terça-feira, 31 de janeiro de 2017

Chuvas de verão

Janeiro é um mês estranho. É o prólogo de um ano novo enfim em prática, e ao mesmo tempo o período em que absolutamente nada parece acontecer. Entre os recessos legislativos e a crença popular de que o país só volta mesmo a colocar seus protocolos em dia após o Carnaval, só nos resta a decadência das nossas resoluções sobre emagrecer, o tédio existencial e as chuvas de verão. E se você me perguntar qual desses é o pior, sem dúvida são as chuvas.

Hoje mesmo, durante aquela longa estrada da vida entre a saída do trabalho e a tradicional parada no mercado para descobrir qual refeição congelada me aquecerá no jantar, ela caiu. Nem forte o suficiente para que abrir um guarda-chuva se faça coerente – se você por acaso estiver com um – nem fraca o bastante para te poupar de parecer encharcado e triste para outros membros motorizados da sociedade que passam por você nos cruzamentos. E como pouca desgraça não existe, uma música triste tocava nos meus fones de ouvido que não podiam ser guardados sem arriscar estragá-los com a umidade.

Geralmente não me incomoda ser a personificação de um clipe musical melancólico, mas tudo tem hora. Olhando para o horizonte enquanto tento me distrair em um ônibus lotado que parece nunca chegar ao meu ponto: sim. Voltando para casa após o trabalho, cheio de sacolas, com uma mochila nas costas e sem possibilidade de permanecer sério ou seco: não.

Mas as chuvas vem e não perdoam ninguém. Nem se importam em substituir a clareza de um céu ensolarado por cinqüenta tons de cinza. Na forma de nuvens desengonçadas que derrubaram uma mini-tempestade na minha cabeça pela duração exata de quarteirões que faltavam para que eu chegasse em casa. Parece que é sempre assim: a gente pisa dentro de casa e a tempestade cessa. Irônico, não?

***

Janeiro, com seu marasmo e suas frivolidades, também demonstrou ser uma verdadeira provação desta vez. Há algo de diferente em 2017. Isto eu já posso afirmar com certeza. Agora se será bom ou ruim, ainda é cedo pra dizer. Mas é diferente. Pode ser o tipo de ano a ser lembrado pelo número de calamidades que trouxe, ou pelos caminhos tortuosos que me fez percorrer até enfim sobreviver e brindar pelo fim de dezembro. E digo isso porque, cá entre nós, os relógios não estão marcando apenas o último dia do mês mais chato do calendário. Esta é uma bela linha de chegada que precisa ser refletida. Ou, no mínimo, sentida. O que já é pedir demais da minha parte, se quiser saber.

E é claro que você quer saber. É por isso que estamos aqui.

Durante os primeiros dias do ano eu sofri mais estresse, ansiedade, dores de cabeça, arrependimentos e dúvidas do que em qualquer momento da minha vida que eu consiga me lembrar. Vi pessoas que considero menos profissionais e definitivamente menos merecedoras do que eu, conquistarem seu espaço em posições bem mais promissoras do que a minha atual aparenta ser. Enquanto tive que fazer o possível e o impossível para dar conta de recados pelos quais fui o único que restou para atender. E eu estou cansado. Não do trabalho, mas da fadiga. E da insustentável sensação de que quanto mais eu pareço produzir, contribuir, ajudar e responder às demandas que surgem, mais invisível eu me torno.

Sim, é um desabafo. E eu mereço isso, especialmente aqui e agora.

Nas últimas semanas passei por medos que sequer imaginava que existiam em mim. Afinal quem é que tem tempo de lembrar que somos meros mortais no meio da correria do dia a dia? Você pensa que tudo pode acabar num piscar de olhos, enquanto tenta relembrar todas as pendências que precisa resolver quando chega no escritório de manhã? Claro que não. E talvez nem deveria, senão como iria viver? Mas foram os tipos de medos que, depois que surgem uma vez, não te abandonam mais.

Eu nunca fui do tipo que tem medo de hospitais. Por todas as vezes em que visitei algum, sempre imaginei que eu ficaria bem. Ou pior: que o mundo ficaria bem, independente do que pudesse acontecer. Mas o medo se formou da maneira mais inesperada: eu não me importo comigo mesmo tanto assim, apesar de admitir que é o meu egocentrismo que me tira da cama todas as manhãs. Eu me amo e às minhas neuroses, mas não tanto quanto amo as minhas pessoas. E a idéia de que algumas delas poderiam ter partido...

Eu não sei como terminar essa frase.

***

A questão é que eu estou cansado. E se eu puder ser sincero aqui, na falta de um ombro amigo por perto para me dizer que tudo ficará bem enquanto pede para o garçom trazer mais uma rodada, eu não estou dando conta. E para quem tem uma noção distorcida sobre pedir ajuda ser o mesmo que “admitir derrota”, e um pavor absoluto de fazer isso, considere bem essas palavras. Por favor: eu não estou dando conta. E estou comemorando o fim de Janeiro como se significasse algo mais do que isso. Como se 2017 já estivesse terminando, sem nem saber o que ele realmente pôde ser para mim. E foi neste turbilhão de pensamentos que assombravam a minha mente enquanto eu caminhava pela rua, ao som de uma música triste, a chuva caiu. E me humilhou na frente de todo mundo que parecia ter adivinhado que o tempo ia fechar, e que se preveniu em sair de casa com um guarda-chuva.

Eu só queria voltar para casa e me sentir seguro.

E não me diga que é apenas ironia, depois de pisar dentro de casa e pingar por ela toda, parar para ver lá fora e descobrir que o sol voltou. Porque é assim que as chuvas de verão funcionam: elas surgem sem aviso, criam um transtorno e se dissipam com a mesma facilidade com a qual fecharam o céu em primeiro lugar.

Janeiro foi a minha chuva de verão. Ao menos é isso que eu espero. Assim como espero me tornar uma pessoa mais humilde, sensata e equilibrada quando meu mau humor e meu medo também se tornarem rarefeitos. Mas por hoje e por um bom tempo ainda, eu continuarei sendo o Igor. E sendo o Igor que sou, farei o que faço de melhor: vou brindar a mim mesmo e às minhas neuroses, ao som de uma música triste, enquanto assisto o pôr-do-sol.

Amanhã é outro dia, de outro mês, com uma série de novos problemas para serem resolvidos. Felizmente, eu já estou em casa.

sábado, 21 de janeiro de 2017

A crise dos sete meses


Relacionamentos duradouros não são o meu forte. De nenhuma natureza. Foi a essa conclusão que eu cheguei, depois de passar um tempo considerável pensando sobre porque algumas coisas na minha vida, ironicamente, não duraram um tempo considerável.

O emprego mais longo que já tive, por escolha e não circunstância, durou exatos seis meses e meio. E me lembro disso porque a esta altura, eu contava cada dia em que estava naquele escritório. Em uma moda similar a dos presidiários que somam os dias da sua pena com risquinhos desenhados em uma parede da cela. Até enfim decidir me libertar, mas dentro dos parâmetros do capitalismo. A diferença entre cidadãos livres e presidiários está em como chamam essa tal liberdade. Cidadãos chamam de aviso prévio. Aos condenados, a condicional.

O namoro mais longo que já tive chegou à marca exata dos seis meses. Não me lembro ao certo qual foi o momento em que percebi que o amor acabou – se houve amor – e que estava na hora de ser sincero sobre isso. Teve lágrimas, muita mágoa e descontentamento por uns meses, mas não houve arrependimento. As pessoas acham que não se leva amor em conta quando decidimos abrir mão de alguém. Eu discordo. Acho que é aí que descobrimos exatamente o quanto nos importamos, e o quanto queremos que ela seja feliz. Admitindo, primeiramente, que isso não será possível ao meu lado.

***

Ainda sobre as estatísticas que já acumulei nos meus 25 anos:

- 10 apartamentos
- 9 grupos de WhatsApp (que não posso abandonar)
- 8 porres históricos
- 7 redes sociais
- 6 empregos
- 5 gatos
- 4 cidades
- 3 relacionamentos sérios
- 2 convites para padrinho de casamento
- 1 acidente quase fatal

***

Ao pesquisar sobre algum motivo que explique toda essa inquietação, encontrei algumas das referências mais constantes da minha vida: psicologia e filmes antigos. Em 1955, Marilyn Monroe estreou o clássico instantâneo “The Seven Year Itch” (traduzido livremente como “a crise dos sete anos”, e renomeado brasileiramente como “O Pecado Mora Ao Lado”), onde faz o papel de uma mulher que atrai a atenção do seu vizinho, que vem passando por uma crise conjugal.

O filme explora as nuances da vida a dois e sua inevitável sensação de estagnação, abrindo brecha para que o homem considere ter um caso com sua vizinha para quebrar a rotina do seu casamento morno. Adaptado de uma peça mais antiga ainda, o texto usa pesquisas psicológicas sobre como o descontentamento com relacionamentos longos tende a atingir o seu ápice durante o 7º ano de duração – seja com uma parceira, um emprego ou uma mudança que aos poucos vai perdendo seu caráter de novidade.

Eu não assisti ao filme e nem preciso. Vivo um drama similar diariamente que, ao julgar pelas evidências, vem se repetindo há anos. Mas no meu caso, as crises vem a cada semestre. Tenho uma inquietação incessante em mim que vai desde o quanto me mexo na cama até finalmente pegar no sono – ao ponto de conseguir a proeza de acordar até sem o lençol de elástico que estava debaixo de mim – até as escolhas de vida que faço. Os cursos que optei estudar, as mulheres com quem me envolvi, os trabalhos que aceitei com uma animação que parecia que nunca ia me abandonar. Não foi da noite pro dia, mas o entusiasmo tornou-se tão rarefeito quanto as minhas certezas sobre quem eu sou e o que estou fazendo aqui.

Não tenho arrependimentos, mas tenho dúvidas. Não sobre o que ficou para trás, mas sobre o que virá adiante...

Felizmente, a inquietação que me abate é sempre a mesma que me salva. Eu não assisti ao filme, mas li trechos da peça que encontrei na internet. E como eu sei que você também não assistiu o filme, nem irá ler nada a respeito, permita-me contar como termina:

SPOILER ALERT!
.
.
.
.
.
.
.
A crise passa. O homem não trai. O casamento se mantém. A vida continua.

E essa é o melhor final que poderia haver para essa história. Talvez relacionamentos longos não sejam a minha especialidade, mas se há um pelo qual sempre estive perdidamente, irracionalmente e inevitavelmente comprometido, é aquele que mantenho comigo mesmo. E se nós somos a única constante verdadeira nesta vida, faça um favor a si mesmo: não viva de um jeito só.

Mude, mas não esqueça quem você é.

sábado, 14 de janeiro de 2017

O monstro de olhos verdes


Shakespeare me entenderia. Mesmo depois de 400 anos desde a sua morte, o legado dramatúrgico que deixou para a humanidade nos persegue até hoje. Foi feliz ao comparar um dos sentimentos mais antigos do mundo com aquele de um gato que brinca com sua presa antes de devorá-la. Não porque está com dificuldades em prendê-la, mas por esporte. Zombando-a com seus olhos verdes e insensatos, pois sabe que toda a sua liberdade e agilidade não foram páreos para a sua astúcia. Talvez não haja melhor definição de inveja como esta.

Se a vida for mesmo a competição constante que eu imagino que seja, as alternativas são definitivas: haverá vencedores e haverá perdedores. E enquanto aos vencedores serão entregues os espólios, os perdedores devem assistir com amargura em seus olhos e uma dolorida salva de palmas que reverbera em seus egos feridos. Não há nada mais dolorido do que admitir que você não é a melhor pessoa do mundo. E eu sei bem: faço isso todos os dias.

Antes que você me julgue ou saia em uma missão de socorro pelo meu orgulho infame, aceite primeiramente que estou aqui tentando admitir uma dificuldade. Shakespeare compara a inveja a um monstro de olhos verdes, fazendo alusão da cor com aquela da muda de uma planta que ainda tem muito para crescer. Uma clara metáfora sobre imaturidade. Então, é: eu sei que está na hora de amadurecer.

Não há nada mais sensível em mim do que o meu ego. Palavras mal ditas e interpretações mal feitas já serviram de catalisadores para meu abandono de certas pessoas, lugares e hábitos que colocavam meu orgulho em risco. Estar certo a todo custo, mesmo que a única alternativa que restasse fosse a autodestruição de relacionamentos. Admitir derrota nunca foi uma opção.

Entende agora quando digo que sou um monstro?

***

Mas parte do amadurecimento vem com a aceitação de que, por incrível que pareça, ninguém está certo o tempo todo. E por mais que a vida não seja uma competição, ainda há quem ganhe sem merecer e há quem perca por falta de mérito. Ninguém disse que faz sentido, mas as regras do mundo real não existem para favorecer o seu conforto. Elas só... São. E você pode ficar emburrado no canto de um quarto escuro, chorando em posição fetal, ou pode tentar dormir e acordar para tentar mais uma vez no dia seguinte.

De todos os meus pecados, a inveja definitivamente não é minha favorita. E embora não seja possível perceber, estou me movimentando para melhorar. São esforços microscópicos – eu confesso – mas é o que posso oferecer no momento. E não são para você – são por mim. Mas eu ainda chego lá!

Não me agrada ser alguém com um instinto assassino que cobiça as conquistas alheias, ou as julga como injustas quando acontecem com pessoas fora do meu círculo de confiança. Mas e daí? Isto não irá impedi-las de acontecer, e o pior: pode impedir de que aconteça comigo também.

***

Pare de me olhar assim! É um defeito, eu sei. Assim como todos os outros na minha coleção, que deve ter muito em comum com a sua. A diferença é que esta é uma admissão pública de culpa para que, quem sabe, da próxima vez eu saiba agir com mais maturidade perante as vitórias alheias. Eu ainda gosto de pensar que sou uma pessoa justa – mesmo que a minha bússola ética me aponte para direções distorcidas e maquiavélicas. Mas nem sempre sei lidar da melhor maneira com alguns acontecimentos ao meu redor. Com relacionamentos que não se materializam, promoções que não são ofertadas, e esforços que não são reconhecidos...

Provavelmente deve haver olhos verdes cuidando dos meus movimentos também. Admirando as oportunidades que já tive na vida, e se contorcendo pelo meu descaso perante elas. Eu só não os percebi porque estava ocupado demais tentando proteger o meu ego dos absurdos ao meu redor – especialmente dos que eu mesmo digo e faço.

Eu costumava pensar ainda que isto era bom: ser autêntico na minha malevolência. Ser sincero na minha grosseria. Ser verdadeiro perante os meus desgostos. Mas acho que esta é só a melhor maneira de se tornar cego diante da felicidade: desacreditando as dos outros, até negar a sua própria.

É a vida como ela é, na sua mais pura essência. O problema é que estamos acostumados a sermos o gato, em vez da presa capturada pelos olhos verdes. E se isso for mesmo uma competição, acho que eu finalmente aprendi minha lição: não há como vencer. Vale mais a pena bater palmas sinceras pela vitória alheia, do que morrer engasgado no próprio orgulho ao ser o segundo a cruzar a linha de chegada.

Shakespeare me entenderia. Não concordaria, mas entenderia...

terça-feira, 10 de janeiro de 2017

Vida em marte?

Um ano atrás, David Bowie morreu. Uma lenda do mundo da música que eu só tive o prazer de descobrir poucos meses antes do fatídico dia do seu falecimento. Isto porque eu estava ocupado demais, lidando com um fatídico dia meu. Vários deles, aliás, desde a mudança para Foz do Iguaçu. Enquanto ainda não conhecia ninguém pela cidade, nem sabia como percorrê-la direito, fiz o que qualquer pessoa sensata faria: comecei a criar memórias por aí, por mais singelas que fossem. Todos temos que começar de algum lugar, não é mesmo? E no meu caso, foi com uma música.

Gostaria de dizer que foi algo mais épico, dramático e inesquecível para ter uma aventura extraordinária para revelar aqui, mas não. Eu só andava por aí escutando “Life On Mars?” com meus fones de ouvido ligados no volume máximo. Porque era assim que eu me sentia por aqui – em um admirável mundo novo. Mas sem uma noção sequer de como poderia sobreviver aqui, apesar de ter tantos planos em mente. Os mesmos planos que, há um ano, chegaram bem perto de se desfazerem por completo.

Algumas pessoas que conheci posteriormente não sabem dessa parte da história, mas houve um breve período que pensei que minha expedição em Marte terminaria mais cedo do que o esperado. E mesmo sem conhecer nada nem ninguém, eu ainda não estava pronto para ir embora. Mas aconteceu que eu não fui. Apesar dos pesares, eu consegui ficar. E em questão de mais alguns dias, eu conheci pessoas que me ajudaram a continuar. E um pouco mais adiante no caminho, eu realizei o sonho que tanto buscava por aqui. Com menos de um semestre de bagagem, e uma atitude mais sarcástica do que o necessário, eu passei a trabalhar como jornalista.

Enfim, Marte estava viva e bem.

***

Um ano depois, as notícias do mundo colocam em pauta homenagens para prestarem a David Bowie. Quanto a mim, estive contemplando mais uma vez a possibilidade de ir embora. Não por escolha, mas por circunstância. E durante os dias que abalaram o meu mundo de novo, a mesma canção ecoava pela minha mente. Com uma distinta diferença: sem o ponto de interrogação.

Existe vida em Foz do Iguaçu sim, e eu não estou pronto para deixá-la.

***

Há quem diga que David partiu deste mundo cedo demais. Ainda havia muito para conquistar, mesmo depois de tudo que já havia realizado. Apesar de todos os títulos, recordes e fãs que reuniu ao longo da vida, seu potencial parecia inesgotável. Sua capacidade de tornar-se uma lenda viva não parecia surpreender – só parecia coerente. Mas ele partiu, e o mundo invariavelmente reassumiu seu ponto de interrogação.        

Existe vida em marte, mas por quanto tempo?

É por isso que quero tentar fazer diferente agora. Não por alguma resolução de fim de ano que prometi a mim mesmo enquanto estava bêbado de champanhe e cerveja barata durante as primeiras horas de 2017, mas por mim. Por tudo que fiz para chegar até aqui, e para que nada do que ficou para trás seja em vão, porque não foi. Não é. Isto tem que valer a pena, porque foi caro, foi cansativo e mais vezes do que deveria, eu pensei em desistir. Mas não o fiz e aqui estamos. E não pretendo esperar o dia da minha despedida para descobrir que estava protagonizando o show mais famoso do mundo: a minha vida.

Pensei que não teria metas para este ano, por mais que “não ter metas” ainda possa ser considerado uma. Mas tenho uma missão a cumprir, por mim mesmo, durante o tempo que ainda me resta por aqui. Posso ficar por mais alguns anos, ou posso partir amanhã. Seja como for, este é o meu manifesto: não deixar pontos de interrogação.

Por David, por mim e pelas pessoas que estão comigo: o show tem que continuar.

sábado, 7 de janeiro de 2017

O dia que não terminou


Então... Onde eu estava?

Ah, sim: Cascavel, Paraná. Um ano e meio atrás.

Muita coisa mudou desde então. Na última vez em que escrevi aqui, eu estava prestes a receber meus amigos em casa para a nossa festa de despedida do meu apartamento. O lar onde morei por cinco anos, onde amadureci mais do que gostaria de admitir que havia sido possível, e onde vivenciei alguns dos momentos mais marcantes da minha vida. Foi o lugar em que eu mais chorei pelas vitórias e derrotas com as quais me deparei por aí, por mérito próprio. Depois de inúmeras entrevistas de emprego, dias ruins no escritório, problemas de relacionamentos, discussões com amigos por bobeiras e desentendimentos... E tudo mais que servisse de catalisador para me motivar a me sentar em uma das cadeiras da sacada por horas e horas, com alguma bebida em uma mão, e o por do sol refletindo nos meus olhos.

Mas aquela noite. Ah, aquela noite... Essa sim foi inesquecível. Amigos que conheci durante meus anos em Cascavel se reuniram em casa para uma última festa. A despedida de todas as fotos que tiramos sentados no sofá com aquele papel de parede que eu sempre odiei ao fundo, mas que sempre foi essencial para eternizarmos os nossos momentos em família. O adeus a todos os jantares que compartilhamos naquela mesa da cozinha, com uma das partes do tampão quebrada devido a um incidente envolvendo uma panela com carvão de arguile que foi esquecida em cima do vidro, o que sempre nos obrigava a sentarmos consideravelmente perto uns dos outros se quiséssemos que todos coubessem ali. E por fim, uma última visão da sacada do apartamento, onde fomos do céu ao inferno, e do inferno ao céu inúmeras vezes ao ponto de considerar aquele pequeno espaço que parece ter sido especialmente criado para dois – alguém que precisasse conversar e alguém para ouvir – como um verdadeiro santuário.

Eu fui feliz em Cascavel. Claro que fui. E ainda sou, todas as vezes que volto para visitar. Mas o motivo da minha partida parecia ser bem claro para mim. Apesar das pessoas incríveis com quem eu tinha a sorte de dividir a minha vida, a vida em particular que estava sendo dividida não era a que eu queria. Era só a que eu consegui ter, entre trancos e barrancos ao longo do tempo. Entre dificuldades e oportunidades que agarrei por falta de coragem de ir atrás dos meus sonhos de verdade. E quando eu finalmente criei a coragem, descobri que precisaria abrir mão desta vida – e da proximidade de todos que já haviam me ajudado a chegar até ali. Algo que já não parecia mais tão impensável para mim.

Afinal de contas, eu já havia feito isso antes. Anos atrás, em uma escolha parecida, que me levou de Londrina para Cascavel em primeiro lugar.

O que eu quero dizer com tudo isso é que – pasme – as coisas mudam. As coisas e as pessoas. Mas pelo que parece, a única constante parece ser os sonhos que construímos para nós mesmos. No meu caso, foi o sonho de ser jornalista que me levou a mudar de cidade para cidade, até enfim encontrar a primeira oportunidade de tornar este sonho uma realidade. Eu só não sabia que iria parar aqui, no calor de Foz do Iguaçu, me sentindo mais sensato do que pensei que poderia ser. E cá entre nós: sensatez é chata.

Mas foi no meio da minha lucidez que reencontrei a esperança que vivia em mim. A esperança que me trouxe até aqui, na forma de uma filosofia que repeti por anos para me ajudar a continuar seguindo adiante. Dentre tantas crenças que carreguei comigo – como a noção de que não importava o que acontecesse, nós ficaríamos bem – esta foi a primeira e talvez a mais importante de todas. Durante os dias que pareciam intermináveis e as noites em que só fui capaz de pegar no sono depois de muito choro por saudade, era isso que eu repetia para mim mesmo: você vai adorar o amanhã, Igor.

E é por isso que estamos de volta, escrevendo por aqui. A vida me trouxe mais longe do que eu esperava, e me deixou mais diferente do que eu consigo reconhecer às vezes. Eu não gosto de ser a pessoa inquieta, estressada e ranzinza na qual me tornei de uns tempos pra cá. Mais do que nunca agora, eu preciso de esperança para me manter feliz. O segredo para não se tornar insatisfeito com seus próprios sonhos, está em aprender a equilibrar-se neles quando os alcança. E quando um dia de trabalho for difícil, ou um relacionamento relevar ser menos importante para a outra pessoa do que para mim, eu quero que haja algo no qual possa me apoiar quando deitar minha cabeça no travesseiro à noite.

Os dias em que saí de casa, de Londrina e de Cascavel, são momentos que revivo a cada dificuldade que enfrento, cada desilusão que encontro e cada vitória que conquisto. É um lembrete constante de tudo que abri mão para ir atrás do que pensava que queria, e é por isso que eles devem valer a pena. Nada foi em vão, e jamais será.

“O mundo não é mais um lugar romântico. Algumas pessoas, no entanto, ainda são, e a elas cabe uma promessa. Não deixe o mundo vencer.”

Para você que ainda não conhecia esta parte da história, siga adiante comigo.

Nós ficaremos bem.