Pular para o conteúdo principal

Eu ♥ Cascavel

Alguns anos atrás, durante os meus anos de adolescente irreverente, incoerente e irracional - não que tenha tido algum progresso desde então - eu costumava passar os meus dias questionando coisas como, quantos amores alguém pode ter na vida? E os grandes amores; do que são feitos, o que os diferenciam de meras paixões ou atrações passageiras? Típico de adolescente, eu acho, sofrer por antecipação. Especialmente, em se tratando de garotas.

Mas na ausência de um amor real, eu desenvolvi um laço mais especial do que qualquer outro até então, e certamente um que provou ser mais duradouro do que as garotas que vieram, partiram meu coração, e se foram. Eu me apaixonei por uma cidade; Londrina. Minha cidade, onde minha história se desenrolou até a formação da minha consciência - e inconsciência também, diga-se de passagem. Mas dizem que temos dois grandes amores na vida; aquele que conhecemos enquanto ainda somos jovens e não sabemos ao certo como amá-la, e aquele que aparece quando estamos um pouco mais maduros, um pouco mais experientes, mas ainda tão perdidos quanto antes. Se o que dizem estiver certo, e enquanto as mulheres continuam a integrar-se e a abandonarem meu coração, Cascavel talvez seja mesmo o meu novo amor, aquele que fica. Na ausência de um relacionamento de verdade, as pessoas tendem a se apoiar em ilusões. Não me entenda errado; eu sonho, imagino, fantasio e até alucino, mas nunca deliro.

Claro, Cascavel e eu não temos o relacionamento perfeito; às vezes é um tanto abusivo, desrespeitoso, grosso e insensível. Mas sem dúvida tem sido o amor que esteve comigo nos meus melhores e piores momentos, desde quando deixei meu primeiro grande amor para trás, e não é o tipo de coisa que se pode ignorar. Aliás, tenho aprendido a me deixar levar de tal maneira que me vejo deslumbrado a cada dia com algo novo que a cidade me traz; seja as paisagens, as pessoas, ou o mundo de possibilidades que tem sido aberto para mim conforme me adapto aos meus novos arredores. Temos nossas divergências de vez em quando, mas faz parte. Que relacionamento não possiu seus altos e baixos, não é? Ainda mais, os peculiares e especiais como este. Enquanto não encontrar a mulher da minha vida, vou me comprometer à cidade que até então tem suportado meus dramas, que tem apoiado meus sonhos e aplaudido minhas canções, e que vem secando minhas lágrimas quando é preciso.

É, estou namorando Cascavel há dois anos e está ficando cada vez mais sério. Acho que estou me apaixonando.

Ao som de: Try a Little Tenderness - Otis Redding.

***

Eu só não mudo meu status do Orkut também, porque as pessoas já pensam que sou estranho o bastante.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Os 5 estágios do Roacutan

            Olá. Meu nome é Igor Costa Moresca e eu não sou um alcoólatra. Muito pelo contrário, sou um apreciador, um namorador, um profissional em se tratando de bebidas. Sem preconceito, horário ou frescura com absolutamente nenhuma delas, acredito que existe sim o paraíso, e acredito que o harém particular que está reservado para mim certamente tem open bar. Já tive bebidas de todas as cores, de várias idades, de muitos amores, assim como todas as ressacas que eram possíveis de se tirar delas. Mas todo esse amor, essa dedicação e essas dores de cabeça há muito deixaram de fazer parte do meu dia a dia, tudo por uma causa maior. Até mesmo maior do que churrascos de aniversário, camarotes com bebida liberada e brindes à meia noite depois de um dia difícil. Maior do que o meu gosto pelos drinques, coquetéis e chopes, eu optei por mergulhar de cabeça numa tentativa de aprimorar a mim mesmo, em vês de continuar me afogando na mesmisse da minha mela...

A girafa e o chacal

Melhor do que os ensinamentos propostos por pensadores contemporâneos são as metáforas que eles usam para garantir que o que querem dizer seja mesmo absorvido. Não é à toa que, ao conceituar a importância da empatia dentro dos processos de comunicação não violenta, Marshall Rosenberg destacou as figuras da girafa e do chacal . Somos animais com tendências ambivalentes – logo, nada mais coerente do que sermos tratados como tal.  De acordo com Marshall, as girafas possuem o maior coração entre todos os mamíferos terrestre. O tamanho faz jus à sua força, superior 43 vezes a de um ser humano, necessária para bombear sangue por toda a extensão do seu pescoço até a cabeça. Como se sua visão privilegiada do horizonte não fosse evidente o suficiente, o animal é duplamente abençoado pela figura de linguagem: seu olhar é tão profundo quanto seus sentimentos.  Enquanto isso, o chacal opera primordialmente pelos impulsos violentos, julgando constantemente cada aspecto do ambiente ...

A justificativa sem fim

45 anos atrás, Pink Floyd disse que não precisamos de educação e aqui estamos nós: aparentemente muito confortáveis com a nossa imprudência. Claro: não imaginávamos que um hino rebelde poderia nos deixar tão mal acostumados, e realmente não é de se culpar o hino - nem nada ou alguém na verdade - a não ser nós mesmos pelo estado da nossa cultura. O problema, como é de se esperar, mora na interpretação de texto - ou então, especificamente, no nosso jeito de ler e reproduzir o mundo à nossa volta, à nossa maneira, sob uma visão espetacularmente egocêntrica. Pelo visto Pink Floyd não percebeu que, ao tirar a educação da equação, também estava abrindo a porta para a insensatez sem limites. O que nos leva ao novo grande mal estar da humanidade (e outro sério problema acadêmico): a justificativa sem fim. Assim como Pink Floyd nos absolve da necessidade de qualquer educação ou controle de pensamento, passamos a admirar toda e qualquer instituição capaz de assumir a responsabilidade sobre noss...