domingo, 15 de dezembro de 2013

Desafio completo


Eu preciso de um ano novo. Não me leve a mal; 2013 conseguiu ser ainda mais do que eu esperava quando desejei esperançosamente durante o réveillon passado que este fosse o melhor ano das nossas vidas, e de certo modo foi. Claro, erros foram cometidos, calamidades aconteceram, pessoas se afastaram e, por mais que pareça que nada mudou, tudo está diferente. Eu estou diferente. Eu cresci, amadureci, sorri (inclusive em fotos), chorei, ri, gritei, andei, corri, me acidentei e voltei a andar. E cá estou, tentando ser assíduo com a minha escrita que, por algum motivo, não parece mais fluir tão naturalmente quanto antes. Talvez seja por cansaço, talvez seja pela fadiga emocional que eu ando arrastando dentro de mim. Eu não sei. Ultimamente tem sido difícil discernir algumas coisas, como quem é amigo e quem não é, aonde eu quero ir e aonde eu não quero, e quantas pedras de gelo eu quero no meu copo de uísque. Mencionei que já posso beber de novo? Pois é. Seis meses depois e cá estamos, já com dor de cabeça por ter tomado cervejas demais no almoço de Domingo. A vida tem dessas coisas. Este ano teve dessas coisas. Talvez nem todos concordem que foi bom, mas definitivamente foi diferente à sua maneira. Mas não é disto que eu quero falar.
            Eu quero falar sobre o que eu sempre falo, porque aparentemente é só disso que eu sei viver. Amor, amigos, antibióticos... Não me leve a mal, eu ainda quero amor. Espero que chegue logo o dia em que eu aprenda a amar tão bem quanto acredito que sou capaz de escrever sobre isto. Não deveria me espantar que a teoria vem muito mais fácil a mim, e indiscutivelmente de maneira mais poética, do que a tragicomédia da prática que em um momento nos faz agradecer por aquela pessoa, e vez por outra nos faz querer fugir dela. Eu ainda quero amigos, mas não quero obrigar mais ninguém a passar tempo comigo caso não seja do seu interesse. Se quiser conversar, dar risada, dividir uma cerveja ou simplesmente fazer nada, sabe que eu estou aqui. Sabe aonde me encontrar, que número de apartamento deve interfonar e que você pode se sentir em casa aqui. Se não quiser entrar, tudo bem também. Ultimamente eu ando recebendo desculpas demais. Por promessas demais que foram feitas em vão ou por impulso, mas que não estavam aptas para serem cumpridas. O que particularmente me ofende, para ser bem sincero. Em se tratando compromissos, diga o que quiser de mim, mas promessa feita é desafio aceito. E um desafio aceito deve ser cumprido.
            Foi isso o que me levou adiante muitas vezes durante este ano, especialmente quando as coisas pareciam ir de pior a óbito. Quando deixei oportunidades passarem e decidi que precisava levantar a bunda do sofá e fazer alguma coisa se quisesse que minha vida se tornasse mais do que um pedido rotineiro na pizzaria e dois litros de Coca-Cola em um Sábado à noite. Ou quando conheci pessoas que eu jamais pensei que poderiam fazer parte da minha vida do modo como fazem hoje. Pessoas, inclusive, que eu já havia conhecido antes e descartei com a mesma facilidade com a qual me deparo com momentos em que poderia tomar uma decisão que mudaria todo o rumo da minha vida, e aceno para estes momentos quando deixo passarem batidos por mim. Mas isso acaba aqui, juntamente com 2013, meu cinismo desenfreado e minha falta de fé na humanidade. Se é que promessas realmente valem alguma coisa.
            O que me deixa feliz é que nem toda a desesperança que habita o meu ser foi o bastante para impedir que 2013 fosse o melhor ano da minha vida. Eu tenho sorte. Muita sorte. Não é aquela sorte do tipo comprei-uma-raspadinha-e-ganhei-um-real-pra-comprar-outra-raspadinha-e-tentar-ganhar-mil-reais-de-novo. Não. É aquela sorte do tipo caiu-uma-telha-na-minha-cabeça-e-eu-sobrevivi. Cada ano tem sido melhor do que o que passou, por mais que meus dramas pareçam aumentar e, curiosamente, diminuam a frequência de lágrimas que se escorrem pelo meu rosto. Eu não choro mais tanto assim, talvez por algum instinto de autosobrevivencia que as impede de caírem por medo de que eu enferruje de vez. Mas como se este ano não tivesse sido intenso o bastante, tudo indica que 2014 será ainda melhor. Com o estágio novo que consegui, a autoescola que pretendo terminar, e o pós-tratamento do Roacutan que já me permite sentar em uma mesa de bar e me deliciar com um copo de cerveja e a sensação de que as coisas estão voltando ao seu eixo.

            Mas eu preciso de um ano novo. Sabe por que? Porque viver cansa. Tentar correr atrás dos objetivos cansa. Tentar colocar em prática os planos que você só se lembra que fez quando está prestes a dormir de noite e acaba deixando pro dia seguinte, cansa. Tentar ser aquela pessoa melhor, mais decidida, menos carente, dependente e romântica, para atrair pessoas novas e quem sabe até um novo amor, cansa. Tentar cumprir as mil promessas que você fez no último ano-novo e ainda não cumpriu, cansa. Não vou mentir. É bem provável que à meia noite eu esteja na sacada com um copo de uísque em mãos e vislumbrando os fogos de artifício como uma metáfora de uma mudança que explodiu dentro de mim e me encheu de determinação para enfrentar os próximos 365 dias que virão de uma maneira diferente, assim como eu fiz ano passado. Só que apesar de estar no mesmo lugar, será uma pessoa diferente que estará prometendo um ano novo para si mesmo. Uma pessoa que passou por muita coisa em 2013, boas e ruins, altos e baixos, risos e silêncios melancólicos, brindes e tratamentos médicos, mas que sairá deste ano com a sensação irrefutável de que, se há um ano eu decidi que este seria o melhor ano da minha vida, então, senhoras e senhores, eu declaro aqui: desafio completo.

domingo, 8 de dezembro de 2013

Uma comodidade preciosa


            Uma semana antes de me mudar para Cascavel, eu me lembro de estar conversando com um dos meus melhores amigos na sacada da casa dele. E durante uma das nossas últimas madrugadas de tereré, arguile e filosofia enquanto eu ainda morava lá, eu tive um pensamento ridículo:

- Eles vão me odiar lá.
- Por que acha isso?
- Porque sim. Não sei se vou conseguir fazer amizades por lá. Eu sou difícil...
- Sim, você é. Mas você vai fazer novos amigos sim. Só não se esqueça dos antigos...

            E por um tempo eu acreditei nele, especialmente durante os primeiros meses de adaptação em uma nova cidade que decididamente não parecia se importar muito com o quanto era difícil para mim me acostumar com todos aqueles novos rostos, ruas e compromissos. Talvez eu fosse mesmo difícil demais para cativar outras pessoas fora do meu habitat natural.  Ou talvez eu estivesse com medo demais. Medo de abrir a porta para que alguém pudesse entrar e se sentir a vontade com a minha bagunça, tanto física quanto emocional, e que, por incrível que parecesse, isto fosse o bastante para ser acolhedor e dar sentido e importância a outras pessoas para compartilharem a minha nova vida. Coisa que hoje parece ridiculamente irônica pra mim, visto que com o passar dos anos e das lágrimas, minha casa não só se tornou acolhedora para as vidas de muita gente, como eu também me tornei confiável o bastante para fazer você se sentir bem vindo.
            A verdade é que eu sou mesmo difícil. E egoísta. E demasiadamente incapaz de lidar com mudanças como um processo natural da vida, mas como uma calamidade que cruzou o meu caminho (ou que caiu na minha cabeça, como eu senti recentemente). Eu tenho problemas em abrir mão do passado, e ainda mais em abrir a porta para o futuro. Por mais que eu a deixe destrancada a maior parte do tempo, de nada adianta se não há alguém que se sinta vontade para entrar sem bater e reconhecer a minha bagunça também como algo natural, e não como o fim do mundo que muitas vezes é o que me parece. Cada um tem a sua bagagem, os seus momentos de fragilidade em que parece que tudo o que o compõe é desorganizado e inconsistente, e é isso que dificulta tanto expandir meus horizontes, cumprimentar pessoas desconhecidas e – infelizmente – aprender a conviver com diferenças e aceitá-las como o revés que inevitavelmente nos torna humanos ao fim do dia.
            Mas eu conheci pessoas novas que não só foram capazes de olhar além da dificuldade intransigente do meu ser, como se sentem a vontade dentro do lar que eu construí e às vezes não veem a hora de voltar a sentar no meu sofá ou na minha sacada. Para conversarmos sobre como foi o dia, ou para tentarmos procurar juntos pela solução de um problema, ou para sermos ouvidos um pelo outro quando a irreverência da vida se sobrepõe sobre a nossa própria e nos atrapalha a respirar. O que também é irônico, porque sempre acabamos fazendo isso enquanto alternamos a vez para fumar o arguile.
            Eu tenho pessoas insubstituíveis na minha vida. Pessoas que acompanham as vitórias que eu conquisto e os dramas que eu crio quando saio de casa todos os dias, e que se dispõe a me ajudar quando acabo chorando por causa de um amor quebrado, ou cansado por uma causa que parece ter sido em vão, ou enfaixado por causa de uma telha. E chamo estas pessoas de amigos, porque foi a sorte que a vida nos permitiu e que a intimidade e a cumplicidade nos mantém.

            Eu tenho pessoas que enfeitam porta-retratos na minha estante, que arranjam festas-surpresa, que mandam mensagens aleatórias só para não perdermos o contato e que fazem o esforço para que a gente continue sendo a gente. Mas também tenho pessoas que erram, que esquecem, que tem suas dificuldades, impaciências e inseguranças também. Tão desesperadoras e diferentes quanto as minhas. A diferença é que estas pessoas ainda são capazes de aceitar as minhas falhas, meus limites e minhas dificuldades. Eu, por outro lado, não ando conseguindo ser tão bom quanto a nova caneca de café que ganhei diz.


          Quatro anos atrás, eu tinha medo de não conhecer vocês. Agora tenho medo do que poderia ter sido se isto tivesse mesmo acontecido. O que seria de mim sem aquelas festas loucas de sexta-feira? Ou sem as mesas redondas que fazíamos para tentar encontrar sentido nos nossos relacionamentos, nossos problemas, nossos corações... Eu tenho essa mania de querer fazer tudo sozinho. Conseguir tudo sozinho, porque parte de mim acredita é que neste patamar que eu preciso me manter para ser capaz de ajudar vocês. Como se minhas diferenças, meus desenganos, minhas angústias precisassem ficar guardadas no bolso para que eu possa ajudá-los com as de vocês. E o meu erro foi crer que eu precisava mesmo fazer isso, por mais que ninguém tenha pedido. Pelo contrário, vocês estão sempre aqui, entrando sem bater, colocando os pés na mesinha de centro, reclamando que não tem nada de bom na geladeira, e me ajudando a assimilar a confusão constante que eu chamo de vida. Eu sou grato por isto, mas não acho que tenho dito isso o bastante.
            Amizades são como jardins nos fundos de uma casa. Precisam ser cuidados, mas sempre acabamos adiando para o próximo fim de semana. Mas até onde vão os nossos fins de semana, sendo que eu já não faço nada demais durante os meus, tampouco sei por onde vocês andam. O que nós criamos é especial. Uma comodidade preciosa em tempos de relacionamentos abstratos e superficiais, mas que ainda precisa ser cuidada. Bom, eu estou aqui. Cometi erros, fui impaciente, briguei, argumentei, esquentei a cabeça e irritei todo mundo até o ponto de decidir fazer falta do que criar caso. O problema em querer dar conta de tudo sozinho, foi perceber que era exatamente isto o que está me deixando sozinho.
            Eu não quero ficar sozinho. Muito menos quero tirar os porta-retratos da estante. Se eu sou um grande amigo, foi graças a vocês. E agora é hora de retribuir a comodidade. Obrigado.

terça-feira, 3 de dezembro de 2013

Armas de auto-destruição


Minha dor é silenciosa. Sinceramente, acho que nem minha dor sente que dói. Ou então se sente, acho que não liga mais. Minhas lágrimas, quando existem, são secas. Evaporam em questão de segundos, antes mesmo que alguém seja capaz de perceber que havia sofrimento neste olhar, nesta alma amaldiçoada pela comodidade que a melancolia há tempos lhe proporcionava. Meu coração não está partido. Meu coração está quebrado, esmigalhado, estraçalhado e espatifado no chão, refletido somente através de um milhão de cacos impossíveis de se reajuntarem. Mas não é por sua causa. Ah, não. Definitivamente não é por sua causa. É por mim mesmo. Fui eu. Fui eu quem te fez abrir as mãos para segurar a chave da minha casa, o número do meu telefone, o endereço do meu prédio, a contradição da minha alma e toda a esperança que ainda ecoa dentro de mim, rezando solenemente por abrigo na eternidade da minha existência amargurada e inconsistente sem o ardor do seu olhar. Eu amo você, mas eu entendo completamente você não me amar de volta. Não porque eu não mereço – ora, pois, senão o que haveria aqui para aspirar pelo amor de outra pessoa, senão a priori prezasse pela delícia de existir como si mesmo, apesar dos apesares e de tudo mais que esta essência cansada e ofegante carrega consigo para permanecer de pé. Correndo enloquecidamente para manter-se no mesmo lugar, e esperando incansavelmente pelo dia em que você decida juntar-se a mim, mão à mão, bochecha com bochecha, até que a morte nos separe. Eu não sei pedir ajuda. Não sei pedir socorro. Tampouco sei admitir derrota, ou que o peso está acabando com as minhas costas. Honestamente nem sei se estou disposto a abrir mão da ilusão da minha autosuficiência, o que confesso que me confunde um pouco: pois não estava inconsistente sem o seu amor? Como pode alguém querer existir sozinho, ao mesmo tempo em que deseja viver com outra pessoa? Enfim, chegamos ao problema. E o dilema das partículas do meu coração não parece parar por aqui. Ainda existem outros quinhentos fragmentos somente esperando para furarem os pés de alguém que se atreva a percebê-los, e para desmascarar a fraude da minha desilusão. Eu amei você, sem antes amar a mim mesmo. Não deve existir pecado maior do que abandonar a si mesmo para cuidar de outra pessoa. O começo de uma lágrima espaireceu pelo meu rosto. Agora sim, estamos chegando a algum lugar...” (Igor Costa Moresca)

***

            Não há força mais destrutiva no universo capaz de me afligir mais intensamente do que eu mesmo. Não há desilusão avassaladora o bastante para estraçalhar as minhas esperanças, porque afinal de contas fui eu mesmo quem as plantou, colheu e soltou no mundo achando que vingariam. O mundo não tem nada a ver com o que eu espero dele, especialmente quando o que eu espero dele vai contra o que ele pode me oferecer. Não existem piadas ao meu respeito que você possa fazer sobre mim, que eu mesmo não me proponha a criar. Você não pode me ferir mais do que eu consigo exterminar a mim mesmo, sonho por sonho e lágrima por lágrima.
            Não me olhe assim. Como se eu estivesse falando alguma besteira. Todos nós temos algum tipo de botão de auto-destruição que nem sempre guardamos para emergências. Como os pedaços de pizza que sobraram da janta e já estão resfriados na geladeira, que você ataca de madrugada mesmo sabendo o que isso vai fazer com a sua dieta – ou com os seus planos de começar alguma dieta um dia. Ou como as oportunidades que surgem para ampliar os seus horizontes, te apresentar pessoas e lugares novos, e podem transformar uma noite de Sábado em algo mais memorável do que afundar-se no sofá ao som da novela e os carros que passam pela rua da sua casa com o funk no volume máximo. Ou, quem sabe, amar alguém que você simplesmente não pode ter, mas insiste na fantasia que o mundo do “quase” te proporciona. Nós quase demos certo. Nós quase nos entendemos. Nós quase funcionamos.
            Eu acho que, de todas as maneiras que nós mesmos nos atingimos e demolimos a estrutura do nosso equilíbrio emocional, amar alguém que não está ao seu alcance é provavelmente a pior de todas. A única diferença entre suicídio assistido e amor não-correspondido é que, no primeiro, as pessoas reconhecem a necessidade de um velório e uma prisão, enquanto no segundo de nada adianta se você não quer rever o sol; você ainda precisa sair de casa amanhã para trabalhar, cumprir os seus prazos, passar no mercado e comprar mais sabão em pó, retornar as ligações da sua mãe que você não ouviu, por mais que a sua alma tenha sido dizimada. E não foi por menos; como se já não fosse o bastante termos embutido em nós um botão de autodestruição, alguns ainda o encarregam a outra pessoa que nada tem a ver com o nosso bem estar – ou pior, não se importam com ele. E ainda se surpreendem quando outra pessoa aperta o botão e acaba conosco num piscar de olhos. As batidas do seu coração se aceleram, até se aquietarem e começarem a deixar a vida passar batido pelos destroços que agora compõe o que sobrou de você.
            Eu acabo comigo constantemente de tantas maneiras que sequer consigo parar para reconhecer o que estou fazendo, até que algum espectador preocupado me faça perceber a altura em que estou e me impeça de pular lá embaixo e acabar com tudo. Eu como demais, bebo demais, falo demais, brigo demais, excluo pessoas da minha vida quando dão defeito – ou, em uma concepção mais realista, acabam mostrando que são humanas – e mais vezes do que deveria prefiro ficar sozinho e derramar todos os meus problemas ao meu redor. Não necessariamente para tentar resolvê-los por conta própria, mas para ter ao menos uma ilusão de controle sobre eles.
            Eu li em algum lugar da minha vida que nossos maiores inimigos são nós mesmos e não é mentira. Há um motivo pelo qual nossas expectativas detonam na nossa cara quando trombam com a contradição da realidade à nossa volta, ou porque são os nossos próprios medos que muitas vezes impedem que a gente quebre padrões, ultrapasse limites e descubra exatamente do que somos feitos e até onde podemos chegar. Estamos ocupados demais nos prendendo a nós mesmos, e nos sentindo desesperados por isto ao mesmo tempo. Não culpe outra pessoa pelo seu dia ruim, ou pela sua frustração com algo que não deu certo, ou até mesmo pelo seu coração partido. A pira vem de dentro, e não há nada mais fácil do que permitir ser sugado pelo nosso próprio vórtex de drama interior, que preza mais pela deliciosa sensação de mártir do que pela capacidade de auto-realização por tomar mais atitudes e assumir a responsabilidade dos seus atos. A culpa não é da pizza, nem da vodka, e nem sua. Sou eu quem esteve ocupado demais atirando em meus próprios pés, enquanto deveria estar mais preocupado em seguir adiante.
            Chega de martírio, de sadomasoquismo compulsivo e de chorar pelo amor derramado. Se existe alguém tão ruim capaz de me derrubar como eu mesmo, então este mesmo alguém é capaz de me elevar ainda mais do que eu ainda desconfio que sou capaz. Só espero que isto não seja uma bomba-relógio disfarçada de promessa-de-fim-de-ano-que-vence-logo-no-dia-seguinte, mas por ora digamos que sim, eu vou ficar bem.

            Sabotagens à parte, eu vou cuidar de mim.

domingo, 1 de dezembro de 2013

Tudo pode acontecer


            Tudo está acabando. Eu disso isso há um mês, quando Novembro parecia ser apenas mais um mês e não um prelúdio a propagandas de Natal na televisão, confraternizações de amigo-secreto, e ligações da minha mãe para que eu comece a procurar por um peru desossado para a ceia. Parecia ansiedade de separação demasiada por um ano que ainda tinha muito a oferecer, salvo pelo acidente que, felizmente, em vês de me subtrair uma perna, me trouxe uma vacina anti-tétano e um celular novo. Mas aqui estamos, senhoras e senhores. O fim do ano chegou. Os parentes já estão avisando que virão, as luzes de Natal já estão acesas, as aulas acabaram e o fatídico tédio das férias já tomou conta da minha rotina. 2013, você foi muito bom pra mim, até mesmo enquanto estava me torturando, mas você ainda tem mais 30 dias pela frente para se superar e me surpreender.
            Não me entenda errado, 2013. Eu sempre costumo dizer às pessoas que minha vida, além de engraçada, é ridiculamente boa. Cada ano tem sido melhor que o anterior, e me faz sentir que tenho cada vez mais motivos para agradecer quando deito a cabeça no travesseiro à noite. Você foi demais, de verdade. Foi o ano em que eu descobri o que realmente é ser um psicólogo, e que eu provavelmente tomei a decisão certa para a minha vida profissional. Foi o ano em que eu encontrei amor, nem que tenha sido somente para descobrir que eu talvez não esteja pronto para me comprometer completamente com outra pessoa. Não enquanto ainda há tanta liberdade que meu eu pode esbanjar e aproveitar, sem precisar se preocupar em ligar antes para alguém para avisar aonde estou indo – ou pior, para pedir permissão.
            Foi o ano em que eu abri minha casa para o mundo, literalmente, e percebi que por mais que tenha sido difícil transformar uma casa, um sofá e uma sacada em um lar, é ainda mais desafiador acolher amigos e colegas como família. Foi o ano em que eu aprendi que amigos são muito diferente de colegas, que confiança é algo muito valioso para ser compartilhado sem ter certeza de que outra pessoa não a usará para te destruir de dentro para fora, e que por mais que coisas novas pareçam aversivas ou assustadoras, é mais fácil dizer “sim” ao desconhecido do que permitir que a mesmisse tranque as portas.
            Foi o ano em que eu ri, chorei, me desesperei, caminhei, me decepcionei, tomei litros de tereré na sacada, tirei fotos no sofá, comecei a dividir o apartamento, me apaixonei, quase fui processado, conheci pessoas novas, abri mão do meu passado, arrombei a porta do meu banheiro sem querer, visitei minha família, derrubei meu celular da sacada, fui demitido, vi uma empresa fechar, arrumei outro emprego, fui pra São Paulo receber um prêmio, namorei, terminei, enchi a cara, fumei, participei de um protesto pelo Brasil, fiquei doente, organizei jantares em casa, briguei com muita gente (e fiz as pazes com alguns), fui pra balada (e tive alguns arrependimentos), tomei chuva, passei frio, dei festas para meus amigos, surpreendi meus pais nos seus aniversários, assisti filmes com a minha irmã, fiz um tratamento para espinhas, passei meses sem beber, senti saudades de tudo, completei 22 anos (e ganhei uma festa surpresa), comecei a auto-escola (sim, estou atrasado), me acidentei, quase morri, ressuscitei, ganhei um celular novo, escrevi um TCC, terminei o quarto ano, morei junto com alguém por um ano e, como se não fosse o bastante, sentei e escrevi sobre tudo isso.
            Nos primeiros instantes de 2013, um dos meus amigos me incentivou a fazer uma promessa. Uma promessa que eu tentei cumprir com todos que compartilham minha vida comigo: este seria o melhor ano das nossas vidas. Ainda é cedo para estourar o champanhe e cantar vitória: ainda temos 30 dias pela frente onde – falando por sofrida e extasiante experiência – tudo pode acontecer. Tudo só vai acabar quando a Globo anunciar “Feliz ano novo!” e os fogos de artifício iluminarem o céu e assustarem a minha avó com o barulho. Enquanto isso, aproveitem a última curva da viagem. 2013 foi bom, deu o que falar e cumpriu tudo que devia, mas ainda não acabou.

            E o seu 2013, como foi?