terça-feira, 31 de março de 2015

À procura da estabilidade


Talvez seja porque eu peguei essa mania do meu pai, que tem o espírito de administrador desde que eu o conheço por gente e não só por progenitor. Eu me lembro bem daqueles rituais burocráticos a cada fim de mês, pouco antes de fechar a loja e apagar todas as luzes, quando ele se colocava a postos para imprimir bobinas inteiras de relatórios antes de conceder aquele determinado mês encerrado, e para dar início a um novo período de vendas. E eu me lembro de sofrer lenta e dolorosamente durante esse ritual, porque nunca realmente parei para pensar no porquê de todo aquele cuidado, e daqueles relatórios. Até que eventualmente, ao longo de um novo mês, ele dava um jeito de me contar que estávamos crescendo – em porcentual é claro, porque a curva da evolução da minha maturidade emocional para mim sempre parecerá equivalente aos batimentos cardíacos de um sujeito em coma: constante, porém arrítmico.
   E foi pensando nisso que eu saí do trabalho hoje; sobre como aquele nosso ritual a cada fim de mês já não existe mais, mas que isso não necessariamente me impede de tirar um extrato mental do crescimento em percentual que a minha vida tem demonstrado. Porque a exatamente uma postagem de blog atrás, eu estava reclamando sobre o quanto eu não havia planejando a minha vida até o dia seguinte à minha formatura. Eu simplesmente não sabia o que iria acontecer ou o que seria de mim, e o quanto eu senti mais frustração por mim mesmo do que medo pelo futuro. Eu deveria ter alguma carta na manga, ou algum plano B, não deveria? Meu pai provavelmente teria, o que só faz da ironia nisto ainda mais agridoce.
   Mas pensando sobre os altos e baixos que eu já tive neste ano que eu mal conheci mas já considero “pacas”, eu percebo o quanto fazer planos é invariavelmente infame. Do que adiantou ter sonhos um dia, se eles acabaram mudando? De que serviu imaginar o que eu faria em determinadas situações, se eu me pego agindo mais maleável à mudanças do que eu sequer considerei que seria capaz um dia? Talvez esse seja o segredo das vendas, bem como o da vida em si: pare de imaginar que as coisas serão do jeito que você imaginou que elas seriam. Porque os relatórios do meu pai, embora feitos de maneira minuciosa, sempre continham suas sequelas de estornos e margens de erro. E com a minha vida não tem sido diferente.
   Tudo o que o meu pai queria era estudar aqueles relatórios e descobrir que as coisas estavam melhorando. Que a sua procura por estabilidade estava cada vez mais perto de acabar, para que ele finalmente pudesse relaxar e deixar de lado seus percentuais de vendas e sua calculadora científica que eu jamais aprendi como funciona. Mas não foi assim que a nossa vida se desenrolou. Pelo contrário; talvez a nossa felicidade estivesse escondida nas pequenas anotações de rodapé de todos aqueles extratos. Porque nem a loja nem os relatórios mensais existem mais, mas nós continuamos aqui. Vivendo, aprendendo, crescendo e multiplicando nossos ganhos.

   E então eu percebi que a minha procura por estabilidade ainda não está nem sequer perto de terminar, e o quanto isso é algo realmente bom. Porque eu nunca precisei depender de relatórios para saber o quanto eu estava crescendo, e o quanto a minha felicidade sinceramente depende das margens de erro das escolhas que eu faço. Foi assim que eu cheguei até aqui, e é assim que eu sigo em frente.

segunda-feira, 9 de março de 2015

A seleção natural


Quer saber? Eu vou dizer: eu não planejei a minha vida até aqui. Mesmo com uma noção incomensuravelmente incorreta de que as “melhores pessoas do mundo” sempre tem noção dos seus planos e dão cada passo adiante como um estratégico jogador de xadrez, eu ainda assim levo os meus dias com o mesmo desequilíbrio de um malabarista bêbado. Eu também vou admitir que ao menos a parte bêbada foi e continua sendo intencional.
Mas o medo – sabe o medo? – que me dá de não saber no que tudo isso vai dar, já passou dos limites. E aí você me joga frases-feitas para tentar remediar a minha ansiedade como se eu já não tivesse escutado todas elas antes: “a vida não é uma competição!”, “ninguém realmente sabe o que está fazendo!”, “carpe diem!”. Não adianta, viu amiguinho? Eu poderia decorar paredes, muralhas e até hemisférios inteiros com as coisas que eu teoricamente sei e praticamente me esquivo. Claro que não é intencional; é quase instintivo. Como um ímpeto de sobrevivência só que, bom, bêbado.
Os últimos meses tem sido como uma espiral de insanidade e desordem, não importa quantas vezes eu imediatamente lave, seque e guarde a louça após o almoço. Nada vai aquietar o caos que fez da minha vida o seu resort particular. “Eu também sinto isso!” – dane-se. Estamos falando de mim, ok? E vá buscar outra cerveja.
Eu imagino que se a vida não fosse mesmo a corrida maluca que eu alucino que seja, por que então estaríamos perpetuando ciclos de seleção natural desde que saímos do oceano, sacudimos nossas caudas até se desprenderem da nossa nova forma, para nos encontramos nervosos e impacientes em entrevistas de emprego por aí? É assim que a nossa espécie se reproduz, inclusive: entre todos os encontros, ligações e mensagens bêbadas (rá!) mandadas sem pensar de madrugada, você elege um destinatário em especial para compartilhar o resto da sua desordem perpétua. Estamos constantemente inseridos em processos seletivos – seja na posição de recrutamento, ou de seleção.
E parece que a cada novo dia, o prazo está se esgotando. A contagem regressiva diminui mais um algarismo do meu tempo, e adiciona mais uma pilha aos meus nervos. E aí você me pergunta: “que prazo?!”. E eu te digo o seguinte: só porque eu não sei aonde eu quero chegar, não significa que eu não quero chegar logo.
Não importa o que me aconteça, eu jamais pareço conseguir driblar os meus instintos. Começando por admitir que eles existem, foi dada a largada para a competição mais alucinante, tempestuosa, árdua e cansativa que existe. Chama-se “o que eu quero para mim desta vida”, e talvez isso realmente não tenha nada a ver com mais ninguém. Sou eu, aliado a mim mesmo, contra mim – entende? E você pode torcer, vibrar, comemorar ou ignorar os raros fogos de artifício e os constantes resmungues embriagados que partem daqui. Uma coisa é certa: eu estou aprendendo a valorizar cada vez mais as minhas escolhas. E talvez isso seja o que chamam, enfim, de evolução.

PS. Sim, eu estou ansioso pela formatura. E pelo open bar.