Pular para o conteúdo principal

Todos são normais

A cada dia que passo dentro da sala de aula do meu curso, eu sinto minha saúde mental sendo testada mais e mais a ponto de imaginar o inimaginável: eu sou normal? Justo agora que eu passei a considerar que talvez eu não tivesse tanto contato com a realidade como eu acho que tenho, no fim do dia descubro que minhas irracionalidades, minhas neuroses, meus dramas mexicanos e minhas crises existenciais são meras irritabilidades cotidianas que apenas fortalecem meu eu: esta bagunça ambulante que desistiu de tentar encontrar coerência em suas ações, e agora só procura coerência dentro de sua própria incoerência, para evitar confundir-se mais do que o de costume.

Mas conseguir dar um passo para trás e analisar tudo isto faz de mim algo além do excepcional com o qual já havia aprendido a conviver. Quando havia encontrado uma zona de conforto meio a tantas variáveis, eis que me surge a verdade inconveniente: sou normal, e não há nada de neurótico em minhas neuroses. Sempre evitei misturar-me com o bege do mundo por ser a favor do que o coletivo é contra, e por ainda estar convicto com minhas crenças impossíveis e minhas deliciosas ilusões que vão além daqueles que possuem os dois pés no chão. Isto sim é motivo para pânico; é normal ser normal sem querer? E se somos todos normais, o que estimula nossas paranóias?

Existe uma linha tênue entre a lucidez e as pessoas que falam sozinhas em público, e aqui estamos brincando de manter o equilíbrio com um pé à frente e um atrás. Afinal de contas, loucura é como a gravidade; só é preciso um empurrãozinho.


Ao som de: Guido’s Song – Daniel Day-Lewis.

Comentários

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

Os 5 estágios do Roacutan

            Olá. Meu nome é Igor Costa Moresca e eu não sou um alcoólatra. Muito pelo contrário, sou um apreciador, um namorador, um profissional em se tratando de bebidas. Sem preconceito, horário ou frescura com absolutamente nenhuma delas, acredito que existe sim o paraíso, e acredito que o harém particular que está reservado para mim certamente tem open bar. Já tive bebidas de todas as cores, de várias idades, de muitos amores, assim como todas as ressacas que eram possíveis de se tirar delas. Mas todo esse amor, essa dedicação e essas dores de cabeça há muito deixaram de fazer parte do meu dia a dia, tudo por uma causa maior. Até mesmo maior do que churrascos de aniversário, camarotes com bebida liberada e brindes à meia noite depois de um dia difícil. Maior do que o meu gosto pelos drinques, coquetéis e chopes, eu optei por mergulhar de cabeça numa tentativa de aprimorar a mim mesmo, em vês de continuar me afogando na mesmisse da minha mela...

A girafa e o chacal

Melhor do que os ensinamentos propostos por pensadores contemporâneos são as metáforas que eles usam para garantir que o que querem dizer seja mesmo absorvido. Não é à toa que, ao conceituar a importância da empatia dentro dos processos de comunicação não violenta, Marshall Rosenberg destacou as figuras da girafa e do chacal . Somos animais com tendências ambivalentes – logo, nada mais coerente do que sermos tratados como tal.  De acordo com Marshall, as girafas possuem o maior coração entre todos os mamíferos terrestre. O tamanho faz jus à sua força, superior 43 vezes a de um ser humano, necessária para bombear sangue por toda a extensão do seu pescoço até a cabeça. Como se sua visão privilegiada do horizonte não fosse evidente o suficiente, o animal é duplamente abençoado pela figura de linguagem: seu olhar é tão profundo quanto seus sentimentos.  Enquanto isso, o chacal opera primordialmente pelos impulsos violentos, julgando constantemente cada aspecto do ambiente ...

A justificativa sem fim

45 anos atrás, Pink Floyd disse que não precisamos de educação e aqui estamos nós: aparentemente muito confortáveis com a nossa imprudência. Claro: não imaginávamos que um hino rebelde poderia nos deixar tão mal acostumados, e realmente não é de se culpar o hino - nem nada ou alguém na verdade - a não ser nós mesmos pelo estado da nossa cultura. O problema, como é de se esperar, mora na interpretação de texto - ou então, especificamente, no nosso jeito de ler e reproduzir o mundo à nossa volta, à nossa maneira, sob uma visão espetacularmente egocêntrica. Pelo visto Pink Floyd não percebeu que, ao tirar a educação da equação, também estava abrindo a porta para a insensatez sem limites. O que nos leva ao novo grande mal estar da humanidade (e outro sério problema acadêmico): a justificativa sem fim. Assim como Pink Floyd nos absolve da necessidade de qualquer educação ou controle de pensamento, passamos a admirar toda e qualquer instituição capaz de assumir a responsabilidade sobre noss...