terça-feira, 31 de maio de 2011

Quem sabe uma terapia...

Eu tive aquele sonho de novo ontem a noite. Eu estava numa sala de cirurgia, com médicos e enfermeiras ao meu redor, todos com seus bisturis e anestesia direcionados ao meu coração. De repente, um dos médicos se assusta com algo e todos param. Ele estuda cuidadosamente com uma pinça uma fratura no meu coração jamais vista antes. E afirma com horror, "Este coração foi partido". Os médicos ao redor balançam a cabeça em uníssono e adjetivos parecidos; "Quebrado", "Estraçalhado", "Incurável". O cirurgião pega meu coração em mãos e o avalia uma vez mais com choque, e o joga no lixo. Acordei.

***

Agora é oficial; as mulheres me enlouqueceram. Nada mais poderia explicar toda a desorientação e paranóia, para não falar dos diagnósticos críticos sobre minha saúde. Talvez não haja mais nada a fazer a não ser esperar que eu realmente acorde, que esta dor comece logo a dor para começar a ser curada, e que tudo isto fique para trás sem ressentimentos, sem arrependimentos, e, se possível, sem lágrimas. Dizem que o importante é ter saúde; bom, primeiro perdi a noção, depois a razão, e agora isto. E não me digam que é apenas um procedimento padrão pelo qual serei submetido, porque não estamos falando de operar em nenhum de vocês.

Mas o que me amedronta mesmo é que tudo isso esteja acontecendo comigo como forma do mundo de finalmente tomar uma atitude, enquanto eu me aprimorava na arte da procrastinação, e decidir que está na hora de eu mudar, não importa se para melhor ou pior, mas mudar de algum modo e deixar estas velhas crenças e remexer esse velho coração na esperança de que sinta alguma coisa a não ser frustração por ter suas ilusões constantemente dissipadas no ar; senão com a realidade sobre aquele alguém, então com uma anestesia geral. Quem sabe eu também tire de tudo isso uma lição, de ter mais atitude daqui em diante. E, quem sabe uma terapia… Só para garantir.

***

Trilha sonora de Maio

Volume I

01. What a Difference a Day Makes – Tony Bennett

02. She’s Not There – The Zombies

03. Here Without You – 3 Doors Down

04. Far Away – Nickelback

05. So Close – Jon McLaughlin

06. You Can’t Always Get What You Want – The Rolling Stones

07. Home Sweet Home – Carrie Underwood

08. Use Somebody – Kings of Leon

09. I’ll Stand By You – The Pretenders

10. Rolling in the Deep – Adele

11. Blame It (On the Alcohol) – Jamie Foxx

12. Some People – Gypsy

13. Hopelessly Devoted to You – Kristin Chenoweth

14. Jar of Hearts – Christina Perri

Volume II

01. Crush – Jennifer Paige

02. I’m Gonna Make You Love Me – Diana Ross & The Supremes

03. You Keep Me Hangin’ On – The Supremes

04. Set Fire to the Rain – Adele

05. Mambo No. 5 – Lou Bega

06. Way Back Into Love – Hugh Grant & Hayley Bennett

07. I Feel Pretty / Unpretty – Glee

08. My Man – Barbra Streisand

09. She’s the One – Robbie Williams

10. Hey Jude – Across the Universe

11. Back to Black – Amy Winehouse

12. Fuck You! – Cee Lo Green

13. What Goes Around Comes Around – Justin Timberlake

14. Born to Try – Delta Goodrem

Bonus Track: SING – My Chemical Romance

quinta-feira, 26 de maio de 2011

O botão do "foda-se", ou guerra fria IV

Estou mais frio do que a cidade, e para quem costuma sentir as coisas mais do que o normal, isto não é um bom sinal. Eu nunca pensei em mim mesmo como alguém que poderia se sentir confortável em viver com indiferença, sem sentir as coisas tão profundamente e sem agir loucamente baesando-se apenas em suas emoções, sem nunca saber ao certo aonde elas me levariam. Mas conforme seguimos adiante neste mundo frio e incansavelmente desgastante, estamos fadados a ter nossas crenças fragmentadas durante o caminho, e quando menos esperamos podemos nos encontrar assim, surpreendentemente despreocupados. A dor que parecia fundamental para fazer nos sentir vivos de repente para de latejar, e uma tranquilidade estranha toma o lugar do que antes costumava ser desespero silencioso para que a vida deixasse de ter tanto drama. Pois é; acabou o drama. Nós simplesmente não demos certo, e para mim você não existe mais. Alguns dizem que este é o momento em que encontramos em nós o botão do "foda-se", e nos tornamos indestrutíveis às mentiras alheias e às decepções que causam em nós. Não me importo mais com o que você possa dizer ou fazer, porque quem eu achei que você fosse na verdade nunca existiu, e quem eu descobri que você é não só não me deixa mais confiar, como me fez deixar de acreditar.

Dissemos adeus e nos reencontramos, e por um instante é como se nada tivesse mudado, mas meus olhos apesar de perdidos não me enganam, assim como aqueles ao nosso redor podem perceber que já não somos mais os mesmos. Mas apesar das coisas não parecerem diferentes, seu sorriso só me faz pensar que eu estava certo, e nada disso realmente causou algum desconforto em você do mesmo modo que mudou a mim. Eu aprendi a sorrir, com certeza; inclusive aprendi a sorrir mesmo quando não tenho vontade, mas prefiro encobrir o que estou sentindo do mundo para não deixar que outros se aproveitem da minha dor. Aliás, descobri um novo tipo de dor; uma dor que, estranhamente, não parece machucar, a não ser que o dano tenha sido tão profundo que meu organismo ainda não tenha dado conta do quanto exatamente estou sangrando. Mas não há motivo para pânico; o botão do "foda-se" foi pressionado, e acabou com as pressões que antes acabavam com meu dia ou até mesmo meu humor; eu não ligo mais, e estou sorrindo por isto.

Ao nosso redor ficaram as promessas desfeitas, as mentiras encobertas, as feridas que não se fecharam, os jogos que não valeram a pena ser ganhos, e as lembranças incertas de quem éramos, mas que ficaram para trás como destroços da minha desilusão, ou acordar como alguns tem chamado, para com a realidade. Talvez o botão do "foda-se" não passe de uma técnica de auto-destruição gradual, e parar de sentir as coisas seja o primeiro passo à total aniquilação do meu ser. Meus sonhos se foram, e me despeço do amor com a mesma força com a qual eu costumava me agarrar nele para construir meus castelos, mas apesar de tudo ter desmoronado, não me sinto como a bagunça de antes. Pelo contrário, pareço mais forte do que nunca, pois não deixarei que pessoas em quem não confiem se aproximem demais de novo, somente para me machucar. Volte para o seu mundo enquanto eu volto a usar preto, com lágrimas secas em meu rosto. A guerra acabou, mas não tenho certeza se alguém saiu ganhando com isto.

Ao som de: Back to Black - Amy Winehouse.

quarta-feira, 25 de maio de 2011

O primeiro beijo

Dizem que tudo o que você precisa saber sobre alguém em quem você está interessado pode ser descoberto através daquele primeiro toque entre os seus lábios, e em questão de instantes poderiamos ouvir o som de fogos de artifício ao longe, ou então o fogo da paixão entre nós aumentando mais e mais até finalmente chegar ao ponto de erupção, e nos fazer querer não largar mais dos lábios um do outro. A promessa de um relacionamento, um futuro, ou qualquer envolvimento que seja entre você e a pessoa que você ama define-se a partir do primeiro beijo, e por isso não é a toa que nossa tendência é de ficarmos sempre um pouco nervosos ao esperar que tudo ocorra perfeitamente. Imaginamos qual música tocaria em nossa cabeça enquanto nos envolvemos em nossa atração, tentamos controlar a euforia que toma conta do nosso ser, e a medida que arrepiamos um ao outro, o que começou como um simples toque pode nos levar à loucura em seguida - a loucura de desejar ao outro cada vez mais, a cada novo toque ao qual se entregam.

Mas nenhuma experiência, desde aprender a andar de bicicleta até o desastroso primeiro encontro debaixo das cobertas, se compara ao horror e ao desastre que acompanha o primeiro beijo. A maioria das pessoas o realizam logo no fim de sua infância, o que também acaba por se tornar o fator decisivo e transitório para seu amadurecimento rumo à terra de confusões e desorientações que chamamos de pré-adolescência - não que as fases que vem em seguida sejam menos perturbadoras; pelo contrário, tendemos a nos perder cada vez mais. Só que os momentos da nossa vida que precedem o primeiro beijo, talvez sejam os mais simples e tranquilos que podemos ter sem mesmo percebê-los, até nossos lábios encontrarem seu caminho rumo à boca da pessoa que por algum motivo parece nos atrair incansávelmente, e não temos escolha a não ser ir de encontro a ela sem saber o que será de nós depois. Apesar das experiências boas e ruins, depois de termos nosso primeiro beijo, tão suave e incalculado, mas o bastante para ser inesquecível, somos atraidos a tentar cada vez mais elevar nosso placar e multiplicar o prazer recém-descoberto em relacionar-se com alguém que nos causa borboletas no estômago.

No entanto, a medida que o tempo passou e mudou tudo em seu mundo, os relacionamentos também sofreram transformações drásticas que acabaram não só por facilitar o envolvimento de algumas pessoas, mas também afastou outras daquilo que mais desejavam; conectar-se através de alguém com um beijo, e que este tivesse o mesmo significado para a outra pessoas. O que costumava ser singelo e símbolo do amor entre duas pessoas agora se sujeita a encontros baratos de uma noite só, ou casos com a velocidade de um relâmpago onde nem mesmo nomes são trocados, ou às vezes sequer são bem lembrados na manhã seguinte. Os beijos perderam seu misticismo e tornartam-se comuns entre nós e nossos "ficantes", mas ainda não perdeu seu poder de despertar em nós sentimentos que não esperávamos sentir, paixões pelas quais não esperavamos sucumbir, e amores que não esperávamos ter.

Beijos são atos tão simples que às vezes nem os notamos, e por mais que o ato em si nunca varie cada um ainda possui um significado único; pode simbolizar a devoção de um namorado, ou a tentativa de perdão da namorada. Pode traduzir o medo de perder aquele que amamos, ou o aumento da nossa paixão por ela. Mas independente do seu significado, cada beijo reflete o instinto básico de cada um de nós; o de relacionar-se com outra pessoa. Este desejo pode ser mais forte do que imaginamos, e por isto é sempre surpreendente quando algumas pessoas não só não o entendem, como também o deixam passar em vão.

Ao som de: Kiss Me - Sixpence None the Richer.

domingo, 22 de maio de 2011

Compromissos

Eu nunca namorei. Alguns amigos meus já tiveram a experiência, outros só imaginam como seja mas acreditam que não é para eles. Por outro lado, eu imagino como seja e anseio pelo dia em que alguém aparecerá na minha vida e faça esse sonho se tornar realidade; alguém que eu realmente ame e sinta vontade de passar noites frias aconchegado debaixo do edredom, quem sabe assistindo a um filme na televisão para terminar bem o Domingo, ou então até mesmo colocando em prática a chama da nossa paixão. Enfim, é um sonho. Todo mundo tem aquele sonho maior do que a vida em si que procura alcançar dia após dia, mas às vezes um sonho é apenas um sonho por um motivo - porque alguns quando se realizam, perdem o esplendor que possuiam quando eram apenas fragmentos da nossa imaginação. Sabe quando a ideia que você costumava ter sobre uma pessoa acaba parecendo melhor do que quando você realmente a conhece? Bom, é o que eu sinto agora. Mas ao confrontar o luto de mais uma paixão que não vingou, eu percebi que amadureci o bastante para perceber que todos os instintos que tive ao longo dos anos em se tratando de amor e qual rumo seguir ao basear-me apenas em minhas emoções acabou dando errado. Se toda mulher pela qual fui apaixonado no final das contas mostrou não ser aquela que eu estava procurando, isto só pode significar uma coisa: eu não tenho a mínima noção do que é amor e de quem é ela afinal. Quem diria? Não é a toa que não a encontrei; eu nem sabia o que estava procurando.

Eu ainda sei que quero namorar; nasci para me comprometer de coração e alma a alguém, e para tomar conta deste alguém nas noites frias que estamos enfrentando, ainda separados pela vida e nossas falsas convicções do que estamos esperando os dias trazerem. O que me faz pensar e me arrepiar com a ideia de que, se eu não soube reconhecê-la esse tempo todo, é possível que nossos caminhos já tenham se cruzado, e nos perdermos novamente? Eu admito que parte de mim se espelha em meus amigos, não por seu desinteresse em compromissos tão cedo em suas vidas, mas por simplesmente sairem por ai e se divertirem, algo que eu ainda estou tentando me esforçar para aprender. Não sou uma pessoa divertida, sou só um chato que se esconde atrás de seu idealismo como desculpa para ficar em casa, supondo que não encontrará quem está procurando no lugar para onde seus amigos estão indo esta noite. Mas eu tenho um compromisso a zelar; aquele que fiz a mim mesmo, de não me perder de novo nesta cidade como aconteceu assim que cheguei aqui, porque só eu sei como não foi fácil voltar a mim. Tenho um compromisso com meu coração incansável que se conforma em passar essas noites frias sozinho em ves de se aventurar lá fora e tentar se surpreender com a vida, ou então, com os lábios da pessoa errada.

Já não se trata de amar alguém que eu sei que não existe; todo aquele idealismo já se foi. O que eu quero agora é apenas amar alguém que também me ame em troca, e eu sei que isso não é fácil de achar. Acontece que agora não estou mais procurando, estou apenas deixando os dias me levarem a diante e com silenciosa esperança em meu coração que minha eventual distração acabe por me jogar em seus braços quando eu menos esperar, e quando eu mais precisar. Então é isso; Igor Costa Moresca, perigosamente me aproximando de completar duas décadas, ainda solteiro. E o que eu quero? Quero ela debaixo do meu edredom em noite fria, chamando meu nome. Mas enquanto isso não acontece, este coração se contenta com a companhia de vocês, que entendem tão bem, mas na verdade não entendem, não é mesmo? Eu não os culpo e talvez eu devesse mesmo me divertir mais, mas já tenho compromisso. Ela ainda não está debaixo do meu edredom, mas minha cama ainda continua sendo um lugar melhor para se estar do que qualquer outro neste inverno.

Ao som de: She's the One - Robbie Williams.

sexta-feira, 20 de maio de 2011

Adiante

Não é a toa que as pessoas entram na sua vida, e também não é a toa que elas se vão. Chega uma hora na vida de todos nós em que precisamos aprender a abrir mão de pessoas que sempre tratamos como prioridades, mas que nunca nos viram como algo além de meras opções ou válvulas de escape que sempre estariam ali quando precisassem.

Aprendemos que queremos mais, precisamos de mais e merecemos mais do que estamos recebendo, levando em conta as dores que sentimos e tomamos do outro, só para descobrir que o retorno pelo qual tanto esperamos nunca virá. Em namoros, é o momento de terminar antes que as coisas fiquem piores, e em amizades é a hora de começar a se afastar, mas abrir mão de alguém nunca é fácil em se tratando de relacionamentos, e ver que tudo o que construiram juntos quando não passa de uma ilusão, não é algo que valha a pena carregar conosco quando seguirmos adiante. Mas precisamos seguir em frente por mais que a saudade nos dê vontade de reconsiderar tudo e voltar atrás, só para acabarmos presos no mesmo lugar, e assim o ciclo se repete; isto é, até eu não conseguir mais dar passos em sua direção.

Foi bom enquanto durou, e é disso que precisamos nos lembrar mesmo que o fim não tenha sido tão amigável. Mas insistir para que as coisas voltem a ser como foram um dia é inútil; as pessoas mudam, os lugares mudam, e as relações evoluem mesmo que para melhor ou pior, mas aquilo que nós tivemos um dia, temos que admitir, nós perdemos. Cheguei ao meu limite, e a negligência e o descaso não vão permitir que vá mais além do que isto. Melhor parar por aqui enquanto ainda nos reconhecemos e ainda nos cumprimentamos, do que deixar tudo passar em branco e um passar batido pelo outro quando nos reencontrarmos.

O que eu fui para você? Talvez a mesma coisa que agora eu vejo que você foi para mim; alguém fundamental em um momento importante. Mas os momentos passam, e você também não pode negar que me deixou para trás, senão o que explicaria os nervos à flor da pele, os desentendimentos, e toda a frustração que tomou o lugar da paz que costumava ser necessária receber do outro ao fim do dia.

Vamos parar enquanto ainda estamos ganhando. Não nasci para ser a opção de ninguém, mas sim a prioridade de alguém que sem dúvida também sempre virá em primeiro lugar para mim. Alguém que saiba o que é amor, e que não tenha medo de dizer as palavras. Alguém que, assim como eu tomei seu coração, tomará o meu e jamais deixará que algum sentimento passe em vão. Fique com as lembranças enquanto eu cuido das feridas; são só o que teremos para lembrarmos um do outro.

Eu quero seguir adiante, sem você. Se por acaso você sentir falta, sinta-se livre para tentar me alcançar porque eu não vou voltar atrás. Mas se você não correr atrás de mim, isso só mostra que eu escolhi o caminho certo.

Ao som de: Jar of Hearts - Glee.

quinta-feira, 19 de maio de 2011

Ter respeito é mentir direito

Nós todos mentimos; não há exceção quanto a isso e quem disser o contrário, está mentindo também. Algumas mentiras são pequenas e não causam muito mal à nossa consciência, como dizer para aquele amigo chato que estamos ocupados demais para lhe dar atenção, ou inventar compromissos para evitar prestar um favor a alguém, ou evitar situações constrangedoras ao alegar que estamos doentes e não podemos fazer uma leitura em voz alta para a classe. Mas viver a base de mentiras é difícil não somente pelo peso na consciência, mas pelo trabalho que pode nos dar em mantê-las firmes diante dos outros. E mentiras levam a segredos, sentimentos de culpa e, nos piores casos, a descoberta do nosso verdadeiro caráter. Mas a terrível verdade por trás das mentiras que é às vezes não mentimos por nós, mas pelos outros. Mentimos para evitar o sofrimento alheio, ou para manter o bem estar social entre nossos amigos, ou simplesmente para não criar confusões. Porque nem todo mundo consegue lidar com algumas terríveis verdades que nos cercam.

Mas ao contrário das pequenas mentiras, existem os grandes dissimuladores que não só contam com nossa confiança para confirmar suas ficções, como também as usam para se esconderem do mundo. São aqueles que mentem para seus parceiros sobre aonde estão indo, ou escondem dos amigos o que realmente andam fazendo, ou mantém vidas encobertas de seus pais para evitar perguntas. Não só porque não aguentam a verdade, mas porque sabem o dano que pode causar se seus segredos forem revelados. Mentem para se proteger. Mentem por medo da realidade.

E então existem aqueles cuja consciência habita o lado mais obscuro da sua personalidade; almas perturbadas que não mentem apenas para o mundo, mas para si mesmas. E deitam a cabeça no travesseiro à noite repetindo para si mesmos que são felizes, ou que seu parceiro está feliz. Que podem mudar, ou que ele ou ela mudará de ideia sobre nós. Convencem a si mesmos que podem conviver com seus pecados, ou então que podem viver sem os pecadores que amam. Cada dia de nossas vidas traz consigo uma nova série de mentiras, e as piores são aquelas que contamos a nós mesmos, com puro desespero de que quando o dia seguinte vier tudo será verdade. Dizem que ter respeito é mentir direito, que a história nada mais é do que um monte de mentiras aceitas por todos. E os abismos da alma vão se aprofundando conforme pensamos que nossas mentiras não são tão horrendas, se nós mesmos acreditarmos que são verdades.

Ao som de: Love the Way You Lie - Rihanna feat. Eminen.

quarta-feira, 18 de maio de 2011

Tão perto, tão longe

As pessoas são complicadas. Começam por confundir proximidade com intimidade, e a partir dai o caos toma conta. Vamos do começo; eu existo, e você existe. Entre nós existe algo, uma relação, uma cumplicidade, um compromisso, não importa de qual tipo - chamamos isso de relacionamento. O que um relacionamento precisa para dar certo? Intimidade. Mas intimidade não surge quando duas pessoas passam os dias juntos, as noites juntos, e cada momento livre entre um e outro juntos. Intimidade vem do fundo de mim, do meu coração, que encontra conforto e confiança em você e vice-e-versa. E nem sempre as pessoas mais próximas, com as quais passamos a maior parte do tempo, necessariamente são nossos relacionamentos mais importantes. E como era de se esperar da vida, as coisas sempre podem ficar mais complicadas. Às vezes nossos relacionamentos mais significativos, são aqueles com as pessoas que estão mais distantes de nós.

A maioria das pessoas entendem a distância como algo ruim; porque as melhores pessoas estão sempre longe de nós? A verdade é que parte do nosso carinhos por essas pessoas veio através da distância, da falta que causaram em nosso dia a dia, da saudade que sentimos quando não estão presentes em nossos aniversários, ou nossos finais de semana, ou quando são os únicos que entenderiam os problemas pelos quais estamos passando. Algumas pessoas só se aproximam mesmo quando ficam distantes, enquanto nossos relacionamentos que pareciam mais íntimos perdem seu ardor com a proximidade. E a intimidade acaba por crescer com a distância, a medida que torna-se cada vez mais difícil o contato, ou manterem-se atualizados um com a vida do outro, já que perdem tantos detalhes do cotidiano que apesar de parecerem pequenos, tem grande importância nas nossas vidas e em nossos relacionamentos. A distância nos faz pensar mais no outro, sentir mais a vontade da presença do outro, e a rolarem lágrimas pelos olhos quando se reunem depois de muito tempo separados.

Não importa se são quadras, cidades ou países; relacionamentos verdadeiros não conhecem a distância física porque são mais fortes do que tal. A cumplicidade, a intimidade, o compromisso e o amor unem as pessoas através dos quilômetros ainda mais do que aqueles que estão ao nosso lado - mas que de algum modo, ainda estão fora do nosso alcance. Não tomamos o mesmo cuidado dos nossos relacionamentos à distância com aqueles que vemos todos os dias, e mesmo quando acreditamos que são todos iguais para nós, a distância ainda existe para provar que os amigos de hoje não conseguem nos entender tão bem quanto aqueles que ficaram para trás, mas que ainda estão conosco para nos salvar e nos lembrar de quem um dia fomos e do que ainda somos capazes. Assim levamos a vida, através de amigos tão perto de nós, mas tão longe de nos entender, e amores que moram tão longe, mas tão perto do nosso coração.

É, as pessoas são complicadas. Se não fosse pelo amor...

Ao som de: So Close - Jon McLaughlin.

terça-feira, 17 de maio de 2011

A bela e a fera

Quando a Disney não está prolongando o mito da princesa indefesa e o príncipe encantado - e o mito do sexo perfeito sem treinamento ou leitura prévia do kama sutra - os filmes geralmente são voltados para o relacionamento improvável, porém indestrutível, que se forma entre uma bela moça e um homem horrendo - quando não é um monstro peludo. A partir disso surgiram os estereótipos acima dos casais passando por nós pela rua: se ele é feio e ela é bonita, ele tem dinheiro, se os dois são feios estão juntos por falta de opção, e se ela é feia e ele é bonito, ai é amor mesmo - até ele largar ela por uma mais bonita, porque gente bonita tem que ficar com gente bonita, do jeito que a seleção natural exige, a não ser que seja boa de cama mesmo usando a fronha na cabeça. Mas a única coisa natural nisso é a nossa própria natureza podre de julgar livros pela capa e nunca considerar que, adivinha só, existe conteúdo também, salvo as exceções - afinal, realmente, existem pessoas ocas por ai.

Considerando que ainda existem monstros peludos e mulheres ocas entre nós, há a teoria da beleza interior que possui força até o ponto em que nossas vistas se cansam de enxergar o que há de bom nas pessoas, quando os olhos dele são vesgos ou o nariz dela ocupa grande parte da nossa visão. Ao exercer minha natureza podre através de comentários em voz baixa, minha amiga disse que para ela não existem pessoas feias - como não?! Disse que não conseguia enxergar feiura, já que todo mundo é bonito senão de algum modo, mas para alguém. Engoli a seco meus comentários junto com meu preconceito e, porque não dizer, meu próprio reflexo - porque um feio falar mal de outro é o cúmulo da feuira. E me fez pensar; existe preconceito ou existe gente feia mesmo?

Ninguém pode negar que valorizamos a beleza; mulheres bonitas entram sem pagar, e homens feios pagam o dobro. E não há muito para reclamar; somos todos culpados por propagar e promover o estereótipo, começando pela Disney até você e eu. Só que beleza por si só enjoa, e em algum momento acabamos por abrir os livros e conhecer a história das belas e as feras ao nosso redor, e descobrimos que os enredos não são nada como imaginávamos. Assim, a feiura nos corações alheios nos faz repensar sobre nossos conceitos de beleza, e a olhar novamente para aqueles que antes pareciam machucar nossos olhos, mas que sempre nos trataram tão bem. Eu costumava ter uma teoria enrolada em preconceito sobre gente feia: me davam esperança. Afinal, se existem mais casais feios do que bonitos, as chances de que alguém me considere bonito o bastante para passar uma noite ou um final de semana - ou, quem sabe, o resto da vida - comigo passam a depender apenas de eventualidades e tempo. Algo bem feio de se pensar, eu admito.

Algo que eu não pude deixar de reparar também é o quanto as mulheres mais bonitas também revelam-se como as mais inseguras. O poder da beleza é tão grande que se volta contra elas, ao mexer com a insegurança de seus pretendentes e afastá-los em ves de atraí-los como era de se esperar. E enquanto a beleza interior continua sendo alvo da contradição humana ("ela é gente boa, mas é tão feinha" ou então, "ele é lindo, mas é um ogro"), ainda torcemos os pescoços quando mulheres bonitas passam por nós - sem nunca imaginar o quanto não só parecemos feios, mas também ridículos.

Ao som de: I Feel Pretty / Unpretty - Glee.

segunda-feira, 16 de maio de 2011

Retorno

Parece que cada decepcção que ocorre em nossas vidas nos afasta de nós mesmos, a medida que o medo, as lágrimas e o choque com a realidade nos levam a tamanha desorientação capaz de fazer com que o chão sob nós desapareça de repente e nos deixa sem saber como nos sentir como nós mesmos de novo. Nós nos perdemos; às vezes não sabemos como encontrar o caminho de volta para casa, ou para os braços da pessoa que amamos, ou até mesmo para aquela pessoa que nos encarava nos espelhos da vida, mas que agora parece tão diferente. A vida é uma estrada e cada um de nós faz o máximo que pode para discernir o caminho certo a ser seguido, mas quando algo acontece em nosso caminho não há nenhuma placa que nos direcione de volta ao nosso antigo rumo, e nenhuma placa de retorno para nos oferecer ajuda. Nos perdemos dentro de nós mesmos, e parece que alguns de nós nunca conseguem reencontrar seu rumo.

Eu já me perdi várias vezes na minha vida, a medida que mulheres, escolhas profissionais, faculdades e bom, a própria vida, trouxeram reviravoltas cujas quais eu jamais pude prever. Talvez nem todos sintam essas mudanças da mesma maneira, mas a sensação de desorientação é sempre a primeira em nossos pensamentos. Para onde vou a partir daqui? Como posso seguir em frente? E se eu voltar? Da desorientação vem as dúvidas, a incerteza de como prosseguir e superar o que nos tirou do nosso caminho para continuar em rumo à tudo aquilo que procuramos para nós, incluindo a esperança de um dia nos sentirmos completos. Quando nos perdemos parece que algumas coisas passam direto por nós, como o amor ou a felicidade, e nos sentimos incapazes de fazer alguma coisa para alcançá-las, já que estamos tão precariamente perdidos para conseguirmos nos levantar e seguir em frente.

Para retomar nosso caminho é preciso relembrar o que nos levava adiante; talvez fosse a procura por alguém ou alguma coisa, ou quem sabe apenas aquele algo a mais que ainda não sabemos o que é, mas que reconheceremos no instante em que encontrarmos. Quanto a mim, nos meus momentos de incerteza o que me ajudou mesmo foi me esforçar para voltar a escutar as músicas da minha vida, aquelas que traduziam minhas angústias e sonhos tão claramente que parecia óbvio que deveria seguir na direção em que elas apontavam. Quando a música em mim parou, me apoiei no barulho das ruas, nos sons da cidade e nas trilhas sonoras dos meus amigos, até redescobrir meu tom. E do nosso tom, logo vem a nossa direção.

Foi um caminho e tanto para chegar até aqui, mas depois de tanto andar, me mudar, me surpreender, rir, chorar, espernear, conversar, desabafar e beber, aqui estou; ainda inteiro, ainda esperançoso... Ainda eu. Passamos a vida toda tentando encontrar algum senso de estabilidade para nos dar segurança a medida que cada passo é o desbravamento de um mundo novo, até que um dia paramos para descansar e percebemos que mesmo sem ter encontrado tudo o que procurávamos, estamos felizes. Reencontramos nosso caminho de volta por acaso e prometemos que nunca mais nos perderemos. Mas só para precaver, deixamos marcas no caminho para compensar pela falta das placas de retorno; em caso de emergências, damos um passo para trás antes de tentar ir em frente de novo. E então, depois de muito tempo e sem ao menos perceber, eu voltei a mim. Bem vindo de volta, Igor.

Mas sabe o que ajudou mesmo? Vir cantando pelo caminho.

Ao som de: SING - My Chemical Romance.

domingo, 15 de maio de 2011

Coleção de inverno, ou à procura de algo a mais

Eu poderia estar lá fora no mundo me divertindo, mas não, estou aqui me aprofundando nesta bagunça que chamo de eu mesmo e refletindo sobre as lamúrias da minha existência. Quem sou eu agora? Alguém que saiu em busca de sentido para tudo, não encontrou, e se perdeu pelo caminho. Alguém que carrega lágrimas desesperadas para escorrerem por seu rosto, mas que não conseguem ir além dos cantos dos seus olhos. Alguém que não sabe o que quer, que gostaria de voltar ao jeito que era antes mesmo que também não tivesse noção das coisas naquela época. Alguém com um olhar perdido.

Alguém que quer se aventurar lá fora, mas que tem medo do que pode perder se ir em frente. Alguém que tenta ter tudo o que quer, mesmo quando não tem certeza do que é. Alguém que deseja que sua vida seja perfeita de novo, apesar de saber que nunca realmente foi. Alguém que espera por um futuro melhor, se conseguir abrir mão do seu passado. E o que eu quero... Eu não sei o que quero, só sei que quando consigo as coisas que acho que quero, já não as desejo mais. Talvez seja por isso que eu ainda não encontrei o amor. Talvez o amor esteja esperando que eu cresça, pelo menos o bastante para saber como tratá-la direito.

Penso que felicidade não é o bastante para mim, isto é, eu não quero ser feliz sozinho. De que adianta? Acho que sou profundo demais para meu próprio bem; por que eu me importo tanto? Mas esse tipo de pensamento e frieza do meu coração só pode significar uma coisa; o inverno chegou, assim como a minha coleção de crises existenciais.

Ao som de: Get It Right - Glee.

sábado, 14 de maio de 2011

Igor: 1, mundo real: 0

É, eu saí. Todos disseram que eu precisava sair mais, conhecer pessoas novas, deixar minha zona de conforto de lado e tentar algo novo - como viver, por exemplo. Sabe aquela sensação de imensidão que você tem ao perceber que o mundo é muito maior do que o seu próprio mundinho aparenta mostrar? Talvez não seja o tipo de coisa que alguém pense enquanto espera na fila para entrar na Bielle Club, mas estamos falando de mim aqui e nenhuma estranheza será vista com surpresa. Mesmo sabendo que vou me desapontar com o que encontrarei, às vezes eu ainda gosto de tentar ir além dos limites dos meus preconceitos e dar uma chance ao mundo real de me cativar e, quem sabe, me atrair a integrá-lo junto a todas aquelas outras pessoas aparentemente felizes com seus ingressos em uma mão e a bunda da acompanhante na outra. E alcoolizadas, claro, porque este é um daqueles momentos gloriosos da vida em que estar sóbrio não é uma opção; é uma afronta.

Mas segui adiante; fui empurrado, pisoteado, julgado, barrado, cadastrado e revistado, até que meus amigos e eu chegamos ao destino da nossa noite ao atravessar uma porta que escondia um mundo definitivamente diferente do meu - o mundo real, completo com suas luzes ofuscantes, música eletrônica, mulheres elegantemente inatingíveis - assim como as financeiramente inalcançáveis - e os rapazes que as acompanhavam em camarotes alagados de uísque, rodeados por uma multidão de figurantes igualmente vestidos para mais uma noite a solta na cidade pecaminosa e recriminadora que chamamos carinhosamente de Cascavel. Uma volta de reconhecimento, alguns esbarrões com conhecidos, e um balde de vodca com energéticos depois, lá estávamos nós; apenas uma roda de amigos em meio a várias outras rodas de amigos animados com todo o som e a fúria do já famoso sertanejo universitário da nossa geração, se não fosse pela presença do estranho no ninho que vos escreve. De algum modo, nunca consegui enxergar uma noite na Bielle com a mesma visão dos meus amigos - e, provavelmente, todas as pessoas deste mundo. O barulho era música, a bebida era infinita, e as pessoas que passavam por nós não eram apenas pessoas, mas alvos em potencial para lançarmos nossa artilharia de esquemas rumo ao ficar, que neste mundo é conhecido como o fator crucial para definir sua noite como boa ou "uma merda".

Não, eu não peguei ninguém. Sim, eu quis. Mais alguma pergunta? Com a madrugada nascendo diante de nós - e uma aula experimental de laboratório a nossa espera em seguida - o mundo real começou a esvaziar e era possível enxergar o chão e o caminho para o banheiro claramente de novo, o que para um bom entendedor significa que a festa acabou e estava na hora de voltar para casa. Ao enfrentar a longa espera da saída, logo estávamos de volta à noite para qual saimos para nos aventurar, todos muito felizes, frustrados e levemente embriagados com vodca e contradições do ar da boate. Depois de não dormir por duas horas, enfrentar a aula prática e seis horas de trabalho forçado, quer dizer, registrado, eu finalmente venci o sono e a preguiça que me dominavam e o efeito do engov que tomei como café da manhã já havia encerrado seu ciclo de ação em meu organismo agora com a audição mais danificada do que antes de passar por aquelas portas, e parei para refletir sobre como o mundo real ainda tem seus atrativos, algumas falhas a serem trabalhadas, mas sem nada para se temer muito. Há tempos eu me perguntava, o que tem de tão bom no mundo real? Bom, quando se está sozinho, é bem chato. Mas é bem mais divertido quando se tem uma galera na qual podemos nos apoiar quando começamos a perder o equilíbrio e o bom senso meio a tanta dança e estímulos etílicos.

O mundo real parece inofensivo agora que já apanhei o bastante para perceber o quanto a vida pode ser simples e que não há nada de mais em se divertir de vez em quando. É, demorou, eu sei. Mas aprendi. Então dessa vez eu ganhei; nem de ressaca eu fiquei. Ponto pra mim.

Ao som de: Rolling in the Deep - Adele.

quinta-feira, 12 de maio de 2011

Uma amizade normal

Ninguém sabe ao certo como uma amizade começa, mas geralmente acontece quando duas pessoas sentem que podem confiar um no outro num piscar de olhos, e a partir disso iniciam uma parceria firme e forte conforme fazem planos de sair por ai, ou para matar tempo e jogar conversa fora, ou para pedir conselhos quando as coisas ficam, bom, foda. Três anos atrás, eu estava afundado em livros e desespero na biblioteca do colégio, meio à recuperação de algumas - bom, muitas - matérias no fim do Ensino Médio e com pouco ânimo para insistir em aprender o máximo de Física possível para sobreviver às provas finais. O silêncio dominava o ambiente quando de repente alguém grita, "Chega dessa porra! Quem tá afim de largar isso e fumar arguile?", e instantâneamente respondi, "Vambora!". E de uma tarde esfumaçada de arguile e provas de Física refeitas, nasceu uma amizade mais forte do que qualquer outro companherismo que eu já havia tido; daquelas amizades de sentar na sacada no fim de tarde com um tererê em mãos e observar a cidade com nostalgia pelo fim do Ensino Médio e sonhos sobre faculdades e mulheres futuras que aguardavam por nós.

É difícil saber também quais amizades sobreviverão ao tempo e a distância que a vida tende a impor entre as pessoas. Imagine que naquele mesmo ano, enquanto me distraia das aulas e matérias para planejar festas e arrecadar fundos para comprar bebidas, um colega acabou por transformar-se em outra amizade mais duradoura do que eu podia imaginar; daquelas de oferecer carona quando o amigo chega na rodoviária, esquece ele lá, e se prontifica a estar mais alerta quando ele voltar para casa. E às vezes algumas amizades podem parecer sem sentido; porque falamos sobre assuntos absurdos e teorias infames - como imaginar como seria se acontecesse uma guerra entre o Brasil e o Sul do Brasil, culminando na então chamada Batalha de Londrina - para não falar das conversas profundas pelo MSN - com direito à "música do dia", "link do dia" e "notícia bomba do dia". Uma coisa bem normal mesmo, sabe?

E então tem as amizades que desafiam as próprias leis da natureza; as amizades entre homens e mulheres que, acredite, não envolvem sexo ou suas respectivas repercussões. Daquelas em que um oferece segredos de dentro da organização do seu sexo ao outro, visando o bom andamento de relacionamentos e, por que não, uma parceria ainda maior para as noitadas de fim de semana? Só que amizades assim são mais raras; afinal, pode ser tão difícil dizer aos outros que aquela gostosa é só nossa parceira, assim como pode ser complicado explicar à namorada de que eu e a fulana estávamos só conversando sobre o último desastre amoroso dela.

Mas não somos nada sem nossos amigos e não imaginamos nossas vidas sem eles depois que passam a frequentar nossas casas, a aparecer em nossas fotos e a integrarem-se em nossas vidas. Claro, amigo é amigo e filho da puta é filho da puta. Como saber a diferença? É simples; amigos não são só aqueles que nos fazem rir quando não pode, mas que nos fazem rir para impedir nossas lágrimas de cairem. Feito isso, "vambora" pro bar!

Ao som de: I'll Be There For You - The Rembrandts.

quarta-feira, 11 de maio de 2011

Modelos e mortais

Eu poderia ser modelo - pausa para risos. Eu não fazia meus amigos rirem desse jeito desde a vez em que eu disse que a prova da incapacidade das pessoas de valorizarem o que é belo era eu estar solteiro. Mas piadas a parte, eu não estava brincando desta vez; por que eu não poderia ser modelo? Ai disseram que se eu emagrecesse, me esforçasse, uma boa academia aqui e ali, um tratamento decente para essas espinhas, se Deus me desse alguns centímetros a mais, talvez, quem sabe, eu poderia tentar. Foi o bastante para me frustrar e me fazer escrever; eu não ando muito profundo ultimamente, então qualquer frustração já está valendo alguns parágrafos.

Primeiro, eu não disse do que eu seria modelo; quem sabe não poderia ser o homem mudo que segura o produto enquanto anunciam a venda do novo modelo da TelePix ou então do revolucionário Cogumelo do Sol. Segundo, nem tudo o que eu digo é sem sentido ou absurdamente hilário; se eu disse que eu poderia, é porque eu realmente penso que conseguiria. Não é como a vez em que eu disse que, com o preparamento físico correto, eu poderia ir caminhando daqui até Londrina - até fiz as contas; cinco dias direto com poucos intervalos para água e descanso, e talvez a bateria do iPod durasse apenas até Campo Mourão, e seguiria viagem cantando para passar o tempo.

As pessoas parecem ter uma concepção fechada sobre modelos; desde os modelos de vida que decidem seguir, as outras pessoas nas quais se inspiram, e as coisas que julgam certas a serem feitas. Mas quem define esses modelos? A hipocrisia da sociedade, claro. Somente as pessoas bonitas podem ser modelos, somente aqueles que sorriem são felizes, e somente as pessoas que vivem do jeito que eu vivo estão certas, não é mesmo? E ainda insistem para que eu saia mais; não, obrigado, mas eu prefiro viver na instabilidade do meu mundo do que na incoerência do de vocês.

O que realmente existe por trás dos modelos são rótulos; estereótipos que já nos trazem uma noção do que podemos esperar das pessoas, e às vezes parece mais cômodo aceitar o que ouvimos falar sobre tal pessoa ou então o que ela aparenta ser, do que derrubar nossos paradigmas e ir além da nossa zona de conforto para tentar conhecê-la. Quem nos garante de que nossos conceitos estão certos se foram formados à distância? Quanto a mim, sou tão disfuncional quanto meus relacionamentos e as coisas que digo e escrevo para o mundo. Acredito que talvez seja mesmo melhor sair por aí e cometer erros do que ficar em casa e fazer nada, mas não há nada que eu goste mais do que provar que as pessoas estão erradas - especialmente, sobre mim.

E só para constar, eu não sou tão feio assim.

Ao som de: Born This Way - Lady Gaga.

terça-feira, 10 de maio de 2011

Garotos de 17 vs. homens de 20

Quando eu tinha 17 anos, o mundo era outro. Quer dizer, já estava perdido, mas as coisas não pareciam tão escancaradas como são hoje. Éramos menos precoces e - me atrevo a dizer - mais felizes vivendo na inocência e na simplicidade dos relacionamentos; quando amizades realmente significavam alguma coisa e namoros não se baseavam apenas na mudança de status do Orkut. A sexualidade, então, nem se compara; da onde eu vim, sexo era a fronteira final que duas pessoas poderiam cruzar em um relacionamento para atingir a verdadeira intimidade de uma vida a dois, e era tratado como tal. Mas como é da cultura, as coisas aqui no Oeste não só são totalmente diferentes, como tratam este tipo de visão com severo julgamento e, como era de se esperar, as conclusões precipitadas tomam o lugar do que a pessoa realmente é. Mas como eu disse, o meu mundo era outro.

As mulheres nos viam como seres imaturos, inadimplentes e levemente imbecis porque não tinhamos idade suficiente para beber, dirigir ou praticar o amor no sentido bíblico; em ves disso, voltavam sua atenção para eles, os caras da casa dos 18 - 30 anos, completos com seus carrões com bancos traseiros especialmente feitos para transas, lábias extremamente afiadas e algo que era apenas referido como "a pegada" que, por algum motivo, chegava a ser quase tão importante quanto o carro. Eles tinham a vantagem, a moral que nós jamais sonhávamos possuir um dia, e sabiam disso. Por isto buzinavam para nós quando passavam acelerados e cheios de mulheres no carro, enquanto andávamos a pé até o bar mais próximo e planejávamos que o que parecesse mais velho entre nós tentasse entrar para comprar cerveja, somente para ser enxotado e obrigado a recolher sua menoridade para fora do estabelecimento.

Só que mesmo no auge da nossa decadência sexual, ainda conseguiamos encontrar outras formas de divertimento ao tentar conquistar mulheres do mesmo modo que exércitos desbravam territórios inimigos; lentamente e esperançosamente, e sempre determinados a levantar a bandeira branca e perder a vergonhosa virgindade que, sem dúvida, era a marca registrada da nossa geração. E quando gastavamos todos os argumentos possíveis, alguns de nós se voltavam para o modo mais arcáico e procuravam profissionais para roubar-lhes a temida virgindade que jamais admitíamos, mas que todos sabiam que fazia parte de nós - do contrário, não estariamos ali, enquanto a senhorita nos exige pagamento à vista.

Alguns anos depois, o mundo mudou de novo. O que nos era negado passa a perder a graça, aprendemos a dirigir sem rumo por ai, a beber sem a mesma sede de antes, e a transar sem o sentimento de estar cometendo algo proibído - e na maioria das vezes, sem sentimento algum. Mas o que começou a acontecer agora, enfurece tanto ao meu sangue como ao dos meus companheiros de guerra nascidos em 91; as mulheres resolveram se voltar aos garotos de 17, logo agora que adquirimos poder de levá-las legalmente ao motel. Só que os garotos de 17 de hoje não são nada como nós fomos um dia; são atrevidos, audaciosos e elaboram esquemas com a mesma facilidade e a mesma frequência que nós costumavamos ter quando nos trancavamos no banheiro para aqueles banhos de quarenta minutos.

O mundo mudou, girou e nos levou exatamente de volta para onde começamos, mas o inimigo agora é outro. O que os garotos de 17 tem que nós, cachorros velhos, não temos? O atrativo da preocidade, o sentimento de proibição, e a mesma ingenuidade que um dia nos custava tantos amassos, agora lhes favorecem. O vento passou a sobrar em seu favor, enquanto nós nos encontramos em guerra com nós mesmos, de uma época passada, mas que definitivamente ainda tem muito a aprender. Não que algum de nós um dia realmente tenha uma noção clara do que as mulheres querem, mas parece que parte do segredo está em se fazer de bobo e deixar que elas mostrem o caminho.- se não o da suas camas, quem sabe o dos seus corações.

A camisinha que carregamos conosco não é apenas uma camisinha; é um resquício de otimismo e uma luz de esperança que nos leva adiante - lubrificadas especialmente para o meu, o seu, o nosso prazer, baby.

Ao som de: Fuck You! - Cee Lo Green.

segunda-feira, 9 de maio de 2011

A mãe de todos os posts

Existem 346 quilômetros separando Cascavel e Londrina, o que seriam equivalentes a aproximadamente seis horas de ônibus - ou quatro horas e meia se você viajar com meu avô. Por isso foi tão surpreendente quando eu resolvi pegar o último ônibus saindo de Cascavel para passar um único dia em Londrina. Talvez, se fosse apenas um dia qualquer, isto parecesse extremo ou inconsequente, mas não estamos falando de um dia qualquer, e tampouco de uma pessoa qualquer.

Minha chegada não correu exatamente como eu planejava; no meio da viagem ficamos sem gasolina e aguardamos parados na estrada escura por algum tempo até o motorista retornar para reabastecer o tanque e acelerar com toda a sua frustração em direção ao nosso destino. Eu cheguei em Londrina às 5h30 da manhã, onde o sol nem havia nascido ainda, só para não encontrar minha carona me esperando como haviamos combinado. Meu amigo havia saído na noite anterior e, como descobri posteriormente, acabou chegando em casa exatamente na hora em que cheguei à cidade, mas estava sonolento demais para dar atenção aos meus toques à cobrar.

Algum tempo depois, eu decidi desistir de esperar e parti à procura de um outro ônibus que me levasse até em casa, o que acabou levando algumas quadras a pé até encontrar o ponto certo. Vi o sol nascer enquanto esperava pelo outro ônibus, sentado em um ponto junto a um grupo de amigos que também estavam voltando de uma balada, mas ninguém percebeu a presença de mais uma pessoa no ponto - estavam ocupados demais "se pegando" antes de se despedirem de seus respectivos pares.

Quando meu ônibus chegou e atravessou as avenidas principais da cidade, não pude deixar de me sentir feliz mesmo com todo o atraso e deslocamento; uma série de flashbacks passaram diante dos meus olhos e me certificaram de que estava chegando em casa. Passamos pelas ruas que eu costumava caminhar todos os dias - fosse de dia ou de noite, sóbrio ou bêbado - e pelos lugares que frequentava, como o colégio onde estudei a vida inteira ou as casas de amigos que moravam ali perto, mas nenhum dos quais sabia da minha visita relâmpago.

Ao me aproximar de casa, o ônibus se depara com um acidente de carro que o força a dar mais uma volta na quadra, e enquanto os passageiros correm em direção à janela para tentar entender se foi o carro que bateu na moto ou o contrário, eu não pude deixar de pensar o quanto estava sendo difícil voltar para casa, mas logo chegou meu ponto e minha hora de descer. Quando abri o porta do prédio, meu celular toca – é meu amigo, que acordou assustado e encontrou meus vinte e cinco toques não-respondidos, querendo saber aonde eu estava. “Eu? Eu estou em casa.” E estava mesmo.

Às vezes nossos dias parecem repetitivos ao ponto de passarem em branco por nós. Porque nenhum de nós sabe quando teremos dias importântes em nossas vidas, até estarmos no meio deles. Mas desta vez eu sabia, e mesmo de toda a agitação para chegar até ali, às 7h40 da manhã de Domingo quando minha avó abriu a porta e encontrei minha mãe me esperando de braços abertos, eu percebi o quanto valeu a pena estar ali. Mesmo com 346 quilômetros entre uma cidade e outra e 365 dias em nosso ano para viver do modo que acharmos certo, mãe só tem uma.

Ao som de: Home Sweet Home – Carrie Underwood.