domingo, 27 de abril de 2014

O significado do amor


   Caso você tenha chego até aqui com a expectativa de encontrar uma resposta pronta, pare de ler, feche esta aba e volte para o Facebook. Porque eu não tenho as respostas, e talvez nem esteja tão perto de encontrá-las quanto eu gosto de pensar. A verdade é que talvez nem existam as respostas certas, ou erradas, ou meio-certas mas que servem para você passar de ano na média. Por mais que eu não saiba dizer o que exatamente é o amor, da onde ele vem ou do que ele se alimenta, eu também não preciso esperar pelo Globo Repórter para aprender que um sentimento tão grande como este não cabe em pequenas definições, por mais que seja composto de apenas quatro letras. Quatro letras com uma promessa imensa. Basta só você encontrar alguém com quem possa compartilhá-las. E que este alguém te entenda.
   Mas ultimamente eu tenho me sentido bem mais esperançoso do que em meus últimos devaneios transcritos que despejei aqui. Que eu vivo escrevendo sobre amor, expectativas, esperanças e sonhos, todo mundo sabe. É o que me move quando eu saio por aí, mundo afora, com meus fones de ouvido no máximo e meus óculos escuros que escondem parte do meu rosto e, convenhamos, algumas lágrimas também. As coisas não estão fáceis, mas se for parar pra pensar, quando foi que estiveram? Quando foi que eu realmente senti que a minha vida estava em completa ordem e disposição? E por que isso seria automaticamente algo bom?
   Neuroses a parte, eu gosto dos meus problemas. E eu gosto de toda a calamidade que eles proporcionam, exatamente porque eles são meus e precisam de toda a atenção que puderem receber. E aí eu sento, choro, escrevo, sonho, reflito, rezo e imploro por dias melhores... Talvez não seja o sistema mais eficaz de todos, e por mais que os dias melhores pareçam tão distantes às vezes, eu deveria ser mais agradecido pelo fato de que eles não chegam todos de uma vez. Não. Eles chegam aos poucos, um após o outro, conforme a vida percebe que precisamos de um pouco mais de incentivo para levantar da cama de manhã e continuar tentando organizar todos esses sentimentos que passam a maior parte do tempo espatifados no chão do que arrumados e guardados nas suas devidas estantes. E eu estou começando a entender que isso é bom, e que é assim que as coisas tem que ser mesmo.
   Eu conheci muitas pessoas novas este ano, e cada uma delas entrou na minha vida carregando sua própria história, suas próprias lembranças, medos e esperanças sobre o futuro. Mas nem todas ficaram, e eu entendo que nem todas poderiam. Por mais que eu também goste de pensar que sou um ser humano neurótico e invariavelmente contente, não há muito espaço para as teorias de conspiração e crises existenciais de outras pessoas. Mas as que ficam, as que grudam, as que eu gosto de saber como estão indo, essas eu faço questão de arrumar algum espaço, por mais que a minha vida fique ainda mais bagunçada quando eu empurro todas as minhas inseguranças para algum canto, para que a gente consiga se sentir confortáveis dentro desse mesmo coração.
   Mais vezes do que deveria, eu penso que viver um relacionamento não está nos planos dos dias melhores que estão por vir. Porque as pessoas são difíceis, sentimentos são complicados, compromissos são pesados, e amar é algo incomensuravelmente complicado. E quando a minha linha do tempo do Facebook começa a se encher de fotos de casais felizes, e amigos meus me ligam para dizer que estão noivos e querem que eu seja o padrinho do casamento, e eu pareço ser o único em um jantar que não tem uma desculpa plausível para explicar porque a cadeira ao meu lado está vazia, eu baixo a guarda e admito que o amor pode até ter as suas dificuldades, seus desafios e suas decadências... Mas se todos esses casais, essas declarações, essas mãos dadas no shopping, e esses sorrisos que aparecem durante beijos por aí significam alguma coisa, é que aquelas quatro letras podem até possuir um significado muito complexo e pessoal, mas que definitivamente vale a pena correr atrás.
   O que é o amor para mim então? É o que eu sinto pelos amigos que convivem comigo, e tem descoberto constantemente o quanto eu posso ser tão irritante e difícil quanto eles, mas que continuam do meu lado por mais que já tenhamos dado todos os motivos do mundo para desistirmos uns dos outros. É o que eu sinto pela minha família, que me motiva e me inspira com a mesma proporção em que me abala e me destrói na velocidade de um almoço de Domingo. Mas principalmente, é o que eu sinto por mim, e por cada peça que compõe o quebra-cabeças do meu coração cansado e desgastado, mas que é digno de ser dado de presente para outra pessoa que também se importe o bastante para me retribuir com o dela.
   Claro que o amor também pode ser receber aquele abraço apertado depois de um dia difícil, de uma pessoa que te conhece o bastante para saber que você não precisa nem pedir por isso, porque seus olhos já delatam a sua tristeza. Pode ser o empenho que você coloca ao planejar uma festa de aniversário para alguém, ou passar frio em uma mesa do lado de fora do bar só porque você não quer que aquela conversa acabe, ou trocar mensagens no WhatsApp o dia inteiro, ou passar horas no telefone com aquele alguém de madrugada, só porque ouvir a voz dela é mais relaxador do que simplesmente ir dormir. Pode até ser a sensação que você tem ao abrir a geladeira e descobrir que sobrou pizza da noite anterior, e que você não vai precisar ir ao supermercado para providenciar o seu almoço. Pode ser tudo isso em muito mais, porque ninguém ama igual a outra pessoa, e cada um de nós vem completo com sua coletânea de sentimentos que enfeitam as estantes da nossa casa e da nossa vida, mas que na maioria das vezes sempre deixa um espaço vazio para que outra pessoa também adicione um volume seu em nossa coleção.

   Acho que o que eu estou tentando dizer é que, apesar de não estar em um relacionamento e das coisas não estarem tão boas assim, ainda existe tanto amor em mim nesta vida que, em vês de sentir falta, eu tenho mais a agradecer.

segunda-feira, 21 de abril de 2014

A melhor amiga


  (Enquanto isso, em Abril de 2030...) Crianças, eu vou contar para vocês uma história incrível: a história de como eu conheci a sua mãe.
   Tudo começou há vinte anos, em 2010, quando eu me inscrevi para o curso de Psicologia em uma faculdade em Cascavel. Faltavam apenas alguns dias antes do começo das aulas, quando alguém me encontrou comentando em um fórum de calouros do curso no Orkut (uma rede social que não é muito diferente, nem no layout e nem na zoeira, do Facebook de hoje) e me adicionou. Ela era uma caloura também, tão constrangida e envergonhada quanto eu, e que também estava tentando não se perder no mar de rostos desconhecidos que iria alagar a faculdade no primeiro dia de aula. O nome dela era Lia, e apesar de algumas conversas básicas do tipo “da onde você é?” e “do que você gosta?” para tentarmos nos conhecer, ainda demorou uma semana para que nós realmente trocássemos palavras um com o outro. E eu me lembro como se fosse ontem:

Pessoal, formem grupos de estágio com até cinco pessoas!
- Ei, Igor, você já tem grupo?
- Comentei com essas duas meninas que conheci agora, Luciana e Ellen, de fazer junto com elas. Quer entrar também?
- Pode ser.

   Crianças, é engraçado refletir sobre como amizades começam, especialmente quando já se está há tanto tempo na estrada com essas pessoas. Para nós parecia improvável dizer que, apesar de estudarmos juntos, ainda passaríamos mais tempo juntos do que poderíamos imaginar. Ou que descobriríamos mais coisas um sobre o outro do que pensávamos que poderia existir. Ou que, a partir daquele momento, começaríamos a compartilhar alguns dos momentos mais importantes das nossas vidas. Mas foi exatamente o que aconteceu. Porque assim que a Lia e eu começamos a perceber o quanto tínhamos em comum, desde o humor negro até a incapacidade de segurar risadas durante a aula, só uma coisa começou a realmente importar: a zoeira. Como na vez em que eu a Lia estragamos um abaixo-assinado que o pessoal da nossa sala criou para adiar uma aula de sexta-feira para que todos pudessem viajar durante o fim de semana... E em vês de só assinar e passá-lo adiante, nós criamos um nome e um número de registro falsos para anular toda a campanha. “Quem é José Queroteraula?!”. E rimos, rimos, rimos muito. E só estávamos começando.
   Eu e a Lia nos divertíamos muito, e com toda a zoeira e as conversas logo vieram os momentos que nós sequer considerávamos que seriam lembrados até hoje; como a vez em que a Lia brigou com a mãe dela e pediu se podia ficar na minha casa até a poeira abaixar, ou o primeiro dia de aula do segundo ano em que levamos uma classe de calouros para o bar, ou a maratona de “How I Met Your Mother” que fizemos em casa enquanto bebíamos uma dúzia de Heinekens (que acabou com a Lia vomitando no meu sofá, coisa que eu só fui descobrir um ano depois). Mas nem tudo foram risos; eu a Lia brigávamos bastante. Porque às vezes ela achava que eu não a considerava tão importante, ou então eu sentia que ela era um pouco grossa. Coisas bestas de se pensar hoje em dia, mas que fizeram com que eu e ela não conversássemos por meses. Só o que nos trouxe de volta foi o aniversário da Luciana – sabe, crianças, como nossa tradição de comemorar os aniversários do nosso grupo começou? Com o da Lia, que por acaso era perto do da Ellen também, mas que era mais fácil (e barato, já que éramos pobres) de comemorar tudo junto. Fomos ao shopping tomar caipirinhas e comemorar os 18 anos da Lia, com direito a um bolo de aniversário feito com restos de ovos de páscoa que compramos em cima da hora, e um fósforo que usamos para que a Lia fizesse um pedido (porque esquecemos de comprar velas). Foi uma noite bem especial. Quer dizer, menos pra Luciana. A Luciana estava a caminho de Cascavel quando o ônibus dela foi assaltado e eles tiveram que dar meia-volta. Mas isso é uma outra história. Ela estava lá em espírito – e na marcação que fizemos dela depois na foto, em um pedaço de chocolate.
   Crianças, por mais que eu a Lia brigássemos, e talvez ela ainda não tenha me escutado dizer isso, ela sempre foi especial. Ela foi a primeira amiga que eu fiz na faculdade, e a que sempre esteve comigo desde então. Ela estava lá quando o avô de vocês brigava comigo (e não foram poucas as vezes). Ela estava lá quando eu tive o meu coração partido. Ela estava lá quando eu fui demitido. E além de tantas outras vezes (como da vez em que terminei meu primeiro namoro, ou quando me acidentei com aquela telha, ou quando fomos comprar nossos últimos cadernos para a faculdade), mais do que nunca a Lia sempre esteve lá por mim quando criamos nossa maior tradição: a Bro night, ou, a noite de tomar chopp até um dos dois não aguentar mais, enquanto reclamávamos sobre nossas vidas miseravelmente juvenis. O mais engraçado disso, crianças, e eu me lembro como se fosse ontem, é que isso começou em uma época em que a Lia e eu achávamos que não estávamos em uma fase tão boa assim. Não éramos populares, não tínhamos sorte no amor, e passávamos tempo demais assistindo séries e sendo ridiculamente nerds. E num piscar de olhos, parece que tudo mudou: de repente estávamos frequentando festas, e sendo procurados por pessoas que queriam ser nossos amigos, e até mesmo com dificuldades para encontrar tempo na nossa agenda para nos encontrarmos para beber. E o que começou como um brinde por tudo o que esperávamos da vida, se tornou um brinde por nós e tudo aquilo que já conseguimos. E, como vocês sabem, é uma tradição que vive até hoje. Foi um caminho e tanto para chegar até aqui, mas eu jamais me esquecerei, crianças, de quando aquele pedido de amizade apareceu na tela do meu computador, e mudou para sempre o rumo da minha vida.
  
   E foi assim que eu conheci a sua tia Lia.
  
   Não se desesperem! Eu ainda vou chegar na parte de como eu conheci a mãe de vocês. Mas a verdade é que, se eu não tivesse conhecido a sua tia Lia, provavelmente eu não teria vivido tantas experiências e aprendido tanto sobre a vida, de um jeito que só uma amizade verdadeira poderia providenciar. Se não fosse pela tia de vocês, eu não seria o homem que eu precisava ser para que, quando a sua mãe aparecesse, eu estivesse pronto para valorizá-la. E ninguém me ensinou sobre como valorizar uma pessoa especial, como a sua tia Lia.

   E é por isso que hoje, no aniversário dela, eu preciso que vocês venham pagar a nossa fiança. Fomos presos por dirigir embriagados pela cidade usando máscaras de “troll face” enquanto cantávamos a música-tema de “Pokémon”... E valeu a pena.

segunda-feira, 14 de abril de 2014

A baliza dos sentimentos


   É claro que as coisas podem piorar. Existe uma linha tênue entre esperança e psicose, e eu sinceramente acho que é em cima dessa linha que a gente caminha todos os dias depois que a vida, o trabalho, os relacionamentos e a chegada à casa dos vinte e poucos anos te diminuem um pouco. Tudo bem, talvez eu esteja exagerando. Talvez eles não te diminuam, mas definitivamente deixam aquela sensação de que algo está sendo tomado de você, e não há muito sendo recebido em troca. A não ser pela fadiga, é claro, que será eterna enquanto durar. O que explica o atual porquê de eu gostar tanto de passar meus finais de semana dormindo, descansando ou singelamente deitado, evitando movimentos bruscos para evitar que a vida lá fora me encontre e me puxe com unhas e dentes de volta para todo o seu redemoinho de compromissos e decepções. Ou talvez eu só esteja chateado porque eu reprovei no teste da baliza. É, provavelmente seja só isso mesmo.
   Não é o teste em si que me chateia, claro que não. O que me chateia é a mesma coisa de sempre; o que a baliza significava. A maldita metáfora que estava nas minhas mãos naquele momento, na forma de um volante que foi guiado torto demais, e fez um carro subir no meio-fio. O que aquilo realmente significava? Ah, adivinha? A minha vida, claro. Tão torta e mal-estacionada como aquele carro, é assim que eu sinto que a minha existência tem sido dirigida. E depois do erro vem as tentativas de justificar o porquê daquele acidente: foram tantas aulas teóricas e práticas, conselhos e treinos durante os fins de semana em que eu fui impiedoso com o meu cansaço e sacrifiquei o meu sono, pra que? Mas eu estou me adiantando. Vamos dar ré um pouco.
   2014 não está sendo fácil. Estágios foram perdidos, famílias foram encurtadas, faculdades estão acabando, amizades estão sendo testadas, relacionamentos morreram antes de começarem, e relatórios tem sido adiados. E como se nada disso fosse o bastante, eu subi no meio-fio no teste da baliza. E a verdade é que eu entendo; não é de hoje que eu venho tentando me desviar de obstáculos para endireitar a minha vida, só para puxar o freio de mão no fim do dia e suspirar por toda aquela ansiedade, aquela adrenalina e aquele nervosismo terem cessado nem que fosse por uma noite, para que eu finalmente pudesse descansar antes de acordar e começar a manobrar toda essa vida de novo. Porque a vida é uma manobra, um equilíbrio, uma tentativa. E quando digo que essa linha tênue, que está mais para uma corda bamba entre esperar pelo melhor e sonhar com o impossível, só para se descuidar por um segundo e quebrar a cara no chão da realidade, eu não sinto que estou exagerando tanto assim. Talvez nas metáforas, mas não na angústia. Não está sendo fácil.
   Durante os trinta segundos que eu demorei para me perder na manobra da baliza e subir no meio-fio, eu pensei em algo: além das linhas pintadas no chão do pátio do DETRAN, em quais outros parâmetros eu estava me sentindo coagido a tentar estacionar a minha vida? Em relacionamentos baseados em beleza, zero grau de compatibilidade, e combinações do Tinder, em vês de amor? Em amizades baseadas em consideração, em vês de significado? Em satisfações baseadas em momentos, em vês de planos para o futuro? Eu não sei. Só o que eu sei é que, no momento em que as rodas traseiras daquele carro atropelaram o meio-fio, eu só consegui pensar no quanto eu estive perdido esse tempo todo, atropelando a mim mesmo e outros meios-fios das ruas de outras pessoas por aí, por onde eu nem realmente queria passar, mas meu desespero por encontrar alguma vaga de estacionamento livre para chamar de minha era maior do que qualquer placa de sinalização que fosse clara desde o princípio que ali não era lugar pra mim. E mesmo assim, eu sempre me surpreendia quando a multa chegava e parecia injusta e cara demais para mim. Quem mandou não prestar atenção?
   E assim eu vou levando, tentando me cuidar diante desta enorme pista de obstáculos chamada vida, onde cada esquina esconde uma surpresa e nem todo o caminho é visível. E ainda bem por isso; ainda bem por não conseguirmos prever o destino que tanto desejamos alcançar. Senão, acho que nem daríamos partida no carro e tentaríamos seguir nosso caminho, entre quebra-molas, decepções e o que mais aparecesse diante do nosso para-brisa. Meu consolo é que por uma cara e dolorida taxa, eu posso tentar refazer a baliza. Minha vida, por outro lado, vai precisar de um pouco mais de atenção caso eu não queira subir no meio-fio da incerteza de novo.
   Talvez a minha vida fosse mais fácil se eu não enxergasse sentimentos meus esparramados por todos os lugares que eu passo, mas aí que graça teria? Certamente me deixou mais animado sobre ter ido mal na baliza, ou na prova de hoje na faculdade, ou nos últimos relacionamentos que tive, ou qualquer outra coisa que tenha se provado difícil demais para que eu acertasse de primeira. A verdade é que eu gosto da angústia de ter que tentar de novo. Só faz a aprovação parecer ainda mais merecedora.

   É claro que as coisas podem piorar. Assim como também pode melhorar. A diferença crucial entre esperança e psicose está em não tirar o pé da embreagem muito rápido. Aprendi isso do modo difícil.

domingo, 6 de abril de 2014

A síndrome do domingo de manhã

   Por mais que eu adore a vida e todas as excentricidades que ela me proporciona, tem coisas que eu simplesmente nunca vou entender. Ou então, penso que não vou entender porque ainda não vivi o bastante. Talvez a vida seja como montar um quebra-cabeça de dez milhões de peças, e conforme você amadurece e consegue ir juntando alguns pedaços, você descobre que aqueles pequenos fragmentos que pareciam tão insignificantes e incoerentes uns com os outros na verdade formam figuras que realmente fazem sentido. Pode ser só coisa da minha dor de cabeça, que está servindo de combustível para a ressaca da minha manhã de Domingo, mas sabe quando você acorda meio tonto, mas com a sensação de que finalmente descobriu como a vida funciona? Então, é quase isso. Só que depois de algumas cervejas na noite anterior, que te fazem acordar depois com a missão de tentar reconstruir tudo o que aconteceu. E você começa com a noite anterior, relembra o que te levou a fazer e a beber tudo aquilo, e termina com as dez milhões de peças da sua vida espalhadas pelo chão. Seria ainda mais fantástico se eu não precisasse de um analgésico agora.
   Acontece que o quebra-cabeças da vida é maior do que a gente imagina, e nem sempre o sentido daquela figura permanece. Sempre aparece alguma outra peça que parece que não se encaixa, mas que faz parte daquele cantinho e que dará forma a outras figuras, outras cores, outros temas. E talvez o problema esteja em querer tentar quebrar mesmo a cabeça para fazer aqueles mil fragmentos ganharem sentido da noite pro dia, mas não adianta. A vida é um quebra-cabeça muito complicado para se terminar em um dia, ou até mesmo para fazer sentido tão de repente. Você precisa continuar tentando encaixar aquelas peças, mas também precisa admitir que não há nada de errado em parar para descansar de vez em quando, porque por mais ansioso que você esteja para descobrir qual é o sentido de tudo isso, às vezes a gente acaba ficando perto demais das peças para conseguir enxergar o que elas estão formando. E por incrível que pareça, ou por mais ansioso que eu fique, eu sinceramente não quero que o quebra-cabeças acabe. Eu não quero saber o sentido ainda, porque por mais que não tenha plena noção disso, eu realmente estou me divertindo.
   Por exemplo, eu quero muito entender o porquê de todo esse medo, essa necessidade de querer ter o futuro todo planejado, quando eu sei que planos que saem de acordo com o que eu queria sempre me deprimem de algum jeito. É incoerente? Sim. É estranho? Sim. É inconcebível? Não. Eu tenho pena daquelas pessoas que tentam ser objetivas e diretas o tempo todo, inclusive de mim mesmo quando me perco nas minhas insanidades temporárias e passo a acreditar que elas não valem a pena, e que ser normal e ordinário é o que há. Não, Igor, não é. Nós, seres humanos, somos recheados de contradições e bipolaridades que, felizmente, não precisam de medicação que fuja a algumas conversas sem sentido na sacada de madrugada ou um porre ou outro para se afundar de vez na embriaguez que a vida causa, só pra gente sair ainda mais sóbrio e lúcido do outro lado da ressaca.  
   Chame de Síndrome do Domingo de Manhã se quiser, mas depois dos últimos dias que andei vivendo, toda aquela pressa para querer que o quebra-cabeças da minha vida faça sentido finalmente se dissipou um pouco. Talvez seja por causa de todas aquelas Heinekens, ou talvez seja porque eu tema que, no final das contas, quando a imagem se forme, das duas, uma: ou eu não goste do que vou enxergar, ou eu ainda não entenda. E como eu não sei dizer qual das duas seria pior, prefiro continuar com a espera, a procura, a caça pelas peças certas que se encaixam nos lugares certos. Eu não sei no que tudo isso vai dar, e nem que seja só pro hoje, eu não quero saber. Talvez eu entenda o porque da gente não ter dado certo, ou porque aquele emprego não durou, ou porque eu tenho a sensação de que as escolhas que pensem que fossem certas, pareceram tão erradas depois de um tempo. Ou talvez eu realmente não entenda. Talvez eu ainda não tenha vivido o bastante.
   Só o que eu posso dizer com certeza é que eu ainda quero viver bastante e quebrando a cabeça cada vez mais, nem que seja para ir dormir tranquilo com a sensação de que, por mais que meus planos deem certo ou não, eu ao menos estou me empenhando para tentar me entender a cada passo do caminho. E acho que isto é mais do que muitas pessoas andam fazendo. A maioria das pessoas só vive, e isto sim eu considero inconcebível. Questione-se, indaga-se, duvide-se. E surte, se precisar, porque cá entre nós, quebra-cabeças me estressam. Eu só os levo adiante porque enxergar aquela figura no final me deixa curioso demais para abandonar toda a campanha. Eu sempre digo que não é a fé que move montanhas; é a teimosia. Quem tem fé só olha pras montanhas e pensa, “Elas hão de se mover um dia...” Quem é teimoso, encara as montanhas com ironia e diz, “Capaz que elas não se mexem?! Duvido!” E vai lá e tenta. E eu sou desses.

   Talvez haja um sentido para que as coisas não façam sentido. Eu já não sinto mais tanta pressa para entender, porque consigo perceber hoje o quanto a procura, a espera e a ansiedade podem ser divertidas. Ainda bem que não podemos prever o futuro, porque se soubéssemos o que seriam de alguns dias, acho que nem sairíamos da cama. Eu só desejo mesmo que, no final, eu entenda. Alguns quebra-cabeças são preciosos demais para acabarem muito rápido e, convenhamos, eu sempre tive uma queda por fazer sentido, sem ter sentido...

quinta-feira, 3 de abril de 2014

A porta fechada


   Quando eu cheguei no trabalho naquela manhã, a porta estava fechada. Não trancada, só fechada com um peso por de trás da porta que impedia que ela fosse aberta de fora pra dentro. Parecia razoável bater na porta e esperar que alguém tirasse o peso e a abrisse para mim, se não fosse por um pequeno detalhe: eu não estava tendo um dia razoável. E foi assim que eu me abaixei e enfiei minha mão por uma fresta da porta para tentar empurrar o peso para trás, para que eu conseguisse abri-la. Claro que não deu certo, e fez um barulho tremendo que chamou a atenção de todos que estavam lá dentro. Quando uma das minhas colegas abriu a porta, a indignação na cara dela era inegável:
- Nossa! Não podia esperar um pouco para que alguém aqui abrisse a porta?
   Pensei um pouco antes de responder, mas claramente não havia pensado o bastante quando respondi:
- Não posso tentar abrir a porta sozinho?
- Mas não é mais fácil deixar que alguém abra a porta pra você?
   Pensei um pouco antes de responder de novo, até que meu sorriso plastificado cobriu meu rosto e lhe devolveu um "Bom dia!" sincero, porém forçado e levemente babado com sarcasmo.
   Quando eu finalmente entrei para trabalhar, eu não pude deixar de pensar naquele momento. Ou então, mais precisamente, no momento em que eu parei e analisei a porta antes de tentar arrombá-la, em vês de me colocar a mercê da boa vontade de outra pessoa que pudesse, ou quisesse abri-la. Eu poderia ter esperado. Eu deveria ter esperado, mas não o fiz. Porque se tem uma coisa que eu aprendi com a vida, ou então, com todos os momentos que tive ultimamente antes mesmo de me posicionar na frente daquela porta fechada naquela manhã quebrada de Quinta-Feira, é que se eu quisesse que uma porta se abrisse, eu deveria fazer tudo o que eu podia - exceto, claro, depender de outra pessoa para isso.
   Eu já comentei aqui o quanto eu gostaria de ser uma pessoa normal, que passa mais tempo traçando, planejando e conquistando metas relevantes de vida, do que uma pessoa neurótica e ligeiramente egocêntrica que toma qualquer evento cotidiano como um reflexo metafórico da sua própria existência complicada. Mas, como eu já disse antes, a gente é o que a gente é. E naquele momento, naquela manhã, eu era alguém imensuravelmente incrédulo com a possibilidade de que aquela porta, ou qualquer porta, pudesse se abrir para mim sem que eu tentasse forçar a minha entrada. Porque portas não se abrem tão facilmente assim, pelo menos não para mim. Ironicamente ou não, meu mundo anda repleto de portas fechadas ou trancadas, e molhos de chaves que estão perdidos em algum lugar da minha casa e que eu simplesmente não consigo encontrar. Talvez, em uma ironia ainda maior, elas apareçam quando eu decidir me mudar e coloque toda a minha vida daquele espaço em caixas que serão carregadas porta afora, só para descobrir que elas estavam debaixo da geladeira ou atrás do sofá esse tempo todo. Mas agora que eu as encontrei, já não preciso mais delas. Porque eu não precisaria mais abrir as portas que elas foram feitas para abrir.
   Neuroses a parte, isto parecia ser uma metáfora boa demais para passar despercebida, apesar de todo o meu mau humor e falta de fé na humanidade. Confesso que o café ainda não estar pronto quando eu entrei para trabalhar também colaborou para isso. Talvez tivesse sido melhor não ter tentado arrombar, ou pedir ajuda, e simplesmente ter ficado em casa. Com a porta do meu quarto trancada, para não arriscar que a vida entrasse sorrateiramente e me puxasse de volta para as loucuras e as vaidades das pessoas e do resto do mundo lá de fora. Ou talvez, com 22 anos, eu já deveria estar mais ciente dos riscos e das responsabilidades iminentes que me aguardam quando eu decido abrir a porta da minha casa para me aventurar no mundo lá fora, assim como eu a abro para deixar que outras pessoas entrem e se sintam automaticamente confortáveis para compartilharem da minha vida. Ou talvez portas sejam só portas e eu só precise mesmo de um copo de café.
   Não... Eu sei o que eu preciso. A verdade é que depois de anos de aparecer na porta das pessoas erradas, ou de baterem a porta na minha cara e mandarem que eu caísse fora dali (e para isso não é preciso gritar ou ser desrespeitoso; nada é tão eficaz para mostrar a alguém que ela não é bem vinda ali do que silenciosamente não acolher sua presença), eu ainda espero que uma porta se abra. Eu ainda espero que a sua porta se abra. A porta do lar que eu sempre quis ter, com a pessoa com quem eu sempre quis estar, do jeito que eu sempre sonhei que poderia ser. Mas quando eu tiro tempo para fugir da realidade e me percebo no espelho, eu não consigo deixar de me ferir cada vez mais quando vejo que aquele reflexo não possui mais os mesmo sonhos, a mesma esperança, o mesmo amor. A verdade é que eu me perdi, e já nem me preocupo mais tanto em achar a porta certa. Pelo contrário, ando batendo desesperadamente na porta de todas as pessoas que vejo, desejando inutilmente que alguém se incomode o bastante para espiar o que está acontecendo comigo ali fora e diga, "Eu sei que você não está bem. Acho que você precisa descansar. Eu vou cuidar de você. Quer entrar?". É, é isso que eu quero. Se ao menos eu não estivesse tão cansado de esperar e não tentasse arrombar todas as portas que vejo pela frente, quem sabe eu já não teria chego finalmente ao lugar certo, na hora certa.
   Não há nada mais satisfatório do que ter alguém abrindo uma porta para você. Não sei explicar melhor do que isso, mas talvez seja porque ando afobado demais para entrar. Eu só quero ser feliz.

   O café ficou pronto; já é um começo. Bom dia.