quarta-feira, 31 de agosto de 2011

Amanhã, sei lá

Tudo começou com a Paula Fernandes. Na verdade foi por causa de outra mulher, mas eu gosto de pensar que foi a Paula Fernandes mesmo. Depois de escutar suas músicas inúmeras vezes ao longo do dia durante o expediente, e dia após dia por muito tempo, foi no meio de uma depressão de sábado à noite que eu me peguei relembrando alguns versos e decidi baixar a música inteira para que ela tocasse fora da minha cabeça. Mas a música me fez lembrar de alguns versos de outra canção, e lá fui eu caçar mais uma melodia, algo que rapidamente se tornou repetitivo e que eu só me dei conta depois de acidentalmente compor uma lista de reprodução inteira que não só levantou meu ânimo como também encheu o apartamento de vida e alegria de um modo que eu ainda não havia visto desde que me mudara para cá.

Quando a própria Paula começou a ficar repetitiva demais e nem mesmo no trabalho eu parava para ouvi-la cantar – típico de mim, assim como de qualquer homem eu acho, enjoar da mesma mulher depois de um tempo – outras melodias passaram a ecoar em meus pensamentos; melodias que eu jamais esperava decorar. Para ser honesto eu nunca me vi e até mesmo agora não consigo me ver direito como alguém capaz de dizer a uma mulher, "E aí, vamo mexê?", ou então, "Hoje vai rolar o tche tchererê tche tche!", mas era tarde demais para voltar atrás ou negar: eu estava ouvindo sertanejo universitário e digo mais; eu estava gostando.

Por mais estranho que parecesse acordar ao som de quinze duplas sertanejas diferentes, a surpresa maior foi não me sentir estranho em nada. E quanto mais eu me aprofundava no mundo do sertanejo universitário, mais eu percebi o quanto não eram apenas meu repertório internacional que era capaz de traduzir tudo aquilo que eu sentia mas não sabia colocar em palavras; os sertanejos não só me mostraram o quanto eram semelhantes a mim ao cantarem sobre como "se eu enlouquecer a culpa é sua!", "você só pensa em vingança e a sua segurança é dominar!" e "você tá sofrendo, eu aposto que ainda não me esqueceu!" como eu nem precisava traduzir nada para escutar e concordar.

De repente todas as coisas que meus amigos e colegas costumavam me dizer sobre me divertir mais, "ficar" e curtir uma cerveja ao fim do dia finalmente fizeram sentido, e ainda me fez pensar que, se até mesmo eu estava sendo levado pelas músicas das mais variadas duplas (que, por sinal, parecem mesmo todas iguais), isto só poderia provar uma coisa: eu definitivamente não sei o que será de mim amanhã. E então, eu decidi aproveitar um dia de cada vez sem me preocupar com o que farei no dia de amanhã; hoje eu quero mais é que role o "tche tchererê tche tche" e sei que minha consciência vai me deixar dormir bem agora. E quanto ao amanhã, bom... Amanhã, sei lá.

***

Enquanto meu caso com a Paula continua, aqui vai a trilha sonora (internacional) de Agosto, 2011:

Volume I

01. Blue Skies – Ella Fitzgerald

02. Heart of Glass – Blondie

03. Cold Shoulder – Adele

04. The Way We Were – Barbra Streisand

05. Guido's Song – Nine

06. Best Friends – Amy Winehouse

07. Who's That Chick – David Guetta feat. Rihanna

08. It Takes Two – Rod Stewart & Tina Turner

09. Memories – David Guetta feat. Kid Cudi

10. Someone Like You – Adele

11. A Man for All Seasons – Robbie Williams

12. I Guess I Loved You – Lara Fabian

Volume II

01. Tell Me What We're Gonna Do Now – Joss Stone

02. Some Kind of Wonderful – Michael Bublé

03. Umbrella – Rihanna feat. Jay-Z

04. All the Lovers – Kylie Minogue

05. Go On – Jack Johnson

06. Vamos a Bailar – Gypsy Kings

07. California King Bed – Rihanna

08. Gives You Hell – The All-American Rejects

09. Running Out of Time – LeAnn Rimes

10. Mind Trick – Jamie Cullum

11. Open Your Eyes – Snow Patrol

12. The Sun is Coming Out – Chanson Du Solei

Bonus Track: Não Precisa – Paula Fernandes.

domingo, 28 de agosto de 2011

Quando eu vejo seus olhos...

Foi você mesma quem me disse que eu tenho essa mania de não olhar dentro dos olhos das pessoas quando falo com elas, e eu só fui me dar conta mesmo quando me peguei fugindo dos seus enquanto dizia exatamente isto. E quanto mais eu pensava nisto, mais eu reparava o quanto era verdade, conforme eu me esquivava dos olhares dos outros cada vez que falava com alguém a ponto de até mesmo olhar para qualquer outra direção que não fosse o rosto da pessoa na minha frente. O mais engraçado mesmo é que a primeira coisa que percebi em você, antes que sequer existisse em meu mundo, foi o seu olhar. Havia alguma coisa no seu olhar que me atraia e ao mesmo tempo me fazia virar o rosto, como se não conseguisse contemplar e absorver tamanha beleza de uma vez só. E quando sentisse saudade daquele olhar, tinha que avistá-la sem alarme para que não virasse em minha direção e me assustasse novamente. Pelo visto eu já a amava de longe, mas ainda não sabia como encarar isto. Não que agora seja melhor; eu ainda não sei lidar com a realidade de que não consigo parar de pensar em você e o seu olhar, e tremo só de imaginar você olhando para mim hoje e no que você poderia estar pensando sobre mim.

E então eu me lembrei de algo ainda mais marcante do que o seu olhar; o olhar da última mulher que me fez sentir tudo isso e muito mais, e de como eu covardemente não consegui encará-la de volta enquanto nos despedíamos. Ela me encarava fixamente com olhos ríspidos e grosseiros enquanto eu fazia de tudo para tentar me assegurar em qualquer outra direção, mas eu sabia que ela continuava me observando, apenas esperando que em um momento de fraqueza eu me virasse e ela pudesse finalmente me destruir por completo em, literalmente, um piscar de olhos. Ironicamente, foi a última vez que a vi. Ela continuou em minha vida mas de maneiras mais distantes e confortáveis, porém não menos dolorosas quanto eu esperava. Sua voz ainda causava com que minha ansiedade tomasse controle do meu corpo e fizesse com que o nervosismo reinasse sobre mim. Até que enfim nos despedimos uma vez mais, mas ainda não conseguia enfrentar a lembrança do seu olhar. Foi aí que eu percebi que dela em diante, eu parei de me concentrar nos olhares das pessoas. E quando alguma mulher me chamava a atenção, só olhar para ela era como olhar para o sol; caso eu continuasse a tentar enxergá-la diretamente, poderia acabar cego.

Do tempo que passamos juntos lembro-me de como costumava tentar impedir que você derramasse lágrimas quando algo ruim lhe acontecia, ou apenas quando tinha um de seus próprios momentos de fraqueza que a fazia pensar que você não era boa o bastante para alguém ou para si mesma. Eu me lembro de sempre dizer que seus olhos eram belos demais para serem ofuscados por lágrimas que sequer valiam a pena ser derramadas, e por uma fração de segundos acho que você me adorou por isto. Mas o que eu queria – o que eu ainda espero – do seu olhar não era adoração ou gratificação pelas minhas palavras; era amor. Eu queria enfrentar meu medo e olhar fundo em seus olhos, as janelas da sua alma, e de algum modo conseguir me enxergar lá como alguém realmente importante para você. Alguém cujo qual você não poderia mais viver sem. Alguém com a mesma importância que você mesma passou a ter para mim, até mesmo quando eu nem te conhecia e a única lembrança que eu possuía era a do seu olhar penetrante, cativante, reluzente e sedutor. Tudo isso e muito mais, mas sempre com um pouco de medo em seus cantos, como se você mesma não se permitisse enxergar tudo aquilo que você é ou o quanto é importante para os outros ao seu redor. E quem sabe as mentiras e as falsas promessas não tenham sido os verdadeiros motivos para me afastarem de você, mas sim o seu olhar que não me deixava acreditar que eu poderia fazer mesmo parte da sua vida. A última vez que nos falamos e eu mergulhei em seu olhar, eu já sabia que seria a última. Porque naquele momento onde não havia mais ninguém a não ser eu e você, quando eu vi seus olhos na minha frente tudo o que eu podia pensar era o quanto eu realmente não acreditava mais em você ou nas coisas que dizia; apenas que seu olhar continuava dissimuladamente lindo, mas não o bastante para me manter acorrentado a ele.

E assim, eu desapareci da sua vista sem deixar rastros ou explicações. Mas ao me lembrar de você a imagem dos seus olhos continua a me cativar e me deixar assustado por tamanha beleza, mas que agora vem acompanhada pela minha frustração. Como alguém com olhos tão belos pôde me deixar tão cego? Ou era eu mesmo quem não queria enxergar que a possibilidade de que eu e você pudéssemos ser mais do que amigos e cúmplices de olhares era apenas uma visão? Eu ainda acho seus olhos lindos, mas agora fujo deles com a mesma determinação que costumava ter quando corria para vê-los. E pretendo deixar que minhas lembranças lentamente deixem meus olhos e meu coração porque já não tenho mais dúvidas; eu não quero mais vê-la. E acho que você não teria agüentado ouvir isto de mim olhando em seus olhos.

Ao som de: Open Your Eyes – Snow Patrol.

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

3 meses

Quando eu já estava começando a esquecer de sentir a sua falta, você reaparece e se faz presente em meus pensamentos de novo. Só que dessa vez você não veio sozinha; pensar em você não me fez relembrar os maus momentos que tive perto do fim, mas sim da última vez que nos falamos e de como eu já sabia que seria a última vez. Talvez tenha sido um pouco frio da minha parte ir embora e deixar você no escuro, só para se chocar quando acendeu a luz e não me encontrou mais. Me fez pensar que eu deveria voltar a trás e tentar fazer a coisa certa ou ao menos não menosprezar tanto o tempo que passamos juntos. E me fez chorar também por pensar que talvez já seja tarde demais. Mas o que realmente me surpreendeu foi descobrir que insistir em não tentar alcançá-la de novo não era uma questão de orgulho; era medo.

Eu poderia pedir que você voltasse a fazer parte do meu mundo e vice-e-versa, mas de que adiantaria? Maior do que a minha saudade é o medo de que nada mude caso você e eu tentássemos ser "nós" de novo, e eu acho que já machucamos um ao outro o bastante para aprender que foi bom enquanto durou e talvez estivéssemos mesmo destinados a nos encontrar, mas de algum modo "nós" morremos antes mesmo de nos tornar algo real. Não vou mentir e dizer que não sinto a sua falta, mas não sei se a ausência que pesa em mim é da pessoa que eu pensei que você fosse, ou da pessoa que eu esperava que você se tornaria ao longo do tempo.

Mas você é limitada, até mais do que eu, e não há nada que eu possa fazer enquanto você insistir em não lutar contra seus próprios limites, certa de que isto é tudo que você poderá realizar para si mesma. Definitivamente não é apenas distância que agora existe entre nós; há um punhado de sentimentos que se esparramaram pelo chão quando eu fui embora e bati a porta e a deixei para trás para que encontrasse o sentido que quisesse em tudo isso, se é que faz sentido. A verdade é que se eu não me distanciasse de você agora, só causaria uma dor maior mais adiante ou pior; a distância entre nós se criaria sozinha a ponto de que nem pudéssemos mais nos lembrar dos bons tempos.

Se um dia me esquecer, ao menos tente não cometer o mesmo erro que eu; não confunda felicidade com conforto, ou amor com qualquer outra coisa que não te faça ter certeza que a outra pessoa também sente o mesmo. E o que eu senti por você - aliás, o que ainda vive em mim quando seu rosto me vem em mente - sempre foi muito maior do que o afeto que você dizia ter por mim. Isto é, a não ser que minha ausência tenha causado mais efeito em seu coração que eu e você esperávamos. Eu poderia escrever mil canções só pra você, e ainda ter palavras de sobra para te dar, mas agora preciso me calar e tentar guardar tudo isso só para mim. E os planos impossíveis que fazia para nós agora mudaram de foco; antes eu corria para você, e agora corro de você.

Quanto mais distante, melhor, mesmo que você ainda consiga me enxergar. Para mim não faz diferença; eu nunca a vi claramente mesmo. Mas de longe parece que vejo muito mais do que eu esperava, e só me faz pensar que continuar longe vale mais a pena do que curar minha saudade. Eu venci meu medo, agora só falta meu coração parar de chamar seu nome.

Ao som de: California King Bed - Rihanna.

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

Coisas que eu nunca direi

Para um escritor em treinamento como eu, não há nada mais fácil do que passar o dia tentando dar forma a certos sentimentos que pairam em mim com palavras na esperança de que talvez algumas coisas façam mais sentido após serem escritas e postas à mercê de interpretações alheias. No entanto, apesar de algumas palavras virem a mim facilmente, outras podem ser muito mais difíceis de serem expressas, seja na escrita ou no que dizemos aos outros por aí. Por exemplo, depois de cometer um erro, existe algo mais doloroso ao nosso orgulho do que dizer "me desculpe"? Ou então, algo mais agonizante à nossa confiança estraçalhada ao dizer para alguém, "eu te perdôo".

À medida que nos relacionamos com as pessoas, as coisas vão se tornando cada vez mais difíceis de serem entendidas e definidas, assim como as coisas que ocasionalmente ele ou ela espera ouvir de nós. O que acontece quando não conseguimos lidar com o "eu te amo" dele, ou então, o que fazer quando não conseguimos dizer isso a ela? Às vezes as palavras falam mais alto quando sequer são ditas; quando os lábios se fecham e o silêncio toma conta, é até mesmo possível ouvir os apelos desesperados do nosso amor gritar conforme lágrimas tomar seu rosto por não ouvir o que esperava de nós.

O amor acaba. Na verdade, algumas vezes o amor nem chega, e não há nada que podemos fazer para esconder isso. Mas de algum modo, nunca há um modo fácil de dizer, "eu não gosto mais de você, melhor pararmos por aqui enquanto ainda não nos odiamos". Infelizmente, a maioria das pessoas decide esperar pela oportunidade perfeita para pronunciar as palavras mais imperfeitas que existem, em completa negação de que este momento nunca chegará e se prendem a relacionamentos sem ardor, amizades que há muito tempo perderam o bom humor, e lembranças distorcidas que nunca aconteceram, mas que parecem muito mais aceitáveis e fáceis de lidar do que a realidade em si.

Como se no amor já não fosse difícil o bastante, consegue imaginar como parece impossível pedir pela simples ajuda de outra pessoa quando nos deparamos com uma situação com a qual não conseguimos lidar sozinhos? Quem de nós pode dizer que nunca pensou duas, três vezes antes de realmente dizer em voz alta, "eu não vou dar conta disto"? Pior ainda é encontrar alguém que não só entenda, mas também tome conta dos nossos apelos, nossos pedidos de socorro e ofereça uma mão para ajudar a nos levantar, enquanto tantas outras que menos esperávamos simplesmente nos empurram de volta ao chão. Assim, muitas coisas em nossas vidas acabam passando por nós sem nunca serem ditas, do urgente até mesmo ao fundamental. Afinal, o fundamental parece mesmo tão básico que sequer sentimos a necessidade de repeti-lo, sem considerar que talvez as pessoas gostariam muito de ouvir só por ouvir; só para darem fim a seus momentos de fraqueza e se certificarem de que ainda estamos com elas.

Falamos muito o dia todo, mas será que realmente dissemos algo que importa? Estamos nos tornando escravos de palavras vazias, ou estamos amedrontados demais para dizer qualquer coisa com um significado muito grande que escolhemos nos calar por completo? E se este for mesmo o caso, estaremos mesmo seguros sem dizer tudo aquilo que sentimos? O mundo ultimamente se resume a isto; palavras escritas, digitadas, silenciosas e na maioria das vezes até mesmo simplesmente copiadas e coladas de um olhar para outro, sem saber que com isto demos um passo para trás, para uma velha questão: palavras valem mais do que ações? E por que temos tanto medo de falar em voz alta quando parecemos tão confortáveis neste silêncio transcrito?

As palavras são as mesmas; somos nós quem estamos nos arrependendo cada vez mais de tudo que poderíamos ter dito, mas que escolhemos manter guardado. Até mesmo os sons que as palavras emitem são os mesmos, mas talvez seja tarde demais; nos tornamos mudos. O que é difícil de dizer pode se tornar ainda mais complicado se você continuar calado. E para um escritor em treinamento não há pesadelo pior do que engasgar-se com palavras que poderiam facilmente ser expressas, escritas, lidas, ditas e repetidas quantas vezes fossem necessárias.

Me desculpe, eu te amo, mas não gosto mais de você, isto é difícil, e eu não conseguirei dar conta sozinho.

Ao som de: Sorry Seems to Be the Hardest Word – Elton John.