sexta-feira, 30 de junho de 2017

Quem é você agora?


Entre todas as coisas das quais eu sinto falta nesta vida, o vazio que mais me entristece é aquele com o meu próprio formato. Tem dias em que o eco da pessoa que eu costumava ser tão soa tão alto ao ponto de me incomodar, mas seu impacto sempre me encontra à noite, entre o momento em que eu deito minha cabeça no travesseiro e a odisseia que se passa dentro dela até a manhã seguinte. Aqui e agora não me refiro à eventual maturidade pela qual todo mundo passa, conforme a vida adulta se encarrega de roubar o que nos resta de inocência e despreocupação perante ela. Só quero dizer que... Eu não sei. Algo vem acontecendo nos últimos anos, meses, semanas... Ou, melhor dizendo, nada mais acontece. Nada mais me inspira, emociona, anima. Os dias, assim como os problemas, vem e vão. E o que fica, sinceramente, não me parece ser o bastante.

Eu não gosto de ser tão problematizador. E nem gosto de usar palavras tão complicadas assim também. Houve um tempo em que a vida costumava ser mais simples, mais leve... E a pessoa que eu costumava ser – a pessoa que eu gostava de ser – parece ter morrido um pouco a cada dia que passou, e que me trouxe até aqui.

A você que está lendo isto agora – é, você mesma – eu tenho que confessar que sinto muito.

***

Gostaria que você tivesse me conhecido por inteiro, e não quebrado do jeito que estava quando me encontrou. E eu sinto muito se, em parte, quebrei você também. Às vezes quando se passa muito tempo sendo vitima de eventos infortúnios e pessoas incompletas, não como evitar provocar este mesmo efeito às pessoas que você conhece desde então. Claro que isto não é uma desculpa para o meu comportamento, nem uma justificativa determinista para apaziguar a minha consciência.

A verdade é que eu amei pouco você. Menos do que admitia estar sentindo. Não por maldade ou falsidade. Eu só não sei amar. E parecia bem mais fácil abandonar você, julgando que você também não sabia, do que admitir a realidade. Quem não sabe amar, também não sabe reconhecer quando é amado.

E se eu te mandei embora, e desapareci... Bom, isto é só mais um sinal de quem eu sou agora. Quem eu costumava ser jamais mandaria alguém embora – não ao menos sem uma explicação. Mas pessoas em quem eu confiava, e até mesmo amava, desapareceram da noite pro dia para mim. E a herança que deixaram, no abismo das suas reticências, foi a noção de que isto é normal. Desistir é normal. Desapegar é aconselhável. Dar uma segunda chance é impensável. Criar expectativas é o começo do fim.

Não gosto desses valores, nem do efeito que provocaram na minha vida de uns tempos e pessoas pra cá.

De vez em quando você precisa se perguntar, “quem sou eu agora?” E se a resposta te impedir de dormir à noite, algo precisa ser feito. Eu não sei o que farei ainda – “mudar” parece abstrato demais para ser prometido, sem ter ao menos um plano em mente. Mas o status quo não é mais uma opção. Inércia não deve fazer parte do meu vocabulário. E não há nada de ridículo em sorrir em fotos ou deixar de franzir a testa ao escutar algum absurdo.

O objetivo disso tudo não é ser feliz? Por que eu fujo tanto disso então?

Ah, disso eu me lembro. Me disseram que eu não era capaz de sossegar. Que ser inquieto, neurótico, inconstante e destrutivo fazem de mim quem eu sou. Só para jogar na minha cara logo em seguida que a mulher da minha vida – a mulher com quem eu sonho, para quem eu escrevo e por quem eu choro – não existe. E o dia em que eu comecei a morrer foi quando comecei a acreditar nisto. Dia após dia, ano após ano, decepção após decepção, eu desapareci.

Não é só você quem sente a minha falta.

***

Isto é só um texto. O último por um tempo, até que eu consiga recuperar meu fôlego. E quem sabe, se eu tiver sorte, também consiga recuperar um pouco de quem eu costumava ser também. Porque se você foi embora, certamente teve seus motivos. E a minha parcela de responsabilidade está entre eles. Se há alguma chance de aprender a amar, perdoar e dar segundas chances, preciso começar comigo mesmo. E pra ser sincero, isto é algo que eu também recomendo a você. Todos nós temos os nossos defeitos, mas foi preciso duas pessoas para fazer com que “nós” também deixasse de existir.

Quem é você agora?

quinta-feira, 29 de junho de 2017

A estrada adiante

Existem várias teorias sobre o Universo. Há quem diga que está em constante expansão, assim como há quem diga que ele irá se autodestruir eventualmente. No final das contas tudo se resume ao otimismo ou ao pessimismo com o qual você encara a vida que tenta viver dentro dele. Particularmente falando, só há uma certeza sobre o Universo na qual eu realmente consigo me apoiar: seja lá qual será o seu fim, seus meios definitivamente não são sutis. E antes que você venha me perguntar sobre o que me deixou tão filosófico desta vez, não foi nada grandioso como uma chuva de meteoros ou místico como um eclipse lunar. Foi uma frase escrita na parte de trás de um caminhão: “Tudo muda”.

***

Eu ando tão afundado na minha rotina que sempre me surpreendo quando redescubro o resto do mundo que existe ao meu redor. Claro que às vezes o movimento que me tira da inércia nem sempre é benéfico: é na rotina que brotam alguns dos sentimentos mais tóxicos para um ser humano, como a fadiga, a paranoia e a solidão. Ou você quer tentar me convencer de que o motivo pelo qual você foi atrás de visitar o perfil do Facebook daquela pessoa em particular era puro e inocente? Não se fala de desentendido; você sabe do que eu estou falando.

E até aí, tudo bem. Confesso que eu estava me sentindo um pouco esquecido, quando decidi revisitar as teclas do teclado que juntas escreviam aquele nome que minha boca não mencionava há tempos. Uma das garotas com quem saí este ano, em minha tentativa de ser mais proativo sobre minha vida pessoal, mas cuja empreitada tem se tornado cada vez mais desafiadora a cada nova decepção. Neste caso, foi um encontro incrível – daqueles que faz você perder a noção da hora, de todos que passam por vocês e sua conversa interminável, e de como você pôde viver até então sem conhecer aquela pessoa.

Eu realmente gostei dela; tanto que fiquei extremamente nervoso só de pensar em tentar dar aquele passo adiante em nosso encontro. Aquele momento definitivo que pode nos inspirar a marcar um segundo encontro, ou a deletar o contato da nossa agenda para sempre: o primeiro beijo. Eu não tive coragem, mesmo que já estivéssemos caminhando de mãos dadas pelas ruas da cidade, sem nos importar com qual rumo nós iríamos tomar porque o seguiríamos juntos.

Mas eu não o fiz. E com o passar dos dias, aquelas conversas intermináveis acabaram por se esgotar, e a data para um segundo encontro nunca foi marcada. Até onde eu pude concluir, e pelo pouco que conheci sobre ela, ela imaginou que eu não estava interessado o bastante. E não havia tempo a perder; ela queria algo sério. Algo que ela decidiu que não encontraria em mim.

Eu não tenho sentimentos remanescentes sobre aquela noite, mas guardei comigo a lição de que se duas pessoas decidem arriscar deixarem suas zonas de conforto de lado para se conhecerem, o mínimo que você pode fazer é que a experiência valha a pena – e isto inclui o beijo que ambos saíram de casa imaginando em dar, mas sem saber exatamente como chegar até ele.

Já se passaram meses desde aquele encontro, mas a lição continua comigo. Tanto é que me peguei reescrevendo seu nome para visitar o mural virtual que ela mantém sobre os acontecimentos mais recentes da sua vida. A tragédia de todo “stalker” é invariavelmente descobrir que o que ele mais teme é verdade: ela estava decididamente mais feliz do que jamais estaria caso tivesse ficado comigo. Mais do que envolvida em um novo relacionamento, ela já estava prestes a começar sua própria família.

***

Dia desses eu estava passando por uma outra rua da cidade que há tempos evitava. Porque nela ficava uma empresa na qual eu fiz não uma nem duas, mas quase uma semana de entrevistas e treinamento para tentar ser selecionado para uma vaga que parecia ser boa demais para ser verdade. Horários flexíveis, salário modesto, uma adição espetacular ao meu currículo, tudo muito impecável e com potencial de fazer a minha vinda para Foz do Iguaçu enfim valer a pena. Porque seria com aquele salário que eu bancaria o meu sonho de retomar os estudos para me tornar um jornalista.

Mas como é de se esperar da vida, toda expectativa do mundo jamais será recompensada. Muito pelo contrário; mais vezes do que outras, o pior acontece. Eu não fui selecionado. Mesmo depois de abrir mão de várias oportunidades em nome daquela, mesmo acreditando que tudo já estava praticamente acertado para o meu recomeço profissional, e mesmo que eu já tivesse cometido o erro de deixar o meu sonho depender de algo que ainda era incerto. Não fui escolhido. E só o baque de ver o meu sonho se perder foi o bastante para me deixar de cama por alguns dias. Isto é, até ser salvo pelos meus pais, que fariam o possível por mim enquanto eu ainda não conseguisse me sustentar sozinho.

***

O motivo pelo qual eu estou revisitando esses episódios é simples. Quando ambos acabaram por me decepcionar, eu sinceramente acreditei que o restante do meu ano já estava perdido. Duas semanas após os brindes de frisante, os votos de saúde, alegria e as promessas para um ano melhor, eu já estava recluso em um quarto escuro e fechado, contando os dias para ouvir os próximos fogos de artifício. Tentar novamente parecia inimaginável. Acreditar que poderia dar certo parecia impossível.

Só que um dia desses, rodando a cidade por caminhos que há tempos eu não trilhava, acabei por reencontrar meus traumas de maneiras mais inesperadas do que eu sequer podia imaginar. Ao passar pelo lugar onde havia encontrado aquela garota pela última vez, decidi enfrentar meus medos e dar aquela espiada online para ver se ela estava mesmo tão feliz quanto parecia. E talvez ela esteja – certamente é o que eu desejo a ela – mas depois de meses acreditando que ainda havia algo dormente em mim sobre isto, eu descobri: não há.

Ela foi a primeira garota a segurar a minha mão na sua, depois de meses que passei tentando estabelecer o meu lugar em Foz do Iguaçu. E no final das contas, eu o encontrei: só não era ao lado dela. E como se não fosse o bastante, acabei passando pela rua daquela empresa que me prometeu que também haveria um lugar para mim ali, só para levar o susto de ver que sua fachada havia sumido. Sem nenhum aviso de mudança de endereço ou coisa parecida. Somente a placa de “aluga-se” para quem estivesse interessado no imóvel.

Acontece. Encontros podem ser incríveis, mas também podem ser experiências únicas. Entrevistas podem ser promissoras, mas também podem acabar ecoando na incerteza. E enquanto nós continuamos vivendo sob as noções do que poderia ter sido, nas oportunidades que perdemos, e aparentemente perdidos sobre qual rumo seguir agora, eis que surge o Universo e sua sabedoria infinita na forma mais inesperada possível: através de um caminhão que surgiu na minha frente no trânsito, enquanto eu viajava rumo à Cascavel por uma tarde para resolver assuntos inacabados, antes de retornar para Foz do Iguaçu onde minha vida nova e meus compromissos estavam a minha espera.  E escrito em uma das suas portas traseiras, estava a inegável verdade: “Tudo muda”.

Eu comecei o ano cheio de planos. Planos que se desfizeram mais rapidamente do que as decorações de Natal que ainda estampavam a cidade. E por um instante eu pensei que tudo estivesse perdido. E por alguns meses ainda acreditei que não haveria como retomar o meu rumo para este ano. E quando eu menos esperava, tudo mudou. Outras pessoas surgiram, assim como novas oportunidades. Ambas, inclusive, que me trouxeram ainda mais próximo do meu sonho – hoje uma realidade muito feliz em minha rotina diária. Mas eu não sabia de nada disso, e como poderia? O que só me faz pensar que não importa no que eu acredite, ou o quão perdido eu me sinta, nenhum de nós sabe o que está reservado para nós rumo à estrada adiante. Só o que podemos fazer é continuar seguindo em frente.

Felizmente, a falta de sutileza do Universo é o que nos salva todas as vezes. Basta você prestar atenção nos sinais.

*Escrito em 25 de setembro de 2016.

terça-feira, 27 de junho de 2017

O verdadeiro eu


Você é o que escreve. Não é a toa que ultimamente ando vivendo com base em edições e republicações de devaneios passados. Este é o inegável reflexo de alguém que anda demasiadamente fixado na estrada que ficou para trás, em vez de se concentrar no que pode estar adiante. Parecia mais fácil procurar uma emoção familiar ao que estivesse sentindo em um catálogo pronto, do que colocar-me na posição mais vulnerável de todas: a da originalidade do presente, e quaisquer sentimentos que estivessem implicados nisto. A verdade é que eu não queria escrever exatamente porque não queria dizer em voz alta o que estava sentindo. Não por não saber como descrever o que está acontecendo; exatamente o contrário. É por reconhecer muito bem o que é isto. Algo que eu prometi a mim mesmo que não sentiria mais.

Eu me sinto sozinho.

***

Durante os primeiros meses em Foz do Iguaçu, tudo o que eu conseguia pensar era: “O que será que vou conseguir fazer aqui?” Havia projetos, idéias, expectativas. Esperança. Uma noção vaga em questão de detalhes em específico, mas rica em palavras-chave e perspectiva de que, assim como David Bowie indagava se existiria vida em Marte, haveria sim uma vida em Foz do Iguaçu para mim. E depois de esperar, assistir séries para me distrair, aprender a cozinhar, correr alucinadamente por aí até, enfim, começar uma nova faculdade que levaria até o sonho que pensava ter abandonado anos atrás, mas que ainda vivia em mim e agora estava prestes a começar a se realizar, eu consegui. Existe vida em Foz do Iguaçu afinal de contas. Qual o problema então, Igor? Não é isso que você queria?

Era sim. Mas faltou algo... Aliás, faltou alguém.

***

Eu tenho um histórico na vida. Longo, distorcido e bem longe de ser memorável. Mas é o que eu tenho para relatar quando meu inventário é obrigado a ser revelado. Seja em entrevistas de emprego ou tentativas de me relacionar com alguém. A essência é a mesma: todos querem saber por onde e por quem você já passou, e do que você é ou já foi capaz de fazer, para considerar se lhe dão ou não uma chance. Meu problema tem sido em conseguir uma oportunidade. Uma tentativa de demonstrar todo o potencial que ainda guardado aqui, empoeirado e definhando, enquanto poderia estar por aí tomando mais sol e reclamando com mais causas do que mero ócio. Mas isto não me incomodava tanto antes. O problema no começo estava em me sentir como se não fosse ninguém aqui. Ou então, alguém que não possuía uma definição curta e direta para quando fosse abordado por seja lá quem fosse que se interessasse em perguntar: “O que você veio fazer aqui?” Algo que era sempre respondido com um projeto futuro, automaticamente seguido por uma enorme frustração passada.

O problema foi que hoje, ao andar pelas ruas da cidade, entre um pequeno afazer e outro, eu pensei pela primeira vez: “O que estou fazendo aqui realmente?

A resposta estava guardada em mim já faz algum tempo, mas era melhor se permanecesse latente. Escondida entre as linhas de alguma republicação antiga, acompanhada por uma trilha sonora mais recente, e uma fala aparentemente despreocupada do tipo: “Achei que combinava. Não quer dizer necessariamente que eu esteja me sentindo assim hoje”. E negar que estava me sentindo assim não foi apenas mais um sintoma; foi o fator determinante.

Não se trata mais do que eu vim fazer aqui, mas com quem eu não ando compartilhando tudo isso.

***

Talvez eu não queira um relacionamento. Na verdade eu sei que não quero um. São complicados, enrolados, consumidores, dramáticos, estressantes e enfadonhos. Isto sem considerar o quanto eu tenho pavor de depender de outras pessoas – até mesmo emocionalmente. Mas é este o ponto em que chegamos; a carência e o medo escondidos por trás da aparência de auto-suficiência e da ironia. E já passou da hora de compartilhar isso com quem se interessar em passar os olhos por isso, porque talvez admitir que eu sinta falta de “alguém” seja a verdadeira demasia. Talvez, na melhor das hipóteses, eu só precise mesmo de um amigo gordo para me fazer companhia no final do dia, entre rodadas de cerveja, para que me escute mesmo quando eu realmente não quero dizer nada.

E é por isto que eu ainda tenho minhas dúvidas sobre o que realmente estou fazendo aqui. Ênfase no “real”. Enquanto eu não der à cidade e a todos que eu acabe por encontrar nela uma chance de verdade para que conheçam o verdadeiro eu, não haverá metáfora, ironia ou marco turístico que me satisfaça por aqui.

Este sou eu, tentando. Só o que me resta agora é enfrentar o meu maior medo: descobrir se será recíproco.

segunda-feira, 26 de junho de 2017

Personalidades no limite II


Algum tempo atrás, eu me peguei pensando e escrevendo sobre fronteiras. Algo corriqueiro em se tratando de uma cidade como Foz de Iguaçu, completa com saídas de emergência para não um, mas dois países à sua escolha, caso opte por fugir da nossa atual decadência geopolítica. E ao considerar o significado de fronteiras além das definições geográficas usuais, pensei sobre aquelas que eu ainda não me sentia capaz de atravessar. Sempre penso em Foz do Iguaçu como um centro de possibilidades mais amplo e internacional do que qualquer outro em que eu já vivi. Meu problema estava em descobrir exatamente o que fazer com elas.

A melhor – e talvez, a única – estratégia que bolei para mim foi, primeiramente, sair por aí e conhecer pelo menos o que havia ao redor da minha casa. Uma rua paralela aqui, uma avenida principal ali. Padarias ridiculamente extorsivas, academias que nunca frequentarei, um bar de arguile que misteriosamente nunca parecia ter clientes. Hotéis, hostels e sacolões de hortifrúti. Entre estabelecimentos de serviço e restaurantes estrangeiros, só de conhecer um pouco o meu próprio bairro já me ajudou a reconstituir meu senso de segurança. Algo que, por via de regra, é a primeira coisa a ser quebrada em toda mudança – seguido, invariavelmente, de copos e pratos mal embalados.

Sabendo por onde andar, restava encontrar uma finalidade para essas ruas. Alguém para marcar um encontro por aí, ou para simplesmente andarmos sem rumo avenida afora até a primeira curva que surgisse no nosso caminho. E por um tempo eu tive encontros (alguns bons, outros esquecíveis), conheci pessoas diferentes e aprendi a dar orientação para ajudar turistas a chegarem até o terminal de ônibus. Mas a sensação de que eu ainda era um deles permanecia comigo a cada parada. Mudar de um ponto A para o B é fácil, mas e quanto a pertencer a este lugar?

De vez em quando eu ainda me sinto um estrangeiro, tentando sobreviver entre os estabelecidos que nasceram aqui ou apenas chegaram antes de mim. Mas aí tem vezes em que eu me surpreendo quando me pego dando direções à estas mesmas pessoas. Como assim você mora aqui e nunca visitou o Templo Budista? Como assim você não sabe qual ônibus leva até o centro de visitantes das Cataratas? Como assim você não sabe aonde fica o terminal?!

A verdade é que estamos todos perdidos, em busca de algo ou alguém que nos oriente. Por anos eu fiz amizades que serviram de guias turísticos para me ajudarem a desbravar os admiráveis mundos novos que existiam dentro da nossa própria cidade. Fronteiras que, por algum motivo, não nos era interessante atravessar antes. E eu entendo isso agora. Algumas fronteiras simplesmente não foram feitas para serem atravessadas sozinho. Há quem diga, inclusive, que tal travessia solitária – em se tratando de relacionamentos – é impossível. Por que não, então, parar e pedir informação? Ou quem sabe, ter um pouco mais de iniciativa em se tratando do mundo além do seu próprio bairro – ou do seu próprio umbigo.

Eu fico constantemente maravilhado com as coisas e as pessoas que descubro por aí. Assim como fico feliz em compartilhar o meu mundo com aqueles que se interessem por anotar o meu endereço, e por vir conhecer um pouco mais sobre mim do que apenas o meu nome. Ou a minha fama de comentários sarcásticos infames que parece sempre me preceder. Há um mundo enorme lá fora, é verdade. Mas às vezes ele nem se compara ao universo que existe ao nosso lado, e a gente nem desconfia. Talvez em uma rua pela qual você nunca andou antes, ou talvez em alguém que você nunca cumprimentou.

Às vezes parece mais fácil esperar em uma fila para cruzar uma “aduana” do que tentar conhecer alguém novo. Ironicamente, a burocracia envolvida é a mesma.

quinta-feira, 22 de junho de 2017

Agonia e ex-tase


Nós terminamos. Não era isso que você queria quando decidiu sair da minha vida? Bom, aqui estamos nós, querida. Separados. Exilados. Finitos. Não conseguimos ser felizes juntos, ao que parece, e não há mais o que fazer a não ser aprender a lidar com isso. Mesmo firmando todas aquelas promessas durante as nossas primeiras conversas, sobre não desistir, não render-se e não desaparecer. Alguns compromissos parecem tomar uma forma séria demais, pesada demais, para serem levados adiante. Pelo menos foi assim que eu escolhi entender, para a minha própria paz de espírito. Algo deu errado ao longo do caminho, e você não conseguiu mais me acompanhar. Talvez eu tenha apressado as coisas, ou intensificado demais alguns sentimentos que estavam só começando a conhecer a luz do dia. Eu não sei. E talvez eu nunca descubra qual foi o motivo exato que provocou a sua partida.

Mas tem algo que você precisa entender, meu bem: não deixe as minhas palavras te enganarem. Sim, eu ainda passo noites sem dormir pensando nisso. E sim, eu ainda tento imaginar como estaríamos hoje. Talvez deitados preguiçosos na cama, pensando em mil planos diferentes para aproveitar o domingo, até enfim nos entregarmos à inércia para permanecermos juntos, abraçados entre os lençóis, enquanto a vida lá fora nos permite desacelerar por um dia. Eu poderia criar coragem para levantar e preparar um café da manhã especial para nós, e trazê-lo até a cama. E poderia me apaixonar por você de novo ao ver os raios de sol entrando no quarto pelas brechas da cortina, iluminando você com uma das alças da camisola caída, o cabelo todo bagunçado, sem maquiagem e sem nenhuma preocupação por isto. Porque você estaria livre para existir sem filtros e sem medos. Afinal, estamos juntos. Em casa. Do jeito que sonhávamos que estaríamos.

É claro que eu ainda penso nisso. É o meu jeito de sentir a sua falta – em literatura, em devaneios e até mesmo em trilhas sonoras. Tudo muito poético, emocionante, carinhoso... Mas permita-me ser sincero, amor: eu não quero você de volta. Porque você teve a sua chance. E apesar de todo o amor que existe em mim – o amor que eu desesperadamente tentei oferecer a você – eu prefiro guardá-lo para mim, do que arriscar ser abandonado no vácuo de novo.

E você sabe disso.

Você sabe que não deveria ter me deixado. Senão por que ainda estaria aí, acompanhando fielmente os meus devaneios infames? Apenas esperando por um sinal que confirme que ainda penso em ti. Procurando incessantemente por alguma indireta que remeta a um dos momentos que compartilhamos que possa significar que ainda há esperança para nós. E é aí que reside a tragédia, que talvez seja o único sentimento que anda nos mantém juntos: eu me lembro de tudo.

***

Eu me lembro da primeira vez em que criei coragem de olhar nos seus olhos. Aqueles olhos que pareciam me seduzir e me decifrar com uma facilidade assustadora. Capaz de me inspirar a abrir mão das minhas defesas, e até mesmo dos meus medos, para arriscar segurar a sua mão logo após ter a felicidade de conseguir fazer você rir. E diante daquele sorriso, aqueles lábios, não havia mais nada no mundo que importasse. E me lembro que quando beijei você, eu não queria mais parar.

Você conseguia ser tão envolvente, tão viciante, que me fazia querer perder o controle. Logo eu, tão metódico e organizado, só conseguia pensar nas minhas mãos na sua cintura, arrancando a sua roupa e atirando-a para longe, enquanto meu corpo colava-se ao seu ao som do seu fôlego se perdendo. E ao passarmos para a horizontal, não havia mais limites nos impedindo de nos tornarmos um só foco de calor, prazer e êxtase. Cada vez mais forte, intenso, úmido. Sentindo o toque suave da sua pele em contato com a minha, enquanto você implorava que eu não parasse por um só segundo, mesmo que o mundo estivesse acabando lá fora. Nada mais importava, a não ser você e eu, juntos, movendo-se ao mesmo ritmo e abdicando por completo de qualquer temor ou indagação. A satisfação da redenção talvez fosse a maior fonte de felicidade que você já havia conhecido até então.

Você nunca se sentiu tão livre como esteve durante aquelas noites nos meus lençóis.

***

O problema, minha linda, é que eu também me lembro dos momentos fora dos lençóis. Me lembro dos planos que você desfez em cima da hora, e de me deixar sozinho em casa para que pudesse atender a outros eventos aparentemente mais importantes do que nós. Me recordo com clareza de criar coragem o suficiente para perguntar quando nos veríamos de novo, só para ser visualizado, ignorado e abandonado. E eu definitivamente jamais esquecerei do que me disse quando tentei entender porque você estava me deixando:

- Você poderia ter dito que não gostava de mim.
- Não é que eu não goste de você.
- O que é então?
- ...

Aliás, nunca me esquecerei do que você não disse.

***

Eu gostaria de ser feliz com alguém. Claro que é difícil. Envolve sacrifícios que você nunca pensou que precisaria fazer um dia, além de muita dedicação, paciência e confiança que devem estar envolvidas o tempo todo. Mas quando há sinceridade, companheirismo e afeto, não há nada que nos impeça de sermos mais um daqueles casais clichês que passeia de mãos dadas no shopping, depois de visitar algumas lojas de departamentos para pesquisar preços de jogos de lençóis. Antes de passar no mercado para comprar as coisas que faltam para fazer um jantarzinho romântico a dois, que servirá de prelúdio para a estreia da cama nova.

E por um tempo, eu pensei que podia ser a gente. Tínhamos tudo para conseguir abrir mão do carrossel incessante de frustrações e cansaço envolvidos em primeiros encontros, segundas intenções e indiretas escritas em terceira pessoa. Mas você me deixou, amor. Mudou de ideia na metade do caminho e foi embora, sem nem me dar a cortesia de um motivo ou um adeus.

Você, que já significava mais do que tudo para mim, tornou-se nada. Um contato a mais na minha agenda e uma decepção a mais no meu coração.

Eu tentei. Queria ser o primeiro a te desejar um bom dia, e o último a te dar um beijo de boa noite antes de dormir. Queria o êxtase das noites de sábado, e a preguiça das manhãs de domingo. Queria as mãos dadas no shopping, e os corpos entrelaçados na cama. Queria pecar pelo excesso, pelo exagero e pela infâmia, do que pela falta, pelo descaso ou pelo descuido. Queria que você não tivesse dúvidas de que eu estava mesmo à procura de algo sério. Desesperado para descer do carrossel, e construir algo contigo que fosse digno do que nós dois merecemos, e aconchegante o bastante para receber os amigos para jantar nos finais de semana. E é por saber que eu tentei – e como eu tentei – que eu não me arrependo dos desabafos, dos devaneios e do desespero que ainda restam em mim. E, definitivamente, não me arrependo em ser claro e objetivo em dizer que não quero você de volta. Eu estava aí, coração, entregue a você. O mundo já sabia que eu era seu. Só você não me viu. Mas nós terminamos e agora você está aí, roendo as unhas, agoniada na cadeira ao ler isto, desencantada com a minha frieza.

E, ironicamente, só há uma coisa que você pode fazer agora para se sentir melhor: me abandone de novo.

quarta-feira, 21 de junho de 2017

Não sei porque você se foi...

É claro que eu sinto a sua falta. Você sabe disso, porque eu nunca fui bom em disfarçar o meu amor pela vida afora. E eu sei que você sente a minha. Senão o que mais justificaria estarmos aqui? Conversando indiretamente? Pensando seriamente em como seria bom deixar o orgulho de lado para te desejar um bom dia mais uma vez. Mas eu não posso fazer isso. Ou não devo? Eu não sei. As coisas andam tão confusas desde que você se foi. E por mais que eu soubesse que ficariam assim, eu ainda tive esperanças. A mesma esperança que me motivou a cumprimentar você pela primeira vez.

Ninguém começa nada imaginando em quando ou como irá terminar. Foi assim que eu encontrei você: esperando inocentemente pelo melhor. Mas parte de mim – aquela que eu comentei contigo, cheia de traumas, cicatrizes e medo – permanece invariavelmente alerta aos sinais de que o fim está sempre próximo. A cada resposta impensada, cada movimento brusco, cada olhar desencantado. Eu não te avisei que as pessoas sempre vão embora? Não te disse que havia algo de errado comigo? Mas você disse que era só coisa da minha cabeça, que eu devia relaxar, e que tudo ficaria bem.

Bom... As coisas não estão bem, querida.

***

É como se um vazio imenso existisse em mim agora. E que só aumenta com cada coisa que eu precisava desabafar, mas que de nada adiantaria ser dito se não fosse a você. Começando pela pergunta que me mantém acordado à noite, virando de um lado pro outro em constante indignação: por que você sumiu?

O que te fez ir embora? Foi alguma coisa que eu disse? Algo que eu fiz? Ou então, algo que lhe fazia falta, e que você automaticamente presumiu que eu não seria capaz de proporcionar? Parece mais irônico do que triste; sentir que algo lhe faz tanta falta em alguém, ao ponto de preferir fazer falta para ela também. E por mais que eu seja obrigado a dizer que entendo esse tipo de movimento, eu... Não entendo. Até mesmo quando quem partiu fui eu.

Mas você disse que seria diferente. Disse que eu podia confiar. Prometeu que estaria aqui.

***

Algumas perdas doem mais do que outras. Quando as pessoas se vão por causas naturais, a indignação eventualmente cede seu lugar à aceitação. Somos seres naturais dotados de uma vida finita em um mundo inconstante. A partida é a única certeza. A imutável definição que tomará conta de nós mais cedo ou mais tarde. Mas quando as pessoas partem só para longe de nós, e ainda permanecem no mesmo mundo que a gente, é como se eu morresse de novo e de novo e de novo a cada encontro inesperado na rua. Revivendo o choque e a desilusão de que você está por aí, livre, sendo mais feliz do que pensou que poderia ser ao meu lado. E é um direito que a gente tem, sem dúvida. Desapegar-se de algo ou alguém que já não combina mais com a gente, para seguir um caminho por conta própria pode ser mais saudável do que passar uma vida inteira acorrentado a um compromisso com outra pessoa que simplesmente não nos entende. Ou pior; uma pessoa que simplesmente não se importa se estamos ali ou não.

Eu só queria que você tivesse sido sincera. Tão sincera quanto eu tentei ser ao entregar as minhas dúvidas, meus sonhos e todo o meu amor em suas mãos. Entendendo que você queria recebê-los. Confiando que você ia cuidar da gente também.

Por que você teve que ir embora?!

Eu fico constantemente assustado com o quão rápido nós passamos da mais profunda intimidade a nada. Deixando toda a cumplicidade, as piadas bobas, o gosto do seu beijo, o toque suave da sua pele, o cheio apaixonante do seu perfume, se perderem em reticências que nunca levarão a uma explicação.

Você só sumiu. Da noite pro dia. E não a nada que eu possa fazer senão superar. Aceitar. E encontrar em mim de algum jeito, fôlego e forças para tentar mais uma vez com outra pessoa. E eventualmente eu conseguirei fazer isso. É claro que conseguirei. Eu mesmo me assusto com o otimismo e a esperança que ainda vivem em mim.

Mas existem dias como esse. Em que eu preciso parar e confessar o quanto eu honestamente, loucamente e profundamente gostava de você.

terça-feira, 20 de junho de 2017

O escorpião e o escritor


Dedicado a todos com quem eu fui menos gentil do que deveria. Não quero que esta seja a minha natureza a ser lembrada.

***

Você já deve conhecer essa história. A velha fábula sobre um escorpião que queria atravessar um rio, e pediu ajuda a um sapo que estava ali por perto. O sapo não queria ajudar o escorpião por medo de que ele o ferisse, mas o escorpião jurou não lhe causaria mal se ele pudesse conceder sua passagem até o outro lado. Argumenta, inclusive, que se por acaso fizesse mal ao sapo, ele mesmo se afogaria no rio, então não havia motivo para o sapo se preocupar. Mas quando o sapo opta por ajudar o escorpião a atravessar, ele lhe dá uma ferroada na metade do percurso. Antes de morrer, o sapo ainda tenta entender porque o escorpião o ferrou, mesmo sabendo que isto condenaria a ambos. O escorpião simplesmente responde que esta é a sua natureza.

De todas as interpretações possíveis que poderiam ser tiradas desta história, eu nunca me preocupei com sequer uma delas. Particularmente falando, sempre achei fábulas muito chatas durante a minha infância. Tão previsíveis e sentenciadoras com suas morais ao final... Em se tratando de histórias, eu só queria escutá-las e ser entretido. Não queria aprender, muito menos refletir. Mas aí a gente cresce e invariavelmente desenvolve aquela parte de nós que é definitiva e revolucionária para separar as crianças dos adultos: um negócio chamado consciência. Depois de adquiri-la, você nunca mais é o mesmo, e com ela você aprende a enxergar suas crenças e atitudes de um modo diferente. E por “diferente”, entenda “categórica”.

Não que eu não tenha meus momentos de ambivalência – e como eu os tenho! – mas parece que depois de um tempo, as coisas precisam ser mais bem definidas para que o nosso estado de espírito faça... Bom... Sentido. As coisas precisam ser boas ou más, certas ou erradas, ajustadas à esquerda ou à direita, e por aí vai. E para isso nós buscamos entender cada vez mais sobre nós mesmos, os pensamentos que nutrimos e as maneiras como agimos pela vida afora. Sempre pensando se aquilo foi mesmo o certo a ser feito, ou algo que precisará ser remediado e dolorosamente arrependido, sujeito a contrição e pedidos de desculpas.

É a tragédia humana, no final das contas: quanto mais procuramos aprender sobre a nossa natureza, mais classificações nós descobrimos para nos apoiar. E uma vez que solidificamos as fundações que encontramos para nós mesmos, não há nada que nos derrube. Isto é, a não ser nós mesmos, quando acabamos por ser... Bom... Nós mesmos.

Eu gostaria de ser uma pessoa melhor. Menos grosso, mais paciente. Menos sarcástico, mais gentil. Menos prepotente e mais simpático. Eu pelo menos gostaria de sorrir mais e franzir menos a testa diante de situações em que todos seriam mais felizes se eu guardasse para mim toda a minha ironia e senso de desorientação. Mas não; elas vivem estampadas na minha testa para quem quiser ver. Se você me conhece, já sabe discernir em quais momentos pode se aproximar de mim ou não. Quando estou amigável ou quando estou mal humorado. E se você não me conhece, provavelmente nem irá se aproximar. Nem sempre eu gostaria que meu humor fosse tão transparente, ou que minhas palavras fossem tão ríspidas e dolorosamente verdadeiras, mas eu não posso evitar. É a minha natureza...

Parece uma desculpa tão infame. Como se eu não fosse capaz de mudar se eu quisesse. Como se a minha vida não pudesse ser de qualquer outro jeito que eu pensasse em torná-la, se me empenhasse um pouco em cuidar com o modo como as coisas que quero dizer saem de mim para chegar até você... Mas, psicologias à parte, eu também gosto de me apoiar um pouco em outros tipos de crença. Independente das críticas ou até mesmo da veracidade delas.

Mas a profissão que escolhi agora – e que movi céus e montanhas para torná-la realidade, provando que sou sim capaz de mudar – me leva a ler dezessete tipos de jornais por dia, no mínimo. E em alguns desses jornais existe uma sessão em particular que faz uso de uma classificação tão antiga e mística que, mesmo que você não acredite, às vezes também não consegue deixar de ver se o que está ali, bate mesmo com quem você é. Um negócio chamado horóscopo...


***

Você mesmo já disse, ou então escutou alguém dizer: “Eu não acredito em astrologia... Mas lê aí pra mim o que diz o meu horóscopo hoje.” E é claro que eu já investi tempo e imaginação para pesquisar sobre meus ascendentes, descendentes, mapas, infernos e combinações astrais para tentar entender melhor quem eu sou e porque faço as coisas que faço. A falta de interesse que tive em fábulas quando era criança se virou contra mim na idade adulta, quando tudo o que eu mais procuro hoje é uma direção para seguir, e um sentido para tranquilizar o caos que carrego dentro de mim todos os dias. E se este fosse o final da história, a moral provavelmente seria algo do tipo “antes tarde do que nunca” ou “não há como fugir de quem você realmente é”. O que seria algo bem mais otimista do que dizem os perfis de personalidade sobre homens Escorpianos.

Talvez a minha natureza seja mesmo irônica, e inquieta, e quem sabe até um pouco perigosa. Assim como a sua, porque pertencemos à mesma classe e ao mesmo ecossistema – apenas surgimos de constelações astrais diferentes. Mas não quero assumir certas partes da minha natureza baseado no que fábulas e colunas de jornal indicam que eu seja. Não quero ser iconicamente maquiavélico, utilizando pessoas como meios para algum fim em especial, nem quero morrer de arrependimento por coisas que não disse ou por lições que não quis aprender. Eu admito que existem partes de histórias a respeito do meu suposto caráter mítico que gosto de ter: a fama de sedutor, de cativante, de envolvente... E antes que você pense em dizer o contrário, poupe-se. Se eu não fosse ao menos um pouco assim, você não estaria lendo isso.

Apesar de tudo, é sempre bom procurar aprender o máximo que podemos sobre nós mesmos. Toda fonte é válida – dos horóscopos aos contos infantis. Mas no final das contas, quem saberá dizer do que você é feito, ou o que é capaz de fazer nesta vida, é você mesmo. Em último caso, procure as pessoas ao seu redor e arrisque perguntar o que pensam sobre você. Se deveria mudar ou se desculpar por algo que passou despercebido pelo seu ego inflado. Escute o que elas tem a dizer, e faça algo a respeito se for preciso.

Minha natureza é irônica, arrogante e volátil. Mas também é acolhedora, prestativa e justa. A vida se torna intrinsecamente mais fácil depois que você descobre exatamente em quais adjetivos você se encaixa. Especialmente a vida de um escritor.

quarta-feira, 14 de junho de 2017

O jogo de casal

Finalmente aconteceu. Depois de anos de inércia, indiferença e insegurança, eu decidi tomar uma atitude drástica para a minha vida. O tipo de atitude que, quando a gente se torna um adulto, é preciso tomar para definir de uma vez por todas quem você, é e o que você busca alcançar neste mundo impiedoso e incessante em seus movimentos de rotação e translação ao longo do universo, pelo pouco tempo que nós temos para aproveitá-lo. Eu dei um passo adiante em nome da minha maturidade, minha estabilidade emocional, e talvez o fator mais importante de todos: meu próprio eu. Sim, eu mudei. Serei um homem mais firme, mais recomposto, mais refinado. Determinado a levar minha vida com a destreza, o foco e a ambição que já são presumidas a um jovem de 25 anos que ainda possui uma vida inteira pela frente, mas também não pode mais se dar ao luxo de desperdiçar dias em vão com crises existenciais e desabafos infames, por mais esteticamente organizados que eles aparentem ser para serem chamados de poesias. É, meus amigos... Eu dei um passo adiante rumo ao meu tão famigerado sonho de ser feliz a dois, completo com toda a cumplicidade, o companheirismo e as cobertas que acompanham essa rotina. Estou mais perto da felicidade do que jamais estive antes, e de agora em diante tudo será diferente. E sabe por quê?

Porque eu enfim comprei uma cama de casal.

O que? Não entendeu o que isso significa? É, eu também não entendia...

***

Se eu tivesse que eleger o meu maior defeito, certamente teria que confessar o meu egocentrismo. Aliás; o meu Igorcentrismo. E se tivesse que eleger um segundo lugar a esse pódio, definitivamente cederia a medalha de prata à minha inércia. Antes de ir morar sozinho e descobrir a dor e a delícia de ser o responsável pelo meu próprio aluguel, eu nunca me importei muito com os aspectos domésticos dos ambientes que me cercavam. O que explica o porquê eu sempre ajudei a carregar os mesmos móveis toda vez que a vida fazia necessário o contrato com um caminhão de mudanças para me levar a um novo endereço. Até hoje mantenho a mesma mesa de estudos que apóia o meu computador – e várias das minhas neuroses transcritas. E só a mantenho por ser “madeira boa”, como meus pais costumam chamar, e realmente não há como negar. Materiais mais frágeis não suportariam o peso dos dramas infames que escrevo e arquivo no meu computador há anos.

E através desse sistema de indiferença e terceirização dos meus pertences, patrocinado pelos meus pais, foi como também mantive a mesma cama por mais de dez anos. Estilo box na época em que foi lançada, com espaço embutido para um segundo colchão, em tom bordô e, claro, madeira boa. E foi nela em que passei as noites do final da minha pré-adolescência até os primórdios da minha vida adulta. O corpo cresceu, os sonhos mudaram e o CEP foi alterado várias vezes, mas meu berço juvenil sempre se manteve. Até mesmo quando cheguei a um estágio de vida em que ele, enfim, tornou-se pequeno demais para mim. Isto é, se eu por acaso decidisse não dormir sozinho.

Foi assim que eu comecei a descobrir que, para ter uma vida a dois, antes de mais nada é preciso ter infra-estrutura. Claro, existem vários poetas por aí que falam belamente sobre como é preciso ser feliz sozinho antes de convidar outra pessoa a fazer parte da sua vida. E sobre como é preciso entender do que a sua primeira pessoa do singular é realmente feita, e o que quer desta vida, antes de arriscar tornar-se primeira pessoa do plural com alguém. A transição do “eu” até “nós” não é fácil – gramaticalmente, praticamente, emocionalmente. Mas é com isso que muita gente sonha. E é isso que eu me lembro de querer desde que ganhei esta cama. Mesmo durante os anos que passei sem perceber que uma vida a dois não cabia na minha cama – e que esta metáfora não era uma coincidência.

Porque eu sou um egoísta. E inseguro. E ansioso. E horrivelmente metódico. Gosto de ter controle sobre as minhas coisas; que fiquem exatamente aonde eu as deixei, e – por que não? – que combinem umas com as outras. Coesão é muito importante na vida adulta – desde o modo como você organiza a sua casa, até os seus valores pessoais. Coisas que aprendi depois que fui morar sozinho e passei a ter plena responsabilidade sobre os meus atos, minhas contas e, invariavelmente, minhas companhias. Mas ainda leva um tempo para aprender exatamente o que você quer desta vida, e com quem você quer compartilhá-la. Por exemplo, você pode começar a realmente questionar-se sobre qual tipo de pessoa procura, quais gostos você acredita serem importantes para terem em comum, e quais planos você fizeram separadamente que enfim poderiam ser postos em prática a dois. Ou talvez você nem passe por isso; há quem acorde inocentemente e saia pra vida lá fora e trombe com o amor sem que nem estivesse procurando. E os detalhes vão se ajeitando pelo caminho.

Mas o que eu nunca realmente parei pra pensar – e talvez fosse o motivo pelo qual a maioria dos meus relacionamentos sucumbiu à fatalidade da rotina – é que simplesmente não havia espaço o suficiente para outra pessoa aqui. Nem na minha cama, nem na minha vida. Eu nunca me preocupei com isso. Sempre imaginei que a adaptação ocorreria, mas que eu não precisaria me mexer para isto. Se ela estivesse mesmo interessada, ela ficaria. E se não ficasse, então não era ela. Uma lógica simples, natural e intrinsecamente quebrada.

Por isso eu estou mais confiante hoje. Eu quero mudar. Quero dividir a minha vida com alguém. E quando alguém aparecer, quero que ela saiba que há espaço o suficiente para nós dois aqui. Quero que ela saiba que pode ficar se quiser, pois estará confortável, protegida, apoiada. Pode parecer algo simplório – especialmente se isto é algo que você sempre teve e, portanto, nunca precisou refletir sobre o que poderia significar – mas eu estou disposto a finalmente tentar construir uma vida a dois, começando pelo fundamental. É preciso escolher com cuidado quem você quer levar para a sua cama, mas antes é preciso cuidar para que esteja realmente pronto para recebê-la. Parece ridículo, mas quando você começa a se importar com coisas que envolvem ser um casal – mesmo que seja só um novo jogo de lençóis – você aprende a deixar o seu egoísmo de lado, para que outra pessoa possa se sentir à vontade para viver ao seu lado.

Eu ainda acordo sozinho. Agora com um espaço bem maior para me lembrar de que ainda não há ninguém. Mas o “ainda” não me entristece mais. Este sou eu: mudando, tentando, sonhando.

Boa noite.

*Escrito em 23 de outubro de 2016.

terça-feira, 13 de junho de 2017

Bem vindo ao fim


Eu sinto muito. Permita-me antecipar o questionamento e confirmar que sim; isto é para você, que está lendo agora e pensando que o motivo pelo qual não nos falamos mais é porque estávamos ocupados demais nos engasgando com as coisas que não conseguimos dizer um ao outro. Coisas como “eu estava errado” e “me desculpe”. Caso esteja sentindo a minha falta, e tudo o que você precisava ouvir de mim era o consenso de que esta distância também é culpa minha, sinta-se à vontade.

Porque a verdade é que eu sou mesmo ridiculamente difícil – com ênfase tanto no ridículo quanto na teimosia. E convenhamos, você há de concordar que também é assim. Senão o que mais explicaria as fotos deletadas, as conversas abandonadas pela metade, e o eco que passou a preencher a presença que costumávamos ter na vida do outro? Eu posso ser ruim, meu bem – muito ruim – mas você também não é fácil. E talvez, quem sabe, seja melhor assim. Cada um do seu lado, vivendo a sua vida, tentando não perder tudo o que aprendemos um com o outro. Por mais que no fundo a gente saiba que não seríamos o que somos hoje, nem teríamos tudo o que conquistamos, se por um breve momento da história nós não tivéssemos vivido juntos. Eu não me arrependo. Mas também não quero replay.

***

Eu sempre tive o péssimo hábito de enxergar a vida como uma grande competição. E talvez essa concepção não esteja totalmente errada, pois o que mais justificaria os sentimentos de vitória e perda que sempre oscilam em mim? Mas no nosso caso, enquanto estávamos juntos, parecia que não havia nada lá fora que fosse páreo para nós. Éramos imbatíveis, invencíveis, inigualáveis... até deixarmos de ser. Até nos voltarmos um contra o outro, e que vencesse o melhor. Cegos pela raiva, inconformados com a injustiça, e alucinados pelo poder. Mas... Pelo que estávamos brigando? O que estava em disputa? E até agora eu me pergunto: quem ganhou?

Você era como eu; incapaz de admitir derrota. Mesmo quando não estava exatamente claro o que significava ganhar ou perder em um relacionamento. Em algum momento – aliás, por vários momentos – parecia que estar certo sobre você era o que mais importava. Até mais do que nós. Eis o meu egoísmo, a par com a sua intransigência, lentamente trabalhando para que os momentos mais felizes do mundo que tivemos juntos, passassem a dar um gosto amargo na boca. Eu me importava com você. Queria dividir minha vida com você. Queria ser seu, e que todos soubessem que você era minha. Como foi que nós chegamos aqui? Eu não suporto mais o som da sua voz, ou a dissimulação nos seus olhos. Cheios de prepotência, arrogância e desdém. Agindo com superioridade, só esperando que um dia eu me desse conta de que na verdade era eu quem estava errado. E que eu fosse capaz um dia de amadurecer o bastante para pedir o seu perdão.

Ah, meu bem... Prefiro cortar a minha língua fora, a profanar minhas palavras com tal confissão. E caso todo o nosso amor vá parar nas profundezas do inferno, que seja. Nos vemos lá.

***

Ao menos, era assim que eu me sentia. Com meus dias acinzentados e noites envenenadas por rancor e vaidade. Olheiras e cansaço intermináveis, demonstrando o quanto as minhas forças para lutar estavam chegando ao fim. Até que enfim, o impensável aconteceu. O dia do meu juízo final finalmente chegou. Eu não aguento mais... Você estava certa. Era isto que você queria ouvir?

Eu não me importo mais. Não com isso. Eu quero ser feliz. Ou pelo menos, quero tentar ser menos miserável. Talvez seja melhor admitir derrotas, erros, falhas e desvios de percurso, do que lutar tanto para permanecer estável ou indiferente a algo que costumava significar tanto para mim. Eu amava você. Você ainda consegue me ouvir? Eu amava você! E amei até agora. Até não sobrar mais nada. Bem vinda ao fim.

O oposto de amor não é o ódio; é a indiferença. Porque o ódio ainda mexe conosco. Nos mostra o quanto algo ainda nos importamos, e que mesmo nos nossos piores momentos ainda existe uma chance de voltarmos ao jeito que éramos antes. Inocentes, gentis, compreensivos. Felizes. Mas só enquanto eu ainda permitir que você me mova. E, por Deus, como você me movia! Isto é, até me mover para longe. Tão longe, por sinal, que eu não me lembro mais daquele seu olhar. Ou do tom da sua voz. Ou dos motivos que me levaram para o seu lado em primeiro lugar. Eu não me lembro... E eu não me importo.

Você venceu; seja lá o que isto signifique. Valeu a pena?

*Escrito em 4 de setembro de 2016.

domingo, 11 de junho de 2017

Como se nunca tivéssemos dito adeus

Eu não sei porque ainda me assusto. Sei exatamente como as coisas funcionam. Uma primeira conversa, um primeiro encontro... Um primeiro beijo. É o ciclo natural de qualquer história prestes a se desenrolar. A história de um cara ligeiramente paranoico e uma moça distinta e esperançosa que se unem na esperança de que, mesmo quando tudo já parecia perdido, algo poderia dar certo entre eles. Para eles. Por amor. Não é nada original. Mas ainda me assusta.

***

Eu não ando dormindo bem ultimamente. E por mais que eu gostaria de negar, mentir infelizmente não faz parte da minha personalidade. Principalmente em se tratando de mentir para mim mesmo. Eu não durmo porque passo noites em claro pensando nela. Houve um tempo em que eu costumava escrever me direcionando especialmente a você. Mas você não lerá isso. Não. Você foi embora. Aliás; ela foi embora. E desde então os dias nunca mais foram os mesmos. E as noites, agora, só servem para colocar ainda mais em evidência o vazio que ela deixou. Eu esperava que a escuridão ajudasse a torná-lo menos visível. Mas era à noite o momento em que nos reuníamos, depois de mais um dia longo e exaustivo, e nos apoiávamos novamente nos braços um do outro. Sussurrando levemente que tudo ficaria bem. Repetindo amorosamente o quanto sentimos a nossa falta.

Era de se esperar que os dias passassem mais lentamente, enquanto eu relembro nossos momentos juntos. Mas não. Eu sinto a sua falta dia após dia, semana após semana. E escuto sua voz chamando o meu nome meio a conversas intercaladas em corredores tumultuados. Uma atmosfera poluída e densa, cuja qual não concebe mais a sua participação. Você não está mais aqui. Pra falar a verdade, eu nem sei onde você está. Porque eu não a conheci.

Você é só um sonho. Mais um que eu abandonei pelo caminho. E sabe o que é mais engraçado? Eu também não sei para onde estou indo. Já faz tempo isso. Não é a toa que me prendo tanto aos lugares por onde passei e às experiências que acumulei. Uma vida inteira que poderia ter sido e não foi, reprisada eternamente no retrovisor de um veículo acelerado e sem rumo. É assim que eu vivo. Se puder chamar isso de vida. E eu não deveria me surpreender se me dissessem que atropelei algumas coisas e pessoas pela estrada afora. Com a minha ansiedade e meu desespero dominando o volante. Dirigindo desenfreados por aí, sem saber parar.

Quem sabe você passou por mim, e eu não soube dar o tempo necessário para reconhecê-la. Ou então; não soube esperar para que você mesma me enxergasse. É um drama inegável, que só aumenta com o passar das minhas descrenças. Mas eu nunca resisti a você. Quantas manhãs já passei, pensando enlouquecido em vê-la? E o tempo investido em construir um conto de fadas inatingível em minha mente, só para nós dois, quando ninguém estava prestando atenção? São coisas que guardo comigo há anos, só esperando pelo momento certo para torná-los realidade. O momento certo, a hora certa... A mulher certa...

Você?

***

Eu não quero viver sozinho. Tenho medo e sinto frio. E a verdade é bem menos literária e épica do que eu faço parecer quando me coloco a escrever sobre o que sinto. Na esperança de que as palavras desabafadas façam com que eu me sinta mais à vontade para continuar seguindo em frente. Resultado de promessas desfeitas, mentiras encobertas, olhares dissimulados e desencontros infames que eu tive que superar pelo meu próprio bem. Pra continuar sobrevivendo como o homem quebrado, dono de um coração partido, que é quem eu sou. Alguém que nunca tentei esconder, nem jamais poderei negar.

Eu só queria alguém para amar. Pra cuidar. Pra fazer companhia. Levar o café da manhã na cama em domingos preguiçosos, e inventar uma janta à luz de velas para dar ânimo ao crepúsculo de uma quarta-feira qualquer. Alguém que tivesse orgulho em dizer que está comigo, e que sorrisse despreocupada quando ouvisse dizer o quanto eu estava feliz por tê-la em meus braços.

E você teve tudo isso, meu amor. Não se lembra? Você disse que estava feliz! ...ou estava só sendo gentil?

E se você voltasse, ah, meu bem. Tudo poderia ser diferente. Poderia ser do jeito que você quisesse. Poderia ser maior e melhor do que tudo que eu já imaginei, se você nos desse mais uma chance. Minhas mãos tremem só de pensar em tê-la em meus braços novamente. O mundo deixaria de ser tão assustador, tão drástico, tão perdido. Com você eu estaria em casa, enfim. Lar doce lar, do jeito que construímos antes. Como se nunca tivéssemos dito adeus.

***

Antes que você me procure, saiba que eu estou bem. Tudo isso é um exagero, claro. Mas são sentimentos que nascem em nós quando estamos perdidamente apaixonados por alguém. Principalmente quando alguém não sente a mesma coisa por nós. Parece loucura, mas não é nada que ninguém já não tenha pensado nem sofrido antes por amor. É. Amor. Aquela palavra de quatro letras com um significado imenso, que pode ser a razão pela qual você levanta da cama de manhã, ou a inspiração para os seus sonhos à noite. Digam o que quiserem, mas ninguém irá me convencer de que todos nós estamos por aí à procura de alguém para amar. E isso aqui - este pequeno desabafo disforme e enlouquecido – é só uma amostra do que se passa na mente de quem sofre por um amor que nunca terá. Ou um amor que nunca teve, mas que não passou reto por você sem deixar um mundo de saudades para trás. Muito se fala sobre o amor hoje em dia – sobre como é fundamental, maravilhoso, lírico – mas pouco se fala sobre o que acontece quando ele não é reconhecido, ou recíproco, ou ignorado. E eu acho que em dias como hoje, nada mais justo do que dedicar algumas palavras para quem já passou noites em claro, com a luz do celular iluminando as suas lágrimas, esperando por uma resposta para a mensagem enviada de “Boa noite” que nunca chegou.

Para quem está sofrendo por amor, ou já sofreu e decidiu que nunca mais iria passar por isso, esse texto é para você. Continue vivendo, sonhando e amando como se nunca tivéssemos dito adeus.

sexta-feira, 9 de junho de 2017

Eu ♥ Foz do Iguaçu

*Escrito em 11 de março de 2016.

“Topofilia é descrita como um elo afetivo entre a pessoa e o lugar ou ambiente físico.”

Se for pelo calor, eu até entendo. É a primeira reclamação que qualquer pessoa que more ou que já tenha visitado Foz do Iguaçu fará sobre a cidade. “É insuportavelmente, constantemente, apocalipticamente calor!” e eu concordo. E por mais que eu idolatre o equilíbrio natural do Outono, esse calor imperdoável ainda não passou nenhum limite que realmente me motivasse a fazer as malas e abandonar toda a campanha de tentar fazer uma vida dar certo aqui. Mas o clima abafado mal é aceitável como tópico de conversa entre vizinhos que se encontram acidentalmente no elevador do prédio; quem dirá para uma completa mudança de endereço. Então eu fiquei pensando... Se não é estritamente pelo calor, por que algumas pessoas que moram em Foz do Iguaçu não gostam de Foz do Iguaçu?

É uma experiência que tive em primeira mão, ao fazer alguns contatos como parte da minha habitual tentativa de estabelecer qualquer vínculo com a cidade que adotei para mim, e que esperava que esta fizesse o mesmo através dos seus habitantes. Mas quanto mais pessoas eu conheci, e compartilhava com elas a minha história – que, convenhamos, merece seu caráter infame e desordenado muito antes de eu chegar aqui – menos elas conseguiam entender porque eu me mudei para cá. Por que eu não fiquei em Cascavel? Por que não voltei para Londrina? Por que eu simplesmente não fui para qualquer outro lugar?

Foram questões que pareciam tão simples de serem respondidas por mim, mas que de alguma maneira não satisfaziam a frustração de quem perguntava. Como se Foz do Iguaçu fosse o fim do mundo. E estas pessoas tecnicamente não estão erradas. Esta cidade é realmente um extremo do sul do pais, completa com saídas de emergência para dois países vizinhos. Em caso das coisas por aqui com a economia ou a política dificultarem demais a nossa permanência.

O relacionamento que você possui com sua cidade talvez seja o segundo mais importante que se possa ter. O primeiro, obviamente, sendo aquele que você tenta manter consigo mesmo. E algumas pessoas que conheci tratam Foz do Iguaçu da mesma maneira que tratamos o primeiro relacionamento que tivemos na vida. Como não conhecíamos mais nada, tudo era novo. E com o passar do tempo os mistérios foram solucionados e a rotina tomou conta. A cidade não era mais capaz de surpreendê-los, e seus limites foram se tornando cada vez mais evidentes. Tão evidentes neste caso, com suas fronteiras para o resto do mundo não tão distantes do centro, que já não era mais tão difícil imaginar uma vida nova fora daqui. Longe daqui. Em qualquer outro lugar que não fosse aqui.

É assim que costumamos tratar os primeiros relacionamentos que temos. As experiências que vivenciamos não se sustentam muito diante dos arrependimentos que arrastamos. E os bons momentos que tivemos são reprimidos de propósito, para não nos prenderem a um velho lugar comum por nostalgia ou consideração. Novo parece ser sempre melhor.

Mas existem pessoas que tem a sorte – ou a abençoada ignorância, dependendo do seu grau de incredulidade que já tenha atingido – de ter apenas um relacionamento que dura o resto da vida. E isso seria necessariamente ruim? Não é isso que a maioria de nós procura? Alguém que nos faça parar de procurar, deletar o Tinder e que ande de mãos dadas conosco no shopping?

Quanto a mim, infelizmente esta não é a minha primeira vez. Já tive outros relacionamentos antes, tanto com mulheres quanto com cidades, e por fim acabei abandonando todas em prol de algo que ainda estava faltando. Um sonho que parecia se deslocar toda vez que eu chegava muito perto de alcançá-lo. E então eu cheguei à Foz do Iguaçu. Uma cidade fronteiriça que apesar do seu calor e das suas ruas repletas de turistas confusos à procura do terminal central, parecia me remeter apenas uma coisa: mais do que uma terra de cataratas, esta é uma terra de possibilidades.

Dotada de uma interculturalidade que poucas outras cidades brasileiras possuem, a impressão que tive ao chegar até aqui e que ainda tenho todos os dias desde os últimos sete meses é que, se existe um lugar com inúmeras possibilidades por metro quadrado, e que de quebra é totalmente aceitável sentir-se perdido e pedir por informações para alguém na rua, esse lugar é aqui. Claro que as coisas não andam tão fáceis assim. Eu ainda não estou trabalhando, minha vida social resume-se ao horário das aulas na faculdade, e o amor.... Ainda está preso em uma frase estagnada por reticências. E faz calor. Meu Deus, como faz calor!

***

Eu realmente me recordo dos meus antigos relacionamentos com outras cidades com muito carinho....

- Eu ♥ Londrina (escrito em 04/10/2010)
- Eu ♥ Cascavel (escrito em 10/03/2011)
- Eu ♥ Cambé (escrito em 03/10/2011)

...mas não, eu não voltaria para nenhuma delas. E acho que já chega de tantas mudanças... Está na hora de assumir um compromisso sério.

***

Eu não amo Foz do Iguaçu. Ainda não, pelo menos. Mas há potencial com certeza. Londrina foi meu primeiro amor, e por isso sempre será lembrada com um carinho moderado pelos erros que cometi por falta de experiência. Cascavel foi um relacionamento turbulento, mas que terminou do meu jeito e que ainda me dá saudades muito saudáveis do nosso tempo junto. Agora, Foz do Iguaçu e eu ainda estamos nos conhecendo. São sete meses de primeiras vezes constrangedoras e desentendimentos irracionais. E ela é esquentadinha demais para o meu gosto. Mas que relacionamento não tem suas dificuldades? Apesar disso já temos muitas histórias para contar; histórias que não só continuam me inspirando a escrever sobre elas, mas também a continuar aqui em busca dos meus objetivos.

Por mais que faça calor, e que as ruas sejam cheias de estrangeiros desorientados, e não exista uma definição exata de onde é o “centro” da cidade, é importante ter um bom relacionamento com o lugar onde você mora. Nem que seja pelo simples fato de que, por ora, nenhum de vocês vai a lugar algum.

quinta-feira, 8 de junho de 2017

A pirâmide invertida


Com quase três períodos concluídos no curso de Jornalismo, alguns conceitos deixam de ser meras teorias e passam a fazer parte do seu dia a dia. Em sala você aprende que nem toda informação é digna de se tornar notícia. Enquanto isso, na vida, você descobre que alguns conceitos englobam muito mais do que a resposta em uma questão dissertativa na prova bimestral.

Uma notícia é construída a partir de uma informação cujo interesse que desperte seja grande e proporcional à importância que possui dentro de uma determinada comunidade. O que mais poderia depender da combinação entre interesse e importância? (Valor: 1,0 ponto)

***

Há quem diga que o verdadeiro aprendizado da faculdade está localizado fora da sala de aula; está nas experiências pessoais que você adquire ao longo dos semestres. Como a primeira vez em que você mata aula para ir ao bar do outro lado da rua, e começa a reparar nos pequenos macetes para disfarçar o cheiro de cigarro e o bafo de cerveja dos seus pais. Ou a primeira vez em que você fica com alguém e descobre que ele ou ela estudam não só no mesmo bloco que você, mas na sala ao lado. E por mais que você não queira repetir a dose, estará fadado a reencontrar a pessoa nos corredores ou nas escadarias pelo restante do ano letivo.

Não nego o valor que existe em desbravar o mundo ao redor do campus da universidade, mas há definitivamente uma vantagem para aqueles que resistirem ao instinto de dormir durante as aulas e perceberem o quão aplicável toda aquela teoria que você passou quarenta minutos copiando do quadro pode ser. Como foi o caso da pirâmide invertida.

Notícias são escritas por meio de um modelo pós-moderno chamado de “pirâmide invertida”: as informações consideradas como as mais relevantes – respondendo a questões básicas (o que/como/quando/onde/com quem/por que/para quê isto aconteceu?) – que compõe o “lead” da matéria deverão sempre vir em primeiro lugar no texto, seguidas por outros fatos mais supérfluos. Enquanto o professor despreocupadamente ditava tudo isto mais rápido do que eu conseguia escrever utilizando uma letra decente, eu pensei no quanto este modelo não só revolucionou o jornalismo, mas na sua empregabilidade em outros contextos. Mas estaria mentindo se dissesse que cheguei mesmo a algum plural em meus pensamentos. O foco foi único, e o mesmo de sempre: relacionamentos.

Quando você conhece alguém, digamos, através de meios mais convencionais – o amigo do amigo, a garota no bar, ou até mesmo um match do Tinder – as perguntas básicas são exploradas antes de qualquer contato físico ocorrer. Você procura se informar sobre aquela pessoa antes e, a medida em que as respostas são diretamente proporcionais ao interesse, decide então entrar em modo plantão e parte para o mais importante: um beijo.

Agora, quando você conhece alguém, digamos, por vias indiretas – bêbado em uma cervejada, animada em uma balada ou (convenhamos) um primeiro encontro de Tinder – às vezes o beijo acontece sem que as perguntas básicas sejam feitas ou, digamos, sem que você sequer se lembre direito do nome da pessoa. Acontece. E seja lá qual tenha sido a abordagem escolhida, é a que dará o tom do relacionamento que irá segui-la.

Nem sempre as matérias seguem a regra da pirâmide invertida. Assim como nem toda informação se torna notícia, nem todo encontro, beijo ou conversa se torna um relacionamento sério. Mas talvez essa técnica, criada durante a Primeira Guerra Mundial com o propósito de informar a população acerca do que estava acontecendo nos campos de batalha, seja igualmente relevante em se tratando das pessoas com quem nos envolvemos. Se eu sei de antemão quem é você, como e quando chegou até aqui e o que procura, talvez nos decepcionaríamos menos. Em vez dos casos em que nos precipitamos e deixamos um beijo acontecer antes de investigarmos qual é a história daquela outra boca.

E se eu gostar de você, e você não estiver interessada em me ver de novo? Talvez algumas guerras simbólicas fossem evitadas. Devo mandar ou não uma mensagem? Convidá-la ou não para sair? Admitir ou não que sinto a falta dela?

O “lead” foi desenvolvido por um motivo – talvez o mesmo pelo qual devemos escolher bem as pessoas que deixamos entrar nas nossas vidas. Se funciona para o jornalismo, o meio em que eu decidi construir a minha vida profissional, certamente deverá funcionar para a minha vida pessoal também.

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Para você que não soube responder a pergunta no início do post, duas observações:

1) Estude para as matérias nas quais você provavelmente ficará em dependência.
2) Boa sorte na vida.