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Apartamento vazio

Quatro meses depois. Uma e quinze da manhã.
Com meus pés doendo e minha vista cansada, após dias e dias de esforçada negação, eu decidi tomar uma atitude em nome da minha paz de espírito. Parece que, a cada mês que se passa, as coisas tendem a mudar drasticamente. Para deixar tudo ainda mais estranho, não tenho direito de ficar zangado ou chateado com ninguém; são apenas conseqüências de minhas próprias decisões. Fui eu quem recusou um ano de cursinho e saiu de Londrina para ingressar numa faculdade distante. Fui eu quem aceitou trabalhar para bancá-la, e também para obter um mínimo de autoridade sobre meu dinheiro. E fui eu quem enfrentou batalhas desprezíveis para abandonar um segundo lar familiar, e adquirir um lugar que pudesse chamar de só meu. E assim, após certa pesquisa, alguns comprometimentos e um recibo com meu nome, eu aluguei meu primeiro apartamento. Sozinho.
É estranho quando a vida que você teve por anos de repente aparece diante dos seus olhos, principalmente se seguinte de tantas mudanças em tão pouco tempo. Semana passada, neste mesmo horário, eu estava dentro de um ônibus a caminho de volta para cá; de Londrina.
Não tive tempo nem condições de avisar a todos que eu gostaria sobre minha visita-relâmpago, mas fui irreverente o bastante para aparecer na porta de alguns simplesmente para dizer olá, para dar-lhes um abraço, e simplesmente para dizer que eu não tinha desaparecido. Em meio a ruas e rostos familiares, parecia que eu estava finalmente conseguindo respirar pela primeira vez em muito, muito tempo. Tal pensamento que me veio à cabeça no ônibus de volta, quando fui me sentindo mais e mais sufocado após cada pedágio em direção a minha nova cidade, e ao meu apartamento vazio.
Uma dor inacreditável tomava conta de mim, algo que eu não conseguia explicar para ninguém do meu cotidiano. Não considerava que alguém pudesse realmente entender. Era a dor de não conseguir gritar para minha família, meus amigos, meu tudo, que eu ainda os amava apesar dos trezentos e quarenta e seis quilômetros que coloquei entre nós. Trezentos e quarenta e seis quilômetros que, inconsequentemente, coloquei entre nós.
Sentado à uma hora e trinta e sete da madrugada, após um trabalhoso domingo, no meu apartamento vazio, está claro de que não era isso com o que eu sonhava. Não era isso que eu esperava que acontecesse. Não era isso que eu queria. E é exatamente por isto que estava em negação, desde que me mudei para cá; com medo de voltar a escrever. Com medo de expor ao mundo sentimentos que, seis meses atrás, eu não tinha problemas em desabafar. Alguns chamam de amadurecimento, eu chamo de infelicidade.
O fato de eu não escrever nada há um mês e meio é mais do que alarmante. Irônico; estudar teorias e mais teorias de jornalismo, comunicação e escrita, e não colocar nada em prática no final do dia, quando finalmente tenho tempo de me recompor do trabalho e das aulas. O que mais me mete medo é saber que isto é a vida real; nada de despreocupação, festas constantes ou martirizar-me por amores frustrados. Não há tempo para desperdiçar com problemas pequenos, e adiar recompensas torna-se mais rotineiro do que se pensa.
Para trucidar-me ainda mais, tem a saudade. A saudade da vida que eu costumava ter; a vida que passou diante dos meus olhos quando visitei minha cidade, meu berço. Saudade das pessoas com quem eu falava todo dia, das risadas que compartilhávamos, e dos momentos únicos que nunca esqueci. Se ao menos eu pudesse dizer que eu ainda me lembro de todos, e que nunca os amei tanto quanto agora, eu me daria por satisfeito. Por favor, não pensem que eu me esqueci.
E, se puderem, não se esqueçam de mim.

***

Mentir é fácil. Admitir arrependimento e chorar por saudade é difícil.

***

Estranho mesmo é estar em casa, e desejar estar de volta para minha casa.

Comentários

  1. Eu sempre vou lembrar e morrer de saudade! Arruma internet logo, quase não to sobrevivendo sem você.
    TE AMO MUITO!

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