quarta-feira, 30 de junho de 2010

Crepúsculo, ou o último dos românticos

Quando eu tinha 14 anos eu fiz uma decisão que tornou-se o momento definitivo do meu caráter, e a razão da minha profunda frustração por anos posteriores; eu decidi que esperaria pela mulher dos meus sonhos aparecer na minha vida – que nossas almas se encontrariam meio à perdição do mundo e instantaneamente saberiamos que pertencemos juntos, assim dariamos as mãos e seguiriamos caminhando pela mesma direção… E viveriamos felizes para sempre. Juro.

Por limitar minha vida à espera de tal mulher aparecer, eu percebi exatamente quanto tempo em mãos eu tinha, e para passar tempo o que me restou foram os abençoados seriados americanos – dos quais eu aprendi não só lições como inglês também. E foi assim que eu desafiei todos os padrões possíveis ao tentar entender a essência por trás da teoria sobre como a busca pela pessoa perfeita é uma coisa feminina, e junto aos programas da revista da televisão à cabo que eu grifava para assistir, eu adicionei “Sex and the City” à minha lista. Todo mundo conhece a história ou pelo menos sabem algo de ouvir falar, mas havia algo além do que me era mostrado que eu não podia ignorar; o que estava realmente acontecendo eram pessoas tentando se acertar umas com as outras em relacionamentos, esperando encontrar tudo pelo que sonhavam numa vida a dois. E antes de sair por aí e fazer tudo que fiz, inclusive deixar inúmeras oportunidades passarem, eu tive que me perguntar: por que as mulheres podem se dedicar em manter o sonho de encontrar a pessoa perfeita, e os homens não?

Isto levanta uma série de questionamentos que passam desde a hipocrisia que dá sustentação para a sociedade até a dificuldade do adolescente em encontrar seu lugar no mundo. E não estou falando do mundo real, mas de encontrar o sentido no seu próprio mundo, antes mesmo de deixar outros entrarem. A construção do caráter, da personalidade, e o começo de escolhas do tipo, “o que eu quero para a minha vida?”… Ou então, “quem eu quero para a minha vida?”. Talvez eu estivesse afrente do meu tempo, talvez tivesse algo errado comigo, mas seja lá qual for a explicação eu fui adiante, e na maior das loucuras impensadas que um jovem poderia cometer, eu deixei o amor mostrar o caminho que eu deveria seguir. Se o que todos buscam nesse mundo é amor, e amor é a base para tudo, como eu poderia me perder? Pois é… Eu me perdi, e não foram uma ou duas vezes.

Outra sensação que está marcando época é o efeito “Crepúsculo” – uma história de fantasia e aventura e mistério… E vampiros. Mas os vampiros são o menor dos detalhes, porque a essência continua a mesma: a busca por amor, agora exposto como impossível, e os desafios que os personagens enfrentam para continuarem juntos. Não só a verdade de como fazer amigos verdadeiros, imagine então amor real, no mundo hoje é claramente visível em nossas próprias vidas – a medida que tomamos consciência de nós mesmos e o que estamos fazendo conosco e com os outros – o ponto que eu não pude deixar de explorar em “Crepúsculo” foi de como o amor impossível torna-se possível apesar de todos os apesares, inclusive de vampiros. E digo isso após ter visto o tamanho da fila na estréia do novo filme da série no cinema; centenas de pessoas com seus bilhetes na mão esperando ansiosamente para sentarem e absorverem sua dose de fantasia, que o mundo real fez necessário para continuarmos vivos. Precisamos de sonhos para nos tirar da cama de manhã quando o sol nasce, e precisamos de algo para acreditar quando deitamos a cabeça no travesseiro à noite. Até eu perceber que acreditar em algo que não podia ver mas que sabia que estava por aí – apenas longe do meu alcance – havia se tornado tudo para mim e pior, estava me satisfazendo. Quer dizer, até não satisfazer mais. Quando dizem que as mulheres amadurecem mais rápido que os homens, e que seria necessário trilhões de neurônios a mais para o homem sequer chegar perto de ter o intelecto de uma mulher, não é brincadeira. Dizem também que filmes pornôs e a Disney são as maiores fontes de frustração para as pessoas; queremos o amor das nossas vidas, perfeito em cada detalhe, e acima de tudo queremos que o sexo seja espetacular sem nem ter treinado antes. Acontecia em “Sex and the City”, acontece em “Crepúsculo”, acontece com o Mickey, e acontece na vida. Basta olhar além do óbvio para perceber a verdade escondida nas coisas e nas pessoas, e descobrir que nem sempre o que pensávamos realmente é do jeito que pensávamos.

Eu senti o auge da minha frustração ocorrer quando cliquei em confirmar minha inscrição em um site de namoro virtual – algo do tipo “encontre o seu par pefeito aqui” misturado com anúncios de “aumente o tamanho do seu pênis”. Quando o site me pediu uma pequena frase para dar início ao meu perfil, e à minha decadência, e parei, pensei bem no que poderia bem me definir, e escrevi: “O último dos românticos”. A verdade me atingiu como um soco ideológico no estômago, do tipo que confiava em meus amigos para atirarem em mim mas que com o tempo tive que aprender a me auto-espancar para conseguir ver as coisas claramente de novo; o último dos românticos? E o que aconteceu com o último dos românticos, para estar procurando sua alma-gêmea em um site de relacionamentos? Uma das minhas professoras disse algo no início das minhas aulas que me marcou, assim como muitas outras pérolas que se sucederam e que me fazem ter certeza de que no mínimo meu rumo profissional parece estar finalmente correndo bem. Ela disse, “todo mundo que quer ser único acaba sozinho”. Então aí estava o fim do último dos românticos; está sozinho, e deixou seu desespero silencioso tomar conta de seus dedos e expor sua miséria com a rapidez de um clique. Foi então que eu decidi dar um basta - para quê ser o único romântico? – e logo estava na concreta procura não da pessoa certa, mas de alguém para me fazer feliz hoje. Deixei todos os dias tornarem-se inúteis e iguais ao concentrar minhas forças no amanhã que nunca chega, apenas para descobrir exatamente até onde a frustração pode chegar. Quer saber? Foda-se.

Eis o segredo para se ter tudo: pare de esperar que será do jeito que você achou que seria; é verdade para os relacionamentos, e é verdade para a vida. Não me entenda errado, ainda espero encontrar a mulher da minha vida um dia; só que de agora em diante, enquanto este dia não chega, vou começar a me permitir ser feliz, só pra variar. Vejamos o que o mundo real tem de tão bom. Foi assim que o último dos românticos encontrou seu último desafio; a realidade de que ser feliz dependia apenas de si mesmo, e logo o sol se pôs. Como dizem, coisas incríveis podem acontecer ao longo da vida, especialmente quando o crepúsculo toma conta do céu. Crenças antigas morrem, novas esperanças nascem. E estou só começando.

Igor Costa Moresca. 18 anos, brasileiro, solteiro, ex-romântico, otimista incurável, que nunca deixa de acreditar no amor mesmo sem nem conhecê-lo de verdade. Eu mencionei “solteiro”?

terça-feira, 29 de junho de 2010

Eu e a outra cidade

Londrina é um municipio localizado ao norte e interior do Paraná, com mais de 500.000 habitantes, considerada a segunda grande cidade mais populosa do estado e, há um ano atrás, foi o lugar que escolhi deixar para trás para adentrar a nova fase da minha vida, e o lugar para o qual eu prometi a mim mesmo que voltaria a ser meu lar.

Mesmo nascido em Cambé, uma vila anexada à área metropolitana da cidade grande, Londrina é minha casa e o berço de todas as lembranças e experiências que um adolescente no auge dos seus dezessete anos poderia sonhar em ter, composta por monumentos como a rodoviária em forma de nave espacial, o shopping Catuaí em toda a sua grandeza em expansão, a Universidade Estadual (ou o que sobrou dela), o colégio Marista (o melhor campo pedagógico de concentração que há), e lugares memoráveis como o calçadão, o lago Igapó, a avenida Tiradentes, a rua Maringá, a avenida JK, a tumultuosa Leste-Oeste, e claro, as casas dos meus amigos que mesmo depois de tanto tempo, ainda me deixam entrar. Quem diria que uma cidade tão rica poderia também comportar todas as minhas irracionalidades?

E agora, um ano depois, eu ainda sonho com o dia em que voltarei a me referir a Londrina como minha casa, meu berço, meu lar, mas por enquanto me contento em estar apenas de passagem por alguns dias pela vida que deixei para trás. Cascavel tem sido um ótimo lar adotivo, mas não há nada como nosso lar doce lar. Apesar de ter deixado Londrina com um habitante a menos, meu coração continua lá firme e forte, e minha família e amigos sempre me recebem de braços abertos, ansiosos como eu para o dia em que eu finalmente possa desfazer as malas e dizer: estou em casa de novo.

Me aguarde, Londrina, eu estou chegando.


***


Enquanto isso, aqui vai minha trilha sonora de Junho:


01. Rapture – Alicia Keys

02. King of Swing – Big Bad Voodoo Daddy

03. Empire State of Mind – Jay-Z & Alicia Keys

04. Where Peaceful Waters Flow – Gladys Knight & The Pips

05. Tell It Like It Is – Aaron Neville

06. Bennie and the Jets – Elton John

07. That’s Life – Frank Sinatra

08. I Just Called to Say I Love You – Stevie Wonder

09. Mr. Blue – Catherine Feeney

10. Empire State of Mind (Part II) Broken Down – Alicia Keys

11. The Rainbow Connection – The Carpenters

12. Don’t Let the Sun Go Down On Me – Elton John

sábado, 26 de junho de 2010

Os três dias do condor

Eu não durmo há três dias, mas não foi de todo ruim. Por três dias eu vi o sol nascer, e foi bom sentir em mãos inúmeras possibilidades apresentadas a mim pelo início de mais um dia. Noites bem dormidas tornaram-se lembranças distantes, enquanto sonhos tornaram-se mais inalcançáveis do que o de costume. E por três dias, eu não fiz nada senão pensar sobre isto, sem chegar em conclusões satisfatórias… Até agora.

Talvez tudo tenha começado, ou melhor, terminado, quando eu mesmo declarei o fim dos meus sonhos; que não havia alma-gêmea, que não sentiríamos no coração com apenas um olhar que pertencemos um ao outro, e que quando nos encontrássemos, vindo de caminhos distantes, seguiriamos em frente de mãos dadas a mesma direção, para onde quer que fossemos. Desde então não houveram mais sonhos de qualquer tipo, e uma sucessão de noites mal-dormidas deu-se início. Eu não deveria estar surpreso que logo após os sonhos, perderia o sono em seguida.

Ao me assegurar no que diziam ser terrivelmente verdadeiro, acabei preso no mundo real. Vi meus sonhos desaparecerem sem deixarem vestígios, a não ser por meus rascunhos e lamentações que vieram a calhar como faíscas na escuridão, e tudo o que restou foi a vontade imensa e a saudade de dormir de novo. Quem sabe, sonhar de novo. Seria melhor continuar, digamos assim, feliz em sonhos, do que miseráel na realidade? Qual é o mal em acreditar em algo que não se pode ver, e ter esperanças de um dia a encontrar?

As músicas ainda são as mesmas; melodias que funcionam como lembretes de como era passar os dias em constantes devaneios da vaga satisfação que estes traziam. Músicas que me lembram de mim e de coisas que me fazem feliz; coisas que me fazem vivo. Sem os sonhos nada restou, pelo menos é que me parece claro agora. Como eu pude abrir mão do que parece ser minha razão, em troca de firmar meus pés no chão e passar a existir como um fantasma; uma alma perturbada em busca de paz interior. Mas paz interior só se encontra em um lugar, e esta busca, assim como todas as coisas mais importantes da vida, começa com um sonho.

Eu preciso acreditar que isto é real, pela minha paz de espírito, e acima de tudo, para deitar minha cabeça no travesseiro com tranquilidade ao fim do dia. Eu preciso levar isto para a cama comigo, mesmo que eu vá para a cama sozinho.


Ao som de: The Only Exception – Paramore.


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Às vezes eu me sinto infiel ao amor em si.

quarta-feira, 23 de junho de 2010

Dê tempo ao tempo

Tempo é uma coisa engraçada. Enquanto cinco anos podem passar num piscar de olhos e manter a nós e nossos amigos exatamente como sempre fomos, coisas impressionantes podem acontecer da noite pro dia. Coisas que nunca esperávamos que fossem possíveis. E mesmo depois de tanto tempo, eu ainda estou do mesmo modo; apaixonado.

Mas a medida em que tomamos nosso tempo como garantido, deixamos que este escape por nossos dedos, somente para percebermos de novo e de novo que não há nada que possamos fazer para recuperar tempo perdido. Deixamos tanto para o amanhã, que nos esquecemos do hoje. Esquecemos que a vida não pára para assistir nossa constante procrastinação. E então podemos acordar um dia e descobrir que nosso tempo se esgotou independente dos relógios a nossa volta, que teóricamente deveriam controlar o tempo ao nosso favor. Será que deixamos a teoria se tornar mais importante do que a prática? O que estamos fazendo com nosso tempo?

Deixamos o sol nascer e se pôr sem perceber sua importância, sua beleza, pelo menos uma vez ao dia. Deixamos de olhar para o céu e nos focamos com nossas agendas compromissadas, supondo que é mais importante do que prestigiar o mundo que nos cerca antes que nossa hora chegue de deixá-lo. Algumas pessoas fixam-se tanto em um compromisso após o outro, que se esquecem de algo inadiável: o dia em que não haverá mais tempo em nossas agendas. Nada mais importará quando vier o pôr-do-sol para nos levar embora, então quais são os seus planos para hoje?

A vida é muito curta.


Ao som de: In the Waiting Line – Zero 7.

domingo, 20 de junho de 2010

Boa noite, meu alguém

Em “The Music Man quando uma garotinha, Amaryllis, pergunta à Marian, sua professora de piano, para quem ela deve dizer “boa noite” quando as estrelas tomam o céu, Marian simplesmente sugere que ela deseje boa noite ao seu “alguém”, e faz isso em forma de música (“Goodnight My Someone”). Foi assim que eu passei a adotar este costume, principalmente para me encher de esperança e para me sentir menos sozinho quando deito a cabeça no travesseiro, na minha cama, no meu apartamento vazio. Também foi assim que eu aprendi a deixar músicas orientarem minhas emoções, como modo de tornar mais fácil lidar com quaisquer crises que meu subconsciente pudesse criar.

Com o tempo este costume amadureceu a ponto de tornar-se um estilo de vida, assim como minhas músicas foram além dos fones de ouvido, e passaram a liderar minha caminhada rumo ao meu “alguém”. O que explica porque eu me senti assombrado por Gloria Gaynor cantando “Never Can Say Goodbye” quando minha última relação séria em anos com uma pessoa chegou a um fim inesperado – nenhum de nós realmente disse adeus – ou, então, quando Al Green tornava minhas esperanças (“Let’s Stay Together”) e minhas desilusões (“How Can You Mend a Broken Heart”) em simples melodias para diminuir a minha dor. Houveram as ocasiões em que Barry White levantava meu ânimo com sua atitude positiva inquestionável (“You’re My First, My Last, My Everything”), e as vezes em que deixei Vonda Shepard cantar enquanto deixava lágrimas inegáveis escorrerem pelo meu rosto (“One Hundred Tears Away”).

Eu percebi que não estava realmente sozinho, enquanto não encontrava meu “alguém”. Meus artistas favoritos estão sempre prontos para cantarem minha vida, e fazer com que eu me sinta melhor com uma melodia para cantar. Não há nada de errado em deixar sua vida tornar-se um musical; é uma das melhores formas de se sentir vivo quando tudo parece perdido. Foi o que me ajudou a acreditar que a felicidade estava mesmo há cem lágrimas de distância.

Então ao em vez de me apoiar em um coração partido, decidi apenas me apoiar no amor (“Try Sleeping with a Broken Heart”). Porque se eu acreditasse de verdade, ele tomaria conta e mostraria o caminho (“Lead the Way”). O sol brilhará amanhã, e estamos apenas a um dia longe um do outro (“Tomorrow”). Eu poderia comentar aqui todos os meus versos favoritos, mas prefiro limitar-me a uma única passagem: boa noite, meu alguém. Um dia estaremos juntos.


Ao som de: Someday We’ll Be Together” – Vonda Shepard.

sábado, 19 de junho de 2010

Os sonhadores

Apesar do preto e branco que cobre o mundo hoje, algumas pessoas não só ainda conseguem distinguir o preto do branco, como também conseguem enxergar com clareza todos os tons de cinza que existem entre eles. Algumas pessoas ainda acreditam que o mundo pode até mesmo deixar de ser preto e branco; pode voltar a ter todas as cores possíveis, e que a vida pode ser mais do que nos dizem que pode ser. Algumas pessoas não só ainda tem sonhos com ainda acreditam neles; acreditam que podem torná-los realidade até quando a própria realidade massacrante tenta provar o contrário. Algumas pessoas provavelmente conhecerão mais felicidade do que outras, por perceberem que esta nasce dentro de cada um, antes de ser projetada para fora, e para os outros se inspirarem nela.

E diante de tudo que lhes é mostrado, algumas pessoas ainda conseguem ver o lado bom de tudo, inclusive a bondade que existe onde dizem ser apenas mal. Algumas pessoas não desperdiçam a vida; pelo contrário, buscam aproveitar cada instante pois sabem que às vezes não terão uma segunda chance, e tentam ao máximo salvar o que podem para manter-se vivas; para manter seus sonhos vivos.

São pessoas que ainda param para admirar flores, que estendem a mão para ajudar sem medo de serem recusadas, e marcham adiante com o mesmo sorriso esperançoso no rosto, contentes com o hoje e ansiosos com o que o amanhã trará. São pessoas que choram de alegria, pois são incapazes de se sentirem infelizes diante de tanta beleza que existe no mundo. Ainda existe beleza no mundo. Ainda existem pessoas que acreditam não em ser como era antes, mas que será melhor daqui em diante. Pessoas como eu e você, com nada além de estrelas para nos amparar e cientes de que não precisamos de nada além delas.

Tudo pode dar certo, basta acreditar. Acredite nas estrelas, acredite nas pessoas, acredite no mundo, e, acima de tudo, acredite em si mesmo. É aí que a felicidade começa, com todas as cores que imaginar.


Música de Hoje: The Rainbow Connection – The Carpenters.

sexta-feira, 18 de junho de 2010

Terra de ninguém

Acordar à uma da tarde, geladeira cheia de comida pra microondas, cama desarrumada, sem supervisão (a não ser os vizinhos que ficam passando pela janela), e total liberdade. Em apenas três meses em Cascavel - ou como eu costumava chamar, "terra de ninguém" - e no auge dos agonizantes dezessete anos, eu havia conseguido o improvável: meu próprio apartamento. E em apenas um ano, eu consegui o impossível: fazer deste apartamento meu lar definitivo pelos próximos quatro anos e meio, ou até minha estadia expirar aqui na cidade onde as capivaras correm soltas.

E ao somar isto com um muito merecido período de férias do trabalho, é possível sentir o aroma de preguiça no ar mesmo de longe. Eu havia construído minha própria terra de ninguém, e realizado o sonho de qualquer adolescente frustrado que aspira um dia fugir de casa ou montar uma república. Claro, dormir e acordar quando dá vontade, comer e beber o que quiser, e aproveitar tudo o que o ócio criativo tem a oferecer tem seu preço, mas após finalmente estabelecer controle sob o aluguél e as contas que sempre se acumulam, eu posso dizer que estou na minha casa longe de casa.

Livre para desperdiçar o tempo que quiser e sentir o gosto da pseudo-independência... Apesar de que seria bom ter companhia, mas por enquanto contento-me com as alegrias de ser um homem solteiro e bem-resolvido... E sozinho. Morando sozinho, vivendo sozinho... Pensando bem, alguém aí quer dividir um apartamento?


Música de Hoje: The Wasteland – Elton John.

O efeito Scherzinger

Todo homem sonha em encontrar sua alma-gêmea - uma mulher compreensiva, bonita, inteligente, capaz de tornar realidade todas as suas fantasias. Mas há controvérsias; alguns esperam anos por aquela mulher, com letra maiúscula, aquela que aparece apenas uma vez na vida e que após encontrá-la, passam o resto de sua existência tentando provar que são merecedores de sua graça, seu amor, ao mesmo tempo em que agradecem por esta finalmente trazer sentido aos seus dias. Assim como há aqueles que se contentam com a primeira que aparecer, de novo e de novo, sem expectativas de revê-la e fazendo uso da antropologia para justificar sua necessidade de espalhar sua semente o máximo que puder. Já dizia Woody Allen que sexo sem amor é uma experiência vazia, porém é uma das melhores. Mas o que resta à aqueles sonhadores incansáveis quando confrontados com o fim de suas ilusões e paixões platônicas que os mantém vivos enquanto ainda procuram a pessoa ideal? Começar a sonhar de novo. E foi exatamente o que eu fiz.

Quando o mundo real decepciona, às vezes não resta nada senão fantasias. E como é de praxe em fantasias, surge uma musa inspiradora para levar adiante as esperanças de um pobre romântico. Seu nome é Nicole Prescovia Elikolani Valiente Scherzinger; para os mais íntimos, Nicole. Como a maioria das musas inspiradoras, Nicole é extremamente atraente, inquestionavelmente sedurora, e ridiculamente inatingível. Em suma, a fantasia perfeita. Tão envolvente e aparentemente flexível, como eu poderia resistir? Mas até as fantasias mais envolventes possuem suas falhas; neste caso, a dolorosa ligação com a realidade. Seriam as fantasias a nova forma de superar traumas como, digamos assim, desilusões amorosas? Ou quem sabe sou eu quem precisa sair mais de casa. Acho que dia dos namorados, copa do mundo e semana de provas tudo de uma vez só é muito confuso. E então eu tive uma dura dose de realidade ao ler isto. Socorro, Nicole.

PS. Twitter está ficando muito assustador.


Música de Hoje: I Hate This Part - The Pussycat Dolls.

***


Qualquer semelhança é mera coincidência.

Diga como é

O que aconteceu com o tempo em que ser verdadeiro tinha valor? As pessoas mentem, fofocam, cochicham, articulam, manipulam, apunhalam pelas costas e ainda se fazem de desentendidas quando suas máscaras caem. Qual é a grande dificuldade em simplesmente ser o que é, ao em vez de falsificar uma identidade, e consequentemente falsificar relacionamentos?

Somos criados com base de que devemos sempre contar a verdade, que mentir é errado, e que seja lá qual for o problema, não compensa carregar uma consciência pesada. Mas ao amadurecermos e entrarmos em contato com o mundo real, mentir e fingir perdem sua pejoratividade e tornam-se armas de sobreviência, para combater o que falam de nós, o que pensam de nós, até mesmo quando quem lança as granadas mal conhece seu próprio nariz. Sobreviver no mundo real tem seu preço, e pode custar caro ter de abrir mão de quem você realmente é, para fazer jus ao que você pensa que os outros pensam de você, e para segurar-se na sua velha opinião formada sobre tudo e todos.

Aprendemos que a verdade dói, e fazemos de tudo para mantê-la escondida. Aprendemos que quem realmente somos pode não agradar, então colocamos nossas máscaras antes de sair de casa para tornar mais fácil lidar com os outros - e conosco, a medida em que lá fora não há rede de segurança. Mas por mais que a verdade machuque, chegamos ao ponto em que existem coisas que, independente da validade, jamais devem ser ditas? É melhor fingir do que ficar sozinho?

Por sorte, algumas pessoas ainda possuem o dom de reconhecer a alma umas das outras, e em um mundo mergulhado em escuridão, é possível acender a luz da compaixão. Seja você mesmo, e diga as coisas como realmente são, não como você acha ou gostaria que fosse. A verdade é terrível, mas é melhor do que continuar no escuro.


Música de Hoje: Tell It Like It Is – Aaron Neville.

quinta-feira, 17 de junho de 2010

Grandes esperanças

Talvez o maior problema que exista ao sonhar com o futuro é que quanto mais construimos planos para nós e o que queremos da vida, mais elevamos nossas expectativas. E expectativas são sentimentos frágeis demais para se tornarem muito altas, porque quanto maior a altura, maior é a queda de volta à realidade. Isto provavelmente explica porque, depois de meses de agonia e êxtase vazios, eu ainda espero ansioso pelo dia em que me veja livre de paixões platônicas que foram em vão, ao em vez de insistir em fixar meus olhos naquela pessoa. Não é a toa que sempre me dizem, "não crie expectativas". Eu já deveria ter aprendido; não é a primeira vez que trombo de frente com o mundo real desse jeito. Ou quem sabe minhas ilusões são meu sistema de air-bag que se aciona ao choque de sentir minhas expectativas serem partidas ao meio; assim diminui o impacto, mas não impede a dor. Às vezes me sinto incapaz de não sentir esperança - se não fosse essa fé na humanidade que se recusa a ceder...

O segredo para se ter tudo é este; pare de esperar que será do jeito que você achou que seria; é verdade para os relacionamentos, e é verdade para a vida. E você ainda se surpreenderá com o resultado.


***


Há exatamente um ano atrás, eu estava desistindo de Jornalismo para redirecionar minha vida rumo ao estudo da mente humana, e todas as crises existenciais que esta implica. Não há nada melhor do que olhar para trás, e sentir-se com a certeza de que fez a escolha certa. Talvez Sartre estivesse errado, e as angústias não são tão constantes assim. A não ser que eu reveja o contexo... Tem sempre algo para causar dor de cabeça.


Música do Dia: Lead the Way – Mariah Carey.

quarta-feira, 16 de junho de 2010

Um

No fim eu acho que o que todo mundo realmente quer da vida é um grande amor. Mas só de mencionar a expressão "um grande amor" já causa muitas controvérsias; o que define um grande amor, e o que diferencia este de meras paixões passadas? Parece ser o sonho impossível de qualquer um possuidor de um coração que busca ser feliz meio à perdição do mundo, viver um grande amor e ter as palavras simplesmente cairem da boca para confirmar que este amor é real; quando você diz em voz alta, olhos nos olhos, eu te amo. Das duas, uma: ou não existe, não acontece... Ou acontece, uma vez na vida. Uma vida, um amor, uma pessoa.

E talvez não se trate apenas de uma pessoa; parece que sempre procuramos aquele "um" no meio de tantos que complete nossas vidas. Um lar, um emprego, uma chance, uma família, um... Jung e seus precursores mais pedagógicos nos ensinaram que existem duas personas em cada um de nós; aquela cuja máscara usamos quando colocamos o pé para fora de casa, para lidar com a realidade e as pessoas que exigem que vivamos nela, e quando estamos sozinhos, sem máscaras e sem mentiras, livres para deixar nossas fantasias tomarem conta. Livres para ficarmos de pijama em casa, descalços e em paz, apenas para pegar-se sonhando ao olhar o exterior de uma janela, e deparar-se com seu maior desejo diante dos olhos. O sonho de um grande amor. Uma grande pessoa, que completaria sua persona e faria da sua vida uma realidade plena, capaz de diminuir - ou quem sabe, extinguir - esta angústia que nos persegue constantemente.

Nós todos procuramos amor, e deixamos um espaço reservado no coração para esta pessoa que ainda não conhecemos. Mas às vezes não podemos evitar de nos perguntar... Quando a espera ou a procura de um grande amor... termina?


Música do Dia: One – U2.

segunda-feira, 14 de junho de 2010

Por um sentido na vida

Eu não gosto de ter tempo livre. E por mais estranho que pareça a pior parte disto não é como esta afirmação soa, mas como é difícil de admitir e como as pessoas não entendem. Nós vivemos tão fixados em concepções próprias do que os outros pensam de nós quando tentamos escolher como nos definir, que simplesmente esquecemos de viver. Na verdade não esquecemos, apenas adiamos. Mas é um adiamento sem data. Por exemplo, eu não gosto de ter tempo livre porque me dá a oportunidade de reavaliar minha vida - por mais que eu ouça e até acredite que em apenas dezoito anos não é muito possível querer dar sentido à vida, uma vez que esta mal começou - e de me sentir erroneamente vazio. De querer encontrar a razão fundamental da minha existência no mundo, e ao mesmo tempo ser livre das amarras que eu mesmo criei. Tudo muito confuso e complexo que até parece simples quando dou um passo para trás, para rever o quadro maior. Que nada disso realmente importa, e que eu deveria parar de adiar minha vida com questionamentos inúteis; por que dar sentido à vida?

Agora que o maldito dia passou eu me encontro livre do prazo de validade que havia dado à mim mesmo; o prazo para encontrar a pessoa certa e não me sentir triste ao ver casais por todo lado, felizes ou não, mas no mínimo juntos. Ou quem sabe é uma nova rede de segurança que se estabeleceu, já que só acontecerá de novo daqui há 363 dias. Não sei, por isso usei uma desculpa qualquer para sair e andar por aí, talvez apenas como argumento para convencer a mim mesmo a sair de casa e ver pessoas, sentir o vento no rosto, e aproveitar mais um dia frio de céu azul. Parece pequeno, mas faz sentido pra mim. Talvez a principal razão de eu não gostar de ter tempo livre seja o desespero que existe no silêncio de um apartamento vazio, gozando da mísera vida hipócrita e egoísta que aqui reside, e chora em cantos por tudo que poderia ter sido e não foi, só para se sentir melhor depois. Felicidade aleatória, angústia constante. O problema seria a vida, a cidade, ou eu mesmo?

Pior do que dias vazios, são dias em que mil coisas acontecem numa hora só. Mas acho que a vida é feita disso mesmo. Pelo lado bom, estou quase acreditando que sou feliz. Só o que me falta é a pessoa certa. O resto é barulho de fundo.

De tudo que já me falaram, sobre eu não ser normal, que eu não sou de verdade, e que eu deveria estudar filosofia, às vezes eu acrdito quando releio estas coisas e não acredito que saiu de mim. Mas acho que estou fazendo progresso; eu quase não reparei naquele outdoor hoje.


Música de Hoje: Bennie and the Jets – Elton John.


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O ministério da saúde adverte: passar o Dia dos Namorados sozinho pode surtir em efeitos colateráis como insanidade temporária e descoordenação motora. Persistindo os sintomas, um bar deverá ser visitado.

domingo, 13 de junho de 2010

O amor está no ar

Agora que o dia passou me sinto mais capaz de fazer algum tipo de comentário. Na verdade toda a expectativa que eu havia criado em cima deste dia, mesmo inconscientemente sabendo que explodiriam na minha cara, não me feriu tanto. Como enxugar lágrimas, quando seus olhos estão secos? Foi isso o que me preocupou.

Depois das inúmeras cartas de amor que foram parar no lixo, as esperas em vão, e os vultos constantes de sentimentos antigos que não vingaram, tudo me levou a imaginar que amor é uma ilusão para os tolos e uma decepção para os realistas. E então eu comecei o dia atrasado e saí correndo de casa para a aula, só para ser pego de surpreso na rua por um outdoor gigante com apenas uma única palavra escrita: amor.

Eu tive que me perguntar; será que eu não me lembrava mais de como é a vontade de ter amor o bastante para encher um outdoor, ou eu simplesmente nunca tive? Eu realmente amei, ou estava apenas viciado na dor? A dor maravilhosa de me atrair por pessoas inatingíveis, e me esconder na angústia para justificar minhas ilusões. Algumas pessoas com quem conversei sequer lembravam de que dia era, mas a maioria estava em negação; claro, o resto do ano é para os solteiros... Mas tem um motivo pelo qual os casais tem um dia em especial para comemorar. Eles se encontraram, e ainda estão juntos. Convenhamos, este dia é o maior mecanismo de tortura para solteiros que ainda ousam sonhar; não é a toa que alguns nem saem de casa. Entretanto, eu achei que havia saido de casa de preto por acaso, mas acho que meu luto já estava pré-programado.

É só um dia. Eu já me sentiria melhor pela manhã, esqueceria que foi dia 12 e nada mais. A verdade é que ano passado eu não passei o dia sozinho, e talvez o que estivesse me abatendo foi a necessidade que gritava dentro de mim, de ouvir "Feliz Dia dos Namorados" de alguém. E eu ouvi; a mesma voz de um ano atrás, e com o discar de uma tecla de telefone pareceu que o tempo não havia passado. Pode não ter sido um grande amor ou coisa parecida, mas era real.

Eu quase não vi as 24 horas do dia passarem já que acordei atrasado, e voltei pra casa bêbado (o remédio dos solteiros para sobreviver, e o combustível dos casais para manter a chama acesa). Quem sabe ano que vem alguém queira passar o dia comigo, mas no fim foi bom saber que eu ainda me sinto bem comigo mesmo. Talvez eu sequer tenha conhecido amor ainda. Eu só espero que aquele outdoor não esteja lá.


Música do Dia: Anticipation – Carly Simon.