quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

A barata no banheiro II: a vingança de Clarice


            Eu não acreditei quando a Joyce me contou, mas parece que é verdade. Quando a Clarice (Lispector, para os entendedores menos íntimos) escreveu o romance A Paixão Segundo G.H. em 1964, ela realmente se inspirou em uma barata. Se foi uma barata que apareceu em seu banheiro durante um momento em particular de fraqueza durante uma madrugada de Domingo, como no meu caso, eu não sei. Mas que ela tirou um best-seller disso, tirou, e com isso eu - obviamente - não pude deixar de pensar em mim. E de quando eu finalmente escreveria o meu best-seller sobre a vida, sobre romances... Talvez não necessariamente sobre a barata que apareceu no meu banheiro e as lamúrias existenciais que ela provocou em mim, que por sinal não foram tantas assim. Só o bastante para revisitar todo o meu passado em questão de segundos - como quem é quase atropelado por um ônibus e supostamente vê toda a vida passar diante dos olhos - antes de finalmente conseguir acertá-la com o chinelo.
            O que me fez pensar na seguinte cena: Clarice acorda às duas e meia da manhã com a garganta extremamente seca, resultado do uísque e charutos que compartilhou com suas amigas durante a reunião semanal do seu grupo de luta que organiza em sua casa aos Sábados, duas vezes por mês, com suas amigas da alta sociedade Brasiliense para deliberarem sobre as mágoas e frustrações que seus respectivos maridos lhes causaram, seguido por sessões de brigas em uma piscina plástica cheia de lama designada estritamente para liberação do estresse e da libido reprimida. Além de aliiar as tensões, Clarice ainda defendia a tese de que a lama fazia bem para a pele - exceto, claro, quando ela caia dentro dos olhos.
            Enfim, Clarice se levanta, exausta das lutas e de esfregar sua blusinha favorita no tanque que foi tragicamente manchada em seu último duelo com uma jovem de nariz empinado e ideias questionáveis chamada Martha (Medeiros, para os leigos), e foi para o banheiro para jogar uma água na cara antes de desafiar a escuridão do corredor que leva até a cozinha da masmorra subterrânea de sua casa, onde gostava de passar os fins de semana para usar drogas recreativas sem o olhar curioso dos vizinhos. E então, de repente, ela a vê: desfilando despreocupadamente pelas redondezas dos azulejos azul-bebê que enfeitavam sua casa de banho, aquela barata. A fatídica barata que viria a ser pivô de uma de suas obras mais famosas - que eu só fui descobrir esses dias, mas tudo bem. Em se tratando de clássicos literários, minha educação começou e estagnou com O Pequeno Príncipe por algum motivo. Talvez eu não estivesse preparado para ser cativado por alguma outra obra, e para ser eternamente responsável por isso depois também.
            Clarice soltou um grito que certamente teria acordado seus vizinhos se estivesse na superfície e imediatamente subiu em cima da privada, amedrontada pela presença do inseto rastejante. No entanto, Clarice logo se lembrou do extenso treinamento que recebeu de Pai Mei - o bisavô paterno de Quentin Tarantino que foi irremediavelmente distorcido na adaptação da sua história para o cinema por seu bisneto problemático - e prontamente se colocou na frente da barata para efetivamente dizimá-la. A barata, surpreendida pela agilidade dos quadris artificiais de Clarice, deu um pulo para trás e falou (sim, ela falava!), "Você não pode comigo, velhota. Humanos tolos, pensam que tem algum direito sobre essas construções que fizeram em cima das NOSSAS casas! Só subi porque minhas 367 irmãs estão ocupando os banheiros lá de baixo. Pois agora vou lhe mostrar quem é que manda aqui!"
            A barata abriu suas asas e sobrevoou os cabelos arrepiados de Clarice em um rasante que quase a derrubou, mas foi por pouco - cortesia das técnicas de equilíbrio tangencial herdadas por Pai Mei por seus ancestrais que, curiosamente, manjavam dos paranauês-paranás. Clarice partiu para o ataque e imobilizou a barata com seus crocs cor-de-rosa-com-bolinhas-brancas: fatality! Antes de morrer, a barata chamou Clarice para sussurrar em seu ouvido, agonizando e suspirando apressadamente entre cada palavra: "Curvo-me de um talento maior que o meu, humana... Se puder pedir uma última clemência... Conte ao mundo a minha história..." - "Mas que história?!" - "Eu sou sua bisavó Elisabeth... Seu bisavô me pegou traindo ele com seu melhor amigo e lançou um feitiço em mim... E como se não fosse o bastante, aquele velho rancoroso me prendeu no subsolo para liderar um exército de baratas rastejantes asquerosas que planejavam tomar posse do Palácio da Alvorada no dia 5 de Novembro... Mas você me libertou, minha querida... Sinto muito que tenha descoberto tudo assim... E não se esqueça: com grandes poderes terás também grandes responsabilidades..."
            E morreu nas mãos da bisneta que jamais pôde conhecer, balançando pela última vez suas antenas por toda a eternidade. Clarice secou as lágrimas, levantou-se do chão e decidiu que aquela não era hora para luto. Era hora de ser mais resiliente, próspera e determinada do que nunca. E depois de jogar o que restou de sua bisavó na privada e dar descarga, Clarice voltou para a cama e jurou, antes de dormir: "Não me esquecerei de você, vovó. Sua história será contada..." Claro que Clarice mudou alguns detalhes aqui e ali, pois segundo sua assessoria de marketing, a história original não parecia ter potencial para ser comercializada na Europa. E assim nasceu um dos seus mais famosos romances que eu ainda não li, mas que parece bom.

            Qualquer um que tira inspiração de uma barata no banheiro merece atenção, não acham? Não? Ok...

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

A resiliência do meio-fio


  Resiliência: capacidade de o indivíduo lidar com problemas, superar obstáculos ou resistir à pressão de situações aversivas sem entrar em surto psicológico. Mas apesar da descrição bem clara que o Deus Google me trouxe, nada nem ninguém vai superar o modo como eu realmente descobri o que significava ser resiliente: através do Vanderlei e a Honda Biz-125 problemática dele.
  Dia desses, Domingão de sol, Vanderlei saiu da sua casa lá do outro lado da cidade para visitar sua namorada, Adelaide. Caso você ainda não tenha percebido, estamos falando daqui de algo que aconteceu com um amigo de um amigo meu que, obviamente, não se chama Vanderlei, nem assumiu algum compromisso sério com uma Adelaide. Enfim, lá estavam eles, sendo felizes de mãos dadas e pernas encostadas, ao som de Faustão e funk que empobrecia a vizinhança barulhenta lá fora.
  Mão aqui, mão ali, mão acolá só depois do casamento, Vanderlei percebeu que já estava tarde e precisava ir pra casa. Mas quando montou em sua singela Biz e dirigiu alguns bons quarteirões acima da casa de Adelaide, Vanderlei notou algo estranho. Já não era de hoje que a Biz de Vanderlei andava ameaçando dar problema, mas imprevistos não se chamam imprevistos a toa. A moto balançou, balançou e balançou até que, desmentindo o mito da música, finalmente parou e o derrubou com a cara no asfalto. Assustado e tremendo, Vanderlei tentou se recompor para analisar a moto e descobrir o que havia acontecido, até que encontrou o problema: um pneu furado.
  Para vocês que não conhecem o Vanderlei – nem nunca vão conhecer, porque ele não existe – preciso lhes contar que mecânica básica não era o seu forte. Por mais que seu pai quisesse que ele tivesse prestado o vestibular para Engenharia Civil, Vanderlei não era desse tipo de se deixar levar pela comodidade e a segurança de uma profissão bem estruturada e reconhecida. Não. Vanderlei estava no segundo semestre de Ciências Contábeis, onde calhou de conhecer Adelaide.
  A vida tem dessas coisas, pensou Vanderlei. Mas se não usasse seu amor por Adelaide como justificativa para tudo – inclusive para não ter prestado atenção nas aulas de mecânica básica da auto-escola porque só conseguia pensar nela – talvez não estivesse agora com uma tatuagem do asfalto em seu rosto e nenhuma ideia de como sair dali. Tentou ligar para Adelaide, mas quis a vida – ou o Universo, ou apenas Newton com sua lei tragicomicamente infalível – que sua bateria acabasse logo ali, mas não antes que sua mãe, dona Euzébia, ligasse para ele, desesperada para saber aonde ele estava. “Como assim, sua moto deu problema?! Foi por isso que eu te avisei para não comprar uma porcaria dessas! Quer saber? Boa sorte com isso!” e desligou.
  E Vanderlei também não era desses caras atleticamente desenvolvidos a ponto de conseguir empurrar a Biz de volta por aqueles quarteirões já cobertos pela noite para se refugiar na casa de Adelaide. Foi aí que ele me contou que decidiu fazer o que qualquer pessoa emocionalmente madura faria. Aliás, o que qualquer adulto maduro, próspero e resiliente poderia fazer numa hora como essa: sentou no meio-fio e chorou.
  Antes que você comece a gargalhar às custas da tragédia de Vanderlei – como eu naturalmente fiz quando ele me contou; não que ele exista, claro – é preciso admitir que o instinto de desespero dele, embora hilário, tem um fundo inegável de verdade. Sentar no meio-fio e chorar é o equivalente a ser condenado a um regime semi-aberto de trinta anos de prisão ou, quem sabe, derrubar o smartphone no chão com a tela virada para baixo. É aquele aperto no coração, nó na garganta, dormência na perna e borboletas alopradas no estômago, tudo de uma vez só. E são justamente nesses momentos em que a vida – ou o Universo, ou Newton – decide que já riu demais e está na hora de dar um fim naquele sofrimento.
  Pois quiseram os deuses que logo ali, do outro lado da rua, estivesse rolando um churrasquinho aos fundos de uma oficina. Vanderlei só não havia prestado atenção no funk vindo de lá, porque ele já estava acostumado com o funk que dominava as redondezas da casa de Adelaide. E como uma mariposa assustada em direção à luz, Vanderlei empurrou a Biz com todas as forças que seus braços franzinos eram capazes de produzir, e timidamente bateu palmas em frente ao portão da oficina, sem resposta. Visto que desgraça pouca definitivamente já não existia mais naquele ponto, Vanderlei timidamente se permitiu entrar e lentamente caminhou em direção ao que agora se tratava de uma roda de pagode.
  “Lê lê lê lê lê, lá em casa! Lê lê lê lê lê, na cama! Lê lê lê lê lê – opa, quem é você?”. Vanderlei se apresentou, com a cara inchada de tanto chorar, sua camiseta velha dos Ramones que ganhou de Adelaide (e só usava quando ia vê-la, porque seu gosto estava mais pra One Direction do que qualquer vertente do rock) e seu all star azul (que parece muito bonito na música, mas ridículo naquele momento em particular), até que um dos mecânicos – segundo Vanderlei, o mais bêbado de todos – se levantou e também se apresentou.
  Seu nome era Borracha, assim como o cheiro de queimado do seu bafo. Quando avistou o problema na moto de Vanderlei, Borracha imediatamente gritou: “Isso não é nada, amiguinho! Pois sente aqui com a gente, tome uma ou duas se quiser, que em quinze minutos esse projeto de moto já vai estar pronto pra zarpar!”. Vanderlei depois me disse que se sentiu dançando por dentro, mas tentou manter-se sério diante do anjo Borracha que havia sido mandado para ele. Quinze minutos depois, Vanderlei montou na Biz e perguntou ao Borracha quanto aquele conserto iria custar. “Fique tranquilo amiguinho, precisando, estamos aí!” e abriu o portão para que Vanderlei pudesse ir para casa.
  Daquele dia em diante, qualquer dificuldade que Vanderlei chegou a passar na vida imediatamente lhe remetia a imagem dele mesmo sentado e chorando no meio-fio de uma rua escura, com uma Biz furada de um lado e nenhuma esperança de outro. Aquilo sim era resiliência, não essas definições pobres que qualquer Bing da vida te traz. Quanto a mim, eu levei a experiência de Vanderlei – que não existe – como um aprendizado. E sempre que um pneu da minha Biz furar, e eu me sentar no meio-fio para me entregar ao choro – metaforicamente, claro – sei que não preciso temer mais nada. De um jeito ou de outro, uma oficina vai aparecer.

  Se isso não é ser otimista, então eu não sei o que é.

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

A teoria das mãos dadas no shopping


Baseado, teoricamente, em fatos reais. Ou não.

Quatro amigos em um bar, já na quinta rodada de cerveja. Uma mulher morena, alta e generosamente encorpada passa por eles.

Amigo #1, o pega-todas: Viu só aquela ali?
Amigo #2, o desligado: Aonde?
Amigo #3, o filósofo: Aquela que acabou de levantar pra ir ao banheiro e passou por aqui.
Igor, o paranóico facilmente impressionável que vos fala: Que bunda! (Obs.1: O termo utilizado não foi “bunda”, mas foi modificado aqui para fins educativos)
Amigo #1: O que achou, Igor?
Igor: Gata, hein. De baixo pra cima, não de cima pra baixo. Não consegui ver o rosto dela.
Amigo #3: Melhor não ver. Não perdeu nada. De baixo pra cima, de trás pra frente só. Frente e cima, acabamento pobre. Baixo e trás é onde o ouro está.
O Amigo #2 concordou em silêncio
Igor: Mesmo assim, parece gata. Dá pra perder um tempo. Uns 10, 15 minutos. Uns dois ou três meses, quem sabe. Nada sério. Sabem da minha teoria de que namorar seria bom se fosse só de segunda à quinta de tarde; de quinta à noite até domingo, liberdade de expressão.
Amigos #1 e #3 concordaram e beberam mais um gole de cerveja.
Amigo #1: Aí sim, seria bom. Mas às vezes em uma semana morna, fraca, faz falta aquele outro corpo ali. Fazendo companhia, brincando um pouco, esquentando uma pipoca pra ver um filminho...
Igor: Claro, mas isso é coisa do que? Segunda à noite, né. Dentro dos parâmetros da regra. Agora, sexta à noite, vai me dizer que ficar em casa enrolado na coberta assistindo Globo Repórter com aquela ali era tudo que você queria? Se te conheço bem, nem iria levar ela pra casa, pra não arriscar ter ela aparecendo lá de madrugada berrando que você nunca mais ligou e que o amor de vocês é pra valer.
O Amigo #2 concordou mais uma vez, entre um gole e outro. (Obs.2: Vale ressaltar que quando quatro caras se reúnem em um bar, a divisão do debate é clara: sempre há o mediador, o argumentador, o radical, e o Amigo #2, que só concorda e a cada 3 garrafas, paga uma rodada.)
Amigo #1: Mas aí você já ta exagerando, Igor. Vai dizer que não rolava com aquela ali?
Igor: Claro que rolava. Quer dizer, ainda não vi a cara dela. Espera ela voltar do banheiro, aí te digo se a lenda dessa paixão me faz sorrir ou faz chorar. Entendeu agora?
Amigo #3: A pergunta principal não é essa. É a teoria das mãos dadas no shopping.
O Amigo #1 não reagiu, como se já fosse um velho aprendiz daquela filosofia. O Amigo #2 interrompeu seu gole para prestar mais atenção, como se sua ingestão de álcool o impedisse de absorver toda a sabedoria que estava por vir. Eu, pelo contrário, tomei outro antes de procurar saber mais.
Igor: A teoria das mãos dadas no shopping?
Amigo #3: Exatamente. Para qualquer mulher, o homem mentalmente diz “sim” ou “não”, “vou” ou “não vou”. Mas isso é a teoria. Na prática é o seguinte: aquela menina da bunda é pra você sair hoje e não ligar nunca mais, ou pra andar de mãos dadas com ela no shopping?
O Amigo #2 manteve-se em inércia. O Amigo #1 pediu outra garrafa.
Igor: Mas por que o shopping exatamente?
Amigo #3: O shopping não é o shopping. O shopping é uma pequena amostra da sociedade, dependendo do horário que você for. Se for no horário nobre, tem de tudo. Tem casais, tem novinhas, tem avós, tem petistas, tem religiosos, tem ambientalistas, ambidestros, alienados... Andar de mãos dadas no shopping é como assumir pra sociedade que você está levando a sério o comprometimento com aquela pessoa, e que você se orgulha disso. Essa teoria só perde pro teste da primeira vez em que você leva ela pra conhecer a sua mãe.
O Amigo #2 arregalou os olhos de tanta surpresa. O Amigo #1 estava vasculhando os bolsos pra tentar pagar o garçom com dinheiro trocado.
Igor: Tudo bem, agora eu entendi. Bom, eu não vi ela ainda, mas te digo que não. Não andaria de mãos dadas com ela no shopping. Pelo que parece, ela não é dessas. Ela parece mais ser do tipo carro-parado-em-estacionamento-de-shopping-depois-da-sessão-das-duas-horas-em-uma-terça-feira-gorda. Só fricção, sem romance.
            Os Amigos #1 a #3 riram. Eu tomei um gole pra facilitar a descida da frivolidade que havia expressado pela minha garganta abaixo. Felizmente, esta nova rodada estava estupidamente gelada.
Amigo #1: E com quem você andaria de mãos dadas no shopping, Igor?
Igor: Boa pergunta. E por enquanto te digo que não há nenhuma boa pretendente para passar por esse teste.
Amigo #1: Você anda muito exagerado. Precisa sair mais. Vai que você conhece alguém, e semana que vem já está de mãos dadas com ela por aí, esfregando seu comprometimento na cara da sociedade?
No meio do novo debate, os Amigos #2 e #3 mantiveram-se na platéia.
Igor: Agora, dessa teoria eu manjo. “Vai Que”. “Vai Que” é o que já me fez sair muitas vezes por aí, crente de que valeria mais a pena do que ficar em casa com uma reprise de algum seriado, um copo de uísque e uma pizza de pepperoni. Até agora, “Vai Que” só me criou esperança que brotou arrependimento. Só que até a presente data, nunca “Foi Que”. Agora, a reprise, o uísque e o pepperoni nunca decepcionam.
Amigo #1: Então fica em casa só com o pepperoni, já que é isso que você curte!
(Risos embriagados de todos)
Amigo #1: Você precisa conhecer alguém.
Igor: Você precisa conhecer alguém!
Amigo #3: Eu preciso pegar alguém.
O Amigo #2 concordou com tudo. Eis que finalmente a morena encorpada sai do banheiro e passa novamente por eles. Todos tentam ser sutis ao acompanhá-la, sem sucesso.
Amigo #3: E aí?
Igor: É, definitivamente vale a pena de baixo pra cima, de trás pra frente. Não é pra andar de mãos dadas em lugar nenhum.
Amigo #1: Dá pra dar uns “pega”. Não é de jogar fora, mas também não adotaria. Parece judiada, mas esforçada.
Igor: Acho que agora acabamos de vez com ela, e com o jeito que a gente fala de mulher mesmo. Mas aquela ali parece mesmo experiente.
Amigo #2: Era a minha irmã...

Silêncio constrangedor. O Amigo #3 pede a conta.

terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

Os três segundos


            Poucas coisas me remetem tanta raiva como quando o YouTube trava. Quer dizer, você se compromete com um contrato de internet que te dá sei-lá-quantos-mas-eu-lembro-que-é-bastante megabytes de velocidade, carrega o Facebook, o e-mail, três abas de pesquisas diferentes no Google sobre assuntos insignificantes, até finalmente se lembrar daquela música que você ouviu no trabalho e decidiu reservar um tempo para escutá-la propriamente.
            Aí você abandona tudo e vai pro YouTube, que te obriga a assistir cinco segundos de um anúncio qualquer - PS. saudades da era pré-anúncios do YouTube, quando éramos mais felizes e menos perturbados com propagandas com o inglês agonizante de Joel Santana ou de alguma webnovela sobre um casal de jovens japoneses - mas que você perdoa porque sua vontade de ver o vídeo é maior do que sua frustração com a ascensão do capitalismo virtual. Passados os tortuosos cinco segundos, o vídeo finalmente começa, toca três segundos e trava. Depois de tudo isso, ele trava!
            Não é a toa que a campanha a favor do desarmamento é tão fervorosa. Eu tranquilamente meteria uma bala no meio da minha CPU em uma situação dessas. Mas como não é o caso, me acomodo com a alternativa: engolir secamente o meu ódio da humanidade - e da aleatoriedade da funcionalidade dos meus cabos domésticos de fibra óptica - e, consequentemente, absorvo isso como uma metáfora para algum aspecto igualmente frustrante da minha vida pessoal. Ou, mais precisamente, sobre como um imprevisto de três segundos já foi capaz de destruir mais do que a experiência de assistir um vídeo, mas alguns relacionamentos também.
            Os três segundos de alegria seguidos por um travamento são equivalentes a três meses de alegria com alguém, seguidos por algum evento inesperado que te faz reavaliar tudo que você havia vivido até então. Como se, da noite pro dia, ela parasse de responder as suas mensagens por sabe-se-lá-qual-motivo. Porque um travamento, assim como o amor ou uma cólica de rim, não se explica: ele simplesmente acontece, e não há nada que você possa fazer a não ser aprender a aceitar e conviver com a agonia que agora tomará conta de você. Ok, convenhamos que com o amor não é uma calamidade tão instantânea; às vezes demora três segundos, às vezes demora três meses, às vezes demora dez anos, mas pode ter certeza que ela vem. E sim, eu admito a possibilidade de que talvez eu esteja ficando cínico demais para o meu próprio bem estar passional.
            Enfim, é o que acontece quando o YouTube trava.

***

            Outra coisa que acontece é quando três segundos de um evento A causam um certo efeito colateral sobre um evento B. Como quando eu acidentalmente assisti a entrada dos participantes do Big Brother desse ano na casa ao som de “Hey Brother” do Avicii, o que eventualmente destruiu qualquer possibilidade de que eu pudesse curtir essa música dali em diante. E como o verão é movido a músicas eletrônicas, era só um questão de playlists do YouTube até que esta pérola reaparecesse para mim - e fosse atropelada sem dó por uma pesquisa súbita por qualquer outra lista.
            Depois eu considerei o fato de que talvez eu não estivesse tão livre de mágoas e rancores como eu pensava. Sim, eu admito que não é preciso nenhuma página da web estar travada pra me fazer pensar na vida e reavaliar minhas escolhas. Eu só não pude deixar de perceber o quanto eu estava agarrado à lembrança de cinco segundos trágicos daquela música com aquela cena, que automaticamente estava entrelaçada com meus sentimentos de frustração e ódio pelo BBB, em vês de abrir mão disso para simplesmente escutar a música só pelo mérito dela. Ou então, escutar a música pacificamente como um ser humano normal, sem nenhuma lamúria existencial acompanhando a melodia. É, acho que eu preferia ser um desses. Mas aí eu não teria o que escrever, nem do que reclamar. E então eu iria viver do que?

            Eu sempre digo que tudo na vida tem que ser colocado na balança - relação custo x benefício - antes de ser adotado por nós. Eu prefiro carregar um pouco de frustração e tirar inspiração disso pra escrever do que ser uma pessoa feliz que escuta músicas normalmente durante o verão. E sabe por que? Porque o verão acaba e a música do Avicii só tem três minutos e meio. Agora caráter, isso dura pra sempre.

domingo, 16 de fevereiro de 2014

O horário de funcionamento


            Eu decidi que este vai ser o meu ano. O ano das mudanças. O ano de deixar o que já foi, realmente ir, para que coisas novas apareçam em meu caminho e para pessoas novas aprenderem como se abre os dois portões – que, era uma vez, foram automáticos – do meu prédio. E eu decidi isso do mesmo modo que decido um lema para todos os anos.
            Em 2009 a meta era abraçar o desconhecido, em 2010 foi tentar limpar a bagunça que 2009 fez, em 2011 foi decidir tirar tudo do lugar de novo porque não era mais possível que as coisas dessem tão errado, e 2012 foi misto: foi a limpeza e a desordem em um ano só, e parecia tudo tão indescritível que até hoje eu ainda não sei explicar porque. Apesar dos apesares, 2012 tirou uma nota boa o bastante para ser aprovado como um bom ano – mesmo que tenha sido o ano em que não publiquei uma palavra sequer por aqui. E então veio 2013, que me trouxe de volta, deu alguns loops que me deixaram surpreso e enjoado, mas que, convenhamos, também não foi nada mal.
            Pode parecer que eu estou disfarçando reclamações infames da vida com filosofias abstratas, mas entendedores entenderão que ano passado conseguiu ser o melhor das nossas vidas. E que, por incrível que pareça, eu tenho a sorte de vivenciar um ano cada vez melhor que o outro. E sim, eu sei o quanto isso parece pornográfico caso você leia muito rápido com esse olhar despreocupado e mente poluída. Também sou desses.
            Enfim, é por essas e outras que eu decidi que este vai ser o meu ano. Quando digo por outras, é porque estou diante de momentos definitivos mais uma vez. A última vez foi em 2009, quando descobri que o mundo não era achatado mas sim redondo, e que eu não iria cair num precipício sem fim se decidisse me mudar de Londrina para criar uma vida tão boa quanto aquela em outro lugar. Cinco anos, quatro empregos, três apartamentos, duas faculdades e uma experiência trágica com uma telha de amianto depois, eu finalmente consegui outra boa vida pra chamar de minha.
            Talvez minha paixão por retrospectivas já tenha ficado claro para muitos, mas eu simplesmente não posso evitar. Sou irremediavelmente fascinado por rever a vida que passou pelo retrovisor, mas agora já cresci o bastante para aprender que de vez em quando isto é bom, mas não focar na estrada adiante mais cedo ou mais tarde vai me fazer quebrar a cara em um muro. Ou, em certos casos, causar algum estrago na vida de outra pessoa que não tinha nada a ver com o meu passado, mas que agora está emocionalmente paraplégica demais para querer descobrir um futuro do meu lado.
            Maior do que o caso que mantenho com minhas lembranças, só o meu amor platônico por metáforas. Salve meu alarme interno de insights movido a egocentrismo, e meu manual de formação de condução veicular, que tem mostrado a mim mais do que nunca qual é o caminho certo a seguir. Até porque, tem sido difícil prestar atenção da estrada adiante e nos retrovisores ao mesmo tempo. Ah, a ironia.
            Mas este vai ser o ano. Aquele ano. O ano em que você promete pra si mesmo que vai dar o melhor de si, vai experimentar coisas novas, vai se desprender do que te faz mal e empobrece sua alma, vai quitar o seu cartão da Renner, emagrecer os cinco quilos que você ganhou naquela semana entre o Natal e o Ano Novo, e fazer jus a todas as promessas que você fez durante aquela meia noite fatídica enquanto os fogos iluminavam o céu e as gotas de champanhe manchavam a sua calça. Enfim, o ano que você sempre jura que vai ter, mas sempre adia pro ano que vem por quaisquer razões que convenham a sua eventual preguiça e ressaca do dia primeiro em diante.

            Modéstia a parte, eu gosto de pensar que estou me saindo bem. As aulas práticas da auto-escola finalmente estão marcadas, e o estágio está se saindo melhor do que eu sonhava (apesar de ter sido feito refém de um leitor biométrico por ambos). Os sete quilos – sim, eu menti, não se espante – que ganhei estão prestes a desaparecerem graças à disposição de voltar para academia que reencontrei perdida por um dos cantos da casa, e graças à Joyce, que me obriga a ir com ela como parte do nosso comprometimento com nossa saúde – e, principalmente, com a nossa necessidade primordial de não querer sofrer sozinho durante uma hora em uma masmorra de tortura equipada com esteiras e levantamentos de supino reto. E quando acordamos às 5h30 e chegamos na porta da academia antes das 6h, antes do sol nascer e antes do professor aparecer para abrir a porta e acender as luzes, eu senti orgulho de nós. Claro, senti sono, fadiga, desespero silencioso e uma leve sensação de desidratação a ponto de querer desmaiar só para pegar uma carona de ambulância de volta pra casa. Mas senti muito orgulho da gente também.


Outra prova de que eu acredito solenemente de que este vai ser o meu ano, é que agora eu vejo o sol nascer e se pôr todos os dias. Apesar do cansaço que dá, eu me sinto bem. Me sinto feliz por ter vivido cada instante entre o começo e o fim do meu dia, por mais que eu precise me arrastar para a faculdade à noite e lutar contra meus instintos de sobrevivência para me manter acordado o bastante para saber que raios de matéria cai na próxima prova. E ainda volto pra casa, sirvo um copo de uísque, sento na sacada para ver as estrelas e conversar sobre como a vida tem sido boa comigo, antes de ir dormir pouco, acordar com olheiras horripilantes, e fazer tudo de novo.
            Por isso quando digo que este vai ser o meu ano, é porque pela primeira vez em muitas promessas, sinto que estou realmente aproveitando todo o tempo que tenho. Todo o tempo do meu mundo, para coisas boas e úteis, e até mesmo saudáveis! Nunca antes na história deste interlocutor houve tamanha demonstração de dedicação consigo mesmo sobre sua vida, enquanto você continua aí só tentando acompanhar tudo o que eu estou fazendo, pensando se puxa conversa ou não para tentar voltar pra minha vida. Sinto muito, mas eu ando muito sem tempo. Não sei nem como encaixaria um novo relacionamento entre tudo isso, muito menos a reprise de um velho fracasso. Este vai ser o meu ano, onde cada dia começa às 5h30 e me permite ver o sol nascer, até além do pôr do sol e o começo de outro amanhã. Não tenho mais espaço na minha agenda para escrever textos tristes sobre frio, chuva e corações partidos. Estou ocupado demais fazendo hora extra para ser feliz.
            Meta para 2014: fazer algo de bom acontecer. PS. Não aparecer na CGN.

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

O pseudo-carpe diem massificado


Eu queria ser uma boa pessoa. Talvez, nem sempre. Mais vezes do que eu deveria, confesso que prefiro praticar atos específicos de maldade em vês de ações aleatórias de bondade, como cutucar o ombro de alguém e aparecer do outro lado discretamente, ou fazer ruídos incompreensíveis na forma de quem está tentando dizer alguma coisa, só para o coleguinha perguntar "o que?" e ficar com cara de besta quando eu mostrar a língua pra ele. Não, não é algo emocionalmente maduro de se fazer. A verdade é que, entre abandonar rancores e tentar ignorar meus instintos imediatos de lógica e de fazer coisas que tenham sentido, eu andei praticando a arte milenar de reconhecer o que uma pessoa emocionalmente madura faria em determinada situação, só para fazer o contrário. Pode não ser muito saudável, e sem dúvidas não deixarei um mundo melhor para os meus netos através disso, mas por ora tem sido deveras libertador. Tudo isso é bobagem, claro. São só palavras digitadas ociosamente por um jovem homem existencialmente entediado em seu blog homônimo de credibilidade questionável. Ou vocês acharam mesmo que eu passei um Sábado de manhã assistindo filmes da Disney no YouTube? Não sejam ridículos! Muito pelo contrário, eu fiz o que qualquer outra pessoa emocionalmente madura faria: avancei a história e pulei direto pras músicas. E cantei junto. Normal.
A questão é que quando a minha maldade, minha imaturidade e meu tédio conseguem se aquietar, eu tenho momentos de redenção em que eu sinceramente desejo ser uma pessoa melhor um dia. É provável que nenhum leitor ou amigo meu já tenha visto isso, porque são momentos tão raros quanto aquele cometa que passou de raspão na terra, só para dar uma olhadinha no sul da Califórnia, e por pouco não explodiu o mundo. Quando isso acontece, eu paro, penso, sinto, choro por dentro, absorvo tudo de volta e digo "Só que não!". E mostro a língua. Esse é o tipo de pessoa que eu sou, e são esses os absurdos que eu penso. O que me faz sentir melhor é que você, caso não pense parecido, também tem coisas ridículas guardadas em alguma gaveta obscura da sua alma mas que tem medo de confessar. Por isso você leu até aqui. Ver outra pessoa ser ridícula faz a gente se sentir melhor quanto a nossa própria imaturidade emocional. Claro, isso não justifica a minha inércia emocional, tampouco o mundo explodiria caso eu quisesse mudar. Eu posso mudar. Sou livre pra isso e tenho recibos e comprovantes de renda e residência o suficientes para provar que estou apto para isso. Eu só não quero mesmo. *mostra a língua*
Mas o catalizador das minhas crises de consciência costumam ser aquelas pessoas que parecem não ser desse mundo - ou, sejamos honestos, que nem parecem ser dessa cidade. Nada contra os Cascavelenses, mas toda vez que eu ando em um ônibus lotado aqui, parte da minha fé na humanidade se perde na multidão que me empurra cada vez mais para a janela, sem aparentar nenhum senso de cidadania referente aos seus sovacos vencidos. Enfim, a questão é que existem pessoas que parecem estar andando livres e despreocupadas por aí com o único propósito de fazer a gente se sentir mal por não sermos tão saudáveis, bem sucedidas ou - me atrevo a dizer - emocionalmente maduros quanto elas.
Como era o caso do Janeverson, das minhas aulas de redação no ensino médio. Antes de qualquer devaneio, vamos esclarecer duas coisas: primeiro, o nome dele não é Janeverson e, segundo, eu o odeio sem nenhuma preocupação bio-psico social. Apesar de toda a incoerência, fome e preguiça que compõem o meu ser, eu ainda acredito solenemente que, a partir do momento em que algumas definições na sua vida tornam-se concretas, sem mais aquela necessidade de precisarem ser defendidas ou explicadas (como gostar daquele filme tosco, ou daquele cachorro-quente gorduroso da carrocinha do outro lado da rua da faculdade, ou até mesmo daquela pessoa chata e sem graça que você chama de “amigo” ou, em alguns casos, “amor”), é porque você está se tornando uma pessoa madura. Se é uma maneira distorcida de maturidade ou não, não cabe a ninguém a não ser você decidir. A beleza desse sistema de definições é ter o prazer em justificá-las com um “porque sim” que na verdade quer dizer “porque foda-se você”, mas com a graça e diplomacia de um “por que não?”. Enfim, a vida tem dessas coisas. E eu odiava o Janeverson. Porque sim/porque foda-se você/por que não?
Mas dessa vez até teve um porquê. O ensino médio também acabou sendo a idade média da minha imaturidade acadêmica, cujo iluminismo se deu na forma daquelas aulas de redação nas tardes de quarta-feira. Eu finalmente havia descoberto algo que eu gostava. Algo que me fazia ir feliz para o colégio, sem ser para conversar com os coleguinhas e/ou mostrar a língua pra eles. E, acima de tudo, algo em que eu era bom. Tipo, muito bom. Tipo, nota 10, mantendo sempre a impecabilidade das dissertações de 25 a 30 linhas e lealdade à temática da semana. E teria sido tudo muito bom, a ponto até de originar um Igor melhor para a história da humanidade, se o Janeverson não tivesse insistido em pesar a minha vida com a sua existência. Porque por mais que eu fosse bom, e criativo, e engraçado, e dotado de um dom para transcrever uma ironia pura que conseguisse manter-se entre a linha tênue das tradições Machadianas e a contemporaneidade como poucos conseguiam, o Janeverson ainda assim era melhor. Maldito Janeverson. Com sua pinta de bom moço, sua família rica, sua namorada loira de olhos azuis, seu intercâmbio na Europa e seu apartamento megalômano um-por-andar no lado nobre da cidade com vista pro lago. E ele era meu amigo. Talvez não amigo-amigo. Mais pra amigo-inimigo. Amigo/competição. Amigo... Imaginário? Enfim, era até gente boa, mas por que não odiar, sabe?
E então veio o dia fatídico. O dia em que eu comecei a pavimentar o ódio da estrada que hoje leva ao meu coração frio e calculista (só que não, rá ié ié!). Pra falar a verdade, eu não lembro qual era o tema da redação. Algo sobre a sociedade, o capitalismo desenfreado, a crise econômica mundial e a felicidade. Enfim, discorram sobre o tema, em forma de dissertação argumentativa, de 25 a 30 linhas. Eu tirei 9,5. O Janeverson tirou 10. Mas não foi pela nota. Ok, em parte foi pela nota. Mas foi, principalmente, porque depois de quase um ano inteiro tirando 10 e ter sido nomeado como um exemplo de escritor pelos outros coleguinhas de sala (falando assim nem parece que estávamos no 3° ano do colegial, mas éramos tão crianças quanto uma creche sem supervisão), eu não tive o reconhecimento mor da professora. Quem teve? Quem teve?! O Janeverson, é claro. E ela insistiu em ler a redação dele para o resto da sala, para que a gente aprendesse o que era uma dissertação bem feita. Uma redação nota 10. Maldito Janeverson.
Só que algo aconteceu quando ela leu a redação do Janeverson. Mais precisamente, foi durante um trecho que dizia algo desse sentido, mas com aquela expressão que eu jamais esquecerei: “As pessoas buscam um tipo de felicidade prêt-à-porter que foi fabricado pelo capitalismo como algo ideal, porém inacessível. Tão atraente e infame em seu modelo que foi capaz de gerar um pseudo-carpe diem massificado na mente do homem contemporâneo”. Foi incrível. Era tudo que eu queria saber escrever, completo com toda a técnica, vocabulário, raciocínio e termos frescos em francês que carregam consigo aquele prestígio irrefutável que só os franceses conseguem ter. Isto é, os franceses e os estudantes de intercâmbio da Europa. Maldito Janeverson.
Até onde eu sei, o Janeverson é uma boa pessoa. Um amigo confiável, um cidadão politizado, um eleitor consciente, um voluntário em abrigos de velhinhos em suas horas vagas, que seja. Mas eu não gostaria de ser o Janeverson. Não é que eu odeie o Janeverson a ponto de pegar ódio de pessoas boas, ou carregue comigo um orgulho do tamanho do mundo que é incapaz de aderir a características que vão contra a minha natureza rancorosa – o que certamente explicaria porque qualquer tentativa de mudança poderia ocasionar um novo big bang. Apesar dos apesares, eu gosto de ser quem eu sou, e já não me sinto mais tão incomodado pelos Janeversons que cruzam o meu caminho. Porque por mais que eles sejam bonitos, inteligentes, bem sucedidos e emocionalmente maduros, daqui até a eternidade só haverá um Igor. Mentira, tem Igors aos montes por aí. Mas um Igor como eu, jamais haverá outro. Eu queria ser um Janeverson, mas ser o Igor é tão mais divertido... Não é? Hein?!


Maldito Janeverson...

terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

A infância desbloqueada


          Eu fui uma criança de sorte. Por um lado isso é bom, mas por outro significa que tenho muitos anos de constrangimentos e decepções a serem sentidas, amarguradas e epicamente superadas ainda por vir. Tudo começou porque, ironicamente, eu tinha que fazer uma coisa chata de adultos: ir ao banco buscar o cartão de uma conta-corrente que precisei fazer para receber o salário do estágio e gastá-lo com, bom, criancices – o que deixa tudo ainda mais irônico. Eu já disse que a ironia me persegue? Tome cuidado quando estiver comigo, pois estará sujeito a alguma situação digna de ser recontada aos risos em uma mesa de bar, ao mesmo tempo em que estiver bebendo para tentar amortecer a experiência.
            Mas está quase tudo bem comigo. Sempre está quase tudo bem comigo, e dessa vez o “quase” envolveu meus problemas típicos com portas giratórias de banco, alienação acerca de quais dos meus pertences travam o detector de metais (“Senhor, tenho algumas moedas no bolso da minha calça que, por acaso, está furado e fez com que as moedas se perdessem dentro da minha calça. Juro que é só isso que está travando a porta. Não vou assaltar o banco. Estou em horário de almoço; não tenho tempo pra isso.”) e a espera infame pela chamada da minha senha, enquanto outras pessoas que chegaram depois de mim misteriosamente conseguiram ser atendidas primeiro. Vocês estão dando pro dono do banco ou coisa parecida? Eu só vim buscar um cartão, caramba.
            Quando me chamaram, o atendente me deixou em suspense ao não achar o bendito cartão, até que a outra moça que fica do lado de fora da parte dos atendimentos o encontrou. Isto me lembra: apesar dos apesares, eu preciso ir mais ao banco. O crachá daquela atendente bonitinha estava virado e não vi o nome dela. E só pra constar, o nome disso não é stalkear, é falta de atenção. Eu nem escolhi o nome dos nossos filhos ainda. Enfim, estou me perdendo no que queria dizer. Coisa de criança também, ficar puxando um assunto atrás do outro sem concluir nenhum. Quando ela achou o meu cartão, o outro cara me disse que era só desbloqueá-lo ali fora em um dos caixas eletrônicos, o que teria sido fácil, simples e normal demais para incentivar alguma filosofia da minha parte acerca do que eu estou fazendo da minha vida.
            O problema foi que eu não lembrava a minha senha, e pelo visto depois que você insiste em querer saber mesmo assim três vezes, o cartão bloqueia. Voltando ao guichê para pegar outra senha para atendimento, eu já estava me sentindo incapaz o bastante, visivelmente abatido com mais uma demonstração de fracasso da minha parte sobre as coisas da era digital, o que me deixou particularmente sensível diante do diálogo que tive em seguida quando outra atendente me chamou.

- Como posso ajudá-lo?
- Então, eu acabei de pegar um cartão novo da minha conta, mas quando eu fui tentar desbloqueá-lo ali fora...
- Uhum, uhum, você bloqueou ele, é? – disse ela com um tom indiscutivelmente infantilóide, como se estivesse falando com uma criança que pegou o cartão de dentro da bolsa da mãe sem ela ver e fez arte com ele.
- É.. Sabe, eu achei que lembrava a senha, mas pelo visto...
- Uhum, uhum, tudo bem, tudo bem. Isto acontece, não é mesmo? Me dê o seu cartão e vamos resolver isso já já, ok? – disse ela novamente com aquele tom acusatório e acolhedor ao mesmo tempo, que questionava minha maturidade, mas ao mesmo tempo a aceitava, visto que eu era só uma criança e não sabia mexer com cartões.
- Muito bem, agora vamos cadastrar uma senha nova, ok? – disse ela, fazendo uma pausa em sua fala, sentindo que eu precisava de um minuto para entender o que ela tinha dito antes de completar as instruções – Só que dessa você precisa se lembrar dela, viu?

            Feito isso, eu já estava preparado para minha nova caminhada da vergonha de volta ao caixa eletrônico, quando ela completou:

- Se você tiver mais algum problema, pode voltar a falar comigo, viu? Nem precisa passar pela moça da recepção pra pegar senha. Só volte para a minha mesa e daremos um jeito, ok? – disse ela em seu último sermão.

            Mais algumas dificuldades tecnológicas depois, eu finalmente consegui desbloquear o cartão. A ironia final para coroar a situação foi descobrir que tudo aquilo tinha sido relativamente à toa: não tinha caído dinheiro na conta ainda. Quando eu disse que existe um lado ruim em ter sido uma criança de sorte, me refiro a todos aqueles anos que passei em casa assistindo desenhos enquanto outras crianças da minha idade estavam brincando lá fora, raspando joelhos quando tentavam escalar um muro ou quebrando braços quando tentavam aprender a andar de bicicleta. Eu não fiz nada disso, mas ainda me lembro de ter assistido toda a série de filmes produzida pela época da renascença da Disney em meu quarto confortável e fechado.
            Eu demorei muito para sentir o mundo, descobrir a vida e entender que se você não lembrar imediatamente da senha do seu cartão de crédito, é melhor tirar a dúvida enquanto está sendo atendido do que se sentir diminuído emocionalmente por um caixa eletrônico. Sim, eu sei que estou exagerando; o que tem a ver não ralar o joelho quando era criança com não saber como um cartão de crédito novo funciona? Simples. Crianças que começaram a experimentar o mundo cedo, logo aprenderam aos poucos como ele funciona e como devem se portar diante de adversidades. Só não sei dizer se isso também ajuda futuramente a memorizar uma senha de letras e números aleatórios de seis dígitos, mas sem dúvida não deve atrapalhar.
            Naquele dia eu senti que não foi só o cartão que quase ficou bloqueado. Minha infância ficou bloqueada, limitada a canções originais de Aladdin, Mulan, A Pequena Sereia, Bernardo e Bianca e outros grandes sucessos de quem foi feliz por ser uma criança com videocassete em casa durante os anos 90, mas que o desenvolvimento de outras habilidades foi sacrificado por isso. Tudo bem que também aprendi muito com os desenhos; é bem provável que minha primeira experiência com a morte tenha sido quando o Mufasa morreu, deixando Simba sofrendo por anos devido ao um luto mal- elaborado – que, ironicamente, veio a ser o tema do meu TCC ano passado. Isso me faz pensar que nem tudo está perdido. Que apesar de ainda ter dificuldades em conviver com adultos, e até mesmo a me comportar como um, ainda há tempo de aprender. Há, inclusive, atendentes bonitinhas de banco que estão lá só para ajudar as pessoas que tem problemas com caixas eletrônicos.
            Enquanto isso, meu lado criança permanece intacto e ativo até hoje, criando situações irônicas capazes de me fazer rir da vida mesmo quando isso não parece ser possível, e me desafiando a aprender cada vez mais a como lidar com as coisas da maneira mais emocionalmente madura possível. Seja em relacionamentos, seja no âmbito profissional, ou seja apenas quando eu me olhar no espelho daqui alguns anos com cabelos brancos, óculos de fundo-de-garrafa e aparelhos de surdez, porque eu fui uma criança que não só sentava perto demais da televisão, como também deixava o volume muito alto.

            Algumas pessoas parecem sentir quando é a hora exata de deixar de ser criança, sem considerar que talvez seja possível manter um equilíbrio entre a infância que você teve e a maturidade que você quer alcançar. E então existem outras pessoas como eu, que tem brinquedos expostos na estante da sala e passam o Sábado de manhã assistindo a filmes da Disney no YouTube – com a minha própria internet, no meu próprio apartamento, usando a minha própria xícara com o café que eu mesmo fiz. Da última vez que folheei meus álbuns de fotos antigas, pude perceber pelas minhas caretas que eu fui uma criança irônica desde sempre. Se meu estágio está indo bem, meu coração está em paz e minhas contas estão sendo pagas em dia, por que isto deveria mudar agora?


            Sou um adulto cheio de infantilidades, mas ao menos são criancices funcionais.

 

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

O psico-lípse


            Quando eu disse que queria passar no shopping antes da aula pra comprar um caderno, a Lia imediatamente acatou a ideia. Aliás, essa é uma das coisas que sempre uniram eu e a Lia, além do humor tragicômico: a companhia para criar momentos especiais. Desde momentos infames, como apostar corrida ao deslizar por uma rampa da faculdade usando pufs como carrinhos de kart (e existe um vídeo disso salvo em algum lugar dos confins do computador da Lia, que obviamente ela postou no meu último aniversário), até o de passar no shopping antes da aula para comprarmos cadernos.
            Porque não era só mais um dia de aula, e não era só um caderno. Era o último primeiro dia de aula, e o último caderno que a gente ia ter. Eu já deveria ter me preparado melhor quando saí de casa para me deparar com toda a inevitável nostalgia, até porque a faculdade fica no caminho do shopping. E com exceção de alguns desvios de percursos para voltar pra casa, foram três meses sem passar por ali. Três meses sem entrar ali. Três meses, desde o fim do quarto ano. Desde o fim do penúltimo ano, da entrega do TCC, da divisão da sala em ênfases, do estresse com a clínica-escola, do medo de reservar uma sala de atendimento e sentar diante de outra pessoa com o propósito de ajudá-la – e, quem sabe, ter algo interessante pra compartilhar em orientações de estágio. Desde tudo aquilo, que diziam ser o ano mais difícil, eu não pensava mais tanto naquele lugar.
            Mentira. É claro que pensava. Mas era tão abstrato como o nosso próprio fim. A gente só acredita quando, digamos, algum acidente bizarro envolvendo uma telha despenca na sua cabeça, com todo o peso que a realidade – e o amianto – poderia infligir em alguém. E então ali estava eu, finalmente. Quatro anos, três abordagens, duas coordenadoras e um TCC depois: passando em frente à faculdade momentos antes de voltar às aulas para retomar os estudos do até então imaginário último ano. E a única coisa que me separava daquela realidade era, claro, comprar um caderno. O último caderno para o último primeiro dia. E a nostalgia atingiu em cheio tanto a mim quanto à Lia, que não perdeu tempo em dizer quase ao mesmo tempo que eu o que aquilo significava.

- O último caderno...
- É o começo do fim...
- Para o último primeiro dia...
- Do último ano...
- É o psico-lípse...
- O que?!
- É o psico-lípse, véi.
- Meu Deus... Você tem razão!

            Outra coisa com a qual eu sempre podia contar com a Lia, era que ela sabia o que eu queria dizer, mesmo quando não sabia como. Ou então, ela sabia o que eu iria pensar, só de olhar pra mim do outro lado da sala, quando algo ridiculamente engraçado para nós acontecia, mas a distância era grande demais para avisar o outro mesmo assim. Ela só me olhava, mas eu já sabia. Igual aquela vez em que:

- Cara, eu vi um negócio...
- Eu sei.
- Mas eu nem disse o que é.
- Mas eu sei o que você vai dizer. Eu já vi.
- Ah... Então, legal né?! (ri, idiotamente)
- Sim! (ri, igualmente idiota)


            E esse foi só um dos laços que criei na faculdade. A Lia, por acaso, foi a primeira pessoa que eu conheci, quando as aulas nem tinham começado ainda. A Lia foi a primeira “primeiro” que a faculdade me trouxe. A primeira amiga, que depois de cinco anos, agora está tão aterrorizada quanto eu. Porque ela também sabe que de agora em diante, serão poucos os “primeiros” que teremos por aqueles corredores. Este será o ano dos “últimos”, começando pelo último primeiro dia e o último caderno. Mais do que o começo do fim, estamos definitivamente diante do psico-lípse. Graduem-se quem puder.