terça-feira, 27 de maio de 2014

O hotel california


  (Baseado, aleatoriamente, em fatos quase reais. Ou não.)

   Além de todas as neuroses, contradições e má sorte, minha vida também é fortemente regida por músicas. Sejam os clássicos dos anos 80, as 25 mais tocadas das últimas semanas, temas de comerciais de televisão, ou apenas alguma melodia cativante que eu escutei durante alguns instantes que passei dentro de alguma loja de departamentos (Nota #1: Obrigado, Renner, por me dar “She’s Only Happy in the Sun” do Ben Harper, quando fui pagar meu boleto atrasado essa semana). Enfim, toda a minha vida são músicas. Não necessariamente as melhores músicas do mundo, muito menos as que agradam as visitas da minha casa. Mas a casa é minha, o pen drive é meu, e vamos ouvir o que eu quiser, combinado?
   Mas ao tentar relembrar de onde tirei a minha paixão por trilhas sonoras, me lembrei de um clássico em especial que a minha mãe – já batizada aqui como a padroeira da minha carreira de pseudo-escritor – sempre comentava que era a sua favorita. Um clássico dos Eagles que, segundo ela, se tratava de uma história de amor acompanhada por uma melodia belíssima, mas que em versões acústicas também não deixava a desejar nem em sua mensagem, nem em seu amor. Felizmente ou infelizmente, meu instinto curioso de ser – que invariavelmente também será a possível causa do meu fim – resolveu pesquisar sobre aquela música e o que aquela letra realmente dizia; já que eu não podia cantar junto porque, segundo minha mãe, “aprenda a apreciar a música sem estragá-la, Igor...”. (Nota #2:se eu tivesse dado mais ouvidos à minha mãe do que ao meu egocentrismo desprovido de habilidades musicais, talvez não teria me envolvido em uma briga com a vizinha de baixo por conta do volume da música, e da embriaguez da minha voz que estava tentando superá-la. Caso esteja lendo isso, minhas sinceras desculpas, pessoal do apartamento 215).
   Enfim, o que eu descobri sobre aquela música meio que destruiu os sonhos da minha mãe. Cá entre nós, quem ouve Hotel California sem saber o que a letra diz certamente poderia concluir que se trata de uma história de amor, baseado na melodia leve e na voz suave do vocalista... Se não fosse pelo detalhe de que isso realmente se trata da história de um hotel mal assombrado por lembranças de depressão, arrependimentos e amores perdidos. Sinto muito, mãe. Mas não fui eu quem escreveu a letra. Eu só traduzi.
   Claro que isso não foi consolo nenhum para a minha mãe, que ficou incrivelmente desolada por alguns instantes, tentando digerir o mal estar que a realidade daquela música que ela escutava por anos subitamente lhe causou. Mas quis a vida, que é aquela eterna brincalhona sem graça que eu não me canso de xingar – porém reconheço que jamais chegarei aos pés das suas habilidades de atribuir ironia fina às minhas grossas desventuras – que alguns dos meus sonhos fossem destruídos juntamente à imagem que a minha mãe tinha daquela música. “Esta era a música que seu pai dedicou para mim. Era a nossa música.” Obrigado, vida, por jamais deixar que minha curiosidade, meu sarcasmo e meu egocentrismo saiam impunes de qualquer coisa em que eu encoste a minha fútil existência. E então eu tive aquele momento de epifania que costuma acompanhar meus surtos de egocentrismo para com qualquer coisa em que eu encoste a minha fútil existência: minha vida é como o Hotel California – uma canção que, até aonde eu imaginava, se tratava de uma história de amor, enquanto na verdade fala de tristeza, amargura e solidão. E antes que você revire os olhos, faça uma careta, e me xingue mentalmente, eu admito que talvez eu possa estar exagerando. Talvez.
   Veja bem, talvez nem tudo seja tristeza, amargura e solidão, mas a minha visão de mundo, de homem, e da vida está definitivamente embaçada. Porque a vida de ninguém é um mar de rosas, ou um musical em que tudo dá certo no final e culmina em um grand finale, ou uma história de amor com o final feliz que a Disney me prometeu, e que a indústria pornô descaradamente perpetua. Mas – digamos que este devaneio irracional faça algum sentido – caso o Hotel California realmente represente uma metáfora para a minha vida, e o modo distorcido de como eu a percebo, de qual maneira eu poderia significar isso que irá me deprimir menos? Eis que surge aquela faísca de otimismo, que vez por outras eu sinceramente acredito que perdi, baseado nas idiotices que eu falo, as indiscrições que eu cometo, as irracionalidades que eu escrevo, e os romances imaginários que eu sinto. Se o Hotel California não se trata de uma história de amor, com todo aquele sentimento que a minha mãe construiu e que eu herdei, isto significa que aquela melodia, aquela voz, aquela calmaria, não significa mais nada?
   A verdade é que a canção ainda é a mesma, tão clássica e harmoniosa  em sua melodia quanto em versões acústicas, e que tudo na vida é subjetivo. Porque as coisas como a vida, músicas, amores e arrependimentos só dependem de nós para serem reproduzidos ou não. Para serem importantes ou não. Mas só porque nós sentimos algo de um jeito, e este jeito por ventura acabe não nos dando o suporte que a gente esperava, isto não significa que este algo se torne oco, vazio, infame. Também não significa que haja um jeito certo de sentir as coisas, as músicas ou as pessoas. Só significa que... Eu não sei.
   Eu não sei o que significa. Eu só sei que, depois daquele momento de desolação, minha mãe não abandonou a sua canção. Pelo contrário, ainda se dedicou a programá-la como o toque do celular. Enquanto eu, que nunca fui tão fã dos Eagles nem nada, de repente comecei a escutar a música mais do que nunca. Eu também não sei o que isto significa, e dispenso as interpretações freudianas. Prefiro ir dormir acreditando que há mais em minha vida do que eu ainda sou capaz de enxergar, do que eu acredito que esta canção meramente diz. Que nada é de um jeito só, e que tudo é possível. E que, acima de tudo, eu preciso fazer alguma coisa quanto ao meu egocentrismo exacerbado, antes que eu mesmo me engula – o que seria uma contradição, o que seria uma ironia, que é do que essa vida se trata.

   Eu poderia ser só uma pessoa normal que ouve uma música qualquer e se basta no conforto da simplicidade do ser, sem ramificações sócio-histórico-culturais. Mas não. Eu preciso ser o Igor.

quinta-feira, 22 de maio de 2014

O modo aleatório


   Eu tenho um pequeno ritual matinal que traduz perfeitamente o modo como eu levo a minha vida: eu me levanto, tomo banho para tentar acordar, arrumo a cama - porque, segundo fontes razoavelmente confiáveis, “os anjos da guarda continuam dormindo se você não arrumar a cama”, e não é bom sair de casa desprotegido por eles, o que eu levei em considerável análise, dado que quando isto aconteceu, eu me lembro perfeitamente de ter arrumado a cama de manhã – preparo um cappuccino para realmente acordar, me visto (não que eu tenha preparado meu café nu), seleciono a lista de reprodução que atualmente domina o meu iPod (sim, eu ainda tenho um iPod), e saio de casa para enfrentar mais um dia de vida. Ou pelo menos, é isto que eu já me acostumei a fazer a cada amanhã que nasce e se apresenta para mim, com todas as possibilidades do mundo. Tanto é que, às vezes dá certo, e às vezes não.
   O fator alarmante que distorce toda essa rotina e, consequentemente, o resto do meu dia está exatamente nesta lista de reprodução; nas trilhas sonoras que eu mesmo seleciono para mim, para me guiar até o trabalho, até a faculdade, até os meios aos quais eu me submeto para atingir os meus fins, ou só para ouvir enquanto tomo banho mesmo (desta vez, nu). Quando as músicas novas se desgastam, e as antigas de reserva já não me animam tanto quanto costumavam, eu recorro ao botão de emergência do “modo aleatório”; e saio em uma busca incansável por alguma melodia que se encaixe ao meu estado de espírito e seja capaz de traduzir o sentimento-sem-nome-até-então que estou vivenciando, para que eu me sinta mais capaz de levar o meu dia adiante. O que acontece é que, geralmente quando o botão de emergência do modo aleatório é acionado, é porque minha vida ao redor do iPod também anda mais inconsistente do que o normal. Tanto que nem as listas de reprodução que eu havia selecionado para mim conseguem dar conta.
   Caso você não esteja entendendo o meu drama, eu preciso confessar que a minha vida precisa de trilhas sonoras. Porque eu sou movido à música, desde que saio de casa com os fones de ouvido para enfrentar mais um dia longo e exaustivo de vida, até a hora em que volto com eles e já providencio algum som ambiente para remediar o silêncio agonizante que dominava meus arredores até então, para que a aterrissagem de volta ao meu aconchego seja mais suave. Desde as tardes de tereré ao som das mais recentes adições à minha coletânea que não perco tempo para atualizar em meu pen-drive, até as noites de uísque na sacada ao som das canções mais clássicas e melodramáticas, para reflexões e conversas mais profundas do que o brilho sol permite desenvolver.
   É por isso que o modo aleatório parece ser um espelho tão preciso da minha vida; quando as coisas não vão de acordo com o planejado, o mesmo se despenca em cima das músicas que eu havia selecionado para acompanhá-las. Quando eu não sei mais o que fazer, eu também não sei o que ouvir. E quando eu não sei mais o que dizer, eu também não sei o que cantar. Que a vida é um caos constante eu até entendo, mas quando este caos se torna capaz de silenciar até mesmo as 25 músicas mais tocadas que meu iPod automaticamente seleciona, é aí que as coisas realmente ficam sérias. Eu consigo sobreviver sem tirar minha CNH, ou sem um estágio na minha área, sem folgas do trabalho ou sem alguém para andar de mãos dadas de shopping, mas não sem algo para ouvir que traduza tudo isso com os acordes perfeitos para me acalmar.
   E foi em um desses momentos, de procura desesperada por algo para ouvir enquanto caminhava de volta para casa depois de mais um vida de, uh, vida, quando eu pensei em algo: talvez o problema não seja nas músicas que não se encaixam mais, mas no silêncio que toma conta quando os sons cessam. Quando a realidade dos meus problemas se torna inegavelmente alta, aguda e angustiante – e que talvez nenhum artista consiga compor uma letra capaz de fazer com que eles não sejam mais nada além de ruídos secundários que não são capazes de sobreviver a uma sinfonia mais harmônica.
   Porque a verdade é que a vida em si é levada por todos nós em modo aleatório, onde planos se desfazem o tempo todo, ritmos se elevam e se diminuem a cada nova dança em que nos envolvemos, e só o que cada um de nós pode fazer é se esforçar para aprender os novos passos que devem ser dados se quisermos continuar na pista. E a vida, ao contrário do modo aleatório do meu iPod, não teve todas as suas faixas selecionadas por mim, nem pode ser pausada ou avançada ao meu gosto. Às vezes haverão músicas que eu não vou gostar de ouvir, bem como haverá momentos em que alguma das minhas 25 mais tocadas irá se repetir. E todas essas músicas que eu ouço quando saio de casa de manhã para viver nada mais são do que belas melodias para me distrair do que realmente não importa: das inseguranças que me mantém acordado à noite, das dúvidas que me impedem de seguir em frente, e dos problemas que preciso deixar pelo caminho antes de voltar para casa. Não é a toa que passo a vida tão perdido em músicas, que às vezes nem vejo o tempo passar.

   O que me incomoda mesmo é quando desperdiço músicas em pessoas, e quando as pessoas se vão, as músicas ficam impregnadas de sentimentos e lembranças que eu já não faço mais questão de repetir. Taí a lista das 25 mais tocadas que não me deixa mentir ou, muito menos, esquecer.

segunda-feira, 19 de maio de 2014

A simples complicação


   Eu levo uma vida complicada. Dessas do tipo que precisa ser constantemente refletida, desesperadamente sentida, incomensuravelmente significativa e, por que não?, irremediavelmente escrita. Capítulo por capítulo, vírgula por vírgula, e amor por amor. Uma vida com complicações difíceis de serem explicadas, do tipo que acaba quase sempre sendo omitida ou justificada ridiculamente quando encontro alguém na rua que não vejo faz tempo, e que me pergunta se está tudo bem. Eu não me lembro mais de quando foi exatamente que eu decidi deixar essa vida complicada um pouco mais autêntica, na esperança de que isso talvez facilitasse as coisas, e passei a ser dolorosamente sincero com as minhas respostas.
- Tudo bem?
- Não.
- Por que?
- Ah, é complicado...
   Eu também não me lembro ao certo de quando foi exatamente que eu abandonei este instinto de justificar constantemente minha condição sine qua non de levar uma vida complicada. Talvez tenha sido quando eu finalmente me convenci de que esse tipo de conversa geralmente partia de alguém que não participa muito ativamente da minha vida, e que perguntou como ela está por mero impulso. Claro que é uma generalização banal, motivada pelo meu descontentamento crescente com a complicação que exala dos meus olhos Machadianos de ressaca, e que apesar dos apesares, algumas pessoas talvez queiram mesmo saber como eu estou. Mas o que acontece agora não dá muita brecha para estas pobres vítimas do meu sarcasmo engatilhado.
- Tudo bem?
- Não.
- Por que?
- Ah... Porque não.
   Você não quer saber. Eu tenho certeza disso. E eu não quero contar. Sabe por que? Porque é complicado. E pessoas não gostam de coisas complicadas. Coisas complicadas causam caretas, ranger de dentes, constrangimento e, vez por outras, indignação de ambas as partes: da pessoa que está desabafando os desdobramentos infinitos da sua existência complexa que descobre que seus problemas parecem ainda maiores em voz alta, e da pessoa que está ouvindo e que se arrependeu de ter perguntado sem pensar no que diria caso a resposta fosse “não”. Engraçado como a gente nunca sabe bem o que dizer para alguém que diz “não” a algo tão simples como isso. Mas eu não gosto de mentir. Pode não ajudar muita coisa no contexto da complicação da minha vida, mas pelo menos não adiciona nenhum peso adicional por querer fingir que “sim, a vida vai bem”, acompanhado por um interesse igualmente instintivo pela sua vida também.
   Felizmente, eu tenho pessoas na minha vida que aceitam toda a minha complicação, e ainda a convidam para sair e tomar alguma coisa nos finais de semana. Eles podem não estar lendo isto, ou sequer leem algum capítulo que transcrevo aqui, mas estão constantemente comigo de algum jeito. Atravessando a complicação com toda a coragem e determinação que conseguem reunir, só para não me deixarem sozinho. E eu entendo porque eles fazem isso. As vidas deles são complicadas também. A de todo mundo é, Igor. O que faz os seus problemas serem maiores do que os das outras pessoas? Eu não sei. Talvez porque eles são meus...
   Talvez as melhores pessoas sejam mesmo complicadas, que levam vidas difíceis recheadas de problemas esquemáticos e obstáculos infinitos. Talvez aquela noção de que existem pessoas simples por aí com vidas pacatas, cujos maiores problemas são os complexos de ócio criativo que inventam, seja apenas um mito. Eu posso não ter uma vida fácil, ou particularmente rica, ou até mesmo vagamente linear, mas sempre tenho assunto para puxar conversa na mesa do bar. Se faz tempo que a gente não conversa, e você me perguntar como eu estou, e estiver disposto a enfrentar meu sarcasmo inicial, pode ter certeza que ouvirá muitas histórias. E você vai rir, porque se tem algo em que eu sou bom é em conseguir enxergar a graça na minha vida. Pode ser muito complicada, mas é deveras irônica. E eu tenho essa queda irremediável por ironia que não me deixa evitar ver o quanto o universo é muito engraçado, mas que algumas vezes a piada sou eu. Eu e toda a minha complicação.

   Quem sabe só o que me falta seja alguém tão complicada quanto eu, para me ajudar a esclarecer essas coisas. Capítulo por capítulo, vírgula por vírgula, amor por amor.

quinta-feira, 15 de maio de 2014

A Igor-dice


(Texto originalmente escrito durante um “projeto Verão”... Que não deu certo.)

   Comer é uma dádiva. Sou um defensor até o fim dos tempos de que, caso todo o resto falhe, um pote de sorvete jamais me deixará na mão. Assim como um medalhão de filé mignon ao molho madeira acompanhado de purê de batatas pode ser muito mais confiável do que algumas pessoas. Felizmente ou infelizmente, digo isso por experiência e calorias próprias. Mas não é bem isso que eu quero dizer.
   Alguns posts atrás, eu fugi da linha de raciocínio de um dos meus devaneios existenciais infames sobre algo que eu não lembro - talvez algo a ver com vida, expectativas ou amor; essas coisas bobas das quais eu sempre falo - e fiz a brilhante associação entre coração e estômago que todos nós temos, mas juramos publicamente que não tem nada a ver. Como se sofrer por Fulana tivesse algo a ver com os dezesseis chopps que eu já tomei, ou o estresse no trabalho afetasse de alguma maneira meu metabolismo sobre cinco fatias de bolo de chocolate com raspas de coco, ou se meu estado civil de "forever alone" pudesse estar relacionado com meu novo e inspirador relacionamento com bacon.
   Eu não deveria estar me aventurando tanto pelo fantástico mundo dos brigadeiros e cupcakes, porque realmente não há nenhum motivo inconsciente que esteja tentando compensar alguma falta no meu coração através de supérfluos perecíveis. Quer dizer, quase nenhuma. Ultimamente eu percebi o quanto tem sido mais divertido passar horas chafurdando em uma refeição do que ter algum tipo de interação com outro ser humano - ou então, ter algum tipo de interação com outro ser humano sem uma porção de batatas fritas e uma torre de chopp como catalisadores de conversa.
   Comer tem sido mais divertido do que normal. Mais do que uma necessidade fisiológica. Mais do que uma demonstração instintiva de sobrevivência. Mais do que uma desculpa para puxar assunto com você. Comer tem sido feliz. Singelamente (ou duplamente, dependendo do “combo” do seu cheeseburger) feliz. Como se felicidade finalmente tivesse nome e formas definidas, e estivesse disponível em porções pequenas, médias ou grandes, acompanhadas ou não por alguma bebida e/ou sobremesa. Se até agora você se considerava gordo de alguma maneira – fisicamente ou emocionalmente – sinta-se orgulhoso. Meu nome é Igor e eu sou um gordo romântico, acomodado em um relacionamento sério com pizzas de pepperoni, lasanhas de microondas, strogonoffs de frango e doses irremediáveis de vodka com, bom, qualquer coisa igualmente anestesiador.
   Porque comida, quando não atrasa ou esfria, não desaponta. Não mente, trapaceia, engana, ilude ou dá moral e depois nega, dizendo que é só legal e que é melhor você não criar expectativas sobre ela. Ou então, talvez meu ceticismo em se tratando de relacionamentos tenha se alastrado tanto pelas artérias do meu coração (e, convenhamos, parte da culpa disso é do bacon), que tem sido difícil acreditar em coisas tão abstratas como amor, enquanto a ciência exponencialmente mais mensurável e deliciosa da gastronomia consegue me convencer imediatamente da sua existência e eficácia a cada bife à parmegiana que eu peço. Já pessoas, por outro lado, também correm o risco de esfriar ou atrasar, mas com aquela pequena diferença primordial que divide o homem do resto da natureza: o maldito livre arbítrio.
   Porque as pessoas podem escolher esfriar ou atrasar, dentre tantas outras possibilidades de enganar o nosso coração e – tragicamente – o nosso estômago. E o que a pessoa faz quando está prestes a ficar faminta de amor? Ataca a geladeira de madrugada, usa toda a sua criatividade e condimentos para criar um X-Depressão, e depois jura que logo logo vai voltar à academia. O que é irônico, já que 83% da população se mata de correr e suar em uma esteira para ter um banquete de janelas de conversação no Facebook, depois de postar aquela tradicional foto no espelho quando os pesos e as aeróbicas finalmente fazem efeito. Não precisa confirmar estes dados. Sério, não precisa. Por que eu mentira? Nada contra, é claro. Recentemente voltei a fazer parte do culto à forma e músculos, e atendo aos cultos diariamente como um bom discípulo, só esperando para que o suor e as lágrimas que aquele supino reto me causa logo se transformem em orgulho e ego inflados. Super normal. E o IBGE já tem as estatísticas das minhas “selfies”.
   Mas enquanto isso não acontece, e as pessoas continuam sendo livremente sádicas, e o calor lá fora não parece querer dar folga tão cedo, eu vou continuar buscando refúgio no happy hour mais próximo, com direito a uma porção de costelinhas de porco, uma cerveja gelada e uma consciência levíssima.
   Melhor fazer gordices sadias do que passar fome por alguém.


(Nota pessoal do autor: Nunca escrever nada quando estiver com fome. Sofrendo por amor, tudo bem. Com fome, nunca.)

terça-feira, 13 de maio de 2014

Os próximos cinco anos


   O que dizer quando as coisas não ocorrem conforme o planejado? Eu entendo que não posso controlar a vida, ou o tempo, ou o clima lá fora ou o horário de funcionamento daquele bar perto da faculdade que parece que só abre depois das 23h, sob ameaça de tempestade ou nevasca, para afastar clientes que não são potencialmente “cool” o bastante para frequentá-lo. Eu entendo o conceito de “fazer planos” e o desastre iminente para o qual você está fadado a encontrar no fim do dia quando – “inesperadamente” – as coisas não acontecem do jeito que você queria. É um conceito falho, desgastado e ultrapassado. E falar que ele é tudo isso é muito fácil; difícil mesmo é mudar. Senão, por que eu estaria aqui mais uma vez, me afundando nas lamúrias da minha desesperança? Bom, por isso, e por aquele outro fator que invariavelmente me deixa propenso a navegar pelos mares desconhecidos da minha psique fragilizada: o maldito tempo livre. Deve até haver uma fórmula para isso: felicidade é igual a atitudes, dividido por tempo livre menos planos ao quadrado.
   Eu ainda gosto de pensar que todo esse medo, essa ansiedade, e esse desespero que já nem é mais tão silencioso assim, são justificáveis. Quando o fim do ano chegar, todos nós que estudamos juntos por cinco anos na mesma sala, no mesmo corredor, na mesma faculdade, iremos nos deparar com o fim da linha: o mundo real. Fora das salas de aula, de orientadores e horários de prova: até aonde eu percebo, o mundo lá fora é feito de uma imensidão de desorientação e caos. Com exceção de alguns lugares, aqui e ali, que servem para planos bonitos de fundo para “selfies” e, por que não?, para nos escondermos da calamidade que só não nos engole por completo, porque não ganhamos o suficiente para fazer isso valer a pena. Às vezes eu me surpreendo com o verdadeiro tamanho do meu pessimismo interior, mas ao mesmo tempo me sinto melhor com pelo menos ter um espaço para derramar toda a minha tragédia com um toque de prosa e uma moldura de poesia.
   Mas apesar de todo esse esboço de divina comédia que eu chamo carinhosamente de vida, talvez eu devesse mesmo sossegar. Aquietar as preocupações, aliviar as tensões, e investir mais em campanhas que realmente importam: como voltar a dormir pelo menos oito horas de sono por dia para acabar com as olheiras, parar de me alimentar como um carnívoro alucinado em fast-food e de me esconder em paraísos alcoólicos temporários, e simplesmente deixar a vida acontecer. Por que a mesma vida que trucida, que aniquila, que parece impiedosa, pesada e insensível, também não pode ser o contrário? Ou, quem sabe, ela nem seja nada disso afinal. Não é você, Igor, que também gosta tanto de pensar que tudo acontece por um motivo, por mais que você ainda não entenda exatamente o por quê?
   Pensando bem, talvez o problema esteja mesmo nos conceitos. Porque “deixar a vida acontecer” para mim parece tão preguiçoso e aleatório, por mais que isto não tenha sido definido em nenhum dicionário. Bem como, não existe nenhum gabarito da vida, onde eu possa conferir se as respostas que confiei como certas realmente batem. A vida não se baseia em conceitos, nem em certo ou errado, nem nos últimos cinco anos ou nos próximos cinco. A vida é só... A vida. Uma coleção imensurável de felicidade, caos, conquistas, derrotas, estágios remunerados, empregos perdidos, diplomas, notas baixas, almoços de Domingo, provas de baliza, relacionamentos reais e imaginários, mãos dadas no shopping, corações partidos, risadas de tirar o fôlego, entre outros momentos que só se tornam inesquecíveis porque nós mesmos decidimos que foram. O que me leva de volta aos meus conceitos, e uma necessidade alarmante de revê-los.
   Então chega de planos, de uma vez por todas. Mas também não jogue toda a sua cautela ao vento. Deixe a vida te levar, mas não perca toda a noção da direção. Dê risada, chore, coma, beba, ame, dance, passe ridículo, convide ela para sair, roube um beijo no fim da noite, e adicione todo o bom e ruim que tirar disso à sua coleção. Nem só de bom é feita a vida, mas é incondicionalmente repleta de experiências. Experiências que, caso não sirvam para qualquer outra coisa, podem causar risadas em uma roda de amigos em um bar – contanto que ele esteja aberto. Faça chuva ou faça sol, frio ou tempestade, na riqueza ou na pobreza, até que o meu otimismo – que eu pensei que jamais iria encontrar de novo – me separe disso tudo. Talvez a imagem abstrata dos próximos cinco anos continue assombrando os cantos obscuros dos meus pensamentos mais insanos, mas por enquanto talvez seja melhor deixá-los mesmo de lado e tirar uma soneca. Só não digo que este é meu novo plano, porque pode dar errado.

   Deixa quieto, sabe. Pelo bem da humanidade.

segunda-feira, 5 de maio de 2014

A passagem de ida

Eu não sou de fazer esse tipo de coisa. Não, eu sou do tipo que planeja. Infelizmente, eu sou do tipo que planeja cada detalhe, e sempre foi assim. Aonde vou, como vou, com quem vou, que horas vou, quanto tempo vou ficar e, principalmente, quando vou voltar. Este sou eu. E talvez seja exatamente por ser assim que existam outras pessoas por aí que me considerem tão confiável, apesar de todas as crises existenciais e besteiras aleatórias que eu despejo sobre elas. Mas me consideram tão confiável que, às vezes, é assustador. Amedrontador, pra falar a verdade. Não, não, eu estou exagerando...
   Mentira, não estou não. É sufocante. A cobrança, as expectativas, as satisfações... Já faz algum tempo que não sou acostumado a dar satisfações sobre o que eu escolho fazer com a minha vida; só sobre o que eu já fiz, que eu transcrevo por aqui, mas em forma de prosa e poesia. Sabe, pra ficar menos maçante, e mais atraente para os interessados anônimos que me mantém motivado a continuar escrevendo os capítulos da minha vida. E por mim mesmo, para casos de emergência, como crises existenciais ou besteiras aleatórias que possam vir a esfumaçar meus pensamentos. É sempre bom voltar aqui e reler o que já escrevi, igual como quem deixa migalhas de pão pelo caminho que já percorreu dentro da floresta, no caso de se perder. E de certo modo, foi assim que eu aprendi que às vezes, para seguir em frente, é preciso voltar alguns passos para vislumbrar melhor a estrada adiante.
   Mas dessa vez, nesse feriadão estendido em particular, eu não estava me sentindo tão otimista e esperançoso – o que costuma ser o meu tipo de coisa. Não. Desta vez algo dentro de mim quebrou, e falou mais alto do que toda a vida que me cercava. Mais alto do que os compromissos, as cobranças, as expectativas, o pão que eu precisava comprar no mercado a caminho de casa, e a conta de telefone que eu precisava pagar na lotérica que fica a caminho do mercado. E naquela manhã nebulosa de Quarta-Feira, eu decidi que iria viajar. Que iria sair um pouco de perto dessa bagunça, desse caos condicionado que eu chamo carinhosamente de vida, e iria tentar respirar um pouco sem precisar me preocupar com trabalho, ou faculdade, ou relatórios, ou contas de telefone. Eu iria para o lugar de sempre – para minha casa, longe de casa – para rever a família, os amigos, os meus marcos históricos da adolescência, e o berço de todas as minhas crises existenciais e besteiras aleatórias. Só que desta vez, quando eu cheguei no guichê da rodoviária, algo mudou. Eu só comprei a passagem de ida, porque parte de mim – a parte que eu senti que quebrou – havia decidido que não queria mais voltar. E eu não sou de fazer esse tipo de coisa.
   Aí você vai me dizer que foi uma fuga, e que não se pode fugir dos problemas, e que as responsabilidades estão aí e cabe a cada um responder pelo que lhe cabe, e que a sociedade blá blá blá. É, eu sei. E sabe do que mais eu sei? Que de vez em quando você também pensa nisso. É, você mesmo. Você que está aí, anonimamente e atonitamente me julgando, palavra por palavra, enquanto secretamente sente que sim, você já pensou nisso também. Então, eu entendo. Claro que eu iria voltar eventualmente, porque eu ainda sou eu. Aquele, que é dolorosamente metódico e refém de um cárcere público que eu mesmo me condicionei, e que sempre leva um par de meias a mais na mochila em caso de emergência. Claro que a minha pequena revolta não passaria da definição de uma viagem de feriado prolongado, mas se isto é bom ou não, deixo para você decidir. Só não precisa me responder o que decidiu; já está feito e eu voltei. Quatro dias depois, para ser mais exato. E quer saber? Foi muito bom. E sabe do que mais? Eu nem fiz nada.
   Não bebi, nem fumei, nem mudei minha identidade para conhecer alguma devassa desconhecida sob a proposta de cruzarmos a fronteira e começarmos vida nova em algum lugar ao norte do Atlântico (Nota do autor: ultimamente tenho tido um devaneio improvável, porém constante, de me mudar para a Guiana Francesa, deixar a barba ultrapassar todos os limites do decoro social, e viver de coquetéis e filosofia à beira da praia. Mas até a presente data, a logística de tal devaneio ainda não foi bem concretizada). Ok, ok, lá vou eu me enrolar nas minhas crises existenciais e besteiras aleatórias de novo. E é claro que eu bebi, mas só um pouco. Porque eu ainda sou eu.
   Não sei se é Cascavel que me cansa, porque me lembro bem de alguns anos atrás, antes de todo esse mimimi que eu sempre repito de mudar de cidade, começar vida nova, sentir medo e ansiedade pelo futuro e etc, de quando eu ainda morava em Londrina e sentia a mesma vontade de fugir. A mesma pressão, e o sufoco, e as expectativas, e toda uma vida de possibilidades que estava começando a se apresentar diante de mim... E que, assim como naquela manhã nebulosa de Quarta-Feira, eu não soube como lidar direito e seguir com o instinto mais tradicional e encoberto do homem: fingir que nada disso era comigo, dar as costas e correr para qualquer outra direção. Era isso que eu fazia, e ainda é o meu primeiro instinto diante, mais uma vez, de toda uma vida de possibilidades que está voltando a me encarar, como um valentão que me empurra e pergunta com uma voz ríspida e grosseira: “O que você vai fazer, hein? Hein?”. “Dane-se, eu vou embora!”, eu penso. Só que não. Mas eu me sinto bem em Londrina, e nos últimos cinco anos, este bem estar é uma sensação que geralmente dura um dia e meio após eu chegar, e só bate no meu peito de novo quando já estou na rodoviária de novo.
   Às vezes parece que a minha vida toda gira em torno de uma rodoviária. Ou, no mínimo de idas e vindas, tentativas de fuga e ligações de agentes da minha liberdade condicional, que eu chamo carinhosamente de família e amigos. Porque, por mais que eu gostaria de fugir e sumir pelo mundo afora, dois fatores que também são o meu tipo de coisa me impedem: as pessoas que me ajudam, dia após dia, a continuar sendo quem eu sou, e a potencial ausência de uma tomada para carregar o meu Smartphone em determinada praia da Guiana Francesa que eu vá parar.
   Eu não estou infeliz, mas confesso que tive alguns dias difíceis. Ok, alguns meses difíceis. Ok, 2014 está zoando com a minha cara desde a segunda parte do Show da Virada. O que eu venho tirando de bom de toda essa zoação – a demissão, a baliza mal sucedida, a falta de alguém para andar de mãos dadas no shopping – é que todos esses passos para trás estão ao menos me ajudando a enxergar melhor a estrada adiante, e exatamente até onde eu quero ir. Desbravar o mundo? Não sei. Voltar para Londrina? Quem sabe. Só o que posso dizer com certeza é que, quatro dias atrás, tudo o que eu queria era cair fora daqui – sinto muito, sociedade. Quatro dias depois, eu voltei melhor do que nunca. Com todas as crises existenciais e besteiras aleatórias, a vida tem dessas coisas. A minha, pelo menos, tem.

***

   No dia seguinte, eu estava de volta na minha rota matinal para o  trabalho como se nenhuma dúvida sobre a minha existência neste planeta tivesse cruzado a minha mente, com os fones de ouvido no máximo me guiando pelo caminho, quando um carro encostou do meu lado e um sujeito me pediu informações de como chegar a uma floricultura que fica na rua de cima da minha casa. Senão me engano, talvez tenha sido a primeira vez que eu finalmente consegui guiar alguém para tomar o caminho certo dentro desta cidade, em parte por já ter andado muito por aí e ter sido capaz de ter deixado um pouco de vida por todos esses quarteirões que me cercam. Engraçado mesmo é finalmente ser capaz de me localizar, e de até guiar outras pessoas a andarem por aqui, enquanto sentia vontade de cair fora.

   Definitivamente, ironia assim não se planeja.