segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Vinte e poucos

É oficial: estou nos meus "vinte e poucos". O dia chegou e trouxe consigo muitos recados, votos de saúde e felicidade, flashbacks de amigos antigos e a criação de novas lembranças com novos amigos, sem contar os presentes, os dois bolos e o já famoso pudim que também fizeram a festa. E o dia passou. E desde que passou, eu fiquei assim; me sentindo um pouco estranho, levemente desconfortável, para não dizer desorientado com a pergunta fatídica que não me deixa mais ter pensamentos aleatórios como antes: e agora?

Eu cresci com a noção de que todos os anos que começam com 1 são considerados como o auge da nossa juventude; o momento em nossas vidas em que devemos aproveitar ao máximo a nossa vitalidade, nossa liberdade e sair por aí correndo e berrando, satisfazendo cada vontade bizarra, cada desejo ardente de nossas almas, e fazer o máximo que pudéssemos para evitar arrependimentos futuros. Eu não fiz isso, mas pelo menos sempre aconselhei aqueles ao meu redor a fazerem. E agora que completei minha transição à terra da maturidade – também conhecida como a casa dos 20 – eu me peguei imaginando o que deveria fazer agora. Terminar de construir meu lar, talvez? Encontrar uma garota que goste de mim e deste lar o bastante para não querer mais deixar nenhum dos dois, quem sabe? Começar a planejar um caminho profissional para seguir quando a faculdade terminar, eu acho...

Pelo menos de uma coisa eu tenho certeza; agora é a hora de estabelecer algumas definições. Chega de viver pelos outros, para os outros, e deixar de lado o que você gosta de fazer, não importa o quão ridículo pareça. Foi assim que eu comecei a lentamente reconstruir características do meu antigo eu que acabei por deixar de lado ao longo dos anos, acreditando que não eram "legais o bastante". E então, comecei a acordar cedo para caminhar de novo, com os fones de ouvido quase estourando música. Reorganizei meus lápis de cor, apontadores e canetinhas e me pus de volta à arte de fazer arte. E como se tudo isso não fosse o bastante, rompi com todas as minhas incertezas e inseguranças e passei a escrever mais do que nunca – sobre mim, sobre você, e sobre qualquer coisa que fizesse meu coração virar ou, no mínimo, minha cabeça doer o bastante para causar com que eu utilizasse este meu pequeno espaço para desabafar todas as angústias, teorias e fantasias de um antigo garoto de 17 anos, agora um semi-homem de 20, enquanto ele trilha seu caminho rumo à felicidade, ao amor e tudo mais que existir pela frente nesta aventura incansável, surpreendente e fantástica que nós chamamos de vida.

E só para não perder o costume, ainda carrego comigo todas as músicas que colecionei ao longo dos anos; as de ontem, as de hoje, e as que guardo com carinho para ouvir amanhã. Podemos não saber o que está por vir em nossas vidas, mas uma boa trilha sonora ao menos nos garante o som de algo maravilhoso. Meu nome é Igor Costa Moresca, e precisei de anos para me dar conta exatamente do quanto a minha bagunça era grande. E agora, com vinte e poucos anos, está na hora de colocar a casa em ordem.

***

Trilha sonora de Outubro (2011):

01. Does Your Mother Know – ABBA

02. I'm the Greatest Star – Funny Girl

03. Unwell – Matchbox 20

04. The Edge of Glory – Lady Gaga

05. Back to December – Taylor Swift

06. Walking on the Sun – Smash Mouth

07. Hello – Dragonette & Martin Solveig

08. Same Mistake – James Blunt

09. Fix You – Coldplay

10. Out Here on My Own – Fame

11. Nowadays – Chicago

12. Sometimes You Can't Make It on Your Own – U2

13. Sober – Pink

14. The King of Broadway – The Producers

15. Call Me When You're Sober – Evanescence

16. Nowadays / Hot Honey Rag - Chicago

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

Bem vindo à felicidade

É como a música diz: "Toda a felicidade que você procura, toda a alegria pela qual você reza, está mais perto do que você imagina, está a cem lágrimas de distância." Por anos eu acreditei, repeti e cantei baixinho para mim mesmo, especialmente em momentos mais difíceis como depois de ter ido morar sozinho e quando voltava para casa à noite sem ninguém ao meu lado e sem ninguém me esperando pra dormir. E me fazia chorar por esperança de que cada lágrima realmente me distanciasse da agonia do presente e me aproximasse da felicidade que estava reservada para mim no futuro. Não foi um caminho fácil de percorrer. Tenho certeza de que quando você olhar para mim, jamais imaginará as coisas que passei, a solidão que senti, todas as lágrimas que derramei por momentos dos quais eu desejava escapar mais do que tudo, e por pessoas que não mereciam tanta atenção assim de mim. Mas passou e eu sobrevivi; é como eu mesmo disse, anos atrás: "Quando dói a ponto de morrer, você sobrevive."

Confesso que foi bem estranho no começo; viver sem me preocupar se alguém um dia me amaria, ou se teria amigos ao meu lado de novo para me impedirem de pensar tantas besteiras, ou se seria capaz de transformar um apartamento vazio em algo que ao menos lembrasse um lar. E eu consegui; só não me pergunte como. Mas acho que se meu mundo viesse a desabar hoje, eu teria forças para me reerguer de novo. Parece dramático se não fosse verdade. E da onde estou hoje, eu consigo entender muito mais sobre a jornada do que quando comecei a trilhá-la; o segredo é seguir sempre em frente, abrir mão da tristeza e dos ressentimentos que às vezes arrastamos conosco, para chegarmos a um mundo novo e uma vida cheia de sorrisos e amor que no fundo sempre acreditamos que era possível ter.

Talvez eu esteja exagerando, mas desta vez acho que só estou tentando deixar aqui um pouco do orgulho que eu senti de mim mesmo ao olhar no espelho e perceber que nada do que já aconteceu foi o bastante para acabar comigo; e só me fortaleceu mais para me ajudar a saber como lidar com futuros problemas porque, convenhamos, eu ainda sou eu e basta sair por aí para trocar os questionamentos antigos por novas crises que enlouquecem a todos que se preocupam o bastante comigo para me acalmar, me acolher e dizer, "pare de pensar merda, Igor!" E enquanto eu estava distraído ao procurar desesperadamente por amor ou alguma outra coisa que eu ainda não entendo bem mas que sei que quero, aconteceu: a felicidade chegou e se fez tão presente, que até me fez esquecer por um instante todos os momentos de fraqueza e dúvida que tive no caminho.

Foi só a felicidade chegar que me fez pensar se talvez ela não estava comigo esse tempo todo. Acho que só o que me falta agora é o amor da minha vida, ao menos que ela também já esteja aqui e só eu não vi. Seja como for, sinto que as coisas só vão melhorar daqui em diante. E se eu já era levemente adorável antes, você vai me adorar agora. Desculpe; felicidade me deixa meio besta.

Ao som de: One Hundred Tears Away - Vonda Shepard.

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

A melhor coisa que eu nunca tive

Eu estava caminhando pelas ruas frias de Cascavel ao amanhecer de uma segunda-feira com nada na cabeça a não ser as músicas estouravam meus fones de ouvido e meus pensamentos sem sentido quando algo a mais me veio em mente. Talvez Cascavel não fosse tudo aquilo que eu imaginei que seria, mas não posso negar que eu e a cidade tivemos bons momentos. Olhando em retrospectiva, eu consegui aqui muito mais do que eu poderia esperar dessa experiência: um emprego, uma faculdade, um apartamento, outra faculdade, um apartamento maior, uma série de relacionamentos disfuncionais que no mínimo serviram para me ensinar lições valiosas como "não se apaixone por uma lésbica", "não se apaixone por alguém que já tem alguém" ou até mesmo "não iluda alguém por quem você não tem intenção de se apaixonar", e várias amizades fortes o bastante para suportar toda a insensatez e inconstância que eu já fui capaz de ter em meros três anos de luta na "cidade do dedão gigante".

Mas apesar das minhas conquistas, parte de mim vive em frustração por ainda não ter conseguido atingir o sonho que me guiou até aqui: encontrar uma mulher que aos poucos revelaria ser um grande amor que - por que não? - duraria pelo resto da vida. Acontece... Não acontece? Pelo menos eu acho que já vi acontecer uma vez ou outra, mas talvez tenha sido em outro lugar. A partir disso, acho que posso concluir que as coisas acontecem mesmo quando devem acontecer, quando a vida decide que a hora chegou e nos empurra em encontro a novos desafios, novas oportunidades, e novos momentos em que descobrimos exatamente o quanto sabemos pouco sobre nós e o quanto nossos planos são frágeis e capazes de mudarem a qualquer instante. Me fez pensar também no que poderia ter acontecido se além de tudo, eu também já tivesse encontrado o amor que eu pensava que estava em Cascavel; será que eu saberia como lidar? Saberia como me comportar, e como adicionar as emoções e as loucuras de outra pessoa às minhas e mesmo assim encontrar equilíbrio nesta bagunça inexplicável, surpreendente e com resultados sempre inesperados que chamamos de vida?

Quanto mais eu andava, mais as coisas pareciam fazer sentido. Todas as escolhas que fiz acabaram por me levar a fins completamente diferentes, mas que sempre provaram ter acontecido para o meu bem, e nunca me fizeram pensar na alternativa; nos outros caminhos que eu poderia ter percorrido, porque a estrada pela qual ando hoje me levou a ser mais feliz do que eu planejava. Então é verdade; eu ainda não estou pronto. Isso não vai me impedir de continuar acreditando ou querendo alguém para amar, mas ajuda a me acalmar quando eu voltar para casa e ainda não encontrar ninguém lá para me receber com os braços abertos. Tudo que me resta por enquanto é voltar para casa por mim, e cuidar desse eu tão inquieto e desesperado para ter tudo que ainda não tem enquanto a hora certa não chega. Amor é a melhor coisa que eu nunca tive, e de certo modo eu sou grato por isso. Obrigado, vida.

Ao som de: Best Thing I Never Had - Beyoncé.

terça-feira, 25 de outubro de 2011

Chorar por você

Eu costumava chorar bastante, especialmente quando estava sozinho. Ou me sentindo sozinho. Não tenho chorado muito ultimamente; isto é algo que acontecia mais quando eu estava no começo da minha adolescência turbulenta – jovem demais para dar conta das emoções que sentia, e fraco demais para conter lágrimas quando sentia a necessidade de derramá-las.

A primeira vez que chorei no ombro de alguém foi quando eu tinha 16 anos, e estava perdidamente apaixonado por uma garota que mal sabia da minha existência. E era amor, eu tinha certeza; ela era a mulher da minha vida, e estávamos destinados a ficar juntos. Eu só a conhecia há um mês, e diante de mais uma crise de ansiedade minha, meus amigos decidiram intervir e fazer com que eu confrontasse a terrível verdade: eu me apaixonava fácil demais. E eu chorei; chorei por ser tão ingênuo, tão fraco e tão sensível a ponto de querer entregar meu coração a alguém que claramente não demonstrava o mesmo interesse. Acho que foi a primeira vez que realmente chorei por um amor não correspondido.

A segunda vez em que realmente chorei de coração foi quando me mudei de Londrina, e me despedi de meus amigos, minha família e todo um mundo confortável e conhecido para tentar seguir uma nova etapa de vida, em uma terra desconhecida mas que de algum modo me atraiu através de promessas que eu mal esperava ver serem cumpridas. Isso foi o que me levou a chorar de novo, poucos meses depois, quando vi as promessas serem desfeitas e voltei da faculdade para passar a primeira noite em meu próprio apartamento após uma série de desventuras me forçaram a me tornar independente da família que eu confiei para me acolher. Por um tempo, eu também chorei todas as noites quando voltava para casa à noite. Chorava porque sabia que não havia ninguém lá para me receber, a não ser pelo meu próprio reflexo.

Quando as coisas pareciam estar melhorando, eu conheci outra garota. E ela era linda, inteligente e ridiculamente compatível comigo. A primeira conversa que tivemos estendeu-se por uma noite inteira, e foi apenas a primeira de muitas. Foi a primeira vez que eu senti que aquilo poderia ser amor de verdade, e não só sentimentos misturados e esparramados de um coração juvenil que não sabia lidar com tais emoções. E passávamos dias e noites juntos, envolvidos em conversas sem fim, caminhadas sem rumo e olhares sem medo de revelar um ao outro os segredos mais íntimos que cada um carregava consigo. Foi o que me levou a chorar mais do que nunca, quando ela se foi e eu me peguei chocado em descobrir que o que nós tínhamos não só não era real, como também não era para sempre. Foi na mesma época em que minha mãe veio me visitar pela primeira vez em Cascavel, e a primeira vez em que senti que meu apartamento vazio poderia se tornar um novo lar de verdade. Quando me despedi e voltei para casa, a solidão rapidamente voltou a mim, e uma vez mais arrancou mais lágrimas do que eu estava preparado para derramar.

Há certas ocasiões em que eu esperava chorar mas não chorei. Ocasiões como outros amores não correspondidos, mas que acabaram sendo menos significativos do que eu esperava. Ou talvez era eu quem estava tão acostumado com a rejeição, que já processava meu luto enquanto ainda estávamos juntos. Também houveram momentos de dor, muita dor, mas que não resultaram em lágrimas. Durante minha estadia em Cascavel, pessoas do meu passado em Londrina faleceram, e eu não pude me despedir como deveria. Infelizmente, não estar presente mais em momentos únicos como falecimentos, aniversários, casamentos, reuniões em família, tudo que um dia fez tanto parte de mim, agora tornaram-se dias que fugiam da rotina diária da minha solidão, que sempre se refazia no dia seguinte.

E então há momentos em que eu não esperava chorar, como aquela noite de quinta-feira durante uma aula tediosa que foi esquivada pela exibição de um filme. E quando eu menos esperava, lá estava eu; chorando silenciosamente no escuro, assim como vários outros colegas, por uma obra fictícia de cinema, mas não era exatamente por isso que meus olhos estavam vermelhos. Meus olhos estavam vermelhos porque aquele foi o momento em que eu percebi o quanto de mim eu havia perdido ao longo dos anos; o quanto a parte de mim que chorava sem motivo, ou até mesmo com motivos de sobra, havia sido desgastada a ponto de reprimir lágrimas que precisavam ser derramadas até mesmo quando não havia sentido.

E eu chorei bastante, como há anos não chorava. Chorei pelas coisas que não conseguia mais dizer, pelos sentimentos que havia desaprendido a lidar, e pelas pessoas que deixei ir embora sem ao menos dar-lhes uma explicação decente para o meu descaso, mas ninguém percebeu. Pois quando estava quase baixando a guarda, eu avisei a última garota que me fez chorar, e por um instante ela também olhou para mim, mas eu desviei antes que pudesse encará-la. E de repente, mostrar-me vulnerável, fraco e de olhos vermelhos para ela tornou-se inaceitável. E ao ouvir meus colegas chorarem e buscarem minha simpatia, eu apenas disse que estava tão comovido quanto eles, enquanto uma vez mais buscava enxugar minhas lágrimas antes mesmo que caíssem. E quando as luzes se acenderam e uma multidão de olhos vermelhos revelou-se diante de mim, eu estava tão firme quanto antes.

Eu saí correndo da sala em direção a rua para voltar para casa. E no caminho decidi então derramar as lágrimas que segurei, certo de que estava seguro ali. Mas quando eu finalmente estava seguro para chorar em paz, as lágrimas se foram. Eu estava bem de novo, mas de maneira bastante desconfortável. Foi aí que eu percebi algo que certamente não foi nem será a primeira vez que aprenderei; a vida é curta demais para esconder o que a gente realmente sente. E as lágrimas que escolhemos não derramar, podem ser na verdade a chave para a redenção que precisamos tanto para sermos livres. E o que me doeu mesmo foi não conseguir mais chorar naquela noite, mesmo me sentindo alagado por dentro.

Ao som de: One Hundred Tears Away – Vonda Shepard.