terça-feira, 29 de outubro de 2013

22


            Dizem que quando se chega aos vinte-e-poucos, sua vida já estará basicamente definida assim como as pessoas com quem você estará compartilhando-a. Quem disse isso? Eu não sei. Mas acho que alguém, provavelmente filosofando sobre tudo que já conseguiu atingir na vida antes de tomar fôlego para assoprar as velas do seu bolo de aniversário, ponderou sobre isto e agora faço eu o mesmo. Caso isto ainda não te convença, ok, fui eu mesmo. Eu sempre imaginei que quando chegasse aos vinte-e-poucos, minha vida já estaria basicamente definida. E depois de completar 22 anos, e com isto patinar na linha tênue entre a famigerada fase da adolescência tardia versus a maturidade precoce, confesso que eu estava certo.
            Aniversários para mim sempre foram a época do ano em que a vida tira por mim um extrato de tudo que eu adquiri ao longo dos anos; um balancete das vitórias justaposto com o revés dos descontentamentos, das mágoas, dos rancores tenebrosamente muito bem alimentados e das noites difíceis e mal dormidas porque não havia alguém do meu lado para dizer que tudo ficaria bem. Aniversários me deprimiam porque eu achava que não era capaz de ser lembrado se não fossem pelas redes sociais. Jamais levando em consideração que as outras pessoas também tem pessoas, lugares, alegrias, medos e inseguranças assombrando-as em um redemoinho imaginário em suas cabeças, e que por ventura estariam ocupadas ou distraídas demais para se lembrarem do meu dia. Mas as pessoas, de um jeito ou outro, sempre se lembram. Isto é, as minhas pessoas.
            Demorou muito tempo, mas eventualmente eu saí por aí e acabei por conhecer as pessoas certas. As pessoas que hoje podem aparecer no meu portão sem convite, entrar em casa sem bater, abrir a geladeira sem pedir, colocar os pés em cima da mesinha de centro sem medo, e conquistar cada vez mais território na intimidade da minha vida sem hesitar. Porque elas mereceram isso. Eu não sou fácil. Confesso que tampouco já fiz questão de ser fácil. Felizmente ou infelizmente, eu faço questão de preservar a minha autenticidade com tamanha força a ponto de afastar quaisquer outros que sejam diferentes demais. Que não tenham sido criados como eu. Que não entendam o meu senso de humor ironicamente distorcido. Que não estejam ao meu dispor quando eu quiser. Que não se lembrem de mim quando eu precisar...
            Com o passar dos anos eu aprendi que é muito fácil ficar sozinho. Ser sozinho. Sentir-se sozinho, até mesmo quando existe alguém desesperado para entrar em sua vida e te fazer companhia, nem que seja pelo simples fato de que ela também não quer passar um Domingo sozinha a toa em casa. É muito fácil expulsar as pessoas do nosso coração, enquanto o contrário é deveras desafiador. Qual foi a última vez que você deu uma chance à alguém para se candidatar a fazer parte da sua vida?
            Apesar de não parecer, eu gosto das pessoas. Talvez não de todas as pessoas ao meu redor. Definitivamente, não de todas as pessoas do mundo. Mas as pessoas em especial que tiveram o acaso e o prazer de cruzarem o meu caminho, estas eu tento preservar o máximo que posso. Fazer a diferença na vida de alguém sempre foi uma paixão encoberta minha, talvez ainda maior do que desejar que alguém virasse a minha vida do avesso com toda a sua irreverência incontrolável que somente uma matéria prima tão inexplicavelmente esplêndida quanto o amor poderia proporcionar.
            Fazer feliz alguém que me faz feliz, me faz feliz, entende? Mas secretamente – ok, não tão secretamente – às vezes é bom descobrir que talvez eu faça mesmo a diferença. Que a vida daquela pessoa não foi mais a mesma depois de ter me conhecido – num bom sentido da expressão. Eu não sei se algum dia eu imaginava ter esta resposta, mas aqui e agora, adentrando oficialmente a fase dos vinte-e-poucos, eu descobri exatamente o quanto eu havia feito sim algo de bom pelas pessoas que me conheceram e, por incrível que pareça, ainda voltam para me ver de novo.
            Se aos vinte-e-poucos anos chega a hora de perceber exatamente o que será desta vida, eis o que posso concluir: eu estou feliz. Arrisco até dizer que sempre fui, mas que hoje tenho a capacidade de reconhecer verdadeiramente isto em mim, apesar de ainda ser um aprendiz na arte de sorrir para tirar fotos. Eu tenho amigos; pessoas especiais e incríveis com as quais dividi momentos inesquecíveis da minha vida e que, mesmo separados por distâncias, quilômetros e até mesmo outras pessoas, eu fui capaz de cativá-las o bastante a ponto de ainda ser lembrado por elas, e de ainda ser querido para elas. Eu tenho um ótimo trabalho, um curso superior quase concluído, um apartamento espaçoso, uma sacada abençoada, um sofá popular, um dom com as palavras e uma alma defeituosa, porém humana. Humana o suficiente para ser perdoada e acolhida por outras almas defeituosas que, quando se juntam, fazem seu mundo todo parecer completo.
            Meu dia foi bom. Acho que o melhor das comemorações que os últimos 22 anos já me trouxeram. E nada, absolutamente nenhuma das vírgulas que separam cada uma das palavras que recebi de vocês, teria sido a mesma coisa se em algum ponto desta longa jornada eu não tivesse engolido o orgulho, a insegurança e a dúvida para dizer a cada um de vocês: “Você me faz bem. Eu gosto de você. É como se eu te conhecesse há anos. O que acha de compartilhar sua vida comigo?”. Em algum ponto vocês aceitaram, e por isto eu não poderia ser mais grato.
            Então é isso. Os vinte-e-poucos anos que já passei por este mundo não foram nada decepcionantes. Pelo contrário; cada ano tem sido melhor que o anterior, e eu tenho a vocês para agradecer por isto. Não é difícil soprar as velas em cima do bolo por mais que cada aniversário acrescente mais um ano à sua vida. E eu tenho vivido bem.

            Ah, como eu tenho vivido bem...

domingo, 27 de outubro de 2013

Lá vem o sol


Esses dias eu e a Joyce estávamos conversando sobre como nós temos sorte. Obviamente chegamos a essa conclusão enquanto brisavamos em nosso lugar favorito, a sacada daqui de casa. Eu nem sei como isso começou para falar a verdade, mas parece que quando a vida nos invade demais e a sensação de sufocamento supera a de apreciação, é pra lá que a gente corre. Para sentar, conversar, esquecer dos problemas e quem sabe recuperar o fôlego para então dar o dia como encerrado e ir dormir com um pouco mais de força e otimismo para toda a luta e loucura do dia seguinte que está por vir. E comentamos sobre como não só aquele pequeno espaço em nosso apartamento não só faz bem pra gente, como também sentimos que é para lá que queremos levar todas as outras pessoas em nossa vida quando as coisas apertam, as mágoas nos afogam e as dificuldades nos estreitam. E por incrível que pareça, sempre funciona.
             Foi o que eu disse pra Dayane quando eu a levei ali pela primeira vez e, desde então, antes de qualquer coisa, é ali que a gente senta e conversa por horas e horas até toda aquela agonia se dissipar e a ansiedade sossegar, para então decidir o que faremos do nosso Sábado à noite. E então eu comentei a mesma coisa com o Adriano, e foi assim que, antes de nos reunirmos para encerrar o Domingo assistindo televisão e dando risada de coisas ridículas que também servem para aliviar o nosso estresse, nós tiramos um tempo para ficar por ali só para compartilhar o que tem acontecido com a gente e, quem sabe, encontrar uma maneira de continuar a enfrentar os nossos problemas dia após dia. Dessas conversas o Renan, o Luis e o Chuck já entendem bem.
            Um dia eu disse à Tati o quanto aquilo era incrível. Que a fórmula em si era sempre a mesma; um arguile, um tereré, uma trilha sonora e um céu estrelado podem fazer muita diferença na nossa vida, especialmente quanto se considera o quanto é fácil sair correndo por aí resolvendo conflitos, reescrevendo parágrafos do TCC, respirando fundo para não deixar a canseira do trabalho tomar conta da gente, e esquecer que acima de tudo isso, é preciso cuidar da gente. Em outra ocasião, obriguei meu pai a sentar por alguns minutos na minha cadeira para que ele pudesse entender na prática do que eu estava falando. Apenas entreguei o copo de tereré geladíssimo na sua mão e esperei a magia acontecer. Tiro e queda.
            A Paula e eu sempre que podemos recriamos a sensação e nos reunimos ali quase todos os dias da nossa vida acadêmica corrida e desesperante para aliviar um pouco a carga dos nossos problemas. Conversamos sobre tudo, sobre a vida, sobre exigir demais da gente e esperar demais dos outros também. Se não fosse pela minha preguiça de trocar as músicas do pen-drive mais regularmente eu nem sentiria o tempo passar tão rápido, mas já decorei bem as minhas trilhas sonoras e acho que as minhas companhias também. Mamãe também curtiu a sacada. Uma vez por ano ela vem pra cá e sempre faço questão de que a gente tire alguns instantes das nossas férias juntos para aproveitarmos o pôr-do-sol, a calmaria que aos poucos toma conta do mundo e que nos leva junto no embalo. Pra falar bem a verdade, aprendi isso com o Guilherme, nos nossos tempos de ensino médio quando tudo o que queríamos era esquecer aquilo e só relaxar, até que eu me mudei e só depois de muito tempo consegui minha própria sacada para me refugir da vida. E quando ele me visitou, foi como se ainda estivéssemos no ensino médio, evitando estudar e filosofando sobre o que queríamos ser quando crescêssemos. Na falta de um adjetivo que faça mais justiça ao que estou querendo dizer, tudo isso é muito bom.
            E então tem aqueles dias em que os amigos estão ocupados, os pais estão longe e a Joyce volta pra casa, em que eu me pego com saudades de tudo e de todos. E com vontade de levar tudo e todos para sentarem ali comigo e fazer com que tudo fique bem de novo, começando pela minha ansiedade constante e excessiva de querer ser mais feliz do que eu já sou, apesar de não ter muita consciência disso. Foi aí que eu pensei que, se funciona sempre, talvez funcione comigo mesmo quando não tenha outra pessoa sentada ali comigo. Me escutando, me validando, me criticando construtivamente e me fazendo sentir seguro e confortavelmente acompanhado. E são nesses pequenos momentos que eu me sinto ainda mais sufocado e decido que é preciso deixar o mundo de lado durante algumas músicas para cuidar de mim também. E antes mesmo do pôr-do-sol aparecer, eu já me sentia curado. Em questão de algumas músicas, litros de tereré e carvões de arguile, eu estava quase adormecendo ali mesmo, atordoado por toda a tranquilidade de algo simples e singelo como sentar na sacada e deixar que os ventos e o calor do sol levassem embora toda a complicação que eu vivo convidando para fazer parte da minha vida. E me fez muito bem.
            O que eu espero dessa vida é ser feliz. O que eu espero das pessoas é compreensão, companhia, afeto. O que eu espero dar em troca à elas é felicidade. Talvez eu não seja a melhor pessoa do mundo, mas definitivamente atraí as melhores para passar algum tempo comigo. Claro que ainda tem a preguiça, a briga pra ver quem vai trocar a cabeça do arguile quando ele queima, quem vai buscar mais gelo quando ele derrete e quem vai levantar para alcançar o controle remoto quando o meu lado podre musical toca no pen-drive. Mas a gente se diverte e sempre sai renovado dali. Eu ainda não sei explicar como isso acontece ou porquê. Só sei que depois de um dia daqueles, depois de ser mal entendido, chateado, pisoteado e flagelado emocionalmente por quaisquer sejam as razões, o paraíso está logo ali, a alguns passos da minha sala de estar, só esperando para me deixar inteiro de novo. E as tardes que passei ouvindo clássicos com a Andressa, os desabafos que confiei à Lia, e os conselhos que tentei passar pra minha irmã ali não me deixam mentir.
            A Joyce me disse que nós temos sorte e eu concordo. É por isso que passamos tardes, noites e madrugadas ali, só compartilhando como foi o nosso dia e tentando entender porque certas coisas acontecem. Porque as outras pessoas são tão complicadas. Porque temos tanto azar. Porque o sol se põe tão rápido. Mas a gente se recupera. Quando eu fui atrás de realizar o sonho de passar horas sentado na sacada de casa, eu quis duas cadeiras ali. Eu não conseguiria nada desta vida sozinho, e não havia nada melhor do que ter outra pessoa ali para dividir as alegrias, as tristezas, os eventuais copos de uísque, os famigerados cigarros e charutos, os mistos-quentes antes da aula, as xícaras de leite quente antes de dormir, e toda a felicidade que só é possível existir plenamente se for compartilhada com outra pessoa.

            Eu já ri muito aqui. Já chorei bastante também. Já descobri muito sobre mim mesmo e as outras pessoas que sentaram à minha frente enquanto revezávamos o copo de tereré e a mangueira do arguile. Mas acho que, na maioria das vezes, não havia acessórios. Havia apenas duas pessoas cansadas querendo fugir da loucura do mundo lá fora, sentadas ao sol tentando recuperar seu ânimo para continuar a lidar com a dor e a delícia de estar vivo, e para contemplar as estrelas quando o sol se põe. Felizmente para nós, o sol voltou a nos visitar com mais frequência. Nós temos muita sorte.

quinta-feira, 24 de outubro de 2013

O que te faz feliz...


            Eu não tenho escrito tanto quanto costumava e o motivo disso me assusta. Quando me perguntaram porque reduzi meus devaneios rotineiros sobre a vida, sonhos, esperanças, o TCC que não termina e a louça suja na pia que parece criar vida própria quanto mais eu a ignoro, eu disse que estava distraidamente economizando minhas palavras porque estava ocupado demais sendo feliz.
            A felicidade não me deixava escrever. Agora pare e pense sobre isso, Igor. O que isso diz sobre você? Convenhamos que vez por outras você senta e escreve para se sentir melhor, para dar vazão aos sentimentos que te assombram. Para tentar emoldurar em parágrafos e períodos tudo aquilo que parece vagar aleatoriamente dentro de você, mas que não possui forma concreta nem profundidade medida para que se possa compreender o que está acontecendo. Mas é o que te faz sentar e confrontar o vazio de uma página do Word com a imensidão da sua incoerência emocional. E vez por outras, você consegue.
            Joga fora as dúvidas, os questionamentos, as mágoas, os arrependimentos, as decepções, as tentativas frustradas, as fraturas novas que seu coração sofreu quando se sentiu um pouco melhor para sair por aí e arriscar trazer um novo alguém para morar nele, e tudo mais que te estraçalha de dentro pra fora. Mas o que te faz feliz não merece o mesmo reconhecimento, a mesma dedicação e as mesmas reflexões? O que te faz feliz, Igor? O que me faz feliz...
            O que me faz feliz são meus amigos. Se 2013 serviu para alguma coisa – e sim, eu o condenei a tornar-se o melhor ano das nossas vidas e, com apenas dois meses restantes para pendurar a faixa de “missão cumprida” lá fora na sacada para fazer a inveja dos vizinhos – foi para separar os coleguismos de consideração, os semi-conhecidos que pairam à minha volta e os rostos familiares que agora são tudo menos isso, dos portos seguros que eu realmente sinto que posso me apoiar quando a vida me tira o chão e me derruba sem dó, talvez só pra ver se eu consigo me levantar de novo. E é, aprendi que tenho as melhores pessoas do mundo hoje comigo, e que não há nada de errado em pedir a ajuda delas para levantar.
            O que me faz feliz é meu trabalho. Sim, meu trabalho. E meus deveres acadêmicos. É, isso mesmo. Até mesmo as coisas que me cansam, que me desanimam, que parecem nunca serem boas o bastante, e que parecem nunca ter fim, também me deixam feliz. Porque me levam a ir além da onde eu acho que está bom. Além da onde eu acho que devo ir. Às vezes até além da onde eu acredito que consigo ir. Quando se descobre aonde é o seu limite e mesmo assim você o ultrapassa, é indescritível a sensação de perceber que um outro mundo se revela diante dos seus olhos. Um mundo além do seu, dos seus amigos, dos seus lugares favoritos e das coisas que te fazem feliz. E então você percebe que, ei, aqui não é nada mal. Me sinto confortável aqui. Acho que também posso ser feliz assim.
            O que me faz feliz é poder sentir pela primeira vez em (quase) 22 anos que finalmente estou aonde deveria estar, com as pessoas que deveria estar, exatamente do jeito que as coisas deveriam ser. Meu aniversário me assombra. É como o balancete anual do meu revés existencial. O extrato das minhas vitórias diminuído pela cobrança do meu ego inchado e fantasioso. Não desta vez. Em vês de me desanimar por pensar que não consegui tudo que pensava que conseguiria da vida aos 22 anos, agora eu vou sossegar e simplesmente agradecer. Pela vida, por tudo e, principalmente, por vocês. O que me faz feliz é escrever, mesmo quando não sei se o que meu coração irá digitar valerá a pena ser lido. O que me faz feliz é pensar que alguém, em algum lugar, de algum jeito, lerá isto e se sentirá bem ou ao menos entendido. O que me faz feliz, honestamente, é fazer a diferença na vida de outra pessoa, nem que seja como forma de agradecimento àqueles que fazem tanto por mim hoje.
            O que me faz feliz é caminhar, correr, assistir séries, comer, beber, comer de novo, desenhar, pintar, conversar, sentar por horas na sacada, rir até perder o fôlego, comer mais uma vez apesar da culpa que isso vai me causar, e depois relembrar tudo isto e colocar em um só devaneio que, aqui e agora, ofereço a você que ainda está disposto a ler aonde quero chegar com tudo isto. O que me faz feliz, por incrível que pareça e apesar dos apesares, é fazer outra pessoa feliz. Senão A pessoa com a qual eu sonhos, então a pessoa que acompanha minhas palavras e também fica feliz por mim. E caso queira me dizer o que te faz feliz, estou à sua disposição. Se você leu até aqui, é o mínimo que eu lhe devo.

            Eu estou feliz. E é o que eu desejo a você também.

terça-feira, 15 de outubro de 2013

Outros quinhentos


            Eu faço isso já faz algum tempo. Esse negócio de sentar e escrever sobre o que eu penso, o que eu sinto, o que eu quero... Acontece que, depois de um tempo, é fácil se perder entre as palavras. Entre as pessoas, os lugares e tudo mais que me cerca. Não é a toa que às vezes eu não sei o que dizer. Mentira. Muitas vezes eu não sei o que dizer. O que pensar, o que sentir. O que fazer. Muitas vezes eu não sei nada. Como se de tanto escrever tudo, eu me esvaziasse aos poucos. Ontem isso era bom. Eu escrevia esperando pelo alívio, pela redenção. Era como se tudo aquilo, uma vez emoldurado em períodos e parágrafos, não me pertencesse mais. Como se aquela dor não tivesse atravessado o meu coração. Como se aquelas lágrimas não tivessem sido choradas por mim. Mas aos poucos eu percebi que não era apenas a dor que estava indo embora. A vida inteira estava passando diante de mim, preenchendo-me e esvaziando-me constantemente como se eu fosse apenas um copo de bebida. O que é irônico, porque ainda vai demorar algum tempo para que eu realmente possa encher um copo de bebida de novo. Felizmente, ironia me alimenta e me atordoa ainda mais do que qualquer dose de uísque já foi capaz de proporcionar.
            Eu fico bêbado muito fácil com as ironias da minha vida, que já são o bastante para dispensar qualquer open bar que possa estar à minha disposição. A ironia de detestar Cascavel durante meus primeiros meses aqui, de desejar desesperadamente voltar para casa mesmo quando eu estava em casa e de decidir escrever tudo o que eu estava sentindo para evitar me perder por aqui é impagável, visto que agora é difícil para mim me imaginar longe daqui, andando pelas ruas que passo todos os dias, pelos rostos que conheci pelo caminho e imaginando as figuras de linguagem que se encaixariam para cada um deles quando relembro nossas histórias juntos.
            Algumas tiveram começos constrangedores, enredos tenebrosos e desfechos frustrantes. Outras jamais começaram, porque eu era tímido demais para puxar conversa com você, ou porque você achava que não havia nada demais em mim para despertar seu interesse por qualquer odisseia. Algumas continuam, apesar de terem se afundado em hiatos dos quais parecem que não vão despertar tão cedo, mas ainda estamos juntos. Apesar da minha triste facilidade de abandonar ou expulsar pessoas da minha vida, eu acredito que estaremos juntos de novo em breve. Quando a loucura cessar, os compromissos se ajustarem e a vida tomar piedade de nós, tudo será como antes. E mesmo que não seja, pelo menos estaremos juntos. Nós sempre fomos brilhantes juntos, independente da onde estamos ou o que estamos fazendo.
            499 desabafos atrás, eu costumava ser outra pessoa. Outra pessoa que estava apenas começando uma nova fase da vida, e estava prestes a se adaptar a outros contextos aos quais jamais pensou que daria conta. Que adolescente de 17 anos está realmente preparado para morar sozinho? O que fazer com os temores que o primeiro emprego despertou em mim? Como dizer para aquelas pessoas sentadas ao meu redor na faculdade que eu tinha medo delas, por achar que teriam medo de gostar de mim? Como se sobrevive sozinho no mundo real? Não se consegue, é isso. Eu costumava escrever muito sobre o passado, sobre o que eu pensava ter sido os melhores anos da minha vida. Por mais otimista que eu pensava ser, tudo aquilo era infame e infantil demais pra ser levado em conta hoje. Confesso que é poético. É bonito de ler, de mostrar pros amigos quando eles se sentem desamparados e desesperançados, mas definitivamente não é possível de se reviver.
            Mesmo achando que não seria capaz, eu cresci. Eu saí por aí e conheci pessoas que jamais pensava serem reais. Pessoas que me levaram a lugares que eu não acreditava que pudessem existir. E juntos criamos histórias que eu nunca sonhei em poder escrever um dia. As ironias da minha vida nunca param, e até quando eu sofro com elas ainda sou capaz de captar a mensagem subliminar que existe ali e sorrir por alguns segundos. Porque me faz pensar que seria interessante escrever sobre aquilo, e descobrir que mais alguém se sentia da mesma maneira é um bônus deveras gratificante.
            Eu acredito que cativei algumas pessoas ao longo da minha jornada. Definitivamente, mais pessoas do que eu esperava encontrar. Logo eu, que criava tantas expectativas para o amanhã, não imaginava que às vezes ele podia ser tão duradouro, e que às vezes podia vir rápido demais. Quando eu olho no espelho e vejo a barba por fazer, o que eu realmente enxergo são enxertos que a vida criou em meu rosto a medida que eu a ultrapassei, obstáculo por obstáculo, desilusão por desilusão, até finalmente voltar ao espelho do banheiro e me pegar suspirando, pensando “Meu Deus... Como eu cheguei até aqui?”. É a mesma sensação que me levanta de manhã, e que antes mesmo que eu coloque meus pés de volta no chão, me faz parar e dizer, “Ok... Lá vamos nós de novo.
            A medida em que eu me afundei cada vez mais em mim, cavando meu caminho dentro da neurose angustiante e alucinante que compõe o meu ser a cada texto melancólico que escrevi durante os últimos quatro anos, eu descobri que o universo que existe dentro de mim pode ser tão colossal quando aquele que me acolhe do lado de fora. A diferença é que do lado de fora temos o sol e as estrelas, que deixam tudo mais bonito independente se está claro ou escuro. Dentro de mim costuma ser sempre escuro, salvo alguns insights que criam claridade o suficiente para que eu mesmo não me engula por completo e termine de desperdiçar todo esse potencial ambulante que eu carrego embrulhado comigo há (quase) 22 anos, ainda sem saber o que fazer com ele.
Não só eu descobri muito mais sobre mim do que era possível enxergar através da barba no espelho, eu descobri as pessoas, o mundo ao meu redor e exatamente o que eu esperava disso tudo.
            Talvez não tenha chego a nenhuma resposta concreta ainda, mas ao menos consegui identificar alguns desgostos e medos. Aprendi que alguns lugares não me deixam confortável, que algumas pessoas não foram feitas para mim e que, se tudo mais falhar, eu só gostaria de não estar sozinho. Eu costumava escrever sobre o amor de uma maneira muito mais singela e romântica do que eu sou capaz de vivenciar hoje. Porque eu aprendi bastante, sofri demais, beijei um bocado e descobri que talvez o amor não seja tudo aquilo que eu sonhava. Talvez seja até mais do que eu esperava, ou talvez simplesmente não exista. Eu não sei. Eu costumava dizer que esta desilusão natural era produto do nosso desencontro constante. Eu não a conheci ainda, era a desculpa. Quem sabe eu a tenha conhecido sim, mas não fui com a sua cara. Talvez você não tenha ido com a minha. Talvez eu tenha passado reto por você na rua e nem notei,. Porque por mais que eu acredite que nasci pra te amar, talvez eu não tenha nascido para ficar com você. Pode ser que eu te ame mais que ele, mas é com ele que você vai ficar. Eu não sei...
            Uma coisa é certa. Eu descobri que não posso parar de escrever. Por mais que a inspiração drene todos os meus sonhos para longe de mim. Por mais que a vida me interrompa. Por mais que eu não te encontre, ou por mais que você insista em não existir. Porque é algo que me faz feliz. Que me tira do abismo, me traz de volta ao mundo, contextualiza minhas músicas favoritas e anima as minhas noites mornas de Domingo e solidão. Eu preciso não ficar sozinho. E enquanto não tiver alguém que finalmente se imponha contra a minha loucura, a minha neurose e a minha insensatez, vou me obrigar a me arrastar para fora da cama e voltarei ao meu lugar. De frente com uma folha virtual do Word que escancara a minha alma e arranca de mim toda a verdade inconveniente e inquietante que eu passo dias fingindo que não existe, até que ela mesma se impõe e se expressa através dos meus dedos antes que eu mesmo seja capaz de perceber o que foi que aconteceu. Vivo para isso, na falta de ter alguém para cuidar ou até mesmo louça para lavar.

            Há 500 posts, eu escrevo sobre tudo. Sobre a vida, o amor e a felicidade. Se algum dia eu finalmente os alcançarei e cessarei esta maratona incansável de vírgulas e indagações, bom, isso é assunto para outro texto. E não vai ser da noite pro dia. São outros quinhentos...

domingo, 13 de outubro de 2013

A tulipa invertida


            Às vezes eu me sinto a melhor pessoa do mundo. A pessoa capaz de andar pela rua com uma trilha sonora impecável estourando seus ouvidos e um ar de superioridade natural que faz com que todos em seu caminho torçam os pescoços para me ver de novo, porque não acreditaram que alguém tão incrível poderia existir logo aqui, nos confins do Oeste do Paraná. Às vezes eu me sinto muito criativo. Capaz de elaborar técnicas alternativas para estudar para provas, ou para iniciar conversas com as pessoas, ou para alcançar coisas que estão longe. Para incrementar o potencial do meu misto quente em noites mornas, ou para extravazar quaisquer angústias que tem atormentado a minha alma e só serão capazes de encontrarem a redenção se eu as libertar na forma das palavras certas.  Às vezes eu me sinto invencível. Tão invencível que errar seria infame, pedir ajuda seria inconcebível e duvidar da minha autoconfiança seria heresia.
            E então tem os outros dias.
            Às vezes eu me sinto a pior pessoa do mundo. O ser humano mais incorrigível que já caminhou pela face da terra. O solitário mais angustiado que já se viu, que passa seus dias perpetuando o inverno que existe dentro de si mesmo e não é capaz de mais nada a não ser espalhar a frieza e a insensatez da qual é feito para quem cruzar o seu caminho. Às vezes me sinto muito sozinho. A ponto de me sentir dolorosamente confortável com o eco das minhas lágrimas, e ao mesmo tempo invadido quando alguém se atreve a demonstrar interesse em visitar o meu mundo, o meu apartamento ou o meu coração. Sabe como é difícil dar espaço na mesa à outra pessoa quando já se está acostumado a cozinhar jantares para só um? Sou quase graduado em criar  melancolia, enquanto a outra metade é quase disléxica em se tratando de compartilhar felicidade.
            Às vezes sinto que vou perder as pessoas. Às vezes sinto que o esforço para nos mantermos juntos é só meu. Às vezes sinto que o tempo que passamos juntos e as risadas que causamos um no outro não significaram nada. Não há nada tão fatal quanto uma promessa vazia. Às vezes sinto que só o que eu sinto é verdadeiro, apesar de trágico. Às vezes sinto que as pessoas dizem muito sem sentir nada. Às vezes sinto que faço parte delas. Às vezes deixo as cortinas fechadas por dias pra que não me vejam, porque eu sou diferente. Ridiculamente autentico, absurdamente verdadeiro, ironicamente sozinho. Eu sou carente, não vou negar. E neurótico. E ansioso. E incapaz de acreditar que você pode gostar de mim apesar disso. E talvez incapaz de acreditar que alguém pode gostar de mim, ponto. Ando tendo dias ruins e confesso que não sei mais o que fazer deles. Mas eu abri as cortinas. Já é alguma coisa.
            Tudo começou há quatro meses quando me disseram algo que eu não gostei. Porque era algo que eu não podia mais fazer. Pelo menos por enquanto, até que o bem maior, caracterizado aqui como a minha pele, terminasse de se beneficiar com a escolha que eu fiz. A escolha que eu fiz de parar de evitar os espelhos e os olhos das outras pessoas. Eu estava determinado a recuperar o meu reflexo, sem perceber que para isso eu teria que abrir mão de outra coisa que também fazia eu me sentir completo – especialmente na ausência da coragem de olhar para mim mesmo e me contentar com o homem que aparecia. Isto não é sobre álcool, é sobre o que ele representa. Para mim, era o refúgio do meu próprio reflexo. A fuga dos meus pensamentos. O alívio das minhas escolhas erradas. A saída de emergência da minha consciência. Quatro meses atrás, eu fiz uma escolha. Eu queria ser completo, com reflexo e tudo. Eu só não percebi que para seguir em frente, eu precisaria dar dois passos para trás. E que, sim, eu seria capaz de me perder no meio deste pequeno percurso.
            Seis meses atrás, eu viajei e fui a uma festa. Ainda em treinamento sobre me focar aos olhos das pessoas enquanto conversávamos, e ainda passando reto pelos outros espelhos da vida, eu preenchi o vazio da minha autoestima do único jeito que eu sabia como. E o único jeito que estava sendo distribuído pelo open bar: com Heineken. Muita Heineken. Assim como eu em meus dias bons, às vezes meu fígado sente que tem superpoderes. Na verdade, se naquele tempo tivessem pesquisado a fonte do meu egocentrismo latente, certamente o teriam encontrado em meu fígado. No dia seguinte, eu acordei em um aeroporto, perdido entre as escalas que me voariam de volta para casa, atordoado com a ressaca física de um profissional e o arrependimento moral de um amador. E ao criar espaço em meu organismo para absorver as pessoas e as coisas ao meu redor, a primeira coisa que vi logo abaixo dos meus olhos foi a minha jaqueta amassada e decorada com um souvenir daquela noite. Um broche. Mas não era qualquer broche. Era um broche de uma tulipa de chopp da Heineken. E estava invertido, combinando adequadamente com o meu bom senso até então. Minha primeira reação foi a de querer tirar o broche. Em vão, claro, já que mal conseguia parar em pé na fila da cafeteria para comprar 300ml de vida/café para me animar. “Quer saber? Deixa aí!”. Para não parecer tão feio eu o coloquei na posição normal, na esperança de que ele me inspirasse a voltar ao normal também. E crianças, esta é a história do broche da tulipa.
            Quatro meses atrás, quando me disseram que eu não poderia mais beber enquanto estivesse à mercê de antibióticos e efeitos colaterais, eu me lembrei daquela ressaca no aeroporto – uma das melhores da minha coleção, devo confessar – e o simbolismo daquele broche invertido me atraiu. Não queria tirar o broche, porque mesmo sem poder beber ainda apoiava veemente a causa. Então eu o inverti, para combinar mais uma vez comigo. Pra quem adora metáforas como eu, aquilo foi lindo. E me comove até hoje toda vez que o vento o desarruma e eu preciso colocá-lo de volta no lugar, só que ao contrário. Aquela tulipa invertida era exatamente a forma como eu me sentia; como se a vida desde então tivesse sido virada do avesso, mas nem por isso deixasse de ser bonita. Aquela tulipa invertida era eu, que aos poucos com o tempo estava voltando à sua posição normal, mas não sem antes enfrentar o vento e as tempestades que a balançavam. A ironia ainda maior foi que para arrumar o broche eu precisava me olhar no espelho. E crianças, esta é a história de como eu consegui enfrentar meu reflexo de novo. Às vezes, independente de como a gente se sente, a vida se manifesta nas pequenas coisas para nos ensinar grandes lições. E lição aqui é que para vencer os dias ruins, se livrar das pessoas erradas, evitar lugares perigosos e voltar para casa quando a vida te vira do avesso, é melhor estar sóbrio.
            Eu vou endireitar este broche de novo quando a hora chegar. Quem sabe até lá eu já tenha endireitado a mim mesmo.

segunda-feira, 7 de outubro de 2013

Pra não dizer que não falei das flores


            É sempre a mesma coisa. Toda vez que estou prestes a embarcar no ônibus vindo de Foz do Iguaçu com destino à Londrina, eu sinto algo que me detém. Algo que me faz não querer entrar no ônibus e sentar na poltrona do lado da janela, porque se tem algo que eu inexplicavelmente gosto nessa vida é viajar de madrugada com os fones de ouvido sussurrando minhas trilhas sonoras nostálgicas prediletas enquanto olho para a noite lá fora como se fosse uma cena de videoclipe melancólico dos anos 90. Mas tem um primeiro instinto que não sente vontade nem disso.
            Não é medo, porque eu sei o que me espera depois de cinco horas de viagem e de prolongamento do encurvamento crítico da minha coluna que o banco do ônibus me proporciona. Eu vou chegar em casa, reencontrar as melhores mães do mundo me esperando ansiosamente para tomarmos café, para me perguntarem como estão as coisas em Cascavel e para criticar minha roupa mal passada, meu rosto cansado e meu cheiro de bebida. Porque outra coisa que eu gosto, só que com exímios motivos, é de sair com os amigos antes de embarcar naquele ônibus. E é exatamente isso que momentaneamente me impede de ir.
            É a saudade imediata que me atinge diretamente e impiedosamente no coração de deixar Cascavel e as pessoas seletas com as quais ainda tenho a sorte de conseguir me relacionar para trás. Porque não foi fácil encontrá-las, tampouco mantê-las em minha vida. Eu não sou fácil, mas pra falar a verdade eles também não são. Cada um com sua mania, sua frescura, sua história. Mas a gente se encontrou e tem se dado muito bem. Isso me faz feliz. Tão feliz que quase me impede de sair de casa para, bom, voltar para casa e visitar o outro lado da minha vida. Completo com as pessoas que me fizeram feliz um dia e, apesar dos apesares, da distância e da bagunça destrutiva que eu sou, ainda me fazem feliz.
            Desde a família em que eu nasci, com as melhores mães do mundo, até a que eu também criei lá para mim, com os melhores amigos do mundo. Os amigos que acordam às 6h da manhã para me buscar na rodoviária e me esperam com um tereré em uma mão, um charuto em outra, e uma rota em mente para a feira mais próxima para tomarmos café ou para assistirmos o sol nascer nas margens do lago da cidade. São pessoas desse tipo que eu estou falando, e ao mesmo tempo em que sinto receio em revê-las, também sinto receio em deixá-las toda vez que preciso voltar. Quando o fim de semana ou as férias ou os feriados estendidos acabam, sempre chega a hora de embarcar de novo. De sair de casa para voltar, bom, para casa.
            Por mais que eu continue revivendo meu passado a cada viagem, Londrina nunca é a mesma quando eu a reencontro e por muito tempo isso me assustou. Provavelmente da mesma maneira em que me assusto quando ainda estou aqui, em Cascavel, e percebo minhas pessoas seletas, os melhores amigos do mundo, se distanciarem em seus compromissos, suas manias, suas frescuras e suas histórias. E do mesmo jeito que eu sinto receio em deixar Londrina ou Cascavel, eu sinto receio por ter que deixá-los irem. Eu sei que Londrina ainda está lá para mim, completa com as minhas pessoas, minhas ruas, minhas histórias e meus devaneios em janelas ao som das músicas mais melancólicas que eu já fui capaz de conhecer e reorganizar em uma só lista.
            Mas as pessoas mudam, cidades vem e vão, e por mais que não seja o medo que me impede de embarcar na vida... Mentira, é o medo. Medo de não saber se vou chegar. Medo de não saber se vou voltar. Medo de não encontrar quem eu espero rever. Medo de perder a chave de casa. Medo de não ser reconhecido. Medo do desconhecido. Medo do desconhecido não ir com a minha cara, me dar um soco no estômago, me envergonhar por ter considerado que eu poderia ir além da minha zona de conforto, me empurrar de volta pro ônibus e me mandar de volta para onde eu vim ou simplesmente para qualquer outro lugar mais longínquo ainda. Tipo Carapicuíba ou a puta que o pariu. Apesar do medo, da psicose afiada, da paranoia constante com o que o ônibus pode encontrar ou não pelo caminho, eu sinto que tive sorte de conhecer alguns dos melhores lugares do mundo, e de ter encontrado neles algumas das melhores pessoas. E nem precisei ir muito longe do Paraná para isso.
            O novo me assusta. Mais do que meus amigos não atenderem minhas ligações, ou de quando o ônibus misteriosamente para no meio da estrada para fazer um nada (desde pesagens à meia note até paradas para refeições que ninguém desce pra fazer) que demora trinta minutos, ou de perder as melhores anos da minha vida por me preocupar demais com o que fazer deles. Tenho uma facilidade decepcionante para fugir do que não é familiar e me esconder nas margens do meu tédio existencial, e confesso que até tenho a audácia de reclamar disso. Pessoas diferentes me incomodam antes mesmo que eu as conheça. Lugares novos me parecem mais distantes do que realmente são, provavelmente porque eu ainda não conheço o caminho ou a empresa de ônibus que pode me levar até eles.
            Felizmente meu medo do desconhecido ultimamente não passa de uma hesitação momentânea. A mesma hesitação de embarcar no ônibus que, por mais que eu já conheça bem para onde ele vai me levar, tudo pode acontecer em seu caminho. Para não dizer que não falei das flores, eu fui pra casa e voltei pra casa (?) bem melhor. E hoje fez sol, o que me faz querer anunciar oficialmente que a Primavera começou. Só não sei o que vem pelo caminho, mas até quando ele é longo e tumultuoso, a vida não me desaponta. Quando se percorre a vida através de músicas tristes e olhares semi-profundos em janelas de ônibus, você percebe que não há nada que não possa melhorar.

            Esses momentos passam, e no fim a gente sempre embarca.

quinta-feira, 3 de outubro de 2013

Pela última vez em Cascavel

            
            Já faz algum tempo que chove em Cascavel, e também não parece que vai parar tão cedo. Eu não sei mais o que acho disso,  provavelmente porque me acostumei a escolher entre sair de casa sem blusa e passar frio de manhã, ou com blusa e passar calor à tarde, enquanto os pingos continuam a cair na minha cabeça. Eu odeio usar guarda-chuva. É como um lembrete constante no meu caminho de que eu não pude sair de casa com as mãos livres. Não. Eu precisei de algo pra me proteger do tempo. Pra não me molhar com os pingos. Enfim, pra me ajudar...
            Ultimamente parece que minha vida toda tem precisado ser escondida debaixo de um guarda-chuva, porque a tempestade lá fora parece que jamais me perdoará. É o trabalho que exige uma estratégia nova de mim, é o TCC que precisa ser reescrito, é o lixo de casa que precisa ser colocado pra fora, a louça que precisa ser lavada, a roupa que precisa ser passada, a nova pessoa errada que eu encontrei e precisa ser superada...
            Nada mais encaixa, cessa, termina. Tudo precisa de uma revisão, de um cuidado, de uma nova demonstração de comprometimento que ontem parecia vir fácil a mim, mas que agora me parece impossível. Assim como as palavras que deixaram de ser derramadas por mim com a maestria do homem determinado que tinha total controle sobre elas, e que agora escapam entre meus dedos enquanto me esforço para tentar organizar meus pensamentos. Tudo está uma bagunça e eu não sei por onde começar.
            A chuva não para e hoje mesmo eu me percebi andando mais devagar, como se estivesse aos poucos me entregando às poças d’água pelo caminho. Como se não visse mais um motivo para desviar, porque em questão de mais alguns passos haverá outra para me desafiar. É assim que os meus dias tem sido: uma poça atrás da outra, seja no TCC que não termina, no lixo que se acumula, no trabalho que parece em vão, e no coração que parece se contentar cada vez mais com a ideia de passar o resto dos meus dias sozinho, porque assim como as coisas, ninguém também se encaixa.
            Apesar dos apesares, eu sempre fui teimoso. Obcecado, neurótico, ridiculamente autoconfiante e completamente incapaz de aceitar o fato de que, convenhamos, eu posso estar errado às vezes. E mesmo não sendo características boas – ou no mínimo saudáveis – eram essas partes distorcidas da minha personalidade incansável que sempre me levaram adiante. Que sempre me motivaram a me levantar de novo, a tentar de novo, e a impedir que o vento levasse o meu guarda-chuva embora. O meu guarda-chuva ainda não voou para longe, mas este homem parece que ficou para trás há algum tempo, perdido na tempestade e vencido pelo cansaço de insistir em dar passos para a frente.
            Eu cansei. Estou exausto e não é de hoje. Confesso que parte disso é resultado da minha incapacidade de admitir que algumas das minhas linhas podem estar mal-escritas e precisam ser revistas, ou que a louça precisa ser lavada de novo, ou que o trabalho precisa ser levado mais a sério, ou que o meu coração, acima de qualquer outra pessoa para aproveitar a alegria que ele pode proporcionar, precisa de um tempo. Eu perdi o fôlego. Não é fácil enfrentar tempestades todos os dias, muito menos quando você percebe que não só não irá vencê-la, como ela não vai parar tão cedo. Este definitivamente não era o início de Primavera que eu esperava.
            Toda vez que recebo um elogio eu respondo com um infame “Obrigado, eu tento...”. É isso, universo. Eu cansei de tentar. Cansei de ver as minhas expectativas naturalmente criadas serem estraçalhadas. Cansei de ver os meus sonhos se espatifarem contra a gigante e maciça parede da realidade. Cansei de ver o meu potencial jogado fora, em parte por não ter noção alguma do que realmente fazer com ele para que meu mundo seja capaz de adquirir um pouco mais de sentido. Cansei das coisas não darem certo, de tirar o lixo duas vezes por semana isto quando ele já nem cabe mais no cesto, de lavar a louça que parece se reproduzir sozinha se eu não a lavar jogo depois de comer, de reescrever o TCC que me desmotiva cada vez mais a devolver ao orientador, e de conhecer pessoas que me inspiram com a mesma facilidade e descaso que me levam a lugar nenhum. E nem preciso dizer que eu cansei da chuva.
            Eu costumava pensar que adorava o inverno porque sempre me identifiquei muito com o clima frio, seco e imperdoável que a atmosfera impõe sobre a gente. Porque era assim mesmo que eu me sentia por dentro, especialmente depois de ter passado por algumas estações e pessoas em Cascavel que não me trouxeram nada além de resfriados e desilusões. Mas essa tempestade já foi longe demais. Hoje um senhor parou seu carro do meu lado na rua e perguntou “Ei, amigo, estou perdido, por acaso sabe aonde fica a próxima saída de Cascavel?”. Obviamente eu não soube responder – mal sabia ele que eu estava tão perdido quanto ele, e olha que eu estava andando para casa – mas confesso que a vontade de entrar no carro e seguir viagem com ele fingindo que eu sabia o caminho foi quase maior do que ser honesto e continuar andando. Felizmente ou infelizmente, eu fui honesto, dei de ombros dizendo que não era daqui e não sabia como sair de Cascavel, e continuei andando.
            Pensando bem, ainda há alguma disposição viva em mim. Alguma força mais poderosa do que a tempestade, as pessoas decepcionantes, as tentativas frustrantes, as palavras erradas que assombram o meu TCC, e toda esta cidade úmida e semelhante a um pesque-pague fedido gigante que me cerca. Eu não sei o que vai ser de mim ou o que vai acontecer amanhã, mas eu vou continuar andando. Eu vou tentar de novo, até porque se eu me conheço bem, eu jamais dormirei tranquilo se permitir que a promessa de um desafio aceito permaneça em aberto ou pior, em fracasso. E não importa o que aconteça, pela última vez em Cascavel eu vou me permitir achar que não aguento mais. Algo vai dar certo. Algo precisa dar certo. Vou começar por este post, seguido por um leite quente, uma boa música para acompanhar, depois passamos para coisas maiores como o resto do Universo.
            Eu vou ficar bem.