segunda-feira, 29 de setembro de 2014

O colapso da colônia


   Nunca subestime o poder da sua teimosia. Era pra ser só mais um daqueles Domingos nublados e existencialmente tediosos, completo com maratonas de filmes, séries, besteiras gordurosas e litros de refrigerante, seguidos pela iminente depressão do Domingo à noite que começa lá pelas seis da tarde e só termina quando a última gota de uma garrafa de vinho passa a fazer parte da minha corrente sanguínea. Mas aí eu resolvi me colocar pra fora de casa um pouco ao passar alguns minutos de sabedoria na sacada, olhando o horizonte e pensando singelamente e filosoficamente na minha vida, quando eu percebi uma metáfora perigosamente pendurada acima de mim, na forma do maior vespeiro que eu sequer poderia conceber que existia ali.


O lado bom da Primavera envolve todas aquelas coisas sobre renascimento, desabrochar das flores, o centro da cidade enfeitado com árvores que desfilam pelos postes e ruas com seus verdes, rosas e amarelos chamativos, e uma boa dose de inspiração para escritores em crise que procuram desesperadamente por algo que lhes motive a deixar seus instintos de procrastinação de lado para escrever algo tão bonito quanto as rosas para nos motivar a dar uma nova chance à vida. O lado ruim é que as pestes, os insetos e a briga tempestuosa entre calor infernal e chuva infinita que toma conta da cidade acabam por camuflar um pouco as rosas, e libera um desequilíbrio caótico no clima tanto acima quanto dentro das pessoas. E para mim, este desequilíbrio apareceu na forma daquele maldito vespeiro que imediatamente censurou minha sessão de meditação na sacada e me obrigou a recuar e fechar a porta para o mundo antes que alguma daquelas pestes me seguisse para dentro de casa.
   Aí você se pergunta o que aquele vespeiro significou para mim, e eu te digo que naquele momento eu não pensei em renascimento, ou na união daqueles insetos ao construir uma colônia forte e aparentemente impenetrável, ou nas minhas usuais manobras de auto sabotagem para evitar sair e realmente dar uma nova chance à vida, só para continuar dentro do casulo da minha casa onde tudo era seguro e estava sob o meu controlezinho infame. Não. Primeiramente, tudo o que eu pensei foi, “O que será que eu posso usar para tacar fogo ali?”. O lado bom de ser emocionalmente imaturo é a criatividade que a gente tem diante das adversidades. Às vezes resiliência de nada serve se não tiver algo para te ajudar a dispersar um vespeiro, mas infelizmente desta vez não tive como brincar com fogo. E de repente meu Domingo tedioso e cinzento se transformou em uma série de planejamentos e estratégias para tirar aqueles insetos do meu espaço, meu templo sagrado, minha sacada terapêutica. Minha casa havia sido invadida, e por mais que a Joyce brigasse comigo por mensagens ao dizer que eu não podia, sob nenhuma circunstância, mexer naquele vespeiro, aquilo já havia se tornado mais do que uma dose de adrenalina para combater a minha crise existencial; aquilo era pessoal e aquelas vespas tinham que cair fora.
   Existe um fenômeno na natureza chamado “distúrbio do colapso da colônia” que, entre tantas outras coisas que eu encontrei na internet quando fui pesquisar possíveis maneiras de expulsar aquelas pragas da minha casa, basicamente diz que do mesmo modo que as vespas constroem suas colônias em lugares aparentemente aleatórios, algum fator igualmente aleatório pode causar com que elas lentamente se dissipem e abandonem sua casa. E depois de me deparar com um post infeliz no Yahoo Respostas de um sujeito ainda mais pedido do que eu que sugeria, com toda a potencia do seu caps lock ativado, que eu ateasse fogo na parte superior da minha sacada inteira, eu encontrei uma arma para cutucar aquelas invasoras para longe do meu domínio: a boa e velha vassoura – que, inclusive, também sempre servia para duelos mortais com baratas metidas a besta que também costumam aparecer pela casa durante a troca de estações.
   Procurei colocar uma blusa grossa, uma calça jeans e um tênis para usar como armadura para me proteger, certo de que uma vez que aquelas vespas fossem incomodadas, o alvo deixaria de ser a sacada e passaria a ser eu. Mas eu estava decidido: aquela sacada era pequena demais para mim e uma colônia absurdamente escura de pragas. Juntei toda a coragem que tinha, me aproximei da colônia e bati o mais forte que pude bem no centro das vespas, o que imediatamente causou com que elas se dispersassem em pânico antes voarem para cima de mim. Olhando em retrospectiva, talvez o meu ócio criativo esteja ficando perigoso demais para mim mesmo. Mas diante daquilo eu percebi que não havia mais volta; era aquela colônia ou eu.
   Mais algumas tacadas de vassoura depois fizeram com que uma nuvem de vespas nervosas invadissem a sacada inteira em um frenesi de agonia e êxtase, mas não conseguiram me seguir depois que eu corri para dentro de casa e fechei a porta da sacada, que subitamente ficou cheia de insetos pousados nela desesperados para entrar.
Algum tempo depois naquela mesma tarde, o sol já estava se pondo e eu decidi dar uma olhada para ver se a minha missão de resgate à sacada havia dado certo. Foi quando me deparei com a surpreendente claridade da parede, que parecia estar lentamente se livrando da escuridão da colônia de vespas, cujas poucas sobreviventes ainda sobrevoavam a área à procura de abrigo antes de finalmente desistirem e voarem para longe.
   Naquela noite, eu voltei para a sacada com uma taça de vinho e dediquei alguns minutos para simplesmente sentar ali e me sentir vitorioso por ter defendido o meu lar, até que a ficha da metáfora finalmente caiu: eu não estava incomodado com a colônia de vespas, mas com o quanto elas representavam a mim e outros tantos colegas que, em questão de dias, estariam prestes a ser atacados com uma vassoura de realidade que nos obrigaria a nos dissipar e a procurar outra colônia para nos abrigar. Ironicamente, aquele Domingo era o dia antecessor ao começo das provas do terceiro bimestre, que significava que o fim das minhas obrigações acadêmicas e de uma vida confortável cujo futuro estava sendo graciosamente procrastinado, estava chegando ao fim. Eventualmente o dia chegaria em que todos nós teremos que voar para longe e procurar novos horizontes, novos ares, novas sacadas. Vide o meu desespero em manter meu status quo seguro: eu não quero que as coisas mudem. Não estou pronto para isso. Não sei o que vou fazer depois. Não posso ficar aqui só mais alguns meses, até finalmente criar coragem de sair e dar uma nova chance à vida? O colapso da minha colônia estava por vir, com seu fim nem um pouco aleatório, ao contrário das minhas percepções.
   O que me anima um pouco é o quanto a minha teimosia pode ser poderosa, desde que seja usada para superar obstáculos invés de criá-los. Quem sabe esta Primavera não se torne mais inspiradora para mim depois que a chuva lá fora cessar.

 

domingo, 21 de setembro de 2014

O efeito dominó

   
   Alguém me quebrou. E um dos motivos pelos quais eu ando evitando escrever, também serve para explicar porque eu ando evitando sentir certas coisas. E como escrever invariavelmente envolve enfiar uma faca no coração e torcer até            que as palavras que vazem dele formem algum sentido, eu tenho tomado um pouco mais de cuidado mediante os meus passatempos masoquistas ortográficos. Porque, pior do que admitir que alguém me quebrou, seria sentar e escrever sobre isso. Mas já é Domingo à noite e as expectativas para transformar este prelúdio à migração para o sofá, colocar um filme qualquer e adormecer em frente à televisão já expiraram. Então por que não criar um pouco de adrenalina para mim mesmo para pensar e sentir sobre você?
   Particularmente, eu gosto de escrever para você. “Você”, que pode ser qualquer uma que vaga aleatoriamente pela órbita das minhas neuroses. “Você” que, apesar de ter um nome de verdade e, suspeito, um coração de mentira, ainda é capaz de causar um pouco de calafrios só de lembrar que esta reação é diretamente proporcional à alegria ansiosa que eu tinha por me permitir atribuir sentimentos ao seu nome de verdade e seu coração sincero, até então. “Você”, cuja lembrança terrivelmente agridoce, atemporal e absurda ainda me serve de inspiração para desviar dos instintos de desistência e desolação de um Domingo à noite. “Você”, que eu não pretendo relevar o nome próprio que possui, mas que secretamente tira um tempo da sua rotina deslumbrante para passar os olhos em minhas palavras para saciar seu apetite constante por uma plateia. Acontece que desta vez eu não estou falando de nenhum desastre em particular, mas de um padrão crescente em proporções geométricas de desilusão.
   Não foi alguém em específico quem me quebrou porque desde quando consigo me lembrar, não houve apenas uma mulher que passou por mim como um tsunami e deixou para trás uma devastação por completo. Pelo contrário, cada uma delas foi como uma peça de dominó postas em uma sequencia perfeita, até um descuido fazer com que a cadeia inteira despencasse sobre mim. E a partir disso surgiram comportamentos padrões, gostos específicos e trilhas sonoras que, ao serem alinhados em um círculo vicioso, sempre acabavam da mesma maneira: comigo, decepcionado, recolhendo as peças caídas no chão.
   Eu ando tão focado em manter uma das peças de pé que sempre acabo me surpreendendo quando ela acidentalmente cai e consequentemente derruba todas as outras em seu alcance. Mas isso só acontece porque, em se tratando de relacionamentos, eu ainda continuo procurando as peças certas para serem colocadas nos lugares certos, na forma da garota certa que não existe e do modo certo como deveríamos nos conhecer. E por mais que essa sequencia não se firme de pé, eu persisto. Isto é, até o dia em que eu desisti de recolher as peças e abandonei o jogo.
   E a partir do momento em que eu me percebo gostando de alguém, os padrões se repetem perfeitamente como quem posiciona as peças tortas de dominó de pé somente para que se derrubem novamente. Eu gosto de você, mas não sei como demonstrar isso. Guardo para mim, porque sinceramente acredito que você não deve sentir o mesmo. Até que um dia você finalmente descobre; talvez porque eu criei coragem para te dizer, ou porque o som das peças tortas sendo derrubadas chamou a sua atenção. E você me diz que já tem outra pessoa, ou que não há química entre nós, ou que eu simplesmente não sou a peça que falta na sua própria sequencia. E quando os dominós desabam, eu apenas as empurro para fora da minha vista e procuro outro jogo para me distrair. Nunca considerando a possibilidade de que talvez eu esteja posicionando as peças erradas, ou que cadeias de dominós em pé mais cedo ou mais tarde surtirão seu efeito ao ruírem em colapso.
   O segredo não está em rearranjar as peças, ou nos espaçamentos entre elas. Em outras palavras, não adianta esperar resultados novos ao continuar tentando encaixar relacionamentos em padrões fracassados. Coisas como esperar para ver quem fala ou liga primeiro, ou resistir para não admitir que está atraído por ela por medo de que tudo o que vocês já construíram não resista à queda, ou apenas tropeçar e destruir sequencias de sentimentos por receio de que vocês não se encaixem como deveriam é o que nos deixa ansiosos por ver as peças tremerem, ou incapazes de tentar reconstruir algo com alguém. E definitivamente, não existem as peças certas ou os lugares certos, assim como não existem as pessoas certas e as sequencias certas em que devem se colocar para não desabarem.
   No fim somos todos incertos e frágeis como peças de dominó postas de pé uma ao lado da outra, e sempre haverá o risco de que um gesto em falso venha a afetar outras peças, outras pessoas e outras estratégias por perto. E quando padrões de sequencia simplesmente não resistem apesar da persistência, o melhor a fazer é procurar outra maneira de manter nossas peças de pé e os nossos relacionamentos, estáveis. Talvez ninguém tenha me quebrado ao ponto de me convencer a desistir do jogo; talvez eu só tenha perdido o equilíbrio e esteja com receio de tentar de novo. Minhas mãos tremem só de pensar em tentar colocar duas peças de pé em sequencia, ou de tentar segurar a sua mão quando andamos lado a lado. Mas são pequenos jogos que insistimos em participar, visto que o prêmio em consideração parece atraente demais para se abandonar. É isto, ou passar o Domingo à noite cercado de peças espalhadas pelo chão e ninguém para me ajudar a colocá-las em pé novamente. E não é algo que eu espero que “você” entenda.

   A vida é muito curta, e eu certamente não quero passá-la tentando colocar peças tortas de pé em vão e escrevendo seu nome entre aspas. E foi assim que eu silenciosamente quebrei meu padrão.

terça-feira, 16 de setembro de 2014

A resiliência do quilômetro 157 (final)


   Antes que meu pai pudesse retomar seu sermão, uma Honda Biz surgiu rapidamente e desacelerou até chegar perto de nós para perguntar se ele era o Marcio sobre o qual o Gaúcho tinha falado. Era o Augusto, armado com sua caixa de ferramentas e maior disposição para ajudar do que o último mecânico. Ao contrário dele, Augusto era quieto e pacato, e analisou as peças do motor com as mãos até concluir que aquela vela tinha concerto sim – era só usar a chave certa, que por acaso tinha ficado para trás na oficina. Augusto montou de volta na moto e avisou “volto já!” antes de desaparecer no horizonte da estrada.
   A essa altura já deveria ter passado cerca de uma hora. Não acompanhei o tempo da nossa parada não planejada no relógio, porque estava mais preocupado em matar os borrachudos que tinham conseguido entrar no carro antes que eu o fechasse para me refugiar. Quando vi que as coisas não ficariam mais fáceis do lado de dentro do carro, saí novamente e comecei a andar aleatoriamente em círculos, impaciente pela volta do Augusto, enquanto meu pai pôs-se a caminhar novamente pelo acostamento. Provavelmente estava distraído, porque não viu quando um trator apareceu na entrada do sítio ao lado da árvore solitária, em direção à estrada, e seu motorista começou a falar comigo, inexplicavelmente com outro sotaque carregado, só que desta vez, indecifrável:

- Oxê, o carro de vocês deu problema?
- Deu, deu sim. Mas já fomos socorridos. Apareceu um mecânico, depois que um outro motorista parou para nos ajudar. Enfim, longa história. Mas já estamos bem, obrigado!
- Ah, tudo bem, então. Precisando de alguma coisa, é só descer até o meu sítio ali em baixo. Meu nome é Souza, viu. Agora me dá licença que preciso ir encontrar um tal vendedor que ficou de me mostrar umas peças de trator e até não apareceu até agora.
- Na verdade, foi com ele que a gente falou. Ele foi por ali – e apontei para o horizonte, como quem queria ajudar de alguma forma para retribuir a quarta oferta de ajuda que recebemos desde a parada brusca.

   Pouco depois do Souza também desaparecer no horizonte da estrada, meu pai voltou a caminhar pela minha direção e nem reparou que eu estava conversando com o motorista do trator, que por acaso era o Souza que o Gaúcho estava procurando antes de parar para nos ajudar através do Augusto. Foi aí que eu finalmente parei para perceber o quanto estávamos sendo ajudados por pessoas desconhecidas, enquanto eu ainda achava complexo demais pedir ajuda dos meus amigos, dos meus pais, ou até de me atrever tentar algo a mais com aquela garota. E o quanto minha desabilidade de transformar coisas pequenas em problemas já tinha passado do ponto de ser considerada uma simples neurose, para ser algo realmente problemático.
   Enquanto eu ligava os pontos da minha própria irreverência, o Augusto apareceu de carro acompanhado pela sua esposa, que ele logo justificou ter demorado para voltar porque precisava buscá-la do trabalho dela. Foram questão de minutos para que o Augusto resolvesse o nosso problema com o apertar de uma chave na vela, cobrasse menos do que eu esperava que ele poderia pedir pelo serviço e pelo transtorno, e nos colocasse de volta na estrada. Alguns poucos metros de volta em nossa viagem, fui obrigado a admitir derrota:

- Ok, você tem razão.
- Sobre...?
- Sobre o que nós estávamos falando antes.
- Que era...?
- Sério mesmo, pai?! Por que será que eu sou assim, né?!
- Ok, brincadeira. Diga aí.
- Não é questão de precisar das pessoas, nem de garantir liberdade, nem de me sentir melhor sozinho. Talvez seja o medo de acabar preso com uma vela enguiçada em um acostamento improvisado no meio do nada. Talvez seja o medo de investir na pessoa errada de novo. Ou então, talvez seja o medo de não saber para onde eu estou indo, e de querer poupar outras pessoas de se perderem comigo.
- Quanto drama, filho. Não precisa disso tudo. Apenas viva sua vida de um jeito que te traga alegria, e compartilhe isso com as pessoas que você gosta de ter por perto. E namore uma garota de quem você realmente goste, e não te faça ficar questionando essas coisas. Se você está pensando tanto nisso, talvez não seja ela. Mas talvez possa ser se você der uma chance. Eu também não sei. Não sei tudo. Só sei que não adianta a gente ficar só querendo ser feliz. Às vezes a gente precisa tentar algo a mais. E se der errado, eu vou estar aqui para te ajudar. Os seus amigos também. E pelo visto ainda existem pessoas nesse mundo dispostas a fazerem o bem também. Os Gaúchos e os Augustos por aí.
- Ok, pai, você tem razão. Obrigado.
- Obrigado, nada. Faz um favor pra mim. Pega o meu celular aí e liga para aquele número de 0800 de novo.
- Ué, por que?
- Pra cancelar aquele guincho. Se me lembro bem, tem que teclar 1 no primeiro menu que aparecer, e esperar alguém te atender. Mas sem pressa, né? Ainda tem muita estrada pela frente.

   Entre imprevistos, enguiços e 110 músicas daquele pen drive depois, nós finalmente chegamos em Londrina. Eu disse ao meu pai que aquela provavelmente foi a melhor viagem que nós já fizemos, e prometi a mim mesmo que faria aquela experiência contar para alguma coisa. Que eu iria tentar mudar algumas coisas, para realmente tornar essa promessa de ser feliz e viver bem em algo real. E que se por acaso eu acabasse preso em um acostamento nos arredores de Campo Mourão de novo, eu já tinha o telefone do Augusto salvo no telefone.

   É. Eu vou ficar bem.

A resiliência do quilômetro 157 (parte 2)


   Antes de investigar o motor, meu pai abriu o porta-malas para conferir se estava com suas ferramentas. Deixou sua porta aberta depois que a vela disparou pela segunda vez. Até nos conformarmos de que poderíamos ficar ali por algum tempo, meu pai deixou todo o carro aberto. O rádio ainda estava ligado, tocando as músicas do pen drive que eu trouxe para a viagem. Ouvir música era só o que podíamos fazer enquanto esperávamos pela ajuda. Voltei para o meu lugar no carro, pensando se talvez teria sido melhor ficar em casa, ou se era eu quem tinha o dom de atrair problemas e situações adversas. E continuei aumentando o tamanho do problema na minha cabeça, enquanto meu pai caminhava aleatoriamente pelo acostamento até que um carro passou por nós lentamente e deu ré até se alinhar ao andar do meu pai.

- Ei, você que é o Souza?
- Souza?
- É, Souza. O dono desse sítio que fica nessa descida de terra aqui, do lado daquela árvore ali. Eu te liguei mais cedo sobre um motor de trator.
- Não, não sou eu... Meu nome é Marcio. Eu só estou aqui porque o meu carro deu um problema no motor. Eu e meu filho ali estamos esperando a ajuda chegar.
- Um problema no motor, é? Que coisa. Mês passado mesmo tive que mandar arrumar meu cabeçote. Gastei uma nota só, chê! Aliás, pode me chamar de Gaúcho. Então, como eu dizia, meu cabeçote deu pau e tive que ligar para um conhecido meu que é mecânico. Resolveu na hora, uma beleza de serviço. Só teve que cobrar um pouco a mais porque teve que trocar a peça. Se fosse só pela mão de obra, o cara dava uma maneirada. Aliás, espera aí que eu vou dar um toque pra ele. Quem sabe ele não resolve o problema de vocês?
- Olha, se o senhor puder me ajudar...
- Gaúcho, chê!
- Senhor Gaúcho.... Se o senhor puder nos ajudar, eu agradeço muito. Não estamos nem na metade do caminho da nossa viagem ainda.
- Guenta aí!

   Eu fiquei observando a conversa entre o “senhor Gaúcho” e meu pai de longe. Estava ocupado demais tentando fugir dos mosquitos borrachudos que subitamente começaram a agir em conjunto em uma missão de me devorar por inteiro, uma picada aleatória de cada vez. Até preferi deixar só o meu pai falar, porque segundo relatos dos meus amigos, minhas caretas não me deixam mentir sobre o que eu acho das pessoas e das coisas ao meu redor. Sem sombra de dúvidas, conversar com o “senhor Gaúcho” em um acostamento improvisado durante uma tarde exageradamente ensolarada de sexta-feira, e ouvi-lo falar sobre o “pau no cabeçote” que ele sofreu tempos atrás, iria gerar uma careta que talvez o fizesse desistir de ligar para o tal mecânico. Ao desligar o telefone, depois de gritar seu sotaque com ele no telefone, ele continuou a falar com o meu pai:

- Acabei de falar com o Augusto – pelo visto o nome do mecânico era Augusto, e o “senhor Gaúcho” não era muito fã de contextos – e ele vai vir aqui dar uma olhada no problema de vocês. Agora você me dá licença, seu Marcio, que eu preciso achar esse tal de Souza pra ver se consigo vender um desses motores ainda hoje!
- Claro, claro, tudo bem, Gaúcho! Muito obrigado pela sua ajuda!

   Meu pai, antes de dominar a arte do empreendimento, é um cavalheiro nato. Em uma pequena troca de falas gritadas com o “senhor Gaúcho”, ele já o considerava muito por ter parado e, mesmo depois de descobrir que não estava falando com o tal Souza, ainda se dispôs a terceirizar outro pedido de ajuda para nós. Quando o Gaúcho voltou para a estrada à procura de outro homem andando aleatoriamente no acostamento que se chamasse Souza, meu pai voltou para perto do carro, onde eu estava:

- Quem diria, não é?
- É, quem diria...
- Onde está seu desgosto por precisar das pessoas agora?
- O que?
- Ué. Você disse que odeia precisar das pessoas. Não levou em conta situações como essa, né?
- Uma lição de vida? Aqui? Agora? Sério?
- Você se preocupa demais com a vida, filho. Tem só 22 anos. Pra que esquentar a cabeça tanto assim? Deveria sair, se divertir, namorar, curtir... Com moderação, claro.
- Isso aqui é uma exceção. Estar parado debaixo do que parece ser a única árvore dessa parte da estrada esperando por dois mecânicos diferentes não tem nada a ver com o que eu estava falando sobre relacionamentos.
- Por que não? Não é você que vive falando sobre relacionamentos, comportamentos, e todas aquelas coisas de psicologia lá? É disso que a gente está dependendo aqui, agora.

   Eu estava prestes a recuperar o fôlego que perdi enquanto ainda tentava me defender dos borrachudos para rebater o sermão do meu pai, quando o mecânico do 0800 do pedágio apareceu. Estacionou o carro do lado do nosso no acostamento improvisado, mas demorou uns cinco minutos para descer do carro. Pelo que parecia, estava preenchendo uma série de relatórios sobre a nossa ocorrência. “Até ele preencher toda a papelada que precisa, a gente já foi embora”, resmungou o meu pai. Entre o empreendedorismo e o cavalheirismo, meu pai ainda era um pai. Finalmente, o mecânico desceu do carro, com um sotaque ainda mais carregado do que o do “senhor Gaúcho”, só que puxando para o nordestino.

- Tarde, pessoal. Deu buxa no motor?
- Pois é – respondi, antes que meu pai pudesse colocar seu cavalheirismo em ação. Tudo para ganhar tempo para rebater aquele argumento.

   Antes de sequer olhar o capô aberto do carro, o mecânico que ainda não tinha nome nos pediu uma série de informações sobre o veículo, sobre nosso endereço, telefones, e aproveitou para puxar conversa fiada sobre a nossa viagem. Ao revisar a tal queixa sobre a vela do motor que lhe foi passada, logo disse:

- É, ela soltou mesmo. Não vai ter como seguir viagem. Não adianta nem usar a chave pra apertar. Vai ter que mexer no cabeçote, mas não estamos autorizados a mexer no carro. Normas do serviço, para evitar danos ou processos, entendem? Vou chamar o guincho pra vocês, ok? Deixa só eu conferir no GPS aonde vocês estão e... Achei! Quilômetro 157. Beleza, então. Ligo do caminho, pra ir acelerando o processo. Só não sei quanto tempo vai demorar. Mas aguentem aí, ok? Obrigado!

   Em algum momento do monólogo definitivo do mecânico, meu pai perguntou seu nome. Eu não me lembro do nome, porque estava ocupado demais sobre como cabeçotes de carro parecem ser mais problemáticos do que eu. Quando ele voltou para a estrada, meu pai voltou ao nosso assunto:

- Não botei muita fé nesse daí não.
- Mas ele é o mecânico da empresa do pedágio.
- O mecânico que nem pode mexer no carro serve pra que?
- Ok, ok. Mas quem você acha que vem primeiro? Já que nossa ocorrência já atraiu a visita de dois mecânicos e um guincho?
- Acho que o Augusto vem primeiro.
- “O Augusto”? Você nem conhece ele. E se não vier?
- Botei fé no Gaúcho.
- Este é você tendo fé na humanidade, para me mostrar como as pessoas precisam de pessoas e tudo mais?
- Exatamente. Onde foi que paramos?

   Meu pai deu um sorrisinho irônico que, mais ironicamente, eu estava acostumado a ver só no meu reflexo. Ao fundo, o pen drive no carro estava tocando “Dancin’ Days”. Meu pai começou a dar alguns passinhos de dança, que só serviram para me provocar ainda mais. Estava sendo um dia daqueles, e por mais que custasse a admitir, queria muito que o Augusto chegasse primeiro. Também tinha botado fé no Gaúcho.


Continua...

segunda-feira, 15 de setembro de 2014

A resiliência do quilômetro 157 (parte 1)


   Antes de qualquer coisa, eu gostaria de confessar que gostaria muito de ser um homem de uma metáfora só. Acho que se eu baseasse as minhas concepções de vida em apenas uma imagem abstrata, eu não teria essa compulsão por procurar significados escondidos em situações adversas. E acho que também seria uma ótima base na qual eu poderia apoiar meu futuro comprometimento por uma garota só, ao invés de ficar procurando por significados escondidos em relacionamentos imaginários. Mas nada disso realmente tem a ver com o que aconteceu desta vez; quer dizer, tem um pouco a ver. Porque, bem como já é de costume, não foi apenas uma situação adversa que aconteceu. Não. Foi uma metáfora. E das grandes.
   Viajar para Londrina de carro com o meu pai já provou ser uma situação adversa por si só, mas acho que entre tantas idas e vindas só neste ano, nosso roteiro de viagem parece não incluir mais silêncios constrangedores duradouros e discussões que acabavam sendo mediadas por pedágios, porque eu precisava parar para contar moedas para dar de troco à pessoa do guichê. Agora nossas jornadas incluem desde trilhas sonoras personalizadas até lições valiosas de vida. Mas desta vez, quis a vida que eu tivesse uma experiência mais memorável do que apenas descobrir que meu pai e eu temos o mesmo gosto musical. Desta vez a lembrança ia ser sobre uma lição de vida, uma revisão sobre mecânica básica, e solidariedade.

- Pai, eu estou com um problema. Na verdade, não é um problema. Mas eu sendo do jeito que sou, tornei algo que não era um problema em um problema. Então é, eu tenho um problema. Não o meu problema em transformar coisas em problemas, mas o problema produto disso.
- É, realmente você tem um problema, filho. Mas diga aí.
- Ultimamente eu andei pensando em relacionamentos. Mas precisamente, sobre não ter um. No começo eu achava que era porque eu gosto de estar solteiro. Ou de estar sozinho. Gosto da liberdade, por mais que não a use tão bem quanto poderia.
- Ok...
- Mas eu gosto de não precisar dar satisfações pra ninguém. De sair pra onde eu quiser, a hora que eu quiser, com quem eu quiser. E eu odeio precisar de outra pessoa. Sabe que eu não sei pedir ajuda, ou reconhecer meus limites, ou admitir derrota...
- Um relacionamento não é isso, Igor. Não é ser limitado por outra pessoa, nem precisar de outra pessoa. É querer estar com outra pessoa. É querer compartilhar essa liberdade com outra pessoa. É saber reconhecer que... Que barulho é esse?!

   Um estralo bem alto vindo de dentro do capô faz com que o carro desacelere aos poucos, até obrigar meu pai a parar em um acostamento improvisado de terra que fica entre uma descida para um sítio e uma árvore solitária.

- Era só o que me faltava.
- O que foi isso, pai?
- Eu não sei, Igor. Se soubesse, não teria parado.
- Acho que é de você que eu herdei o meu sarcasmo...
- NÃO COMEÇA!

   Descemos do carro. Meu pai abre o capo e investiga até encontrar o problema: uma das velas ligadas ao motor se soltou. Meu pai tenta encaixá-la com a mão e volta para dentro do carro para tentar dar a partida. Outro estralo alto acontece, e a vela é desencaixada do motor em um disparo.

- Estragou a vela.. E não sei porque estou te dizendo isso. Você nem deve saber do que eu estou falando.
- Eu também te amo, pai. Agora me explica direito.
- Sem a vela, o motor não funciona. Se o motor não funciona, o carro não anda. Eu não consegui encaixar só com a mão. A gente precisa de uma chave para isso, mas eu estou sem nenhuma ferramenta aqui.Quer ir a pé, ou prefere voltar pro carro e procurar o recibo do último pedágio?
- Pra que?
- Lá tem um número para ligar em caso de emergências. Nunca me aconteceu nada até hoje para que eu precisasse ligar. Vamos ver como é...

   Meu pai liga para o número, que por acaso é um 0800. Números do tipo 0800 nunca me inspiram muita confiança. Isso foi confirmado quando meu pai resmungou algo depois de finalmente conseguir barras de sinal o suficiente para ligar, e descobriu que para ser atendido por alguém, precisava teclar 1. E depois de resmungar por não conseguir achar o teclado do seu telefone para teclar 1, falou com uma atendente que registrou a ligação e disse que já estava enviando alguém para nos ajudar. Independente da minha natureza pessimista e caótica, a ideia de passar um tempo indeterminado parado em um acostamento improvisado em algum lugar nos arredores de Campo Mourão inspirou a minha impaciência a se manifestar:

- Será que eles demoram?
- Acho que não. Não faz muito tempo que passamos por um pedágio. Deve levar uns quarenta minutos, uma hora, por aí...
- Uma hora?!
- Você pode ir a pé se quiser.
- Ok, uma hora...


Continua...

domingo, 7 de setembro de 2014

A garota certa


   ...talvez eu só esteja admitindo uma dificuldade. Apesar do meu trágico histórico em matéria de relacionamentos, eu costumava acreditar que sempre seria um otimista. Isto é, até o belo dia em que me lembrei que a vida não é feita apenas de amor, mas de louça suja acumulada na pia, relatórios atrasados de faculdade, boletos vencidos que podem mais ser pagos em uma lotérica e idas frustrantes ao mercado em que eu sempre me esqueço do item em especial que era justo o que me obrigou a ir até lá. Aí eu me lembrei do amor e do quanto isso costumava ser a única coisa com a qual eu me importava. O que costumava me motivar a passar madrugadas escrevendo sobre relacionamentos imaginários, sobre não permitir que o "mundo real" extinguisse a minha visão romântica, e sobre como seria fantástico conhecer a garota certa. Pra ser sincero eu não sei dizer exatamente o que foi que aconteceu comigo ao longo dos anos, mas entre tarefas domésticas diárias e obrigações acadêmicas adiadas, eu percebi claramente o quanto o amor deixou de fazer parte dos lembretes que eu deixo grudados na minha mesa. Ao ponto de que eu nem me lembre mais como funciona essa história de gostar de alguém.
   Entre desvios e imprevistos, eu me lembro de que estar apaixonado costumava ser a minha rotina. E digo isso porque, há cinco anos, eu costumava ser uma pessoa totalmente diferente: eu acreditava demais nas pessoas, em pequenos gestos e em teorias ridículas sobre o universo ter um plano em movimento para me levar de encontro a ela - a garota certa. Mas depois de passar meses, anos e de uma série de músicas que eu não posso mais ouvir sem me sentir um pouco decepcionado por ter me apaixonado pelas garotas erradas, eu me percebi fazendo algo que até então parecia impossível: eu desisti. Não no sentido dramático de tragédias gregas nas quais eu costumava transformar as minhas paixões, mas no sentido prático. Eu tinha mais o que fazer; coisas que pareciam mais importantes como tirar o lixo mais de três vezes por semana, passar a roupa que vivia acumulando, e deixar pequenos lembretes grudados na minha mesa para não me esquecer de comprar sabão em pó na próxima vez que fosse ao mercado. Irônico que a cada novo lembrete que eu deixava para mim mesmo, cada vez mais eu me esqueci do amor que eu jurei a mim mesmo que jamais deixaria ser levado pelo "mundo real". Bom, bem vindo ao mundo real, Igor. Onde está o seu romantismo agora?
   O conceito de "garota certa" é algo muito perigoso, mas era por isso que eu vivia. Deixando de lado tudo e qualquer outra coisa que não agregasse ao meu sonho de conhecê-la, eu aprendi que quanto mais você espera por tudo, vez por outras você pode acabar sem nada. Ou, pior ainda, você pode acabar se entregando por relacionamentos imaginários ainda mais tóxicos do que a própria solidão. Por mais que a "garota certa" pareça inalcançável, ela dá brecha para que miragens na forma das garotas erradas se aproximem de você, e te roubem meses de liberdade, felicidade e suas músicas favoritas do momento. Eu admito que não tenho muita – ou talvez até mesmo, qualquer - experiência em relacionamentos e que nem sempre eu sei o que pode ser "certo" para mim, mas depois de alguns boletins de ocorrência que já escrevi por aqui devido às piores garotas do mundo que eu já conheci, eu definitivamente sei o que é "errado" para mim. Tudo bem; eu confesso que não existe "certo" ou "errado" nos assuntos do coração, mas existe o exagero, a sacanagem e a insanidade temporária - e felizmente ou infelizmente, disso eu tenho propriedade.
   Mas uma hora ou outra a gente chega a um ponto em que a falta é inegável. Que a dificuldade precisa ser admitida, e que a causa disto geralmente tem um nome, um endereço, um CPF, olhos castanhos e um dom de deixar saudade a partir do momento em que ela deixa o recinto. Para mim, esse momento veio na forma de uma segunda-feira fria, acompanhada de um copo de uísque e um charuto solitários, que deixaram óbvias o quanto minhas justificativas sobre não ter um relacionamento eram rasas, infames e mentirosas. Quando meus parentes em almoços de domingo me perguntam "E a namorada?", eu rebato com o meu relacionamento em crise com os prazos de relatórios da faculdade. Quando meus amigos em mesas de bar perguntam se eu ando conversando com alguém nova, eu me defendo com a desculpa de que a vida anda corrida e atarefada, e que sobra tempo ou para tentar conhecer alguém nova, ou para tentar dormir seis horas por noite, e que dormir parece sempre mais interessante. Mas quando eu me sentei na sacada naquela noite particularmente impiedosa de segunda-feira, certo de que tudo o que eu precisava para terminar aquele dia era um uísque, um charuto e uma música lenta, todas as desculpas nas quais eu estava me escondendo se dissiparam com a fumaça do charuto ao vento. Essa vida não se trata de estar pronto para um relacionamento um dia, mas de, quem sabe, dizer àquela pessoa que ultimamente eu ando pensando em algo a mais para nós...
   A verdade é que não existe a garota certa. Existe aquela que te pergunta se tem algo preso entre os dentes dela e dá risada por isso. Existe aquela que sabe do que você gosta ou que tipo de coisa é a sua cara pelo tanto de tempo que vocês passam juntos. Existe aquela que acredita no seu potencial e te convence a levar adiante os planos que você já estava prestes a abandonar. Existe aquela que consegue fazer você se sentir especial apenas por estar do seu lado. Existe aquela que é tão teimosa, complicada e ansiosa quanto você. Existe aquela que faz parecer que vocês não tem absolutamente nada em comum, e que não faria sentido tentar algo a mais porque provavelmente não daria certo, mas que nem por isso te faz desistir de pensar em estar com ela. Existe aquela que é cheia de defeitos, que tem um passado tão infame e incorrigível quanto o seu, e que está tão perdida quanto ao que fazer com a sua vida quanto você. E apesar de tudo isso, existe aquela que faz com que você se apaixone por ela a cada novo dia em que vocês se encontram, e que no final das contas, entre desencontros, imperfeições e diferenças, faz com que amor seja a única coisa que realmente importa.

   E ao admitir que talvez isto seja mesmo sobre amor, a dificuldade agora é outra. Será que eu devo fingir que nada está acontecendo e me concentrar em terminar esses relatórios, ou eu devo admitir isso para você? Eu não sei. Mas independente do que acontecer, pelo menos agora há mais um lembrete na minha mesa.

quarta-feira, 3 de setembro de 2014

A próxima estação


   Se existe algo para ser lembrado depois que 2014 acabar, definitivamente será a verdade de que tudo sempre muda. Depois de perder um emprego, de vivenciar algumas dificuldades familiares, de aprender a abrir mão de amores imperfeitos e de aceitar a realidade de cada novo dia que nasce, eu finalmente percebi que a minha paixão por padrões, rotinas e portos-seguros talvez não tenha muito espaço para existir em um mundo onde o status quo parece ser cada vez mais temporário. Porque até mesmo nós somos temporários, e irremediavelmente encarregados de tornar o tempo que temos por aqui em algo significativo. E para cada momento que deixamos passar em branco, é uma oportunidade que se vai e não volta. Talvez seja daí que venha a minha necessidade constante de me colocar em frente a uma folha em branco do Word para dissertar sobre a minha vida. Pode não ser uma vida perfeita, ou particularmente organizada, ou até mesmo das mais acolhedoras, mas definitivamente é algo pelo qual eu sinto que vale a pena se viver a cada dia e para se inspirar a escrever em algumas noites.
   Eu ainda me lembro de como tive as minhas primeiras impressões sobre o tempo. Eu me lembro de ter uns 9 ou 10 anos e de estar na missa com a minha família em um Domingo de manhã, e de me sentir inegavelmente descontente por estar lá. Porque eu não era uma criança das mais inocentes, tampouco era sutil em minhas manifestações de manha – algo que, olhando em retrospectiva, já dizia muito sobre o meu futuro caráter e minha insaciável vontade de fazer comentários sarcásticos nos momentos mais impróprios. Enfim, eu me lembro de estar com a minha família – meu pai, minha tia, meus primos e afins – e de como já não me era mais tão surpreendente fazer parte de um clã tão grande que chegava a ocupar um banco inteiro da igreja. E me lembro de resmungar, ironizar, comentar e reclamar durante quase todos os rituais, apesar dos protestos do meu pai para que eu ficasse quieto e, ironicamente, recebesse a minha benção em paz. Foi aí que a minha tia se aproximou de mim e comentou algo que mudou a minha percepção sobre não só todos aqueles rituais, mas sobre a vida:

- Olha, eu sei que você quer voltar para casa, para que a gente sente e almoce todos juntos. Mas está vendo esse panfletinho que você recebeu quando entramos na igreja? É um pequeno roteiro das orações; aqui diz tudo o que o padre vai ler para que a gente possa acompanhar. Sabia que a missa passa mais rápido quando você participa dela?

   Foi naquele dia em que eu comecei a aprender sobre a importância de um roteiro para a vida. Que os dias poderiam ser mais prazerosos se eu realmente fizesse algo com eles. E que o tempo passa mais rápido quando se deixa de prestar atenção no relógio da parede, para se concentrar no que está acontecendo ao seu redor e participar da vida. Parecia muita filosofia para um garoto de 9 ou 10 anos imaginar, mas assim como a minha inquietude pelo tempo, eu sempre fui atraído por lições de vida aonde quer que eu pudesse encontrá-las. Vide o meu fraco por metáforas, sociologia e ócio criativo.

***

   Alguns anos depois, eu me lembro de estar imóvel em uma fila de banco após ter sido instruído pela minha mãe de que, se eu pagasse aqueles boletos naquele dia, eu poderia usar o troco para comprar doces (Nota do autor: eu sempre me surpreendo ao escrever sobre minha infância, ao perceber o quanto eu já era tão eu desde pequeno, dotado de metáforas, senso de humor e ambição gastronômica). Me lembro de estar há algo entre quarenta minutos e/ou dois dias naquela fila, enquanto avistava sete guichês de caixas no banco onde apenas dois estavam funcionando, e um deles era preferencial para idosos, gestantes e outras castas sociais que não podiam deixar de exibir um sorrisinho disfarçado ao passar direto pela multidão de meros mortais enfileirados para serem atendidos primeiro. Me lembro também de que a bateria do meu mp4 tinha acabado e não restava nada para fazer a não ser aceitar ser massacrado pelo tempo infinito de espera – isso enquanto questionava minhas decisões de vida ao ter renunciado assistir meus desenhos para passar a eternidade naquela fila em troca de balas. E foi aí que eu ouvi alguém atrás de mim tão condenado àquele tédio existencial quanto eu comentar algo enquanto tentava se distrair com o joguinho da cobrinha no seu Nokia 3140:

- Ainda bem que isso aqui não vai durar pra sempre...

   Quanto mais eu penso sobre as coisas que marcaram a minha infância, mais eu me pego descobrindo o quanto eu sempre estive um pouco à frente do meu tempo – e o quanto eu invariavelmente já sofria por isso. Quando ouvi aquele comentário, imediatamente me senti aliviado. Aquela fila não iria durar para sempre, aquela espera iria acabar, e eu logo estaria de volta em casa. E por um milésimo de segundo eu me senti muito bem, até que meu pessimismo pré-adolescente me trouxe de volta ao fardo de estar vivo: as coisas ruins não duram para sempre, mas as boas também não. E ao começar a imaginar coisas terríveis como ter que me despedir dos meus pais um dia, nem percebi quando chegou a minha vez de ser atendido.

***

   Eu sempre fiz questão de dar um tom especial ao meu tempo e à minha vida. Um tom mais carismático, descontraído, leve, para que as coisas ruins não parecessem tão destrutivas e para que as boas parecessem ainda mais especiais. Foi assim que eu cresci, desde os meus anos de tédio em missas intermináveis e a pré-adolescência enfadonha em filas de banco, até chegar ao ápice fenomenológico-existencial da minha contemporaneidade preguiçosa. E acho que é por isso que eu prezo tanto por rotinas, planos e padrões; porque no fundo eu sei que é tudo passageiro, temporário, finito. E apesar de desperdiçar grande parte do meu tempo com reclamações infames, comentários sarcásticos desnecessários e sonhos distantes, eu realmente gosto da minha vida e de tudo que já passou por mim até aqui.

   Mas a verdade é que status quos são ilusões; o mundo está sempre girando, transitando, mudando. Apesar da confusão climática lá fora que parece sempre acabar em chuva na minha cabeça, este fim agridoce de inverno já está tomando forma de prelúdio à primavera. E quanto mais eu penso sobre mudanças, mais eu percebo que talvez seja esta a mensagem que eu devo levar de 2014. O ano em que eu consegui o meu primeiro estágio em psicologia fora da faculdade. O ano em que eu aprendi a ajudar o meu pai. O ano em que eu comecei a discernir quais relacionamentos valem a pena. E acima de tudo, o ano em que eu descobri que apesar de todas as minhas distrações com metáforas, comentários sarcásticos, surtos existenciais e instintos de procrastinação, eu tenho sido cada vez mais feliz com o passar das estações.