sábado, 30 de julho de 2011

Ex-amigos

Mais tarde naquele sábado, eu pedi uma pizza. Era um bom modo de enfrentar uma situação na qual eu havia me envolvido, e ainda mais, na situação ainda maior na qual a primeira se encaixava. Primeiro se tratava de apenas morar sozinho e tentar encontrar uma maneira de lidar com noites de sábado em casa, e logo se mostrou como uma terapia de choque sobre como aceitar o fato de que eu não estava apenas morando sozinho em um apartamento maior desta vez; eu estava vivendo sozinho nele também. Uma, duas, três cervejas depois, eu continuei a refletir sobre algo que acontecera recentemente, envolvendo uma amiga cuja qual demorou um ano para ser chamada deste jeito, mas que levou cerca de dez segundos para ter seu título precedido por um prefixo pouco atraente – ex-amiga. E me fez pensar ainda mais; apesar de ainda não ter nenhuma ex-namorada em meu passado, o número de ex-amigos e amigas era surpreendentemente alto, e terrivelmente inegável. Era possível o fato de que até mesmo minhas amizades fossem disfuncionais, ou era apenas eu quem não conseguia manter amizades? E mesmo quando são os outros quem cometem os erros e desenganos ou deixam suas falhas tomarem o melhor de si, mas aqui e agora em um sábado a noite onde todos provavelmente estão por aí se divertindo e tomando cervejas acompanhados de colegas e risadas – ou, no mínimo, companhias – eu não pude deixar de ter o mais amedrontador dos pensamentos; e se o problema esse tempo todo não são os outros? E se o problema sou eu?

Mas até quando o problema sou eu alguns ainda tentam retornar em minha vida, uns de maneira mais sutil e outros um pouco mais agressivos, mas sem deixar de mostrar o quanto se importam, apesar das minhas falhas. Estranho, como eu sempre havia considerado a mim mesmo péssimo em inúmeras coisas, mas um bom amigo apesar disto, e ainda assim me encontro sozinho em um apartamento maior do mesmo modo em que também viva sozinho em uma quitinete. Talvez o problema seja mesmo eu, que de algum modo afasta as pessoas quando o que mais gostaria na verdade era que estivessem todos aqui, celebrando minha vitória comigo, mas que agora não parece mais do que apenas um grande e caro enfeite para uma vida sozinha e, bom, um pouco tonto por causa da cerveja a essa altura.

Quando a pizza chegou, corri três andares abaixo para pegá-la, porque desde quando consigo me lembrar sempre achei que seria mais rápido que o entregador, e até mesmo para poupá-lo do trabalho já que este sem dúvida já estava em uma posição comprometedora o bastante. E quando cheguei ao portão, percebi exatamente o quanto era eu mesmo quem estava comprometido em uma posição muito pior.

- Opá, os senhores já conhecem a nossa pizzaria?

Por um milésimo de segundo fiquei em choque. O entregador achou que a pizza era para mim e minha família, ou talvez eu e meus amigos, mas certamente aqueles doze pedaços, acompanhados por um refrigerante de dois litros como bônus, não eram apenas para mim.

- Sim... Eu me mudei recentemente, mas todo sábado peço uma pizza de vocês.

Escalei as escadas de volta para o apartamento quase me arrastando, e enquanto subia os degraus os barulhos dos outros apartamentos através das portas fechadas tornaram-se claros para mim. Por trás de algumas portas estavam famílias reunidas, e em outras amigos jogando conversa fora. Quanto a minha porta, nada havia atrás dela até que eu a atravessei, e uma vez mais a tranquei para que nenhum outro entrasse em meu mundo.

Talvez o que eu esteja querendo dizer é que não quero mais ficar sozinho desse jeito, ou em qualquer outro por sinal. Talvez o problema seja mesmo eu, e eu não seja o bom amigo que imaginava ser. Talvez não tenha sido eu quem abriu mão de tantas pessoas ao longo dos anos; talvez tenham sido meus amigos quem terminaram comigo, mas era eu quem insistia em dar a última palavra, ou o último adeus. Talvez quatro cervejas apenas tenham feito com que eu admitisse uma dificuldade, e as coisas melhorem daqui um tempo. Mas por ora deixarei aqui meu apelo a todos os meus ex-amigos; aqueles dos quais abri mão, aqueles que ignorei ou então deixei de lado porque achava que poderia encontrar pessoas melhores, aqueles que me viram partir sem sequer lhes dar um motivo, e aqueles que continuam comigo mas que ainda não sabem como se despedir até que eu mesmo o faça.

Eu não quero mais ex-amigos. No mínimo, quero ex-namoradas em meu futuro, e companhias para minhas próximas pizzas.

Ao som de: Best Friends – Amy Winehouse.

quinta-feira, 28 de julho de 2011

Nem tudo que reluz...

Aparências são, em parte, uma das forças que movem o mundo. São o que nos atraem a outras pessoas, e o que nos motiva a nos mostrarmos sempre apresentáveis a elas. Mas é como dizem, nem tudo que reluz é ouro, e as aparências podem deixar a desejar. Nem sempre aquilo que as pessoas aparentam ser traduz fielmente quem são. Por trás de um sorriso pode haver lágrimas encobertas, e por trás de uma raiva inexplicável pode estar um coração partido com medo de rever a luz do sol. Mesmo assim, o brilho de certas pessoas ainda continua a nos atrair a ponto de nos tornar cegos às suas falhas, e nos piores casos, às nossas qualidades também quando nosso tesouro não responde às nossas expectativas. Eu tento ao máximo ser leal a mim mesmo e verdadeiro com o que sinto ou o que deixo de sentir, até mesmo porque sinto que já cheguei a um ponto em que meu organismo não consegue dar conta de encobrir emoções somente para não demonstrar que está ferido, chegando a tal ponto em que eventualmente preciso chorar, ou conversar excessivamente sobre o que está me afligindo, ou então transcrever minha agonia até me libertar completamente dela, e transformá-la em uma espécie de riqueza legível aos olhos dos meus leitores.

Depois de dois anos de viver sob condições críticas, eu finalmente havia conseguido o impossível em Cascavel: ser feliz, ou ao menos era o que parecia. Eu tinha um emprego satisfatório, cursava a faculdade dos meus sonhos, e havia acabado de me mudar para um apartamento melhor, com direito à minha própria suíte e sacada com vista para o céu azul desta parte do Oeste do Paraná. Então se tudo parecia perfeito, por que eu ainda estava agoniado? Ao sentar-me na mesa para um espetacular café da manhã que havia construído para mim em uma ensolarada manhã de uma segunda-feira deliciosamente preguiçosa, eu percebi que tudo o que eu possuía perdia foco para a falta do brilho de outra pessoa para sentar-se comigo, e não havia nada que eu poderia fazer para negar isto. Ao tomar meu café na sacada e observando o céu azul, não pude deixar de ainda desejar alguém com quem eu poderia compartilhar tudo o que eu já havia conquistado em Cascavel; não para dar sentido às minhas vitórias, mas porque de nada adianta ser feliz se não houver alguém ao seu lado para sorrir com você.

Mas apesar do que eu ainda sinto que está faltando em minha vida, um sorriso estampou meu rosto e minhas esperanças renovaram-se; não porque minha vida parecia perfeita, mas porque eu continuava aparentemente neurótico apesar da minha nova vista. Meu nome é Igor Costa Moresca e eu sou uma bagunça, e eu nunca fingirei ser menos do que isto.

Ao som de: All Star – Smash Mouth.

quarta-feira, 27 de julho de 2011

O presente perfeito

Eu precisava de um tempo; não sei explicar melhor do que isto. Quando a vida como você conhece desaba sob seus pés, a melhor coisa a fazer e tentar se recompor, reerguer-se e voltar à ativa. Mas algumas coisas levam mais tempo para serem absorvidas, e algumas feridas não se curam da noite para o dia. Por isto eu tirei um tempo – muito tempo – longe dos meus desastres atuais e viajei de volta ao meu passado, onde meus velhos erros já haviam sido esquecidos há muito tempo, e onde eu achava que meus novos erros não poderiam me alcançar. Mas enquanto eu visitava meu passado em Londrina, meu passado de Cascavel ainda assim conseguiu me alcançar, e me pediu que eu voltasse para casa. Mesmo em meu antigo lar, não pude deixar de me sentir mais distante de casa do que nunca, e me fez pensar que, realmente, não se pode fugir do passado. No entanto, é possível chegar a um futuro se seu passado continua presente?

É verdade que Londrina e eu não tivemos o passado perfeito, mas o tempo eventualmente apagou as marcas dos meus desenganos e tornou possível que eu pudesse ser recebido pela cidade para ocasionais visitas, e meus velhos amigos também não deixavam a desejar. Apesar disso, parecia melhor do que nunca; de repente, todos queriam me ver, e eu mal podia esperar para rever as ruas, as luzes e os rostos que marcaram uma fase que, apesar de fazer parte do meu passado, sempre dava a sensação de que tempo algum havia decorrido, e num piscar de olhos estávamos todos de volta a 2008. E quanto mais eu me envolvia, mas eu percebia que não queria voltar para casa, enfrentar meus problemas e tentar recomeçar uma vez mais, em parte porque já não sabia se ainda possuía forças o bastante.

E então, algo curioso aconteceu. Durante um jantar em meu antigo lar, um dos meus amigos encontrou guardado em minha carteira minha antiga carteirinha de estudante da faculdade de Jornalismo – um destino que abandonei em meados de 2009, e ainda certo de que fiz a escolha certa. Determinado a realizar uma espécie de terapia de choque, meu amigo atirou a carteirinha pela janela, e não pude deixar de pensar que ele estava certo em desfazer-se de uma parte do meu passado que eu, mesmo inconscientemente, ainda carregava comigo. Três dias depois, eu estava sentado no ponto de ônibus em frente ao meu ex-condomínio esperando pela condução para chegar à cidade, quando o porteiro chegou a mim antes, e me entregou a carteirinha que havia encontrado bem longe da onde ela havia caído, mas que de algum modo ainda conseguiu me alcançar. Ao segurar aquela carteirinha em mãos, eu percebi que não podia negar meu passado do mesmo modo que também não podia esquecê-lo, e naquele momento tornou-se claro que, assim como a carteirinha pertencia ao meu passado, a cidade de Londrina também, e para seguir em frente foi mesmo preciso ir embora.

E então, duas semanas, trezentos e quarenta e seis quilômetros e quatro quilos a mais depois, eu estava de volta ao meu presente. Claro, eu não era mais o mesmo, assim como a cidade de Cascavel que conheci quando cheguei aqui pela primeira vez. Estava em um novo lugar, definitivamente mais verdadeiro e certamente inegável até mesmo aos meus olhos. Assim, eu enfrentei meu passado e retomei meu presente nada perfeito, mas com esperanças de chegar a um futuro melhor. É, o tempo é uma coisa engraçada, e nunca deixa de me surpreender.

Ao som de: Starting Here Again – Venice.

terça-feira, 26 de julho de 2011

Procurando

Já teve a sensação de que não existe ninguém lá fora feita pra você? Eu já. É como se ninguém se encaixasse, e por mais que eu saiba que sempre haverá algum problema, no meu caso... Bom, não sei explicar. Todos os casais felizes que conheço nunca realmente precisaram procurar um pelo outro; eles simplesmente se conheceram e ponto final. Eles simplesmente apareceram um na vida do outro e nunca mais tomaram caminhos separados. Quanto a mim, eu venho procurando por alguém ou algo por toda a minha vida e aqui estou, continuo sozinho e continuo perdido. Mas desta vez é diferente; agora eu sei que não tenho a mínima ideia do que estou procurando, mas de algum modo ainda me sinto exausto por passar cada segundo de cada dia imaginando quando minha busca chegará ao fim.

Porque não consigo parar de procurar se nem sei o que espero encontrar? Seria o instinto humano de estar eternamente em busca de algo a mais em sua vida, talvez até mesmo o sentido de sua existência, ou seria mais do que isso? Essa procura pode fazer com que eu eventualmente perca a cabeça, ou era apenas uma tentativa de me libertar da minha própria mente? Não importa quantos anos temos ou tudo que já conquistamos nesta vida, estamos sempre procurando por alguma coisa e talvez isso seja uma coisa boa. Talvez o dia em que desistirmos de procurar seja o dia em que começaremos a morrer. E talvez o importante não seja o que encontraremos, mas a própria procura – esta é a graça. Quanto mais perdidos estamos, mais expectativas nós criamos para o futuro. E quem sabe, às vezes quando procuramos algo que desejamos, podemos acabar encontrando algo do qual precisávamos muito mais. Ou então, meus amigos comprometidos estavam certos desde o começo, e o dia em que eu me esquecer de procurá-la, nós simplesmente nos encontraremos, e sairemos em busca de outras coisas juntos.

Quem diria? Eu estou me divertindo, e nem tenho noção disto. Mas se você puder me encontrar, estou aqui.

Ao som de: I Still Haven’t Found What I’m Looking For – U2.

segunda-feira, 25 de julho de 2011

Levantar âncora!

Igor Costa Moresca. O nome ainda é o mesmo, mas me sinto diferente. Diferente e silencioso, mas não porque não tenho nada a dizer. Silencioso porque tenho tanto a dizer, tantas coisas me passam pela cabeça e tantas sensações tomam conta de mim ao mesmo tempo na fração de um segundo, que não sei como começar a tentar explicar. Mas aqui estou eu: duas semanas, trezentos e quarenta e seis quilômetros e quatro quilos a mais depois, de volta em casa. Quer dizer, tem sido um longo caminho de volta. Assim que adentrei meu antigo novo lar com minhas malas prontas para serem reabertas, já estava na hora de empacotar tudo mais uma vez, já que a vida acabou por me apontar para uma nova direção. Eu tinha um novo apartamento à minha espera, velhos amigos para rever e uma rotina para reconstruir na cidade que havia deixado para trás para tentar reencontrar um pouco de paz lá fora, mas assim como o dinheiro acabou e o mundo real me chamou de volta, aqui estou eu cercado de caixas com meus pertences, depois de passar dois dias tentando encontrar uma maneira apropriada de transportar quase três anos de uma vida nova para um apartamento maior, já que este tornou-se pequeno demais para meu novo mundo.

Meu corpo está quase completando vinte anos enquanto minha mente finalmente se aproxima dos dez, mas acredito que isso seja apenas parte do processo de crescer, amadurecer e passar a ver o mundo com outros olhos, como um velho marinheiro que sofreu um novo despertar para a vida após quase ser engolido pelo mar. Depois de uma breve temporada em Londrina, percebo agora como tudo parece diferente mas nada realmente mudou pelas ruas daquela cidade, assim como as pessoas que conheci. Mas se a cidade, apesar das mudanças ao longo dos anos, ainda mostra-se como a mesma Londrina que deixei para trás, e meus amigos e familiares também não aparentam ter mudado seus costumes, por que eu me senti tão diferente entre eles? Era por que tentei retornar às minhas raízes na esperança de que pudesse reencontrar pelo menos alguns fragmentos que faziam de mim a pessoa que sempre acreditei ser, ou seria apenas os anos comprovando a mim que mesmo enquanto eu tentasse embarcar de volta ao meu passado, já era tarde demais e eu finalmente perdi o barco? Isto definitivamente porque ainda me sinto como se estivesse me afogando em um mar de rostos desconhecidos quando retornei para casa, especialmente agora ao meio de tantas caixas prontas para me acompanharem a uma nova embarcação.

Mas eu posso estar me precipitando, e não seria a primeira vez. Talvez o passado seja como uma âncora que nos impede de seguir adiante em busca de novos mares e novos horizontes. Talvez seja preciso abrir mão da pessoa que costumávamos ser, para nos tornarmos a pessoa que seremos. De onde estou agora, percebo que finalmente superei as tempestades de Londrina e as ondas turbulentas da minha chegada em Cascavel. Mas para onde vou ainda não sei. Tudo que posso dizer é que me sinto diferente, talvez até mesmo pronto para o que este mar, esta cidade, possa lançar em meu curso. E então, eu me desprendi do meu porto seguro e saí para me aventurar em uma nova jornada. Mesma cidade, mas um novo eu. Levantar âncora! Eu estou de volta.

Ao som de: You Haven’t Seen the Last of Me – Cher.