quinta-feira, 29 de agosto de 2013

Minha


(Oito meses atrás...)

            Choveu todo dia. Fez frio também, quer dizer, quando não fez calor demais. O céu estava fechado, o tempo estava nublado, as pessoas sumiram e não havia movimento nas ruas. Não havia barulho também, a não ser pela agonia profunda e gritante que o silencio provocou dentro de mim e que fui obrigado a expor para o mundo em forma de pequenas lágrimas reprimidas e olhares distantes para o horizonte em que eu procurava por algo além das estrelas e a luz do luar. Era você que eu queria, mais do que as estrelas e o luar, ou o clima perfeito para sair de casa. A verdade é que está tudo bem; o clima, as pessoas nas ruas... A cidade não mudou; essa tempestade toda está acontecendo dentro de mim.
            Começou na cabeça e choveu no coração, e pra não me afogar só o que me resta é colocar um pouco dessa água pra fora, entre vírgulas, frases e respingos de esperança que agora pulam dos meus olhos em busca de ajuda. Você não está aqui comigo e a vida continuou, e isso parece tão... Injusto. E apesar da calmaria lá fora, aqui dentro continua chovendo e talvez só pare quando você voltar. Não precisa voltar para mim, ou por mim. Apenas volte e traga o sol de novo; depois a gente vê o que faz.
            O mais triste e surpreendente de tudo é que a vida realmente continuou; eu aprendi a começar os dias sem você, a sorrir sem ter você por perto, e a ter que me contentar em conversar com outras pessoas enquanto a sua voz está distante. Essa sensação de stand by existe, mas é menor do que toda a melancolia que está sendo derramada de mim agora. E aquela velha lição sobre não ter que precisar da pessoa para assim poder realmente amá-la e compartilhar a vida em vês de simplesmente pedir que você me complete nunca pareceu tão verdade como agora.
            Eu não morri sem você, e posso continuar sobrevivendo com a ideia de que a chuva lá fora não tem fim, porque eu sei que não é real. Mas eu gostaria de ter você por perto mesmo assim. Quem sabe quando você voltar para cá, você volte para mim também, assim, de verdade, sabe?

***

(Hoje)

            Você voltou. Ao contrário do que eu costumava acreditar, o calor e o céu limpo e claro que acompanharam o seu retorno não passaram de coincidência para mim agora. Porque não só eu percebo bem agora o quanto você sempre esteve distante até mesmo quando estava a alguns passos de mim, como eu percebo que quanto mais eu acreditei que amei você, você nunca foi minha. Você voltou, mas não por mim.
            Eu honestamente não me lembro mais de como era sentir que meu dia só começava de verdade depois que eu via o seu sorriso. Também não me lembro dos motivos pelos quais eu ficava tão ansiosos durante aqueles últimos minutos solitários antes de você entrar por aquela porta, porque você jamais entrou ali pensando que estava entrando também na minha vida. No entanto, a última vez que eu a vi sair foi definitiva. Você nem sequer olhou para trás, e também nunca mais voltou. Mas apesar de tudo, jamais considerei o frio e a chuva que vieram em seguida como consequências do seu descaso, seu desprezo e, acima de tudo, seu abandono.
            E com o passar do tempo e das nuvens, eu sobrevivi a ponto de conseguir dizer a outra mulher que eu a amava. Que eu precisava dela. Que eu precisava de alguém. Isto é, até não sentir mais. E me pergunto se foi assim que você se sentiu também. Por        que por um instante eu acredito de coração que eu fui mesmo importante para você. Quem sabe, talvez por alguns minutos eu possa até ter sido o homem da sua vida, até não ser mais. Não sei dizer se foi você quem me deixou assim, mas é a sua imagem que me vem à mente quando me percebo colecionando corações por aí só para desaparecer em seguida. Assim como você não foi minha, eu aprendi que não sei como é ser de alguém.
            Mas apesar de tudo, eu queria que você tivesse ficado.

terça-feira, 27 de agosto de 2013

Psicodrama



            Nós somos psicólogos. Ok, tecnicamente não. Mas nós estamos tentando, e tem sido uma jornada e tanto que já dura quatro anos e já está prestes a terminar, ao contrário do que fazem parecer os inúmeros relatórios de estágio, preparações para o TCC e ansiedades crescentes a respeito do que fazer depois da formatura.
            E não importa qual seja a sua ênfase, abordagem ou neurose em particular, em algum ponto ou outro – seja depois de uma dura orientação de estágio que nos deixou mais desorientados do que quando entramos, ou depois de perceber que quanto mais a gente escreve para o TCC mais parece que ele jamais ficará pronto, ou até mesmo conversando uns com os outros entre os corredores da faculdade e os horários apertados entre aulas para tomar um café ou um pouco de ar – todos nós acabamos pensando a mesma coisa: será que isso é mesmo para mim? Fiz a decisão certa? Serei um bom profissional? Talvez não teria sido mais fácil ter escutado meu pai e ter feito Administração?
            A verdade é que não há verdade. Alguns anos atrás, quando eu ainda estava tentando encontrar um porto seguro para me salvar de toda a perdição que Cascavel trouxe para a minha vida, eu me lembro de estar sentado na sala de aula que eu havia escolhido para mim com toda a certeza do mundo de que era ali que eu deveria estar – exceto pelo fato de que não era assim que eu me sentia.
            Quatro anos atrás, eu escolhi Jornalismo, porque realmente parecia ser tudo o que eu queria. Porque minha paixão pelas histórias das pessoas, dos lugares e combinar tudo isso com reflexões acerca de que tudo no mundo é subjetivo e particular de cada um – e colocar tudo isso em forma de palavras, parágrafos e pontuações – parecia ser exatamente o que a promessa do Jornalismo reservava para mim. Só que não. Depois de alguns meses eu percebi que não era ali que eu deveria estar, e que talvez fosse melhor para mim e quem sabe até para o mundo se eu deixasse a vergonha, a insegurança e o medo de lado para dar uma chance à segunda opção: a Psicologia.
            Independente do meu pai dizendo que eu seria pobre, ou da minha mãe dizendo que eu seria gay e pobre, ou do meu tio dizendo que ainda dava tempo de eu estudar para o concurso público da polícia federal que ia ter no próximo fim de semana, foram precisas apenas algumas aulas em uma semana para que eu percebesse que eu finalmente estava exatamente aonde deveria, e exatamente no tempo em que eu estava.
            Porque se eu não tivesse andado errado por um ano antes, eu não teria conhecido vocês. Eu não teria descoberto o quanto era possível ter um humor bizarro tão coincidente quanto eu tenho com a Lia, ou o quanto eu precisava ouvir tantas verdades que ninguém tinha coragem de me dizer até eu conhecer a Luciana, ou o quanto eu era capaz de chorar de tanto rir como eu já fiz com a Ellen. E ao longo dos anos do curso vieram outros, cada um com sua habilidade especial que se destacava dentre os outros, que aos poucos me mostraram o quanto a Psicologia poderia ser não só divertida, mas especial. E foi graças à amizade e ao grupo de apoio tanto dentro quanto fora da sala de aula que formei com o Renan, a Paula e tantos outros mais que eu descobri muito mais sobre mim do que eu poderia imaginar.
            O Renan sempre tem suas teorias sobre mim e gosta de analisar cada um dos meus comportamentos para tentar entender algumas coisas que eu faço que nem sempre tem muito sentido, enquanto a Paula parece capaz de me enxergar com uma clareza e sensibilidade que eu jamais pensei que alguém poderia ser capaz de me ver. Todos eles e tantos mais que eu conheci, em especial a Joyce que não só continua minha amiga há quatro anos, mas agora divide o mesmo CEP que eu. E não tem coisa melhor do que terminar o dia depois de quatro aulas sobre diferentes teorias sobre a psique humana sentado na sacada debaixo das estrelas tentando perceber o quanto tudo aquilo não é só verdade, mas também é muito difícil de se absorver.
            Cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é, e isso só fica mais evidente quando se divide a vida com alguém. E foi isso que me fez pensar no quanto nós deveríamos comemorar o nosso dia não importa de qual forma. Porque depois de quatro anos de relatórios, trabalhos em grupo, listas de chamada, intervalos no mezanino, cafés da manhã na loja de crepes do outro lado da rua, aulas trágicas aos sábados de manhã e cinquenta tons de neuroses que certamente brotaram em nossas mentes a cada novo conteúdo que aprendemos, o que levaremos para o resto da vida quando tudo isso acabar?
            Eu não sei se eu serei um bom psicólogo, mas coloco minha mão no fogo por cada um de vocês que tem trilhado este caminho comigo. Especialmente os que eu tive o prazer de conhecer muito além da sala de aula, e que eu já nem preciso mais dizer para que se sintam à vontade na minha casa e na minha vida. E se eu não tivesse perdido aquele ano? E se eu não tivesse conhecido vocês? Não sei. Os psicanalistas vão dizer que minhas incertezas estão ligadas a algum trauma não resolvido na minha infância, enquanto os existencialistas vão questionar o que eu vou fazer com isso e os comportamentalistas vão dizer que esta atitude pode mudar. Em um mundo onde tudo é subjetivo, nós aprendemos realmente que só cada um sabe qual é a dor e a delícia de ser o que é.
            Então feliz dia do “e o que você vai fazer com isso?”, “fale mais sobre isso”, “por que e para que você faz isso?”, “e o que você acha que isso significa?”, “o que você está ganhando com isso?”, “não acha que poderia agir diferente?” e assim por diante. Ainda falta um tempo para que nos tornemos psicólogos de verdade, mas em se tratando de todas as análises que já fazemos em uns aos outros e a nós mesmos, nós definitivamente estamos no caminho certo.

sábado, 24 de agosto de 2013

As pequenas coisas


            Mais vezes do que eu deveria, eu fico dividido entre fazer o que eu acho que deveria ou o que eu realmente gostaria de fazer. O mesmo vale para pessoas: eu me divido entre as pessoas com quem eu posso contar de verdade, e os figurantes com os quais eu até gosto de passar tempo porque me divertem e nós ficamos bem em fotos, mas que definitivamente desaparecerão da minha vida em questão de alguns finais de semana.
            Porque a sobriedade, além do desespero silencioso, a frustração e as crises de abstinência, despertou em mim também uma sede ainda maior do que por cerveja, mas pela profundidade das pessoas ao meu redor e as coisas que fazemos juntos. As conversas na sacada, os jantares antes da aula, as mensagens que trocamos para combinar de nos ver. As pequenas coisas que fazemos juntos de repente precisaram se tornar mais profundas do que um copo de cerveja para me satisfazer ultimamente, e nem tudo que antes me agradava agora desce tão redondo.
            Eu não sinto falta da vodka. Eu sinto falta de quem estava ao meu redor enquanto eu bebia. Das conversas sem nexo, das torcidas que se organizavam durante os nossos campeonatos de jogos de tequila, da espontaneidade que o chopp despertava em nós, dos lanches pós-balada na madrugada. E o que realmente me assusta é pensar se o que nos unia não eram as pequenas coisas e sim as grandes doses.
            E foi assim que muita gente desapareceu. Mentira. Mas foi assim que eu desapareci para muita gente. Porque a conversa só era boa mesmo quando estávamos em uma mesa de bar. Porque passar noites em claro disputando quem aguentava metabolizar mais uísque com energético sem passar mal. E quando de repente subtraiu-se o álcool da nossa equação, nós deixamos de existir. Quem ficou, ficou, e eu agradeço por isso. Quem não ficou, eu entendo.
            Só que quando eu digo que eu me sinto dividido, é porque a verdade é que eu realmente não quero deixar vocês irem. Não quero admitir que a vida mudou, que nós temos relatórios, TCC, compromissos, relacionamentos, louça pra lavar, e nossas agendas não são mais tão livres assim. Tem sido difícil arrumar tempo e a gente cansa. E o que a gente faz quando cansa? Espera alguém sentir a nossa falta, correr atrás, procurar descobrir o que aconteceu com a gente. E isso seria muito eficaz se todo mundo não fizesse exatamente a mesma coisa.
            O que eu realmente gostaria é que tudo fosse como antes. Que a gente continuasse juntos, rindo, descontraindo, abstraindo, bebendo, fumando e aproveitando como se a vida fosse um punhado de Sábados à noite: repletos de safadeza e possibilidades no ar, onde tudo é possível e nada pode nos deter. Mas as coisas mudaram. Eu não posso beber por enquanto. Fulano não pode sair porque está ocupado com o trabalho. Ciclano está com problemas com a namorada e perdeu um pouco daquele ânimo todo. Beltrano só está livre nos fins de semana. E assim a gente tem levado: em vês de estar rindo, estamos só adiando. Isso me assusta.
            A culpa não é do álcool. Isto é, da falta dele. No entanto, mais do que nunca eu percebo agora quem eu vou levar comigo desses dias ruins até os bons voltarem, e quem eu eventualmente vou parar de cumprimentar quando encontrar na rua porque já nem fazemos mais questão disso. Eu só acho que, não importa o que aconteça, nós não podemos perder as pequenas coisas que fizemos juntos um dia e que nos motivaram a continuar nos encontrando desde então. As conversas, as risadas, os abraços, os sorrisos, os conselhos e até mesmo as lágrimas.
            Independente da onde estávamos, ou quem mais estava com a gente, ou até mesmo o que estávamos fazendo na hora, o que realmente importa é que estávamos juntos. Pelo menos é disso que eu me lembro, e é disso que eu sinto falta.
            Eu queria que você estivesse aqui, mas se tem uma coisa que eu aprendi nesses últimos meses é que não depende só de mim. E quem sou eu pra querer você aqui, se você não quer ficar? Então vai. A gente se vê por aí.

terça-feira, 20 de agosto de 2013

Algo a mais


            Eu não quero um relacionamento.

            Foram precisos quatro anos para perceber o que antes me parecia algo inacreditável, mas é a esse ponto em que chegamos. Eu não estou dizendo que eu jamais vou querer um relacionamento; só estou dizendo que hoje, aqui e agora, não é disso que eu preciso. Também não é como se houvessem outras grandes metas à minha frente apenas esperando para que eu tome uma atitude decente para alcançá-las, apesar de que a lista dos meus compromissos parece aumentar cada vez mais a medida em que as pilhas de tarefas a serem feitas no trabalho, relatórios a serem feitos na faculdade e roupas para passar em casa tendem a ocupar mais tempo do que eu esperava aguentar.
            Mas eu estou aguentando e quando alguém me pergunta como andam as coisas, eu realmente não deveria mentir. Está tudo bem, sim. Não, nada de novo. Não, não estou saindo com ninguém? Por que? Agora você me pegou. Não há um motivo concreto na verdade. Eu ando tão atrasado com meus relatórios, o apartamento está precisando de algumas reformas, as coisas andam tão caóticas no trabalho, e nem preciso comentar que a barba já está quase me deixando com cara de mendigo de novo. Mas cá entre nós, eu não quero um relacionamento agora.
            Não me entenda errado; eu quero sexo. E abraços de vez em quando. Alguns beijos aqui e ali. Um corpo quente na minha cama não faria mal nenhum. Eu definitivamente arrumaria tempo para você caso queira passar por aqui. Nós podemos conversar também. Eu não posso beber nada alcoólico, mas fique à vontade para se servir. Não é porque eu estou em recessão que deixei de dar atenção ao meu estoque. Nós podemos assistir alguma coisa; um filme, um seriado, a vista das estrelas na sacada... Ou nós podemos só transar caso você esteja tão cansada e atarefada quanto eu. Prometo deixar a portão encostado para que não precise me perturbar quando sair.
            Claro que eu posso estar exagerando aqui, mas o fato de eu estar brincando com tudo isso só serve para ilustrar exatamente o quanto eu estou exausto. Não de estar a procura de um relacionamento por tanto tempo, ou de alguém para amar até o fim dos meus dias, mas exausto da vida mesmo. Trabalhar cansa. Escrever relatórios cansa. Passar roupa cansa e queimou dois dedos meus. Viver cansa, e acho que estou em falta com meu sono há no mínimo três semanas, e a contagem continua...
            Sabe o que eu quero mesmo? Que alguém pergunte como foi o meu dia. Que alguém me surpreenda com uma mensagem boba e impensada sobre alguma bobagem que aconteceu com a gente e que fez você se lembrar de mim de repente. Quero companhia, mas que entenda que eu não estou pronto para deixar você ficar do meu lado o tempo todo. Acontece que eu desaprendi a gostar tanto assim das pessoas. Esqueci como é depender de alguém para coisas pequenas como ir ao shopping, ou coisas grandes como ser feliz para o resto da vida. Isso agora me assusta.
            Eu não digo isso para dar vazão à minha frustração ou à minha indignação pelo caos que os relacionamentos podem causar às pessoas, principalmente às mais neuróticas. Digo isso só por dizer mesmo. Porque eu já terminei quase tudo que tinha para fazer hoje e resolvi deixar o resto, que não é pouco, para tentar terminar amanhã. E porque de repente eu senti falta de algo. De um carinho. De uma mensagem. De um corpo quente chamando meu nome. Não de um relacionamento sério completo com mensagens de “bom dia” e “boa noite”, troca infinita de satisfações e comprometimentos complexos. Eu nem sei se daria conta de tudo isso agora. Eu só senti falta mesmo de algo a mais.
            Talvez eu divida minha vida com alguém, talvez não. Eu não sei. Só sei que por mais silencioso que o apartamento esteja agora, já faz muito tempo que eu não sei mais o que é me sentir sozinho. O que me faltou agora mesmo foi aquele algo a mais. Ou, alguém a mais, pra ser mais exato.

domingo, 18 de agosto de 2013

A síndrome do coração partido


            Depois de anos de decepções e desenganos, aconteceu que minhas suspeitas estavam certas. Que eu não estava exagerando quando dizia que quando se faz tudo por amor – ou qualquer outro sentimento peculiar que você por acaso goste de chamar de amor, na falta de algo real – e mesmo assim as coisas não dão certo, é possível que a angústia, a fatiga emocional, as mensagens de texto não-visualizadas, as coisas na sua casa que ficaram com o perfume dela e o mar de lágrimas que você mesmo cria e no qual quase se afoga possam ocasionar algo chamado “cardiomiopatia Takotsubo”, também conhecida como cardiomiopatia induzia por estresse ou – adivinha só! – síndrome do coração partido.
            Eu sempre pensei que o preço por insistir em acordar pensando em você e fazer tudo o que eu pudesse para que você continuasse se sentindo feliz e confortável não seria nada mais caro do que alguns traumas, problemas com ansiedade e dificuldades em me relacionar com qualquer outra pessoa de novo – nada demais, realmente, a essa altura do campeonato. Mas a ideia de que a sua indiferença, descaso e insensibilidade poderiam ser capazes de me causar sintomas como insuficiência aguda do coração, arritmias ventriculares letais e ruptura ventricular foi mais interessante do que reconsiderar voltar à terapia. Porque me fez refletir sobre exatamente o quanto este sentimento peculiar que eu gosto de chamar de amor é mais forte do que o meu próprio instinto de sobrevivência.
            Depois de anos de decepções e desenganos, estudos agora comprovam que você realmente me causou mais taquicardia do que felicidade. Então por que eu insisto em acreditar que você é o remédio que eu preciso para deixar de procurar nomes de síndromes para aliviar meus sintomas? Talvez porque o efeito placebo que você me proporciona é menos doloroso do que admitir que cada dia ao seu lado me leva cada vez mais em direção à falência cardíaca e a incapacidade de sentir que poderia dar certo com outra pessoa.
            Mas ao contrário da pessoa que há anos você conheceu, usou, abusou e internou em intenso descaso, quem eu sou hoje parece estar muito mais sadio e apto para seguir em frente e conhecer alguém muito melhor que você. Eu não vou mais deixar que meu coração permaneça aberto para quem quiser ir e vir só quando sentir vontade; esta área não é mais para visitantes, e você precisa ter carteirinha e caráter para entrar. A síndrome do coração partido é uma condição rara, porém indivíduos acometidos por ela possuem 80% de chances de perderem toda a crença no amor e nas pessoas de uma vez por todas. E sinto muito, mas você é bonita, legal e até engraçada às vezes, mas definitivamente não vale o que a minha saúde vale.
            Igor Costa Moresca sente-se recuperado, está consciente e já é capaz de amar novamente sem a ajuda de aparelhos.

quarta-feira, 14 de agosto de 2013

Alienação afetiva


            Faz frio em Cascavel. Cinco graus, pra ser mais exato. E eu lembro do meu sofrimento durante o primeiro inverno que passei aqui como se fosse... Mentira, eu não lembro. Já faz quatro anos, quem se lembra dessas coisas? Quer dizer, eu costumava lembrar, assim como costumava sentir as coisas, as pessoas e a vida de uma maneira muito diferente. Com um grau de vulnerabilidade bem mais elevado, enquanto hoje parece que não passo mais dos cinco graus também.
            Acontece que depois de quatro invernos em Cascavel – sem contar as geadas fora de época que atingiram o Oeste do estado e a região central do meu coração – eu me percebo agora quase tão frio quanto a cidade. E o pior: distorcidamente confortável com o frio. Capaz de enfrentar cinco graus de temperatura lá fora da mesma forma que encaro as coisas, as pessoas e a vida: com desdém, indiferença, incredulidade e no máximo duas blusas. Eu esfriei consideravelmente a medida que a cidade se afunda no gelo entre Julho e Setembro; a diferença é que enquanto as flores renascem em Setembro, minha descrença parece ser atemporal.
            O que é o frio? É sentir-se desamparado, climaticamente ameaçado e desesperado para reencontrar o calor. Agora, o que é sentir-se frio? Não seria quase a mesma coisa, só que com a geada acontecendo de dentro pra fora da gente? Eu sempre adorei o frio; a época perfeita do ano em que ficar dentro de casa não é mais opcional, mas preferível. A época em que sair pelas ruas é desaconselhável e continuar debaixo das cobertas é o passatempo favorito da criançada de 0 à imortalidade. E eu já deveria ter desconfiado disso há quatro anos, mas estava ocupado demais tentando não me mexer depois de finalmente ter conseguido me acomodar meio a três cobertas deitado na cama.
            Enquanto sentia paixão pelo inverno, sentia horror pela ideia de me tornar frio, insensível às coisas, as pessoas e a vida. Não poderia haver nada pior, e minhas crenças foram comprovadas quando comecei minha faculdade de Psicologia e erroneamente associei todos os meus temores à uma só abordagem: o Existencialismo, ou o conceito de ser um terapeuta ridiculamente neutro à realidade e extremamente determinado à encarregar seus pacientes a assumirem as responsabilidades de seus devidos atos, por mais inseguros e desamparados que eles pudessem se sentir. Qualquer semelhança é mera coincidência, mas é possível que eu esteja exagerando. O frio me enlouqueceu.
            Eu sempre temi o Existencialismo. Começou há quatro anos com uma professora tão experiente e eficaz quanto era assustadora e inescrupulosa frente ao meu potencial suicida imaginário, e se arrastou até o ano passado quando chegou a hora de escolhermos o que queríamos ser quando crescêssemos: Psicanalistas alucinados, existencialistas tiranos ou comportamentalistas do bem. À princípio optei pela Comportamental devido à minha crença na análise do comportamento como mecanismo de mudança e meu otimismo que até então havia sido muito requentado, mas não tinha perdido o calor ainda. Isto é, até as coisas, as pessoas e à vida acontecerem de novo.
            Confesso que eu perdi o otimismo, a esperança e o amor-ridiculamente-inatingível-porém-gostoso-de-se-sonhar que me moviam através das coisas, das pessoas e da vida, e quando eu finalmente me toquei disso já era inverno de novo. E a maior surpresa não foi perceber que eu já não sentia mais frio na minha pele como há quatro anos, mas o quanto eu já não sentia mais nada por nada.
            Eu perdi minha crença no comportamento e passei a viver no aqui-e-agora, questionando os outros e a mim mesmo sobre “o que você vai fazer com isso?” e deixei de responsabilizar os outros pelas minhas escolhas – e me afundei loucamente em angústia enquanto isso. Então eu me vi no espelho, me preparando para enfrentar os cinco graus lá fora, usando nada além de duas blusas e um olhar crítico, e foi aí que eu percebi: não sei se quem venceu foi o ser ou o nada, mas eu definitivamente me perdi.
            Nada me aterrorizava mais do que a capacidade de contemplar as coisas, as pessoas e a vida com nada menos do que esperança. Mesmo que eu perdesse o resto, sempre havia amor para recomeçar e mais uma série de músicas que me lembravam que eu ainda era eu, que o amor está vivo e que a felicidade está há cem lágrimas de distância. E foi aí que meus cinco graus de repente se chocaram com um fato ainda mais frio: a verdade de que eu jamais ouviria de você as palavras que eu realmente quero ouvir há quatro anos. E doeu mais do que todas as coisas, as pessoas e a vida já haviam me ferido até então.
            Por um lado foi bom. Me fez usar uma terceira blusa hoje, e me fez perceber que meus sentimentos não derreteram com a Primavera passada, mas mantiveram-se preservados no gelo da minha alma e finalmente encontraram um jeito de me reanimar. Porque apesar de você parecer toda quente e aconchegante, foi você quem me deixou frio. E apesar do meu olhar crítico no espelho, eu definitivamente não perdi o meu afeto.
            Os existencialistas que me desculpem, mas eu ainda não estou pronto para enfrentar o mundo sem levar em conta o comportamento dos outros. Sou humanista demais para isso, mas na falta desta abordagem na faculdade prefiro me enrolar em três cobertas e agradecer à Deus e a análise funcional, que sempre veem muito mais além do que eu ainda sinto às vezes.

segunda-feira, 12 de agosto de 2013

A garota do adeus


            Você gosta de mim. Você gosta da minha honestidade, gosta de mim porque sou sincero e não minto para você. Você gosta de mim porque eu não alimento o seu egoísmo, nem jogo os seus jogos, nem respeito as suas incoerências.
Você gosta de mim porque eu sei lidar com os seus dramas, sei como enxugar suas lágrimas, e sei o que dizer para fazer você se sentir melhor. Você gosta de mim porque eu te faço chorar quando você precisa desabafar, mas é incapaz de admitir derrota, baixar as guardas e permitir que outra pessoa te veja vulnerável.
            Você gosta de mim porque eu não digo o que você quer; eu digo o que você precisa ouvir, e mais ninguém te diz - nem você mesma, quando está sozinha e mal se atreve a pensar nisso. Você gosta de mim porque somos parecidos, e é exatamente por isso que você impõe limites para mim no seu coração.
            Você gosta de mim, mas só até certo ponto. Você gosta de mim, mas pensa que não podemos ser mais nada além do que já somos, porque eu sou tão quebrado, perdido e inconsequente como você. Mas você gosta de mim. Gosta quando conversamos, porque é a maneira que você tem de enfrentar seus próprios problemas sem precisar se ver no espelho ou sentir na própria pele a dor da realidade de que, sim, você precisa mudar.
            Você gosta de mim, mas não se prende a mim nem a mais ninguém, e é por isso que articula sua indiferença com fineza toda vez que eu atinjo meu limite e me afasto. Você gosta de mim, porque sabe que eu sempre volto. Apesar de saber que você gosta de mim, eu gostaria de saber: porque você não para de me dar motivos para me afastar, e tenta gostar de mim também ao ponto de querer que eu nunca mais vá para longe?

***

            E por muito tempo foi assim que eu me senti, até de repente não conseguir sentir mais nada. Até não ser mais capaz de aguentar a sua respiração perto de mim, os seus braços ao meu redor e a sua boca usando meu nome em vão, completo com outros sentimentos muito bonitos mas que pareciam ridiculamente insinceros vindo de você, como alegria ou saudade.
            Mas um dia algo aconteceu. O inimaginável, o inesperado, o impossível. Logo eu que era incapaz de conceber a ideia de ficar longe de você, decidi que seria menos doloroso tentar sobreviver longe de você do que insistir em congelar no frio da sua sombra. – lugar da onde você definitivamente jamais me tiraria.
            Porque desde o primeiro momento em que nos conhecemos – e eu deveria ter prestado mais atenção aos seus olhos do que nas suas palavras – era claro que eu não seria mais nada pra você além de alguém que estaria sempre ali quando você precisasse, quando você quisesse, para tirar toda a dor do seu coração e guardar no meu, sem me importar por um segundo com o quanto isso me mataria por dentro a cada amanhã que viesse. Só que o último amanhã chegou e é isso.
           
            Eu não posso mais ficar perto de você. Não sou tão forte assim. Nem sei se um dia realmente fui.
           
            As certezas se foram. Estou me recompondo aos poucos; a mim e as minhas razões para acreditar em qualquer coisa de novo, principalmente nas pessoas. Ninguém que vier depois de você tem uma parcela da responsabilidade pelo que agora eu percebo que não foi nem você quem fez, mas eu mesmo. Você não me pediu para adotar a sua dor. Você só queria atenção. Só queria sentir que alguém gostava de você e conseguiu.
            Quem sabe por um instante você realmente gostou de mim e talvez até sinta mesmo a minha falta. Mas por mais que você goste de mim, eu amo você e essa é a maior diferença entre nós. A diferença que não me deixa mais negar o óbvio: você era a garota errada. E eu preciso deixar você ir, se eu quiser encontrar a certa.

domingo, 11 de agosto de 2013

Patriarcado


Se tem uma coisa que eu ouvi repetidamente a vida inteira, é o quanto eu sou igual a você. Particularmente falando, eu realmente nunca vi a semelhança. Nem no nariz, ou no jeito de olhar as horas no relógio, ou as camisas parecidas, ou os cabelos brancos precoces que herdamos do vovô. Para mim nós sempre fomos diferentes; você sempre foi rígido enquanto eu parecia mais relaxado, e em todos os sentidos possíveis. Você sempre deu o melhor de si, honrou seus compromissos, cumpriu seus horários. Sempre foi apaixonado pelo trabalho, pela importância da família, música boa e bebidas requintadas. Eu era um largado, um adolescente preguiçoso e gordo que nunca viu seu reflexo quando me olhava no espelho. Não me imaginava trabalhando, nem comprometido com horários ou causas muito nobres, e só via a família aos domingos quando era conveniente ou educadamente obrigado a comparecer aos almoços tradicionais que se alternavam entre as casas das tias e a do vovô. Eu definitivamente não era igual a você, ou pelo menos era o que eu pensava.
            Aí eu cresci, amadureci, fiz minhas malas e me mudei para a sua cidade. E quando nossas diferenças se aproximaram demais, nenhum de nós deu conta das consequências e decidiu-se que seria melhor se cada um tivesse o seu teto. O que aconteceu foi que cada um ficou em uma parte da cidade, mundos de distância um do outro, e nem mesmo os domingos se salvaram. Mas com a distância veio a adaptação, e com ela veio a inevitável aceitação. Você não estava mais tão perto assim, mas de repente começou a aparecer em meu espelho conforme eu comecei a seguir seus passos enquanto acreditava que estava perdido na vida. E comecei a perceber o quanto trabalhar era bom, além de necessário, para que um homem construísse o seu caráter e o seu legado. Percebi que havia sim diferença entre um vinho tinto suave qualquer e um Cabernet Sauvignon da safra de 2008, que pagar contas em dia e não dever nada a ninguém é o maior sentimento de independência e integridade que se pode ter, e que honestidade é a chave de qualquer relacionamento.
            Aos poucos eu aprendi tudo o que você tentou me ensinar há anos, enquanto eu estava ocupado sendo teimoso, orgulhoso e gordo. Foi quando eu me vi, bem longe da sua rigidez, repetindo os mesmos padrões sob os quais eu havia crescido. Dizendo aos amigos que eles eram preguiçosos demais e que eles eram capazes de muito mais do que eles imaginavam, apesar do tom agressivo das minhas palavras. Dizendo às pessoas que elas deveriam ser honestas e íntegras consigo mesmas se quisessem alcançar as suas metas. Dizendo a mim mesmo, depois de um longo dia de trabalho, estresse e cansaço físico e emocional, que tudo aquilo valeu a pena e que eu precisava dormir cedo porque amanhã começa tudo de novo. E então eu finalmente percebi o que me disseram a vida inteira: eu sou igual a você. Rígido, porém íntegro. Trabalhador, porém otimista. Agressivo, porém carinhoso. Sério, porém esperançoso. Cansado, porém feliz.
            Se tem outra coisa que eu ouvi repetidamente a vida inteira, é que todo ano nesta data quando eu tento descobrir com o que eu poderia te presentear, você simplesmente abaixa a cabeça e diz, “Eu quero paz, filho. É só isso que eu quero...” Particularmente falando, eu realmente nunca entendi e sempre acabava me voltando aos clichês de camisas e gravatas. Mas hoje eu entendo. Eu realmente entendo qual é a paz pela qual você sempre rezou, assim como entendo todas as lições que você tentou me ensinar, os conselhos que você julgou que eram corretos, as palavras duras que você jogou em mim porque eu precisava ouvi-las, e tudo que você fez por mim até hoje até mesmo quando não podia estar por perto. E o que eu sinto hoje não é mais frustração por ser diferente, mas orgulho por ser igual a você. O herói, o profissional, o homem de caráter e integridade inabaláveis, o eterno esperançoso e otimista, e definitivamente o melhor pai do mundo. E além de um presente infame, só o que eu posso te dar hoje é o que você lutou por anos para que eu entendesse: admitir que você sempre esteve certo.
            Eu te amo, pai. É um orgulho ser igual a você.

sexta-feira, 9 de agosto de 2013

Sinais de fumaça


            Eu não sei o que dizer. Logo eu que costumo ter um certo jeito com as palavras, já não sei mais como colocá-las em ordem de modo que expressem o que eu quero dizer, muito menos o que eu sinto agora. Eu não sei o que eu sinto. Não é cansaço dessa vez porque o dia foi bom, foi produtivo. Não é fome porque eu aboli este sentimento da minha vida depois das seis da tarde, pelo menos por um tempo. Não é saudade porque eu acredito agora que não vou perder ninguém das pessoas que realmente importam, e que vão continuar na minha vida na sobriedade e no alcoolismo até que a morte nos separe. Então até agora já eliminamos fadiga, gula e paranoia. O que resta?
            Não, não é isso. Não pode ser isso. Nós já passamos disso. Nós já falamos sobre isso mil vezes e sabemos como acaba. E é por isso que nós não estamos falando sobre isso. Na verdade, é por isso que não estamos falando nada. E tem sido quase ótimo. Quase perfeito, porque por alguns instantes durante o dia eu me esqueço de que isso existe. Eu me esqueço de que você existe, porque é disso que eu preciso agora. Confesso que sua ausência não foi planejada. Eu não passei noites em claro planejando uma estratégia de saída da sua vida. Pelo contrário; eu só parei de arquitetar planos para continuar nela, porque era muito trabalho para pouca recompensa. E olha que você nem fez nada demais dessa vez. Você só foi você mesma, e pra tropecei mais uma vez no seu jeito de ser e dei de cara no chão, meu velho amigo.
            Você não sente a minha falta. Me atrevo até a acusar que você não faz ideia do que é sentir a minha falta, porque eu mesmo não sabia como isso poderia afetar a vida de alguém que realmente se importa comigo. Mas você gosta de pensar que sente a minha falta pelo menos motivo que eu gosto de pensar que isso é verdade: porque nós somos iguais. Somos cativantes mesmo com o nosso jeito torto, a nossa falta de bom senso e noção de vergonha. E atraímos outras pessoas para as nossas vidas porque aprendemos que precisamos delas para o nosso próprio bem. Não porque precisamos da atenção - isso é só um detalhe que por acaso nós apreciamos muito – mas porque nós não suportamos a ideia de ficarmos sozinhos.
            A única diferença entre nós é que eu fui obrigado a aprender a como ficar sozinho. Como ser sozinho e viver sozinho mesmo quando tantos ao redor parecem espetacularmente capazes de nos socorrer do abismo aonde nós mesmos nos atiramos. Eu sei como é e faço tudo que posso para não voltar ao fundo do poço. Você se agarra à tudo que pode para não chegar ao fundo, apesar de estar claramente dependendo do limite da sua esperança para não cair. Estamos igualmente à deriva, mas em direções diferentes. Porque hoje eu preciso de certezas de que não vou afundar antes de me permitir ser socorrido por alguém, enquanto você solta sinais de fumaça para todas as direções e se contenta com uma multidão correndo para o seu resgate, onde eu acredito que poucos estão realmente preocupados com o seu bem estar.
            Eu estou me perdendo do que eu (não) quero dizer. Isto não pode estar acontecendo. Bom, eu fiz um excelente trabalho em não deixar acontecer por um tempo ao guardar para mim todo o recalque e a frustração que isso me causa, até finalmente ser vencido pelo cansaço e dar a luz ao meu problema através de uma fala desajeitada no canto escuro de um bar, ironicamente acompanhada por um copo de uísque completo com água sem gás. Você ainda mexe comigo, mais do que eu gostaria e menos do que você sabe. 2013 foi muito generoso em me trazer pessoas novas, lugares inesperados e experiências memoráveis, mas também me sacaneou direitinho em ter trazido você até aqui, até agora. Porque eu não falo com você, mas você está na minha fala. Eu não procuro você, mas você está na minha vista. Eu não olho pra você, mas você está nos meus pensamentos. E não é possível que eu não tenha aprendido ainda. Não é possível que em 3 anos eu não tenha aprendido nada. Não é possível que você seja tão igual a mim. Não é possível que você mexa tanto comigo...

            Não é possível que eu ame você.

            E aí está, senhoras e senhores, o que eu nunca soube dizer.

quarta-feira, 7 de agosto de 2013

Tudo será como antes


            Eu nunca mais fui o mesmo depois que aprendi a precisar das pessoas. Depois que aprendi a deixar a porta de casa destrancada para que os amigos entrassem sem bater e a abrir a geladeira para ver se tinha cerveja antes de chegar até à minha cadeira cativa na sacada para me cumprimentar. E eu realmente me senti com muita sorte por isso; por ter pessoas na minha vida que não possuem absolutamente nenhuma necessidade de me cobrar ou dar satisfações, mas que querem compartilhar suas vidas comigo mesmo assim e que se importam quando eu, logo eu que falo demais, deixo algumas piadas óbvias passarem batidas porque não estou no clima.
            Eu percebi que precisava das pessoas quando meus problemas deixaram de ter cara de problemas. Quando algo de ruim acontece, só o que eu consigo pensar é o melhor amigo que poderia me ajudar a lidar com isso ou, no meu caso, quando meu grupo de apoio pode se reunir para discutir o assunto. Eu percebi que não estava mais sozinho quando mesmo durante os meus momentos mais solitários, havia alguém do meu lado me consolando. E é por isso que tem sido tão difícil. Mesmo depois de tanto tempo e tantas histórias juntos, eu ainda não sei admitir que eu preciso das pessoas. Que eu preciso de ajuda, de um conselho, ou só ser ouvido por alguém. Admitir que, por incrível que pareça, eu não dou conta dessa vida sozinho. E nem deveria porque eu realmente não vivo sozinho, mas a sensação de autossuficiência consegue ser maior do que o meu instinto de autopreservação às vezes, o que me faz preferir falhar em particular do que vencer em parceria. Como se precisar de alguém fosse algo ruim, diminutivo, humilhante. Como se eu precisasse ser tão bom quanto eu imagino que deveria ser a ponto de não precisar de ninguém, e ter as pessoas apenas para lazer e amostras do meu potencial.
            Mas eu preciso das pessoas e isso me assusta. Porque precisar de alguém não necessariamente significa que ela precisa de você. Ela pode ir embora, e aí o que você vai fazer? Vai se disfarçar para segui-la na rua? Vai criar um perfil falso para não perder contato com ela? A importância que você dá para alguém não te garante o mesmo reconhecimento por ela, e é difícil admitir isso quando se está na posição mais “passiva” da colaboração. Isto é, como se precisar de ajuda me tornasse alguém mais necessitado do que quem é capaz de me ajudar. Como se eu não fosse o melhor em tudo. E aí veio o antibiótico para acabar com tudo que eu acreditava.
            A isotretinoína é um fármaco utilizado pela medicina no tratamento do acne severa ou da rosácea comercializado no Brasil normalmente com o nome Roacutan. O tratamento dura em média seis meses durante o qual o paciente deve ingerir diariamente três comprimidos de uma vez, preferencialmente após uma refeição. Efeitos colaterais podem incluir dores de cabeça, azia, ressecamento labial, sangramento nasal, dores musculares, hipersensibilidade da pele, complicações respiratórias, diminuição da imunoresistência e, em alguns casos, sintomas de depressão. O paciente deve atentar-se a cuidados como uso constante de protetor solar, alimentação regular e a proibição de bebidas alcoólicas durante o tratamento, visto que o fármaco atua no metabolismo do fígado.
            Estes foram os avisos da dermatologista antes de escrever meu nome em uma receita médica de papel azul, que parecia algo ultra perigoso quando a levei à farmácia para comprar minhas primeiras três caixas de antibióticos para passar o primeiro mês do tratamento. Disse que eu poderia procurá-la caso ocorressem imprevistos como efeitos colaterais muito fortes ou dúvidas a respeito do processo de ação do remédio, deixando claro também que seria necessário uma visita por mês enquanto durasse o tratamento para prescrever uma nova receita e verificar o progresso do fármaco na minha pele.
            O primeiro mês foi fácil porque eu não estava aqui; estava em Londrina visitando familiares, enquanto fugia de tudo que me é familiar aqui e agora. E voltar não foi fácil, porque eu não voltei inteiro. Parte de mim estava faltando agora, porque estava em tratamento. A parte de mim que me fazia sentir o melhor do mundo, superior a todos e capaz de tudo, foi descaradamente abafada pela necessidade de tomar três antibióticos por dia para tratar algo que eu neguei por anos que fosse uma deficiência – por mais abstrata e estética que ela fosse. E quando eu finalmente admiti derrota e me juntei ao mundo dos mortais que precisam tomar remédios para ficarem mais saudáveis, eu também tive que admitir que ia precisar das pessoas mais do que nunca, o que mostrou-se ser o efeito colateral mais assustador de todos.
            Foi uma coincidência de compromissos, desencontros e desgastes que nos afastaram, nada proposital. E nós ficamos cansados, exaustos, insones. No começo eu entendi porque parecia ser só uma fase ruim, até minha fase de negação terminar e o desespero tomar conta. O tratamento colocou minha vida alcoolicamente desenfreada em pausa, e agora o que me restava fazer enquanto todo mundo continuava esperando ansiosamente pelo fim de semana? Eu tentei ficar feliz por vocês e por um tempo eu consegui, mas fui vencido pelo cansaço.
            Leiam bem porque vai ser muito difícil para mim agora repetir isso, mas eu não estou bem. Eu não dou conta de tudo sozinho. Eu preciso de ajuda. Eu preciso de vocês. Eu sinceramente não sei se vocês ainda vão estar aqui em quatro meses e meio, porque a vida de vocês continua enquanto a minha estagnou-se. Eu não achei que isso poderia me definir, mas parece que define as coisas que nos uniam. Eu tenho medo de perder vocês, de que esse tratamento seja em vão, de que nada mais será como antes. E eu gosto dessa vida de portas destrancadas com visitas inesperadas que não tem hora para ir embora. Engraçado como ninguém próximo de mim realmente se incomodou com a minha pele, e agora eu sinto que coloquei tudo e todos a perder por ela. Apesar do progresso de um mês e meio, definitivamente não tem sido bom estar na minha pele agora.
            Ninguém disse que seria fácil, mas serviu para me ajudar a admitir que eu preciso de vocês. E acho que o tratamento por isso só já foi bem sucedido.

            Mentira, eu quero ficar bonito. Mas não se esqueçam de mim.

domingo, 4 de agosto de 2013

A irmã mais nova


            Eu não me dou bem com crianças. Talvez isso seja em parte porque eu não gosto delas, nem sei ao certo como lidar com elas. É difícil pra mim lidar corretamente com um ser incapaz de reconhecer fraquezas, admitir erros e negociar acordos, apesar de que já encontrei bastante gente por aí que passou com honra ao mérito pela infância e mesmo assim não se tornaram os adultos mais razoáveis de se relacionar.
            Mas apesar das criaturas sociavelmente consideradas como maduras com as quais eu ainda preciso tomar cuidado com o que eu falo ou faço perto delas, crianças são o meu ponto fraco. São choronas, carentes, mimadas, escandalosas e irritantes. E digo isso por experiência própria, porque eu fui uma dessas crianças – senão a pior delas – e até hoje ainda carrego comigo traços de traumas mal-resolvidos de infância sobre não ter conseguido aquele brinquedo ou não ter aprendido a andar de bicicleta ou a subir em uma árvore com sucesso. Mas antes dos traumas se instalarem, eu aproveitei desde o éter até o ápice da minha infância complexada e imatura por dez anos felizes. E então ela apareceu.
            Eu nunca soube ao certo como lidar com ela, o que estabeleceu o precedente para que todos os relacionamentos futuros que eu fosse ter na vida com seres humanos entre 0 e 10 anos fossem automaticamente disfuncionais. Porque quando eu a conheci, ela nem sabia falar ainda e mesmo assim conseguia me estressar. Não por nada específico que a bebezisse dela tivesse feito, mas porque daquele dia em diante eu não era mais o foco das atenções do meu pai ou daquele lado da família. Porque a bebezisse dela era mais nova que a minha e precisava de atenção e cuidado – coisas que uma criança de 10 anos é incapaz de compreender que outros seres além dele também precisam disso. E foi complicado por um tempo. Muito tempo, na verdade. Ok, digamos que foram anos para que eu conseguisse estabelecer algum tipo de contato diplomático entre ela e eu; algo que não acabasse em eventuais beliscões e puxões de cabelo enquanto o pai não estava olhando.
            Eu também nunca fui um bom exemplo. Quando ela tinha dois anos, eu a ensinei a mostrar o dedo do meio para outros motoristas enquanto o pai estivesse dirigindo. Parecia algo engraçado de se ensinar para uma criança de dois anos, pelo menos para mim. Aos cinco anos, eu a ensinei todos os palavrões possíveis que uma criança precisaria saber para garantir sua sobrevivência moral dentro da escola, porque eu não queria que ela fosse pega desprevenida por outros capetinhas da idade dela. Eu realmente encarei isso como algo saudável: eu estava me importando com ela, desejando seu bem estar e cuidando para que ela fosse bem sucedida logo no começo da sua vida escolar.
            Felizmente todos os maus exemplos, que eu gostava de chamar de ensinamentos até então, foram bloqueados pelo pai e sua exemplar educação para com seus filhos – salvo este que vos fala pois, apesar de todo o cuidado gramaticalmente estético e surpreendente bom sendo, sempre fui um rebelde natural acerca de algumas regras sociais como não conversar na hora da missa, não fazer birra em supermercados e não fazer caretas para adultos que eu não gostava. E então ela cresceu com o passar dos anos ainda sob toda a minha má influência pairando sobre sua inocência, mas isto nunca a comprometeu. Pelo contrário, ela cresceu e se tornou mais educada, competente, diplomática, politicamente correta e até mesmo mais madura do que eu, agora com 11 anos e já mostrando sinais primitivos de um grande senso de humor irônico e sarcástico, e eu não poderia estar mais orgulhoso.
            Eu não gosto de crianças, mas por ela eu realmente tento. Eu faço o que posso, o que não posso e até o que não quero por ela, talvez para compensar pelos primeiros anos de desavenças que compartilhamos ou porque ela está começando a chegar em uma idade em que finalmente podemos conversar e nos atacar de igual para igual, o que me anima muito. E pelo menos uma vez a cada seis meses, eu faço questão de que ela tire um dia da sua agenda social (que tem sido surpreendentemente muito mais movimentada que a minha) para passar um tempo comigo. Para assistir filmes comigo, dividir pizzas comigo, cantar comigo e me deixar tentar ser o melhor irmão mais velho que eu posso ser para ela, porque ela merece isso.
            Ela definitivamente fez por merecer, por ter sido capaz de crescer diante da insensibilidade e preguiça e ainda sim tornar-se o que eu tenho certeza de que será uma mulher incrível, inteligente, engraçada e carismática, completa com toda a ironia e sarcasmo que eu jamais poderia sonhar em ser capaz de ter. Porque eu não sou tão bom assim, mas algo me diz que ela vai ser. Ela não vai levar desaforo para casa, mas não vai desrespeitar ninguém para ter seus desejos atendidos. Ela vai se dar muito bem na escola, no ensino médio e na faculdade que ela quiser – se ela quiser – sem precisar mostrar nenhum dedo nem nenhuma palavra indelicada à alguém, porque o caráter dela supera todas as insensibilidades possíveis, especialmente as minhas.
            Ela vai ser incrível e eu considero isso uma vitória, que por acaso é o nome dela.


quinta-feira, 1 de agosto de 2013

A linha de chegada


            Muita coisa pode acontecer em quatro anos. Sonhos mudam, tendências vem e vão, prioridades são reavaliadas, e corações partidos podem voltar a bater de novo. Ou não.
            Quem me conheceu há quatro anos talvez tenha percebido algo diferente em mim ultimamente. A capacidade de falar em voz alta, de ter atitudes mais firmes e paixões menos platônicas são algumas que poderiam ser comentadas. Mas o que realmente me surpreende é exatamente o caminho que eu percorri até aqui; as cem lágrimas de distância que, há quatro anos, eu costumava cantar que existiam entre mim e a felicidade. E o quanto eu costumava contar meus passos no começo até algo acontecer. Algo que eu não sei dizer de fato o que foi. Foi quando me apaixonei à primeira vista por você, sem nem ter trocado duas palavras com você para isso? Foi quando eu comecei a conversar mais com você, e da noite pro dia passei a vê-la com outros olhos? Ou talvez tenha sido quando você foi embora e me quebrou de um jeito que eu nem imaginava ser possível? Ah, quem sabe tenha sido quando eu conheci você, só para descobrir que era possível sofrer ainda mais do que eu já tinha abstratamente sofrido. Quer dizer, até conhecer você. E você. Ah, e teve você também. Enfim...
            Ou então talvez não tenha tido nada a ver com amor, por mais que este seja o foco das minhas preocupações – ou falta delas – hoje. Talvez tenha sido quando eu fui morar sozinho, e aos poucos aprendi a abrir mão de Londrina e aceitar Cascavel, e a como transformar uma casa em um lar. Talvez tenha sido quando comecei a trabalhar, a receber um salário fixo mensal pela primeira vez, e a vivenciar a dor e o cansaço de uma carga horária excessiva que exigia mais de mim do que eu achei que era capaz. Quem sabe foi a faculdade, o motivo pelo qual eu me mudei e larguei a boa vida e tudo de familiar que eu tinha para trás, para aproveitar a chance de um recomeço em um lugar novo, em uma fase nova em que eu estava me matriculando. Ou então, foi a segunda vez que eu fiz isso, depois que Jornalismo falhou em me inspirar enquanto a Psicologia se encarregou de me acolher com o que até então para mim era viciante: uma visão subjetiva de mundo, onde tudo é possível e ninguém é igual a ninguém.
            O que mais eu encontrei nessa caminhada? Pessoas novas, amigos incríveis, lugares novos, lembranças inesquecíveis e saudade, mas muita saudade mesmo de coisas que ainda estão ao meu alcance no presente, mas que eu sei que não vão ser pra sempre. E nesse meio tempo eu comemorei aniversários, casamentos, formaturas, baladas, cervejadas, e tudo mais que um open bar nessas situações poderia me proporcionar. Mas também tive percalços. Pessoas se foram, momentos de incerteza às vezes reinaram, dificuldades pareciam ter vindo para ficar, enquanto minha teatralidade e meu drama chegaram ao ápice da sua existência, até finalmente serem extintos pelo tempo e o cansaço que eventualmente se acumularam sobre os meus ombros e o meu coração. E quando eu disse que era isso que me preocupa hoje, por não me preocupar com mais nada nem ninguém, é que me faz pensar: o que aconteceu comigo? Estou melhor hoje ou só envelheci? Amadureci ou me acostumei? Estou feliz ou só cansado?
            Porque hoje, apesar de ainda cambalear um pouco, eu aprendi a andar. Ainda não cheguei ao fim, até mesmo porque sinceramente não sei mais aonde quero chegar. Só sigo em frente, porque olhar para trás é cansativo e relativamente inútil. Ficar revendo aonde eu já pisei e aonde eu já caí não me tirou do lugar. E aprendi a me preocupar menos, a chorar menos, e a eventualmente sentir menos. Menos medo de crescer, de enfrentar o novo, de deixar as pessoas entrarem da minha vida e tudo isso é muito bom. Só não foi bom parar aqui e agora para respirar um pouco e, enquanto eu arrumava a minha bagagem antes de voltar a andar, eu percebi que perdi o amor pelo caminho. O amor que, quatro anos atrás, era o que me movia para tudo. O amor que era pelo que eu rezava antes de dormir, e pelo que eu esperava quando saia de casa no dia seguinte. O amor que às vezes eu pensava que não existia, até me surpreender com o quanto eu ainda acreditava mesmo depois de mais um desengano. O amor que eu achei que estava reservado para mim, completo com toda a felicidade que estava à minha espera há cem lágrimas de distância. Eu não sei o que aconteceu, mas em algum momento durante os últimos quatro anos, este amor definitivamente ficou para trás.
            E o pior mesmo foi só perceber agora a leveza da bagagem e a rapidez com a qual os dias passam, os compromissos vem e vão assim como as pessoas, até que eu finalmente me encontrei em um lugar muito parecido com o qual eu comecei a minha jornada: sozinho em casa, em um fim de noite melancólico e nostálgico, sonhando acordado com o amor da minha vida e aonde ela estaria dormindo agora. Pelo menos eu cresci o bastante para sonhar que felizmente ela esteja dormindo sozinha, pensando em me encontrar também. E por um instante eu me senti como há quatro anos não me sentia: ridiculamente esperançoso, constantemente apaixonado e absurdamente vivo... Só que em crise por tudo isso.
            É, muita coisa pode acontecer em quatro anos. Você pode ter amado muita gente ou, se tiver sorte, pode ainda estar com a mesma. Você pode estar quase se formando, e começando a se desesperar por tudo que ainda precisa escrever antes de cruzar a linha de chegada. Você pode ter mudado, ter amadurecido, e ter percebido exatamente o quanto o tempo é valioso, a vida é bela e o mundo é grande, e que nada disso se resume só à você. Mas se você tiver sorte, em um fim de noite qualquer, você pode revirar os olhos para trás e enxergar o quanto você andou para chegar até aqui, e que apesar de tudo que encontrou pelo caminho, você ainda é você.