Pular para o conteúdo principal

Boa noite, meu alguém

Em “The Music Man quando uma garotinha, Amaryllis, pergunta à Marian, sua professora de piano, para quem ela deve dizer “boa noite” quando as estrelas tomam o céu, Marian simplesmente sugere que ela deseje boa noite ao seu “alguém”, e faz isso em forma de música (“Goodnight My Someone”). Foi assim que eu passei a adotar este costume, principalmente para me encher de esperança e para me sentir menos sozinho quando deito a cabeça no travesseiro, na minha cama, no meu apartamento vazio. Também foi assim que eu aprendi a deixar músicas orientarem minhas emoções, como modo de tornar mais fácil lidar com quaisquer crises que meu subconsciente pudesse criar.

Com o tempo este costume amadureceu a ponto de tornar-se um estilo de vida, assim como minhas músicas foram além dos fones de ouvido, e passaram a liderar minha caminhada rumo ao meu “alguém”. O que explica porque eu me senti assombrado por Gloria Gaynor cantando “Never Can Say Goodbye” quando minha última relação séria em anos com uma pessoa chegou a um fim inesperado – nenhum de nós realmente disse adeus – ou, então, quando Al Green tornava minhas esperanças (“Let’s Stay Together”) e minhas desilusões (“How Can You Mend a Broken Heart”) em simples melodias para diminuir a minha dor. Houveram as ocasiões em que Barry White levantava meu ânimo com sua atitude positiva inquestionável (“You’re My First, My Last, My Everything”), e as vezes em que deixei Vonda Shepard cantar enquanto deixava lágrimas inegáveis escorrerem pelo meu rosto (“One Hundred Tears Away”).

Eu percebi que não estava realmente sozinho, enquanto não encontrava meu “alguém”. Meus artistas favoritos estão sempre prontos para cantarem minha vida, e fazer com que eu me sinta melhor com uma melodia para cantar. Não há nada de errado em deixar sua vida tornar-se um musical; é uma das melhores formas de se sentir vivo quando tudo parece perdido. Foi o que me ajudou a acreditar que a felicidade estava mesmo há cem lágrimas de distância.

Então ao em vez de me apoiar em um coração partido, decidi apenas me apoiar no amor (“Try Sleeping with a Broken Heart”). Porque se eu acreditasse de verdade, ele tomaria conta e mostraria o caminho (“Lead the Way”). O sol brilhará amanhã, e estamos apenas a um dia longe um do outro (“Tomorrow”). Eu poderia comentar aqui todos os meus versos favoritos, mas prefiro limitar-me a uma única passagem: boa noite, meu alguém. Um dia estaremos juntos.


Ao som de: Someday We’ll Be Together” – Vonda Shepard.

Comentários

  1. Não tenho palavras pra expressar como eu gostei dessas idéia, meu alguém. Vou escrever pro meu alguém, que me espera em alguma parte deste grande pequeno mundo.

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

Os 5 estágios do Roacutan

            Olá. Meu nome é Igor Costa Moresca e eu não sou um alcoólatra. Muito pelo contrário, sou um apreciador, um namorador, um profissional em se tratando de bebidas. Sem preconceito, horário ou frescura com absolutamente nenhuma delas, acredito que existe sim o paraíso, e acredito que o harém particular que está reservado para mim certamente tem open bar. Já tive bebidas de todas as cores, de várias idades, de muitos amores, assim como todas as ressacas que eram possíveis de se tirar delas. Mas todo esse amor, essa dedicação e essas dores de cabeça há muito deixaram de fazer parte do meu dia a dia, tudo por uma causa maior. Até mesmo maior do que churrascos de aniversário, camarotes com bebida liberada e brindes à meia noite depois de um dia difícil. Maior do que o meu gosto pelos drinques, coquetéis e chopes, eu optei por mergulhar de cabeça numa tentativa de aprimorar a mim mesmo, em vês de continuar me afogando na mesmisse da minha mela...

A girafa e o chacal

Melhor do que os ensinamentos propostos por pensadores contemporâneos são as metáforas que eles usam para garantir que o que querem dizer seja mesmo absorvido. Não é à toa que, ao conceituar a importância da empatia dentro dos processos de comunicação não violenta, Marshall Rosenberg destacou as figuras da girafa e do chacal . Somos animais com tendências ambivalentes – logo, nada mais coerente do que sermos tratados como tal.  De acordo com Marshall, as girafas possuem o maior coração entre todos os mamíferos terrestre. O tamanho faz jus à sua força, superior 43 vezes a de um ser humano, necessária para bombear sangue por toda a extensão do seu pescoço até a cabeça. Como se sua visão privilegiada do horizonte não fosse evidente o suficiente, o animal é duplamente abençoado pela figura de linguagem: seu olhar é tão profundo quanto seus sentimentos.  Enquanto isso, o chacal opera primordialmente pelos impulsos violentos, julgando constantemente cada aspecto do ambiente ...

A justificativa sem fim

45 anos atrás, Pink Floyd disse que não precisamos de educação e aqui estamos nós: aparentemente muito confortáveis com a nossa imprudência. Claro: não imaginávamos que um hino rebelde poderia nos deixar tão mal acostumados, e realmente não é de se culpar o hino - nem nada ou alguém na verdade - a não ser nós mesmos pelo estado da nossa cultura. O problema, como é de se esperar, mora na interpretação de texto - ou então, especificamente, no nosso jeito de ler e reproduzir o mundo à nossa volta, à nossa maneira, sob uma visão espetacularmente egocêntrica. Pelo visto Pink Floyd não percebeu que, ao tirar a educação da equação, também estava abrindo a porta para a insensatez sem limites. O que nos leva ao novo grande mal estar da humanidade (e outro sério problema acadêmico): a justificativa sem fim. Assim como Pink Floyd nos absolve da necessidade de qualquer educação ou controle de pensamento, passamos a admirar toda e qualquer instituição capaz de assumir a responsabilidade sobre noss...