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O homem do saco, ou não deixe de acreditar


Minha irmã não acredita em Papai Noel. Ela tem apenas nove anos, e eu acho isto assustadoramente errado. Na verdade ela se confundiu bem quando o descobriu, e o confundiu com o homem do saco. Às vezes passeavamos no shopping e ela se assustava quando passávamos pela vila cenográfica do bom velhinho, e chorava para que não deixassemos ele a levar embora.

Comigo foi diferente; quando eu era criança, e mais infantil do que hoje, o Natal era o dia mais importante do ano. Não pelos presentes - tudo bem, em grande parte, pelos presentes - mas por tudo que a data representava. Tudo o que eu via em desenhos sobre as luzes ofuscantes, as árvores decoradas, a família reunida, se tornada realidade na véspera do Natal. E por um dia milagres se tornavam possíveis, e a mágica de ver coisas que dizem não existirem se tornarem realidade diante dos seus olhos era a melhor parte da infância.

Então crescemos, deixamos coisas como faculdade, trabalho e contas se apoderarem das nossas vidas, e o Natal perde seu significado. Torna-se apenas mais um dia, um daqueles em que dar presentes é obrigatório e só aceitamos brincar de "amigo secreto" para não parecermos anti-sociais. Semana passada vendi um chopp ao homem contratado pelo shopping para posar como São Nicolau em um cenário construido perto da entrada, onde as pessoas param para tirar fotos e tomar sorvete – fica bem ao lado de um quiosque de casquinhas. Não me senti tão perturbado ao ver minha maior fantasia de Natal ser trucidada naquele momento; me incomodei mais quando ele pediu desconto mas concedi, afinal ele só sai de casa uma vez por ano e todo mundo merece uma choppinho no fim do dia.

Não me lembro ao certo de como descobri que Papai Noel não existe, mas lembro de que acreditei até quando pude. E hoje me agarro à crenças em coisas que dizem não existirem sem me importar se realmente podem acontecer, porque parecem boas demais para não serem verdade. Sonhos, felicidade, amor, são coisas que todos consideramos importantes, mas exatamente o quanto nos dedicamos a acreditar que são possíveis quando nos é imposto que só podemos acreditar naquilo que podemos ver. Assim algumas pessoas perdem o Natal ao longo do caminho, e toda a mágica em que um dia acreditavam com todas as suas forças.

Mas algumas pessoas apesar de crescerem e se ajustarem ao mundo real jamais deixam de acreditar, e são pessoas abençoadas por isto; são eternamente jovens. Natal ainda é a época para mágica, milagres, e acreditar naquilo que não se pode ver. Quando começamos a abrir mão de nossas crenças, é aí que começamos a morrer. Os adultos precisam do Papai Noel mais do que as crianças; são eles quem estão sendo massacrados dia após dia pelo mundo real, vendo sonhos não se realizarem e suas esperanças serem desperdiçadas.

Talvez não seja a descrença em Papai Noel que me incomodou, e sim porque parece que minha irmãzinha desistiu cedo demais. Eu não me comportei tanto este ano mas se puder fazer apenas um pedido, que seja este: não deixe minha irmã deixar de acreditar, Papai Noel, assim como você fez comigo. Feliz natal.

Ao som de: Last Christmas – Wham!

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