quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Desafio aceito


Eu tinha uma vida muito boa em Londrina. Durante a semana e entre as aulas, meus amigos e eu combinávamos desculpas esfarrapadas para desmarcarmos compromissos para matarmos o máximo de aulas que pudéssemos para fazer uma vaquinha entre nós e passar no mercado mais próximo para estocarmos a casa de um de nós com álcool e essência de arguile o bastante para nos deixar vendo estrelas durante a tarde toda; quando não nos organizávamos para dar festas mais elaboradas depois do pôr do sol. Em outros momentos, minha família sempre procurava motivos e ocasiões especiais para reunir todos os parentes para um churrasquinho aqui ou um almoço com todos juntos ali, sempre com muita comida e risadas, e com bolo, pudim dentre outras sobremesas a mais para completar.

E como se não fosse o bastante, quando não havia planos feitos ainda eu podia simplesmente ficar em casa e aproveitar a companhia da família e amigos próximos que viviam com a gente para passar um final de semana assistindo filmes, ou gritando enquanto jogávamos baralho ou outros jogos de tabuleiro, isso quando não ficávamos apenas discutindo besteiras e rindo até chorar com as pérolas que surgiam. É, eu tinha uma vida muito boa em Londrina, e quando o tempo fecha para mim aqui em Cascavel, são essas lembranças que me vem à mente. Se a vida era tão boa lá, por que eu me mudei mesmo? Ah, sim; porque eu sabia que tudo aquilo não iria durar pra sempre, e quando chegou a hora de seguir em frente, eu decidi que precisava de espaço e um novo começo para construir minha vida universitária e semi-adulta, mas que ainda possui alguns traços juvenis de vez em quando - sabe, só para me lembrar de que eu ainda sou eu mesmo.

Só que quando eu me lembro daquela vida, eu sempre me esqueço de um pequeno detalhe: nada daquilo aconteceu da noite pro dia. Demoraram anos, várias discussões e brigas, algumas mudanças aqui e ali, e muita, mas muita paciência até que aquela vida que eu sempre me lembro tomasse a forma que continua intacta nas minhas memórias. Eu nunca paro para pensar que metade de todos aqueles amigos que aparecem nas fotos já não convivem mais comigo, e só os verdadeiros com quem sequer tenho retratos de todos os momentos inesquecíveis que passamos juntos ainda estão comigo hoje. A família vai bem, mas com toda essa correria do dia-a-dia fica difícil pra gente conseguir colocar a conversa e as risadas em dia. E os fragmentos que ainda restam daquela vida continuam comigo, e me dão forças para um dia conseguir reconstruir um pouco daquela felicidade aqui em Cascavel, com todas essas pessoas novas que riem e convivem comigo. Quando eu relembro aquela felicidade, eu nunca me dou conta do desafio que foi para realmente conseguir atingir o auge dos meus anos em Londrina, mas se tem uma coisa que faz parte dessa minha natureza complicada e inconstante, é o impulso de surpreender todos ao meu redor - inclusive a mim - cada vez mais.

Então eu fui feliz em Londrina por um tempo, mas as coisas mudaram e o mundo não é mais o mesmo. Depois de quase três anos eu já deveria saber bem disso, mas essa ansiedade consegue ser maior do que a minha noção da realidade, e me faz esquecer da grandiosidade do desafio que é conseguir ser feliz nessa vida. E se eu continuo aqui, é porque o meu instinto de surpreender a todos continua vivo em mim. Vou conquistar Cascavel e construir uma vida ainda maior e melhor do que a que eu tive em Londrina. Ser feliz é um desafio que apenas os fortes são capazes de enfrentar, e somente os nobres e puros de coração conseguem conquistar. E quer saber de uma coisa, Cascavel? Desafio aceito.

***

Trilha sonora de Novembro (2011)

Volume I

01. Party Rock Anthem – LFMAO

02. Candyman – Christina Aguilera

03. My Happy Ending – Avril Lavigne

04. Run the World (Girls) – Beyoncé

05. Take Care of Yourself – Glee

06. Heroes – David Bowie

07. Come What May – Moulin Rouge

08. Paradise – Coldplay

09. All That Jazz – Chicago

10. Rumour Has It / Someone Like You – Glee

Volume II

01. Free Fallin' – John Mayer

02. It Will Rain – Bruno Mars

03. Take Me or Leave Me – Rent

04. The One That Got Away – Katy Perry

05. This Isn't Everything You Are – Snow Patrol

06. One Night Only – Dreamgirls

07. Hard to Say Goodbye – Dreamgirls

08. You Can't Stop the Beat – Hairspray

09. Come So Far (Got So Far to Go) – Hairspray

10. Better – Regina Spektor

Bonus Track: Nothing Suits Me Like a Suit – How I Met Your Mother.

terça-feira, 29 de novembro de 2011

Veríssimo & eu II

Eu admito que a maioria dos meus sonhos ao longo dos anos foram um pouco surreais - para não dizer, ridículos - como, por exemplo, tirar uma foto com a gostosa da classe, conseguir caminhar a distância entre Londrina e Cascavel, ou encontrar o amor da minha vida. Mas nem todos os meus sonhos são anormais, e a prova disso é o meu desejo incansável de me tornar um escritor como ele, o homem, o mito, o cronista Luis Fernando Veríssimo.

Eu tenho uma amiga que me diz que eu preciso ler mais e até sugere outros nomes, mas apesar da sutileza dos períodos da Clarice, ou da veracidade dos pensamentos do Caio Fernando, a genialidade das pontuações do Arnaldo, as verdades afiadas da Lya, ou até mesmo da grandiosidade do pai Érico, o Luis Fernando continua sendo o meu ídolo e a fonte de toda a minha inspiração, para não dizer também da minha constante tentativa de aperfeiçoamento da fineza da minha ironia gráfica e a sutileza do meu sarcasmo transcrito nas palavras que retiro da minha alma a cada vez que sinto que tenho algo a dizer - não importando se faz sentido ou não - e trago aos olhos de vocês com a silenciosa esperança de que alguém um dia leia e pense, "Eu vou casar com esse homem!", ou quem sabe, "Eu preciso publicar essas obras primas!". Pode acontecer, sabe.

Tudo começou há alguns anos, no início da minha confusão pré-adolescente, quando meu pai me levou à uma livraria com a seguinte missão: você precisa ler mais, filho, nem que seja pra passar menos tempo na frente daquele maldito computador (vamos ignorar a ironia do destino um instante pelo bem da história). E assim saímos em busca de algo que atraísse minha jovem mente, até que um título me chamou a atenção mais do que todas as outras obras que nos cercavam - era um clássico do Veríssimo, "Comédias para se ler na escola", que eu realmente comprei com o objetivo de ler mesmo na escola. Mas enquanto eu voltava para casa, minha ansiedade me fez folhear algumas páginas e parágrafos do livro e, antes que eu me desse conta do que estava fazendo, já estava na metade do livro quando cheguei em casa. Naquele mesmo dia, aproximadamente trinta minutos depois, eu havia terminado o livro e mal podia esperar para comprar outro, mas daquele mesmo autor. Isso deve ter acontecido quando eu tinha uns 13 ou 14 anos, e é algo que continua a dominar meu acervo literário particular. Livros? Os dos outros eu posso ler por aí, mas pra guardar e reler só mesmo do Veríssimo.

Foi com os livros do Luis Fernando que eu aprendi a ler por prazer e, com isso, a escrever por prazer também. E assim como durante os meus 13 ou 14 anos, quando eu menos esperava, aqui estou eu: ainda inspirado com o legado do melhor autor brasileiro que eu já conheci, que me motiva a ainda tentar ser o segundo melhor. Mas só para lembrar, meus amigos; o Natal já está aí e tem um livro novo do Veríssimo já à venda nas livrarias. Fica a dica.

Ao som de: You're Nobody 'Till Somebody Loves You – Dean Martin.

domingo, 27 de novembro de 2011

Psicologia: ano II

E aí o 2º ano terminou e ainda estamos em Novembro, esperando pelas notas finais e com um pouco da animação das últimas confraternizações que tivemos antes de sumirmos por três meses dentro do verão afora. Depois de tudo que aconteceu, eu acho que posso dizer com certeza que o 2º ano foi definitivamente melhor do que o primeiro – quando ainda estávamos envergonhados demais para falar em voz alta, todos nós mal nos conhecíamos e alguns sequer sabiam o que estavam fazendo ali naquela sala, naquele curso, com aquelas pessoas estranhas.


Os estudos ficaram mais difíceis, assim como os relatórios de estágio e de psicologia experimental – coisa que só realmente aprendemos a fazer na semana da entrega – mas em compensação tivemos mais momentos juntos do que o nosso primeiro ano de contato com toda a teoria e a prática da Psicologia e, diga-se de passagem, com as nossas próprias neuroses. Novas amizades nasceram, mas nem todas duraram e algumas com certeza ainda estamos tentando esquecer, enquanto as que já tínhamos fortaleceram-se e provaram ser verdadeiras o bastante para nos amparar até o 5º ano; não importa com quais paranóias, crises existenciais, de identidade ou de ansiedade que ainda temos que lidar pela frente, pelo menos não estamos sozinhos.


Começamos a brigar e discutir por causa da formatura, organizamos mais festas e cervejadas juntos, aprendemos a trabalhar em grupo – isto é, com quem conseguimos ou não trabalhar, ou então a pelo menos engolir o ódio assassino que acompanha as atividades – e passamos a entender um pouco mais sobre nós mesmos dentro de todo esse contexto complicado e confuso da Psicologia, onde é sempre preciso pensar duas vezes antes de agir, ou pelo menos saber como lidar depois de cometer um engano. É por isso que ainda estamos juntos, e é por isso que estamos dispostos a seguir em frente.


Olhando em retrospectiva talvez o 2º ano não seja o melhor de todos que teremos na faculdade, mas será sem dúvida inesquecível por tudo que aprendemos, seja do próprio curso, das pessoas ao nosso redor, ou sobre nós mesmos. Depois de superar o choque inicial do ano passado, este foi um ano de aprofundamento, reconhecimento das nossas capacidades e desejos que ainda esperamos alcançar, da descoberta de novas dúvidas sobre o que ainda teremos que enfrentar pela frente e, acima de tudo, um aprofundamento dessa classe – o futuro da Psicologia – que deixou parte da insegurança para trás e está caminhando em rumo a uma nova etapa: o 3º ano. E se você acha que já viu de tudo, agora é a hora de acordar e perceber que ainda não vimos nada ainda. Pelo contrário, ainda estamos só começando.



Ao som de: Come So Far (Got So Far to Go) – Hairpsray.