terça-feira, 21 de julho de 2015

Do dia pra noite


O que provavelmente foi o momento mais marcante que poderia simbolizar os meus seis anos morando em Cascavel, foi aquele que vivi antes mesmo de chegar aqui. Eu me lembro de encher o carro do meu pai com a minha mudança, de andar até a porta do carro e de esticar a mão para abri-la, até que algo me impediu. E por um instante eu fiquei ali, parado e pensativo, até que me virei para o meu pai e perguntei:

- Isso vai dar certo, pai?

E foi aí que meu pai suspirou fundo, revirou os olhos e levantou as sobrancelhas com sincero cansaço, e deu a resposta que serviria para estabelecer o tom de toda aquela mudança de vida que eu estava fazendo:

- Entra logo no carro, Igor.

É. Eu deveria ter desconfiado desde então que era assim que o mundo real ia ser.

***

Seis anos atrás, tudo o que eu queria era que acabasse logo. Aquela faculdade, aquela estranheza, aquela saudade imensa que eu tinha de tudo que até então configurava a minha pequena e infame vida adolescente. Eu havia decidido mudar sim, ninguém me obrigou, e foram por vários motivos. Mas assim como meu passado literário já havia previsto, eu sempre tive mais maestria com meus começos e meus desfechos, jamais com o interlúdio. Porque eu achei que jamais iria gostar tanto daqui como havia me apegado à Londrina; as ruas não eram nada familiares, o clima era frio e as pessoas pareciam distantes. Ou então era só eu quem estava se sentindo deslocado demais. Da maneira que um adolescente que tomou sua primeira decisão importante na vida provavelmente deveria se sentir mesmo.
Eu me lembro de virar para um dos meus amigos na sacada da sua casa, dias antes de me mudar, e de choramingar para ele:

- Cara. Eles vão me odiar lá.
- Claro que não. Logo você vai encontrar um grupinho só seu igual fez aqui. Só não vai ser da noite pro dia...
- É. Talvez...

Nada acontece da noite pro dia. Eu sabia disso, mas não acreditava o bastante. Na verdade, acho que eu não tinha paciência o bastante. Sempre fui mais impulsivo do que estratégico nas minhas decisões. O que explica perfeitamente o porquê de eu tomar tantas decisões infames e, mais vezes do que deveria, acabar provando ter mais sorte do que juízo. Assim como, 99% das vezes, falo sem pensar e me arrependo. Talvez você não saiba disso, porque aconteceu de que o que eu disse serviu para te ajudar de alguma maneira. Mas acredite; foi sem pensar e eu me arrependo. Isso não muda o fato de que eu não tenho, nem nunca tive filtro quando se trata das minhas opiniões. Muito menos, ao extravasar a minha criatividade. O que, por sua vez, explica porque este blog existiu.
Cada texto era como uma migalha que eu deixava para trás, para tentar não me perder no caminho que eu nunca soube ao certo como seguir, mas que de alguma maneira acreditei cegamente de que me levaria exatamente aonde eu deveria chegar. E antes que você me diga alguma coisa, eu sei: isso não faz o menor sentido. Nunca fez e especialmente agora, depois que as decepções me diminuíram consideravelmente e de um leve ar de maturidade que a barba por fazer me trouxe, isso ainda não faz sentido. Mas ainda me dá esperanças para que amanhã seja melhor. Não que hoje não tenha sido, mas é a mesma sensação que eu tive quando me impedi de entrar no carro do meu pai há seis anos: aquela fase da minha vida, o fim do ensino médio, a casa da mamãe e da vovó, as tardes despreocupadas com os amigos e uma vida tranqüila de adolescente, havia sido incrível. Mas acho que já havia dado o tempo que deveria durar. Talvez existisse algo além daquilo que eu precisava correr atrás. E talvez o que eu procurava não estivesse em Londrina.
Foram mais de seiscentas postagens, cada uma envolvendo alguma emoção que eu precisava emoldurar com meus parágrafos e travessões, independente se estivessem coesos o bastante ou se carregariam algum significado para qualquer pessoa além de mim. Eu cresci com isso, sobrevivi com isso, e adorei cada vírgula disso. Relembrando até mesmo todas as vezes que dediquei esta página a outras pessoas, não há nada que eu realmente queira deletar; tudo foi importante e, por que não?, infinito enquanto durou. O que me deixou pensando muito nesses meus últimos dias como cidadão Cascavelense: o que teria sido de mim se eu não tivesse mudado?

O que teria sido de mim se eu não tivesse conhecido você?

É, você. Que por algum motivo está lendo isso agora, assim como já leu outros textos antes, ou que talvez até mesmo tenha estrelado algum deles. Você ajudou a mudar a minha vida de alguma maneira, e o que teria sido de mim sem isso?

***


Isto vai terminar exatamente como começou, e ao contrário do modo como eu insisti em acreditar que a vida realmente funciona: do dia pra noite. Às vezes eu me pego pensando em como cheguei até aqui tão rápido, sendo que há seis anos tudo o que eu mais queria era que isso passasse rápido.
Ainda bem que não é assim que as coisas funcionam, e que pelo menos, ao meu ver agora, entre risos e prantos eu fui mais feliz do que poderia imaginar. E que mais uma vez eu dei sorte ao decidir sem pensar que esta parte da minha história teria este nome: “você vai adorar o amanhã”.


Que fique registrado: eu adorei.

sábado, 18 de julho de 2015

O soneto da separação


Anteriormente...
O soneto da fidelidade” (parte 1parte 2)

É o que eu sempre digo: ironia nunca é por acaso, é destino. No meu caso, foram anos observando de longe a minha mãe, atenta e dedicada, sentada à mesa da sala com seu pequeno caderno de anotações em mãos, reescrevendo o que, em sua sincera opinião, foi a magnum opus do Vinicius: o soneto da fidelidade. Ela o fazia porque o considerava inspirador ao ponto de se tornar dogmático, e talvez até mesmo fosse - visto que foi o que originou a minha empreitada ao longo de outros poemas, contos e crônicas nas quais eu passei a basear não apenas o meu tempo livre, mas toda a minha vida ao redor dele. O máximo que pude, ao menos, dentro dos limites do bom senso e da licença poética.
Voltando ao destino, que é um gozador com péssimo senso de humor, foi este quem me levou ao encontro do que viria a ser a contracapa da história de como decidi tornar-me um escritor (assim espero) ao me deparar com a peça final deste quebra-cabeças com o tema "o que estou fazendo com a minha vida?!" da única forma que poderia chamar a minha atenção: outro soneto. Do Vinicius, é claro.
Muito tempo atrás, durante a renascença do meu sarcasmo (conhecida formalmente como a época do ensino médio), o destino (conhecido formalmente neste contexto como o MEC) determinou que na nossa lista de livros a serem adquiridos para aquele ano constariam clássicos da literatura como forma de trabalhar interpretações de texto nas aulas de redação para preparar os alunos para suas futuras provas de vestibulares. E que entre os clássicos deveriam constar lendas como Eça, Clarice, Caio, Érico e - surpresa! - Vinicius.
Não me pergunte em que ano foi isto, ou quantos anos eu tinha, nem aonde eu morava e quais eram os meus planos para o futuro. Só o que posso dizer é o que aconteceu no último final de semana, quando visitei a casa de mamãe e, remexendo os armários em busca de livros e DVDs que haviam ficado para trás durante as várias cargas que levei quando saí de casa, encontrei aqueles livros no fundo da porta mais alta do guarda-roupa, equivalentes a tesouros enterrados da minha adolescência que, como era de se esperar, finalmente vieram a tona para simbolizar o fim da minha fase infanto-juvenil (emocionalmente falando) e o início da minha tão esperada maturidade. Esperada pelos outros, é claro, porque se dependesse de mim, permaneceria teimoso, insensato, do tipo que aperta-campainha-e-sai-correndo, mostra-a-língua-quando-é-contrariado e prende-a-respiração-até-conseguir-o-que-quer para sempre.
Sabe aqueles momentos em que você redescobre pequenas pistas que deixou para si mesmo anos atrás, mas que precisavam ficar escondidas até você se dar mal o bastante na vida para entender como interpretá-las? Pois foi exatamente aquilo que acon... O que? Não sabe? Isso nunca aconteceu com você? É só comigo? Meus pêsames. Enfim, eu tirei meus livros do armário em que ficaram afastados do mundo por seis anos - desde que saí de casa - mas que de alguma forma ainda pareciam tão novos quanto quando foram obrigatoriamente comprados para (ironicamente) fins interpretativos de aulas de redação. E entre eles estava a reedição do Vinicius, a "Nova Antologia Poética", completa com duas anotações do seu dono negligente na contracapa: "pág.40" e "pág.93". que levavam, respectivamente, ao "soneto da fidelidade" e seu antagonista literário, "o soneto da separação":

"De repente do riso fez-se o pranto
Silencioso e branco como a bruma
E das bocas unidas fez-se a espuma
E das mãos espalmadas fez-se o espanto.

De repente da calma fez-se o vento
Que dos olhos desfez a última chama
E da paixão fez-se o pressentimento
E do momento imóvel fez o drama.

De repente, não mais que de repente
Fez-se de triste o que se fez amante
E de sozinho o que se fez contente

Fez-se do amigo próximo o distante
Fez-se da vida uma aventura errante
De repente, não mais que de repente."

Agora, eu poderia discorrer sobre todos os desdobramentos possíveis das interpretações egocêntricas que fiz a partir da descoberta de que eu mesmo, há anos, me peguei inspirado pela fidelidade do Vinicius ao seu amor hipotético e às suas rimas ricas e, anos depois, fui delimitado pelo mesmo autor que foi capaz de descrever com a mesma métrica o quanto de repente, não mais que de repente, este mesmo amor acabou. Mas não farei isto, porque o Vinicius já se foi, assim como aquelas aulas de redação e o mistério do quebra-cabeças da minha vida. Os anos de formação terminaram; está na hora de ser alguma coisa. E foram com estas mesmas estrofes que eu interpretei o fim desta parte da minha história - do amor por Cascavel e tudo o que construí por aqui ao longo dos últimos seis anos, para ser fiel a uma nova antologia poética mais uma vez.

Serei um escritor, e que seja eterno enquanto dure.

quinta-feira, 16 de julho de 2015

Uma chamada perdida


Já deve ter acontecido com você. Estar caminhando pela rua a esmo quando toca o celular. Você o tira rapidamente do bolso com duas expectativas diferentes: de que seja o amor da sua vida, que finalmente encontrou o número do seu telefone, ou a sua mãe pedindo que você passe na padaria a caminho de casa porque acabou a farinha de rosca. Mas quando você encara o visor, se depara com um número aleatório qualquer, que disparou o seu ringtone no volume máximo - afinal, você estava esperando o amor da sua vida finalmente te ligar, e interromperia qualquer coisa para atendê-la. O que você faz agora?

a) Atende sem compromisso para descobrir quem está do outro lado da linha, caso contrário a curiosidade e o temor do desconhecido acabariam por envenenar as suas noites pelo resto da vida.
b) Não atende, pois caso não seja alguém cujo número você já tem salvo, então se trata de alguém com quem você não deseja falar - porque, afinal de contas, você tem o número do amor da sua vida salvo na sua agenda e saberia se fosse ela.
c) Atende, mas se identifica como outra pessoa, porque caso seja algo com você que não lhe agrade no momento, é melhor anotar o recado para si mesmo e depois fingir que esqueceu de passar adiante.

Eu sou do tipo que atende. Aliás, eu sempre fui do tipo que atende. Em todas as circunstâncias possíveis, tanto empíricas quanto experimentais. E já tirei várias conclusões sobre isso - carência, desafeto, controle, solidão - mas nenhuma me satisfez até aquele dia em especial. O dia em que eu não atendi.
Antes de qualquer significação futura, eu preciso confessar que sempre fui do tipo que atendia, porque gostava de ser aquele com quem você pudesse contar. Aquele que está sempre disponível para o que der e vier, para ir até o bar mais próximo com você em cima da hora porque você terminou o seu namoro, ou brigou com os seus pais, ou precisa reclamar do seu trabalho, ou simplesmente está te faltando algo que você nem sabe o que é, mas que seria mais fácil refletir sobre isso se estivermos sentados na sacada, cada um armado com um copo de veneno que preferir, e aquele velho DVD dos Engenheiros do Hawaii tocando melancolicamente ao fundo. E o que me motivava a continuar sendo aquele que sempre atende, é o mesmo instinto que me posiciona em frente a uma tela em branco do Word para divagar sobre qualquer detalhe rotineiro que desperta em mim uma metáfora que precisa ser explorada - neste caso, representando as chamadas que, eventualmente, irão acabar.
Estar de partida me deu uma nova perspectiva mais privilegiada a respeito da vida que eu levo. Ou, então, a vida que eu costumava levar em Cascavel, antes de jogar tudo no ventilador e sair correndo em direção à fronteira do Paraguai. Me fez pensar no que realmente importa, e em quem realmente importa. E em como cada dia que se passa, é um dia a menos para sentarmos na sacada para afogarmos nossos relacionamentos, nossos pais, nossos deveres e nossas crises existenciais que nos tiram do sério às vezes. O que significa que eu não tenho mais tempo a perder com as promoções que a moça da Tim tem para me oferecer.
Se você é importante para mim, e se marcou a minha vida de alguma maneira nos últimos anos, você definitivamente tem seu número salvo entre os meus contatos. Até quem um dia foi importante e já não é mais ainda continua infestando o meu exclusivo espaço de armazenamento interno portátil, assim como permanecem disponíveis para que eu faça uma ligação pelo WhatsApp para você sem querer. Mas caso você não esteja entre estas duas categorias do seleto grupo de contatos que salvei ao longo dos anos, você definitivamente não será atendido agora.
Quando o desconhecido chama, talvez valha a pena aceitar o que poderá vir. É em direção a isto que eu estou indo, mais uma vez, com a vaga noção de que as coisas darão certo. Mas às vezes o desconhecido não vale a pena ser atendido. Não ao custo do meu precioso tempo, e muito menos dos meus créditos.

Pelo menos não durante os próximos 11 dias.

terça-feira, 14 de julho de 2015

Atravessar


Dizem que são nos momentos difíceis em que nós descobrimos exatamente do que nós somos feitos. Que a força que realmente temos, dentre outras virtudes encobertas pelo fluxo rotineiro de serotonina no nosso organismo, permanecem em inércia até que algo impulsione aquela adrenalina comovente que nos faz superar distâncias, encarar desafios e etc. Mas pra ser sincero, quando se está empenhado em superar ou encarar qualquer coisa, quem de nós realmente pára pra refletir sobre o quão resiliente está sendo naquele exato momento?
Eu prefiro acreditar que as lições aparecem mesmo de repente, em uma tarde chuvosa de um dia aleatório, quando se está voltando do trabalho carregando um guarda-chuva meio entortado pelo vento insensato e sacolas com materiais de limpeza e um jantar congelado para microondas, que algo irá te lembrar do que passou e o que aquilo significou. Exemplos corriqueiros e aparentemente insignificantes, mas que passam sutilmente por você – porque para quem já enfrentou o inferno, o que é uma pequena garoa em direção ao céu?
Minha primeira lembrança de superação nesta vida recém-graduada que tento levar é de ser um garoto espinhento, revoltado e ostensivamente acima do peso para quem tinha apenas 12 anos, que contra a sua vontade concordou em ir até o banco que ficava há “mil quadras” de casa (porque quando se é jovem, tudo parece estar há “mil unidades de distância” da onde se precisa chegar) para pagar um boleto para sua mamãe querida que estava com os pés cansados. Mas como gratidão é algo inexistente até um certo grau de maturidade ser atingido, ela disse que eu poderia ficar com o troco da conta se eu fosse até lá pagá-la.
E é claro que ao chegar lá, haviam “mil” pessoas já aguardando na minha frente, na “quilométrica” fila de espera. E como se as coisas não pudessem pior ainda mais, diante da minha ótica juvenil de mundo (que, convenhamos, ainda não mudou tanto assim), a bateria do meu Nokia 3140 acabou e nem o jogo da cobrinha eu teria para passar o tempo.  A única alternativa que me restou foi... Existir. Em pé. Por quase três horas. Porque, segundo a lei que rege o universo e boa parte dos meus dramas existenciais, se existe a possibilidade de algo demorar para mim, então demorará no máximo permitido antes de atingir o “para sempre” – denominado pelo Vinicius como: “que seja eterno enquanto dure”. Porque é óbvio que eu não ficaria lá para sempre, mas esta definitivamente seria a sensação que eu teria pelo tempo que eu continuasse lá. Em pé.
Em outra ocasião (que pode ter sido tanto antes quanto depois disso, já que quando se tem 12 anos, esta parece ser uma idade que perdura até você adquirir mais alguns centímetros que te garantam um assento na mesa dos adultos nos almoços de domingo na casa da tia Judite), eu me lembro de ter sido submetido ao ritual mais lento e doloroso que qualquer criança espinhenta, revoltada e preguiçosa poderia contemplar: acordar cedo para ir à missa no domingo de manhã  - antes de partir para o almoço na casa da tia Judite, é claro.
Independente de raça, credo ou religião, quando se tem 12 anos tudo mais que não envolva desenhos animados, salgadinhos ou jogos de computador (caso você tenha sido uma das crianças pioneiras da era merthiolate-que-não-arde no começo dos anos 2000), todos as leituras, sermões e testemunhos parecem os mesmos quando se está diante de uma missa matinal – que parece durar bem mais do que uma hora e pouco menos do que “para sempre”.  E me lembro de ter insistido em conversar, me remexer constantemente no banco e cutucar meus parentes na esperança de que pudesse ser liberado para esperar o término daquela cerimônia sagrada sentado no carro no estacionamento escutando as 10 mais pedidas da Jovem Pan, até receber um conselho da minha tia (que não era a Judite):

- Igor, está vendo este folheto? Aqui tem todos os textos que serão lidos durante a missa. Sabia que ela passa mais rápido se você acompanhá-la? Se atravessá-la junto com todo mundo?

Atravessar. Este era o segredo de suportar situações difíceis, e agüentar momentos enfadonhos, fossem eles na fila do Itaú, no banco da igreja, ou no limite do seu relacionamento com alguém. As coisas ficam mais leves se você primeiramente aceitar que elas existem, e em seguida se determinar a ultrapassá-las com consciência de que elas irão terminar, desde que você se empenhe, participe, tome atitudes. Eu me lembro de aprender isso com 12 anos, e de nunca mais ter enxergado qualquer dificuldade sem me lembrar de ser espinhento, gordo e obrigado a suportar uma fila de banco por três horas – de pé. Foi difícil, foi horrível, foi insuportável – mas só passou quando eu comecei a prestar atenção nas pessoas que estavam na minha frente, no trabalho que o pessoal naqueles guichês estavam fazendo, e que eu não estava fazendo isto só por mim, mas para ajudar a mamãe que trabalhou o dia todo e não agüentava mais ficar de pé.
É claro que o meu instinto de auto-preservação – que, do latim, significa “piger”, ou, em português chulo, “preguiçoso” – automaticamente responde “não” mentalmente quando me pedem algo, assim como minha primeira reação diante de alguma dificuldade (que não necessariamente seja difícil, mas que me tire nem que seja um milímetro fora da minha zona de conforto) é de negá-la até conseguir com que eu não precise mais responder por ela. Mas isto não faz com que elas desapareçam; pelo contrário, elas me incham ainda mais de preguiça.
Eventualmente eu aprendi que grande parte da vida é obrigatória. Você precisa acordar cedo para ir trabalhar, levar guarda-chuva se achar que vai chover, passar no mercado para comprar mais presunto, lavar a louça que ficou suja desde que saiu de casa de manhã, dentre tantas outras coisas ao longo do dia até que você finalmente possa se entregar ao prazer inigualável e universal de se entregar ao nada absoluto e à inércia do mesmo, enquanto se afunda no sofá. Mas às vezes a vida parece pesada demais, os dias se saturam, a paciência enxuta e os insights esfriam, o que atrapalha muito em ter a noção de que é preciso existir durante o necessário e acompanhar os folhetos de missa por aí, sejam eles eternos enquanto durarem, se quisermos ser felizes.

E é por isso que eu advogo contra a velha teoria sobre momentos difíceis e as lições de vida que eles trazem. Vez por outra, não sobra tempo para estudá-los. Só depois que se olha para trás mesmo, com distância.

sábado, 4 de julho de 2015

A cidade e eu


Cascavel e eu nunca tivemos um relacionamento perfeito. Mas desde a primeira vez que a conheci, havia algo cativante em seu olhar. Algo que até hoje ainda me chama a atenção. Como se houvesse algo a ser descoberto, e a resposta estivesse em algum detalhe da linha do seu horizonte. Parecia ser algo tão afrodisíaco, tão cativante, tão chamativo... Tão cheia de possibilidades... Eu precisava saber mais sobre ela. Explorar seus limites, conhecer seus domínios, fazer parte do seu mundo. E alguns anos depois, foi exatamente isso que eu fiz: eu me mudei para cá.
Assim como qualquer relacionamento, a novidade acaba. O movimento cessa, o calor esfria e a monotonia se instala, dando lugar à insatisfação, a impaciência e a dúvida. Será que eu fiz a escolha certa ao deixar tudo para trás? Em abrir mão de tudo o que eu já havia conhecido, só pela chance de que pudesse haver algo a mais naquele novo horizonte? Eu não sabia dizer ao certo – só sabia que era tarde demais para voltar atrás. E foi assim que Cascavel e eu começamos a ter... Dificuldades.
Porque se tem uma coisa na qual Cascavel era boa, era sua capacidade de se tornar inacessível. Fria ao ponto de ultrapassar os limites de qualquer termômetro sensato, e da tolerância de qualquer turista desavisado. Muitas vezes era inesperada, mas das maneiras mais cruéis. Com rajadas fortes de vento e tempestades impiedosas. Era capaz de se mostrar instável sem qualquer razão ou aviso prévio – como se ela quisesse provar que nada poderia domá-la. Como se precisasse provar que era livre e independente, e que por mais atrativa que pudesse parecer, ela não seria de ninguém. Pelo contrário; era ela quem tomaria posse dos outros. As pessoas pertenciam a Cascavel, jamais o contrário. E logo eu, que vim de longe e supus que haveria um lugar especial guardado para mim, definitivamente não seria aquele que a faria mudar de idéia.
Cascavel me magoou muito. Mais vezes do que consigo lembrar, ela me deixou desamparado na chuva gelada, ou encolhido e abandonado em noites mornas. E quando mais eu me dispunha a sair por aí sem rumo, na esperança de encontrá-la, mais eu me sentia perdido. E nunca realmente fez sentido, como Cascavel podia parecer tão irresistível no começo, e tão inatingível no fim. Cascavel era selvagem, devassa, malévola e frívola, mas ainda capaz de me convencer a continuar tentando conquistá-la. Ou, ao menos, de me tornar alguma parte dela.
Só que ao mesmo tempo em que Cascavel era agitada e irredutível, ela também soube ser compreensiva. Porque mesmo quando estava me fazendo chorar, sofrer ou duvidar de que esta mudança ainda iria valer a pena, ela cessava por alguns instantes até que eu pudesse entender que, eventualmente, tudo o que ela estava fazendo não era em vão. Eu precisava mesmo apanhar para aprender algumas sérias lições de vida, e precisava ser largado sozinho pelos cantos para que eu pudesse entender exatamente o quanto valem mais as boas companhias, do que o eco das pessoas vãs. E pouco a pouco, ela me ensinou tudo aquilo que me diziam que ainda me faltava aprender sobre relacionamentos, companheirismo, amizade e amor. De um jeito bastante drástico e rude às vezes, mas sempre visando pelo melhor.
Foi ela quem me ensinou que dias ruins passam, e que eu iria adorar muito mais o amanhã.
E é por essas e muitas outras lições que eu sempre carregarei comigo, que eu finalmente fui capaz de tomar mais uma grande decisão: Cascavel sempre será um lugar muito especial para mim, mas não para sempre. Ela me ensinou que as coisas não acabam, mas mudam. E depois de tantos ciclos que se fecharam, e de infernos que superamos, e de momentos que compartilhamos, é justo afirmar que o que Cascavel e eu tivemos foi, sem dúvida, inesquecível. Pelo menos, para mim. E só o que eu posso esperar agora é que ela não se esqueça de mim também, e de tudo que eu inocentemente gosto de pensar que também fiz por ela ao longo dos anos.
Talvez não seja possível mudar uma cidade, então que seja válida a mudança que ela possa fazer por você.


Dedicado à cidade, e as pessoas que encontrei nela. Obrigado por tudo.

segunda-feira, 29 de junho de 2015

O aviso prévio


Nem tudo acaba.

Um dia eu ainda vou aprender, de uma vez por todas, que as coisas são menos definitivas do que eu acredito que elas sejam. Que os objetos na visão do retrovisor podem aparecer maiores e mais significantes do que eles realmente são. E que, incrivelmente, nem tudo acaba. As coisas só... Mudam.
E eu já tive tantas oportunidades de me permitir aprender isso. Mas parece que quanto mais algo está diante de mim, mais eu procuro por outra interpretação. No mínimo, este é alguém que não gosta de ser contrariado, dado que o que está em sua frente não lhe agradou muito e outro significado precisava ser encontrado. Ou, no máximo, este é alguém que não sabe deixar a vida ser... Simples. Leve. Flutuante.
O ano mal passou da metade, mas a quantidade de desfechos que eu já carrego comigo parecia ser demais para ser verdade. Claro que nem tudo são epitáfios; muita coisa também começou. Mesmo sendo conhecido por deixar coisas boas passarem reto por mim, outras acabaram ficando para tomar mais uma taça de vinho comigo. Descuidos momentâneos, em que a gente se esquece de se auto-sabotar por um instante, mas que acabam fazendo quase toda a diferença. Só não faz toda a diferença porque não foi proposital. Eventualmente na vida, talvez o segredo para ser feliz esteja mesmo em parar de tentar. Na melhor das hipóteses, é melhor isto do que admitir para nós mesmos de que estávamos insistindo em bater nas portas erradas, ou em nos apoiar nas pessoas erradas.
O que eu quero dizer com tudo isto, afinal? Bom, para começar, este tem sido o ano em que as minhas teorias foram se desgastando pouco a pouco, e as minhas verdades tornaram-se cada vez mais rarefeitas. A verdade é que eu nunca realmente soube que as coisas ficariam bem – só parecia algo reconfortante para repetir a mim mesmo, e para dizer aos outros quando estes também pareciam ter a sua fé se esvanecendo. E convenhamos: você acreditou, não foi?

Bom. Eu acreditei.

Para quem me conhece, a minha velha história já deve parecer tão cansada e repetitiva, ao ponto de não parecer mais tão inspiradora. O garoto que se mudou para outra cidade, foi morar sozinho, começou a trabalhar sem nenhuma experiência, e aos poucos aprendeu a salvar uma vida: a minha.
E apesar de não estar me sentindo estável o bastante, eu me descuidei e deixei a porta destrancada. E logo vieram outras pessoas, derrubando coisas no chão e tirando outras do lugar, falando alto e ocupando o meu espaço. E me mostrando cada vez mais que uma vida não vale muita coisa a não ser que seja compartilhada. Porque se não fosse por isto, não haveriam fotos no sofá, jantares ao redor da mesa, ou brindes na sacada.
Quando eu paro para pensar, ainda consigo me lembrar do medo. Da insegurança, da ansiedade.. De como tudo parecia novo e impossível, mas que seguir em frente ainda era mais do que necessário – e voltar atrás não era uma opção. E por anos esta foi a história que eu decidi escrever aqui, quando deixei a vida que eu conhecia para trás, para sair por aí e descobrir exatamente até onde mais eu poderia ir – e quem eu poderia me tornar através disso. E eu gosto de pensar que fui longe.

Por seis anos e mais de seiscentos textos sobre mudanças, amigos, família, saudade, medo, esperança, amor e tudo mais que me fizesse tirar um tempo para refletir e escrever sobre o quanto algo era importante para mim, eu me mantive no meu caminho. Cada capítulo foi como uma migalha que deixei ao longo da trilha, para que quando eu me sentisse perdido ou cansado demais, eu tivesse algo para me lembrar da onde eu estava vindo – e para onde eu queria ir. Encontrei muita gente por aí, e visitei mais lugares do que imaginava ser possível, mas eu ainda acredito que há um mundo muito maior lá fora que precisa ser explorado. E que eu preciso crescer muito mais do que eu pude até agora. E da última vez que senti isso... Eu fui embora e comecei de novo.

Algumas coisas acabam, outras mudam. Eu sou do segundo tipo.

Considere este o meu aviso prévio, Cascavel: eu estou indo embora. Mas antes de ir, tem algumas coisas que eu ainda gostaria de escrever para você...

Ainda faltam 28 dias.

quinta-feira, 18 de junho de 2015

Terminar é normal


ELA: Um dia eu vou morar aqui...
EU: Pff. Ah, vai...

E foi assim que começou.

***

Alguns anos depois, ela me disse que tinha uma entrevista para ir. Uma vaga de estágio imperdível, e que precisava de pouso. E é claro que ela podia ficar aqui; a entrevista era bem cedo, e pra quem pegava o ônibus de volta para outra cidade todas as noites após a faculdade, seria muito mais fácil já estar por aqui. E ela ficou.

***

Quando ela conseguiu aquela vaga, me mandou uma mensagem perguntando se poderia ficar aqui por alguns dias. Duas semanas no máximo, só até encontrar um apartamento. E por um momento eu senti um aperto: seria pedir demais da minha já demasiada zona de conforto. Um abuso da minha boa vontade, da minha privacidade preguiçosa, e da minha rotina solitária com a qual eu aprendi a lidar com o passar dos anos. Mas seriam só duas semanas, Igor. Que motivos você tem para dizer “não”, realmente?
É claro que você pode ficar aqui.

***

(Um mês depois)

ELA: Eu vou ao mercado.
EU: Tudo bem.
ELA: Você quer ir?
EU: An... Você quer que eu vá com você?
ELA: Não.
EU: Você quer que eu *queira* ir no mercado com você?
ELA: Não.
EU: Você quer que eu *queira* ir ao mercado com você, sem ter que perguntar se você quer que eu vá ao mercado com você?
ELA: Sim.
EU: Ah, ok. Vamos lá.

E foi tão natural, como se ela estivesse ali desde o começo.

***

Quando dois meses se passaram, eu me peguei pensando no quanto nós já havíamos brigado. Sobre ela deixar a porta do box do banheiro aberta – eu queria ela fechada. Sobre presunto e queijo – ou ela comia o meu quando acabavam, ou eu acaba comendo o dela escondido. Sobre ela nunca usar o porta-copos da mesinha de centro. Sobre a janela aberta no quarto dela sempre fazer com que a porta batesse. Sobre a louça suja. Sobre o chinelo espalhado pela casa – com cada pé em um canto diferente. Sobre marcas de tempero para carne e sabão em pó – que diferença isso fazia?!
Não estava sendo fácil dividir o mesmo espaço. Por outro lado, a casa nunca pareceu tão... Cheia. Melhor ainda; a casa nunca pareceu tão viva. E mesmo quando as coisas já pareciam estar acomodadas, eu resolvi formalizar:

EU: Por que você não fica aqui mesmo?
ELA: Eu quero ficar.

E ela ficou.

***

Com o passar dos dias, qualquer coisa que acontecesse entre nós servia de motivo para sentarmos na sacada e discutirmos sobre o quanto aquilo significava para nós. Fosse durante o dia, entre revezamentos de copos de tereré, ou à noite entre rodadas filosóficas de uísque. E ao olhar em retrospectiva, foram mais coisas que nos uniram para conversar, do que nós preferíamos guardar para nós mesmos. Nada passava batido por nós, e tudo poderia ser dito com sinceridade.
Era o tipo de compartilhamento livre e suave que eu jamais considerei ser possível. E o tipo de amizade que, por mais que houvessem outros colegas passando por nós, a sacada e o sofá da sala, não era algo que pudesse ser comparado. Porque era mais do que uma divisão de contas, ou um companheirismo informal. Era um compromisso a ser respeitado. Uma família a ser honrada.
E as vezes em que ela chegou em casa chorando, ou quando ela mesma me encontrava aos pedaços pela casa, encolhido no meu quarto ao som de qualquer fundo melodramático, com a porta entreaberta, ela sabia que podia se aproximar para ajudar. E quando eu batia na porta dela, ela já sabia que as notícias não eram boas. Dentre tantos outros rituais que nós aprendemos a criar e a obedecer, uma coisa era fundamental: nós sabíamos que sempre estaríamos ali um pelo outro, e tudo ficaria bem.

***

Ela nunca soube lidar bem com o fim das coisas. Eu, por outro lado, preferia nem dar chance para que qualquer coisa começasse. E por um bom tempo nós vivemos assim, em extremos, porém teimosos em convencer o outro de que era necessário mudar, crescer, viver. Mas nenhum dos dois estava realmente disposto a criar coragem para isso. As coisas estavam bem do jeito que estavam, e enquanto não estivesse muito frio para sentar na sacada lá fora, ou enquanto ainda fosse divertido juntar as visitas para nossa já famosa foto no sofá, nós sentiríamos que nada havia mudado.
Até que mais alguns dias se passaram. Que se tornaram anos, que nos empurraram para frente. Até nós descobrirmos que os nossos maiores medos precisavam ser enfrentados... As coisas precisavam terminar para dar espaço para novos rumos.

E foi assim que ela tomou a frente em tomar a coragem de dizer, finalmente, que terminar era mais do que normal: era necessário.

***

Talvez eu nunca saberei colocar em palavras tudo o que isto significou para mim. Afinal, você quis dividir o mesmo espaço comigo. Eu, que por muito tempo vivi sozinho e escondido do mundo, e me convenci de que isto poderia ser confortável o bastante para não me incomodar pelo fato de que é impossível ser feliz sozinho. Você me obrigou a fazer as refeições na mesa da cozinha, por onde eu estava mais acostumado a desviar do que me sentar para ter algum momento em família. Você sempre teve um filme, ou uma cena de algum seriado, ou uma música para te ajudar a explicar alguma lição que eu precisava aprender. E quando eu não aprendia, e me colocava a chorar, você foi curta e grossa comigo: sofreu porque quis. Você havia avisado, e era bom eu aprender de uma vez por todas que certas pessoas não valem a pena, que os meus valores precisavam ser conservados, e que não há nada de errado em dizer “não”, ou em desistir de causas verdadeiramente perdidas, ou de chorar um pouco por isso se for necessário. Mas só um pouco.
Você fazia o copo do tereré na medida que achava correta, enquanto confiava em mim para a tarefa mais simples de preparar o suco. E em troca eu confiava em você para servir o meu uísque, no limite exato para nos manter entre a filosofia e a ressaca do dia seguinte.
Você fez de tudo para que eu não desistisse de mim, mesmo quando eu achava que não havia mais forças para lutar. E quando realmente não houve, você me acolheu.
Ah, a ironia.

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Por anos eu repeti que o mundo não é mais um lugar romântico, mas que algumas pessoas ainda conseguem permanecer assim, e que cabe a elas uma promessa.
Eu sempre soube que você também era uma dessas pessoas. Senão o que mais explicaria os últimos dois anos e meio?
E aqui finalmente tenho a redenção de me ver livre do inefável: foi amor.


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ELA: Quem faz o brinde hoje?
EU: Eu faço. Um brinde a nós.
ELA: Saúde.

E foi assim que Joyce Camapum morou comigo por dois anos, seis meses e uma semana. Ela sempre soube, desde o começo, que isto aconteceria. E por ela, e tudo o que ela me trouxe, eu só posso dizer: muito obrigado.

terça-feira, 16 de junho de 2015

A zona de conforto


Existe uma diferença bastante suave entre estabilidade e estagnação. Tal diferença que eu só fui capaz de compreender mesmo quando finalmente me peguei preso entre as duas coisas – e me sentindo perdido ao mesmo tempo.
Eu entendo que as coisas acabam. Repeti isto incansavelmente até que todas as coisas, bom, acabaram de fato. E assisti os rostos pelos quais eu passava diariamente se dispersarem nas multidões do mundo afora, enquanto nossas lembranças se espatifaram no chão a medida em que cada um de nós decidiu trilhar um caminho diferente após o apocalipse de luz e fúria chamado de formatura pelo qual nós esperamos por tantos anos, e pagamos tantas parcelas de carnês, só para descobrir que estávamos mesmo mais desprevenidos do que poderíamos imaginar. Quanto a mim, a minha imaginação só conseguiu ir até a definição de qual música eu escolheria para tocar na minha entrada para a festa. Algo épico, grandioso, lendário. E, por conseqüência, definitivo.
Até aí eu já escrevi bastante. Eu saí por aí e fiz o que qualquer adulto é obrigado a fazer: forcei o limite da minha resiliência até encontrar bases o suficiente para que eu pudesse me sentir normal de novo. Mais do que normal: seguro. O que, eventualmente, tornou-se o ponto de equilíbrio entre o que você quer e o que você pode ter desta vida.
Mesmo sem perceber, eu sempre tive esta capacidade em mim de transformar matérias primas aparentemente dizimadas em patrimônios históricos. Ao empurrar um sofá velho ao encontro de um papel de parede que nunca me agradou muito, eu criei um cenário perfeito para os meus retratos de família. Ao teimar por querer ter duas cadeiras na sacada lá fora, eu fiz daquele pequeno espaço a céu aberto um grande santuário. E ao permitir que certas pessoas tomassem a liberdade de tratar a minha casa como se fosse delas mesmas, eu aprendi que mais valia a pena compartilhar uma vida do que escondê-la.
Claro que eu também tive a minha dose de descontentamento. As vezes em que eu chorei pelos cantos, ou que me peguei sentado no chão da cozinha, me perdendo no limite do vazio do apartamento e do eco da minha própria existência. Quando ainda não havia em quem me apoiar, ou para quem eu pudesse dizer tudo o que pairava em mim sem moldura ou sentido, e que por parecer não se encaixar em nada nem com ninguém, também acabava esparramado pelo chão junto comigo.
Durante a maior parte do tempo, eu não soube o que fazer. E por muitas noites eu tive medo. Medo, culpa e dúvidas. Será que eu fiz a escolha certa? Será que era preciso mesmo ir embora? E se eu tivesse ficado? E se eu voltasse? Alguém sabe me dizer? Não. Ninguém soube. Até porque, por muito tempo também, não houve mais ninguém. Ao entrar por aquela porta depois de mais um dia de trabalho, ela se mantinha trancada até o dia seguinte. Ninguém tinha chance.
Ouve-se falar muito sobre zonas de conforto. Ironicamente, as minhas sempre fizeram jus à bagunça que a própria expressão insinua. Meus pensamentos, sempre aleatórios. Minhas metáforas, sempre me cercando. Minha insegurança, sempre latejando. E o meu coração... Bom, por mais tempo do que eu deveria ter permitido, ele optou mais por escrever sobre o caminho trilhado, do que prestar atenção ao que estava adiante. Foi assim que muita gente passou batida, e muitas oportunidades foram jogadas ao vento. Meu Deus, como eu sentia medo até de ter medo. Adultos não poderiam se sentir assim... Podiam?
Enfim, chega a hora em que a gente aprende. Geralmente, são momentos em que a gente se permite não pensar só para variar um pouco, e decide pular sem olhar se existe algum apoio para nós lá embaixo. Eu fiz isso uma vez e foi aterrorizante – e demorou muito para que eu me sentisse capaz de levantar do chão frio da cozinha para enfrentar o mundo lá fora de novo. Mas eu fui – eventualmente – e tudo ficou bem. Cá entre nós, eu nunca soube se tudo ia mesmo ficar bem. Era só algo que eu gostava de repetir, porque eu precisava acreditar.
Sair de uma zona de conforto é assim: bagunçado e impiedoso. Abrir mão do conhecido para pular do abismo, sem rede de proteção. Da última vez que eu fiz isso, uma cidade inteira ficou para trás – assim como muitos rostos conhecidos e lembranças de ruas e avenidas pelas quais nós costumávamos passar. E é exatamente este o segredo: deixar passar. Construir, demolir, reconstruir. É o próprio fluxo natural da vida, mas por que é tão doloroso para nós admitir que as coisas são finitas. Que estabilidade é boa, mas que estagnar-se é o fim. Por muito tempo eu não me senti estável, ou seguro, ou acompanhado. Mas eu segui em frente, porque era o que fazia sentido. Era o normal a ser feito. Não era necessariamente o que eu queria fazer, e definitivamente não foi confortável. Mas eu fui, e deu no que deu: eu fiquei bem. As coisas não acabam; elas mudam. E eu nunca me senti tão vivo quanto aqueles dias, em que o amanhã parecia tão especial. Tão esperançoso. Tão cheio de... Possibilidades.

E é por isso que eu vou embora.  De novo.

sexta-feira, 12 de junho de 2015

A promessa


Para quem costuma se afeiçoar muito pelas metáforas flutuantes que encontro por aí, até mesmo quando não há nada para ser encontrado, eu sempre me pego desprevenido diante de um símbolo de verdade. Porque apesar de tudo o que há para ser disto sobre isto, no final do dia é isto o que esta aliança de namoro no meu dedo realmente significa. Um compromisso a ser zelado. Uma promessa a ser cumprida.
Talvez hoje não seja o melhor dia para discorrer sobre isto, mas os últimos dias também me pegaram de surpresa com tudo o que trouxeram – e, mais ainda, com as escolhas que eu me peguei fazendo. Por outro lado, talvez hoje seja mesmo mais um dia decisivo dentro da contagem regressiva que eu iniciei, mais uma vez. Três dias atrás, eu finalmente aceitei o que 2015 estava tentando me dizer desde, bom, 2014: está na hora de seguir em frente.
Mas quando tudo à minha volta estava terminando, eu encontrei você. Você e o seu sarcasmo revoltante. Você e as caixas de iogurte que me traz toda semana. Você e o seu mal humor durante aquela semana crítica do mês. Você e o seu desgosto por filmes de terror, música eletrônica e cerveja gelada. Você e os seus mistos quentes feitos na frigideira nas manhãs de domingo. Você e os seus cafunés. Você e os seus drinks feitos com vodka e energético. Você e os jantares que decide cozinhar até mesmo quando está tarde, ou quando faltam os ingredientes para fazer o seu próprio molho de tomate. Você e a sua taça de vinho, que eu sirvo sempre antes da minha, nas noites de inverno em que você se faz presente desde o fim do outono. Quando eu encontrei você e algo, entre as minhas ruínas, começou.
Não foi fácil ter que dizer à você que o que a gente tem é incrível, inesperado, imperdível, mas também impossível de ser protegido enquanto eu ainda estiver aqui, lutando contra as minhas próprias contingências. Eu preciso de impulso, de ar puro, de novas probabilidades para crescer e ser alguém um pouco melhor do que o cara que chega em casa todas as noites, estressado por conta do trabalho ou irritado porque as contas da casa irão durar mais do que o próprio mês que as trouxeram. Você merece um cara mais tranqüilo, menos grosso e mais determinado a evoluir ao ponto de que não seja mais necessário dividir as despesas no caixa do mercado. Você merece mimo, carinho, cuidado.
Você merece amor. E especialmente hoje, depois dos últimos dias que tive, é esta a promessa que eu lhe faço, completa com este compromisso enlaçado no meu dedo: nós vamos ficar bem.
Nós vamos continuar bem, porque o que faz um relacionamento funcionar não é o fato de que compartilhamos o mesmo CEP, mas o fato de que estamos juntos nisso. Com um compromisso a ser zelado, não importa o que aconteça. Talvez seja isto o que os meus amigos ficaram tentando me explicar por anos quando diziam que, “Um dia você vai saber como relacionamentos não são tão simples assim”. Eles tinham razão. As coisas ficaram complicadas, mas não impossíveis.
Antes de arrumar qualquer mala, eu deixei a promessa do nosso compromisso em suas mãos. E depois de quase três meses, algo inesperado aconteceu para mim mais uma vez: você decidiu seguir em frente comigo.  E eu não sei mais como te agradecer, a não ser por tentar honrar esta promessa com você.

Eu te amo. E Foz do Iguaçu é logo ali.