segunda-feira, 31 de março de 2014

O mau ano

Meu pai me disse uma vez que sua vida era matar um leão por dia. Eu, sendo a criança autodidata em mal-criação e sarcasmo que sempre fui, não botei muita fé nisso, e desmereci completamente sua teoria sobre a vida ser difícil porque, convenhamos, a minha não era. Felizmente ou infelizmente, eu cresci e aprendi um pouco mais sobre esse universo caótico, aleatório e ridiculamente irônico que a gente chama de vida, e aonde a gente faz o máximo que pode dentro das poucas horas que nos mantemos acordados (por mais que a gente também durma pouco) para continuarmos vivos.
   Porque, ao contrário do que eu sempre imaginei, a vida é mesmo matar um leão por dia. Ou dois, ou três, dependendo do quanto você é importante ou essencial para a sobrevivência de outras pessoas também. Como no caso do meu pai, que tem uma família para sustentar e negócios que dependem inteiramente dele para continuarem funcionando. Dependem tanto que quando finalmente abri meus olhos para querer tentar entender porque isso acontecia, eu me deparei com a incrédula dúvida: como ele consegue fazer tudo isso, sozinho? De fato, não consegue. Nenhum de nós consegue.
   Honestamente falando, parece que 2014 andou relendo algumas coisas que já escrevi aqui, sobre cada ano ter sido melhor do que o anterior na minha vida, e tomou como um desafio me contrariar. Foi o ano em que eu fui demitido, o ano em que parece que quando o amor me vê na rua, atravessa pro outro lado só pra não cruzar o meu caminho (ou, me deixa no vácuo quando eu tento puxar conversa ou chamo pra sair), e o ano em que o resto da minha vida parece ficar me cutucando excessivamente, como um valentão que diz, "O que você vai fazer comigo, hein? Hein?"
   Não é que eu seja um pessimista neurótico - quer dizer, nem tanto - porque sinceramente ainda acredito que a vida, o universo ou qualquer outra força que rege os meus dias, me protege demasiadamente bem. Mas assim como nossos pais, eu sinto que a vida também tem essa necessidade de me ensinar algumas lições, e sempre da maneira mais difícil. Eu nem a culpo, na verdade - além de autoditado em mal-criação e sarcasmo, sou irremediavelmente teimoso. Logo, é preciso que minha vida estivesse ligada no modo "difícil", pra que eu realmente aprenda na marra tudo o que preciso para me tornar uma pessoa melhor.
   Acontece, 2014, que você não vai conseguir. Tudo bem que ainda estamos em Março e essa sensação de que o mundo anda desabando debaixo dos meus pés a cada novo desastre que acontece não parece que vai embora tão cedo, mas apesar dos apesares eu ainda tenho esperança. Mais do que a necessidade de acordar cedo, tomar café umas cinco vezes para me sentir vivo de novo e sair para trabalhar e desentortar as minhas aspirações para o futuro, é a esperança que me faz levantar da cama e firmar os pés no chão de novo a cada novo nascer do sol. "Hoje vai ser um dia bom", eu digo. Às vezes eu sinto que dá certo, às vezes eu volto correndo pra casa, tranco a porta do quarto para que a vida não invada o meu espaço, e durmo de novo enrolado na minha negação e no meu cobertor favorito. "Hoje o dia está virado na zoeira". Bom, acontece. Quem decide sair de casa e viver está fadado a ser pego de surpresa pelo universo de vez em quando.
   Mas nem por isso a gente desiste. Quanto a mim, talvez maior do que a minha necessidade de trabalhar ou a minha esperança por dias melhores, seja a minha teimosia mesmo. O meu impulso incontrolável por querer desafiar as situações nas quais eu me meto e decidir que, por piores que as coisas estejam, eu vou dar um jeito nelas. Não sei como, não sei quando, mas eu vou. Eu não me lembro exatamente de quando foi que eu silenciosamente dei razão para o meu pai, sobre a vida ser esse negócio de matar um leão por dia; só sei que ultimamente é assim que tem sido os meus dias, os meus meses, o meu 2014. E por um lado tem sido bom. Se nada disso servir para que eu aprenda tudo aquilo que ainda preciso antes de terminar a faculdade e sair para tentar conquistar o resto do mundo, pelo menos serve para que eu sinta que a minha vida é interessante o bastante para render conversas com os amigos no bar.
   Sábio mesmo é o meu pai, que sempre soube disso tudo e tentou me preparar. Ops...

***

   E então, tem esses dias chuvosos em que eu acordo inspirado para ouvir a minha música favorita e me indagar existencialmente com a pergunta que o Bono me faz: “As coisas estão melhorando, ou você ainda se sente o mesmo?” Olha, Bono, eu não sinto que as coisas estão melhorando tanto assim, mas eu definitivamente não me sinto o mesmo.


   Dedicado ao meu pai, Marcio Moresca: o precursor de toda a minha esperança por dias melhores.

segunda-feira, 17 de março de 2014

Os três dias do condor


   Eu reconheço que errei. Admito que essas coisas levam tempo, paciência, trabalho... Entendo que nada muda de um dia pro outro, talvez nem de uma semana pra outra, e, quem sabe, nem de um mês pra outro. Considero que não me preocupei totalmente à toa, porque para toda exaustão emocional sempre há um componente essencial para originar a combustão. Nesse caso, calhou que o componente foi só ficar pensando por dias, semanas e meses a fio sobre o que fazer com todo o resto da minha vida.
   O que só serviu para comprovar minha tese de que não dá pra passar tanto tempo assim pensando na vida, especialmente quando se tem só 22 anos, ainda diante de todas as possibilidades do mundo. Eu posso ser o que eu quiser. Posso sim. Tanto posso continuar seguindo em frente, como posso jogar tudo pro alto e dar a meia-volta nessa vida e acelerar na contramão só para causar um acidente do qual eu jamais me recuperaria. Ou eu posso acelerar e sair da estrada, para dirigir no mato e na terra pelo tempo que eu precisar, por mais tumultuoso que fique, até que eu me sinta confortável com a ideia de voltar ao meu caminho de novo. Isso faz algum sentido pra você? Eu entendo se não fizer. Até porque, três dias atrás, nada fazia muito sentido pra mim.
   A vida é um presente estranho. Pode te proporcionar os melhores momentos do mundo, com a mesma sutileza em que pode acabar com tudo com uma rasteira que te leva de cara pro chão, e ainda aponta pra você e dá risada. Sim, esta é a vida, e diga o que quiser sobre ela, mas ela tem um senso de humor afiadíssimo. A minha, pelo menos, tem. E quando essa vida começou a parecer muito... Contraditória? Não... Repetitiva? Não... Ah, sim. Já teve a sensação de estar andando para a frente, enquanto continua parado no mesmo lugar? Pois então, é quase isso. Só que pior.
   Quanto a mim, tudo o que eu sentia era como se o passado estivesse me puxando cada vez mais de volta para ele, como se estivesse tentando se esconder de um futuro que está se aproximando rápido demais. Foi divertido, na verdade, até eu me descuidar na nostalgia e escorregar em todas as lembranças que espalhei pelo chão, só para me sentir perdido no tempo. Tudo isso porque é o último ano da faculdade, porque o futuro parece incerto, porque toda e qualquer noção de estabilidade foi perdida há algum tempo, e porque eu secretamente não quero que esses momentos, que parecem ter sido os melhores do mundo, nunca acabem. Pode não ser saudável, mas fica bonito se souber colocar em forma de poesia.
   Enfim, a sensação de que tudo está acabando e que não há nada que eu possa fazer contra isso estava me sufocando. Como se o tempo estivesse passando rápido demais, assim como as pessoas na minha vida e os lugares – ou, no meu caso, nos bares – nos quais tento me agarrar para fingir que a vida vai continuar boa. Mas tudo passa, até mesmo o horário de atendimento dos bares nas redondezas da faculdade. A vida parecia breve demais, o universo parecia abstrato demais, e Cascavel parecia pequena demais. Então eu finalmente fiz o que qualquer pessoa emocionalmente madura faria: eu voltei para casa. Assim como toda exaustão emocional possui um componente original, toda crise existencial possui um marco zero. E o meu marco zero fica em Londrina, há 365 quilômetros e cinco anos de distância daqui, quando eu me formei no Ensino Médio e decidi que aquela vida, ironicamente, estava pequena demais também. E já que me sentia como se estivesse retrocedendo na vida, por que não dar ré em todo o caminho de volta ao começo?
   Foi o que eu fiz. Eu voltei para casa pra ver minha família, para matar a saudade da minha cidade, e para bater palmas para um amigo em especial que estava se formando. Um amigo que, ironicamente, eu não esperava que passasse pelo teste do tempo, mas ali estávamos: escolhendo uísques juntos para levarmos à comemoração da sua graduação. Ele havia conseguido; cruzou a linha de chegada e estava brindando por todo o sucesso que havia alcançado, e por toda a perspectiva que o inspirava para o futuro. Quando eu vi meu amigo subir no palco para receber os aplausos dos companheiros de sala, dos amigos de colégio, da família e convidados, dois pensamentos me vieram à mente: “Que bom, ele conseguiu!” e “Ah não, eu sou o próximo...”. Como pouco ironia na minha vida é bobagem, ele também iria embora de Londrina, e nós não nos veríamos mais tanto assim. Quando eu perguntei como ele havia descoberto vida após a faculdade, ele me disse:

- Pensei nisso em Janeiro.
- Janeiro do ano passado, do seu último ano?
- Não, Janeiro agora. Escolhi uma pós-graduação em Curitiba e pronto. Já viajo semana que vem.
- E como se sente sobre isso?
- Cara, não sei. Só sei que vou... Não pense tanto sobre isso. Mate a graduação primeiro, depois você vê o que faz.
  
   E então, simplesmente assim, eu ouvi tudo o que precisava ouvir. Que eu não precisava esquentar a cabeça com um plano. Que o meu futuro não estava perdido só porque eu não sabia defini-lo no presente. Que eu ia ficar bem...
   Por três dias, eu vi o outro lado desta vida passar diante dos meus olhos, completa com todas as escolhas diferentes que eu poderia ter feito se tivesse ficado por lá. Felizmente ou infelizmente, eu gostei do que vi, mas não ao ponto de me arrepender por ter ido embora. Eu precisava ir embora. Londrina havia se tornado pequena demais para suportar todos os meus questionamentos a respeito do que fazer da minha vida. Eu precisava de algo a mais, e aí veio Cascavel – que bagunçou tudo ainda mais, só para me lembrar de que nada na vida é organizado ou linear. Eu posso morrer amanhã, bem como eu posso aproveitar melhor o hoje. Eu não posso mais continuar me incomodando com coisas sobre as quais eu não tenho o controle. Começando pelo tempo que passou, até o tempo que está por vir. Ironicamente, eu já perdi muito tempo com isso, e só o que causou foi aumentar a minha barba e o meu consumo por comprimidos para dor de cabeça. A barba eu vou conservar por razões sentimentais, mas as lamúrias existenciais acabam aqui.
   Nos três dias que passei em Londrina, eu revi velhos amigos que continuam comigo até hoje, outros que por algum motivo seguiram caminhos diferentes, e alguns que o tempo simplesmente afastou. Eu visitei lugares que fizeram parte da minha história, e conheci outros que serviram de cenário para o ato final do meu ensaio sobre o futuro. Eu me senti amado, importante, significativo e pertencente a todos aqueles lugares e aquelas pessoas de novo, o que agora me faz pensar que eu poderia muito bem voltar para casa sem sentir que seria um retrocesso, mas um retorno à forma. Não necessariamente querendo dizer que Cascavel foi um desvio, mas foi o caminho que eu precisava trilhar naquele tempo, naquela hora. Eu nunca fui mestre na arte de ser o cara certo no lugar certo, na hora certa. Talvez por isso eu vivo me perdendo nesses debates inúteis contra a rapidez do tempo e a aleatoriedade da vida. Só que na maioria dos dias, eu me sinto bem por tudo isso e até durmo tranquilo, seja lá em qual das cidades eu esteja. Se tem um fator crucial que vem desafiando o tempo e a vida por todos esses anos, é que eu sempre fico bem. E, definitivamente, agora não é a hora para duvidar disso.
   E aí, depois de três dias em casa, remexendo meu passado, eu voltei para casa, para tentar endireitar o meu presente. Tire suas próprias conclusões sobre isso, mas faz sentido pra mim. E mesmo que não faça, só o futuro dirá...

***


   Às vezes você precisa abrir mão de quem você foi, para se tornar quem você será.

segunda-feira, 10 de março de 2014

A camiseta básica


  Você já teve a sensação de que todas as escolhas que já fez na vida foram as erradas? Já? Então senta aqui, vamos conversar.
  Antes de qualquer coisa, preciso confessar que não sou egocêntrico. Quer dizer, não sou tão egocêntrico assim. Mas desde que me conheço por gente, sempre tive essa mania de observar as pessoas, as coisas e tudo mais que acontece por aí, e sem querer acabo vendo um pouco de mim ali. E sinceramente não acho que isso seja de todo ruim, nem de toda originalidade. Porque de acordo com algumas matérias que ando tentando copiar em sala, geralmente o que nos atraí à pessoas e coisas são pequenos fragmentos nossos que vemos refletidos nelas. Logo, as pessoas e as coisas que fazem parte da nossa vida invariavelmente tem a nossa cara, e se tornam uma extensão de quem a gente é. E foi isso que me animou da crise que começou com uma coisa qualquer: uma camiseta básica cinza que comprei por menos dinheiro do que ela valia, mas que vinha acompanhada de outra camiseta básica branca no pacote também. E eram só isso mesmo, um pacote de duas camisetas básicas branca e cinza por tantos reais, no meio de uma pilha de pacotes idênticos em uma gôndola de uma loja de departamentos qualquer. Não havia sentido enxergar alguma metáfora sobre minhas escolhas, minhas extensões de personalidade ou minha vida toda dentro daquela gôndola. Mas a gente é o que a gente é, né.
  Na verdade, não é que aquela camiseta básica cinza refletisse algum aspecto igualmente monocromático e ligeiramente depressivo da minha alma – até porque não acredito que a cor cinza seja tão profunda assim, muito menos que existam outros 49 tons ainda mais escuros. É que eu nunca fui assim, de usar camisetas básicas de uma cor só. Pareciam tão fáceis e sem graça. E se me lembro bem, conforme a vida nos amadurece e aprendemos que, antes de nos enxergarmos nas pessoas, optamos por nos expressarmos por essas coisas chamadas roupas para daí descobrirmos quem se encaixa com essa estampa, e quem eventualmente é atraída por mim. E eu cresci com essa noção de que camisetas precisam chamar a atenção, ou no mínimo ter algo desenhado ali que sirva de exemplar primário da minha personalidade, independente dos aspectos bio-psico-sociais que esta venha a implicar. De novo, acredito que nem todas as pessoas devem se deparar com questões existenciais quando abrem o guarda-roupa para decidirem o que usar antes de saírem para o mundo, mas também não vejo nada tão fascinante nisso. Até porque, abrir o guarda-roupa e me deparar com 50 tons de existencialismo pendurados em cabides causa mais angústia do que alegria por querer ser autêntico. Especialmente quando se está com pressa.
  Confesso que escolhas me agonizam. Sou um indeciso ansioso e, infelizmente, nem um pouco anônimo quanto a isso. Meu nome é Igor Costa Moresca e eu não sei o que fazer com a minha vida. A agonia começa com esta folha branca do Word, encarando sem dó nem piedade a incapacidade dos meus dedos de traduzir através do teclado exatamente o que eu quero dizer, e se estende até todos os outros fragmentos da minha vida. Das questões universais sobre o sentido da vida e da felicidade, até aquela maldita camiseta básica cinza. Não sei se eu mencionei, mas comprei aquele pacote de camisetas básicas porque racionalizei que seriam úteis em algum momento. Mais precisamente, em algum momento em que estivesse com pressa, sem tempo para me aprofundar nas tortuosas possibilidades de existência que habitam as estampas das minhas camisetas convencionais. Só colocaria uma camiseta básica e pronto. E tem pessoas que fazem isso sem nenhuma preocupação, o que me sempre me deixou bastante impressionado. Não penso pouco delas; pelo contrário, fico admirado por optarem existir somente por si mesmos, sem nenhuma reflexão acerca da cor que decidiram usar ao se uniformizarem para vivenciar o mundo lá fora. Bravo!
  Eu, por outro lado, vesti a camiseta básica cinza e me senti fantasiado de má fé. Como se aquela camiseta básica representasse minha desistência de fazer decisões. Minha renegação frente a todas as possibilidades do mundo, as angústias, os questionamentos e as eventuais alegrias que provém delas. E como pouca ironia na minha vida é bobagem, é claro que a camiseta tinha que ser cinza: a cor do descontentamento, dos dias chuvosos em que você se sente preso em casa, e da irremediável tragédia espiritual que toma conta da gente quando algo de ruim acontece. Honestamente, era como se eu tivesse tomado minha última decisão: a de usar cinza por dentro e por fora da minha alma, como forma de uma pequena e silenciosa manifestação da minha redenção diante do mundo. Por que eu não poderia simplesmente vestir qualquer camiseta e pronto?
  Às vezes eu penso que deveria ter nascido com um manual de instruções, e que isto faz muita falta para as pessoas com quem compartilho a minha vida. Mas foi aí que eu comecei a me sentir melhor: existem pessoas que passam em casa para me buscar, nem reparam na camiseta cinza, e me levam para encontrar outras pessoas para quem eu divido minhas alegrias, confesso meus segredos, despejo minhas lágrimas e tiram meu fôlego de tanto me fazer rir. Pessoas que, por incrível que pareça, são extensões das escolhas que eu fiz na vida – por mais que estivesse de cinza. Pessoas que, sem dúvida, foram resultados das melhores escolhas que eu já fiz nessa vida, por mais que eu ainda não seja capaz de reconhecê-las. O que me fez pensar que, por mais que eu me sinta inseguro sobre o futuro, as coisas e as pessoas parecem sempre se acertar pra mim.
Aí um dia desses eu cheguei em casa, não troquei de roupa e dormi com a camiseta básica cinza, já que ela não significa nada e o universo está ao meu favor. E quando acordei, encontrei um rasgo debaixo do braço. Seria um outro sinal? Outra escolha mal feita? O que isso significa? Eu vou morrer?!

  E assim eu vou levando...

quarta-feira, 5 de março de 2014

A marcha ré emocional


  Dessa vez tudo começou mesmo com a marcha ré. Com a maldita marcha ré e aquela aula da auto-escola em que acabou aquela história de deixar que o instrutor leve o carro do ponto A para o ponto B, longe da civilização apressada e inconsequente para os confins dos bairros mais tranquilos e – curiosamente – recheados de placas de “Pare” a cada esquina. Mas naquela aula, não. Naquela aula me deram as chaves de um carro e me disseram pela primeira vez, “Quer sair dirigindo daqui?”. “Olha, querer querer mesmo eu quero. Mas acho que é mais uma questão de conseguir do que querer...” Aconteceu que aquela instrutora em particular não queria saber nem de “querer” nem de “conseguir” nada, e despreocupadamente entrou no carro no lado do passageiro. Ok, Deus, e agora? Fecho os olhos, e Você vai me guiando? Ou só coloco a chave na ignição e simplesmente tento? Levando em conta o olhar que a instrutora me deu, optei pela segunda opção.
  Aconteceu, também, que eu não estava em um dia particularmente bom. Por mais que meus dias sejam irreverentemente diferentes por natureza – um dia eu saio pra trabalhar, chego lá, cumpro minhas seis horas singelas de estagiário, e depois descubro que cortaram a verba do escritório e precisam fazer cortes de gastos, e que não há mais vagas para estagiários – aquele em especial foi difícil. Porque eu senti aquilo como um retrocesso muito grande. Um evento inesperado demais até pra mim, que sempre tento me preparar para o pior. Pois então, acho que eu não sei mesmo nada sobre a vida, inclusive sobre quais são as piores coisas que se pode acontecer com alguém. E como a vida é composta por um ciclo vicioso de dificuldades sem fim, aconteceu que no fim daquele dia, eu tinha uma aula marcada na auto-escola. A aula da marcha ré. O universo pode não ser muito justo, mas ao menos tem um senso de humor sensacional.
  O primeiro passo para tirar o carro daquele maldito ponto A era a marcha ré. Para tirar ele do estacionamento na calçada e inseri-lo no fluxo normal da civilização apressada e inconsequente. E ele estava em uma descidinha, claro, só pra não me ajudar. O que ninguém jamais vai te contar sobre aprender a dirigir é o quanto é difícil quando não se há prática anterior. Quanto a mim, eu nunca nem tive videogame – que, todo mundo sabe, tem ensinado crianças a desenvolver coordenação motora desde os Ataris dos anos 80.  Eu tive carrinhos de brinquedo, só que invés de dirigi-los pela casa ao som do meu próprio “vruum vruum”, eu preferia tacá-los na parede para tentar consertá-los depois. Tire suas próprias conclusões sobre isso, mas eu vejo isso como um sinal precoce de querer consertar coisas – e, eventualmente, pessoas. Por mais que eu mesmo tenha causado os acidentes e... Enfim, não é disso que eu quero falar. O problema era que, naquele momento, eu estava entre aprender a dar a marcha ré ou causar um acidente de verdade na avenida. E como eu sou o que sou, não pude deixar de chafurdar na ironia daquilo. Justo quando havia sofrido um dos maiores retrocessos na minha vidinha profissional em construção, ali estava eu: tentando tomar o controle da marcha cuja direção eu havia acabado de seguir emocionalmente, porém sem mostrar muita promessa de que daria conta daquilo. Eventualmente eu tirei o carro dali e segui o caminho da minha aula, assombrado pelos pensamentos de que eu já não sabia mais para onde eu estava indo na minha vida – enquanto minha instrutora apoiava esses pensamentos sem saber ao pontuar excessivamente minha desastrosa habilidade para dirigir. Eu já me senti perdido antes e sempre decidi continuar seguindo adiante até que algo ou alguém me ajudasse a voltar ao meu caminho, mas a experiência em si foi deveras perturbadora.
  Só que depois de alguns dias, algumas aulas e algum tempo, eu tive outro pensamento. Ou melhor, outra visão sobre o que não saber dar conta da marcha ré realmente significava. Porque quando se está dirigindo, dar a marcha ré não significa necessariamente que você está indo na contramão; significa que você está pegando impulso para seguir em frente. E por que então era tão difícil adaptar este mesmo conceito para a minha vida? Bom, pra começar, minha instrutora era péssima. Mas minha decisão de optar por outra pessoa para me ensinar a retroceder para seguir adiante, apesar de difícil e atrasada, finalmente veio e pra bem melhor. Segundo, por mais que eu estivesse me sentindo perdido em relação ao meu emprego, ou ao meu ano (como eu consegui complicar tanto a minha vida em 2014 enquanto ainda estamos só em Março?), ou ao resto da minha vida, eu percebi que talvez não estivesse andando errado afinal, mas que às vezes é preciso pegar um pouco mais de impulso para chegar mais longe. Eu não sei aonde vou chegar, mas se eu for adiante do mesmo modo que senti que retrocedi, então eu irei mais longe do que sonhei que poderia ir.

  Isto é, se eu lembrar de tirar o pé da embreagem depois de usá-la. Mas tem coisas que a gente só aprende com a prática mesmo.

domingo, 2 de março de 2014

O fardo do tempo livre


  Ninguém deveria parar para pensar na vida quando se tem só 22 anos. Mas não me entenda errado. Eu não quero dizer que jovens de 22 anos ainda não tiveram vida o suficiente para ser refletida, ou para sentir remorso, arrependimentos... Ou inclusive para ter crises. Mas naquele Sábado à noite, que não tinha nada de especial caso fosse possível tirar um extrato dessa vida da qual estou falando, onde seria possível grifar mais vezes do que deveria todas as outras noites que já passei dessa maneira. Com as mãos no teclado, uma cerveja aberta do lado, e uma dose irremediável de perdição latejando na minha cabeça. E é por isso que eu escrevo. Não vai resolver muita coisa, tudo bem, e certamente não vai fazer com que todos os meus problemas desapareçam. Mas na falta de um terapeuta 24 horas, ou de amigos disponíveis para desabafos em um feriado prolongado de Carnaval, a carnificina emocional iminente que atingirá uma inocente página branca do Word com os meus problemas é o que me resta. E lá vamos nós de novo.
  Eu nem tenho certeza de como realmente começou. Mentira. Foi num dia parecido com esse, nem tão afundado no calendário de 2013, em que eu estava me sentindo mal por ter muito tempo livre. O ocioso tempo livre. O maldito tempo livre. O fardo do homem branco e o seu tempo livre. Nada contra outras etnias, mas já que estamos falando de mim, é a imagem de um branquelo insatisfeito que eu vejo refletida no espelho. Ele e o seu maldito tempo livre. Eu acho que já escrevi por aqui, lá atrás no calendário de 2013, o quanto eu não gosto de ter tempo livre. E vocês vão perceber a ironia dupla disso assim que este post acabar, por mais que eu ainda não saiba como ele vai acabar. Mas naquela época eu não gostava de ter tempo livre porque estava fatidicamente apaixonado por alguém. Alguém que, naturalmente, não estava felizmente apaixonada por mim, nem tampouco felizmente qualquer-coisa por mim também. E toda a agonia e frustração e alcoolismo que isso acarretava era o que acabava preenchendo o meu tempo livre. Eu tenho trauma de ter tempo livre, e aparentemente de relacionamentos também. Mas isso é outra história para outro post, quando eu tiver tempo. Rá!
  E aí eu decidi encher a minha vida com coisas. Do mesmo modo que eu enchi o meu apartamento com coisas quando fui morar sozinho. Sabe, eu cresci com aquela noção familiar disfuncional de que uma casa e um lar são duas coisas completamente diferentes, e a diferença está nos detalhes. Precisamente, nas pequenas lembranças que você expõe e pendura pela casa para dar aquele toque pessoal que faz alguém se sentir a vontade quando entrar pela porta, começando pelo tapete com “Bem vindo” escrito. E a minha meta de vida, naquela parte da vida, era ter um lar. O que explica bem os quadros, os tapetes, a mesinha pra telefone, os brinquedos na estante, os porta-retratos, os bilhetinhos grudados na geladeira. Explica até mesmo alguns contratempos que o apartamento sofreu, como aquele rasgo no papel de parede da sala, resultado de durex que foi colado ali para segurar balões azuis para a minha festa surpresa de aniversário. Ou então, aqueles riscos na parede da sacada, que vieram de tanto eu e a Joyce ficarmos mudando as cadeiras de lugar porque uma delas está menos inteira do que a outra, antes de sentarmos e filosofarmos sobre, bom, a vida.
  Enfim, cada canto desta casa tem uma história, apesar de eu só morar aqui por quase três anos. Pensando bem, eu só parei pra pensar nisso agora. Três anos. Meu Deus. Isso me deixa ainda mais perturbado, considerando que ando refém de um estado mental de pânico por não conseguir segurar a ansiedade de que tudo está acabando – e por “tudo” eu me refiro à faculdade, a ver os mesmos rostos todos os dias, passar pelos mesmos corredores sem pensar que haveria um dia em que não passaria mais por ali, e pela vida que eu me acostumei tanto, mas tanto, que parece até um crime contra a natureza ter que acabar, por mais que só faça parte de um processo natural. Mas não era sobre nada disso que eu quero falar. Ou era? Não sei.
  A questão é que, bom, eu não sei muitas coisas agora. Considerando que o fim está próximo mas ainda não está aqui, isso não significa nada para a minha ansiedade. Até porque o status quo também anda bem precário. Eu não estou no emprego que gostaria. Eu não estou em um relacionamento. Eu não estou nem com a matéria da faculdade em dia no meu caderno. E como o Igor é o Igor, o Igor fez o que ele sabe fazer de melhor: mergulhou de cabeça no passado de cinco anos atrás para tentar descobrir aonde foi que ele errou para ver se consegue arrumar o que está dando tão errado agora. Acontece que o meu medo de encontrar um padrão inabalável não foi nem páreo para a realidade, porque o que eu encontrei foi bem pior: foi a inércia. A inércia, combinada com o fardo do tempo livre, mais uma vez me deixou preso no tempo – e, ironicamente, me dando a sensação de ter todo o tempo do mundo para resolver o que eu quero desta vida. Bom, vida, chegou a hora da gente ter uma conversa. Senta aqui e abre uma cerveja também, porque isso não vai ser fácil. Porque eu não sei o que eu quero de você, ou pra mim, ou qualquer outra coisa que seja útil para essa discussão. O que me deixa inegavelmente envergonhado. Eu já tenho 22 anos; eu deveria ter algum indício de noção. Não é?
  E então eu senti mil coisas. Como se a vida que passou por mim até agora tivesse sido em vão. Como se a vida que está por vir não chegaria porque eu ainda não resolvi o que fazer com ela. Como se eu tivesse feito todas as escolhas erradas. Como se eu estivesse sendo sufocado pelo atraso dos meus insights. Como se o universo fosse grande demais e, ao mesmo tempo, pequeno demais para me suportar. E senti preguiça, claro, quando tirei a pilha de roupa pra passar da minha cadeira e joguei em cima da cama para usar o computador e aproveitar melhor o meu desespero. Talvez uma pessoa normal jamais passaria por todos esses estágios e pularia direto para criar vergonha na cara e passaria toda essa roupa. Mas não estamos falando de uma pessoa normal, estamos?
  Aí eu usei o meu tempo livre do meu Sábado à noite alucinante para fazer o que nenhuma pessoa emocionalmente madura faria: eu mudei os móveis do meu quarto de lugar. Por mais que eu não sentisse que tinha algum controle sobre o que estava acontecendo com a minha vida ou para que rumo ela está indo, eu ainda poderia ter controle sobre qual canto do quarto eu quero que a minha cama fique para que o sol não estapeie a minha cara quando nascer.
  A ironia mor que lhes prometi é que, duas semanas atrás, eu estava levando uma outra vida totalmente mais atarefada. Tão atarefada, que ao fim de mais uma maratona diária de academia, estágio, auto-escola, faculdade e tentativas de ter algo que parecesse uma vida social,  eu abri uma cerveja, sentei na sacada – e obviamente risquei a parede ao me acomodar – e pensei comigo mesmo, “Eu achei que esse dia não ia terminar. Que saudade de ter tempo livre...Rá! Acho que essa é a graça que meus amigos e leitores veem na minha vida. Algo sempre acontece. Relacionamentos implodem, telhas caem, estágios somem. E às vezes coisas boas acontecem também. Mas apesar de se divertirem com isso, vocês também me ajudam a catar os pedaços e começar de novo. Assim como alguns amigos disseram, eu sempre consigo começar de novo e achar outra coisa. E outras pessoas, e outros sonhos, e blá blá blá. Que bom.
  A verdade é que talvez eu não queria ser muito feliz ou contente. Porque, e depois? Eu realmente gosto da jornada, da procura... Essa é a graça. Quanto mais se está perdido, mais você tem a esperar. Quem diria? Eu estou vivendo o melhor tempo da minha vida, e nem tenho noção disso. É por isso, crianças, que não se deve pensar na vida aos 22 anos. Muito menos se deve ficar em casa em um Sábado à noite.

  P.S. Este post foi, inconsolavelmente, patrocinado pela Heineken. Open your world.