros pervertidos como Freud, e ideologias de como nada é puramente subconsciente. Algo pesado de se aguentar para alguém que não se relaciona bem com responsabilidade - especialmente, por seus próprios atos.

E então, eu me despedi da dramacidade e da parte de mim que produzia fantasias num piscar de olhos; a parte de mim que sonhava em encontrar o "amor da vida" numa caminhada qualquer da vida. Apesar de ainda acreditar que amor, felicidade, e uma vida plena estão no meu futuro, deixei de lado minhas crenças e todo um ser irracional que vivia em base do amanhã, para aproveitar o hoje. E vou continuar, sabendo que não serei eu mesmo por um tempo até sentir-me equilibrado o bastante para balancear racionalismo e amor numa mesma mente. Mas ainda vou para casa cantando baixinho, "All of the happiness you seek, all of the joy for which you pray, it's closer than you think, it's just a hundred tears away..."

Música de Hoje: One Hundred Tears Away – Vonda Shepard.

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

Cartas de amor

Quando eu era criança e uma garota sorria pra mim, eu me apaixonava. Não querendo dizer que isso não aconteceu até depois de eu deixar de ser criança - pelo menos, físicamente - mas, quando acontecia, o padrão era o mesmo. Eu sentava e despejava todos os meus sentimentos, sem medir o tamanho das palavras ("vida", "amor", "pra sempre") numa simples carta, tecia com cuidado seu envelope e arquitetava um modo de, discretamente, entregar meu recado à aquela que eu gostaria de entregar também meu coração. Nada mal para uma criança de onze anos.

Até onde eu consigo me lembrar, foi assim que começou o que logo tornaria-se a razão que me tiraria da cama por muitos dias cinzentos e desesperançosos que estariam por vir. Tudo bem, até que... As cartas, a teoria, ficaram para trás e a prática tomou conta, com expectativas ainda mais altas, esforços extremamente superiores à dobra de um envelope, e os sentimentos, ah, os sentimentos cresceram, amadureceram, e a essa altura já não havia nada de discreto.

Mas à medida em que se descobre que corações partidos fazem parte da vida, o sonho enfraquece e as cartas diminuem, já que os destinarários mudam de endereço e não fazem questão de nos avisar para onde vão. A crença de que um dia nossas cartas poderiam ser correspondidas lentamente se esconde e, então, as palavras cessam. Não se encontram mais frases apaixonadas ou parágrafos e mais parágrafos de declamações poéticas, ainda fazendo uso de coisas surreais como "nunca me senti assim" ou "para sempre". Não fazemos mais questão de nos sentir diferentes de como estamos e tomamos noção de que nada é para sempre.

Por isso tem sido tão difícil escrever aqui, para mim mesmo. As palavras fogem quando tento apanhá-las e transcrevê-las, e tudo que resta são os pontos e vírgulas passados que um dia escrevi, no tempo em que o amor que vivia em mim escrevia sozinho. E talvez seja disso que eu mais sinta falta meio ao dia-a-dia apurado e cansativo que alguns chamam de vida; das minhas frases, meus travessões, meu amor.

Venho por meio desta confessar que sinto falta do meu amor platônico, aquela que nunca conheci, e que sinto muito pela ausência. Voltarei a sonhar-te assim que puder; assim que sentir de novo que mereço conhecê-la. Seja como for, por envelope ou virtual, é para você que escrevo, meu alguém. Eu voltarei.

Música de Hoje: I Know Her By Heart – Vonda Shepard.