quarta-feira, 31 de maio de 2017

Relacionamentos imaginários IV


Apesar de todos os obstáculos, toda a correria e cansaço do dia a dia, de tentar lembrar do que precisa comprar quando passar no mercado à caminho de volta para casa, depois de duas provas complicadas que seus professores resolveram juntar em uma mesma noite para apressar o fim do semestre letivo, de conseguir retornar as treze chamadas da sua mãe no seu celular que você não pôde atender antes porque não escutou o toque devido ao barulho do trânsito, você finalmente alcança a cama da onde saiu para enfrentar o resto do mundo pela manhã e pára pra suspirar em alívio. E então você recebe aquela mensagem, que faz com que tudo de apressado e desgastante ao redor dela simplesmente desapareça. Porque aquele é o momento pelo qual você esperou o dia todo. O momento em que vocês pudessem estar juntos de novo, mesmo separados. Particularmente falando, eu acho isso incrível. O fato de que, mesmo depois da maratona que corremos ao longo das horas comerciais, das grades curriculares e dos afazeres domésticos que parecem estar sempre atrasados, as pessoas ainda conseguem se encontrar. E se gostar. E disporem de alguns minutos a mais na cama, deitadas apenas ao som do toque do celular a cada nova mensagem daquela pessoa. É a realidade dos relacionamentos modernos, e é algo pelo qual eu sou simplesmente apaixonado.

Mas pelos motivos errados. Ou melhor, pelos relacionamentos errados.

***

Dia desses eu estava conversando com alguém sobre relacionamentos. E ouvi me contarem sobre como se conheceram, as mensagens que estavam trocando, os encontros que tiveram, as discussões que já surgiram, as complicações envolvendo horários, ex-namoradas, ciúmes, ansiedade, insegurança, medo de deixar que alguém chegasse perto demais para causar mais algum estrago permanente... E sobre como apesar de tudo isto, ainda havia uma chance de que aquilo poderia se tornar algo sério. E foi algo que não me comoveu muito, visto que já ouvi e vivenciei em primeira mão tantas outras histórias que pareceram terminar antes de realmente começar, ou então foram rarefazendo-se a medida que a paixão esfriava e a rotina retomava o espaço que todo aquele furor havia ocupado. Enfim, tudo aquilo se resumiu a um simples diálogo:

- Acho que pode ser ela, mas não tenho certeza. É que na verdade...
- Namorar é chato. É isso que você está tentando dizer, não é?
- É. Exatamente. Mas o começo é tão bom! Quando se está conhecendo a pessoa, descobrindo pouco a pouco quem ela é, do que ela gosta, o que sente sobre você...
- Sim. A antecipação é legal. O problema é quando o prólogo termina e o interlúdio toma conta. A rotina, a calma, a despreocupação. Você nunca realmente recupera aquela emoção a cada nova mensagem que ela te manda. Depois de um tempo você percebe que pode esperar para vê-la. Que não precisa respondê-la naquele exato segundo, caso contrário todo o amor que vocês já construíram estará em perigo de extinção.
- E por que será que isso acontece?
- Eu não sei. Já reparou como a véspera de Natal é muito mais aproveitada do que o próprio dia de Natal? E como a verdadeira festa acontece na véspera do Ano Novo? E para o primeiro de Janeiro fica a bagunça, as sobras e a preguiça. O namoro é um primeiro de Janeiro sobre o qual ninguém se atreve a reclamar. Afinal o ano só começou e há tanto pela frente. Mas que ano será esse que começou com base em latinhas de cerveja amassadas pelo chão e pernil requentado?
- Talvez o segredo seja esse mesmo. A antecipação. A promessa. O que está por vir parece sempre mais interessante do que há aqui agora. Enquanto forem apenas duas pessoas distantes, trocando mensagens e compartilhando vidas separadas, as coisas parecem mais emocionantes. Mas quando as mensagens de madrugada viram lembretes do tipo “Você vai passar por algum mercado à tarde? Acabou o leite!” ou “Não estou afim de ir no churrasco do seu amigo hoje, inventa uma desculpa!” no meio da tarde... Sei lá. Amor parece mais interessante quando está à distância. Perto demais, disponível demais, parece comodidade. Tipo Netflix ou ar-condicionado: é muito bom, mas em excesso pode causar dores de cabeça.

***

- Ultimamente ela não me responde mais direito.
- Como assim?
- Bom, no começo éramos instantâneos. Narrando cada minuto do dia como se cada atividade fosse algo imperdível. E com fotos, ainda por cima, para nos sentirmos mais próximos, eu acho. Anexos constantes de rótulos de garrafas e flashes do pôr-do-sol. E as mensagens de voz à noite. Ah... A voz cansada dela, já com a cabeça no travesseiro, era tudo o que eu precisava ouvir para dormir bem. Isso e o “boa noite” dela.
- E agora?
- Agora é isto. Mensagens enviadas, recebidas e ignoradas com sucesso. Me sinto um refém desses malditos riscos azuis do WhatsApp. Se ela leu, por que não responde?!
- Eu não sei, cara.
- Esses dias mesmo, ela disse também que poderia ser eu. Que estava gostando cada vez mais e mais. E agora isso. Não sabia que me importava tanto assim.
- É, a gente nunca sabe. Até o momento em que se torna indisponível. Independente se um dia a pessoa realmente esteve disponível para nós. Nunca se sabe. Quem vê status de WhatsApp não vê coração.
- Eu não estou brincando, Igor.
- Eu sei! Com quem acha que está falando? Lembra da...
- Ah, é. Sim. Desculpe. Já faz quanto tempo que não se falam?
- Tempo suficiente para te dizer com certeza que deveríamos passar menos tempo em relacionamentos imaginários, e mais tempo vivendo a nossa vida. Mesmo que seja por nós mesmos, sem “bom dia” nem “boa noite”.
- Ainda sente falta dela?
- Toda manhã e toda noite.

***

Eu continuo fascinado por relacionamentos. Pelo cuidado com o qual escrevo aquelas primeiras mensagens e pelo encantamento que sinto pelas que recebo de volta. Tudo é apaixonante no começo quando não há vidas realmente envolvidas; apenas dois IPs distantes à procura de uma nova conexão. Mas depois de uma série de primeiros encontros e últimas palavras trocadas, de músicas que perderam sua melodia em troca da lembrança de alguém que talvez nem pense mais em mim, e de uma lista de contatos no celular cheia de vidas inteiras que poderiam ter sido e não foram, tudo o que eu espero agora é que uma das promessas que já fiz por aí se cumpra. Que alguém me prove que o nosso prólogo valeu a pena ser escrito e que a nossa história está só começando. Alguém que não me faça sentir desconectado quando estiver online sem mim.

Enquanto isso chega de promessas vazias, interlúdios interrompidos e relacionamentos imaginários. Já faz algum tempo que carrego comigo a seguinte mensagem: “O mundo não é mais um lugar romântico. Algumas pessoas, no entanto, ainda são. E a elas cabe uma promessa: não deixe o mundo vencer.” É algo que ainda carrego comigo, mas algumas promessas podem se tornar muito pesadas caso você esteja sozinho para levá-las adiante. Alguns relacionamentos podem parecer mais importantes do que realmente são. Cabe a você decidir por quem vale a pena perder o seu sono e para quem vale a pena desejar um bom dia.

Quanto a mim, hoje eu durmo muito melhor com o celular desligado. E ele funciona bem melhor depois que deletei aquele aplicativo que vivia dizendo que não havia ninguém perto de mim. Como se eu não soubesse.


PS. A quem interessar possa:

terça-feira, 30 de maio de 2017

Personalidades no limite


Uma das primeiras coisas que me chamou a atenção desde a primeira vez que visitei Foz do Iguaçu foram as placas de trânsito pela cidade escritas em inglês. Por algum motivo eu achei incrível a ideia de morar em um lugar onde até mesmo o trânsito possui caráter internacional. E como algumas pessoas já me disseram, é possível encontrar gente de todos os lugares possíveis por aqui. Como os turistas americanos que sempre me param na rua para perguntar aonde fica o terminal central, ou a vez em que liderei uma família japonesa ridiculamente entusiasmada até uma churrascaria por não conseguir simplesmente lhes informar que era só seguir em frente mais algumas quadras da onde estavam. Enfim, são coisas que eu imagino que só devem acontecer por aqui.

Entre o Brasil e a Argentina existe uma que sinaliza o “trânsito fronteiriço” que se forma nas aduanas, pouco antes da ponte Tancredo Neves até o caos que se instala próximo a entrada para o Duty Free em Puerto Iguazú – e é uma expressão que nunca parei para conceber antes. Mas trocando em miúdos, é assim que Foz do Iguaçu talvez possa ser definida: um trânsito fronteiriço entre o Brasil e o resto da América do Sul. Claro que também é possível cruzar a fronteira pelo Rio Grande do Sul, mas não me parece ter o mesmo status que a travessia Iguaçuense. Para mim existe algo mais tradicional em Foz do Iguaçu, mas as memórias tem mesmo essa propensão de serem supervalorizadas pelo afeto que associamos a elas. Isso, e o fato de que as minhas referências gaúchas se resumem a chocolate, vinho, e um frio absurdo.

Enfim, entre travessias e vistorias pela alfândega, parte da minha mudança para Foz do Iguaçu – assim como a maioria das minhas decisões na vida – foi por afeto. Aquelas placas que diziam que a Argentina fica à esquerda, o Paraguai à direita e o centro da cidade seguindo reto passavam mesmo uma impressão de que existe um mundo maior do que eu podia imaginar até então. Maior do que Londrina, Cascavel ou qualquer outro projeto que eu pudesse ter que sempre parecia se limitar a um só município nacional. Não que a minha ambição esteja mirando em metas que vão além do rio Iguaçu, mas... Por que não?

A psicologia define personalidades do tipo “borderline” como aquelas que estão perto de romperem com a lucidez que nos permite viver saudavelmente em sociedade. E a ficção, aqui representada pelo Coringa, descreve que a loucura é como a gravidade; só é preciso um pequeno empurrão para que alguém passe do limite. “Borderline”, do inglês, traduz-se literalmente como “a linha da fronteira”, e é nisso que eu tenho pensado ultimamente. Porque apesar de já morar em Foz do Iguaçu há algum tempo e de já ter seguido as placas de trânsito em direção aos países vizinhos, existem certas fronteiras que eu ainda não consegui atravessar.

Acho que todos nós devemos ter nossos limites, e talvez sejam resquícios de grandes mudanças. Depois que a poeira abaixa, nós lentamente procuramos uma nova rotina e nos prendemos a ela a ponto de que algo pareça familiar de novo. Eu já conheço bem alguns caminhos da cidade e há algo de reconfortante em saber como dar direções corretamente para turistas perdidos que me param na rua para perguntar como chegar ao Marco das Três Fronteiras ou ao Museu de Cera. Mas a essa altura o que eu preciso mesmo é de uma familiaridade que vá além da geografia. Algo que vá além das placas de trânsito e paradas de city tours. Aliás, não algo... Alguém.

No fim não importa realmente se você sabe ou não o seu próprio CEP. O limite mais assustador de todos a ser atravessado sempre será aquele entre você e outra pessoa que você deseja conhecer. É isto que faz de todos nós personalidades “borderline”.

Loucura mesmo é nunca tentar atravessar.

segunda-feira, 29 de maio de 2017

A lenda do amor correspondido

Se você desconsiderar os efeitos especiais, os dinossauros que inexplicavelmente também viviam na ilha da caveira e a melancolia da Naomi Watts, o filme “King Kong” se trata mesmo de uma comédia romântica. Isto é, até o seu final triste. Enquanto assistia pela enésima vez em um dia desses de ócio criativo e descaso gastronômico – dois fatores que parecem sempre me levar ao sofá para uma sessão reprise com direito a pipoca com muito sal e uma garrafa de refrigerante ao seu dispor sem o peso das calorias na sua consciência – eu me senti particularmente inspirado desta vez quanto mais via a Naomi Watts indecisa sobre ficar com o Kong naquela ilha ou fugir com o outro cara que foi salvá-la. É um triângulo amoroso clássico, mas só funciona se você enxergar o Kong pelo que ele sente, não pelas pegadas gigantes que ele deixa pela floresta. E me fez pensar também sobre o fator crucial que deve existir em qualquer relacionamento para que este seja bem sucedido ou não: a reciprocidade.

Durante minhas desventuras amorosas sempre confiei nos meus amigos para servirem de bússolas para que eu não me perdesse na minha própria insensatez. Mesmo sabendo quando concordariam comigo ou não, era bom ao menos dizer as palavras em voz alta quando me encontrava em mais uma encruzilhada amorosa e era preciso engolir o orgulho para parar e pedir por uma direção. E uma amiga em particular sempre foi precisa em suas considerações perante os meus entreveros:

- Toda relação tem alguém que gosta um pouco mais do que o outro, Igor. Partindo disso fica fácil saber se estamos nos perdendo demais ou doando menos. O que “gosta mais” tem iniciativa, planos, idéias, puxa assunto, cria cenários... O que “gosta menos” aceita tudo isso numa boa, mas a sua reciprocidade tem um limite que aos poucos vai testando o que “gosta mais” até que.. Bom. Até que a gente sente aqui para beber e teorizar sobre relacionamentos.

Não sei dizer se existe mesmo equilíbrio em relacionamentos ou se reciprocidade é um fenômeno ocasional que envolve empenho de ambas as partes somente quando os dois sairão ganhando algo que não seja necessariamente um orgasmo. De qualquer forma, eu entendo o quanto “gostar mais” e procurar alcançar alguém que não nos encontra em um meio termo pode ser frustrante, assim como entendo como “gostar menos” pode ser uma posição confortavelmente entorpecente, mas ao custo da nossa consciência de manter alguém por perto que nos encha de amor sem pedir muito em troca. São situações igualmente desajustadas pelas quais eu e alguns dos meus amigos já passamos, enquanto o equilíbrio puro permanece distante como um fenômeno raro da natureza que pode ser visto por um piscar de olhos antes de se perder em expectativas infames.

O problema com King Kong é que ele não tinha amigos para conversar enquanto a Naomi Watts não se decidia sobre lhe dar uma chance ou embarcar de volta para Nova York - embora todos aqueles insetos gigantes também não ajudassem ninguém a tomar uma decisão racional. Quanto a mim, decisões racionais nunca foram o meu forte, independente de qualquer ecossistema. Eu gosto de pensar que considero as conseqüências a longo prazo de tudo o que decido fazer por mim, mas é só quando me encontro sofrendo-as que realmente considero se aquilo valeu a pena. Em parte é assim que me sinto hoje pelos arredores de Foz do Iguaçu – atualmente servindo como a minha versão particular da ilha da caveira, completa com todos os insetos possíveis e imagináveis que invadem o meu quarto ao menor sinal de uma luz acesa.

Felizmente hoje não existe nenhum conflito amoroso perturbando o meu sono. Este mérito vai para causas naturais como a minha rinite ou os barulhos dos carros lá fora que encaram o quebra-molas da minha rua como um obstáculo a ser ultrapassado em velocidade máxima. Mas entre filmes repetidos e relacionamentos desequilibrados, tem sido bom dedicar mais tempo para minhas teorias infames do que criar expectativas surreais sobre coisas e pessoas que estão além do meu alcance. O que me leva a concluir que 1) talvez eu precise ser o que “gosta mais” em um relacionamento, caso a possibilidade do equilíbrio realmente não exista, embora 2) Kong, obviamente o que “gosta mais” naquela relação, definitivamente merecia alguém que lhe desse mais valor.

Enfim, relacionamentos são complicados.

sexta-feira, 26 de maio de 2017

O último primeiro encontro


Como todas as tragédias da contemporaneidade, este conto se passa em um sábado à noite. A fonte de todos os sonhos e inseguranças que podem existir na cabeça de uma pessoa. Capaz de elevar ou desconstruir totalmente tudo o que você acredita sobre si mesmo. Caso você acredite neste tipo de coisa.

Mas se estiver lendo isto agora, convenhamos: você acredita.

***

Eu procuro pela minha alma gêmea desde os 14 anos. Foi nisso que pensei quando vi minha irmã, que tem esta mesma idade hoje, saindo de casa hoje para ir a uma festa. Ao contrário de mim, que ficava em casa cheio de espinhas na cara e questionamentos na cabeça sobre encontrar alguém, ser feliz, e torcer para que o último creme anti-acne que comprei funcionasse da noite pro dia. E já que este texto vai começar com um desabafo que há muito tempo precisa ser expedido, aqui vai outra curiosidade infame: aos 17, quando resolvi sair de casa, eu disse para a minha mãe que queria fazer faculdade em outra cidade porque achava que seria bom estar cercado por novos ares. Para combinar com a nova fase de vida que eu iria enfrentar quando chegasse ao fim do desfiladeiro do ensino médio. E eu não menti, nem me arrependo do que fiz. Mas acho que agora já é seguro admitir que não, não teve nada a ver com maturidade, senso de aventura ou oportunidades acadêmicas. Eu queria mesmo era sair daquela cidade, porque a garota de quem eu gostava estava decidida a não me dar uma chance. Foi só isso.

O resto é história, conseqüência, e sorte.

Por que eu estou compartilhando isto? Bom, porque já se passaram dez anos e nada realmente mudou. Eu continuo em casa, com meus pensamentos invariavelmente vagando em direção a noção de que seria bom ter alguém aqui, agora. E quem sabe se eu continuar procurando pelo mundo afora, talvez eu a encontre. Ela. Aquela sobre quem faço questão de escrever com letra maiúscula. Porque Ela não é como as outras. É especial, é única, é perfeita.

Sim, eu acreditei nisto por anos. Anos. E não há como enfatizar isto o bastante, para que você que está aí do outro lado, lendo e se contorcendo com essas verdades, entenda a gravidade que há no que eu tenho a dizer agora. Talvez seja algo que você já tenha pensado, mas perdoe a minha lentidão. Eu ainda tinha esperanças.

Meu Deus, como eu sou idiota.

***

Não há nada tão desconcertante na vida do que planos que não dão certo. E antes que você me diga que o segredo está em não fazer planos: nos poupe. Você também os faz, que eu sei. E neste caso, os planos em questão envolviam um primeiro encontro, um cineminha aparentemente inocente, e a promessa de um futuro bom. Coisas que só um primeiro encontro é capaz de proporcionar; da ansiedade ao medo, abrindo brecha ainda para já planejar qual é o melhor caminho para buscar os nossos futuros filhos na escola.

E quando um primeiro encontro é desmarcado, o efeito dominó é implacável: mais um sábado à noite em casa, mais uma que não é Ela, e menos de mim que resta para continuar acreditando por mais um dia que algo poderá dar certo. E é claro que eu estou exagerando. Sou inseguro, mas não sou irracional.

Bom, não totalmente.

Para rebater o baque, decidi que me faria bom sair mesmo assim. Nem que seja para ficar sozinho em uma mesa, com nada além dos cacos dos meus sonhos para tentar juntar, e a serenidade de saber que ao menos não haverá louça suja para ser lavada esta noite. Mas a serenidade não parou por aí. Enquanto meu pedido não chegava, e eu tentava disfarçar o meu desajuste corporal em uma mesa para um, olhando para as outras mesas cheias de pessoas rindo e promessas que não as falharam, eu percebi algo. Outras garotas nessas mesmas mesas, sentadas alheias às risadas, com o celular nas mãos e um restante de esperança no canto do olhar. Uma delas, inclusive, tentava evitar que seu olhar se cruzasse com o meu. Mas logo abaixo dos luminosos de marcas de cervejas e quadros decorativos, nada chamava mais a minha atenção do que aquele olhar. Um olhar que eu conheço bem, até por ser exatamente o mesmo que a fitava.

***

Às vezes acontece, simples assim. Crenças que a gente cultiva por anos e anos, promessas às quais nos agarramos por medo do que seria de nós sem algo para acreditar, podem desaparecer num piscar de olhos. Ou, para ser mais exato, quando nossos olhos finalmente se atentam para uma realidade que sempre esteve diante de nós, mas talvez não fizesse sentido o bastante para que conseguíssemos absorvê-la. E por mais saboroso que tenha sido o meu sábado à noite a sós, a verdade que me foi servida como acompanhamento foi a recordação que guardarei comigo não só para meu crescimento pessoal, mas até para avaliar aquele restaurante para futuras recomendações.

Não é possível que nesta cidade inteira não exista alguém para mim. Maturidade mesmo é quando você deixa de fundamentar sua noção de realidade pelas coisas do coração, e passa a se basear em estatísticas básicas. E mais importante do que isto: às vezes vale mais a pena você tirar uma noite para encontrar a si mesmo.

quarta-feira, 24 de maio de 2017

O que eu nunca farei por amor de novo


Eu queria que você soubesse. E não é nem como se eu tentasse disfarçar qualquer coisa quando você está por perto. Só não queria que soubesse por mim. A não ser, é claro, se você também tivesse algo pra me dizer. Que também anda tentando esconder o máximo que pode, mas morre de vontade de que eu descubra um dia. E é assim que eu vou levando, dia após dia. Sentindo meu coração disparar quando te vejo, e se partir quando vai cada um pro seu lado. Só não digo nada, nem demonstro nada, porque já vivi o bastante para saber que nada machuca tanto quanto a falta de reciprocidade. E se eu puder evitar a fadiga, eu o farei. Com o tempo a gente fica assim mesmo; tão receoso que nem se arrisca mais, por achar que certas decepções podem ser evitadas de antemão. E alguns sonhos, bom, podem ser desnecessários também.

Mas quando estou sozinho, na segurança e na tragédia da sua ausência, eu me permito imaginar um pouco. Penso em como seria se você soubesse um dia. Penso que ficaria feliz – aliviada, até! E que poderia ser o começo de algo bom. Talvez, quem sabe, o último começo que eu viria a ter, em se tratando dessas coisas. Hum... “Essas coisas”... Não há ninguém julgando aqui, então por que ainda assim eu evito chamá-las pelos nomes que realmente possuem? Talvez pelo mesmo motivo que me mantém refém de mim mesmo ao seu redor. Porque “essas coisas” de relacionamentos, amor e reciprocidade parecem tão distantes para mim quanto comerciais que passam em uma televisão que alguém esqueceu ligada. Há uma mensagem tentando ser enviada para alguém, mas não há destinatário do outro lado. Não há ninguém para ouvir. E nas vezes em que havia alguém, ela não deu muita atenção. Acreditou que aquilo iria continuar reprisando, e que ela poderia parar pra prestar atenção outra hora, outro dia...

O mesmo eco que a gente provoca nos relacionamentos que não dão certo são diretamente proporcionais ao vazio que criam em nós quando finalmente nos livramos deles. E por mais que a gente diga que é, foi pra melhor, não há como não sentir que estamos um pouco piores do que antes. Um pouco menos de nós mesmos a cada decepção. E já que estou confessando aqui, saiba que tenho muito, mas muito medo de desaparecer. Especialmente se um dia eu descobrir que contigo também não seria recíproco.

Por isso eu me calo quando vejo você passar. E uma hora dessas, num dia desses, você não estará mais sozinha quando passar por mim. Haverá alguém segurando a sua mão, e eu enfim terei certeza de que não era o cara pra você. Mesmo que eu nem tenha me atrevido a tentar. Mesmo que você nunca tenha descoberto...

Eu sinceramente prefiro morar em promessas do que tentar mudar algo. Acreditando que pode ser diferente, que pode dar certo... Imagine só.

O que seria de nós? Andaríamos de mãos dadas por aí? Eu seria a razão do seu sorriso que tanto me encanta? Seria o motivo da música que é a sua risada? Seria o pensamento que te invade quando fica olhando distraída para o horizonte?  E o que faríamos juntos? Colocaríamos em prática, enfim, todos aqueles jantares à luz de velas que sempre pensei em compartilhar contigo? Serviria seu vinho favorito, ao som da sua música favorita, enquanto tento acertar cada último detalhe desta nossa noite juntos, para que soubesse o quanto eu sou feliz e grato por ter você na minha vida... Por ter me dado uma chance para provar que sim, poderia ser eu. Poderia ser a gente.

Faria, iria, poderia... Tudo menos “deveria”. Porque eu não quero me arriscar.

Eu não quero perder você, nem que seja só em sonho Continue passando por mim, acenando quando me vê e sorrindo normalmente.  Houve um tempo em que eu faria questão de que você soubesse, mas acho que esses dias acabaram. Agora eu só faço questão mesmo de ainda ter um sonho guardado comigo. O que eu já fiz por amor nesta vida não pode ser contado, medido ou sentido de qualquer maneira que faça jus. Mas acredite quando eu digo que, depois de um tempo, você não consegue evitar de.... Evitar.

E você nunca irá saber...

terça-feira, 23 de maio de 2017

O sonho impossível


O mundo não é mais um lugar romântico. Algumas pessoas, no entanto, ainda são, e a elas cabe uma promessa: não deixe o mundo vencer.

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Depois de ler incontáveis romances, um homem aparentemente comum decide trazer de volta o cavalheirismo e reviver o sonho de um mundo justo e correto, duelando contra inimigos tiranos e salvando todos aqueles que se encontrem em apuros, acreditando que sua bravura será reconhecida e recompensada por aquela que ele considera como a mulher da sua vida. Esta é a trama do épico “Dom Quixote”. E o que me assusta não é conhecê-la tão vividamente sem sequer ter lido o livro, mas já ter passado alguns anos tentando recriá-la na minha própria vida.

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A adolescência é uma selva. Uma luta por sobrevivência constante – ou pelo menos é assim que a gente se sente, entre mãos tremulas durante apresentações de trabalhos, potes de cremes para espinha que parecem não funcionar magicamente da noite para o dia como nós precisávamos que funcionassem, e fantasias remotas com a garota mais linda da sala com quem nós absolutamente nunca realmente teríamos uma chance – então pra quê tentar? E é nesse contexto em que traços marcantes da nossa futura personalidade adulta começam a ser desenhados. Traços definitivos que ecoaram pelo resto da nossa eventual maturidade, sejam eles originados por traumas do que fizemos, ou por arrependimentos do que poderíamos ter feito. Tanto um quanto o outro podem ser justificados pela nossa própria natureza, invariavelmente despreparada para responder às exigências do mundo real na maioria das vezes.

O problema é o seguinte: mais cedo ou mais tarde, todos nós crescemos. O próprio tempo nos empurra pra frente a cada dia. Os tremores se acalmam e as espinhas secam, mas os sonhos... Bom. Alguns sonhos permanecem. E ao contrário das roupas e calçados, nem sempre é evidente quando alguns sonhos já não nos servem mais. O que me leva a admitir algo que há anos vem sendo esquivado ou desconversado por mim mesmo, entre posts sobre louça suja e as lamúrias da existência.

Meu nome é Igor e eu ainda sonho com a mulher da minha vida.

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Eu me lembro de ter 14 anos e passar dias e noites escrevendo sobre amor. Um amor, ainda que na sua forma bruta e contraditoriamente mais pura, que eu considerava existir na forma da Dulcinéia – a garota mais linda da primeira série do colegial. E por muito tempo eu tentava conquistar a Dulcinéia com as minhas façanhas literárias, declarando sempre que era ela a minha musa inspiradora, e que não haveriam obstáculos que não poderiam ser conquistados caso ela me concedesse uma chance de provar que eu poderia ser o seu cavaleiro. Vale ressaltar aqui também que não há muita diferença entre o colegial e a Idade Média – em escala emocional, é claro.

Mas independente dos meus apelos e dos gigantes que eu estava disposto a enfrentar para ficar com ela – desde a minha mãe, que sempre achou que “aquela menina não é boa o bastante para você”, os meus amigos que tentavam me lembrar de que ela tinha outros pretendentes bem mais bravos e belos, até as amigas dela que tentavam me consolar ao confessar as palavras que Dulcinéia havia repassado a elas: “Ela não vê você de uma maneira romântica...

Era inconsolável e irremediável o quanto eu não queria desistir. Ou o quanto eu sentia que não podia desistir. O que me levava a escrever inúmeras cartas de amor, e a traçar a épica jornada que parecia haver entre a minha casa e a dela, para que eu pudesse entregar tal mensagem diretamente ao seu castelo, e rezar para que os meus apelos fossem aceitos. Para que a sua misericórdia fosse tão majestosa quanto a sua beleza. Um apelo que, por fim, nunca foi aceito.

Anos depois, eu me mudei para um novo condado e aos poucos deixei de receber notícias sobre Dulcinéia. Meu amor por ela, no entanto, parecia só aumentar com a distância. A saudade é o combustível mais potente que existe para inflamar chamas que, vez por outra, causariam menos estragos se fossem apagadas de uma vez.

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Tudo isso parecia muito épico e grandioso para mim, dez anos atrás. A verdade é que durante todo o colegial eu fui apaixonado por uma garota da minha sala, e que partiu meu coração ao dizer que só me via como um amigo. Hoje, até onde eu sei, ela está casada, tem um filho, e está bem feliz ainda na mesma cidade em que nos conhecemos. Seu nome não era Dulcinéia; este é o nome que Miguel de Cervantes usa em sua obra, “Dom Quixote”, para construir a imagem do amor inatingível que motiva o seu protagonista a uma busca incansável por ela através de duelos contra o que ele considera ser gigantes inimigos, mas que não passavam de alucinações criadas de imagens distorcidas de moinhos de vento.

E no final da história que serviu de base para os anos formativos da minha imaturidade e minha literatura, também não poderia haver uma metáfora melhor para ilustrar o que eu preciso fazer agora. Não existem amores inatingíveis ou gigantes que nos impedem de alcançá-las; apenas pessoas ordinárias e moinhos de vento. Assim como dizia o nome da canção que Dom Quixote dedicava à sua Dulcinéia, é preciso finalmente admitir o inevitável: mais cedo ou mais tarde, todos nós precisamos crescer – até mesmo emocionalmente. E alguns sonhos, infelizmente, são mesmo impossíveis.

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O mundo não é mais um lugar romântico. Algumas pessoas, no entanto, aprendem a se adaptar a ele. E talvez na saudade de um sonho, ainda perdure uma promessa.

segunda-feira, 22 de maio de 2017

Um dia você vai gostar de alguém


Um dia você vai gostar de alguém, como nunca gostou de outra pessoa antes. Vai acordar pensando nela, vai sair para trabalhar pensando nela, e vai encarar os ponteiros do relógio pensando nela. Esperando que o tempo passe mais rápido; que os minutos virem horas, e que as horas vierem dias. E que tudo isso te empurre adiante, de encontro a ela mais uma vez.

Vai pensar, inclusive, duas vezes nela. Primeiro em saudade, depois em insegurança. A vontade de dar aquele “oi”, mandar aquela mensagem boba que não leva a nenhum assunto urgente ou até mesmo coerente. Qualquer coisa para satisfazer a vontade de falar com ela novamente. Falar, ver, tocar. Mas a insegurança...

A insegurança é aquela que nos impede de agir sem medir conseqüências. É o impulso de sobrevivência que nos alerta a olhar para baixo antes de pular. Porque todos nós já caímos, nos quebramos um pouco, e temos as histórias e as cicatrizes para nos lembrar de que, se for pra ser de tal maneira, é melhor não ser de jeito nenhum. A insegurança, enfim, é aquela que apaga a mensagem escrita pela metade, para evitar que um sentimento seja exposto por inteiro.

Mas você vai gostar de alguém um dia que te fará esquecer de olhar para baixo. Não porque será particularmente seguro pular, mas porque a experiência vale a pena. Ela fará você parar de duvidar dos outros, das coisas e de si mesmo. E arriscar pensar que, talvez, só desta vez, pode dar certo.

Você vai gostar de alguém que vai te ensinar a acreditar de novo. E a dar “enter” nas mensagens sem imaginar, supor ou procurar todas as interpretações possíveis acerca das suas palavras. Você só vai se importar com que elas cheguem até o seu destino.

Você vai gostar de alguém que te lembre que não precisa esquecer de si mesmo para gostar dela. Vai descobrir, inclusive, que não há outro jeito que funcione a não ser este. Você vai gostar dela por ela, e ela vai gostar de você por você. Não pelo que podem completar um no outro, mas pelo que pode ser compartilhado.

Você vai gostar de alguém que vai te inspirar a ser clichê. Que te inspire a perguntar como foi o dia dela, ou se aquela dor daquele tombo que ela levou naquele dia no trabalho já passou, ou se ela lembrou de comprar aquele item no mercado que faltava para a receita nova que ela queria tentar fazer em casa. Você vai gostar de alguém, inclusive, que dorme durante as suas conversas. E não vai julgar isso como um sinal de desinteresse.

Você vai gostar muito de alguém, mas também dormirá durante as suas conversas. Porque vocês são adultos, trabalham, tem dores e cansaço, e quando se jogam na cama ao fim do dia – mesmo que em camas separadas – e descobrem que o outro está bem, apesar dos pesares, já se sentem livres para descansarem antes que mais um dia comece.

Você vai gostar de alguém que estará lá amanhã, ao contrário de todas as outras que desapareceram durante a noite. E você vai gostar de alguém o bastante para querer estar lá também, dia após dia.

Você vai gostar de alguém que te trará dúvidas. Mas não do tipo “será que ela gosta de mim?” ou “será que eu não deveria ter mandado aquela mensagem?”, e mais do tipo “será que teremos condições de bancar aquele apartamento com a decoração bacana que ela sugeriu?”.

Você vai gostar de alguém que não te dará medo de fazer planos. Mas eu admito que ainda tenho, e muito por sinal. Assim como tenho as minhas inseguranças, os meus dilemas envolvendo mandar ou não um “oi” por WhatsApp, um nervosismo na voz a cada novo telefonema, e um pavor quase letal de trazer a tona quaisquer questionamentos que envolvam o nosso presente, o nosso futuro, ou simplesmente a denominação em voz alta da mais sonhada e instável terceira pessoa do plural: nós.

Um dia você vai gostar de alguém desse jeito e de vários outros. Acredite em mim: estou tendo um desses dias.

(Escrito em 15/10/2016)

sexta-feira, 19 de maio de 2017

A última garota certa


Só para constar: tudo o que eu queria era um jantarzinho a dois. Mas você não colabora...

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Nada ilustra a coleção de erros que eu já fiz nessa vida de maneira tão clara como a minha lista de contatos do WhatsApp. Foi o que pensei durante o auge do meu desespero existencial silencioso que costuma surgir do tédio das noites de domingo, enquanto descia a barra de rolagem da agenda do telefone e revisitava mentalmente as razões pelas quais sequer havia salvo os números de algumas pessoas que, como o tempo veio a demonstrar, não fizeram jus a demonstrações do tipo “precisando é só chamar” ou “estarei sempre aqui” que costumávamos trocar. Talvez seja apenas mais um dos efeitos colaterais dos vinte e poucos anos, juntamente à instabilidade financeira e o pavor terminal por qualquer compromisso. Mas é algo que me pareceu especialmente explícito dessa vez, considerando o quão vulnerável eu ando me sentindo nesses últimos dias.

A mudança para Foz do Iguaçu há meses perdeu seu ar de novidade. Já me habituei com as ruas, a hora certa de atravessar certos cruzamentos, os nomes de alguns bairros – embora não necessariamente saiba como chegar até eles – e até mesmo a saudade da minha vida antiga se aquietou de modo que lembrar dos meus amigos e das idiotices que fazíamos juntos não acarreta mais em nostalgias chorosas. E talvez seja esse novo e saudoso estado que a minha saudade atingiu que tenha aberto brecha para outros sentimentos inflarem. Como me conheço bem, era de se esperar que a frustração crescente fosse a primeira da fila. E digo “crescente” porque, enfim, já construí um pequeno histórico por aqui no qual posso me amparar para dizer que as coisas e as pessoas deixaram de ser assustadoramente novas e passam a ser demasiadamente insossas.

Um eco de outono passou pela cidade esses dias, alertando quem estivesse prestando atenção que o verão está chegando ao fim. E se tudo der certo, logo estaremos na estação em que é totalmente aceitável não sair por aí em trocar de ficar em casa debaixo das cobertas com um filme, uma bebida quente e – eis o ápice da frustração – alguém especial do lado. Porque muito do que eu associo ao inverno são lembranças terrivelmente solitárias, quando ter “alguém especial” ao lado parecia ser a solução de todo a frieza que me cercava. E que me levam a sentir falta, particularmente, dos lugares comuns que todo relacionamento possui. O cineminha espontâneo, as mãos dadas no shopping, as conversas sussurradas na cama, até o clássico jantarzinho a dois. Não sei dizer se realmente gostaria de um novo relacionamento hoje, mas aquele ar denso e garoa leve que tomaram conta do calor habitual da cidade me lembraram do quanto eu gostaria, só por uma noite, revisitar um lugar comum com “alguém especial”.

Desde que aprendi a cozinhar penso em como seria escolher um cardápio especial para preparar para “alguém especial”. Provavelmente uma massa... Acho que romance combina bem com massas. E um bom vinho para acompanhar, que deixaria gelando um pouco enquanto preparasse a comida. Arrumaria a mesa de um jeito que demonstrasse o quanto tudo foi pensado para que essa noite fosse mesmo algo diferente. Guardanapos dobrados em triângulos isósceles à esquerda do prato, taças de vinho à direita. Luz de velas? Talvez. É importante para mim pensar nesses detalhes. Porque é bom saber que a vida, o tempo e os relacionamentos mal resolvidos que ainda residem na agenda do meu celular ainda não anularam por completo o romance que há em mim.

Romance, inclusive, que costumava ser sinônimo da minha personalidade em vez de antítese dela. Foi o que todos aqueles relacionamentos fracassados que invariavelmente ainda ocupam espaço não só na memória do meu telefone, mas no meu coração também, me ensinaram. Rompimentos, decepções, vácuos e esquecimentos que me deixaram bem mais propenso à racionalidade de que criar expectativas não só é desaconselhável como perigoso. E que a fantasia de encontrar alguém e acreditar, apesar dos pesares, que pode dar certo é mais do que infantilidade; é ridículo.

Então eu me lembrei do quanto me tornei imune ao ridículo há muito tempo. E como não há mais nada que eu deixaria de fazer se eu sentisse mesmo vontade. Afinal de contas, foi a impulsividade que me motivou a seguir um sonho, e que me trouxe até aqui, e que já criou tantas histórias nessa cidade ao ponto de acabar com o meu medo e de, enfim, dar espaço a um pouco de tédio existencial de novo. E aí eu fui para a cozinha...

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Repassando minha lista de contatos mais uma vez, confesso que fiquei triste por um momento. A janta estava pronta. A mesa estava posta. O vinho estava aberto. Só não havia companhia. Talvez não precisasse ser “alguém especial” esta noite. Porém não alguém tão desprovida de mitologia e personalidade também. Mas só o que parecia haver no meu celular eram contatos que provavelmente não aceitariam o convite por desinteresse, ou não poderiam por geografia ou outros planos que já tivessem feito. E ao colocar-me no lugar comum que tanto sentia falta, eu percebi que reconstruí-lo foi bom para matar a saudade. Mesmo que estivesse desacompanhado esta noite, ainda foi bom para relembrar algo ainda mais importante que pensei ter abandonado há anos. O sonho de cozinhar um jantarzinho a dois não só para alguém especial, mas a garota certa. A última garota certa que eu irei conhecer.

E foi bom perceber que depois de anos eu finalmente aprendi a cozinhar para dois. Como eu poderia deixar de acreditar justo agora?

(Escrito em 29/02/16)

quinta-feira, 18 de maio de 2017

O medo

“Uma mulher irá te perdoar por tentar, mas ela nunca te perdoará por não tentar”.

Eu não sei de onde o meu amigo tirou isso, e olha que eu fui atrás de pesquisar se tal sabedoria partiu do Winston Churchill ou do Mahatma Gandhi para pelo menos atribuir uma fonte à pérola. Mas foi o que me marcou durante a nossa última conversa, enquanto eu pontuava os prós e contras de chamar uma garota para sair. Não se fala muito sobre a insegurança masculina por aí e independente da corrente filosófica que reprime tal sentimento, é preciso falar mais sobre isso. E mesmo que não seja, eu preciso falar sobre isso. Porque eu tenho medo.

É. Medo. Sabe o medo? É o que acontece bem antes de uma relação ser definida por um “eu te amo” ou um “visualizado às 14:15”. O medo de perguntar: “Quer sair comigo?

Depois dos vinte, relacionamentos ainda mantém uma natureza livre e desimpedida, mas já com algumas atribuições e pré-requisitos antes de qualquer partida a dois começar a ser jogada. Você já conhece um pouco mais sobre si mesmo para dizer com propriedade do que gosta ou o que não gosta, e as possibilidades passam por critérios mais bem estabelecidos. Salvo, é claro, as vezes em que o medo é inibido por matérias mais potentes – como o álcool nos finais de semana, as datas comemorativas e o “foda-se, hoje eu faço o que eu quiser” que é, comprovadamente, atemporal e inato a qualquer jovem de vinte e poucos anos que esteja se sentindo com pouco juízo e menos ainda a perder.

Mesmo subtraindo as expectativas, as experiências passadas e a aversão natural a qualquer coisa nova, chamar uma garota para sair sempre será um dos atos mais desafiadores na vida de um homem. Há estatísticas – abstratas, porém verdadeiras – que comprovam que isso só fica atrás da ressaca moral sofrida por mensagens enviadas na noite anterior sob o efeito de dezesseis chopes para sua lista inteira de contatos, ou esquecer de responder seis chamadas perdidas da sua mãe. Coisas que, aos vinte, deixam de serem simples e passam a ser verdadeiros campos minados que devem ser trilhados com cuidado e meditação. Na verdade qualquer bebida alcoólica deveria conter uma bula similar a remédios que prescrevem evitar o uso de equipamentos pesados, especialmente alertando sobre os usos do celular ou dizer “eu te amo” após seu uso.

Querendo ou não, chamar uma garota para sair sempre será o prólogo de alguma coisa. Um amor para recordar, um contato a ser evitado futuramente na agenda do celular, ou um eco do movimento modernista sobre “a vida inteira que poderia ter sido e que não foi”. Como escritor em treinamento, minha propensão é de sempre traduzir qualquer aspecto da minha vida para a literatura, nem que seja para dar um ar um pouco mais romancista a uma relação que teve tudo menos isso. Mas seja lá qual for o seu contexto, não me diga que a insegurança não te alcança a cada vez em que alguém novo inicia uma nova conversa com você, em que ainda não há um histórico para se amparar.

Porque hoje em dia tudo é criptografado, digitalizado e armazenado, para você nunca se esquecer de que o passado não é só uma sentença, mas um cabeçalho no qual você se apóia para tentar decidir se arrisca um novo “oi” ou se espera porque “é a vez dela” de tentar se arriscar em você.

quarta-feira, 17 de maio de 2017

Conexão perdida

Não é que eu deteste o modo como o mundo contemporâneo incorporou as opções online/offline ao modo como nós levamos as nossas vidas. Muito pelo contrário, vez por outras passo mais dias online no vácuo do que offline do lado de fora de casa, longe do alcance de qualquer Wi-Fi. Aliás, às vezes é difícil saber até o que fazer com as mãos quando não possuem um celular conectado com o resto do mundo. Mas existem certos aspectos que ainda não consigo adaptar completamente – o que, por consequência, pode tornar a minha visão de mundo incompatível com os vários aplicativos que temos ao nosso dispor hoje. E dia desses me peguei pensando sobre tempos mais simples, quando conhecer e desconhecer pessoas costumava ser mais audacioso do que suar frio de ansiedade após tentar puxar conversa em um bate-papo virtual, e imaginar as mil e uma maneiras que a pessoa do outro lado poderia reagir. Quase todas, geralmente, beirando aos traumas do nosso ego ferido em outras janelas de conversação, fadadas ao eco de uma simples palavrinha maldita:

Visualizado

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Desta vez eu me surpreendi com algo sobre o qual realmente não deveria reclamar. Já que no final das contas, quando pesquiso meu próprio nome no Google – e não aconselho você a fazer o mesmo com o seu, caso queira continuar dormindo tranquilo à noite – os primeiros resultados são, não necessariamente nesta ordem, os links para meus perfis criados no Facebook, no Instagram, no Twitter (que há muito tempo é usado apenas para fins voyeuristas do que para publicações autênticas) até, enfim, ao perfil que lidera as publicações desse blog. Seria deveras hipócrita da minha parte utilizar as ferramentas da internet para criticar, bom, a própria Internet. Mas isso não é uma crítica; é uma confissão. Quando foi que eu permiti que estas ferramentas se transformassem em correntes? E se você ainda não entendeu o que eu quero dizer, talvez um diálogo que tive algum tempo atrás (e que você provavelmente também já teve), ajude:

- Você está bravo comigo ou coisa parecida?!
- Não! Por que?!
- Nunca mais falou comigo.
- Mas você também nunca mais mandou nada.
- Mas fui eu quem te chamou para conversar por último!

Se você já teve, ou está envolvido neste exato momento em algum tipo de cabo-de-guerra imaginário com alguém com quem você não conversa há muito tempo, nem em um milhão de anos considera a hipótese de arriscar suar frio para escrever um “oi” para ela e apostar todo o seu amor próprio ao clicar em “enviar”... Bom, eu te entendo. Mas quando eu paro pra pensar nas alternativas, ainda vale aquela antiga verdade universal sobre sermos irremediavelmente atraídos por aquilo que não podemos ter. É o motivo pelo qual sentimos vontade – para não dizer “necessidade” – de desabafar com alguém quando nossos relacionamentos parecem padecer e deteriorar a cada novo vácuo no qual caímos. Porque alguém esqueceu de nos responder, ou simplesmente não pôde nos responder naquele momento em particular. As mensagens instantâneas nos ensinaram a esperar por respostas instantâneas, seja em qualquer visor que esteja ao alcance das nossas mãos, até toda a vida que continua se atualizando ao redor dele.

Eu não sei. Talvez seja tudo uma questão de limites. De paciência, compreensão e outras virtudes que nunca consideramos de fato quando o nosso humor se torna diretamente proporcional à velocidade e o conteúdo da sua resposta para o meu “oi”. Mas a Internet está aí e não irá embora tão cedo. Aliás, provavelmente seremos nós quem iremos partir bem antes da Internet. Deixando de lembrança para ela uma série de perfis e fotos publicadas com nossas imagens e nossos “mimimis” nas legendas, daqui para a eternidade. Mas hoje tudo o que eu gostaria é que o meu ego, minha auto-estima e minha auto-confiança voltassem a depender só de mim mesmo, em vez de roteadores e cabos de fibra óptica.

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Mas só para constar: todos nós temos nossas fraquezas. E é claro que existem algumas pessoas que ando ignorando de propósito. Se existe algo que a tecnologia nunca irá extinguir de vez, é o nosso orgulho. Mais do que isto: existem plugins para ele agora.

(Escrito em 24/11/2015)

terça-feira, 16 de maio de 2017

Os clichês

Acho que nós, como espécie, já não temos muito o que criar em termos de relacionamentos. Pode parecer pessimista mas na verdade é só uma pequena afirmação em prol da minha própria paz de espírito para que, ao menos daqui em diante, algumas comodidades não pareçam tão alarmantes quanto antes. Porque mais cedo ou mais tarde toda relação cede aos clichês. Desde o cara que manda flores para surpreender a amada, até a namorada que passa no sex shop antes de chegar em casa para preparar uma noite mais apimentada. E não há nada de errado com isso, por mais que todos nos aspiremos pela originalidade. Mas depois de séculos de primeiros encontros, discussões, reconciliações, dentre outras modalidades da vida à dois, é de se esperar que alguns padrões venham à tona.

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Algum tempo atrás uma amiga comentou comigo suas considerações a respeito de um artigo que havia lido sobre a “geração Y” e sua infelicidade orgânica como resultado direto de todos terem sido criados com a noção de que são “únicos” e “especiais”. Falava muito sobre como o descontentamento da juventude estava enraizado na noção de que todos se consideravam dotados de habilidades que ultrapassavam a curva da normalidade de maneira exorbitante – e que, exatamente por isto, era trágico viver em uma realidade que não os recebera do modo como esperavam que mereciam diante da sua raridade. Também não me lembro ao certo, mas tenho quase certeza de que havia vinho durante esta conversa.

- Todo mundo se acha especial e então se frustra quando a vida não os reconhece.
- Isso quer dizer que ninguém é especial?
- Não, só significa que as pessoas precisam saber enxergar as suas próprias limitações em um contexto maior do que seu próprio umbigo.
- Uau! Impressionante. Me lembre de anotar a marca desse vinho.
- Estou falando sério, Igor. Vivemos em um tempo onde os jovens entram no mercado de trabalho achando que se tornarão profissionais instantâneos! E são os mesmos jovens que acreditam que ninguém ao seu redor sirva como parceiro pois são inferiores às suas próprias qualidades. É uma geração fadada ao fracasso exatamente por se achar predestinada ao sucesso!
- Fascinante... Ei, sirva outra taça para mim.
- Ok. Então, como eu dizia... Ah, relacionamentos! Esses jovens são cada vez mais exigentes sobre o que procuram e o modo como seu parceiro deve ser. E até quando encontram alguém, o descartam por algum motivo besta que só serve para reafirmar sua suposta superioridade.
- Jovens como nós? Solteiros à mercê de ciência e vinho nesse exato momento para nos sentirmos melhor sobre estarmos sozinhos?
- Não dá pra conversar com você, Igor.
- Desculpe... Mais vinho?
- Claro.

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Quanto mais eu penso sobre relacionamentos, mais eu me recordo sobre todos os clichês que já vivenciei. Daqueles que parecem existir só nos filmes ou nos livros de romance sobre os quais fazem esses filmes, que parecem tão ridículos e óbvios até você perceber o quanto não passavam de mensagens subliminares que se traduzem nas maneiras que você procura para não deixar o seu namoro cair na rotina – através de outras rotinas que são passadas de geração para geração.

O importante talvez não seja recriminar os clichês pela falta de originalidade ou do elemento surpresa, mas reconhecer o quanto ainda são eficazes em sua função. Algumas mulheres ainda se empolgam por receber um buque de flores do mesmo modo que a maioria dos homens responde da maneira esperada diante daquela lingerie debaixo dos lençóis. E por fim sempre haverá o clichê que se repete em todos os relacionamentos: o momento em que ele ou ela decidem dizer “eu te amo”. Agora, se é uma expressão desgastada ou não, só depende de quem diz.

Clichês só não funcionam quando não há sentimento. Caso contrário, serão sempre bem vindos.

(Escrito em 16/12/2015)

segunda-feira, 15 de maio de 2017

O amor nos tempos da gripe

A troca das estações sempre traz junto consigo seus efeitos colaterais microscópicos. E eu sei que já faz algumas semanas que os noticiários vêm cobrindo os mutirões em prol da época de vacinas, para prevenir que fiquemos todos à mercê da H1N1 que toma conta do ar rarefeito. Mas nenhum aviso ou estatística se compara a minha teimosia de tentar sobreviver ao outono/inverno sem precisar esperar em uma fila quilométrica para tomar uma vacina que, segundo o folclore do senso comum, nem previne tantos vírus quanto é noticiado. Claro que a veracidade disso não importa agora; é tarde demais para mim. Já faz algumas semanas que sofro as conseqüências de mais um ciclo de gripe. E eu não me importaria de apreciar a ironia disto, se não estivesse tão ocupado tentando respirar. Sabe; para permanecer vivo. Ainda há tantas ironias a serem sofridas pela frente.

Tosse, coriza, dores de cabeça. Os sintomas habituais da gripe podem ser combatidos com fármacos e cappuccinos, mas nada pode realmente combater os efeitos colaterais dela: a falta de vontade de sair da cama, a insuficiência temperamental, a inveja de quem não precisa evitar tomar nada gelado. E o repouso é fundamental; pegue leve na rotina e não se deixe levar por estresses infames. Coisa que seria muito fácil se, né, eu não fosse do jeito que eu sou. Intrinsecamente incapaz de evitar a fadiga.

Por conhecer minha própria biologia há algum tempo, em se tratando de ciclos de gripe, imaginei que desta vez não seria diferente: começaria com os olhos lacrimejando com facilidade, somado ao combo da rinite + alergia por usar as blusas que permaneceram guardadas na gaveta do guarda-roupa desde o inverno passado. Logo teriam algumas dores de cabeça, espirros constantes, garganta arranhada, tudo culminando em um dia especialmente enfermo cujo qual eu passaria na cama, alucinando com a volta da minha saúde e o sentido da vida. O problema foi que desta vez o ciclo se quebrou, e não de uma maneira que a minha psicologia comportamental gostaria de contemplar. Em vez de uma recuperação mais rápida, os dias enfermos se multiplicaram. Tudo graças a um fator irremediável por qualquer farmácia: o emocional.

Antes, um breve conceito: sintomas psicossomáticos são aqueles que surgem a partir de problemas emocionais que são refletidos diretamente no corpo. Logo, quando você não está se sentindo bem por alguma razão emotiva, seu corpo traduzirá isto como uma dor de cabeça, um mal estar estomacal ou – como é de praxe durante esta estação – um ciclo de gripe aparentemente inabalável. Não há nada menos aconselhável para alguém doente do que um relacionamento mal resolvido. É a incubadora mais potente para estender a permanência de um vírus em um corpo já vulnerável. O que poderia ser mais perigoso do que um coração aberto?

Eu admito que tenho os meus vícios – uma cervejinha a mais aqui, um cigarro de vez em quando, e um relacionamento inatingível para acompanhar os meus instintos de auto-destruição, coisa que a psicologia também dita que é inerente a cada um de nós. Nossas manias de fazer mal a nós mesmos – seja esquecendo de tomar um remédio no horário certo ou revisitando o perfil daquela ex no Facebook – são diretamente proporcionais aos nossos instintos de sobrevivência. Não é o sistema mais funcional que existe, mas é a única psique que nós temos e, com ela, a sua eterna missão: manter um equilíbrio emocional em cheque, ou morrer tentando.

Apesar de toda a biologia e psicologia envolvida, eu percebi o quanto eu arrisco demais a minha saúde por amor a causas e pessoas perdidas. E o quanto talvez valeria mais a pena tomar cuidado com quem eu permito que se aproxime do meu coração, para não deixá-lo exposto a viroses e pessoas infecciosas. Talvez eu esteja exagerando, mas há uma verdade biológica inquestionável aqui: seu corpo sempre irá combater partículas que considerar suspeitas ou malignas. Por que então resistimos em fazer uso deste mesmo conceito sobre as pessoas com quem nos envolvemos?

Quanto a mim é fácil responder: meu nome é Igor e sou um viciado em amor.

(Escrito em 09/05/2016)

sexta-feira, 12 de maio de 2017

Amor: o aplicativo indisponível


Pode parecer aleatório, mas é só a minha mania de enxergar uma profundidade em coisas que na verdade são inocentemente rasas. Porque eu quero escrever um pouco sobre relacionamentos hoje, mas antes eu preciso te contar sobre como eu estava assistindo os improvisos sinceros do Chico Pinheiro no Bom Dia Brasil (sirva-se de uma amostra) em uma manhã dessas. Até que chegaram a uma matéria sobre um novo aplicativo que permitiria aos espectadores assistirem o que bem quisessem de um vasto banco de dados que compunha a programação da TV, desde o que já havia passado até o que estiver no ar naquele momento. E inaugurariam o aplicativo ao subirem o que foi chamado de “capítulo zero” da nova novela das sete. Nele passaria um pouco do que os personagens estavam fazendo uma semana antes da trama central ser desencadeada aos olhos de quem, assim como eu, não possui espaço de armazenamento suficiente para se dar ao luxo de ter aplicativos no celular. Mas a ideia por trás disso foi algo que me subiu à cabeça de maneira bem mais eficiente do que o estresse pelo meu frustrante pacote de dados móveis.

Só o conceito de conhecer alguém já é conflituoso por natureza: a ansiedade, o nervosismo, a insegurança, o monitoramento de quando foi a sua última visualização no WhatsApp... Mas quando se pára pra pensar em como deve ser entrar na vida de alguém – uma vida que estava em movimento há muito tempo, bem antes de que eu pudesse considerar te chamar para conversar com todos os meus rascunhos de organogramas em mãos para manter o assunto fluindo – fica ainda mais difícil acreditar que possam existir mesmo os lugares e as horas certas para o amor acontecer. Ou qualquer outro sentimento caloroso que não necessariamente circule pelos seus órgãos genitais ao mesmo tempo em que te cause borboletas no estômago.

E então eu comecei a pensar sobre o “capítulo zero” das pessoas e em como seria muito mais difícil tentar pedir permissão para participar da trama de alguém caso soubéssemos de antemão o que vem acontecendo com ela. Claro que existem os spoilers: as postagens no Facebook, as fotos no Instagram, os check-ins no Foursquare... Mas nada disso realmente te garante que a vida de alguém “dá pé” para que você tente entrar sem medo de se afogar. Redes sociais são como outdoors: propagandas especialmente selecionadas para que você passe por mim e fique contente por alguns segundos sobre o restaurante que eu fui, ou por onde e com quem eu andei naquela balada. Mas que jamais te faça considerar que talvez, só talvez, seja muita estética para pouca filosofia.

O que nos leva aos primeiros encontros – e o motivo pelo qual às vezes eles não acontecem. Quando nos orientam a criar absolutamente qualquer outra coisa a não ser por expectativas, nosso instinto natural de desordem toma conta de nós antes mesmo que pudéssemos dizer algo do tipo “Não, não, pode deixar, não é nada sério. Só estamos conversando, numa boa, sem pressão!”, enquanto na verdade já pensamos em qual é o caminho mais prático para chegar até a papelaria mais barata da cidade, para comprar os plásticos que usaremos para encapar os cadernos dos nossos filhos, quando nós os matricularmos naquela escola particular em que já deixamos nossos nomes na lista de espera, pouco antes do casamento. E nem tente negar. Eu sei que você também pensou nisso.

A pressão envolvida em conhecer alguém agora começa muito antes mesmo de realmente conhecer alguém. E digo por experiência de quem já passou pela árdua espera para ver alguém que no final das contas não quis ser vista, bem como já acabei por fazer o mesmo. O motivo é simples: eu não estava pronto. As expectativas, assim como as tretas embutidas, já haviam sido plantadas. “E se você não gostar de mim? E se achar que a minha foto, depois de muita edição e três tipos de filtros diferentes, não tem nada a ver comigo pessoalmente? E se aquelas conversas de madrugada desaparecerem na luz do dia? E se a realidade não corresponder? Quer saber? Não vou arriscar.” E de todas as possibilidades, desde todos os sonhos do mundo sobre os quais Fernando Pessoa escreveu, até os que você esconde debaixo do seu travesseiro para que ninguém jamais descubra que você é daqueles que procura alguém para amar mas não sabe como nem quem nem aonde, nada acontece.

No final das contas, entre spoilers e “capítulos zero”, ninguém quer tentar dar uma chance para que um personagem novo possa desencadear novas emoções à sua trama, até mesmo quando uma dessas emoções possa ser um amor. E é por isso que estou tentando escrever a minha história ao mesmo tom em que começo todos os meus dias: com a espontaneidade do Chico Pinheiro e a esperança por um amor que ainda não encontrei.

(Escrito em 15/11/2015)

quinta-feira, 11 de maio de 2017

O amor da sua vida curtiu sua foto


Houve um tempo em que o flerte costumava ser artístico. Algo respeitoso, singelo, carinhoso. Um começo poético e inocente para se contar às crianças, anos depois, quando estas perguntassem como os pais se conheceram. Mas os tempos mudaram desde o fim da Renascença e a ascensão da Revolução Sexual, e alguns valores foram perdidos entre uma mudança e outra. Outros foram realocados, mas nunca mais soaram como outrora. E digo isso com pesada poesia porque, ultimamente, não há mais nada de romântico em flertes. E se, hipoteticamente, meus filhos inquietos insistirem em saber como eu conheci a mãe deles, é melhor ter uma história melhor para contar do que, digamos, algo do tipo: “Papai encontrou Mamãe no Tinder, mas ela não era muito de puxar papo...

Há quem diga que relacionamentos são jogos de poder. E ao contrário do que já acreditei um dia, isto me parece bem mais plausível agora. A única coisa que ainda não consigo compreender ao certo são as regras. Se é que elas existem. Mas se relacionamentos estiverem mesmo baseados em jogos, ganha aquele que, discretamente, jamais demonstrar que está jogando. Achou confuso? É bem mais simples na prática.

Situação: O Amor Da Sua Vida (até então) posta uma nova foto no Facebook. Enquanto você está viajando aleatoriamente em sua linha do tempo, encontra a foto dela – linda, perfeita, incrível e, surpreendentemente, ainda intocada por todos os seus outros fãs. Atualizada há cerca de cinco minutos, próxima de você, ainda não há “curtidas” para esta foto.

Você:
a) Decide ser o primeiro a “curtir”, inocentemente.
b) Decide esperar para que outra pessoa seja a primeira a “curtir”, já que ela obviamente sabe que você gosta dela e “curtir” imediatamente sua foto demonstraria certo desespero da sua parte.
c) Deixa a foto passar batido por você e volta ao que estava fazendo – mesmo que não estivesse fazendo nada. Aliás, decide até arrumar o que fazer.
d) Salva a foto em uma pasta obscura do seu disco rígido (provavelmente nomeada apenas como “Nova Pasta” para evitar suspeitas) e opta por fazer da foto do Amor Da Sua Vida o seu novo papel de parede do Desktop. Caso a foto não fique muito distorcida, providencia um pen-drive para levar a foto a uma gráfica para encomendar uma dúzia de camisetas com a foto dela para usar quando encontrá-la “acidentalmente” ao rondar a casa dela até o momento em que ela precise sair para sua aula de pilates toda terça-feira às quatro e quinze da tarde.

Particularmente, eu não vivo à mercê das minhas inseguranças. Pelo menos não o tempo todo. Mas já vivi algumas situações interessantes em que algo deste tipo demonstrou um interesse exacerbado da minha parte perante alguém – assim como já descobri interesses alheios em mim através de uma cuidadosa análise estatística de “curtidas” e comentários em minhas postagens mais recentes, voltando até os primórdios de 2011 onde a última moda em flertes resumia-se em “cutucar” alguém. E eu acho engraçado o quanto isto parece bobagem quando tento estipular uma espécie de fundamentação teórica acerca das técnicas e jogos de sedução da contemporaneidade, quando a verdade é única e atemporal: não existem jogos, nem artimanhas, nem esquemas, nem estatísticas, nem nada em se tratando de relacionamentos que indiquem quem está mais afim de quem ou algo parecido.

Nenhum de nós sabe o que está fazendo. E se achar que sabe, está blefando.

Mas nós insistimos com os joguinhos, os olhares, as conversas ensaiadas no espelho antes de encontrar o Amor Da Sua Vida no corredor da faculdade, porque a sensação de poder é o mais próximo que temos de nos sentirmos seguros sobre nós mesmos. Porque demonstrar interesse em alguém é e talvez sempre será o momento mais vulnerável que podemos vivenciar. Como andar na corda bamba sem uma rede de proteção lá embaixo, precisamente posicionada para nos reconfortar caso a recíproca nunca chegue e sejamos forçados a pular para evitar o discurso do “vejo-você-só-como-um-amigo”.

Os constrangimentos também adquiriram sua versão online: é só tirar o “visualizado por último” do WhatsApp e tomar cuidado para não ligar para a pessoa sem querer enquanto estiver babando na foto ampliada do perfil dela.

Ah, a humanidade...

(Escrito em 21/10/2015)

quarta-feira, 10 de maio de 2017

Não há ninguém perto de você


Eu conheci alguém.

Não comentei com ninguém, porque parecia que não ia dar em nada. Foi só uma conversa, num dia desses. Ela me disse “Oi” e eu respondi. Nos falamos por um tempo, e eu pensei que ia ficar naquilo mesmo. Afinal, já vi tantos “Oi”s passarem por mim com promessas de terem algo mais a dizer, sem nunca mais ouvir nada, que já não me comovo tanto com apresentações. Depois de um tempo você até decora um pequeno parágrafo para apresentar-se a outra pessoa, para agilizar o processo. Mas, daí, no dia seguinte, acabamos conversando de novo. E sabe aquelas conversas que duram horas, mas que você nem vê passarem? E por mais que vocês falem, parece que o assunto nunca acaba. E quanto mais você descobre sobre a pessoa, mais intrigante ainda ela fica. Você procura saber mais e mais... E quando vê lá se foram mais algumas horas.

No dia seguinte eu acordei com um “Bom dia!” dela. Assim, do nada. Não estava esperando e não respondi por um tempo. Não queria que se tornasse algo daquele tipo. Do tipo que se acorrenta às mensagens de “bom dia” e “boa noite”, e qualquer outra coisa que aconteça no decorrer do dia estará proporcionalmente nivelado com aquele símbolo de mensagem nova pela manhã, e com aquele último som do celular no criado mudo à noite. Avisando que ela já estava indo deitar, mas que, antes disso, pensou em mim. Logo eu, que tenho uma fraqueza por nostalgia, não resisto quando alguém diz que se lembrou de mim.

Aí ela disse que queria me ver. Fiquei um pouco nervoso com aquilo. Não. Mentira. Fiquei muito ansioso com aquilo. Porque a gente vê tanta coisa incerta por aí. Tanta discórdia, tanta bagunça. Mas às vezes no meio do caos, aparece uma saída. E em relacionamentos, é comum acreditar que só vingam mesmo aqueles que estão livres de qualquer expectativa. Os que começam de uma hora para outra, continuam sem aviso ou direção, e que quando a gente finalmente pára pra ver, já se passaram semanas, meses, anos. Vidas em lados opostos que de repente se esbarraram e passaram a evoluir em conjunto. Com um “oi”, seguido de um “bom dia”, até finalmente um “estava pensando em você!”. E agora a gente vai se encontrar... Uau.

***

Caso você nunca tenha relatado algo similar para algum amigo seu em segredo dos seus outros amigos em comum, fosse por vergonha ou desesperança, meus parabéns. Você faz parte de uma raça mais desenvolvida emocionalmente que possui uma compreensão mais sincera e realista dos relacionamentos humanos, independente de atualmente fazer parte de um ou não. Ou talvez você só não tenha espaço de armazenamento suficiente para aplicativos supérfluos no seu telefone, o que também é perdoável. Agora, meu amigo, se você possui a última atualização do Tinder instalada no seu iQualquerCoisa, então chegue mais perto. Vai ficar tudo bem.

Não, eu não conheci ninguém. Na verdade até já conheci algumas pessoas, sim. Mas ao contrário dos anúncios que eu já vi por aí, do tipo “encontrei-o-amor-da-minha-vida-em-uma-rede-social!”, meus amores foram tão eternos e estáveis quanto um sinal de Wi-Fi. Que fique registrado: eu acredito sim que vários casais já se encontraram nos Tinders, Badoos e Pares Perfeitos da vida virtual. E renego todo e qualquer julgamento que possa ter sobre isso. Porque, convenhamos, eu só não tenho a última versão do Tinder instalada porque meu armazenamento não permite. Mas isto não faz de mim nem melhor, nem pior do que ninguém. Apenas humano.

A gente brinca muito sobre isso. Eu mesmo poderia descrever abaixo uma série de contos das minhas próprias desventuras na terra dos relacionamentos imaginários em suas versões para Android. Mas ao contrário do humor – que eu jamais vou negar que existe nessas coisas – eu consigo enxergar o porquê de existirem tantos canais para tentativas de relacionamentos entre pessoas. E é o mesmo motivo que te irrita quando o próprio Tinder parece desistir de você ao mostrar aquela mensagem:

“Não há ninguém perto de você”

Eu sei disso, Tinder! Por que acha que estou aqui, no fim do meu dia, já deitado e tentando pegar no sono, insistindo em deslizar meu dedo para esquerda e para a direita nas fotos que aparecem em você?! Agora pare de me humilhar ainda mais e carregue logo mais perfis para que eu encontre logo o amor da minha vida. Ou será que vou ter que reiniciar o modem de novo?!

Talvez no fundo eu ainda seja um otimista sobre amor e relacionamentos. Por mais que eu não tenha a menor noção de como essas coisas realmente funcionam. Mas o que leva as pessoas a fazerem o download desses aplicativos, ou a preencherem questionários virtuais sobre quem são e o que procuram, ou a marcarem encontros com pessoas sobre as quais só possuem pequenas notas e pistas de quem são, é porque elas estão tentando se conectar com alguém. Porque não há ninguém por perto e às vezes seria bom ter. Porque parece tão ruim admitir isso?

Eu admito já ter ultrapassado a minha cota de primeiras conversas, relacionamentos imaginários e franquias de internet no celular ao conectar o Tinder em um lugar onde não há Wi-Fi. Eu admito que já estive e muito à procura de alguém, mesmo que fosse só para trocar algumas idéias, ou quem sabe até marcar um encontro. Um jantar, um cinema, um drinque. São necessidades humanas que nós mesmos reprimimos porque parecem indecentes. Sentir-se só, no fim do dia, já com as luzes apagadas e com o resto do mundo offline até a manhã seguinte... Seria bom ter alguém para conversar. Alguém novo. Alguém por perto. É por isso que a gente continua tentando. Nem que seja para ter alguma história para contar depois.

Não, eu não encontrei o amor da minha vida no Tinder, nem em qualquer outra rede social. Mas as mulheres que conheci – e as que não conheci propriamente, também – ainda me inspiram a continuar tentando. E talvez esta seja mesmo a graça: a procura. Porque amor, amor mesmo, não pode ser algo que seja possível perder para sempre caso a nossa internet se desconecte sem querer antes de que eu possa lhe oferecer um coraçãozinho verde. Acho que é algo mais profundo que isto.

Tem que ser...

(Escrito em 18/10/2015)