quinta-feira, 28 de novembro de 2013

Pequeno Marcio, grande Igor


         Um dia desses eu resolvi criar vergonha na cara e fazer a barba, e tive uma surpresa. Quando o meu desmatamento facial terminou, já não era mais o meu resto que eu via no espelho. Era o seu. Depois de anos deixando a barba crescer pra facilitar o discernimento das pessoas entre eu e você, eu descobri que não adiantava nada. Nós somos iguais. O que não deveria me surpreender tanto, se tudo o que eu realmente precisava fazer não era nem fazer a barba e me rever no espelho, mas só olhar para você entre um sermão e outro, para perceber exatamente quem eu sou.
Nós brigamos o tempo todo. É assim que as pessoas nos veem, e às vezes é assim que eu mesmo me sinto quando falam de nós. Somos teimosos, impacientes, grosseiros, passionais, exagerados, sarcásticos e criticamente destrutivos. E não só um com o outro, mas com quem ousar nos desafiar, achando que sabe mais do que nós. Isto também explica porque não existe um consenso entre nós exceto quando cada um sai andando pra um lado cantando vitória silenciosamente, enquanto deixa o outro falando sozinho.

            Mas colocando toda a teimosia de lado, depois de ter feito a barba e ter visto seu rosto no meu espelho, eu comecei a realmente tentar enxergar você e tudo isso que você faz no seu dia a dia tão corrido e cansativo. Eu só costumava ver você passando reto por mim, dando um “bom dia” automático enquanto se dirige ao seu escritório para derrubar todos os seus problemas em cima da mesa e esquentar a cabeça enquanto tenta decidir qual dos incêndios você vai tentar apagar primeiro. O que eu não enxergava era o homem batalhador, determinado a fazer jus aos seus compromissos e prezar pelo bem da sua família e de todos os funcionários e terceiros que dependem do seu trabalho, do seu suor, da sua fadiga. Eu não enxergava este homem, e infelizmente confesso que também não me interessava por vê-lo.

         Porque se eu me arriscasse a enxergá-lo na totalidade do seu caráter indiscutivelmente irrefutável, talvez eu me assustaria quando percebesse que não estava apenas diante de um homem decidido a dar conta de tudo e de todos que dependem dele, mas do meu próprio futuro. Como se o Marcio que passa correndo por mim dando um “bom dia” automático enquanto sai em direção à batalha árdua e impetuosa de mais um dia não fosse mais do que o Igor mais acomodado à sua teimosia e sua insensatez, mas definitivamente motivado por seu senso de justiça e sua força avassaladora. Eu tenho medo de enxergar você, pai, porque não só eu penso que ainda não estou pronto para chegar perto de me tornar um grande homem como você é, eu também não quero assumir o seu posto caso quando você não estiver mais aqui. Nem que seja pra passar reto por mim quando voltar ao trabalho.
            E eu sinto que você não me vê também. Como se ao passar reto pelo pequeno garoto inconsequente e imaturo que curiosamente se parece com você, seria como se nada daquilo realmente tivesse algo a ver com você. Às vezes eu acho que você me vê como alguém que também sente medo, mas que sofre por saudade ainda mais do que isto. Saudade pelo garoto que foi antes de se tornar no super homem que dá inúmeras voltas ao redor da cidade, correndo atrás de tudo que os outros não estão dispostos a alcançar, somente para garantir que tudo e todos fiquem bem. Saudade pelo garoto que já não existe mais, a não ser por aquele que vos fala e que não herdou somente sua calvície precoce e seu nariz avantajado, mas também o legado de um nome e a reputação de um guerreiro.


         Você é mais do que um homem. É um super herói que garante a paz e a segurança de todos que contam com você para socorrê-los, por mais que isto te canse, te desgaste e te faça parar e pensar se tudo isso vale a pena. Te faz pensar se tem alguém não só olhando como quem não tem nada a ver nada, mas que enxerga e reconhece o papel fundamental que você tem nas vidas de todos ao seu redor. Você carrega o mundo nas costas e salva o mundo todos os dias, mas sabe bem no fundo do seu coração machucado e exausto que nem todos são gratos. Mas eu sou. Talvez eu não demonstre tanto quanto deveria, ou tão bem quanto poderia, ou tão regularmente enquanto você ainda está aqui neste mundo, e eu sinto que tanto eu quanto você consideramos um “obrigado” como uma palavra capaz de facilitar o nosso sono e tranquilizar a nossa alma.
            Às vezes eu acho que você não existe. Não é possível que alguém seja tão teimoso, tão impaciente e tão insensato, enquanto ainda consegue ser incansável, imbatível e ridiculamente trabalhador para garantir não só a paz mundial,  mas a paz de todos aqueles que te cercam e, felizmente, a sua própria paz de espírito também. Às vezes eu acho que não há como existir alguém tão irônico, tão sarcástico, tão bravo, e ao mesmo tempo tão bom. Tão carinhoso à sua maneira, mas que infelizmente peca ao tentar passar seu amor adiante porque não consegue disfarçar que está ferido, mas que ainda está de pé e disposto a continuar em frente. Voando alto, com a cabeça erguida. Mas aí eu me lembro de um detalhe: eu também sou assim. Eu sou o pequeno Marcio, encarregado de dar continuidade ao legado de uma família, de um nome, e de um homem que fez do seu trabalho, seu suor e sua luta diária uma lenda inspiradora a ser seguida. E você é real, e é tão bom quanto um Igor. Não é pra menos; foi você quem me criou.


         Eu te amo, pai. Enquanto você estiver aqui para salvar o mundo todos os dias, eu sei que nós ficaremos bem. É uma honra ser capaz de ver você no meu reflexo, e só não digo que quero ser como você quando crescer, porque algo me diz que já estou chegando perto.

terça-feira, 26 de novembro de 2013

Os 5 estágios do Roacutan


            Olá. Meu nome é Igor Costa Moresca e eu não sou um alcoólatra. Muito pelo contrário, sou um apreciador, um namorador, um profissional em se tratando de bebidas. Sem preconceito, horário ou frescura com absolutamente nenhuma delas, acredito que existe sim o paraíso, e acredito que o harém particular que está reservado para mim certamente tem open bar. Já tive bebidas de todas as cores, de várias idades, de muitos amores, assim como todas as ressacas que eram possíveis de se tirar delas. Mas todo esse amor, essa dedicação e essas dores de cabeça há muito deixaram de fazer parte do meu dia a dia, tudo por uma causa maior. Até mesmo maior do que churrascos de aniversário, camarotes com bebida liberada e brindes à meia noite depois de um dia difícil. Maior do que o meu gosto pelos drinques, coquetéis e chopes, eu optei por mergulhar de cabeça numa tentativa de aprimorar a mim mesmo, em vês de continuar me afogando na mesmisse da minha melancolia existencial.
            Eu gosto de beber. Demais, até. Não ao ponto de precisar recorrer à reuniões ou grupos de apoio, mas o bastante para topar fazer companhia para você caso queira sair para tomar alguma coisa, digamos assim, agora. É, agora! Larga tudo e vamos atrás do primeiro bar que encontrarmos. Vai na frente que eu te sigo e já pede uma cerveja e dois copos. E avisa o pessoal que a gente tá aqui e veja quem mais quer aparecer, porque nós temos muita conversa pra colocar em dia e melhor do que juntar os amigos ao redor de uma mesa de bar, é se cada um se comprometer a pagar uma rodada. Beber deixa a vida mais suave, mais tranquila, mais fácil de engolir. Por isso foi tão difícil me adaptar à seca que os antibióticos me causaram. Todos os 540 antibióticos, tomados 3 de cada vez, durante 180 dias. Antes de começar tudo isso, eu ouvi muito falar de outros ex-pacientes sobre como o tratamento com Roacutan vale mesmo a pena, e que fariam de novo se precisasse porque “o que são 6 meses em comparação ao resto da sua vida?”. Cá entre nós, eu não sei se faria de novo, e admito que me posiciono assim porque minha peregrinação pelo deserto da abstinência ainda não terminou, mas quanto a um ponto eu definitivamente concordo, quando me avisaram que não seria fácil. É, criançada. Não. É. Fácil.
            Imagine tirar qualquer coisa que faz parte da sua vida hoje e deixar em espera por seis meses. Independente se foi por trocar bebida por antibióticos, comer alucinadamente por uma dieta controlada, transar loucamente por um pouco de castidade e sossego (o que também pode ser ocasionado por antibióticos, dependendo da onde você andou se metendo – literalmente), a falta disso vai te deixar louco. Quer dizer, não imediatamente. Logicamente você vai dizer que isso não é tão importante assim, que você não depende disso, que existe algo chamado força de vontade que separa pessoas fracas e passivas de grandes empreendedores e gestores da sua própria vida, e que 6 meses nem é tanto tempo assim. Aham, ok. Chame do que quiser. Falando por experiência, aprendi que isso se chama negação.
            Quando você se dá conta exatamente do que abriu mão e do tempo que vai demorar até que você beba, coma, trepe ou goze daquele prazer que renunciou, vem a raiva. O rompante de som e fúria gritantes que fazem você alienar pessoas, cometer loucuras e amaldiçoar a existência de tudo e todos ao seu redor. Enquanto admite, silenciosamente, que tudo aquilo passaria se você pudesse tomar uma dose de gim agora, ou se um caminhão de sorvetes tombasse na frente da sua casa, ou se a sua ex te ligasse se sentindo sozinha e carente. Eis que surge a brilhante ideia de tentar tirar algo de bom de uma situação bosta (quem nunca?), e que talvez exista um jeito de alcançar alguma barganha para conseguir o que a gente tanto quer, sem desistir do que a gente tanto almeja também. Talvez se eu der só uma bicadinha desse chope, ou uma lambida na colher do brigadeiro, ou só uma bicadinha ou uma lambidinha... Enfim, você entendeu.

            Quanto tudo falha, a esperança foge pelos nossos dedos e o auge da abstinência nos possui, os dias se tornam cinzentos, o som da felicidade alheia se torna um barulho infernal e sair de casa para fazer qualquer coisa parece sem sentido. Olá, depressão, há quanto tempo! Sei que vem sempre aqui, só que agora não parece que vai embora tão cedo. Uma dose de vodka me salvaria. Um pudim me traria redenção. Um beijo me ressuscitaria. Se não tiver mais nada, só a vodka serve. Não. É. Fácil. Só que quando se está no fundo do poço, algo incrível acontece. Uma hora ou outra, você vai olhar ao redor e perceber que não há pra onde ir a não ser para cima de novo. Abrace o desespero. Acomode-se com a desgraça. Acolha a desesperança. Quem está na chuva é pra se molhar! O que é um peido, não é mesmo, pra quem está só com o nariz pra fora da merda? Eu acredito solenemente que não é a esperança, mas a sensação de não ter mais nada a perder que salva milhares de vidas por ano, especialmente aquelas que contam os dias e as cartelas de antibióticos que ainda faltam para passar por elas. Meu nome é Igor Costa Moresca, e este sou eu aceitando o fato de que não posso beber. E, sinceramente, realmente não há nada demais com isso.


         Eu demorei seis meses para me dar conta disto, e não digo que tenho um problema, mas estive perigosamente perto de apoiar toda a minha personalidade em um copo de cachaça. Como se toda a minha essência, completa com minhas qualidades, defeitos e excentricidades que fazem do Igor o Igor, pudesse ser engarrafada, rotulada e vendida a preço de custo em um mercado, bar ou padaria próxima de você. Eu gosto de beber, mas eu gosto ainda mais de mim. E sobriedade não é o fim do mundo; muito pelo contrário, é possível continuar bebendo e sendo feliz, e ainda por cima se lembrar de tudo que você fez na noite anterior. Eu tenho sido muito feliz com café, tereré, suco de laranja e com a descoberta incrível de que eu sou muito mais que tudo isso. Mais do que um drinque, mais do que uma dose de uísque, mais do que um brinde à meia noite. Agora eu só espero não perder noção disso tudo quando os antibióticos acabarem e eu voltar à levar a vida de bar em bar, mas não me preocupo muito. Se tem algo que eu aprendi nos últimos seis meses, é que nada nem ninguém na minha vida depende de cerveja para existir.
            Mas eu ainda digo que não, eu não faria isso de novo. Faltam 17 dias.

domingo, 24 de novembro de 2013

Um pouco mais de segurança


            Eu acho engraçado reparar que o quanto mais fantástica é a pessoa que hoje faz parte da minha vida, mais irônica é a história de como isso aconteceu. E você e eu não somos exceção. Pelo contrário. Se eu parar pra pensar nas pessoas que eu jamais esperava conhecer, não por alguma falta de afinidade, mas por desencontros de oportunidade, é provável que a nossa história seja a mais infame. O que automaticamente faria dela a melhor.
            E qual é a história, afinal? O ano foi 2012. O lugar foi uma cervejada ensolarada nos arredores de Cascavel. Eu não estava muito acostumado com aglomerações alopradas e alcoolismo liberado em plena luz do dia, acompanhados das trilhas sonoras mais ridiculamente aleatórias possíveis, mas diante das opções disponíveis para aquele fim de semana, era o que restava. Eu estava usando uma camiseta preta com um pequeno símbolo indescritível de uma marca desconhecida, quando eu e meus amigos encontramos nossos outros conhecidos, ao redor de um mar de gente embriagada e desestabilizada que dava risada de tudo. E entre todas aquelas pessoas, aqueles copos de cerveja jogados no chão e aquele sertanejo universitário barulhento, eu quase conheci você.
            Não fomos apresentados, mas você estava naquela roda de colegas e semi-conhecidos, nos quais eu ainda estava tentando encontrar algum sentido – partindo daquelas pessoas, até buscando apoio da cerveja. Eu estava perdido, mas disposto a tirar algo de bom de uma situação anormal. De uma festa estranha com gente esquisita. Foi aí que alguém – como eu aprendi que é de costume nessas festas – gritou “foto!” e todos se posicionaram diante de algumas câmeras de celulares. Eu não sei se foi o destino, a vida, ou apenas as pessoas ao redor que nos empurraram pra cabermos na foto, mas você apareceu do meu lado. E depois que postaram a foto no Facebook e encheram aqueles rostos de marcações, eu aprendi o seu nome. Foi assim que eu conheci Dayane Zanella. E algum tempo depois, eu descobri como você me conheceu. Você achou que eu era um segurança da festa que estranhamente apareceu do seu lado. A vida tem dessas coisas.
            Mais engraçado ainda foi que, depois daquele dia, você aparecia em todos os lugares que eu ia. Em todas as baladas em que eu decidia ir em cima da hora, os barzinhos que eu visitava de madrugada antes de voltar para casa, e nas conversas com meus amigos, que eram amigos de amigos que eram da sua cidade e que, consequentemente, eram amigos seus também. Você estava em todos os lugares, o que hoje eu percebo que foi como um sinal do universo. Daqueles que eu costumava ser fanático pra encontrar, mas que hoje passam batido por mim porque eu ando cansado e desiludido demais e que, salvo algumas desilusões amorosas e telhas de amianto, o universo tem coisa melhor pra fazer do que jogar sinais no meu caminho. Mas aquilo sim era um sinal.
            Aonde quer que eu fosse, lá estava você. E isso durou alguns meses até exatamente este dia, um ano atrás, quando eu recebi um convite para uma festa de aniversário em Ibema. Um convite da sua festa. Da pessoa que achava que eu era um segurança. Eu não sabia exatamente quem era você, ou exatamente aonde ficava Ibema, e deixei o convite passar batido. Até receber um telefonema irritado de uma pré-aniversariante indignada cujo número eu nem tinha, mas que me atendeu uma frustração do mesmo tamanho da minha surpresa:

- Como assim você não vem na minha festa?!
- É que eu ando meio cansado, com umas coisas pra fazer... Achei que não ia fazer diferença...
- Pois faz diferença sim! Você vem e ponto final, nem que eu tenha que ir aí te buscar!
- An... Ok.


            Um ano depois, nós nos reencontramos em outra festa. Você ainda parecia ficar muito entusiasmada com a minha companhia, embora eu não conhecesse muito sobre você. Mas nós nos divertimos na festa, e em uma festa depois da festa, e em outra festa uma semana depois. Até que em uma noite qualquer, depois de publicar mais um post melancólico de Domingo, uma conversa sua apareceu na tela do meu computador. Dizendo que eu escrevia muito bem, e que você queria que eu escrevesse sobre você. Bom, pra escrever sobre você eu preciso te conhecer melhor. E não deu outra. Quando eu vi, nós já estávamos planejando um jantar com amigos, e discutindo sobre quantas cobertas você ia precisar pra dormir aqui em casa, e que essência de arguile você preferia, e que cadeira você achava melhor pra sentar e apoiar os pés na beira da sacada, e como havia sido o seu dia.


Com você eu aprendi que minha honestidade jamais é desperdiçada, que meu tempo é valioso e que meu cansaço é compartilhado. Com você eu aprendi que as pessoas são complicadas, ocupadas, corridas, atarefadas e silenciosamente desesperadas, mas que se a gente der sorte, ou simplesmente estar alerta para alguns sinais que a misericórdia do universo ainda é capaz de jogar no nosso caminho, você pode encontrar alguém que jamais esperava que pudesse se tornar tão importante. Alguém que, em um dia qualquer, você avistou em uma festa. Alguém que, na maior das coincidências, apareceu do seu lado. Alguém que, felizmente, tem o mesmo dedo podre para escolher amores como você, sente o mesmo peso do mundo sob as costas como você, e dedica sextas, sábados e madrugadas inteiras só pra te ouvir. Porque a dor que eu confesso à você é muito parecida com a que você sente. E, um ano depois de me confundir com um segurança, você descobriu que estava segura comigo também.
            E foi assim que a Day se tornou parte da minha vida. Obrigado por me conhecer.

quinta-feira, 21 de novembro de 2013

A crise dos quatro anos


            Foi o ano mais ou menos. Não é só disso que eu vou me lembrar, mas acho que aqui e agora, é a melhor definição que eu poderia dar. Diziam que seria o ano mais difícil. O ano em que realmente descobriríamos exatamente o que estamos fazendo aqui, o que queremos disso tudo, e o que vamos fazer com isso. Pois mentiram, porque eu ainda não sei.
            Eu sei que estou cansado. Meu Deus, como estou cansado! Cansado de levar bolos de pacientes, de fazer relatórios na clínica, de entregar trabalhos que não substituem provas, de obrigar meu corpo a assistir aulas porque a mente ficou em casa... Cansado de emprestar livros na biblioteca pra usar no relatório, no projeto, no TCC. TCC... TCC é algo que não me assustava tanto assim. Provavelmente porque, assim como o real tamanho da faculdade (que eu ainda não conheço por inteira) e a profundidade da psique humana, eu não tinha muita noção do quanto se tratava de um trabalho tão grande. Horas e horas de escrita, revisão, escrita, revisão, escrita, revisão, correção e começar tudo de novo porque não era nada daquilo que a gente queria dizer. Ou então, não era nada daquilo que a gente precisava dizer. TCC é algo que não acaba. Isso é algo que não nos disseram. Não acaba porque nunca está corrigido o bastante. TCC pronto é TCC que você não mostrou pro seu orientador e ponto final.
            Disseram que seria o ano mais difícil porque era muita coisa pra se dar conta. Até aí, acertaram. O que não disseram era que não só era muita coisa pra se dar conta, mas que se eu não tomasse cuidado era muito fácil eu me largar pelo caminho para conseguir carregar tudo. E confesso que algumas vezes eu me larguei. E pensei no que realmente estava fazendo ali. Pensei se tinha feito a escolha certa. Pensei se haveria um futuro para mim depois de tudo isso. E não só tudo isso me fez ficar ainda mais neurótico como também – adivinha só – me cansou.
            Não disseram também que eu não brigaria só comigo, mas com todo mundo ao meu redor. Até então era cada um no seu quadrado, com as suas inseguranças fortemente guardadas no peito, longe do alcance de quem não pudesse entendê-las, por mais que a gente tenha se visto quase todos os dias pelos últimos quatro anos e nos ensinaram que ao tocar uma alma humana, nós deveríamos ser apenas outra alma humana. Não disseram que, em se tratando de almas humanas, existe tudo menos simplicidade. E como se já não fosse o bastante derrubar minhas neuroses em cima dos outros, vieram os pacientes e jogaram as deles em cima das minhas. Pronto. Surtei. E agora?
            A crise dos quatro anos é um ritual de passagem. É algo que a geração passada tentou avisar para nós, mas ainda estávamos distraídos demais aproveitando a fase boa do terceiro ano, não mais tão calouros, mas nem tão veteranos. O que foi irônico de sentir hoje, quando sentamos no bar exatamente entre a comemoração dos veteranos do outro lado da rua, e a mesa dos calouros ao lado que brindavam ao primeiro ano de toda aquela Psicologia que eles estavam só começando a conhecer. E nós ali, os mais ou menos, cansados e cobertos de cicatrizes de orientadores e relatórios sem fim, só olhando ao redor e tentando recuperar o fôlego, lembrando de quando estávamos tão ansiosos pelo futuro, porém desesperados para correr pra rua e gritar que acabou.
            Eu não estou dizendo que foi um ano ruim. Pelo contrário, foi o melhor até agora. Foi o ano em que eu descobri que, mesmo sem acreditar que estou apto pra isso, eu posso ajudá-lo sim. Foi o ano em que eu aprendi a clinicar, a prevenir, a promover saúde e associar toda a teoria dos últimos três anos com a prática de triagens, transferências e todos os outros transtornos de ansiedade que fazem parte desta montanha russa de sentimentos, interpretações e mudanças da mente humana. Foi o ano em que eu me vi cercado de psicólogos e sob a análise de todos, a medida em que tentava compreender cada um deles também. Foi o ano em que, ao tentar ajudar o outro a se conhecer, eu acabei descobrindo muito mais sobre mim do que eu pensava conhecer. Algumas coisas boas, outras nem tanto, várias qualidades e um milhão de defeitos que, por bem ou por mal, fazem parte de mim.
            E aqui estamos, colocando mais um ano para trás. Os relatórios foram entregues, os TCCs foram avaliados e as provas acabaram. E ao ver os veteranos comemorando, eu não pude deixar de sentir inveja e, ao mesmo tempo, não. Eu estou feliz por eles, tudo acabou e agora podem partir pro abraço. Enquanto isso, nós somos os novos veteranos, prestes a vivenciar os últimos ‘’tudo” da faculdade antes de correr pro meio da rua ao som de cornetas e apitos. A crise dos quatro anos passou e nós sobrevivemos. Agora, meus amigos, é o começo do fim. Felizmente, nós ainda temos um ano juntos para dar a volta da vitória pelos corredores da faculdade em que passamos tanto tempo, todo dia, há quatro anos. Vai deixar saudade. Já está deixando saudades.

            Conversando ou não, cumprimentando ou não, passando reto ou não, eu passei quatro anos com vocês. E agora que está acabando, confesso que eu vou sentir muita falta. Acho que pior do que a crise dos quatro anos será a ansiedade de separação quando completarmos cinco.

terça-feira, 19 de novembro de 2013

Relacionamentos imaginários III


            Eu desisto. Como se as pessoas já não fossem difíceis o bastante de se entender em seu habitat natural, com suas coisas, suas neuroses, seus problemas, seus parentes e suas contas pra pagar, conceber a união entre dois seres igualmente disfuncionais e provavelmente semelhantes em seus desajustes e incoerências é demais pra mim. Talvez esteja cedo demais na minha vida para decretar uma opinião concreta sobre isto, muito menos duradoura ou perpétua, mas eu cansei. E não é porque eu não tenho nada de mais acontecendo na minha vida ultimamente a não ser pelas provas do último bimestre, os currículos que estou entregando por aí pra tentar colocar toda a psicologia que eu aprendi nos últimos quatro anos em prática, e a perna machucada que está começando a querer me motivar a andar sozinho de novo, porque tudo isso não deixa de ser importante e consumidor também. Mas eu desisto. Eu cansei. Existem vezes em que eu ainda consigo quase assimilar o sentido que algumas pessoas atribuem a si mesmas e as merdas que elas fazem, mas eu definitivamente não entendo relacionamentos.
            Como eles começam? Do que se alimentam? Fazem bem à saúde? Isso o Globo Repórter não mostra. Particularmente falando, confesso que não sei nem ler os sinais de que algo ou alguém está demonstrando ser promissora. Você é assim mesmo, legal e descontraída, ou está me dando mole porque percebeu e imediatamente decidiu que seria inútil lutar contra o fato de que eu sou irresistível? Ah, não? Você é só legal mesmo? Foi mal. E lá se vão meses de felicidade ao tentar juntar as pequenas peças do quebra-cabeça de uma nova paixão e os momentos de êxtase quando facilmente me engano e acredito que algumas peças se encaixam, e que isto é um sinal do universo de que estamos destinados a ficar juntos e que tudo dará certo. An... não. Lá se vão também meses de desilusão, músicas tristes, olhares pensativos em janelas embaçadas enquanto a chuva cai lá fora e reflete o tempo nublado como metáfora para a minha alma cinzenta que aos poucos tenta se conformar com a sua ausência. Lá se vão meses de inconformidade enquanto você passa por mim e se mantém completamente alheia ao fato de que nós fomos feitos um para o outro, mas que eu vou esperar por você enquanto você não percebe que esse cara tem carro, dinheiro, um belo sorriso e nenhum pingo de neurose nos seus músculos bem definidos, mas que ele jamais será como eu. Não, espera. Acho que me perdi no que eu queria dizer. Enfim...
            Eu também não entendo como eles terminam. Quer dizer, quando eles terminam. Ou então, quanto eles terminam de terminar. De acordo com as experiências que eu ouço falar por aí, são coisas diferentes. Por que eles terminam, se por algum tempo funcionou? Algo quebrou? Alguém deu defeito? Ou alguém viu um defeito que não tinha aparecido ainda, e aquilo foi a gota d’água? E aqui entram de tudo: ela não confiava em mim, ele não me amava de verdade (e o que é “amar de verdade”?), ela só quer me controlar, ele era muito ciumento, ela tinha medo de ficar sozinha, ele não estava comigo... E então o amor acaba. Eu não acredito que o amor sempre acaba. Parte de mim, meio à melancolia, o desânimo, a preguiça e os efeitos colaterais dos anti-inflamatórios (meus novos melhores amigos), ainda é bastante otimista e me faz pensar que pode sim dar certo. Dá muito trabalho. Tipo, muito trabalho. Mas pode dar certo. Só que quando não dá, pra onde vai todo aquele amor, que era tão amável até então? Para a próxima da fila? Ou a gente guarda pra si, igual quem fica remexendo as chaves guardadas no bolso ou fica atualizando o Facebook, esperando por algo ou alguém aparecer de novo, para abrir a porta e mandar uma nova mensagem. Confesso que um “oi” de alguém que eu ainda não conhecia já salvou o meu dia. Pra não falar de muitas outras noites solitárias. Confesso que algumas dessas pessoas, eu já não consigo mais viver sem. Confesso, também, que outras pessoas eram muito mais interessantes quando eu não as conhecia direito.
            Então, pra que servem os relacionamentos? São trabalhosos, demorados, consumidores, estressantes, fatigantes, irracionais, indescritíveis e, pelo que parece, finitos. Como se quando duas pessoas decidissem se unir, isto gerasse uma contagem regressiva imaginária que atua sobre o amor delas e o diminui a cada dia que passa, a cada briga que é mal resolvida, a cada olhar torto que é trocado e cada beijo distraído e sem carinho que é compartilhado. Como se todo esse esforço fosse em vão. Mas as pessoas insistem, especialmente quando estão carentes, decepcionadas ou desesperadamente querendo enxergar qualquer coisa que acontece como um sinal do universo. Como comprar iogurte no supermercado que está em promoção porque está próximo do seu prazo de validade. Algumas pessoas justificam que isto é viver. Pelo menos você se divertiu por um tempo. Pelo menos você aproveitou. Que seja eterno enquanto dure. E eu já comprei muito iogurte assim. E por iogurte, entenda como mulheres que não estavam nem aí, ou que até estavam um pouco animadinhas, e por isto mesmo eu deveria ter desconfiado do preço. Não adianta depois quando já se está passando mal, vomitando todo o amor que você engoliu achando que estava bom. Achando que era certo. Esperando que fosse diferente.
            Eu não entendo relacionamentos, mas parte de mim ainda sente falta de alguém. Não necessariamente de dormir com alguém, mas de acordar na manhã seguinte e te ver com a camisola bagunçada, com uma das alças caindo, descabelada e rindo comigo sobre qual de nós dois vai levantar pra ligar a cafeteira. Pra andar de mãos dadas por aí, não interessa pra onde, só pelo prazer de estar ligado a você. Só pela alegria de me sentir acompanhado, seguro, contente. Eu imagino que seria bom. Alguém pra animar os meus Sábados à noite, enlouquecer os meus Domingos, e dizer que sente a minha falta durante a semana. Alguém pra cuidar. É, alguém pra cuidar. Eu gostaria disso. Eu sinto falta disso.
            Ou talvez tudo isso seja só o meu medo transcrito em palavras, com esperança nas entrelinhas de que alguém leia e me convença de que, apesar de não fazer sentido, ainda vale a pena. Nem todos os iogurtes estão prestes a vencer, e nem todo o amor acaba derramado no chão com duas pessoas chorando por ele. Às vezes vale a pena. Felicidade é outra coisa que eu também não entendo, e não é a toda que entramos em relacionamentos por ela.
            Tudo bem. Eu não vou desistir.

***

Em caso de interesse:


domingo, 17 de novembro de 2013

O dia seguinte


             A verdade é que nós morremos um pouco todos os dias, de um jeito ou de outro. Nos só não pensamos muito nisso porque, bem, não dá tempo. Entre tentar lembrar de tudo que você precisa comprar no mercado quando sair do trabalho e passar por lá pra ir pra casa, pra depois sentar em frente ao computador e tentar se concentrar para fazer um trabalho ou terminar aquele relatório de estágio, e ainda retornar a ligação da sua mãe que você não ouviu porque o trânsito estava muito barulhento, sem esquecer de avisar os seus amigos de que você já chegou em casa e dali meia hora eles já podem passar pra te buscar para vocês saírem... É, não dá tempo. E mesmo que dê tempo, ninguém realmente considera isto como algo tão sólido quanto a louça suja ou a roupa pra passar. Nós sabemos que vai acabar, uma hora ou outra, mas não temos muita noção quanto a fato de que pode ser amanhã, ou de que poderia ter sido Segunda-Feira.
            Mas nós ficamos doentes e elaboramos lutos todos os dias, por mais que nossos corpos continuem em pé. Abrir mão do passado que não volta, admitir que amamos a mulher errada, confessar que estamos errados e que precisamos de ajuda, chorar pelo amor que nos deixou, tudo isso nos mata um pouco a cada dia. Diminui a nossa alma e a nossa esperança de nos sentirmos completos de novo um dia, e acima de tudo isso nos engana sorrateiramente por nos fazer pensar que algo assim foi o pior que poderia ter acontecido. Não foi. Não é. Pior do que encarar o fim de um amor, é ser surpreendido pela realidade de que nós podermos ser os próximos.
            Eu ainda não consigo atribuir algum sentido para isso, e talvez simplesmente nem haja algum. Aquela queda tirou minha semana dos trilhos e me obrigou a visitar médicos, enfermeiras, hospitais e a aprender a lidar com receitas, remédios e ataduras. E também me fez escutar muito coisas do tipo “Você tem muita sorte” ou “Você nasceu de novo”. E enquanto todos se comoveram pelo que poderia ter acontecido, confesso que enquanto estava ali, deitado na calçada e sem noção do que havia desabado em mim, meu primeiro instinto foi o de levantar e continuar andando. O único detalhe que me impediu foi a perna ensanguentada e o desespero dos outros pedestres ao meu redor.
            Os primeiros dias foram estranhos. Parecia que essa perna enfaixada não era minha, que o garoto nas notícias não era eu, e que o nome das receitas médicas não era o meu. É difícil acreditar que eu poderia ter acabado, especialmente por conta de tudo que eu ainda tenho pra fazer. Eu ainda preciso terminar de corrigir meu relatório de estágio. Preciso desentortar o varão da cortina da sala de estar. Preciso perder mais uns 3kg. Preciso pagar o carnê da festa de formatura. Preciso ir buscar a camiseta que deixei separada semana passada em uma loja no shopping porque o cartão de crédito não tinha virado de mês ainda. Preciso beber uma cerveja de novo. Preciso dizer que te amo...
            Depois de uns dias, parece que tudo voltou ao normal. Claro, eu ainda tenho dificuldades para andar ou subir escadas, e meu repouso em prisão domiciliar não me deixa mentir sobre isso. Mas meus amigos já fazem piadas sobre isso só pela facilidade de fazer piadas. Minhas conversas não são mais voltadas somente para a minha perna e o meu bem estar, ou que indenização eu pretendo tirar disso. Sinceramente, pessoal, eu só quero que isso passe. Eu só estava andando pela rua quando aconteceu, e depois que aconteceu eu realmente estava pronto para me levantar e continuar andando. Eu ainda sou lembrado diariamente do que aconteceu toda vez que preciso trocar o curativo da perna. E apesar de ainda doer, a perna está começando a parecer com uma perna de novo. Então não tem porque prolongar isso. Exceto por este texto.
            Por mais que eu tente, eu não consigo me comover muito com o que aconteceu. Porque eu estou bem. Bem o bastante para ter desmarcado compromissos enquanto era socorrido por paramédicos, para avisar meus amigos que eu não poderia estudar com eles à tarde porque eu precisava ir ao hospital tirar uma radiografia, e para ir fazer prova na faculdade à noite mancando e levemente desorientado. Mas como desorientação não é nada estranho pra mim, desconsideremos este último. Estas são as minhas últimas palavras sobre o assunto. Porque eu estou bem, enquanto a vida seguiu seu rumo e aconteceu de cair sob outras pessoas, próximas das minhas pessoas, que não tiveram muita sorte e não nasceram de novo. Essas, sim, me comovem.
            Eu estou bem. A vida voltou ao normal, exceto pelo atestado que não me deixa sair de casa. Morrer muda tudo. Quase morrer não muda nada, mas pelo menos eu sobrevivi por mais um dia. Agora é só uma questão de dias para reaprender a andar. Ah, a ironia.

terça-feira, 12 de novembro de 2013

Boa sorte

Pra quem não viu:

           
***


            Eu sofri um acidente. Sabe aqueles dias em que você acorda e tem certeza de que vai ser só mais uma rotina corrida e atarefada? Com trabalhos à fazer, provas pra estudar, consultas pra ir, compromissos pra zelar e, por que não?, roupa pra passar. E entre uma coisa e outra, eu estava andando pela rua quando aconteceu. Caiu uma telha em mim. É, uma telha. De amianto. Maior do que eu, mais pesada do que eu, aterrissou na minha cabeça e me deixou no chão no meio do calçadão de Cascavel em plena tarde de Segunda-Feira. É. Pra variar, não ia ser um dia normal.
            Fui socorrido por pedestres que pareciam estar mais apavorados do que eu. “Moço, você precisa que a gente chame uma ambulância?”. Meu instinto natural de autosobrevivencia contra a vergonha daquilo tudo era maior do que o meu físico, mas minha perna ensanguentada simplesmente venceu minhas vaidades e sim, é melhor chamar uma ambulância, senhor. Aguardei sentado em uma cadeira de rodas cercado de pedestres preocupados e câmeras de repórteres que surgiram do nada que continuavam a examinar meus arranhões e machucados, enquanto eu estava mais preocupado em desmarcar meus compromissos do resto da tarde. É, eu quase morri. E por mais que essa seja a única desculpa sólida para deixar pessoas esperando, eu fui criado melhor do que isso. Em questão de instantes meu pai já estava no local, pouco antes da ambulância me levar para o hospital, enquanto eu respondia as mensagens dos meus amigos, que aos poucos iam descobrindo o que tinha acontecido. Apesar de ter desabado parte de um prédio da minha cabeça, eu estava consciente. Respondi as perguntas dos paramédicos calmamente, estiquei a perna para tentar conter todo aquele sangue e fui levado para o pronto-socorro que, pela demora, ainda não estava pronto.
            Fui levado para dentro do hospital em outra cadeira de rodas, porque não aguentava ficar de pé naquele estado. Durante minha longa espera no corredor, conheci uma garota que também havia se acidentado. Acidente de moto, e não era a primeira vez. Tanto não era, que já sabia como operar a maca em que estava deitada e retirar o apoio para o pescoço que lhe deram. E começou a conversar comigo, apesar da sua dor, para me aliviar um pouco da minha. Lá estávamos nós, a garota deitada em uma maca com o pé quebrado e o garoto na cadeira de rodas com a perna ensanguentada, conversando sobre o tempo, sobre a vida e sobre como não queríamos perder a semana de provas. Estava sendo um dia daqueles.
            Fui examinado por quatro médicos que me disseram que eu poderia ter morrido. Que eu deveria ter morrido, dado o tamanho e peso da telha e o fato de que AQUILO CAIU NA MINHA CABEÇA! Mas disseram que eu estava bem para quem tinha passado por aquilo, e se apressaram para fazer um curativo na minha perna antes que começasse a sujar o chão que a senhora da limpeza estava limpando. Quando os médicos saíram de perto, meu pai perguntou como eu estava. Eu parei por um instante para responder.

            - “Eu não sei. Eu poderia ter morrido, pai...

            No meio de um corredor, cercado de enfermeiras, policiais, paramédicos e da minha amiga acidentada, eu chorei. Chorei por tudo que não sabia dizer, tudo que não sabia sentir, e pela vida que, por mais incrível que parecesse, eu ainda tinha. Não demorou muito para que o meu mecanismo de defesa natural contra essas coisas sérias tomasse conta, e já pudesse fazer piadas sobre convidar meu pai para apostar uma corrida ali mesmo no hospital. Inclusive comecei a brincar de balanço com a cadeira de rodas, até que a senhora da limpeza mandou  parar porque ela precisava terminar aquela limpeza logo e minhas rodas estavam atrapalhando. Mas durante aqueles instantes realmente pairou sobre mim a possibilidade de que, durante um dia qualquer, uma Segunda-Feira enfadonha, corrida e com prova pra estudar ainda, eu poderia ter acabado. Só que não.
            Em seguida fui examinado por um técnico de Raio-X que me deu o que foi provavelmente um dos maiores sustos da minha vida. Ele tirou a radiografia, a examinou por alguns minutos, depois virou para mim e tomou o fôlego mais demorado que eu já havia presenciado para dizer: “É... Você teve muita sorte.” O corte que a telha provocou na minha perna foi exatamente à milímetros de um osso, mas não passava de uma escoriação. E pelo resto do meu dia naquele hospital, as pessoas, os médicos e quem mais ficasse sabendo da história e passasse por mim dizia que eu tinha muita sorte. Também começaram a me chamar de “menino da telha” toda vez que me chamavam para ser examinado de novo.
            Quatro horas, três pontos, duas vidas um monte de remédios depois, eu voltei para casa. Avisei a todos que eu estava bem, que a perna estava doendo mas que eu jamais iria ficar em casa repousando e perder a prova. Meus amigos brincaram, fizeram ainda mais piadas e me abraçaram, tudo como forma de alívio. Eu estava bem, mas não estava aliviado. Porque até agora é difícil dizer exatamente o que tudo isso significou. A queda, a telha, a menina na maca do lado, a cadeira de rodas, a ambulância, os três pontos na perna. Eu acredito que tudo acontece por um motivo até mesmo quando você não sabe o sentido daquilo na hora. Mas eu sinceramente ainda não consigo tentar adivinhar o porquê disso tudo.
            Eu tive muita sorte, e é nisso que eu vou me amparar por enquanto. Nisso e em qualquer coisa que possa me apoiar enquanto eu ando, porque ainda vai demorar uns dias para a perna voltar ao normal. Eu já disse que minha vida é engraçada e certas coisas só acontecem comigo, mas cá entre nós, Universo, tudo tem limite. Quer dizer, quase tudo. Pelo que parece, eu sou imortal. Boa sorte da próxima vez, também.

domingo, 10 de novembro de 2013

Fora da bolha


            Certifique-se de que seu amor pode sobreviver fora da bolha que ele mesmo cria. Para alguém como eu, que ultimamente tem se preocupado muito mais com o trabalho, a faculdade ou a louça suja pra lavar que nunca acaba, falar de amor parece tão... Vazio. Não é mais a falta agonizante e desesperadora de alguém para amar que me aflige. Longe disso. Também não é a aparente incapacidade de adotar as neuroses de outra pessoa para juntá-las com as minhas e, a partir disso, preencher o tédio existencial e o lado vazio da cama em um Sábado à noite com algo acolhedor, inspirador, afrodisíaco e igualmente desafiador como um relacionamento. E poderíamos criar felicidade disso.
            Confesso que já vi casais por aí que parecem dar conta do recado. Que enfrentam as tempestades dos mal-entendidos, os devaneios dos silêncios agravantes e os telefonemas que acabam abruptamente porque um não gostou do que ouviu e decidiu desligar o outro. Nada disso me incomoda agora, porque meses depois de ter enterrado o que parecia ser um relacionamento feliz e promissor, não só percebo o quanto meu luto foi bem feito, quanto sinto que talvez a vida esteja exatamente do jeito que deveria estar. Pelo menos, por enquanto.
            Confesso também que ainda levo um pouco de esperança guardada no bolso comigo quando saio de casa para viver todos os dias. Só dá problema quando eu encho demais os bolsos e, por incrível que pareça, me surpreendo quando descubro que tudo ficou pesado demais e eu não consigo andar. Sonhar é bom, mas esperança demais faz mal. Expectativas deveriam ser criadas somente a partir de atestados médicos, completos com bula, dosagem e alertas sobre os efeitos colaterais caso você se anime demais e decida entregar seu amor, sua identidade, seus desejos e uma cópia da chave do seu apartamento para aquela pessoa que sequer pediu alguma dessas coisas.
            Parece tão contraditório ter que me conformar com a ideia de que por mais que eu ainda pense que amo o amor, eu talvez não seja bom nisso. Logo eu, que sou feito de contradições e tenho alergia à conformidades, ultimamente senti que está na hora de começar a aceitar algumas limitações na vida. Mesmo com só 22 anos e toda uma vida pela frente, acho que posso me dar ao direito de dizer que eu já andei demais e que não é fácil. Que é cansativo e solitário às vezes, e que talvez as coisas fiquem mais fáceis se eu esvaziar um pouco mais os meus bolsos antes de continuar caminhando. Deixe os problemas em casa, as preocupações que não tem convite para ir aonde você está indo, e quem sabe abandone um pouco de esperança também. Não toda, só o bastante para não te deixar dar de cara no chão sem querer.
            Estar apaixonado me assusta. Sim, me assusta. Porque o que a paixão por alguém faz comigo, olhando em retrospectiva, simplesmente não é natural. E nem um pouco saudável também, diga-se de passagem. Talvez eu esteja dizendo isso com base em uma série de desencontros amorosos que só serviram para demonstrar em prática o quanto o amor é disfuncional. Ou talvez seja só o meu amor. Ou talvez eu esteja levantando hipóteses demais. Talvez seja isso que acontece mesmo quando se fica em casa à noite escrevendo e ensaiando uma saída da minha descrença, enquanto continuo encarando o lado vazio da minha cama.
            Falando como alguém com certa experiência em se tratando de amar a pessoa errada, às vezes eu preciso dar risada de toda a ironia que o universo joga em minha direção por ter sido protagonista do que eu acredito que foram as piores histórias de amor que já existiram. E as mais clichês também. O cara que ama a garota que ama outro cara. O cara que ama a garota que nem sabe que ele existe. O cara que ama a garota que não é quem ele pensa que ela é. O cara que ama a garota que só o quer como amigo. E, finalmente, o cara que ama a garota que também o ama, mas que faz ele perceber que depois de tantas decepções, desenganos e desesperos, ele não estava preparado pra isso.
            Eu vejo casais de mãos dadas na rua e fico feliz por eles. Quer dizer, hoje eu fico feliz. Antigamente tudo o que eu queria era acelerar o passo e ultrapassá-los só para não ter que ficar encarando aquilo enquanto me arrastava pela vida de volta para casa – e para o lado vazio da cama. Mas o que eu também vejo hoje são casais que parecem ficar tão entusiasmados com a ideia de que, agora que se encontraram, não precisam mais de nada nem ninguém, acabam se fechando em si mesmos. Fujam da bolha, minha gente. Talvez não me levem tão a sério, falando como alguém que atualmente está fora da bolha e faz o máximo para ajudar os amigos a perceberem que o que eles tem com outra pessoa não só não é o bastante, como está quebrado. E, particularmente falando, algo quebrado e flutuando dentro de uma bolha que não se permite estourar parece ainda mais enfermo do que querer me apaixonar de novo. Não sei o que é pior; ter sido tão apaixonado aos 14 anos, ou ser tão cínico aos 22. O universo nem sempre faz sentido, mas é ainda mais irônico do que eu.

            Certifique-se de que seu amor pode sobreviver fora da bolha que ele mesmo cria. Certifique-se também, Igor, de que não são só casais que se sentem completos um com o outro e se isolam do mundo. Solteiros cínicos e superficialmente satisfeitos com tempo de sobra também precisam de outra pessoa para amar além das suas próprias neuroses.

quinta-feira, 7 de novembro de 2013

O método Moresca


Um dom e uma maldição. É isso que nós costumamos dizer. Quer dizer, é isso que nós costumamos gritar. Nós falamos alto, não necessariamente para chamar a atenção, porque ela vem até nós de um jeito ou de outro. Na verdade, talvez não haja um motivo certo. Falamos alto porque falamos alto, e chamamos a atenção porque chamamos a atenção, ponto. E somos habilidosos, criativos, ridiculamente carismáticos e intensos ao mesmo tempo. Quem costuma chegar perto de nós, jura que nunca viu nada igual. Nunca conheceu ninguém igual. Mas as probabilidades de se ferirem também são grandes. Somos insaciáveis, loucos por conhecer cada vez mais sobre esse mundo que nos cerca e as pessoas que nos rodeiam. Tudo isso enquanto ainda tomamos todo o cuidado para não nos perdermos no próprio mundo que criamos, que existe dentro de nós e que, se não nos apoiarmos em algo ou alguém tão forte o bastante, pode acabar nos engolindo de dentro pra fora. Mencionei que também somos estranhos?
            Estranhos porque não nos encaixamos nos moldes infames e convencionais em que as outras pessoas parecem encontrar conforto tão facilmente. Nós não. Estamos constantemente incomodados por alguma coisa. Porque a nossa mente, assim como a nossa ambição por dar o melhor de nós em tudo que fazemos, jamais cessa. Somos extremos. Tudo ou nada. Não somos criaturas que cabem em meios-termos. Meios-termos são para pessoas que existem pela metade. Nós, por outro lado, sempre passamos dos limites.
            Mas existe um método para a nossa loucura. O mesmo método que nos foi passado, geração após geração, e provavelmente ainda perpetuará - e consequentemente, aterrorizará - o mundo por uma quantidade considerável de neuroses ainda por vir. Não me peça explicações; nós nascemos assim, crescemos assim e, senão me engano, continuaremos assim enquanto vocês, meros mortais, estiverem por perto para ver. Só que no meio de tudo isso, da linhagem que vem desde os primórdios da Itália provinciana e renascentista, existe algo - quer dizer, alguém - bem mais especial do que eu poderia imaginar. E é com ela que está guardada a nossa esperança de levar a tradição adiante.
            Porque você é incrível. Ainda mais do que eu. Com as suas palavras, suas habilidades culinárias, seu raciocínio insano, sua fé inabalável, sua criatividade inconcebível e seu sorriso avassalador, você tem essa capacidade conquistar tudo e todos que cruzam seu caminho com a perseverança de uma guerreira e a inocência de uma criança, o que me faz sentir muito mais do que felicidade por você, mas orgulho também. Você me faz querer ser uma pessoa melhor. Me motiva a tentar dar sempre o melhor de mim em tudo, para que, quem sabe, você também se orgulhe de mim. Você é inspiradora. Tanto é, que me fez pensar exatamente em tudo isso para dizer a você no seu dia, e a relembrar que além de tradicionalistas, racionalistas, passionais e - me atrevo a dizer - gramaticalmente invencíveis (salvo os enganos do autocorretor), somos família. Somos Morescas. E agora que você está dotada de toda a responsabilidade do mundo, não tenho dúvidas de que sempre esteve pronta para isso e tudo mais que a vida possa lançar em seu caminho. Não só porque eu acredito em você, mas porque você jamais estará sozinha.
            Esta é a beleza do método Moresca. É uma maldição de ter tantos dons que a gente nem sabe direito o que fazer. Por isto temos aqueles almoços todos os Domingos. Para sentar, conversar, rir, recarregar as baterias e redescobrir que não só a gente sempre consegue continuar, como a gente sempre erra em se tratando das nossas inseguranças.

            Nós ficaremos bem.

terça-feira, 5 de novembro de 2013

O show deve terminar


            Depois de anos de decepções e lágrimas derramadas sem alguma justificativa realmente plausível para a sua falta de caráter e piedade, era de se esperar que eu não me importasse mais com você. Muito menos, pensasse em você quando sequer te encontro no meu caminho. Mas não. Talvez a triste e aterrorizadora verdade seja que eu gosto mesmo é de sofrer. Não necessariamente por você, mas por algum instinto de sadomasoquismo natural que se sobrepõe completamente sobre minha necessidade de garantir minha autossobrevivência, senão por motivos que estão mais aprofundados na distorção da minha psique do que eu sou capaz de imaginar, mas - e infelizmente preciso admitir minha superficialidade nem-tão-encoberta aqui - simplesmente porque você é bonita de se ver.
            Porque seu olhar cativante não entrega a rispidez das suas verdadeiras intenções, tampouco confessa a exata realidade dos seus pensamentos. Só não há como negar mesmo o quanto você é bonita. E indiscutivelmente competente em se esconder por trás do seu olhar, para que ninguém descubra o tamanho do eco que é transmitido pela imensidão do vazio que te preenche. Mas eu já estive por trás do seu olhar e sobrevivi para contar a história. E por este e muitos outros motivos é que eu deveria te odiar, te evitar, te repudiar por completo e fazer um esforço a mais para seguir a minha vida sem sequer pronunciar o seu nome de novo. E seria muito fácil, realmente, se eu não amasse você.
            Mesmo com as suas incapacidades, suas habilidades desconcertantes de me empurrar da corda bamba finíssima e estreita que eu carinhosamente chamo de meu equilíbrio emocional, e da sua imoralidade quanto aos sentimentos dos outros quando não estão todos direcionados a você. Você gosta do controle, da admiração, dos olhares escondidos que tentam te fotografar ao máximo para que possam se lembrar melhor de você quando não está por perto. Você gosta dos aplausos, dos holofotes imaginários acima da grandiosidade maquiada do seu ego frágil e assustado. Você tem medo de perder tudo isso, porque então o que restaria?
            Você seria capaz de existir sem uma plateia? Seria capaz de reluzir sua personalidade oca através de refletores fortíssimos que cativam as pessoas sem que percebam que estão na verdade ficando cegas por tudo aquilo que você não os deixa ver? Às vezes eu acho que você não existe. Às vezes eu tenho certeza, porque olhando em retrospectiva foram poucas as ocasiões em que você realmente permitiu ser vista por mim, com toda o resquício de veracidade e vulnerabilidade que você ainda possui. Quando chega em casa à noite, tira a maquiagem e o som dos aplausos cessa, eis que você realmente surge. Quando se sente segura para dar fim ao espetáculo de mais um dia, e para respirar livremente como a mera mortal que você é mas que ninguém desconfia, e não há ninguém por perto para desmascarar a sua tal felicidade, você vive.
            E falando como alguém que já esteve do seu lado para desmentir a lenda da sua essência, você chora por isto. Finalmente se descontrola e soluça até cansar e desmaiar em um sono profundo - e talvez o único lugar aonde você não sente medo de nada nem nenhuma necessidade de se esconder do mundo, de todos e de si mesma. Provavelmente porque sonhos não são reais, e você se sente muito confortável com isto. Mas aí você acorda, treina em frente ao espelho a pose de mais um dia, mente para si mesma que você está bem e que o mundo é seu, e sai de casa para rever os fãs.
            Eu te amo. Mas cá entre nós, se tem uma coisa que eu aprendi nesses anos todos, é que por mais que eu adore o seu show, você não merece os meus aplausos.

            Muito menos, as minhas lágrimas.

domingo, 3 de novembro de 2013

Quem precisa do amanhã?


            Tudo está acabando. É assim que eu me sinto, mas não com um sentido ruim. As entregas de relatórios, TCCs, notas finais estão aí. As propagandas de Natal já estão passando na televisão. Meus amigos já estão fazendo planos para viajar pra praia e não, eu não sei se eu vou. O quarto ano da faculdade está acabando. O ano que disseram que seria o mais difícil, e não estavam errados quanto a isso. Não sei se estavam falando das matérias, do estágio, do TCC ou qualquer outro fator acadêmico, mas para mim o quarto ano não foi exatamente o mais difícil. Foi o mais intenso. O que exigiu de mim mais do que os três anos anteriores em termos de tentar responder aquela pergunta do primeiro dia de aula. Por que você escolheu a Psicologia? Eu gaguejei, abri a boca para soltar uma voz que definitivamente não parecia ser a minha, e disse que era porque eu queria ajudar as pessoas. É isso mesmo, Igor? Tudo está acabando. Você está pronto para ajudar as pessoas?
            2013 está acabando. Este é o ano novo, pessoal. Aquele ano novo que, há dez meses, parecia tão ridiculamente promissor, imensamente repleto de possibilidades e incrivelmente dotado de toda a esperança e otimismo possíveis, independente se nasceram da euforia dos fogos de artifício ou de todo aquele uísque que eu tomei enquanto assistia o brilho das estrelas se perderem nas explosões e no cheiro de pólvora que tomaram o céu. E agora só restam pouco menos de dois meses para que os parentes me visitem e o champanhe tome conta de novo. E o que aconteceu em 2013? Não acabou ainda e acho que só cantarei vitória realmente quando estiver na sacada, ou na praia, ou aonde quer que eu vá parar com o meu copo de uísque, contando os minutos para a meia noite que me trará mais ano de vida. Quer dizer, não só mais um ano de vida, mas um que promete ser, além de qualquer outra coisa, definitivo. Tudo está acabando, e 2014 promete fechar mais um ciclo. Isto é, se minhas notas não me desapontarem.
            A sensação de término me assombra e não é de hoje. Colocando o ano novo, o otimismo, a esperança e o uísque de lado por um instante, o fim ao qual me refiro como fonte de agonia e êxtase não tem nada a ver com fogos de artifício, mas com cartas de amor cheias de sentimentos esplendorosos que passaram do seu prazo de validade, abraços de conforto que não estão mais disponíveis e beijos inesperados que não parecem que vão me surpreender de novo tão cedo.
            Apesar de tudo e de todos de bom que 2013 me trouxe, eu não consigo deixar de pensar que quando aquela fatídica meia noite chegar, eu sentirei que minha companhia mais uma vez será um copo de uísque, e não aquela mulher com quem sonhei por anos, e que até acreditei que havia encontrado, mas que provavelmente não estará ao meu lado ainda. A não ser que 2013, não satisfeito em ter cumprido a promessa de se revelar como o melhor ano das nossas vidas, ainda tenha algumas cartas de amor escondidas na manga e está apenas esperando que eu baixe minha guarda para me surpreender mais uma vez e provar que, por mais que eu tenha conquistado em 2013 – todo o amor que foi bom enquanto durou, as amizades que eu incrivelmente fui capaz de manter, as mudanças pelas quais passei e sobrevivi, e as lições que aprendi mesmo quando estava mais propenso a me agarrar àquela velha opinião formada sobre tudo e todos do que me arriscar com algo novo – nada disto foi o bastante, e vai ser preciso mais um dia para descobrir exatamente aonde eu ainda chegarei nesta vida.
            Às vezes eu me desanimo e penso se esperar demais do amanhã pode ser mais perigoso do que otimista. Confesso que já ultrapassei minha cota desta vida escutando sermões dos meus amigos sobre a vida, o amor e o amanhã serem mesmo muito bonitos, mas que é preciso viver o hoje. Quem precisa do amanhã? 2013 está acabando e o que eu ainda estou tentando aprender com isto é que, realmente, o hoje vale a pena. O hoje foi bom e eu adorei estar com todos vocês. Mas o que eu quero, o que eu ainda espero, é não estar relativamente sozinho ao som de fogos de artifício de novo, me afogando em um drink enquanto preferia estar me afogando nas insanidades e ternuras de outra pessoa.
            E então eu aprendi a agradecer pelo hoje e cada dia que passa, mas que não só ainda existe um espaço em meu coração reservado para tudo que o amanhã ainda trará, como é exatamente disto que eu preciso em alguns dias. Porque alguns dias simplesmente não dão certo. Porque às vezes as pessoas estão longe. Porque eu precisava ir no mercado hoje mas não deu tempo. Porque eu ainda tenho tanta coisa pra fazer, roupa pra passar, barba pra tirar, relatórios pra escrever e – adivinhem só – louça pra lavar, que hoje vai ser pequeno.

            Eu preciso do amanhã. De copos de uísque, fogos de artifício e esperança de novo. Não me leve a mal, 2013, você fez um excelente trabalho em elevar minha vida para um grau de felicidade ainda maior do que eu esperava. Eu sou grato, de verdade. Cada ano tem sido melhor do que o anterior, mas nem cada dia tem meu agradecimento totalmente sincero. E é por isso que eu preciso do amanhã. Tudo está acabando, mas ainda há muito o que começar.