Pular para o conteúdo principal

Momento Amy Winehouse

Tudo que eu queria agora é que existisse alguém para quem eu pudesse fazer a pergunta que só eu posso responder. Eu fiz a coisa certa ao vir para cá? Ao deixar tudo e todos para trás, para começar uma vida nova? Será que eu consigo?

***

Um mês depois. A ficha finalmente caiu, e não foi um momento bonito. Imagine só; quem diria que eu, logo eu, me desapegaria não apenas de uma pessoa ou um lugar, mas de uma vida inteira, na esperança de recomeçar e crescer numa cidade sem resquícios emocionais de qualquer tipo. Sem lembranças em cada rua, ou conhecidos em cada quarteirão. E o mais importante: sem complicações amorosas – algo que, ao longo dos anos, tornou-se minha marca registrada.

Só tem um problema; um detalhe que eu escolhi deixar passar em branco, achando que não seria relevante. Por mais que eu tenha evitado, algumas lembranças que eu não queria mais carregar comigo deram um jeito de se infiltrar na minha bagagem, e viajaram comigo até aqui. Eu as afogo durante o dia, mas ressurgem de noite. Não sei por mais quanto tempo manterei tudo isso só pra mim.

***

Eu não estou repensando minhas decisões ou considerando retroceder de modo algum. Eu só admiti uma dificuldade, e tudo ficará mais fácil com o tempo.

Só não me pergunte quanto tempo.

***

Nós só dissemos “adeus” com palavras.

Comentários

  1. Igor, vc é poeta!!!

    Adorei saber que há alguém de meu convívio acadêmico de alma sensível e inteligente!

    Parabéns!

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

Os 5 estágios do Roacutan

            Olá. Meu nome é Igor Costa Moresca e eu não sou um alcoólatra. Muito pelo contrário, sou um apreciador, um namorador, um profissional em se tratando de bebidas. Sem preconceito, horário ou frescura com absolutamente nenhuma delas, acredito que existe sim o paraíso, e acredito que o harém particular que está reservado para mim certamente tem open bar. Já tive bebidas de todas as cores, de várias idades, de muitos amores, assim como todas as ressacas que eram possíveis de se tirar delas. Mas todo esse amor, essa dedicação e essas dores de cabeça há muito deixaram de fazer parte do meu dia a dia, tudo por uma causa maior. Até mesmo maior do que churrascos de aniversário, camarotes com bebida liberada e brindes à meia noite depois de um dia difícil. Maior do que o meu gosto pelos drinques, coquetéis e chopes, eu optei por mergulhar de cabeça numa tentativa de aprimorar a mim mesmo, em vês de continuar me afogando na mesmisse da minha mela...

A girafa e o chacal

Melhor do que os ensinamentos propostos por pensadores contemporâneos são as metáforas que eles usam para garantir que o que querem dizer seja mesmo absorvido. Não é à toa que, ao conceituar a importância da empatia dentro dos processos de comunicação não violenta, Marshall Rosenberg destacou as figuras da girafa e do chacal . Somos animais com tendências ambivalentes – logo, nada mais coerente do que sermos tratados como tal.  De acordo com Marshall, as girafas possuem o maior coração entre todos os mamíferos terrestre. O tamanho faz jus à sua força, superior 43 vezes a de um ser humano, necessária para bombear sangue por toda a extensão do seu pescoço até a cabeça. Como se sua visão privilegiada do horizonte não fosse evidente o suficiente, o animal é duplamente abençoado pela figura de linguagem: seu olhar é tão profundo quanto seus sentimentos.  Enquanto isso, o chacal opera primordialmente pelos impulsos violentos, julgando constantemente cada aspecto do ambiente ...

A justificativa sem fim

45 anos atrás, Pink Floyd disse que não precisamos de educação e aqui estamos nós: aparentemente muito confortáveis com a nossa imprudência. Claro: não imaginávamos que um hino rebelde poderia nos deixar tão mal acostumados, e realmente não é de se culpar o hino - nem nada ou alguém na verdade - a não ser nós mesmos pelo estado da nossa cultura. O problema, como é de se esperar, mora na interpretação de texto - ou então, especificamente, no nosso jeito de ler e reproduzir o mundo à nossa volta, à nossa maneira, sob uma visão espetacularmente egocêntrica. Pelo visto Pink Floyd não percebeu que, ao tirar a educação da equação, também estava abrindo a porta para a insensatez sem limites. O que nos leva ao novo grande mal estar da humanidade (e outro sério problema acadêmico): a justificativa sem fim. Assim como Pink Floyd nos absolve da necessidade de qualquer educação ou controle de pensamento, passamos a admirar toda e qualquer instituição capaz de assumir a responsabilidade sobre noss...