domingo, 27 de agosto de 2017

O deslocamento


Eu já pensei em absolutamente todas as teorias para tentar entender porque você foi embora. Talvez eu tenha sido “eu” demais, com minhas manias incorrigíveis, meus dramas épicos e minha ansiedade desenfreada. Talvez você tenha conhecido outra pessoa – alguém do seu passado, ou simplesmente alguém novo, presente e menos “eu” o bastante para te agradar. Talvez a graça da novidade tenha se dissipado com o passar dos dias, como se a rotina tivesse tornado a paixão rarefeita e à mercê dos ventos do inverno. Ou talvez, quem sabe, na pior das hipóteses e encarando o maior dos meus medos de hoje em dia, você simplesmente não estivesse disposta a ter um relacionamento. Completo com todas as manias, dramas e ansiedade que o acompanham.

***

Eu não queria escrever sobre isso. Juro que não queria. Mas eu não consigo parar de pensar em você, Fulana. Não consigo deixar de me preocupar contigo, e de imaginar como seria bom tê-la em meus braços de novo, e sussurrar que tudo ficará bem. E já faz dias que penso sobre o mais posso dizer, o que mais posso escrever, que me leve de uma vez por todas para longe de você e rumo ao meu próximo desengano – já que esta parece ser a pauta recorrente de 2017. E então eu me peguei pensando em uma nova teoria, recém formulada, que talvez explique porque você se foi e, inclusive, porque eu não deveria mais pensar sobre isso. E não tem nada a ver com a sua teimosia, ou sua infantilidade, ou sua intransigência. Até porque, se você estralasse os dedos, eu estaria de volta aos seus pés. E o pior: eu estaria feliz por isso. E foi aí que eu comecei a pensar, enfim, no verdadeiro vilão. O deslocamento.

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A parte mais difícil de um relacionamento – qualquer relacionamento que seja – é e sempre será o deslocamento. E não estou falando dos clichês sobre andar de mãos dadas no shopping e seguir adiante, juntos, pela vida afora. Não. Estou falando de uma jornada mais intrínseca, impiedosa e insensata do que a dor e a delícia de uma vida a dois: a dor e a delícia de ser um só, e de se entregar ao outro para que possam, então, ser dois. E a magnitude envolvida no deslocamento é e sempre será o que desmotiva qualquer um a tentar algo com qualquer outro.

Porque eu tenho uma vida aqui, entende? Uma que existe bem antes de eu descobrir que você estava por aí. E que tem muitos, mas muitos problemas no dia a dia, que se misturam na correria da semana e que sempre me destroem a ponto de me motivar a ficar deitado, escondido da cama, vendo todas as oportunidades e experiências novas passarem por mim.

Viver é cansativo. É acordar às seis e pouco da manhã pra tomar uma ducha e um café rápidos, porque se eu parar pra pensar sobre como seria bom ter você dormindo ao meu lado, eu vou me atrasar e perder meu ônibus para o trabalho. E se eu perder o primeiro ônibus, vou perder o segundo, e o terceiro, e lá se foi toda a segunda-feira. Que chances eu tenho de recuperar o meu bom humor ao longo da semana? Sem falar que estamos no fim do mês, e mais uma vez tem mais dias do que dinheiro sobrando aqui. O que eu vou almoçar? Tem algum lugar perto daquela lanchonete em que eu posso passar pra pagar aquele boleto? Mas eu trouxe aquele boleto comigo? Não, ficou em cima da mesa, perto do café. Como faz pra emitir uma segunda via? Tem que se cadastrar no site?! Meu Deus, que empenho. E essa hora que não passa?

Entre trocas de ônibus, horários a cumprir, trabalhos a serem feitos, aulas que não posso perder, amigos que preciso rever, familiares que preciso cuidar, mensagens que devo responder e contas que preciso pagar, eu pensei em algo essa semana. Eu não estive ignorando a sua existência e sofrendo sozinho pela lembrança do seu beijo de propósito; eu só estava ocupado demais para sofrer por você. E quando eu finalmente decidi colocar a minha sofrência em dia – relendo tudo o que você escreveu, revendo todas as fotos que postou, e relembrando todas as vezes que passei por você nesse último mês – eu descobri algo incrível: a Fulana cuja falta ando sentindo era bem mais interessante do que você. E não há absolutamente nada que eu possa fazer sobre você ter ido embora. Assim como não há nenhum sinal escondido no fato de que – ironicamente – nós ainda iremos nos encontrar todos os dias.

É difícil manter um emprego, uma faculdade, uma casa organizada, uma família feliz, uma gata de estimação satisfeita com o tanto de comida que tem no potinho de ração dela, e os cadastros em dia para conseguir emitir a segunda via de um boleto quando necessário. Envolve empenho, comprometimento, e muito, mas muito amor por tudo para continuar seguindo adiante. Agora imagine um relacionamento no meio de tudo isso: alguém com medos, vontades, inseguranças, opiniões e compromissos totalmente diferente dos seus. E quando eu parei pra pensar no que realmente significaria estarmos juntos, você e eu, eu percebi o quanto somos diferentes.

Bom mesmo seria passar por você todos os dias, sem eu precisar me deslocar para qualquer outro lugar. Você já estaria no meu caminho. Que maravilha!

Então, eu entendi. Relacionamentos envolvem deslocamentos. Envolvem abrir mão, em parte, de quem você é e dos compromissos que você julga tão importantes, para dar espaço à outra pessoa com quem você queira viver junto. E me contentar com alguém pelo simples fato dela já estar no meu caminho não é nenhum sinal cósmico ao qual eu devo me apegar.

Obrigado, meu bem, por ir embora, porque eu não seria capaz de deixá-la. Obrigado por me mostrar, todos os dias quando eu a reencontro, que conveniência não é um pré-requisito para o amor. E se eu quiser mesmo encontrar amor de verdade, terei que ir além. Começando por sair da minha zona de conforto, até enfim ser capaz de deixar eu mesmo de lado um pouco para que mais alguém consiga viver aqui.

Pela primeira vez, no último mês, sinto que estou de volta à direção certa.

domingo, 20 de agosto de 2017

Pra não dizer que não falei das flores


Tem sido um inverno difícil. Eu sinceramente não me lembro da última vez que me senti assim. Inquieto, incompleto, inconstante. Como se nada fosse capaz de me satisfazer. Nem o café fresco na manhã de domingo, nem o conforto da minha cama ao fim do dia. Para falar a verdade, o que eu ando fazendo à noite também não pode ser chamado de “dormir”. E nem de algo mais divertido de se fazer em uma cama. Eu só fico deitado, acordado, em alerta. Na esperança de que o barulho de mensagem nova no celular me chamasse, avisando que alguém se lembrou de mim. E que bom seria se fosse você. Mas não tem sido. Já faz algum tempo que não é você, e é nisso que eu fico pensando...

Você ainda pensa em mim, ou as vezes em que tem cruzado por mim na rua são indiferentes? Comparadas aos dias em que estávamos ansiosos para nos encontrarmos... Lembra da primeira vez que nos vimos? Do sorriso largo que eu inspirei em você? E do quão bobo eu parecia ser, tentando chamar a sua atenção? Eu sinto falta de ser bobo, ao contrário da infâmia sarcástica na qual eu estou habituado a viver. A verdade é que, quando você surgiu, o mundo parecia estar recomeçando. E todos os lugares pelos quais passei estavam subitamente reabertos para serem experimentados. E os momentos que eu queria que fossem inesquecíveis, mas que desperdicei com as garotas erradas, poderiam ser revividos com você.

Era isso que eu mais vi em nós: o recomeço. Aquela vida que poderia ter sido e não foi, mas que agora – finalmente! – poderia ser. E eu não sei se foi o calor do momento que te deixou esperançosa, mas ao compartilhar contigo a promessa que fiz sobre nunca deixar o mundo vencer, você aceitou lutar comigo. Em algum momento isso foi verdade – eu despertei algo em você, fui diferente dos outros caras que você já havia conhecido – ou você estava só tentando ser gentil? Isto é, até o momento em que decidiu não ser mais, e foi embora. Sem explicação, sem grandes gestos, e sem se despedir.

A última coisa que eu tive capacidade de dizer foi para jogar fora as flores que eu havia te dado. Talvez tenha sido fácil para você, que dizia nunca ter ganho flores antes, logo o desapego não levaria tanto tempo assim. Mas para mim, que nunca deu flores a ninguém antes, tem sido mais difícil do que eu esperava. Só de pensar em dar flores à alguém de novo, eu opto por não plantar expectativa alguma. Por ninguém. Sobre nada.

Eu me sinto quebrado. Mais do que o de costume. Menos do que eu estava pronto para lidar. Eu me odeio por estar cercado de rostos em cada multidão que atravesso, e não conseguir parar de procurar o seu. E me odeio mais ainda quando eu a encontro, e percebo o quão sem reação você consegue me deixar. Sem saber para onde ir, ou o que dizer, ou como fugir de tudo que me assombra.

Eu me odeio por ter admitido que queria amar você. E me odeio por reconhecer que é só isso que restou. Espero, do fundo do meu coração, que você tenha jogado fora as flores. Se em algum momento eu signifiquei alguma coisa para você, esse é o mínimo que poderia fazer por mim. Não deixe que o gesto mais significativo que eu já fiz por alguém em muito, mas muito tempo, se torne um souvenir da última vez em que acreditei que as coisas poderiam dar certo para mim. Jogue fora do mesmo jeito que fez comigo.

O lado bom de não saber viver em meios termos, limbos ou purgatórios, é ser esperançoso diante do vazio que resta no meu coração. Porque eu ainda acredito em mim mesmo o bastante para sair por aí e tentar preencher esse vazio de novo.

Acho que já passei por todas as fases possíveis. Os dias atordoados, as noites em claro. As músicas que evitei ouvir por um tempo, e as atualizações sobre você que afastei dos meus olhos. A raiva por ter sido dispensado sem nunca realmente saber o motivo, e a tristeza que pesa na minha voz toda vez que repito o seu nome para algum amigo que não agüenta mais me ouvir falar disso. Dia desses até criei a coragem de passar por você sem fingir estar olhando para outra direção, porque é inevitável: nós ainda nos encontraremos por aí, por mais que eu queira me iludir do contrário. E agora que me atrevi a arriscar o impensável – admitir por escrito o que eu ainda sinto – talvez eu esteja pronto para dar o verdadeiro ponto final nisso.

Eu te desejo amor, mesmo que não possa ser o meu. Espero que fique bem, porque sei o quanto você se sente insegura e confusa sobre a vida. Quero que seja feliz, por mais tempo que os passatempos aos quais você se entrega são capazes de te distrair. E, enfim, desejo tudo isso a mim mesmo também. Talvez tenha sido melhor partir, aqui e agora, do que me decepcionar no futuro. E se por acaso esse tenha sido o motivo da sua desistência, eu o aceito.


Eu sou muito mais feliz quando acredito que o amanhã será melhor. Quem sabe, na próxima vez, a primavera dure. Obrigado por me mostrar que ainda sou capaz de cultivar flores.

terça-feira, 15 de agosto de 2017

O outro lado da crevasse


Em 1991, Gaspar LeMarc, um explorador francês, estava no meio de uma jornada pelas cordilheiras dos Alpes quando uma nevasca o separou de sua equipe e subitamente causou um acidente que o fez cair dentro de uma crevasse – uma abertura natural entre geleiras, cuja profundidade aproximadamente estendia-se até 90 metros abaixo do chão. Quando recuperou a consciência, Gaspar percebeu que sua perna estava severamente ferida, deixando-o impossibilitado de escalar de volta à superfície. Ao lutar contra todos os instintos naturais que possuía, e ao obrigar-se a aceitar a pior alternativa possível no momento, Gaspar decidiu que não havia outro meio a não ser se aprofundar cada vez mais dentro da crevasse e da escuridão que a dominava. Depois de quase dois dias, Gaspar conseguiu encontrar uma saída do outro lado. Ao retornar para a base, Gaspar reencontrou sua equipe auxiliar que estava prestes a abortar todas as tentativas de resgate que já haviam procedido, conforme o código de honra dos escaladores. Diante deles, Gaspar anunciou que, apesar de estarem a ponto de desistir e deixá-lo para trás nas cordilheiras e em suas memórias, eles estariam fazendo a coisa certa. Diante de uma nevasca, conforme o código, é cada um por si, e um homem que por acaso fica para trás, deve ser deixado para trás, para que a segurança do grupo seja mantida.

Antes que você tente pesquisar a veracidade desta história, permita-me poupar o seu tempo: é mentira. É uma história fictícia que eu descobri dentre uma das minhas diversas maratonas de seriados em que eu me perco para compensar pela ausência de uma vida pessoal, amorosa, ou qualquer outra que não inclua uma escala impiedosa de trabalho. Uma que insiste em não me dar sossego, não só em horário comercial, mas em qualquer outro horário socialmente aceitável que me permita ser readmitido à sociedade como um ser ativo, solteiro e contribuinte de impostos que preza pela vigência de convenções políticas. Como a Copa do Mundo, a Política de Economia Nacional, e o Dia dos Namorados. O que também explica por que eu ando tão ausente da vida noturna Iguaçuense, e tão online nas redes sociais.

Mas o meu objetivo com esta história é similar ao que ela alude: como lidar com problemas ou situações aparentemente impossíveis, ao ponto de nenhuma equipe de apoio se dar ao luxo de voltar para tentar uma missão de resgate. Porque, assim como eu imagino que seja dentro da comunidade de escaladores, na zoeira da vida também é cada um por si. E alguém que por acaso tropeçar e cair, será impiedosamente deixado para trás. Apesar de todos os aspectos bio-psico-sociais envolvidos, das normas morais que nos são passadas de geração para geração, e de qualquer bom senso instintivo que seja desperto em cada um de nós, não há argumentos contra o fato de que, quando outros caem, estamos mais interessados em continuar seguindo em frente. Especialmente para encontrar outras pessoas com quem a gente possa comentar sobre como a vida do Fulano anda mal, e como ele provavelmente vai morrer congelado naquela montanha de problemas dele. É a natureza humana no seu pior, porém, no seu normal.

Acho que todo mundo, em algum momento da vida, já chegou em casa cansado depois de um dia aparentemente interminável e abominável, e pensou “Eu preciso fazer alguma coisa com isso...” E decidiu que mudar seria a solução, e que daquela noite em diante, depois de abrir uma garrafa de vinho (ou qualquer outra bebida que simbolizasse o autotriunfo do seu insight), brindou consigo mesmo e jurou silenciosamente que “Amanhã será um novo dia, para um novo eu!”. E aí acordou de ressaca, saiu de casa meio sonolento, tropeçou na velha rotina e caiu na crevasse dos seus problemas mais uma vez. E até aí, tudo bem. Estamos vivos, logo, fadados ao acaso, ao imprevisível e, invariavelmente, à sentença terminal dos nossos próprios padrões. Porque instituir uma mudança da noite pro dia é difícil – talvez até improvável, dependendo do grau do seu desespero silencioso. Por mais que você se sinta cheio de problemas, eles não irão desaparecer na manhã seguinte só porque você subitamente decidiu que eles não possuem mais importância que tinham quando você passou no mercado para comprar mais vinho antes de chegar em casa em uma noite solitária de inverno.

Foi então que, ao voltar para casa em uma noite dessas, eu me lembrei daquela história fictícia e do quanto – pelo menos, dentro da lógica do episódio daquela série – aquilo sinceramente fazia sentido. Se quanto mais você insistir em confrontar os seus problemas, sem nenhuma estratégia para resolvê-los, mais eles ganham força e acabam com a sua paciência, porque não fazer o contrário? Claro que não é fácil; admitir derrota, cansaço ou incapacidade vai contra tudo o que eu visceralmente acredito. Mas talvez seja o que esteja me impedindo de encontrar uma saída mais viável. Talvez, no final das contas, seja a chave da minha sobrevivência. Às vezes, na vida, para seguir em frente é preciso voltar atrás. Às vezes para subir aos céus, é preciso descer até os confins do inferno, nem que seja para pegar impulso. E assim como o imaginário Gaspar, às vezes quando alcançar a superfície parece impossível, talvez o melhor jeito de rever a luz seja ao entregar-se para a escuridão da crevasse, até escapar pelo outro lado. E é exatamente isso que eu vou fazer.

Que se danem as contas, os amigos que não vejo há meses, a cidade em que parece cada vez mais longe de que eu retorne, o amor que talvez nunca chegue, e a sanidade cuja qual eu gosto de pensar que ainda tenho algum controle. Eu vou me arrastar até o limite, indo contra tudo o que eu sempre acreditei que fosse o ideal, o certo, o justo para mim, e vou parar de lutar contra a escuridão da crevasse, da qual o mundo real está incomensuravelmente cheio. E vou encontrar a felicidade do outro lado, ou morrer tentando. Metaforicamente, é claro. Porque eu tenho uma faculdade para terminar, uma conta da Renner para quitar, um amor que dure o resto da vida para encontrar, e um punhado de seriados para rever em Setembro.

Antes de traçar qualquer estratégia, é sempre bom rever as prioridades.

*Escrito em 18 de junho de 2014, mas os velhos padrões ainda me assombram.

quinta-feira, 10 de agosto de 2017

A culpa é minha



Eu sinceramente acredito que existe algo a ser dito sobre as coisas que não fazemos. Só não sei ao certo o que, porque dizem que o que não foi feito também não vale a pena ser comentado. Se não aconteceu, não significou nada. Mas aí entram as coisas que acontecem e que, vez por outras, também sofrem pela falta de um significado, um sentimento que as mantenha vivas em nossa memória. Então eu não sei. Particularmente eu gosto de acreditar que tudo que é capaz de me causar algum tipo de impressão marcante, também vale a pena ser discutido. E na falta de alguém para me ouvir, acredito que vale a pena ser escrito.

Talvez a poesia seja o exílio dos arrependimentos, ou o porto-seguro dos sentimentos ocos. Tudo parece muito bonito, muito apaixonante, muito sintético, mas sem muita utilidade. Isto é, a não ser para indicar a leitura à alguém que está sofrendo por algo que não sabe como lidar direito. Poesia serve para dar forma a estes sentimentos, como um porta-retratos que enfeita uma estante com um momento que decidiu-se ser inesquecível. Às vezes ser entendido é tudo que a gente precisa. Seja por alguém que nos ouça, pela poesia que nos traduza, ou por qualquer outra válvula de escape pela qual você permita expor as marcas que a vida te causou. Sejam elas boas ou ruins, ainda deixo um espaço separado especialmente para as coisas que eu não fiz que, por não terem acontecido, também não conseguem se encaixar em apenas uma categoria.

Porque tudo que não acontece, tem um motivo. Ou no mínimo, uma desculpa. E a minha desculpa de hoje vai para você, que às vezes dedica um pouco do seu tempo para mim, e nem sempre consegue o que esperava em troca. Às vezes eu penso se sou uma pessoa ruim com uma vida complicada, ou apenas um cara normal com uma capacidade extraordinariamente criativa para elaborar desculpas plausíveis que cubram as fraturas das minhas ações. Ou, então, a fratura causada pela falta delas. A verdade é que eu penso demais. E por pensar demais, mais vezes do que deveria, eu faço... Nada. A não ser que justificar minha falta de movimento conte como uma ação – não deixa de ser um movimento defensivo, e deveras cansativo. Tanto, que às vezes até eu preciso questionar os limites das minhas contradições, e refletir se talvez não seja mais fácil fazer as coisas em vez de justificar porque não às fiz, ou em vez de delegá-las a terceiros, como a Vida, o Destino ou Amor. Como se a vida, o destino e o amor já não estivessem ocupados demais.

Mas tudo isso não passa de mais um devaneio infame, mais uma desculpa, que só serve para camuflar o que eu realmente gostaria de dizer: eu sinto muito. Sinto muito por não ter acreditado em você. Sinto muito por te ignorar, ou tentar te bloquear da minha vida e impedir que você sequer soubesse a quantas eu ando, porque custei a deixar de duvidar que você se importa. Sinto muito por muitas vezes não medir as minhas palavras, e pela dor que elas são capazes de causar. Sinto muito por minhas dúvidas terem feito com que você mesma se questionasse. Sinto muito por você ter se sentido sozinha. Sinto muito por ter dito que eu não era o cara para você, em vez de simplesmente ter feito algo a respeito para que eu me tornasse então esse cara. Sinto muito por ter convencido você a desistir. A culpa não é sua, nem da vida, do destino ou do amor. Muito menos, das estrelas. Não. A culpa é minha. E é algo pelo qual eu preciso começar a me responsabilizar, antes que as minhas contradições acabem comigo de vez. Mas eu sei que não chegará a isto. Senão, o que seria das minhas poesias?

Este sou eu: dando dois passos para trás, para dar um adiante. Se me perco, é só porque parei para pensar em escrever alguma coisa. Às vezes fica bonito, às vezes compensaria mais ir em frente. Bom... Vivendo, escrevendo, amando e aprendendo.

*Escrito em 9 de junho de 2014, mas pelo visto eu ainda não mudei.