segunda-feira, 20 de abril de 2015

O próximo mês


Nunca subestime o potencial de um novo dia. Porque nunca se sabe o que ele irá trazer, ou quem ele poderá colocar no seu caminho. Quanto a mim, eu sempre acreditei que iria encontrar você. Era só uma questão de “quando”. Mas quando eu me peguei repetindo velhos hábitos com as pessoas erradas em todos os lugares estranhos possíveis, um pouco da minha crença se partiu. A verdade é que eu estava perdido há muito tempo. E os sonhos que eu imaginava que fossem apenas uma questão de “quando”, passaram a ser mera suposições. E que, se eu encontrasse você, seria ótimo. E se eu não encontrasse, isso infelizmente também faria sentido.
   Cada dia é como uma roleta russa: você acorda cedo, sai para trabalhar, atravessa mil pessoas e anda cem quilômetros por todas as direções possíveis, até eventualmente encontrar o seu caminho de volta para casa. E seja lá o que aconteça nesse interlúdio, pode ser caracterizado como uma feliz casualidade ou uma trágica experiência a ser registrada na memória. Nunca se sabe. E é assim que a nossa fé é testada, dia após dia, ano após ano, pelo tempo que esta nossa vida durar.
   Mas em alguns casos, por sorte ou acidente, os dias se esquecem de que deveriam ser jornadas árduas e aparentemente sem fim às vezes, e colocam no nosso caminho artefatos tão valiosos que nos fazem pensar sobre como vivemos até então sem eles. Como a sacada onde costumamos sentar para olhar as estrelas, onde costumava ser apenas o mirante da minha solidão. Ou o chopp gelado daquele bar, onde eu levei você no nosso primeiro encontro. Ou como o cappuccino ilustrado com chantily daquele café, onde eu pedi você em namoro.
   Enfim, há vezes em que os dias dão uma pausa em todo o drama e inquietação que parecem nos mover através do calendário, e nos pegamos celebrando aniversários em vês de só sentir saudades do que já passou, ou do que nunca tivemos. E foi em um dia desses que, no final das contas, foi você quem me encontrou. Quando eu menos esperava, mas quanto mais eu precisava. Acho que a vida tem mesmo dessas coisas.

   E eu não sei por quanto tempo você ainda vai continuar aguentando a mim e as desventuras em série que a minha vida traz a cada novo dia. Só espero que você não pare.

quinta-feira, 9 de abril de 2015

O mundo real


É oficial: eu agora vivo em um mundo pós-formatura. Logo irá completar um mês desde que as faxineiras daquele salão de festas varreram todo o confete, o glitter e a despreocupação universitária até o caminho do lixo. Curiosamente, também completará um mês desde que eu vi algumas pessoas. Pessoas com as quais compartilhei alguns bons anos que agora se configuram a encontros momentâneos na rua por aí, ou através de mensagens no whatsapp do tipo, “Precisamos combinar alguma coisa!” E precisamos mesmo! Já faz algum tempo que a gente não se vê. Mas o trabalho, e a correria, e os compromissos, e o cansaço, e o sono acumulado, e eu preciso passar no banco antes de ir para o escritório amanhã, e não posso me esquecer de pagar as contas em dia, de ir ao mercado, de cortar o cabelo, de lavar a louça, daquela proposta que deixei na minha mesa...
   E lá se foi um mês.
   E não reclame, Igor, porque apesar dos pesares esta é a vida que você ficou repetindo que tanto queria por muito tempo. E talvez seja mesmo isso o que torne ela tão inquietante: ela é real. Não é tão assustadora como eu imaginei que seria; ter a vida de um adulto um dia, com seus afazeres razoavelmente em dia e com as olheiras nos joelhos. Mas parece que tudo passou tão rápido... Não foi ontem mesmo que a gente costumava se reunir aqui em casa para reclamar sobre o quanto é chato ter que estudar para provas, e que bom seria se a gente pudesse ir direto daqui para o bar? Meu sono está bastante atrasado, por isso tenho certeza de que não adormeci e perdi a parte em que essas reclamações ficaram para trás, para dar lugar a outros momentos definitivos. Como hoje mesmo, quando estava voltando para casa do trabalho, peregrinando pacientemente pela rua, e acidentalmente me virei para o lado da cidade aonde o sol se põe... E me peguei parado, pensando em quando foi a última vez que me lembrei de olhar para o por do sol. Provavelmente antes dos meus dias se tornarem mais úteis e comerciais, e menos ociosos e filosóficos.
   Mas eu não estou reclamando. Juro! Quando me perguntam se estou feliz, digo o que consegue ser a resposta mais próxima do otimismo, considerando o meu desprezo por ser indagado sobre estar ou não “tudo bem” comigo:

- Você está feliz?
- Olha... Eu não estou triste. O que já quer dizer muita coisa.

   Só fui pego desprevenido. É isso. Quando vi, já faz quase um mês que aquele grande dia chegou e já passou, e em seguida vieram outros um pouco menos especiais e bem mais cansativos. Ando bastante cansado, e com uma nova e mais valiosa apreciação sobre as sextas-feiras. Tudo isso faz parte da dor e da delícia de continuar querendo ser quem eu sou, agora solto e registrado em carteira no mundo real. E eu sinto falta de muita coisa que ficou para trás: as risadas na mesa do bar, a leveza do entardecer, a ingratidão por cada por do sol. Apesar de tudo, ainda é bom saber que a correria e o cansaço do dia a dia não extinguiram em mim a constante capacidade de enxergar poesia e metáforas onde parece haver apenas sono e fadiga. Eventualmente a gente se acostuma e pega o jeito de lidar com esse universo pós-graduação, e até daremos um jeito de nos reunirmos em algum bar novo, mas por enquanto talvez seja necessário aceitar que as coisas não vão ser mais do jeito que eu quero por algum tempo – serão do jeito que poderão ser. E que, pra falar a verdade, isto não é o fim do mundo.
   É só o começo.

***


   Até as postagens se tornaram mais raras, mas é só até eu pegar o jeito de descrever bem este bravo novo mundo que me cerca. Felizmente, eu não estou sozinho.