terça-feira, 30 de julho de 2013

Só se vive uma vez


            Só se vive uma vez. Dito isso, seria bom aproveitar o tempo que tenho aqui para fazer coisas mais úteis do que eu tenho feito. Ou ao menos, coisas novas, em vês de me afundar em reprises de seriados ou repetir ideias sobre aonde sair com os amigos. Eu deveria fazer o que eu gosto, não o que eu também gosto de fazer só para não ficar em casa em um Sábado à noite. E eu deveria me preocupar mais comigo, porque é o meu dinheiro que está pagando a entrada para esses lugares, e é a minha energia que está sendo consumida para me manter ali em pé e tentando ao máximo encontrar razões para acreditar que esta noite poderá ser memorável. Só que o que tem acontecido geralmente é que eu acabo me preocupando mais com o sono que eu deixei de ter, e com as olheiras injustas que me cobrem no dia seguinte.
            Só se vive uma vez, então seria bom aproveitar meu tempo com quem realmente importa. Com alguns rostos conhecidos entre milhões que existem no planeta e que sempre aparecem na minha frente em filas de banco ou que mudam de lado repentinamente enquanto andam na calçada e quase trombam em mim. Estou falando das minhas pessoas favoritas; das que não tem nenhuma obrigação comigo, e com as quais eu também realmente não devo satisfação, mas que apesar de todos os apesares – dos nossos defeitos, impaciência e diversos compromissos que a vida adulta impôs sobre nossa agenda e nossos corações – nós ainda sim gostamos de saber como vai a vida, e tentamos ao máximo estar juntos porque é bom não se sentir sozinho.
            É bom sentir-se parte de algo, de um grupo de amigos ou de uma família adotiva caso você seja de outra cidade e precisou, assim como eu, procurar uma rede de proteção para te ajudar a sobreviver em Cascavel. E com estas pessoas eu me importo, porque absolutamente nada me apavora mais do que a sensação de ser apenas mais um na vida de alguém. Só se vive uma vez, e eu não tenho tempo a perder para ser só seu figurante se é o que você deseja. E de agora em diante, ou você vive comigo, ou a gente se contenta em acenar um pro outro quando nos encontrarmos por aí.
            Só se vive uma vez, e ultimamente eu ando muito cansado. Cansado até de me importar com pequenos problemas como convites que não chegaram, planos que não deram certo, amores que parecem distantes... E então eu aprendi a não criar mais expectativas quanto a nada nem ninguém que sinceramente não me deve nada. Não por descrença ou frustração; apenas cansaço. Porque só se vive uma vez, e de tanto olhar para trás enquanto tento seguir em frente, já dei de cara em muitos postes no meio da rua. Só se vive uma vez, e seria melhor não ter um hematoma no nariz durante o tempo que eu ainda tenho.
            Mas eu me sinto bem. Quer dizer, só um pouco preocupado com a farmácia que criei em cima da geladeira depois que minha gripe se casou com minha rinite e juntas tiveram filhotes de dores de cabeça. E o trabalho anda meio complicado. A faculdade então, nem se fala. TCC, relatórios de estágio, atividades que valem a nota do bimestre... Nem preciso dizer que a roupa pra passar e a barba pra fazer deixaram de ser prioridade. Nem penso muito nisso, na verdade. Ando preocupado demais em deixar de ter preocupações e fazer o que eu puder hoje, aqui e agora.
            E o que eu concluí é que aqui e agora, eu não tenho tempo para ir à lugares onde eu não quero ir, e seria bom arrumar companhia para ir aonde eu gosto. Eu não tenho tempo para você hoje, porque você não teve tempo para mim ontem, anteontem, três meses atrás e por aí vai... Mas para você que sempre esteve aqui por mim, pode me ligar às duas da madrugada sem medo de que eu te xingue (no máximo será recebido com um comentário sarcástico antes que eu te pergunte o que aconteceu).
            Eu tenho bastante tempo na verdade e deveria usá-lo com mais consciência. Para colocar todos os meus trabalhos em dia, enfrentar a cara selvagem no espelho do banheiro e repassar o figurino que empilhou-se em cima da cômoda se eu quiser sair de casa com essas roupas de novo. E vai ficar tudo bem, porque a primeira parte de 2013 foi além do esperado. O melhor ano das nossas vidas tem feito jus ao título, e acho que o segundo semestre não vai me decepcionar. Ainda mais agora que eu resolvi colocar a casa em ordem, e a usar meu tempo com prudência. Eu vou sentir falta das pessoas que não perceberam que eu sumi, dos lugares que fui sem terem sido minha primeira opção, e as coisas inúteis que fiz enquanto aproveitava meu vício infinito de procrastinação.
            Mas só se vive uma vez e, aqui e agora, é tempo de mudança.

domingo, 28 de julho de 2013

Eu que não amo você


            A verdade é que eu gosto de não ter tempo. Gosto de estar cheio de problemas, desde que a distância entre a resolução deles e eu seja apenas a minha preguiça de levantar da cadeira e tomar uma atitude. Gosto da correria, dos compromissos, de achar que as 24 horas de um dia é pouco tempo para resolver tudo o que eu preciso fazer. E no fim da tarde quando eu finalmente abro a porta do meu apartamento - repleto de sacolas de mercado em mãos, porque eu precisava passar no mercado quando saísse do trabalho que por acaso era caminho do banco que eu precisava ir pagar uma conta e também era na mesma direção da faculdade onde eu precisava colocar meus relatórios de estágio em dia – e percebo que venci a maratona que mais um dia da minha vida me proporcionou, eu realmente fico feliz por alguns minutos. Sabe, até perceber que eu preciso guardar as compras, tomar banho, lavar a louça do café da manhã que ficou para trás...
            Eu fico muito feliz pela minha vida, até minha vida me chamar para o trabalho novamente. E por que eu estou refletindo sobre isso agora? Eu deveria estar lá fora no mundo aproveitando meu fim de semana antes que a segunda-feira chegue e me obrigue a voltar a correr de novo, a não ser por um pequeno e crucial detalhe: eu estou cansado. E de vez em quando até eu preciso parar de responder às infames convenções sociais, ou até mesmo às minhas próprias expectativas a respeito do que um jovem de 21 anos deve fazer com sua vida depois de uma longa semana de estresse, deveres e encontros inesperados com remédios para gripe e descanso forçado, e admitir que já está tarde. Que assistir televisão no sofá da sala até não conseguir manter mais os olhos abertos pode ser justamente o que eu precisava fazer hoje. Que eu preciso desacelerar e recuperar o fôlego antes de sair de casa para voltar a responder à minha vida de novo. Mas acima de tudo isso, está na hora de admitir que não há nada de errado em ficar em casa, porque eu não acho que vou encontrar o amor da minha vida lá fora se eu sair hoje. E é isso, senhoras e senhores, que eu finalmente entendi.
            Por mais que eu queira dividir minha vida com alguém um dia, esta definitivamente não é mais uma meta quando eu saio de casa, ou quando eu decido o contrário. Sair por aí não é mais nenhuma missão de busca e esperança desenfreada, assim como ficar em casa para mim não significa mais um sinal de desistência ou depressão – a não ser que você consulte os novos e absurdos paradigmas do DSM-V. Eu não sei explicar ao certo como aconteceu; talvez eu tenha levado a sério a ideia de me concentrar em outras coisas enquanto o amor não aparecia, que agora eu simplesmente não tenho mais tempo ou até mesmo fôlego para aspirar por ele. Pelo menos, não do mesmo modo que eu costumava fazer – quatro anos atrás, quando amor era tudo que eu queria, mas jamais parecia conseguir encontrar.
            E essa mesma vida que eu amo tanto hoje, apesar de cansativa e fatigante, também consegue ser mais irônica do que eu. Quatro anos atrás, parecia que eu não conseguia despertar o amor de ninguém, e me cobrava muito por isso. Era algo que eu havia feito? Algo que eu deveria ter feito? Algo que faltava em mim? Tantas perguntas sem resposta que me roubavam o sono e a paz de espírito – coisas que hoje são roubadas de mim porque passo meu tempo preocupado em escrever TCC, ou pensando em como resolver problemas de trabalho, ou me lembrando repentinamente que ficou faltando o sabão em pó na compra do mercado. Quatro anos atrás, eu amei muito você, e morri muito por isto.
            Quatro anos depois, eu despertei amores por acidente. Amores que eu realmente pensei que gostaria de levar para o resto da vida, sem pensar por um instante que amor, por mais prazeroso que seja, ainda é pesado e maçante. Sentir o peso da responsabilidade pela felicidade de outra pessoa sobre os meus ombros foi pesado e maçante, e me fez perder o passo da caminhada. E me fez pensar se era isso mesmo que eu queria para mim. Pelo menos, aqui e agora; é isso mesmo? Quatro anos depois, eu ando muito sem tempo. Quatro anos depois, eu é que não amo você. E o fato de você não querer fazer parte da minha vida corrida e transtornada, sinceramente não me magoa. Infelizmente o que me mata hoje é que quando alguém realmente se dispõe a fazer parte da minha vida, eu sinceramente também não me comovo tanto.
            Como eu disse, eu estou cansado. E já está tão tarde. Quem sabe amanhã, ou daqui mais quatro anos? Vejamos o que acontece comigo até lá. Talvez eu aprenda a perdoar, e a dar uma milésima segunda chance para quem já me magoou mais do que podia, até eu finalmente desistir de me importar. Eu não sei. Quatro anos atrás, eu não tinha nada. Quer dizer, eu tinha amor para dar e vender, tinha tempo de sobra e um coração aberto para quem quisesse se candidatar para dividir sua vida comigo. Hoje eu tenho tudo: um apartamento para chamar de meu, boletos de contas com meu nome que estão honrosamente pagas, relatórios de estágio razoavelmente em dia, e amigos para comemorar tudo isso comigo no fim do dia. Bom, em alguns dias. Algumas noites eu preciso guardar para mim, para agradecer silenciosamente a tudo e a todos que me trouxeram até aqui. E para tentar achar graça no sarcasmo fino e afiado da vida, que me fez superar você de maneira tão sutil que eu nem havia percebido.
            Claro, era de se esperar. Eu ando muito ocupado.

quinta-feira, 25 de julho de 2013

Na saúde e na doença



            Febre. Coriza. Dores no corpo. O ciclo vicioso da gripe me pegou de novo, o que era mesmo uma questão de tempo. Felizmente esta não é a primeira vez que esta cidadezinha do Oeste se afunda nas temperaturas abaixo de zero e me pega de surpresa, então já havia deixado cinquenta tons de antibióticos e anti-inflamatórios ao meu dispor quando meu corpo finalmente começasse a falhar e só o que me restasse fossem tentar esquentar um último copo de leite quente e procurar erros ortográficos na carta de despedida que eu deixaria estrategicamente em meu criado mudo quando minha guerra contra a influenza finalmente chegasse ao fim – ou, ao meu fim, pra ser mais exato.
            Ok, eu posso estar exagerando, mas o enjoo é real e meu rosto acabado não me deixa negar: olheiras assustadoramente lívidas obtidas através de noites mal-dormidas acompanhadas de tosse seca e delírios durante a madrugada agora mascaram a minha face, enquanto a vontade de viver se esvazia de mim lentamente conforme o vírus toma conta de mim ao me atirar ferozmente na minha cama do jeito menos divertido possível.
            Só que apesar do mal-estar, náusea, tontura e catarro que agora compõe a minha personalidade previamente aconchegante, eu não vejo estar tomando mais remédios por dia do que a minha avó de 77 anos como o pior de tudo. Como era de se esperar, foi um dos efeitos colaterais que me deixou ainda mais abatido: perder o controle da saúde do meu corpo, e todos os benefícios que provém disso.
            A verdade é que eu gosto de ter controle, por mais que eu me sinta aliviado por não ter tantas responsabilidades às vezes. Porque eu sei, bem no fundo, que se eu tomasse a direção dos deveres que me cercam, nada que qualquer outra pessoa fizesse seria bom o bastante para mim. Eu provavelmente acabaria rejeitando de cara qualquer opinião ou tentativa de colaboração para aprovar somente as minhas ideias, ou revisaria qualquer trabalho cooperativo sob a alegação de que isto não é bom o bastante, e que eu posso fazer melhor.
            Este é só um dos motivos pelo qual eu não sou um bom paciente, e de certa forma foi bom descobrir isso. Foi bom perceber exatamente o quanto eu gosto de ser um agente ativo nesta vida, capaz de realizar grandes feitos não só independentemente mas também através de trabalhos grupais – desde que esteja sob minha direção, é claro. Tudo isso pode parecer fragmentos de um insight deliciosamente milagroso, o que significa que algum dos comprimidos está finalmente fazendo efeito e eu estou prestes a deixar de me sentir um desperdício de massa humana para voltar à ativa e tomar o controle da minha vida de novo.
            Ou, claro, eu posso estar apenas delirando e talvez seja melhor ignorar tudo o que eu estou dizendo aqui. Independente do que for, eu me sinto melhor por ter levantado para escrever, mesmo que nada disso faça sentido. Até porque, me disseram que 25 de Julho é o Dia do Escritor. E que tipo de profissional eu seria se deixasse um nariz entupido me impedir de explorar as profundezas inescrupulosas e atualmente infectadas do meu ego, logo no meu dia?
            Eu gosto de ter controle sobre as coisas, e é algo que eu simplesmente tive que desenvolver depois de morar sozinho por muito tempo e ter sido forçado a aprender a cuidar de mim mesmo, na saúde e na doença, enquanto não havia ninguém mais por perto. Eu precisei ter remédios à mão e aprender a saber o que fazer em situações de emergência, porque há quatro anos quando me mudei para Cascavel e fui pego de surpresa pela primeira vez pela temperatura negativa, eu não tinha para quem ligar. Talvez em vez de explorar meu delírio febril, eu deveria agradecer pelos votos de melhoras que meus amigos me desejaram hoje e simplesmente deitar a cabeça no travesseiro e descansar com otimismo, porque o fim de semana me chama. Mas tudo bem. Só por hoje eu vou baixar a guarda a admitir que eu preciso relaxar enquanto os antibióticos tomam meu controle para variar um pouco.
            As palavras começaram a dançar na minha frente e o quarto está girando. Melhor eu voltar para a cama. Sem drama, nada de pânico. Diga a minha mãe que eu a amo.

domingo, 21 de julho de 2013

A guerra fria V


            Eu não me queixo. Eu não gosto de brigar com ninguém, de verdade, mas às vezes minha capacidade de ajudar não é tão grande quanto a minha habilidade de expressar minha opinião sobre qualquer coisa de maneira tão apaixonada que pode fazer você me odiar por algum tempo. E por muito tempo eu me culpei por isso.
            As pessoas deveriam fazer o que acham certo apesar do que qualquer um pode pensar, porque no fim do dia quem deve deitar a cabeça no travesseiro com tranquilidade para dormir é você.  Mas ultimamente eu aprendi algo novo. Algo que eu demorei muito para aperfeiçoar, porque eu costumava confundir o conceito de “ouvir” perigosamente com o de “passividade”, porque eu gosto de ser ouvido mais do que eu gosto de escutar o que alguém tinha para me dizer. Porque de tanto me procurarem para me pedirem ajuda, eu me convenci de que tinha mesmo todas as respostas. E quando por acaso era eu quem estava em apuros, definitivamente não cabia a outra pessoa me dizer o que era o certo a se fazer.
            Mas eu aprendi que tudo isso é estupidez. É importante saber ouvir as pessoas, e não tem nada de errado em pedir ajuda. Claro, eu ainda expresso minha opinião muito ativamente dentro de quaisquer situações em que eu esteja, e muitas vezes ainda pago preços muito altos por isso. Já perdi pessoas por isso. Oportunidades, então, nem se fala. A verdade é que se eu não me empenhasse tanto em defender tudo que acredito com tamanha paixão, eu provavelmente seria outra pessoa. Outra pessoa que talvez tivesse mais amigos, seria mais popular e teria mais convites para sair por aí e aparecer sorrindo em fotos. Outra pessoa que seria mais aceita por outros, porque jamais questionaria o que lhe fosse imposto. Outra pessoa que, definitivamente, não seria eu.
            E é exatamente por isso que eu não me queixo, porque eu aprendi que gosto de quem eu sou, completo com todas as ideias divergentes e sem sentido que vem com o pacote. E digo isso hoje com certeza porque aprendi que a paixão com a qual eu defendo meus ideais, independente da sua veracidade, é a mesma paixão que tem me mantido vivo por todos esses anos, através de dificuldades e momentos de fraqueza. A mesma paixão que, durante esses momentos eu achei que havia perdido. A diferença hoje é que eu aprendi como empregar melhor esta paixão na minha vida, e com quem exatamente eu devo compartilhá-la.
            Quando eu repenso tudo que 2013 me trouxe até agora, a verdade é que eu só tenho a agradecer, apesar dos apesares. Mesmo com tudo de ruim, teve tudo de bom. Mesmo com o frio lá fora, eu não estava sozinho em casa. Ok, talvez às vezes eu estivesse, mas eu não me senti sozinho e em se tratando de mim – esta conjectura de neuroses ambulantes e opiniões fortes com CPF próprio – isso já é uma grande conquista. Eu aprendi que tem pessoas que realmente valorizam a minha opinião, assim como as minhas paixões, e é nelas que eu preciso me focar agora se eu quiser transformar essa vida em algo ainda mais memorável para a posteridade. Quem sabe um dia desses aquele livro que eu sempre quis escrever não ganha vida? Se eu parar para pensar, as primeiras páginas já estão escritas: a capa e a contra-capa, seguidas por um capítulo único com dedicatórias à todos que tornaram esta vitória possível.
            O que eu quero mesmo dizer é que, aqui e agora, eu oficialmente não me importo mais com o que os outros pensam. Tudo que me importa agora são as minhas paixões e as pessoas que acreditam nelas. Se eu gosto de você, eu constantemente criarei uma quantidade infame e infinita de caos em sua cabeça a respeito de qualquer coisa que você pense em fazer, porque me importo o bastante com você para que não se acabe em consequências podem fazer mal a você e a mim também. Este sou eu, e serei inevitavelmente insuportável enquanto eu gostar de você. Quanto ao resto e a todos os outros, eu não me queixo.
            A guerra acabou. Nós vencemos.

sexta-feira, 19 de julho de 2013

Relações públicas


            Intimidade é preço que você paga por deixar alguém entrar na sua casa e se envolver na sua vida, e ao mesmo tempo é o prêmio que você ganha por isso. Às vezes eu preciso parar para reencontrar o sentido da minha vida – não de maneira tão grandiosamente filosófica, porque eu ando meio sem tempo – quando me vejo atuando como relações-públicas entre as pessoas ao meu redor, enquanto de certo modo ainda me sinto resistente quanto a realmente ser capaz de deixar alguém entrar dentro da minha casa, da minha vida e do meu coração e dizer ,”Fique a vontade, faça o que tiver vontade e fique o tempo que quiser. Não se preocupe comigo, eu vou ficar bem.
            Confesso que outrora já fui autor dessas palavras e realmente não me queixo por tê-las dito na maioria das vezes, enquanto outras aventuras poderiam ter sido melhor deixadas na teoria ou só na imaginação. Porque dar intimidade a alguém é simples, mas é bem perigoso se cair nas mãos erradas. Não nas mãos de alguém que possa te fazer mal, porque contra males existem defesas, contra-ataques e conselhos de pessoas que te querem bem para te ajudar a superar.
            Estou falando mesmo de dar intimidade para quem realmente não fazia questão dela. E que não vai retribuir o favor só porque você se sentiu a vontade de deixar ela entrar. Aprende, Igor, que só porque você destrancou a porta e colou os avisos de “Entre, temos ar condicionado” no hall de entrada, não quer dizer que quem você convidou para entrar não tem nada melhor para fazer do que se sentir em casa no seu aconchego e ainda agradecer por você tê-la deixado chegar até ali. Ou talvez o problema seja eu mesmo, que achava que havia destrancado a porta enquanto na verdade estava alucinando com a claustrofobia que estava aqui o tempo todo.
            Deixar as pessoas entrarem na minha vida nunca foi tão difícil assim; o problema mesmo era mantê-las. Me irrito com facilidade, brigo por pouca coisa, sou pentacampeão estadual em guardar rancor, gosto de cada coisa em seu lugar e não suporto situações mal-resolvidas por mais que meu orgulho tenha quase a mesma altura e peso que eu. Me afastar “do nada” é que sempre foi muito fácil. Achar que não era o bastante para outra pessoa quase sempre foi meu lema, minha reza antes de dormir. Nada sadio, pouco funcional e sem nenhum sentido: esse sou eu.
            O que eu poderia fazer diante disso? Criar vergonha na cara e destrancar a porta de uma vez por todas, e que viesse o que viesse. Que não viesse ninguém ou o universo inteiro de uma vez, não interessa. Eu deveria dar intimidade assim para quem tomasse interesse por mim, porque no final das contas provavelmente é o que eu poderia oferecer de melhor para alguém. Entre, fique à vontade e pode reparar na bagunça sim, porque eu preciso de ajuda para arrumar essa vida.
            Por mais que eu imagine que preciso ter intimidade antes de realmente ser íntimo com alguém, nada de bom vai acontecer nessa vida se eu continuar dentro de casa apenas rezando pelo melhor. De vez em quando é bom deixar o familiar para trás, para conhecer um mundo novo. E talvez nem tudo sejam rosas, e você pode acabar se afogando em arrependimento e amaldiçoando a existência de tudo e de todos, mas quem sabe você não se apaixona pelo que pode encontrar? Dar intimidade à alguém é como abrir a porta da sua casa para o universo: você não sabe o que vai encontrar, mas independente se será bom ou ruim, será definitivamente maior e mais profundo do que a fração da realidade na qual você dorme depois de um longo dia.
            Eu preciso de intimidade para sobreviver, por mais que minhas relações públicas às vezes percam o controle. Desespero, frustração e arrependimento são complicados, mas ao menos são sinais vitais de vida. E independente do que vier pela frente, essa casa precisa de novos ares. E esse coração precisa aprender a acreditar que algo bom pode acontecer de novo... De novo.

quarta-feira, 17 de julho de 2013

Quebrando a banca

Eu não sou um cara convencional, logo era de se esperar que minhas amizades automaticamente seguissem meu padrão caótico de existência, especialmente quando surgem. Quanto a esse outro cara, foi bem simples na verdade: eu precisava de uma carona pra balada. Ele, sendo o cara companheiro e sempre disposto a ajudar que é, concordou sem problemas em me buscar e levar. Claro que nenhum de nós na época sabia que o que era o início de uma amizade seria o início também de um comportamento padrão para nós até hoje. P.S. Eu preciso muito aprender a dirigir.
            Ele era legal, engraçado, parceiro. E parecia alguém em quem eu poderia confiar não só com caronas em estado alcoólico, mas para conselhos que curassem as ressacas emocionais nas quais eu sempre me envolvia através de decisões erradas – que geralmente eram originadas pelas mulheres erradas. “Mulher é foda..,” ele disse. É complicado, mas o que é pra ser vai ser, então “segue o jogo”.
            Ele era um jogador profissional, de pôquer e da vida. Alguém que já teve muitas experiências, capaz de ser analítico e sensato em situações difíceis, que já apostou muito alto – às vezes até tudo que tinha – e foi feliz com a vitória, mas que já se decepcionou muito antes de chegar até o topo, e até então ainda tinha problemas com confiança e superação. Ele era como eu; não apenas um jogador, mas um verdadeiro apostador que mesmo sob controle dos riscos e das estatísticas, ainda dependia da sorte e do próprio equilíbrio emocional para se manter por cima. A diferença é que ele fazia dinheiro com isso, quebrava a banca e era aclamado. Eu só quebrava a cara e era consultado pela experiência. Não odeie o jogo, odeie o manual.
            Eu aprendi com ele. Aprendi que é preciso mesmo apostar alto se quiser ganhar grande, mas que é preciso estar preparado para perder tudo e mesmo assim seguir o jogo. Aprendi que as cartas nem sempre estarão ao seu favor, mas que você pode criar oportunidades para si para sobreviver a rodadas angustiantes e ainda conseguir sair da mesa com algumas fichas para começar de novo quando recuperar o fôlego.
            Aprendi que eu não era o único cara nada convencional tentando quebrar a banca, e que o jogo fica bem mais fácil quando se tem parceiros confiáveis ao lado para te motivar a alcançar a vitória, e que melhor do que vencer é subir ao pódio com quem te ajudou a chegar lá. Aprendi que dar tilt é normal, que fold não é só questão de sensatez mas de humildade também, e que um par de às pode ser tão eficaz quanto um royal straight flush se você souber jogar direito. Claro que saber blefar também ajuda.
            E então o jogador e o cara nada convencional se tornaram amigos no jogo e na vida, sempre dispostos a garantir que o outro vá para casa com o maior pot possível. Eu sempre posso contar com a sua carona, assim como você pode sempre contar com minhas experiências em tentar quebrar a banca. Mas enquanto comemoramos mais um ano de parceria, deixo aqui meu obrigado por tudo que já fez por mim e tudo que me ensinou. Entre caronas e rodadas de problemas, você foi o cara sempre capaz de tirar uma carta escondida da manga para me ajudar a resolver quaisquer problemas que eu sempre acabo arrumando. Mulher é foda...
            E quando a sorte não estiver do nosso lado, segue o jogo. O que for pra ser, vai ser. Normal...

segunda-feira, 15 de julho de 2013

Voltando para casa


Duas semanas depois, e a cidade continua a mesma. Todo ano eu repito meu ritual pessoal de férias no meio do ano e abandono o clima frio e o céu cinzento de uma Cascavel junina/julhina para me aventurar em uma série de flashbacks e reencontros em uma terra tão, tão distante que a geografia chama de Londrina, e que eu chamo de lar.
            Mas apesar de repetir o trajeto todo ano na mesma época, passar pelas ruas da minha infância e adolescência apocalíptica e visitar os mesmos rostos conhecidos que deixei para trás há quatro anos, agora com mais experiência em seus olhos e mais resistência em seus fígados, as histórias raramente se repetem. Ficam os cenários, mas jamais a monotonia. Pelo menos enquanto eu estiver por perto, mandando mensagens de texto para os quatro cantos da Pequena Londres para avisar a todos os meus amigos e parentes órfãos que eu tenho duas semanas de férias da realidade para passar com eles, e cada dia é precioso demais para ser desperdiçado – mesmo recheando minha mala de DVDs piratas que sempre foram irresistíveis para mim quando passo pelas ofertas dos camelôs da cidade: cinco longas-metragens por dez reais, uma peculiaridade da região.
            Eu revi os amigos, os familiares, as avenidas, os shoppings, os bares e toda a minha história de 17 anos a cada rua que passei e a cada pessoa que cumprimentei que se lembrou de mim quando me viu passar distraído, ocupado me perdendo na paisagem do centro da cidade e dos prédios que cobrem parcialmente a vista do céu azul de dia frio, que desta vez me recebeu apenas com a cor mesmo. Fez calor, mais do que eu esperava e menos do que as blusas que levei poderiam fornecer a mim em caso de emergência, mas foi uma surpresa boa. Nada contra Cascavel, os cinquenta tons de mini-municípios que giram intrinsecamente ao seu redor, e seu clima sub-zero e amargo, mas eu precisava de duas semanas longe dali, preferencialmente em um lugar ao sol.
            E por um instante eu realmente me esqueci da realidade, entre as refeições e as sonecas, e fui capaz de me perceber como parte daquele CEP de novo, com todas aquelas pessoas ao meu redor como algo comum e não tão raro como havia se tornado depois que fui embora. E por um instante foi bom... Por duas semanas, para ser mais exato. A parte curiosa do meu ritual anual de desintegração Cascavelense, também conhecido como período de férias para os mais adeptos a termos menos neuróticos, é que é muito bom enquanto dura, e estudos ao longo dos anos comprovam que duas semanas é o limite.
            Você pode fugir da realidade e se perder no calor do sol por duas semanas, Igor, porque depois disso vem o inevitável que você já conhece muito bem: o clima frio, o céu fechado, o TCC atrasado, os incêndios que precisam ser apagados no trabalho, a pilha de roupa para passar que você deixou pra trás, os cacos de vidro do copo que você quebrou e que voaram para debaixo da estante da sala de estar que você prometeu a si mesmo que iria catar quando voltasse, a conta de telefone que vence mês que vem, e as novas pessoas da sua vida que estão bravas com você porque você viajou e não manda notícias sobre como está – exceto pela quantidade alucinante de check-ins que você aprendeu a fazer pelo celular.
            Tudo isso compõe a minha realidade agora, e a parte inevitável dela é que, depois de duas semanas ao sol, eu realmente sinto falta do frio. Talvez não do frio em si, porque a minha pele se acostumou com a atmosfera e meu corpo se acostumou com o peso das responsabilidades de cuidar de uma casa, dar conta de um emprego e fazer jus à faculdade que escolhi. Eu sinto saudade do meu novo lar, mesmo quando Londrina ainda consegue fazer eu me sentir tão acolhido a cada nova visita.
            É por tudo que Londrina fez e ainda faz por mim que eu percebo que, definitivamente, lá não é mais o meu lugar. Eu sou grato pela hospitalidade, mas isso só é possível hoje porque um dia eu decidi que a cidade havia se tornado pequena demais para mim, e que eu precisava engrossar a voz, dar passos mais largos e enfrentar o mundo lá fora – e que bravo mundo novo mais selvagem e perigoso para eu me aventurar do que Cascavel?
            E então eu voltei para casa, com mais roupa para passar, novos souvenirs para guardar na estante e a certeza de que eu posso voltar quando eu quiser, porque minha velha cidade ainda estará lá para mim. Eu amo Londrina, mas eu sinto muito. Talvez eu finalmente tenha me adaptado ao clima frio, ou eu simplesmente goste mesmo de sofrer, mas agora eu vivo em Cascavel. E eu senti a sua falta.