quarta-feira, 29 de outubro de 2014

23


   Ontem foi 23. Foi o dia mais esperado por mim a cada ano que passa, cada inverno que eu sobrevivo e cada grade curricular que eu completo. Mas ontem foi diferente, porque provavelmente foi a última vez em que o meu aniversário envolveu abraços nos corredores da faculdade, ou um grupo de amigos tão grande para se convidar para sair e beber depois da aula. Não. Ontem os 23 foram definitivos em muitas coisas; encerrou o ciclo vicioso e trágico em que os meus 22 haviam se estagnado, entre empregos que vieram e se foram, e mulheres que parecem só ter ido embora, mas também definitivo pelo contexto em que eu sobrevivi por mais um ano. Porque os 23 prometem ser diferentes – como o primeiro ano em que eu estarei saindo para o mundo por conta própria, em busca de sucesso, felicidade, prosperidade e, quem sabe, um pouco mais de estabilidade para firmar as neuroses que, ao que parece, jamais abandonarei.
   Eu ainda não sei o que vou fazer com os meus 23, mas pela primeira vez isso não me assusta tanto. Se tem uma coisa que eu aprendi este ano, e que será o que levarei comigo daqui em diante, é que resiliência não é só uma palavra bonita que serve para impressionar pessoas em conversas de bar. Resiliência é uma necessidade; uma habilidade que a gente precisa desenvolver a cada dia, porque nada nesta vida dura pra sempre. Empregos se iniciam e terminam, relacionamentos podem evoluir ou implodir no piscar de uma foto postada no Facebook, famílias podem se reunir para almoçar no Domingo ou brigar e jurar nunca mais conversar uns com os outros só porque tal candidato ganhou e outro perdeu, e amigos podem nunca mais querer olhar na sua cara só porque você deu pra trás de sair em uma sexta-feira à noite. Algumas coisas ficam, persistem, perduram por um pouco mais, mas tudo eventualmente acaba. E como você vai enfrentar o fim dos seus ciclos quando eles se esgotarem?
   Quanto a mim, eu me rendo à minha velha e nostálgica noção de que só tenho a agradecer pelos 22 anos que tive até antes de ontem. Pelas pessoas que conheci e que deixaram em mim um pouco de si, independente se lembro delas com carinho ou com cicatrizes latejantes. Agradeço pelos lugares que conheci, que visitei e que ainda espero rever, mas que meu salário flutuante ainda não permite que eu planeje tantos sonhos a longo prazo. Agradeço por tudo que tive a oportunidade de fazer, e por finamente entender porque deixei outras chances passarem em branco por mim para irem embora com o vento. Eu também sempre fui muito devoto da teoria de que as coisas que dão certo, eventualmente darão mesmo certo. E que se não deu, mais pra frente a gente vai entender. Por exemplo, agora eu entendo porque aquela telha caiu, ou porque aquele estágio acabou, ou porque aquele carro quebrou no meio da estrada, ou porque você foi embora. São aprendizados que a gente precisa ter, mas que não necessariamente significa que iremos tê-los por bem. Às vezes é por mal, porque só assim a gente vai se lembrar deles.
   Ao contrário do que meus costumes me inspiram a fazer, eu não tenho muito a escrever. Na verdade, ainda não tenho as palavras certas, mas também não quero deixar que a minha procrastinação sirva de eclipse para todos os agradecimentos que fiz ontem e que já escrevi hoje para as pessoas que se importaram o bastante para me desejar um dia feliz. Independente se você se importa comigo, ou participa da comédia da minha vida, ou simplesmente viu por reflexo que era aniversário de alguém na coluna lateral do Facebook, muito obrigado.  São dias como ontem que me fazem engolir toda a minha baboseira sobre desejar dias melhores, porque eles já estão aqui. Só no último mês eu apresentei palestras, trabalhos, viajei um monte, passei tardes, noites e madrugadas conversando e rindo com meus amigos, fui padrinho de um casamento perfeito, trabalhei alucinadamente ao ponto da minha exaustão me fazer perceber que meus esforços valem a pena, e aprendi a sorrir surpreendentemente bem para as minhas fotos de formatura. E então chegaram os 23, com todos os abraços, felicitações, presentes, cartas e alegrias possíveis.
   E o que me resta agora é sair e descobrir no que vão dar esses 23. É claro que algo vai dar errado – muita coisa, provavelmente. Não sei se mais alguma coisa vai cair na minha cabeça, ou se vou ter o meu coração partido de novo. E ainda bem que eu não sei, porque eu também preciso aprender a aceitar as surpresas que me aparecem, em vês de estragá-las com a minha presunção. Então é isso, Igor: você vai envelhecer com graça? Ou vai envelhecer sem cometer erros?

   23. E lá vamos nós de novo.

segunda-feira, 20 de outubro de 2014

A segunda edição

Para falar a verdade, eu não gostava muito de você. Também, não era pra menos: quando eu te conheci, você nem sabia falar ainda. Em compensação, depois que aprendeu, nunca mais parou; e de “mamãe” e “papai”, logo aprendeu outras frases fundamentais como “você está errado, Igor!”, ou, “devolve o meu brinquedo!”. Eu admito que talvez não tenha sido o melhor exemplo que poderia para você; porque te ensinei palavrões enquanto o pai não estava olhando, e abandonei você em frente à televisão por horas intermináveis de filmes quando deixavam você na minha casa sob os meus cuidados, e te instruía a mentir sobre que horas você foi dormir para que o pai não brigasse comigo;

- Você lembra que horas foi dormir?
- Lá pelas 3 eu acho.
- É, deve ser. Eu também não lembro. Mas se o pai perguntar, que horas você vai dizer?
- Meia-noite!
- Não! Meia-noite dá muito na cara. Acho que já usamos essa antes. Diga que foi dormir lá por uma e quinze. É mais realista.

   E depois de aprender a falar, você aprendeu a andar, a correr, a ler, escrever e tudo mais. Tudo muito rápido, muito discreto, que eu nem percebi exatamente quando foi que você já provou ser tão madura para alguém da sua idade. Alguém que, com 13 anos, definitivamente já me ultrapassou em termos de maturidade emocional. Porque quando nós temos um desentendimento, você argumenta até perder o fôlego; eu mostro a língua e deixo você falando sozinha. Whatever.
   Ficou tão madura que agora sou eu quem aprende com você. Sou eu quem pede indicações de bons livros para ler, ou quais séries novas que você já viu vale a pena acompanhar, ou até mesmo conselhos sobre como lidar com o pai quando ele está naqueles dias menos simpáticos. Nós não tivemos o melhor dos começos, mas é só porque eu não te conhecia ainda. Agora, 13 anos depois, eu posso dizer honestamente o quanto tem sido um prazer. Porque você é incrível; é uma das provas de tudo de bom e correto que existe nesse mundo. É o que me põe pra cima quando me sinto mal, e é o que me põe pra baixo quando estou me achando demais também. É a pessoa que sabe exatamente como lidar comigo; que já percebe de longe quando meu humor permite que você chegue perto o bastante para um abraço, ou quando é melhor passar longe e deixar isso para outro dia.
   Eu não sou o melhor exemplo que você poderia ter, e ainda bem que você não me seguiu tanto assim. Você vai ser bem melhor do que eu; deve ser bem melhor do que eu. Vai usar seu carinho, sua inteligência, sua simpatia, seu bom humor e sua impressionante lista de livros que já leu ao longo da vida para ganhar o mundo quando tiver idade o suficiente para isso. Não é pra menos também; você começou cedo. Modéstia a parte, talvez eu não tenha ido uma influencia tão ruim assim.

   E de agora em diante o tempo vai passar mais rápido ainda, e eu quero que você saiba que pode contar comigo. Porque você vai crescer e amadurecer muito mais, e aprender certas coisas sobre esse mundo que fogem dos nossos livros, filmes e músicas favoritas. E eu quero estar do seu lado quando você se sentir perdida. Primeiro namorado, primeira discussão, primeira tentativa de fugir da casa dos seus pais, primeiro porre, primeiro grau do colégio... É engraçado parar pra pensar sobre o quanto ultimamente minha vida tem girado em torno de últimas coisas, enquanto a sua está só no começo. É inspirador, até; e se você me permitir, eu vou te ajudar a não cometer nenhum dos erros que eu já cometi ao longo do meu caminho. E você sabe que não foram poucos...


   Agora eu vou deixar registrado aqui algumas coisas que você provavelmente ainda não sabe sobre mim, ou então não chegou a ouvir em voz alta (e sinta-se livre para usá-las contra mim durante brigas ou discussões, porque somos irmãos e isso faz parte da vida): eu te amo mais do que eu consigo descrever no meio desta bagunça de palavras mal organizadas, e me importo com você mais do que você imagina que eu sou capaz de demonstrar. E se você me conhecer bem também, e eu acho que conhece, sabe que não sou de falar essas coisas assim, tão livremente. Espero que o seu dia seja feliz, assim como toda a jornada que você ainda tem pela frente, e que nunca pare de ler, escrever, brincar, sorrir, abraçar, falar besteiras e, principalmente, passar alguns fins de semana na minha casa afundada no sofá na base de pizza, refrigerante e televisão. Tem coisa melhor? (Não, não tem. Não discuta comigo. Pare. Você está errada. Está sim! Ah, quer saber, esquece tudo isso! *mostra a língua e vai embora*)
   Feliz aniversário, Vitória. Você é a segunda edição, reeditada e revisada, do legado da família do nosso pai. E quando se sentir perdida ou em dúvidas, me procure; estou aqui para te ajudar a escrever os próximos capítulos.

quinta-feira, 16 de outubro de 2014

A última quinta-feira


   ...e então restaram cinco estagiários. Os que disputaram a tapas e olhares feios por uma cadeira na sala de orientações número 4 para continuarem seus estudos sobre a abordagem comportamental com aquela que diziam ser a professora mais querida de todas. E cada um deles também trouxe consigo sua própria reputação: havia a esforçada, responsável por transformar cada um dos seus atendimentos em algo lindo de se relatar; a preocupada, que não tinha muita noção do quanto era capaz de fazer a diferença não só na sua própria cliente, mas na sua família também; o ausente, mas que sempre dava um jeito de ser fazer presente através de algum presentinho especial para o grupo; a criativa, que vivia cheia de recursos para deixar seus “clientezinhos” mais descontraídos; e o problemático, que chegou especialmente sob a ameaça de que iria dar trabalho.
   Claro que nenhum deles se limitava a isto; tampouco tinham ideia de que aquele seria o melhor ano de estágio que teriam pela frente. E como podiam saber disso? Estavam ocupados demais acordando cedo para preparar dinâmicas para os seus grupos, ou pensando em reflexões significativas o bastante para trabalhar, ou criando técnicas expressivas para ajudarem seus clientes a falar. Isto é, metade deles estava madrugando; a outra metade estava ocupada passando o dia acampados na clínica, tentando dar conta de todos os seus afazeres e o pior: de todos os seus relatórios. E tiveram dias que foram cansativos demais, frios demais, calorentos demais. Sem contar aquele Julho que demorou três meses pra passar.
   Eles passaram por recessos juntos, por uma Copa do Mundo, férias, aniversários, broncas, elogios, comemorações, jantares, garrafas de vinho, chá e café, e até descobriram o verdadeiro significado da palavra “sinceridade”. E quando tudo estava perto de terminar, também passaram por feedbacks de cada um deles, e foi aí que eles perceberam que aquele ano tinha sido diferente. Porque a esforçada descobriu o quanto seus colegas a respeitavam por isso, e o quanto se espelhavam para ser a profissional que ela já havia definido ser desde o primeiro dia de aula; a preocupada aprendeu o quanto o seu potencial era maior do que ela imaginava, e a referência que esta já havia se tornado enquanto estava ocupada achando que estava perdida; o ausente percebeu que, apesar dos compromissos que o levavam para longe às vezes, ele gostava muito de estar ali no meio deles, e que fazia parte de um grupo muito especial; a criativa conseguiu silenciosamente levar mais um clientezinho a ganhar alta através dos seus jogos, seus desenhos e seu carinho; e o problemático deixou de ser tal coisa, e finamente assumiu a postura de profissional que chegou a pensar que nunca teria.

   Mas nada disso teria sido possível sem ela; a professora que todos prometiam ser a mais querida de todas e que, na verdade, foi bem mais do que isso. Foi a orientadora que reforçou sem mimar, discriminou sem punir e acolheu sem olhar a quem, porque acreditava que cada um dos alunos que estava ali diante dela, estava mesmo dedicado a fazer da profissão que escolheram, algo que realmente fizesse a diferença. E aconteceu que essa diferença só começou a ser feita graças a este trabalho; esta orientação de estágio que acredito falar por todos ao dizer que não foi simplesmente uma parte prática da grade acadêmica de uma faculdade noturna. Não. Foi algo imprescindível para a carreira de cada um. Algo especial que só pode acontecer porque cada um esteve disposto a vir, a participar, a contribuir, a dar pitacos nos casos um do outro, a conversar e, acima de tudo, a aprender.


Quando eu olhar para trás e relembrar a trajetória acadêmica que fiz rumo ao sucesso, definitivamente vou me lembrar do quanto achava que a quinta-feira era o melhor dia da minha semana. Era o dia em que eu me dirigia à sala de orientações número 4 com aquelas cinco pessoas, e descobri que fomos autores de uma experiência única. Mas e agora, o que eu vou fazer?
   Ah, sim. Supervisão! Pode ser na casa da Patrícia mesmo. Nós levamos o vinho.

terça-feira, 14 de outubro de 2014

O fim do corredor

(Dedicado especialmente aos noivos, Greka e Henrique, que tiveram a cerimônia mais perfeita que eu já tive o prazer de assistir, e a honra de participar. Fica aqui a minha singela homenagem, com toda a sátira e ironia possíveis, para não perder o costume.)

Esta é a história de um casamento que tinha tudo para dar errado. O evento estava marcado para uma tarde absurdamente quente de sábado. A maioria dos convidados era de fora da cidade, e não sabiam exatamente onde ficava a igreja. O vestido da noiva foi encomendado do exterior, com risco de acabar sendo extraviado. O noivo quase perdeu as alianças antes da cerimônia começar. A família do noivo parecia calma e organizada; a família da noiva era doida. O tapete da entrada da igreja estava amarrotado ao ponto de facilitar para que alguém caísse. A noiva se atrasou para chegar. E como se tudo isso não fosse o bastante para acabar em desastre, eu era um dos padrinhos.
   Andar por aquele corredor extenso que ia da porta da igreja até o altar parecia uma jornada inacabável, e imaginei que fosse assim que os noivos estivessem se sentindo. Mas apesar de tudo, do calor, do atraso, do tapete amarrotado e de eu quase sentar no banco errado, aconteceu o inimaginável: a cerimônia foi perfeita. Desde a entrada da noiva até a troca das alianças, tudo correu melhor do que o imaginado. E enquanto eu estava sentado ali no primeiro banco, tudo o que eu pude pensar foi na conversa que tive com a minha tia, a mãe da noiva, algumas horas antes da cerimônia:

- Como você está se sentindo, tia?
- Estranha. Está tudo muito redondo, muito certo, muito...
- Fácil?
- Isso!
- É porque nós estamos acostumados com as coisas darem errado.
- Exatamente, Igor. Mas hoje, não. Hoje está tudo nos conformes. Tudo no horário.

   E o sentimento que a minha tia teve foi o mesmo que o meu tio, e suspeito que o mesmo que os noivos tiveram. E, claro, é o mesmo que eu carrego comigo quase todos os dias quando saio de casa de manhã: as coisas não vão dar certo. Algo vai dar errado. Não adianta fazer planos... Isto é, até aquela tarde de sábado que nem estava tão quente assim, em uma igreja que todos os convidados encontraram sem problemas, e que a noiva não passou muito do seu horário para chegar, completamente linda em seu vestido importado que chegou conforme o esperado. O noivo estava com as alianças prontas, e as famílias estavam a postos para compartilhar de todo o amor e fidelidade que foram jurados pelo casal. Foi uma sensação totalmente estrangeira para mim: ser testemunha de um romance que na verdade teve tudo para dar certo, e realmente deu.
   O que naturalmente me fez pensar em mim, e no meu coração tragicamente acostumado com planos desfeitos, imprevistos derradeiros e acidentes de percurso. Mas se aquela cerimônia provou algo além do amor que os noivos sentem um pelo outro, foi para me inspirar a voltar a acreditar que as coisas podem sim dar certo. Que a vida pode ser fácil. Que planos podem correr conforme o previsto. E que aquela longa jornada que os noivos fizeram até o fim do corredor do altar é mesmo longa e difícil, mas que vale a pena ser trilhada. Eu só não estava no fim do meu corredor ainda, mas isto não significa que eu não deva me permitir fazer planos também.
   O casamento foi impecável, os votos foram sinceros e o amor foi compartilhado. E quando os noivos refizeram o percurso daquele corredor em direção a uma vida nova a dois, eu não pude deixar de sentir toda a esperança do mundo renascer em mim. As coisas podem dar certo sim. Cerimônias perfeitas existem, bem como o amor pode durar, e compromissos podem ser levados a sério. Eu também não pude deixar de sentir que estava perto de começar a minha própria jornada rumo ao fim do corredor.

   Tudo o que eu preciso agora é de alguém que esteja disposta a dizer, “Eu aceito”.

terça-feira, 7 de outubro de 2014

A odisseia da boa forma

Eu sou gordo. Para você que discorda; obrigado, é muita bondade sua. Para você que concorda, um aviso: eu estou ciente disso, logo você não precisa me lembrar disso toda vez que eu entrar no recinto. Atualmente pesando 88 quilos – com uma margem de erro do IBOPE entre 85 a 115 quilos – eu decidi aproveitar meu recente descontentamento ao me olhar no espelho junto ao sol que resolveu brilhar em Cascavel de novo para voltar à academia, com toda a esperança e ilusão que esse processo causa em mim.
   Se minhas contas estiverem certas, esta é a 8ª vez em que eu decido começar a frequentar uma academia – e se meus padrões continuarem fieis a mim, esta também será a 8ª desistência sem justificativa nem arrependimentos imediatos. É um ciclo quebrado: eu me olho no espelho e me sinto mal, me inscrevo na academia mais próxima, me animo a ir malhar por umas duas ou três semanas ininterruptas até que, um belo dia, chove torrencialmente ou algum compromisso matinal me impede de ir cumprir minha pena. E uma falta lentamente se transforma em duas, três, uma semana... Até eu me pegar desviando da rua da academia só para não ter que nem levantar peso na consciência por não ir mais.
   A verdade invariável sobre a odisseia da boa forma é que o sentimento de dizer para alguém que você está fazendo academia é indiretamente proporcional à agonia de realmente fazer os exercícios. Porque apesar de já ser considerada commodity, academia é uma coisa muito, mas muito – e aqui eu peço liberdade para expressar a minha falta de criatividade momentânea de adjetivos – chata. E repetitiva. E enjoativa. E estressante. E, sem sobra de dúvidas, infinitamente frustrante. E só digo isso porque, entre criar coragem para levantar da cama de manhã e me dispor a malhar, e tentar canalizar toda a minha força para completar uma série de levantamentos de supino reto, a chateação disso tudo me faz pensar absurdos do tipo: se eu estivesse preso, provavelmente estaria fazendo levantando pesos lá, mas só porque seria a única coisa que ia ter pra fazer...
   Eu realmente me esforço para fazer certo todos os exercícios que me foram passados, mas o maior problema mesmo é chegar até a academia. Se houvesse um personal trainer que eu pudesse contratar só para me acordar no grito e me obrigar a ir malhar, talvez eu não passaria os meus dias revezando as poucas roupas que ainda me servem sem delatar totalmente os meus mamilos avantajados. E depois que eu chego as coisas não melhoram muito: talvez seja impressão minha, mas eu sinceramente acredito que todas as outras pessoas que frequentam aquele espaço estão ali desde quando nasceram, entraram em forma em questão de dias, e levantavam os pesos que eu levanto hoje quando ainda usavam fraldas. Mas quando se é o novato da academia, os fatídicos primeiros dias de treinos de adaptação às vezes nem envolvem pesos; apenas você usando shorts tentando tão parecer ridículo enquanto se exercita apenas com a barra, porque o professor decidiu que você ainda não aguenta os pesos. Isto quando ele não te pega fazendo algum exercício errado e te corrige, mas não sem dizer para a academia toda ouvir, “Não adianta querer pegar muito peso hoje porque você não vai entrar em forma da noite pro dia!”.
   Como não existe esse negócio de ter pouco azar, também parece que no dia e no horário em que eu decido ir, o resto do mundo também se inspira. E como se isso não fosse o bastante, o resto do mundo chega lá antes de mim e ocupa todos os aparelhos. Pior do que se matar de correr na esteira, é ter que esperar para se matar de correr na esteira. Ou então, ter que usar um aparelho impregnado por outra pessoa que acabou de desocupá-lo antes que outro venha e tome a sua vez. É como correr uma maratona, só que mais dolorosa.
   E dolorosa com toda a ênfase possível, porque os primeiros dias de volta à academia sempre me deixam com uma leve sensação de paraplegia. Até piscar dói, e se algo cair no chão, seja lá o que for, ficará lá para sempre. Porque se eu tentar pegar, vou acabar caído no chão junto ao troço. É um ciclo quebrado, fatigante, exaustivo e frustrante (porque infelizmente eu ainda não sobrevivi o bastante em uma academia para chegar a ver seus resultados), mas é lá que eu ando começando os meus dias ultimamente, ofegante em uma esteira e cercado por seres mais dedicados da terceira idade e/ou mamíferos imensos que sinceramente me fazem dar os parabéns a eles por estarem lá, mas que me entristecem com a visão das suas pelancas balançando entre exercícios.

   Eu odeio academia, mas por enquanto ainda não desisti. O que me motiva a continuar não é a vontade de ficar em forma ou de perder a barriga de chopp; é que eu preciso ir mais algumas vezes pelo menos para compensar pagar pelo mês inteiro.

sexta-feira, 3 de outubro de 2014

A garota errada


   Não é você. Às vezes eu estou errado em achar que encontrei a garota certa, por mais que eu saiba que já deveria ter desmistificado a existência dela de uma vez por todas. Mas eu tenho um dom de enfiar uma faca no peito para sangrar poesia que insiste em tomar vida mais do que os meus próprios instintos de sobrevivência, e que geralmente é que dá brecha para prosas desse tipo.
   Parece que quanto mais eu tento mudar, mais eu me rendo aos meus velhos padrões. Por exemplo, eu prometi para mim mesmo que não escreveria mais para você. Mas quanto mais eu penso em mim, meus erros, minhas aspirações, minhas contradições e tudo mais, meu pensamento invariavelmente também toma a sua forma. Porque você parece ser exatamente como eu. Desde o egocentrismo exacerbado encoberto, até as contradições infames involuntárias. Você, que também não sabe exatamente o que quer, mas foge do que precisa. Você, que chora antes de dormir desejando por uma vida melhor, mas que não faz ideia do que te falta para ser realmente feliz. Você, que invoca as minhas inseguranças e as minhas ansiedades toda vez que a gente se encontra. Você, que gosta de fingir que não precisa de ninguém quando está em uma multidão, mas que se encolhe na sua solidão porque é com isso que você está mais acostumada, ao invés de deixar outra pessoa entrar e sobreviver dentro do seu coração. E o que é mais assustador, é pensar que talvez eu não te conheça direito. Talvez porque quando eu olho para você, o que mais me parece claro é o reflexo da minha própria insensatez, ao contrário sua essência única. Ou então, talvez você seja exatamente como eu a percebo – como um trágico e melodramático reflexo – porque está sendo sincera ao dizer que, além de não saber descrever o que quer, também não sabe expressar do que é feita.
   Algum tempo atrás eu escrevi sobre a garota certa. Ou então, sobre o mito do amor instantâneo que a gente pensa que vai encontrar uma hora dessas por aí enquanto caminha despreocupadamente pela rua, até trombar com alguém que em questão de olhares vai provar que é o que estava faltando em você há anos. E eu admiti que não existe nada disso; que não há pessoas certas, apenas empenho e compromisso para com alguém que também esteja disposta a assumir as alegrias e os desastres de uma vida a dois. Mas como a minha paixão eterna por contradições talvez seja o que me move adiante por aí, acho que já posso estufar um pouco mais o peito para dizer com propriedade quando se trata da garota errada.
   Aquela que não tem nada a ver com você. Que não entende os nomes em inglês das músicas na sua playlist. Que insiste em ir só nos lugares mais frequentados para fazer questão de ser vista, em vês de aproveitar a sua companhia. Que não olha nos seus olhos quando fala com você. Que não responde as suas mensagens, a não ser quando ela precisa de alguma coisa. Que não diz que te ama ou pior; que diz que te ama sem sentir de verdade. Eu já encontrei algumas dessas por aí, e assim como um acidente de carro acontecendo em câmera lenta bem diante de mim, é assim que eu percebo o quanto eu tenho me aproximado de você. Não sei se acredito totalmente em você, muito menos se posso confiar a você algum segredo. Mas a essa altura é seguro dizer, felizmente ou infelizmente, que eu me importo com você. Mas ao julgar pela inevitável rota de colisão na qual nós estamos direcionados, nós vamos bater.  E minha experiência me diz que vai ser mais um daqueles acidentes em que a outra pessoa sai quase ilesa, enquanto eu fico me debatendo no meio-fio.
   Eu percebi que o começo do fim estava próximo quando me peguei falando de você para os meus amigos. Alguns estão irremediavelmente torcendo por mim, e interpretando você da mesma forma esperançosa que eu. Outros já conseguem ver a colisão com clareza, e por me conhecerem tão bem como conhecem, estes me amam o bastante para mandar eu cair fora antes que eu me enfie em mais um acidente. O que me faz pensar mais uma vez, como um pioneiro na arte dos sentimentos não correspondidos, que minha história está sendo reescrita mais uma vez com uma nova protagonista. E me faz ter que admitir que estou no lugar errado e na hora errada com a pessoa errada de novo. E que simplesmente não é você.
   Depois de tantas lamúrias transcritas e trilhas sonoras desperdiçadas após terem sido associadas com as garotas erradas, eu já deveria saber melhor. Já deveria discriminar as minhas escolhas com mais atenção, para não acabar me sentindo sozinho ao lado da pessoa errada no meio de uma multidão de rostos desconhecidos a quilômetros de distância da minha casa – e, provavelmente, de uma pessoa menos errada. Mas padrões existem por um motivo, e eu também preciso admitir que há algo nas garotas erradas que me atrai. Talvez seja a minha paixão por contradições, ou a invariável tradição de ironias sob a qual a minha vida parece existir, ou apenas pelo fato de que eu sempre achei você muito bonita, muito simpática, e que ao me aproximar um pouco mais de você eu enxerguei um pouco de mim – em um reflexo tragicômico irresistível – eu jurei para mim mesmo que seria capaz de andar sobre a água. E mais uma vez, meus amigos – que sempre provam saber muito mais sobre mim do que eu mesmo – acertaram em prever que eu certamente me afogaria... De novo.
   Também existe a possibilidade que vai além do meu umbigo, de que não seja eu o cara para você, e que seria mais fácil evitar o drama da próxima vez ao ficar quieto no meu canto e deixar você passar por mim sem causar acidentes. Mas na falta de uma garota menos errada, no que eu me inspiraria para escrever no dia seguinte? Definitivamente, as minhas contradições estão indo longe demais.

   Nesse caso, não é você; sou eu mesmo.

quarta-feira, 1 de outubro de 2014

A entrada triunfal


   Faltam cinquenta e um dias, e tem sido uma viagem e tanto. Entre trancos e barrancos, a faculdade é uma das experiências mais incríveis que um jovem consideravelmente alfabetizado e socialmente dinâmico pode ter. Particularmente falando, mais do que uma experiência incrível, a faculdade foi uma educação além das disciplinas de grade curricular, mas um aprendizado em termos de amadurecimento – pra não dizer, um exercício constante e exemplar das minhas habilidades sarcásticas diante de todas as situações que eu considerei infames. Como provas feitas em dupla e com consulta onde ninguém sabia qual era a matéria a ser cobrada, atividades extracurriculares que não contavam nota nem agregavam novos conhecimentos, mas que ainda assim eram capazes de me custar porcentagens de presença, e a necessidade exorbitante de horas complementares que eu precisei juntar para garantir que o canudo do meu diploma no dia da colação de grau não estivesse oco.
   Mas apesar de tudo isso, tem sido uma viagem e tanto. Uma viagem que, ao contrário do que meus colegas costumam me dizer, não vai acabar para mim daqui precisamente cinquenta dias. Eu não parei para fazer a conta, mas em se tratando de rituais de passagem, a minha saída da graduação só vai se concretizar com aquele que eu sempre considerei um dos momentos mais sublimes e únicos da vida de uma pessoa, – que perde somente para, talvez, o dia do seu casamento ou, por que não?, caso você apareça na CGNa entrada triunfal no salão da formatura ao som da minha música.
   São poucos os momentos da vida que são inegavelmente nossos. Por exemplo, - e não estou fazendo uma crítica aqui - o dia do seu casamento não é sobre você. É sobre pagar para um bando de parentes, amigos, conhecidos e agregados comerem, beberem e comemorem por você ter encontrado o suposto amor da sua vida. É diferente, digamos, de quando você faz aniversário. Eu sempre defendi a tese de que aniversários são datas ridiculamente importantes que precisam ser comemoradas a qualquer custo; afinal, é o dia em que o mundo te dá a desculpa de ser irremediavelmente egocêntrico, e de ter pessoas ao seu redor para baterem palmas por isso.
   Mas aniversários vem e vão a cada ano, e dependendo dos dígitos que você está completando ou das Primaveras que já acumulou na vida, e levando em conta o inventário emocional que a gente costuma a cada novo soprar de velas, nem sempre parece tão animador ter a nossa existência resumida a um “parabéns” semi-pronto e um bolo de supermercado. Agora, aparecer na CGN depois de um acidente bizarro envolvendo uma telha de amianto voadora, um passeio de ambulância, uma série de radiografias e curativos, e cinco pontos na perna, definitivamente foi algo que eu posso usar para quebrar o gelo em qualquer roda de amigos-que-ainda-não-são-tão-amigos como forma de me apresentar.
   Só que levando em conta as probabilidades disso acontecer de novo, eu ainda considero a entrada triunfal da formatura como o último momento precioso da vida em que você é o centro das atenções – completo com a oportunidade de sonorizar este momento com a música que você quiser. Ultimamente tenho visto meus amigos em crise por problemas cujas soluções já possuem algumas alternativas – se fulana for com o vestido roxo, então eu vou com o verde, porque fulana é gorda e o verde realça os meus olhos castanhos; ou então, se metade da minha família levar espumante e a outra metade levar uísque, eu posso me embriagar elegantemente durante o jantar com o espumante enquanto deixo para nadar no mar de uísque durante o baile.
   Mas o problema da música é o que me chama mais a atenção. Antes mesmo de entrar na faculdade, eu já vislumbrava este momento como o divisor de águas definitivo entre os anos dourados da graduação e a realidade amarga do desemprego imediato no dia seguinte ao baile. E em se tratando da minha jornada, que até o dia da festa já terá passado da marca dos seis anos, eu sempre tive em mente que a minha música deveria ser, de fato, minha. Algo pessoal, simbólico, metafórico, essencial, quase metalinguístico porém inteiramente subjetiva. E ouvir mimimis do tipo “Acho que vou escolher qualquer música que for mais tocada perto do dia do baile...”, ou “Acho que vou escolher tal música porque é animadinha...” me incomoda.
   Eu não escolhi a minha música por ser perfeita, ou por ser animadinha, ou por estar entre as mais tocadas. Eu a escolhi porque é minha. Porque dentro da minha história, durante a jornada que eu percorri, eu sempre encontrei nela uma inspiração para continuar seguindo em frente, mesmo quando não tinha ideia de que rumo tomar ao certo. Só não iria voltar atrás, porque não foi para isso que eu me mudei de cidade, e deixei meus amigos e minha família para trás, e me obriguei a engolir uma atmosfera totalmente nova, estranha e Cascavelense. Não. Eu me mudei por um motivo, por um sonho, por uma noção vaga de futuro que não abandonei totalmente, mas adaptei às minhas contingencias para deixar o mundo real à minha volta um pouco menos sofrível, e um pouco mais, bem, Igor.
   De agora em diante é que os problemas de verdade vão começar. E você vai descobrir aos poucos o verdadeiro significado de algumas coisas, como a profissão que escolheu, o mundo em que vive, e exatamente o que é capaz de fazer com tudo isso para garantir o seu sucesso e, acima de tudo, os sonhos que ainda vivem em você. E para mim, o som da largada em direção à maratona da vida real vai começar com a minha entrada triunfal e a minha música.

   Faltam cinquenta e um dias.


P.S. Só para constar, esta não é a minha música. Mas fica aí a dica.