segunda-feira, 27 de maio de 2013

A arte de não ter nada a perder

Eu não sei quanto a vocês, mas eu ouço muito repetirem frases batidas por aí do tipo “cada problema é uma oportunidade disfarçada” ou então “quando Deus fecha uma porta, ele abre uma janela”, mas a minha favorita mesmo é “a necessidade é a mãe de todas as invenções”. Claro que nenhuma dessas realmente evidencia o silêncio gritante que só o desespero de estar no fundo do poço pode provocar em alguém, e apesar de definitivamente não ter argumentos realistas o bastante para reclamar da vida, me arrisco em dizer que já me senti muitas vezes sobrecarregado de oportunidades, portas fechadas e necessidades urgentes. Vale ressaltar que toda forma de sofrimento, por mais absurda ou incoerente que pareça, ainda é real para quem o sente.
Bom, senhoras e senhores, eu me arrisco dizer que sou um sobrevivente de várias oportunidades passadas, pentacampeão em pular janelas quando as portas se trancavam, e pai orgulhoso de várias invenções para escapar do fundo do poço. E o que sempre me ajudava a encontrar algum tipo de corda para voltar à superfície é bem simples: quando se está no fundo do poço, a única direção para a qual você pode ir é para cima. Qualquer coisa é lucro quando não se tem mais nada a perder. E quando você se encontra com tamanho desespero borbulhando dentro de si, mas sendo lentamente liberado através de profundos suspiros, olhares perdidos e cinquenta tons de crises existenciais liderando seus passos, é aí que as oportunidades começam a ficar interessantes.
Eis que do desespero e da necessidade, nascem os planos mirabolantes para retornar ao mundo dos bem ajustados e equilibrados – não que sejam muitos por aí, porque – digo por experiência – quando peço conselhos às pessoas, às vezes fico em dúvida sobre o que é pior; meus problemas ou as fontes às quais eu recorro para resolvê-los. É surpreendente o quanto já procurei ajuda de pessoas que estavam perdidas em poços não tão distantes do meu, mas que disfarçavam melhor sua claustrofobia flutuante e pareciam mais elegantes em arquitetar pedidos de socorro sem atrair a atenção de curiosos que tem mais prazer em apontar para os coitados ali afundados e dar risada, invés de lhes atirar uma corda ou uma mão amiga para tirá-los dali.
É incrível o que o desespero pode fazer com alguém. Além dos momentos de medo e dúvida, o que nasce em cada um que se sente perdido demais para reencontrar seu caminho de volta para cima é um despertar desenfreado de atitudes drásticas que pouco a pouco, começa a traçar sua escalada de volta ao razoável equilíbrio ao qual nós nos contentamos em viver – já que o equilíbrio em si é ótimo, mas nós sabemos que não dura mais de cinco minutos consecutivos; o resto é sempre treta. E então você aprende a lidar com as oportunidades, isto quando você mesmo não as cria e aproveita tudo que pode delas. E decide que não nasceu para pular janelas e derruba as portas trancadas que te impediam de seguir adiante, e digo por experiência própria que a sensação de arrombamento e presenciar os parafusos da maçaneta voando por todos os lados é uma das mais revigorantes que já tive até hoje, salvo lamber massa de bolo direto da tigela e sentir cheiro de carro novo.
Acho que o que eu estou tentando dizer é que eu ainda não desisti das coisas nem das pessoas. Eu me canso, de verdade, de tudo e de todos que me cercam e não tenho vergonha de admitir que às vezes preciso de dois ou três dias para me afundar em um cárcere privado de autoria própria para recuperar meu fôlego e ser capaz de sair por aí de novo e ter novas ideias sobre como voltar a me sentir como eu mesmo de novo. Minha preguiça e senso de autodestruição são diretamente proporcionais com a determinação e o bom humor que sinto logo em seguida, quando decido fazer a barba, abrir as cortinas e sair para enfrentar o mundo de novo. Estive no fundo do poço e sobrevivi, e conheço o caminho da escalada como a palma das minhas mãos doloridas e cheias de farpas, mas tudo faz parte do aprendizado. Sobreviver não é pra muitos; é uma habilidade que só aqueles que realmente sabem o que é não ter mais nada a perder realmente significa conseguem aperfeiçoar e se tornarem dignos de ouvirem os relatos de outras vítimas de soterramentos. E dão um profundo suspiro e dizem com aquela voz cansada e dolorida de experiência e leve falta de fôlego: “É foda mesmo”.
Mas ou você pega uma pá e tenta cavar um túnel de volta à realidade, ou aceita se afundar. Só não vale reclamar dos grãos de terra nos olhos; não é porque você está no fundo do poço que precisa continuar nele. Continue respirando, arrombe uma porta, invente uma saída. Sobreviventes poderiam ser os maiores artistas do mundo, se não estivessem tão ocupados tentando recuperar o fôlego o tempo todo.

domingo, 26 de maio de 2013

Porque eu sei que é amor

Eu cansei de falar de amor. Sério mesmo. Depois de anos escrevendo sobre esperança, sonhos, desilusões, paixão, desencontros, relacionamentos imaginários e centenas de lágrimas, sinceramente eu cansei. Acho que essa parte de mim – o cara que costumava acreditar que a hora certa chegaria, que o amor vem quando a hora e a pessoa forem certas para chegar... Ter esperança é ótimo, de verdade, mas ninguém comenta sobre o quanto é cansativo. Nem sobre o quanto é desgastante, esperar por tudo e acabar muitas vezes sem nada. E o pior é que eu nem deveria estar reclamando; depois de cinco meses dentro de 2013, eu deveria estar mais agradecido por todas as experiências que já tive até agora, do que os fracassos cujos quais protagonizei e fui autor solo e, definitivamente, frustrado e insensato, sempre esperando por mais até quando não havia motivos para questionar a felicidade que habitava em mim. Isto é, até ela partir, e levar consigo o “pouco” que eu considerava pouco para longe, e me deixar com a infame satisfação de reclamar do nada que restou. Por nada.
Às vezes eu penso que não sirvo para estar com alguém, ou com quaisquer outras pessoas por sinal. Porque ficar sozinho é mais fácil; sem ter que se preocupar em lidar com os problemas, as opiniões, os sentimentos, os maus-entendimentos de outra pessoa. Sem o caos que surge através das relações com outras pessoas, a vida parece mais fácil. Quer dizer, se não fosse pela solidão que toma conta. Ficar sozinho parece mesmo mais simples; não que isto acabe com todas as neuroses e os fantasmas que me assombram, mas pelo menos eu não estaria misturando-os com os de outra pessoa, e nem incomodando alguém com a existência deles.
É, ficar sozinho é bem mais fácil mesmo. Só não é tão bom assim, nem tão recomendável, porque uma hora ou outra você vai precisar de alguém por perto para te mandar calar a boca, parar de chorar, crescer e amadurecer, e sair para enfrentar o mundo de novo. Porque ele não vai parar de girar só porque você cansou, ou porque você pensa que não faz mais parte dele. Outras pessoas ainda precisam de você, mesmo que você imagine o contrário. Outras pessoas sentem a sua falta, mais cedo ou mais tarde, mesmo quando algum convite para sair não chega aos seus ouvidos, ou o barulho de novas mensagens do seu celular se cala, e a simples solidão pela qual você tanto esperava de repente se torna pesada demais para você carregar sozinho.
Assim como eu penso que ficar sozinho seria o melhor a ser feito para todos nós, às vezes eu sinto falta de alguém. Alguém para assistir filmes junto. Para dar as mãos, e realizar favores, e para comprar flores, e para trocar beijos sem motivo algum a não ser pelo fato de que ela está ali comigo. Para ter um destinatário para mandar mensagens infames, só porque eu achei algo engraçado e precisava compartilhar com alguém. Para receber um “bom dia” e um “boa noite” quando o mundo esfria demais e falha em trazer o carinho e o afeto que nós precisamos tanto para continuar sobrevivendo. Para continuar lutando, trabalhando, estudando, caminhando... Para dormir bem, no fim das contas, e ter algo para rever quando acordamos. Eu cansei de falar de amor. De verdade. Mas, ah... Como é bom.
E aí você cai nessas de ficar em casa um, dois, três dias, até duas semanas se passarem e você perceber que não sabe mais o que está acontecendo com os seus amigos. Até perceber que não sabe como é mais receber a luz do sol nos olhos, ou escutar a risada de alguém do seu lado.Ou como é fazer rir, e sorrir por isso também... Acho que são momentos auto-destrutivos pelos quais todos nós passamos. Ou, pelos quais só os melhores de nós passamos. Pelo menos, é nisso que eu preciso acreditar se eu quiser acordar amanhã um pouco mais esperançoso de novo. Um pouco mais sorridente de novo, a ponto de acreditar que tudo isso é besteira. Que não tem essa de não achar ninguém, ou de que é melhor ficar sozinho para evitar toda a trabalheira e o cansaço que, bom, a vida em si exige de nós.
E então eu decidi recomeçar pelas pequenas coisas; pelos deveres atrasados que eu precisava dar atenção, pelos relatórios que eu precisava escrever, as listas de compras de mercado que eu precisava honrar, a poeira dos móveis que eu precisava tirar, e o amor em mim que eu precisava reencontrar. Senão por alguém ou alguma coisa, pelo menos por mim mesmo. Sabe, porque o amor é assim mesmo; começa com a gente e só com a gente, e depois cresce a ponto de cativar outra pessoa, que cativa outra pessoa em outro lugar, até alcançar outro lugar mais longe ainda... Até tudo isso criar vida própria e te salva de desistir de si, enquanto tantas outras pessoas ainda contam com você para continuar rindo.
Eu tenho momentos de fraqueza. De solidão e auto-destruição, onde as neuroses tomam conta e é preciso fechar todas as cortinas, portas e redes sociais, para tentar reencontrar meu caminho de volta à esta vida. Talvez eu ainda siga tropeçando um pouco, mas é preciso começar de algum jeito e se eu errar ou disser algo sem pensar, me desculpe. Não estou mais acostumado com pessoas ou lugares, ou qualquer coisa que me faz feliz. Mas eu vou chegar lá de novo; eu sempre chego. Por mais que eu canse do amor às vezes, eu nunca realmente desisto. Senão não haveriam mais palavras nem pessoas ao meu redor para contemplar a minha vida. Nem que seja só por um Domingo de cada vez.

quarta-feira, 22 de maio de 2013

O melhor ano de nossas vidas

Na primeira madrugada de 2013, intercalando entre abraços, estouros de fogos de artifícios e copos de uísque e champanhe, eu recebi uma mensagem de texto que imediatamente tomei como tema para aproveitar as 365 oportunidades que estavam diante de mim. Não foi nada muito longo ou profundo, nem mesmo escrito corretamente, mas foi o bastante para que eu decidisse fazer desta vida, algo mais do que ela havia sido até então. Não que as coisas estivessem ruins ou monótonas, mas nunca se pode ter paixão demais pela vida, não é? “Feliz 2013, cara. Este vai ser o melhor ano das nossas vidas.” E o insight foi imediato; “Quer saber? Vai mesmo!” Encaminhei a mensagem para outros amigos, e repassei a filosofia para quem estava comigo ali na hora em forma de um abraço. E assim 2013 começou, repleto de toda a esperança, promessas e expectativas que só uma noite de ano-novo estrondosamente iluminada pode provocar.
E por alguns dias, meses até, o tema permaneceu. Claro que nem todos os dias foram os melhores das nossas vidas; entre desenganos, decepções e distrações, o ano estava lentamente atingindo sua cota de altos e baixos com perigoso equilíbrio, mas definitivamente não houve um dia chato sequer em que eu não passasse ao menos alguns minutos para lembrar da noite de ano novo e daquela esperança afrodisíaca com a qual eu havia decidido conviver até Dezembro e quem sabe, até além. Isto é, até ontem.
Depois de alguns contratempos – como o beijo que desmascarou o relacionamento que se tornou mais doloroso do que todos desde 1991, a odisseia de uma nova empreitada coorporativa que encontrou mais percalços do que se era esperado, encontros e desencontros (ênfase em desencontros) com a mais errada de todas as mulheres erradas para mim, a união com a mais certa de todas as mulheres certas para mim (só para descobrir, eventualmente, que não, não era...) e a agonia e o êxtase que surgiram através do mundo quando eu admiti que, apesar dos apesares, nós funcionaríamos melhor se continuássemos apenas você e eu, separados e demasiadamente sadios, e a decadência de um sonho empresarial que levou a uma espiral decadente de todos os outros sonhos que eu ainda tinha guardado no bolso e no coração, veio o fatídico 21 de Maio de 2013. Também conhecido como O dia em que nada aconteceu. O dia em que o tédio existencial, ou a preguiça, ou a tristeza, ou qualquer outro sentimento pessimista ou solitário assumiu o controle. Ou, O dia em que o melhor ano de nossas vidas deixou de ser...
Eu não desisti, mas estou consideravelmente pessimista em relação ao que fazer daqui em diante. Primeiro eu pensei em simplesmente fingir que está tudo bem e continuar em frente, mas isto durou só uns dez minutos até eu perceber que não tem nada de simples em mim a não ser pela capacidade de reconhecer a complexa síntese de neuroses e formação reativa de calamidade e caos interpessoal que, em termos legais e para propósitos de preenchimento de formulários e reconhecimento social, chama-se Igor. Em seguida eu decidi que, já que não sabia o que fazer, melhor fazer o que não queria, mas que precisava ser feito: relatórios de estágio, embasamento teórico de TCC, limpar o quarto, fazer a barba... Mas, e depois? De nada adiantou a não ser servir de embasamento teórico para o TCC e os relatórios dos outros, e para deixar de ser um “des-colírio” para os olhos dos outros com a minha tradicional cara de mendigo que eu tanto tento cultivar porque me traz conforto suficiente para expressar minha natureza sarcástica com segurança de que meu ar de despreocupado e desleixado providenciaria moral o bastante para manter minhas ironias vivas e iconicamente pertinentes.
Mas apesar de tudo que aconteceu ou não, nenhum dia foi chato ou desnecessário. Eu acordei, preparei meu cappuccino matinal, saí para trabalhar pelas ruas agora rotineiras de uma atualmente fria Cascavel (ou ocasionalmente calorosa, depende do humor da cidade, que oscila tanto quanto o meu), e reencontrei as pessoas que fazem parte da minha vida hoje, conheci outros rostos que também se adequaram aos meus padrões insanos de sociedade alternativa e comentários consideravelmente inoportunos (porém, hilários), visitei meus lugares favoritos, outros nem tão essenciais e alguns inexplorados até então, e transformei algumas das 365 oportunidades que recebi no meu ano-novo em algo bom, às vezes diferente, talvez nem sempre hilário, mas definitivamente importante para fazer jus à promessa de que este seria o melhor ano de nossas vidas.
Foi um ano de paixão sim. E de risos e gargalhadas que criavam lágrimas. De novos e velhos amigos, de mundos antigos e inexplorados, de visitar cidades-natais e capitais emocionantes. De relacionamentos reais e imaginários, de beijos apaixonados, bêbados e roubados. De dar as mãos, abraçar e prometer coisas “para sempre”. De se arrepender, pedir desculpas, prometer fazer melhor da próxima vez e terminar enquanto ainda nos importamos um com o outro. De comemorar toda e qualquer vitória, de não deixar nenhuma derrota ofuscar o melhor de você ou alguém com quem você se importa. De brindes, discursos e declarações de amor e mudança. De surpresas, descobertas e momentos essenciais de ridículo e, acima de tudo, felicidade.
Foi o melhor ano das nossas vidas, sim. Como dissemos que seria no ano-novo e como, apesar de um 21 de Maio ou outro em nosso caminho, jamais nos falhou ou nos fez pensar em desistir e sentar para esperar outro ano melhor começar. Este é o ano novo, e a hora de continuar fazendo jus a ele é agora. Afinal, ainda estamos só em Maio e veja só até onde chegamos. Não sonhe que acabou. Nem todo dia é ano-novo, mas nem todo dia é 21 de Maio. O resto a gente inventa, e se der medo, vai com medo mesmo. Se fizer rir, que nos faça chorar de rir. Se só fizer chorar, que seja por dez minutos ou só um dia. Mas se nos fizer feliz, que seja até Dezembro. Ou, quem sabe, até mais além.


segunda-feira, 13 de maio de 2013

O outono do amor

Eu sempre considerei o Outono como o ensaio geral para o Inverno; é a época de transição entre o fim temporário das peles expostas ao sol fins de tarde na beira de um bar, e o começo do nosso reencontro com os cobertores que passam meses guardados em cima do guarda-roupa e as blusas que hibernam enterradas dentro dele, e todos os cafés e taças de vinho que acompanham a estação mais impiedosa do ano. Mas que, pelo menos, compensa por fazer durar mais os perfumes e embelezar um pouco mais a cidade com aquele tom levemente melancólico e nostálgico que só o ar ridiculamente rarefeito de Cascavel consegue produzir. E é durante esta época transicional em que as folhas das árvores caem para que possam florescer ainda mais belas na Primavera seguinte, que as pessoas podem se sentir inspiradas a realizar algumas mudanças em suas vidas também. E para alguns poucos sortudos em especial, esta pode ser a hora de dar um tempo com os bares e as madrugadas em claro para passar mais tempo dentro de casa e debaixo de cobertores, com um cappuccino em uma mão, e a mão de mais alguém especial na outra.
Antes do pôr do sol e o nascer da primeira madrugada gelada de Cascavel, eu me atrevi ir até o extremo do meu Outono e vivenciar o amor de Verão com o qual eu sempre sonhei, capaz de causar inveja em qualquer Primavera que eu já havia pensado que tinha sido boa. Isto porque, até então, eu parava para apreciar o aroma das rosas sozinho. E com o passar dos dias e o cair das folhas, nem o frio ou a chuva que forçavam sua entrada sob a cidade e em minha vida eram capazes de esfriarem aquilo que parecia aquecer meu coração a cada beijo trocado, cada passo dado em uníssono, e cada rua atravessada de mãos dadas. Pelo visto o amor não era possível apenas no Verão enquanto ainda exista calor o suficiente para dar luz a ele. Nada tem a ver com a estação ou a temperatura, enquanto duas pessoas estiverem dispostas a enfrentarem quaisquer tempestades que não podem ser previstas, ou frentes-frias das quais não podemos escapar. Mas o Outono, assim como tudo nesta vida, tem um começo, meio e fim. E apesar dele ainda não ter chego ao fim, deparei-me com um iceberg em meu coração tão grande que me senti perdido entre as estações. Como o meu amor pôde esfriar tão rápido, se nem as folhas terminaram de cair ainda?
Meu amor de Outono durou quase o mesmo tempo que a estação; foi um mês seco, sem chuvas à vista, com um sol escancarado durante as tardes, mas que sempre criava brecha para que se carregasse um casaco quando se saía de casa à noite. Foi um mês de sorrisos e risadas como eu jamais pude imaginar ser capaz de expor em meu rosto, de longas caminhadas pela cidade e redescoberta de lugares tão comuns, como praças, bancos, ou até mesmo as próprias ruas e curvas desta parte do Oeste do Paraná, que agora possuíam tamanho significado para mim. Tanto significado, que não é mais possível caminhar por eles sem sentir a nostalgia e a saudade do que construímos através deles. Por que não continuei em frente, se a caminhada estava me fazendo tão bem? Por que o Outono não poderia durar para sempre? Porque nada dura para sempre, e eu precisei parar quando senti que o Inverno estava por vir e não seria capaz de enfrentá-lo com compromisso suficiente para alcançar a Primavera. Eu simplesmente não pude, porque você não está destinada a admirar as flores comigo. E a Primavera que está reservada para você – a Primavera que você merece – não receberia todo o sol que lhe é garantido, enquanto minha sombra estivesse no caminho. Você merece alcançar as borboletas, e eu também, mas não chegaremos a elas se continuarmos de mãos dadas e insistindo em seguir direções opostas, sem encontrar nada a não ser chuva. Nada contra a chuva, mas em algum ponto nós precisamos admitir que permanecer debaixo dela nos faria mal, nos adoeceria, e nossa estação não teria um final feliz.
E assim o Outono continua, porém sem nossas caminhadas enfeitando a cidade enquanto o gelo lentamente toma conta do ar e dos sentimentos das pessoas. A geada está chegando, trazendo medo e insegurança, incerteza e insensatez a cada passo frívolo que dá em nossa direção. E talvez tenha sido isso o que acabou com o meu Outono; descobrir que, apesar de todos os planos de alcançar as borboletas, eu esteja frio demais para sobreviver até a Primavera e não seria capaz de manter você aquecida como deve ser até o calor do sol tomar conta da cidade de novo. A estação ainda é a mesma, mas eu preciso admitir o inevitável, vestir minhas blusas e preparar um café bem quente e forte mais cedo este ano. Aproveitem as últimas folhas que caem. Quanto a mim, bem vindo ao Inverno.

domingo, 12 de maio de 2013

Mamma mia


Eu saí de casa há quatro anos, com uma mochila nas costas e uma mala em cada mão, e uma vaga noção de recomeço pairando sobre os meus pensamentos. Era hora de seguir em frente, de crescer, de me colocar à prova do mundo real e vencer, porque eu definitivamente fui criado para vencer e ser feliz. E antes de colocar o pé para fora do apartamento que eu chamei de casa pela última vez, eu te abracei e disse, “Não se preocupe, você fez um bom trabalho...”. Claro que eu tive minhas dificuldades, mas não é porque você não estava presente do meu lado, que não se fez presente através de, bom, presentes e mais presentes para que eu transformasse minha nova cidade e o novo apartamento aonde eu estava dormindo agora em um lar digno o bastante para que eu pudesse recebê-la quando viesse me visitar para as festas de fim de ano; sabe, aquela época do ano em que ficar com a família não é só um costume, mas sim tradição.
Quatro anos depois, eu ainda estou aqui. Nós não nos vemos todos os dias, mas tentamos ao máximo nos manter atentos à vida um do outro das maneiras que podemos: brigando pelo telefone, fuçando no Facebook, repassando SMS de correntes nem que seja só para mostrar que estamos pensando um no outro, e que independente do tempo que já faz, a saudade é a mesma e o medo de pisar fora da sua casa e viver longe da sua proteção logo volta para me lembrar de que eu estou mesmo aqui, no mundo real, e que talvez ter que ouvir todas as noites para sair da frente do computador para jantar com a família, levar o casaco e um guarda-chuva quando saísses porque o tempo estava fechando, e admitir que você estava certa quando a tragédia inevitável das minhas escolhas impensadas me alcançava, nada disso era tão ruim assim.
Nós não moramos mais juntos, mas você está aqui em toda parte; nos porta-retratos na estante, nas mensagens no celular, no espaço extra no guarda-roupa que você criou ao jogar fora tanta tralha que eu guardava pra que mesmo?, nos cinquenta tons de panos de prato que você insistiu que eu tivesse porque era importante ter aquilo em uma casa, nos móveis que você comprou porque eu precisava de novos, nas roupas que você me deu por   que um dos seus principais medos era que eu me vestisse mal e nenhuma mulher me quisesse porque eu estava mal-acabado... E eu também estou aí, na forma das taças de cristal que eu não podia mexer mas que faziam eu me sentir melhor ao beber Coca-Cola nelas em dias cinzentos, nos DVDs que eu ainda não levei embora porque você insiste que vai assistir (mas nunca vai), na rede que fica guardada no guarda-roupa mas sempre reaparece quando eu visito meu quarto antigo e a penduro na parede e crio o barulho mais insuportável de todos quando resolvo ficar lá deitado por tardes inteiras, e, claro, nos porta-retratos na sua estante também...
Eu não pude estar presente no seu dia, mas o maior presente de todos eu gosto de acreditar que eu já te dei: a ridícula alegria de estar certa, quando eu disse há quatro anos antes de sair de casa, que você fez um bom trabalho. Feliz dia das mães... Sirva Coca-Cola Zero na sua taça de cristal mais bonita e comemore comigo, mesmo que distante.
Eu te amo, mãe. E não podemos nos esquecer da vovó, é claro.

sexta-feira, 3 de maio de 2013

Último tango em Cascavel

Se o amor é como um tango argentino, um “ex” é como um parceiro de dança – alguém com quem você possuía ritmo, paixão, sincronia e habilidade de repassar coreografias num piscar de olhos – que te derrubou, quebrou seu tornozelo, e tornou impossível que você confiasse o bastante para segurar sua mão e voltasse a dançar. Quanto a mim, meu tango encontrou sua trágica e decisiva última nota em 16 de Fevereiro de 2013. E como todo tango argentino costuma ter, a última nota também foi a mais provocante e avassaladora, mesmo que tenha sido seguida por uma marcha fúnebre, suor e lágrimas por uma dança que possuía potencial para durar todo o espetáculo de uma vida inteira. Mas ela escorregou, e não haviam violinos o suficiente para contemplar toda a angústia da minha queda.
Eu ainda me lembro bem dos nossos primeiros passos na direção um do outro, como um ensaio geral de um amor que buscava o ritmo certo a seguir por anos, mas nunca realmente encontrou música suficiente para ganhar vida. Aqueles olhares repletos de desejo proibido e tentação que fazia o sangue borbulhar foram o que finalmente causaram o inevitável convite para dançar, dando à melancolia que pairava no ar um novo significado. Talvez se não tivéssemos pisado tanto nos pés um do outro, nosso tango poderia ter dado luz a uma valsa sob o luar, mas não... Em vês disso, demos as mãos e rodopiamos escandalosamente em direção ao inferno, da onde eu quase não escapei inteiro, e ainda conheço a coreografia para provar.
Quando o amor te desampara e te derruba, voltar a dançar pode ser assustador. Você pode se sentir inseguro quanto a conseguir encontrar ritmo com outra pessoa, ou até mesmo a música e a confiança dentro de si para dar um passo a frente novamente e reencontrar seu lugar na pista. Somente quando você se sentir capaz o bastante para enfrentar o tango de novo e mostrar que sua paixão é maior do que qualquer choro de violinos, é que o ritmo irá render-se a você e um novo convite para segurar a mão de alguém aparecerá para que você siga adiante.
Então eu deixei meu tango não correspondido para trás e, enquanto não encontrava uma nova parceira, aprendi a dançar sozinho e a contemplar minhas quedas como uma oportunidade para aprender o que realmente significa conduzir alguém neste ritmo provocante, desafiador e emocionante do amor, que pode ser coreografado de várias maneiras. Depende do ritmo de cada casal, e a confiança que possuem um no outro para enfrentarem passos incertos, mudanças inesperadas de músicas, e melodias que não podemos prever, enquanto insistimos em dançar conforme o modo aleatório que a vida costuma tocar.
Não importa o que aconteça, nem quem te derrubou ou quanto tempo você precisa para levantar, nem a música que estava tocando. Não pare de dançar, mesmo que esteja sozinho. De um jeito ou de outro, a vida sempre fica melhor com uma orquestra.