terça-feira, 27 de janeiro de 2015

A parada obrigatória


Foi em um daqueles Domingos tediosos e propícios para capinar no meu ócio criativo que a Gracyanne (nome fictício) deu a idéia de vir aqui em casa com uma proposta de preencher o nosso tempo e aliviar as nossas tensões... Através de uma partida de “jogo da vida”. Porque quem pode, pode, e quem é feliz tem mais é que aproveitar a vida, abraçar as oportunidades e levar sua existência aos limites do universo. E quem não pode, fica em casa disputando corridas fictícias em tabuleiros multicoloridos. Enfim, era o que tinha pra se fazer, salvo é claro... Banco Imobiliário.
   E rapidamente eu vi o meu tédio ser substituído pelo meu ócio criativo a medida que a cada espaço que eu andava, uma metáfora se apresentava: primeiro escolha um caminho para seguir, depois jogue no dado e reze para ter sorte de cair em um espaço que te leve a uma graduação em uma profissão que dê bastante dinheiro, opte por fazer ou não um seguro de vida, um seguro da casa, do carro e, inevitavelmente, case e tenha um determinado número de filhos no decorrer da partida – relacionamentos que, ao contrário da vida real, não envolvem afeto e que podem ser trocados por prêmios em dinheiro ao fim da partida. E só ressalto isso porque se pudesse ser recompensado pelos relacionamentos falidos que tive... Bom, digamos que eu não estaria tão afundado em preocupações e ansiedades. Mas também não haveria inspiração para escrever, então talvez nem tudo seja em vão.
   A Gracyanne deu a sorte de cair em no espaço da profissão mais bem assalariada – que eu me recuso a citar aqui; vide a minha pequena revolta inversa ao ato médico – e de logo se casar e encher seu carrinho com quatro filhos, carinhosamente chamados de “dois pinos rosas e dois pinos azuis”, porque é feio discriminar ou limitar as possibilidades dos nossos filhos. Tudo o que importa é que são pinos e que sejam sadios. E ao assegurar sua família, sua casa, seu carro, e depois de receber cada vez mais presentes de mim por ter se ajuntado e se reproduzido quatro vezes e de ter a sorte de se salvar das enchentes, de aumentos na taxa de mensalidade no clube de tênis e de percas astronômicas na bolsa de valores, não demorou muito para que a Gracyanne vencesse o jogo da vida ao atingir o status de milionária, e de ser contemplada com um pequeno lugar ao sol no fim do tabuleiro para curtir a sua confortável aposentadoria. E quando a mim? Bom, eu fali. Não sou eu quem procura as metáforas; elas é que sambam na minha cara sempre que podem.
   Tentando ser um bom esportista, foi camarada ao ajudar a Gracyanne a juntar as peças para guardar o jogo antes de abrir o portão para que ela fosse embora, para que eu pudesse curtir silenciosamente a minha revolta interior por ter perdido. E como todo obsessivo-compulsivo por competições perdidas, eu fiquei relembrando cada andança por aquele tabuleiro até chegar a uma conclusão mais confortável: por sorte ou por acaso, a Gracyanne foi definitivamente mais ágil do que eu ao ultrapassar os obstáculos e crescer no jogo da vida, enquanto eu ficava sendo retido por paradas obrigatórias ou espaços fatídicos que me mandavam “voltar duas casas” ou mais. Eventualmente eu esqueci o assunto e fui tratar de alguma outra coisa, desta vez envolvendo mais tédio do que ócio criativo para finalizar o meu Domingo.
   Algum tempo depois, Gracyanne arrumou um emprego. E se tornou importante, conhecida, renomada e até mesmo referência dentro do mercado de trabalho, tudo isso sem nem ter se formado ainda. E eu fiquei feliz por ela – fiquei mesmo. E já nem me lembrava mais da sua vitória fictícia porque estávamos ocupados demais comemorando suas conquistas de verdade, até            que foi em uma daquelas terças-feiras gordas e emperradas que eu me lembrei de outra metáfora; antes de ir embora naquele dia, a Gracyanne esqueceu as instruções do jogo aqui em casa. E o que eu entendi com isso: a Gracyanne não seguiu as regras, nem planejou sua trajetória pelo tabuleiro. Talvez nem sequer sabia para onde estava indo, até os espaços em que ela parava lhe diziam o que fazer. E foi assim que ela venceu naquele dia: com calma, paciência e cabeça fria. Despreocupada e, acima de tudo, se divertindo pelo caminho. E foi por fazer exatamente o contrário que eu fali naquele dia, e talvez ainda seja por isso que eu continue ansioso, preocupado e sem esposa e pinos azuis ou rosas.
   E então eu tive um insight que talvez seja o que mais me fez sentido até agora neste ano que mal começou mas que eu já considero muito: 2015 deve ser a minha parada obrigatória. O tempo que eu preciso tirar para pensar sobre aonde eu quero chegar, ou sobre qual caminho devo percorrer, se sequer quero ter pinos rosas ou azuis no meu carrinho e, mais importante que tudo, eu preciso parar de me preocupar tudo e voltar a me divertir. É. A minha primeira escolha para este ano foi decidir continuar em Cascavel. E agora, a minha segunda escolha é desacelerar a minha complicação e, quer saber?, depois de toda essa comoção de colação de grau e ansiedade por futuro profissional e ansiedades afins, eu vou tirar férias. Porque eu preciso parar e aqui e agora será o espaço para isso.
   Porque parar não significa retrocesso, a não ser que você seja obrigado a voltar algumas casas do jogo. Mas a vida não é um jogo e não há vencedores ou perdedores. Apenas casualidades e, por que não?, diversão.

domingo, 25 de janeiro de 2015

O novo normal


Seis anos atrás, eu saí de casa. E senti o que provavelmente foi a maior angústia que já havia tido até então; a de deixar o aconchego, as ruas conhecidas, as mesas de bares em que reunia os amigos, os almoços de Domingo, e todos os outros fragmentos que compunham a minha vida para trás, para começar de novo. Porque um ciclo havia terminado, e era hora de crescer. E é daí que nasceu o meu trauma de começos; porque não há nada mais difícil neste mundo do que ter que juntar amor o suficiente para recomeçar alguma coisa. Especialmente quando se considera que o ciclo que passou foi, no mínimo, inesquecível.
   Só que a vida, que talvez nada mais seja do que estas fases em que a gente se encontra, uma de cada vez, acabou por redefinir muitos dos meus conceitos. Sobre o que realmente torna algo inesquecível, por exemplo. Ou sobre quais eram os amigos de verdade. Ou então, sobre o que eu preciso para me sentir mesmo em casa. O problema é que agora, seis anos depois, o ciclo vicioso que eu chamo de vida parece ter voltado ao começo novamente. Vide a angústia, os suspiros profundos, e a inegável falta de nexo que as minhas palavras parecem nem se dar mais ao trabalho de tentar disfarçar. Porque eu estou perdido, como nunca me senti antes. Mais do que há seis anos, quando o mundo costumava ser um lugar menor e com bem menos pessoas. E quando eu estava brilhantemente contente na minha ignorância perante tudo isso. Saudades de ser ignorante daquele jeito, em vês de ser só tão grosso e egocêntrico como agora. Poderia ser alienado, desatento e avoado – adjetivos que eu costumava rejeitar por me considerar apenas um sonhador – mas era, definitivamente, mais fácil ser feliz naqueles dias.
   Escrevo isso porque estou com muita, mas muita saudade. Não daqueles dias, mas de alguém que eu costumava ser. Alguém que carregava consigo bem menos adjetivos para nomear seus devaneios, e que tinha uma facilidade invejável de sonhar alto. Alguém que fazia isso porque nunca havia de fato caído o suficiente para entender a profundidade do abismo entre zonas de conforto e castelos em nuvens. Alguém que complicava menos, trabalhava menos e que realmente parava para ver o sol se pôr. Alguém mais jovem, menos estressado, que nunca foi mesmo muito de sorrir em fotos ou coisa parecida, mas que não considerava isso uma metáfora para a sua felicidade. Na verdade, aquele alguém nem pensava em metáforas. Só pensava em ser feliz, e no quanto isso era algo simples de se conseguir. E eu sinto falta daquele cara; o cara que eu costumava ser antes de sair para desbravar o mundo real, de cair e se ralar inteiro, e que agora consegue dar um jeito em uma ressaca brava em questão de minutos e comprimidos de Engov, porque precisa que a sua dor de cabeça passe para conseguir ir trabalhar bem. Depois de uma noite de risadas e rodadas de chopp com os amigos que finalmente conseguiu reunir, porque estamos todos ocupados e atarefados demais.
   Nossos horários, bem como nossos corações, não são mais tão abertos ou flexíveis. Consideramos todas as variáveis antes de nos comprometer a algo ou alguém. E se sentirmos que não daremos conta, ou que não chegaremos a tempo, ou que não poderei amar você do jeito que você e eu merecemos em um relacionamento, então recusamos a oferta. Porque nós não temos mais tanto tempo a perder, e nem temos mais tanta energia para nos dispor a arriscar algo que não nos passe o mínimo de segurança. O que foi que aconteceu comigo nos últimos seis anos? Bom, eu cresci. E a cada passo adiante que dei na minha estrada, devo ter deixado cair alguns sonhos pelo caminho e só me dei conta disso agora que alcancei mais uma encruzilhada e coloquei as mãos nos bolsos para ver se encontraria algo para me ajudar a decidir para onde ir. E como se isso não bastasse, a bagagem que eu juntei está machucando demais as minhas costas.
   Eu sei que eu sou jovem. E que talvez passar uma tarde chuvosa de Domingo remexendo na bagunça do meu passado seja melodramático demais para quem tem só 23 anos e um resto de vida toda pela frente. Mas hoje é um aniversário, entende? O aniversário da maior mudança que eu já fiz na minha vida, até o fim dessa semana pelo menos. Porque tem uma colação de grau se aproximando; um cerimonial que deverá ser ensaiado e organizado, e que receberá muita gente de fora para presenciar o fim oficial de mais um ciclo. E, conseqüentemente, a continuidade da espiral de ansiedade em que eu ando descendo.
   Talvez seja só aquele negócio de crise dos 20 anos. Ou sobre o fato de que ter todas as possibilidades do mundo nas minhas mão seja algo monstruosamente assustador, considerando a ausência de um rumo para tomar. Ou talvez seja só ócio criativo mesmo. Coisas de tardes de Domingo chuvosas em casa. Eu não sei. O que eu sei é que, pelo menos por enquanto, eu não vou me sentir tão aconchegado aqui. Nada contra a cidade, porque depois de seis anos nosso relacionamento está começando a ficar sério; eu até decidir ficar aqui. Já é alguma coisa. Mas enquanto eu não encontrar uma moldura para esta vida pós-faculdade, o meu novo normal será sempre assim: ansioso, inquieto, preocupado. E não perca o seu tempo para me perguntar se está tudo bem. Não direi nem que sim nem que não, só te encaminharei para este post. Se estiver mesmo preocupado comigo, leia, pondere e me dê uma boa indicação de música para escrever outros textos. Porque de idéias, conselhos, sugestões e contatos para encaminhar o meu currículo, eu já estou cheio.
   O que eu queria mesmo era isso: parar para pensar sobre o que estes últimos seis anos significaram para mim. E para falar a verdade, foram incríveis. Os momentos bons ficaram na memória e os ruins serviram para inspiração. E por mais vezes do que eu esperava antes de chegar aqui, eu me diverti. Com mais pessoas do que eu também esperava conhecer. Então talvez eu fique mesmo bem.
   É... Eu vou ficar bem. Estou em casa.

quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

A atualização automática


O mundo dá voltas. Essa é a sua tragédia. As coisas mudam, quer você queira ou não. Quanto a mim, eu sou daqueles que reza, teoricamente, todas as noites por mudanças. Por uma vida nova. Por oportunidades imperdíveis. Por portas abertas. Por amores que durem. E, ironicamente, este que vos fala acorda de uma maneira totalmente diferente na manhã seguinte; sedento por aquela rotina no mesmo lugar, com a mesma hora, com o café pronto no trabalho de preferência. Porque é mais fácil se levantar da cama sabendo onde eu vou encontrar o meu café. E é uma facilidade igualmente proporcional ao beijo de boa noite da minha frustração, por mais um dia em um ciclo vicioso.
   Felizmente ou infelizmente, nem tudo na vida depende só de você. E os existencialistas que me perdoem, mas sou e sempre serei um discípulo de uma ordem que vai além dos vir-a-ser; a das contingências. Você age sobre o mundo, mas ele também age sobre você. É o caso das referências que você acaba transmitindo por aí, os cochichos que você inspira, e a reputação que fica nas suas pegadas. Você não necessariamente é o que é, mas o que pode ser dentro das suas limitações. Ou então, dentro da sua preguiça, que também é inerente a cada um de nós, só que em níveis diferentes de embaraço. Os mais acomodados não se movem; os ansiosos quase se devoram, começando pelas unhas e chegando até a mandar mensagens nervosas de madrugada para quem não devia.
   Naturalmente não foi a vida ou a rotina ou algum plano espiritual mais além que me inspirou a ponderar sobre o que fazer quando as suas contingências te obrigam a agir diferente. Não. Dessa vez foi algo mais simples, porém bastante desafiador. Foi um computador que faliu, e que levou consigo toda a minha possibilidade de vazão criativa com ele. Por duas semanas, três dias e oito horas, para ser mais exato. E que quando finalmente voltou, estava quase irreconhecível; estava rápido, limpo, quase novo só que pior; atualizado.
   Eu nunca gostei de notebooks. Ou de netbooks. Ou até mesmo de acessar qualquer página de internet pelo pequeno visor do meu celular. Sou o último dos moicanos da geração 2000, totalmente apaixonado por fios, estantes para computador, e pelo ritual de sentar-se frente a um monitor, um teclado, um mouse, todos ao lado de uma caixa preta barulhenta que lembra o som de um avião decolando. E é com essas peças que eu opero, crio, edito, trabalho, assisto, converso e o mais importante, escrevo. E aqui os existencialistas vão me perdoar, levando em conta todo aquele papo sobre subjetividade, autenticidade e, por que não?, o vir-a-continuar-a-ser semi-analógico. Porque funciona. Porque eu gosto. Porque é o que eu estou habituado.
   Mas não. Quis a vida, que às vezes se comporta como uma criança brigona no parquinho que sai empurrando aleatoriamente todos que encontra pela frente, que o meu material fosse mais do que reparado, mas atualizado. Confesso que enquanto meus amigos já carregam celulares que mais lembram aqueles modelos tijolos de outrora e microcomputadores de colo, eu ainda estava confortavelmente afundado em um Windows XP que, entre travadas e desligamentos espontâneos, ainda me trazia muita segurança. Com seus vídeos que não reproduziam bem em tela inteira, suas mensagens de erro ao iniciar e todas – repito, todas – as peças adicionais que requer para funcionar. Não havia nada embutido a não ser pelos seus vírus e suas falhas de sistema.
   E a essa altura você provavelmente já desvendou qual será a metáfora da vez; que o sistema falho era eu, e que manter-se analógico em um mundo digital seria o equivalente a continuar se agarrando ao passado com todas as forças dos meus bytes, enquanto todos os outros operantes ao meu redor se mantém automaticamente atualizados com as mudanças que a vida lhes trás. Acorda, Igor. Ou melhor, autorize as atualizações e reinicie. O mundo girou, a vida mudou e o Windows já nem trava mais quando inicia. Por que você ainda insiste em sentir falta dos bugs?
   No começo eu estranhei, tudo muito rápido e funcional. Ícones modernos, atalhos em lugares diferentes, comandos novos. Porque o novo pode ser bom, desde que você se permita testá-lo. E porque vez por outras, a vida muda quer você queira ou não. Nós também temos as nossas atualizações automáticas que surgem quando vamos dormir e reiniciamos para mais um dia. Nem sempre o café está pronto, mas a gente se obriga a pensar diferente. A ser mais otimista, talvez. Ou a simplesmente aceitar que o que tem pra hoje é só uma boa dose de adaptação e suco de laranja, que também não é de todo mal.
   Em breve mais uma atualização vai passar pelo meu sistema. Uma cerimônia de colação de grau é o que me divide do purgatório universitário e o mundo real agora, e está acertada e agendada no calendário. Foi-se o tempo dos sistemas XP, idas espontâneas ao bar do outro lado da rua, e de ver os mesmos colegas todos os dias passando pelos mesmos corredores. Coisas que pareciam não passar de meros conceitos vagos de uma nova etapa que estavam por vir, agora dão mais medo do que motivos para ir ao bar mais uma vez para aproveitar aqueles últimos dias. Mais cedo ou mais tarde, a vida te atualiza. E você pode aceitar isso, Igor, ou adiar por mais um tempo. Só que nada dura para sempre, especialmente sem causar alguns erros de desempenho pelo caminho. Erros que podem ser mais caros do que o concerto do computador.
   Talvez teria sido mais vantajoso comprar um notebook, mas ainda não...

terça-feira, 20 de janeiro de 2015

A velocidade máxima


Talvez um dia eu aprenda que nada do que a gente faz tem a ver com velocidade. Não, senhor. Tem a ver com qualidade, com garra, com perseverança e, nesses casos, com a distância que você percorre. E eu já deveria saber disso, se não fosse por algo chamado “ego”. E por algo que esse negócio chamado “ego” é levado, chamado “competição”.
   Uma das minhas metas para 2015 foi aprender a correr. Mas correr mesmo; deixando celular desligado em casa, música no volume máximo nos ouvidos, e nada além de uma longa pista a ser percorrida ao alcance dos meus olhos. E assim eu fui, dia após dia, semana após semana, mês após mês. Até que dois meses e seis quilos a menos depois, eu consegui começar a vislumbrar que estava começando a chegar a algum lugar. E talvez qualquer outra pessoa no meu lugar ficaria feliz com isso. Mas eu não, é claro. Eu achei pouco. E eu achei que poderia chegar mais longe. E é exatamente esse o problema que eu carrego comigo ultimamente, a medida em que ultrapasso as distâncias demarcadas no chão da pista em que me obrigo a superar a cada dia um pouco mais de metragem para conseguir dormir mais sossegado. Ou, no mínimo, mais acabado.
   Só que isso não é jeito de se levar a vida. Nem de longe, por mais longe que você consiga chegar. Porque a verdade irritante é que sempre haverá alguém mais perto de tocar o pôr-do-sol do que você. Alguém que acordou mais cedo, ou que saiu antes de casa, ou que simplesmente está correndo há mais tempo que você nesta pista curvilínia e repleta de obstáculos chamada “vida”. Ou apenas na mesma pista em que você tenta correr nos seus fins de tarde nas proximidades do seu barro. Enfim, permanece a metáfora.
   A questão é que não importa o quanto você corra enquanto você não tiver uma direção a seguir. Para mim parecia fácil sair aleatóriamente em direção ao pôr-do-sol na esperança de deixar alguns quilos para trás e, quem sabe, alguns problemas também. E por mais que se torne mais fácil abandoanr algumas calorias para trás assim, nossos problemas são um pouco mais insistentes ao nos alcançarem na corrida. Porque tem certas coisas das quais você não pode fugir; especialmente as que fazem mais parte de você do que você gostaria de admitir. Como essa necessidade incessante de estar sempre à frente dos outros, ou de ser o primeiro a cruzar a linha de chegada e a sediar o pódio da vitória. Como se isso significasse alguma coisa além de uma competição oficial. Como se na vida entregassem troféus para o primeiro colocado. E não é bem assim que funciona.
   Às vezes o primeiro colocado chegou até ali por sorte, ou por conveniência, ou talvez até mesmo por determinação. Mas nada é tão regrado ao ponto de definir alguém como “vencedor” somente porque chegou primeiro, ou simplesmente porque chegou. As variáveis para isso são infinitas, e vez por outras nem tem tanto a ver com mérito. São sequelas de um mundo imperfeito, ou apenas de uma corrida maluca da qual todos nós fazemos parte, mas sobre a qual nenhum de nós realmente pode vencer sob os outros.
E quem sabe um dia eu aprenda que a vida não tem nada a ver com velocidade, mas sim com paciência. Com determinação e vontade, sim. Mas acima de tudo, com paciência. Com saber manter o ritmo, e saber aonde se quer chegar. E quantas vezes eu já não me peguei tirando fôlego do meu limite para ultrapassar alguém que cruzou o meu caminho, só porque ele apareceu na minha frente. E depois de ultrapassar, aonde eu parei? Apenas alguns passos à frente, pouco antes de ser deixado para trás de novo. Isso é a vida. Esse ciclo de curvas, desvios e obstáculos no qual estamos todos tentando sobreviver. E não adianta querer ser o que corre mais, ou o que chega primeiro ao pódio, porque cada um é cada um, e a sua meta não é a mesma que a minha.
   Talvez eu só queira chegar um pouco mais longe, ou quem sabe um dia eu finalmente perceba que estou feliz exatamente aonde estou. Eu ainda não sei, mas confesso que parte de mim sente que nasceu para correr, e somente agora está se dando conta do que isso realmente significa. Mas apesar da velocidade, coloque isso na sua cabeça, Igor: corra, mas não se esconda. Acelere, mas não fuga. Ultrapasse, mas não se perca. Eventualmente tudo o que for para ser seu, vai encontrar o caminho para chegar até você. Isto é, se você não estiver distraído e passar reto por aquela oportunidade. Não há nada de errado em aproveitar o caminho a ser trilhado. Muito menos, a aproveitá-lo em um ritmo que seja confortável para você, não para tentar se manter com quem passa correndo por você já sem fôlego e sem rumo.
   Eu nasci para correr. Só me falta saber para onde ir.

segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

Os primeiros dias

   
   Eu odeio começos. E sim, é com esta atitude que eu estou adentrando o ano de 2015. Mas calma, não é puro exagero, impaciência ou desesperança da minha parte. Eu vou explicar, e para isso eu vou ter que partir do começo. Infelizmente.
   Eu passei o ano de 2014 inteiro escrevendo sobre como tudo acaba, ironicamente sem nunca parar para pensar sobre o que o fim das coisas realmente significa. Sobre como o fim da faculdade automaticamente acarretaria em uma nova rotina a ser construída; uma vida pós-aulas todas as noites, provas todos os bimestres e idas ao bar sempre que a sede fosse grande e a vontade de estudar sobre higienismo fosse pequena. E sobre como esta nova rotina, por sua vez, contemplava todas as possibilidades do mundo que estivessem ao meu alcance. E, em contrapartida, nenhuma delas também, visto que já estamos em Janeiro e eu preciso confessar que não, eu ainda não tenho um plano. E é isto o que me mantém acordado à noite, e inquieto durante o dia, e impaciente quanto aos começos que me cercam. O começo de uma carreira profissional, ou quem sabe de uma pós-graduação, ou até mesmo de um mestrado ou um intercâmbio para clarear as ideias. Eu não sei o que fazer, ok?! Eu. Não. Sei.
   Eu apreciei a graça de receber uma mensagem de ano novo me desejando algo simples: um caminho para ser trilhado, e que eu pudesse tirar reflexões dele para continuar seguindo em frente. Simples em teoria, porque o único caminho que eu consigo trilhar ultimamente é o das minhas corridas diárias pelas avenidas da cidade, em busca de mais reflexões e menos quilos. E para falar a verdade tem sido bastante esclarecedor, exceto quando os carros ou os outros corredores não me obrigam a interromper o ritmo para dar a preferência. E é claro que eu vejo isso como uma metáfora de vida escancarada só para me sacanear enquanto eu tento fugir das minhas inseguranças: não adianta correr, Igor, porque algo sempre vai aparecer para te lembrar que não basta partir em disparada somente em rumo ao pôr-do-sol. Você precisa de um caminho que vá além dele.
   Muitos começos nas minhas mãos ainda me deixam cabisbaixo pelos fins que colecionei ao longo de 2014. Muitas conquistas, muito aprendizado, muitas lembranças e risadas sim, mas tudo entre despedidas e desapegos. Talvez 2015 deva ser um ano de transição; de mudanças reais, ao contrário das promessas bêbadas que considerei verbalizar durante a queima de fogos no ano novo, mas que felizmente acabei guardando para mim porque sabia que não estavam partindo de mim, mas de um número excessivo de taças de espumante. Eu também ainda não sei dar um sentido para isso, até porque ainda estamos nos fatídicos primeiros dias. Dias de acomodação pós-festas, de idas e vindas nas estradas, de parentes e férias coletivas, e de rabiscos mentais sobre o que fazer com esse 2015 que mal chegou, mas que já considero demais.
   Eu acredito que os primeiros dias de qualquer coisa são cruciais. São o que nos definem. São o que dão o tom para os projetos que tentamos colocar em prática, as experiências para as quais nos abrimos, e os relacionamentos para os quais decidimos dar uma chance. Mas entenda que eu considero os primeiros dias como momentos definitivos porque, no final das contas, são eles quem ficam marcados na memória. O primeiro dia naquele emprego. A primeira vez entrando naquela sala de aula. A primeira noite naquele apartamento. A primeira mensagem que eu recebi de você. Talvez seja uma sensação que nasça e morra comigo, mas eu sempre considerei o meu desgosto pelos começos tão proporcional à ironia dos fins. Porque, por exemplo, quando você se foi, tudo o que eu consegui pensar foi a noite em que você surgiu na minha vida, e as conversas sem fim que compartilhamos ao longo dos primeiros dias. Talvez eu não goste de começos pelo tamanho das possibilidades que eles trazem. Ter todos os sonhos do mundo ao meu alcance me parece mais intimidador de que excitante de se imaginar. Bem vindo ao resto da sua vida, Igor; o que você vai fazer com ela? Aponte para uma direção e reme. Encontre um caminho e corra. Tome uma decisão e aceite-a. Meu Deus. Eu não sei.
   O que eu sei, por exemplo, é a falta que você me faz. A cada vestido estampado que eu vejo na rua. Cada vez que eu escuto aquela música. E sempre que eu encontro uma foto sua perdida entre tantas outras no meu celular. Quando eu penso que havia deletado todas, você reaparece para me lembrar de que o que nós compartilhamos foi mais duradouro do que o modo de exibição dos meus arquivos, e que se eu me afundar um pouco mais na barra de rolagem, eu ainda vou me deparar com o seu sorriso. Aquele sorriso sincero e cheio de promessas que você me deu naqueles primeiros dias.
   Eu preciso de um plano, um rumo, uma direção. Um caminho a seguir, para dar um pouco mais de forma a essa essência tão estranha e surreal que 2015 parece ter para mim por enquanto. E que eu sinto que só vai aumentar depois da colação de grau, da formatura, e das respostas dos e-mails que andei enviando por aí com o meu currículo anexado neles. E eu acredito que vou encontrar uma saída desse labirinto, seja andando com calma pela linha tênue que ainda percorro entre acadêmico e profissional, ou correndo afobado em direção ao fim das avenidas da cidade em busca do pôr-do-sol. Afinal de contas eu cheguei até aqui, não é? Eu acredito que toda essa ansiedade seja normal, aceitável até. É uma vida que recomeça, nos primeiros dias de um ano novo.
   Eu vou achar um caminho, e eu vou ficar bem. Esta é uma promessa da qual eu não abro mão.