quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

O lixo existencial


            Em conversas com algumas pessoas que se inspiraram com meus surtos de ócio criativo e queriam saber como era para mim escrever coisas tão sem sentido, mas ao mesmo tempo tão dolorosamente profundas e sinceras, eu disse que era como jogar o lixo fora. Jogar o lixo fora? É! Pensa comigo: Você vai no supermercado e compra um bolo, ok? Aí você chega em casa, arruma a mesa com todo o cuidado, coloca a cafeteira pra trabalhar, e muda o status do seu WhatsApp pra “Comendo bolo, oh yeah”. Então você senta na mesa, serve um café, corta uma fatia do bolo e imediatamente sobe aos céus do orgasmo estomacal. A primeira mordida te dá aquela expressão de “Esperei por você a vida inteira!”, coisa que algumas pessoas já não te provocam mais, só a comida mesmo. Aliás, acho que depois de algum tempo, a gente deixa de sentir amor com o coração e só sente paixão com o estômago, mas isso é assunto para outro amanhã.
            Enfim, as primeiras fatias daquele bolo foram deliciosas, saborosas, salivantes. Aí você guarda o resto daquele bolo na geladeira para comer mais algum outro dia, só que você se esqueceu de que essa semana era o prazo final para entregar aquele trabalho sobre a visão de Freud sobre o narcisismo, que tem reunião no trabalho a respeito das novas estratégias de divulgação dos projetos de assistência social da prefeitura, que você precisa retornar as três chamadas não atendidas da sua mãe que ficou preocupada com você ontem depois da sua consulta no dermatologista sobre aquele cisto estranho no seu pescoço, mais a chamada daquela garota que te chamou pra sair justo enquanto você estava no telefone com a sua mãe e esqueceu de mandar mensagem perguntando como ela estava só pra não perder o contato, e que você ainda precisa passar no mercado a caminho de casa porque acabou o detergente para lavar aquela louça do jantar que você organizou em casa anteontem e ainda não lavou porque ainda tinha espaço na pia para renegar a louça do seu café de hoje de manhã.
            Quer dizer, aonde você encaixa o resto daquele bolo nisso tudo? E o bolo não espera pela gente; muito pelo contrário, ele se transforma em uma bomba relógio na sua geladeira que irá autodestruir sua deliciosa, saborosa, salivante consistência exatamente quando você se lembrar da existência dele de novo e abrir a porta da geladeira só para se deparar com seus restos mortais em decadência dentro daquele tuppaware da sua mãe – que você também se esqueceu de devolver e sempre dá uma desculpa quando ela liga cobrando, mas que agora vai ter que jogar fora e ser condenado pelo resto da vida por ser “irresponsável” com tudo que a mamãe te empresta. Acontece, então, uma revolução dentro de você. Aquela calma que só o desespero dá, se multiplica e passa a tomar atitudes por você, depois de borbulhar toda a raiva, ansiedade, angústia, tesão desperdiçado e tristeza por ter chego mais uma sexta-feira e, em vês de sair, você levanta a bandeira branca e decide ficar em casa porque não há balada no mundo que compense você deixar a sua cama para trocar de roupa, se meter no meio de uma multidão de pessoas bêbadas e música alta, e ainda se agarrar na esperança de que aquele dia ainda pode valer a pena.
            E aí você vai até a geladeira de madrugada para pegar uma garrafa d’água e reencontra aquele tuppaware, só que sem nenhuma lembrança do que há dentro dele. E então você o redescobre: o bolo delicioso, saboroso, saliente que você comprou mês passado, comeu três fatias, e deixou perdido no vórtex de esquecimento aleatório e caos transitório que compõe a sua vida. E às três e quinze da manhã da madrugada de um Sábado, você joga aquele bolo fora, tenta ressuscitar a tuppaware da sua mãe para evitar mais um sermão da montanha com o detergente que você milagrosamente se lembrou de comprar, e sai da cozinha se sentindo ridiculamente vitorioso. O que eu quero dizer com tudo isso? A vida é a vida mesmo; a minha tem dessas coisas de esquecer comida na geladeira porque passei a semana alternando entre reuniões de trabalho, filas de banco, mensagens de amigos ressentidos porque esqueci de respondê-los, consultas médicas a respeito do que sobrou da minha saúde precária, e telefonemas da minha mãe me xingando porque eu não tenho paciência com ela, até que ela mesma perde a paciência e desliga na minha cara. Se sua vida não for parecida com isso, certamente tem outros problemas que te fazem esquecer que a semana tem cinco dias que passam voando, que muita coisa ficou sem ser resolvida, e que aquele bolo continua guardado na sua geladeira, envelhecendo e apodrecendo como a nossa própria paz de espírito, que é testada pelo tempo a cada boleto bancário que a gente tem que reimprimir porque o boleto de verdade se perdeu pelo correio.
            O sabor do bolo pode variar: pode ser aquele amor perdido que você ainda não superou, aquela paixão arrebatadora que te roubou noites de sono e tentou te sufocar durante a noite com um travesseiro de saudade, ou pode ser de raspas de chocolate mesmo. Agora imagine você jogando esse bolo no lixo, e jogando esse lixo fora da sua casa. É, no mínimo, libertador. Por um milésimo de segundo, aquele lixo representa o fim da repressão de todas as dificuldades da sua vida, que parecem finalmente terem entrado em uma convergência milagrosa e que você, num trocar de uma sacola de lixo, conseguiu se desprender e recuperar aquela sua paz de espírito que você achou que tinha perdido, junto com as chaves do carro e aquele maldito boleto bancário que você teve que reimprimir.
            Pra mim, escrever é isso. É tirar alguns minutos do caos que domina a minha vida para fazer uma limpa na geladeira e jogar aquele bolo fora. Porque eu como muito bolo – metaforicamente falando, por enquanto – mas nem sempre lido com as sobras de maneira muito direta ou saudável. E guardo os restos mortais bem no fundo da geladeira, para lidar com isso em qualquer outro dia que não seja hoje. É como bloquear aquela pessoa do Facebook porque você ainda não quer lidar com o fato de que vocês não andam mais de mãos dadas, não trocam mais mensagens de madrugada, nem se cumprimentam quando se encontram no estacionamento do shopping. Mas quando você tira o dia para limpar a geladeira, e lidar com o fim daquele relacionamento, ou chorar tudo que tem pra chorar por aquela pessoa que simplesmente não vai ser sua, você finalmente confronta o fato doloroso, porém real, de que as sobras daquele bolo não são mais comestíveis, que nada daquilo ainda tem a algo a ver com você, e que o lugar daquilo é no lixo.
            Claro, este blog não é um lixão e vocês não estão aqui chafurdando nos restos mortais da minha vida pessoal, amorosa ou ilusória. Este blog é uma obra verdadeiramente fictícia, cujo objetivo é me livrar de toda bagagem emocional que eu não quero mais carregar, e me emagrecer de todo rancor, insatisfação e dúvidas que costumam me inchar e me impedir de entrar nas minhas calças novas. Caso você se identifique com alguma coisa por aqui, e isto te inspire a mudar sua vida ou – digamos – limpar a sua geladeira, fico feliz por você. Estamos todos juntos neste mundo torto e incorrigível, esperando por dias mais felizes, pela vitória na copa do mundo, e por – digamos – pedaços de bolo que não nos decepcionem.

            Enfim, é por isso que eu escrevo. Alguém está servido?

terça-feira, 28 de janeiro de 2014

A idade sentimental


            Quem vê data de nascimento não vê coração. Digo isso porque é incrível o quanto a idade de alguém parece tão importante para coisas como dados cadastrais em formulários ou audiências disciplinares caso aquela menininha tão experiente que você pegou na balada na verdade nem concluiu o ensino fundamental ainda. Mas não é culpa nossa. Nós vivemos em um sistema social que ainda prende o caráter das pessoas à idade que elas tem, e depois as categoriza em ordem crescente de modo que organizações possam lidar melhor com essa gente sem correr o risco de enfrentar problemas legais. Porque inventaram que pessoas não podem responder por si mesmas ou por seus atos até completarem 18 anos. 18 anos é o primeiro degrau da escadaria rumo à responsabilidade legal, mas está longe de alcançar algum nível real de moralidade realmente exemplar. Mas isso é uma generalização, claro. Tão incoerente quanto a que o governo instituiu para separar os jovens dos adultos. 18 anos é a divisa entre "Eu não sabia que não podia..." e "Ok, fui eu, droga". E depois desse aniversário em particular, um novo mundo se abre diante da gente. Um mundo de direitos e deveres que somos agraciados e amaldiçoados a carregar nas costas, que às vezes nos cai bem, e às vezes só nos derruba.
            Ao contrário dos meus companheiros de guerra de 91, completei 18 anos com todo o medo do mundo. Porque aquele era o limite; de agora em diante, em termos legais e morais, eu estou sozinho. Não posso mais contar com a mamãe e o papai para me livrarem da culpa por algo que eu fiz, por mais que agora eu esteja livre pra fazer o que quiser. Como é da minha natureza pessimista sempre esperar pelo pior e planejar por uma saída de emergência, foi como finalmente ser empurrado do lado raso da piscina e me debater loucamente com todas as responsabilidades do mundo até que eu fosse capaz de me acalmar e descobrir até onde eu conseguiria firmar o pé. Bem vindo ao lado fundo da piscina, rapaz. E dali em diante foram só problemas como registros em carteira de trabalho, acordar de madrugada para prestar contas ao serviço militar, enquanto pensava em aonde iria arrumar tempo para tirar a carteira de motorista. O lado bom é que agora não preciso de ninguém para comprar vodka por mim. Nem tudo está perdido.
            A terra da maioridade é estranha quando se pisa nela pela primeira vez. Não há nada que você não possa fazer, mas pode ser condenado por tudo também. Pelo menos foi assim que eu a enfrentei, o que - olhando em retrospectiva - explica muito sobre alguns dos meus comportamentos de hoje em dia. E o que também serviu para a construção de um caráter deveras duvidoso em termos de equilíbrio emocional, mas inquestionável em se tratando da minha responsabilidade sobre as coisas que eu faço neste mundo. Coisa que eu não havia parado pra perceber há anos, até que algo começou a acontecer.

- Você é casado?
- Não, por que?
- Não acha que já está na hora de assumir um compromisso com alguém?
- An, não? Acho que ainda tenho muito tempo pra pensar nisso ainda...
- Quantos anos você tem?
- Vinte e dois, por que?
- O QUE?!
- Vinte e dois... Quantos anos você achou que eu tinha?
- Não sei... Uns vinte e cinco, talvez?
- Quantos anos você realmente achou que eu tinha?
- Uns trinta. Sei lá. Você parece mais velho...

            Sério mesmo? Trinta anos? Nada contra as pessoas de trinta anos. Vou alcançá-las em breve; é só uma questão de aniversários e invernos que nos separam. O que me surpreendeu foi o reconhecimento das pessoas de um grau de maturidade meu que nem eu sabia que podia passar. Pessoas de trinta anos são assim? Perdidas, contraditórias, neuróticas e teimosas? Porque este sou eu, e quando me olho no espelho sequer vejo vinte e dois anos nos meus olhos. Vejo uns quinze, dezesseis no máximo. O que os outros veem de maturidade aqui, eu vejo de crianssisse exacerbada. Ainda mais depois de fazer a barba. É como se tivesse ficado preso nos doze anos, só que com a voz mais grossa e sem as espinhas.
            Eu não me acho cronologicamente capaz ainda de encher um livro com histórias de todos os absurdos e calamidades da minha vida - e de momentos bons que tive entre um acidente e outro - mas acho que consigo entender o suposto ar de maturidade que as pessoas veem em mim, apesar de não necessariamente concordar com isso. Ao contrário dos trinta anos, parte de mim realmente sente como se ainda estivesse adentrando os primeiros dias dos 18; completamente perdido com tamanha responsabilidade que agora tenho em mãos, acompanhado de um medo perverso que se dá quando se percebe o tamanho do universo além do portão da minha casa, assim como a minha verdadeira medida dentro dele. Então é a esse ponto que cheguei; com meu corpo se desgastando de maneira caótica, com um rosto de vinte e dois anos, um coração de 18, e uma maturidade aparente de trinta. Isso não me incomoda mais tanto assim, porque todo mundo sabe que não é a idade na sua CNH que importa, tampouco a idade mental que esses testes de Facebook geram e te convidam a compartilhar. É a idade sentimental que você carrega consigo que conta.

domingo, 26 de janeiro de 2014

O jogo da indiferença


            Houve um tempo em que o amor costumava seguir uma ordem: duas pessoas se conheciam, se atraiam, se gostavam, se encontravam, se comprometiam, se envolviam com suas respectivas famílias, se organizavam acerca do lugar favorito de cada um na cama, se enfrentavam para que o outro baixasse a tampa do vaso e não apertasse o tubo da pasta de dente pelo meio, até que finalmente se enrolavam ao redor dos laços sagrados e sutilmente sufocantes do casamento. Mas depois de duas guerras mundiais, centenas de revoluções populares e da invenção da pílula do dia seguinte, o amor não pôde deixar de se abater pela nova ordem mundial e pelo modo causal que seus usuários começavam a tratá-lo. Foi assim que jantares românticos, telefonemas de madrugada e demonstrações públicas de afeto foram agressivamente banidas dos costumes sociais, dando espaço para a marginalização do afeto de maneiras - para dizer o mínimo - questionáveis.
            Eu não sou careta, nem santo, virgem ou puritano, mas algumas coisas me incomodam mais do que a crise econômica do país ou a espera pelo episódio em que o Ted finalmente conhece a mãe dos filhos dele. Sim, eu estou falando de relacionamentos. Não, eu não tenho um. Não tenho dinheiro pra isso, nem tanto tempo assim. Tenho tênis sujos guardados que precisam ser lavados a mais tempo do que meu coração está disposto a dar outra chance a alguém, mas isso não vem ao caso. Mas talvez seja essa mesma inversão de valores que eu mesmo incorporei - assim como você, sua vizinha, seu cachorro e mais da metade do elenco da novela das 8 - que me incomoda.
            Bem vindo ao século XXI: o amor está morrendo. Ok, mentira, não está. Mas não há como negar que, se não estiver morrendo, está ao menos em estado vegetativo, lutando para sobreviver com todas as forças que ainda tem, enquanto dificultamos as coisas cada vez mais para ele ao sufocá-lo com um travesseiro com o formato do nosso orgulho ferido. Por trás de alguém que renegou o amor, o romance e as trilhas sonoras dos anos 90, existe um orgulho ferido. E nada me tira da cabeça que no centro obscuro e abandonado desta pessoa, não há um rádio de pilha assombrando "Total Eclipse of the Heart" em seu peito oco.
            São tempos distorcidos os que vivemos. Tempos em que para demonstrar interesse é preciso, primordialmente, não demonstrar interesse. Tudo bem que seres humanos tem essa paixão por brincar com a saúde mental uns dos outros desde a era das cavernas, quando um cro-magnon enganava o outro a colocar a mão no fogo dizendo que aquilo não queimava. Até aí eu entendo e simpatizo; o que eu não engulo mesmo é a zoação como forma de atração. Tudo não passa de um jogo. E, ou você se adequa as regras, ou continua passando os Sábados à noite em casa acompanhado de um pedido padrão em uma pizzaria e a televisão ligada com o Zorra Total no mudo – porque jogar sal na ferida é desnecessário a essa altura.
            A primeira regra do jogo é: vale tudo para chamar a atenção. Tudo é abstrato, incalculável, impensável... E perfeitamente válido, desde que funcione. Até você conseguir distinguir um padrão no meio da confusão. Todo caos tem uma ordem; é assim que o Universo funciona desde a primeira discussão doméstica entre Adão e Eva, e que seus herdeiros continuam repetindo até hoje – só que pelo Facebook. Se eu te chamar pra conversar agora, a próxima vez depende de você. Ganha mais pontos quem aguentar o máximo de tempo sem procurar o outro primeiro. Se procurar primeiro, você não só perde pontos como também uma parte do seu orgulho próprio.
            Segundo mandamento da infame nova ordem mundial do amor: aquele que puxar conversas torna-se eternamente responsável por puxar seus respectivos assuntos. Ganhe pontos extras se passar algum tempo desde a última conversa para a escavação de novos temas; só cuidado para não secar o solo antes da hora, e cair no vácuo do silêncio constrangedor. Não odeie o jogador, odeie o jogo.
            As pessoas gostam do que não tem. As pessoas gozam ainda mais por aquilo que não tem. Por isso a nova moeda de troca para casais que buscam a sonhada estabilidade conjugal não se trata mais de antiguidades como sinceridade, cumplicidade e - por que não? - amor, mas de demonstrações de anti-afeto. Com o intuito de conquistar afeto! Sou só eu quem percebe a incoerência?
            Eu não sou do tempo da renascença, não possui um cavalo branco - muito menos uma CNH ainda - nem tenho mais tantos sonhos avoados e ilusórios de trombar com o amor da minha vida na rua ou em uma balada qualquer, mas não abro mão do meu direito constitucional de definir muito bem minhas relações com as pessoas que fazem parte da minha vida. Amigos, amigos, tretas à parte. Paixões platônicas deste lado; amores verdadeiros, permaneçam na preferencial.

            Se existem momentos definitivos na vida da gente, sejam marcos históricos mundiais ou pequenos passos dentro da nossa própria humanidade, então relações bem definidas nada mais são do que uma extensão da coerência que cada um deveria manter. Senão em prol do próximo, então que seja apenas ao seu coração. Agora, isto não significa que eu estou abandonando o jogo. Só significa que de agora em diante eu não sigo mais as regras.

quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

A lei do desapego


            Nós vivemos em uma era de coisas. De querer cada vez mais coisas. De gostar de pessoas por causa de coisas. De tentar usar coisas para ocupar o vazio deixado por outras coisas. Por outras coisas de outras pessoas, que acabaram indo embora por causa de, bom, outras “outras coisas”. E quando isso acontece, o valor que associamos a essas coisas acaba sendo maior, porque passamos para elas tudo aquilo que aquelas pessoas significavam, mas que agora não estão mais aqui para matarem a nossa saudade. Não. Só o que sobraram foram as coisas, que de certo modo se transformam numa espécie de tesouro deixado para trás por essas pessoas. Tesouros que não conseguimos jogar fora, nos auto-censurando ao sequer pensar nisso pois, afinal, o que fulana iria pensar de me visse jogando isto fora? É como se eu estivesse jogando fora o resto de esperança que ainda tenho em nós. Engraçado como nos livramos tão facilmente das pessoas, enquanto as coisas que ficam – as coisas que realmente podem ser jogadas fora – permanecem por muito mais tempo. Jogadas em cantos obscuros da casa e do nosso coração, mas que fingimos não ver porque – por algum motivo – ainda não estamos prontos para lidar com isso.  Como se coisas fossem tão complicadas assim.
            Baseado nesse espírito assombrador de ex-pessoas e as coisas que deixaram para trás, foi criada a lei do desapego. Desenvolvida em meados do século XXI por jovens que recém venceram o desânimo de voltar a viver – e reaprender a envolver-se com, bom, coisas novas – e decidiram levar a famosa faxina de primavera a um novo patamar. Vão-se as velharias, ficam as novidades. Vão-se as amarguras, ficam os sorrisos. Toda vez que a minha mãe vem pra Cascavel e se hospeda em casa – e toma posse do meu quarto porque a cama é melhor e, bom, porque aparentemente ela ainda tem autoridade pra fazer o que quiser comigo, independente do contexto – ela faz “a faxina”: a limpa de peças antigas do meu guarda-roupa que não servem para mais nada a não ser ocupar espaço, acumular ácaros e atrapalhar as peças de roupa dela que precisam de cabides mais do que meu museu de vestuários precisam de exposição. Como ano passado não foi diferente, tive que suportar a partilha de camisetas que tenho desde os tempos apocalípticos da pré-adolescência, calças que continham em si mais esperança de que eu ainda pudesse caber nelas do que uma real perspectiva dos meus novos e avantajados quadris de homem, e sapatos que... Ok, não havia nenhuma justificativa para guardar aquele boot antigo com os cadarços estraçalhados a não ser por preguiça de mexer naquele sapateiro. Ok, preguiça e dificuldade de desapego.
            O que foi diferente esse ano – e o que talvez aconteça bastante ao redor do mundo durante o fatídico dia primeiro – foi que a partilha continuou, mesmo sem as ordens da minha mãe, gritando para reforçar meu desapego como um general ordena suas tropas a invadir o território inimigo sem piedade, e se desfazer dos destroços dos outros combatentes sem dó. Ou então, foi apenas assim que me senti mesmo quando concordei em me desfazer de cinquenta tons de camisetas cinzas – que foram brancas um dia - que eu havia prometido a mim mesmo que usaria para dormir. Enfim, independente das ordens do sargento mãe, havia sido dada a largada para o que viria ser o pequeno passo do aliviamento do meu guarda-roupa, porém um grande passo para a minha humanidade.
            Quando menos percebi, junto aos tênis velhos e as camisetas rasgadas, também foram embora a dó desnecessária, a esperança infame e a piedade inútil que eu ainda segurava por pessoas. Pessoas que estavam de certo modo grudadas naquelas roupas, e sorrindo falsamente nos porta-retratos da minha estante, e sujando a já frágil santidade da linha do tempo do meu Facebook. O segundo passo da minha manifestação pessoal de revolta contra ser contra o desapego veio de forma virtual. Mais precisamente, ao remover a opção “Desejo receber notificações dessa pessoa”.
            O que antes parecia algo tão mesquinho, tão idiota e tão teoricamente fraco de se fazer acabou me fortalecendo de maneiras que eu nem pensava que fossem possíveis. Eu não queria não ver aquilo porque era incômodo ou doloroso, mas porque eu finalmente havia atingido o estado espiritual de pura indiferença, a apoteose de um “foda-se” bem mandado e o zeitgeist de um bom desapego. Eu não quero saber da sua vida, porque suas atualizações mesquinhas, idiotas e fracas estão me atrapalhando a ver outras coisas de gente que realmente me importa. E coisas novas de gente que eu não conheço ainda.


          Mas o ápice da minha marcha a favor do desapego foi mesmo com aquele guarda-chuva. Meses atrás quando eu era menos preocupado em ser inteligente e sensato, e mais preocupado em permanecer jovem e apaixonado, eu conheci alguém. Convenhamos que era alguém boa. Muito boa. Tão boa que até quis me dar amor em troca quando eu confessei que era isso que eu sentia por ela. E nós fomos felizes. Ah, como nós fomos felizes. Até não sermos mais. Até eu perceber que aquilo iria acabar mal, e até ela me fazer perceber porque eu fiz a escolha certa. Mas entre o nascimento e a missa de sétimo dia do nosso amor, houve um guarda-chuva.
            Um guarda-chuva que ela me fez comprar quando fomos surpreendidos por uma fria tempestade que nos empurrou para dentro de um supermercado para esperarmos ela passar. E entre tentarmos aproveitar aquele tempo para passearmos e sermos bobos juntos, passamos por uma gôndola de guarda-chuvas. A maioria deles preto básico, e uns dois ou três pretos com bolinhas brancas. “Amor, compra um desse. Mas por que logo esse? Porque é bonito!”. As coisas bobas que fazemos por um amor que está começando são diretamente proporcionais às atitudes drásticas que tomamos quando ele acaba. Acontece que mesmo depois do amor ter acabado e da ex ter desgastado toda a minha esperança de querer voltar a usar aquele guarda-chuva, aquilo continuou aqui. Jogado em um canto da casa, e só era lembrado quando já era tarde demais e estava chovendo lá fora e eu ficava entre engolir o orgulho e usá-lo, ou tentar usar meu orgulho pra não me molhar lá fora. Apesar de todas as coisas ridículas que eu já fiz nessa vida, eu não deixaria de usar um guarda-chuva só porque ele simboliza o irônico auge do nosso amor, e o souvenir assombrado que sobrou dele. E sim, eu sei o quanto dizer isso foi ridículo, e o quanto eu continuava a ser ridículo por não querer jogar aquele guarda-chuva fora. Até hoje.
            Jogar o guarda-chuva fora não foi só jogar um guarda-chuva fora, igual se desfazer de roupas velhas não foi só de desfazer de roupas velhas e tudo mais. Foi um grito de independência, um ato de coragem e uma prova de desapego que serviu pra ensinar a me desprender de tudo aquilo que estava empoeirado com saudade e jogado pelos cantos da minha casa, e me fazia tropeçar em vês de seguir em frente e me concentrar em coisas mais importantes como, digamos, coisas novas e ser feliz. É com isso que eu me importo agora, e você pode fazer parte disso ou não, mas coisas não importam mais pra mim. Apenas ações importam. Companhia importa. Sinceridade importa. Amor importa. Minha casa não é um mausoléu, e um coração não é lugar para acomodar teias de aranha. A faxina só está começando, mas já me sinto respirando bem melhor. A garganta não tranca mais com falsas promessas e sorrisos tortos. De agora em diante só felicidade cabe aqui.

            Coisas velhas não acrescentam nada se eu quiser ter mesmo uma vida nova esse ano, começando por uma ida à Renner. Preciso de roupas novas.

segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

A estrada adiante


Tudo está acabando, e estou falando sério desta vez. Tudo bem que 2014 mal começou, mas apesar de ainda estarmos em Janeiro, de fotos de pessoas na praia com as pernas abertas de frente pro mar estarem alagando o Facebook, e das promessas de ano-novo ainda terem cheiro de novas, não tem como negar que este será um ano definitivo para muitas coisas. Ou então, pelo menos para mim e mais um punhado de pessoas que conheço, será. Porque este é o último ano da faculdade.
            O ano que passou por um prelúdio de quatro dezenas de meses de introduções a teorias, práticas e reflexões do que é ser um psicólogo. Como é existir como psicólogo, atuando como facilitador de enfrentamento de pessoas com quaisquer processos de adaptação que estejam passando. E mais importante; o que fazer com tudo isso, para que as neuroses dos outros não nos enlouqueça sem querer. Quando eu digo que tudo está acabando, me refiro ao espaço do porto seguro em que ainda estamos ancorados, mas com poucos meses diante de nós antes de finalmente sermos obrigamos a pular em alto mar, sem rede de proteção, e começar a nadar por conta própria em busca do nosso lugar ao sol. Tudo está acabando, e caso você tenha se distraído e não viu o tempo passar, esta é a hora de começar a fazer tudo valer a pena. Queira você admitir que o fim está próximo, ou não.
            Quanto a mim, apesar de não conseguir tirar da cabeça a ideia de que tudo está acabando, tenho a sorte de estar vivenciando alguns recomeços bastante necessários, mesmo que seja aos quarenta-e-cinco-do-segundo-tempo. Eu tenho um emprego novo, - um estágio que me permite ao menos molhar os pés de leve no oceano da Psicologia, por mais que só esteja apenas atendendo telefones por enquanto - tenho um coração em estado semi-novo razoavelmente conservado pronto para tentar alugar de novo aquela edícula que mantenho vaga para alguém especial, e uma série de perspectivas para o futuro que, assim como o fim, eu não consigo deixar de analisar. O que eu vou fazer quando tudo acabar? Para onde irei? Passarei fome? A insustentável dúvida do ser nunca me falhou, e acho que a tendência de agora em diante é só me afundar ainda mais no mundo de possibilidades que está se abrindo diante de mim, e fazendo com que eu me sinta mais perdido do que nunca.
            Oceanos de dúvidas e possibilidades a parte, a vida é uma estrada que tanto passa por eles quanto pode levar a eles; só depende da gente saber que direção seguir. Eu não sei se dá pra perceber, mas estou perdido. Estou com as mãos no volante, o mapa no colo e ainda assim peço direções para as pessoas por quem passo a cada quilômetro que avanço. O que me alivia é que todas parecem tão perdidas quanto eu. Menos mal. Por mais que a gente ande, é difícil ter certeza da onde queremos chegar. E mesmo quando chegamos, sempre há uma distância a mais para percorrer. Ninguém fica parado, porque ficar parado significa ficar para trás. E acho que ninguém tem como meta de vida ser a imagem no retrovisor das pessoas que passam por ela. Ser a imagem no retrovisor de alguém me aterroriza, por mais que eu ainda não saiba aonde quero chegar.
            Tudo que sei é que quero chegar primeiro, e quero ser feliz. Tirando as incoerências, as lacunas, os desvios e as contradições, isto ainda é melhor do que nada. Tem gente que nem sabe se quer ser feliz ou não; só segue em frente com o piloto automático, na esperança de encontrar algo que lhes dê direção, sem precisar se agoniar com o desespero da escolha. E não acho que seja preciso ser Existencialista para saber que, independente se estamos falando de direção, felicidade ou aquele oceano de possibilidades, sua vida e tudo que diz respeito a ela só depende de você.
            Então aqui estou eu, com a estrada de 2014 adiante de mim e todo ansioso por ainda não saber qual caminho seguir. E achando isso muito bom, porque há cinco anos tudo o que eu queria quando finalmente chegasse até aqui era que tudo terminasse para que eu pudesse voltar para casa. Cinco anos depois, eu não quero voltar para casa. Quero conhecer o mundo. Quero dominar o mundo, mas não me entenda errado. Quero dirigir até as marinas da vida e mergulhar de cabeça no oceano de possibilidades que estão ao meu alcance, até que algo me cative o bastante para me convencer a renegar todas as outras escolhas e me contentar em ser feliz com apenas uma. Uma vida, um emprego, uma direção, uma mulher, um coração. Apesar de tudo isso, dizem que o que vale a pena mesmo não é o destino, mas o caminho que se percorre para chegar até ele. A viagem está chegando ao fim, e cá entre nós, tem sido uma viagem e tanto. Eu não quero que termine tão cedo, mas não quero ficar parado. Olha que nem terminei de tirar a carteira de motorista ainda.

            E 2014 está só começando...