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Algo a mais


            Eu não quero um relacionamento.

            Foram precisos quatro anos para perceber o que antes me parecia algo inacreditável, mas é a esse ponto em que chegamos. Eu não estou dizendo que eu jamais vou querer um relacionamento; só estou dizendo que hoje, aqui e agora, não é disso que eu preciso. Também não é como se houvessem outras grandes metas à minha frente apenas esperando para que eu tome uma atitude decente para alcançá-las, apesar de que a lista dos meus compromissos parece aumentar cada vez mais a medida em que as pilhas de tarefas a serem feitas no trabalho, relatórios a serem feitos na faculdade e roupas para passar em casa tendem a ocupar mais tempo do que eu esperava aguentar.
            Mas eu estou aguentando e quando alguém me pergunta como andam as coisas, eu realmente não deveria mentir. Está tudo bem, sim. Não, nada de novo. Não, não estou saindo com ninguém? Por que? Agora você me pegou. Não há um motivo concreto na verdade. Eu ando tão atrasado com meus relatórios, o apartamento está precisando de algumas reformas, as coisas andam tão caóticas no trabalho, e nem preciso comentar que a barba já está quase me deixando com cara de mendigo de novo. Mas cá entre nós, eu não quero um relacionamento agora.
            Não me entenda errado; eu quero sexo. E abraços de vez em quando. Alguns beijos aqui e ali. Um corpo quente na minha cama não faria mal nenhum. Eu definitivamente arrumaria tempo para você caso queira passar por aqui. Nós podemos conversar também. Eu não posso beber nada alcoólico, mas fique à vontade para se servir. Não é porque eu estou em recessão que deixei de dar atenção ao meu estoque. Nós podemos assistir alguma coisa; um filme, um seriado, a vista das estrelas na sacada... Ou nós podemos só transar caso você esteja tão cansada e atarefada quanto eu. Prometo deixar a portão encostado para que não precise me perturbar quando sair.
            Claro que eu posso estar exagerando aqui, mas o fato de eu estar brincando com tudo isso só serve para ilustrar exatamente o quanto eu estou exausto. Não de estar a procura de um relacionamento por tanto tempo, ou de alguém para amar até o fim dos meus dias, mas exausto da vida mesmo. Trabalhar cansa. Escrever relatórios cansa. Passar roupa cansa e queimou dois dedos meus. Viver cansa, e acho que estou em falta com meu sono há no mínimo três semanas, e a contagem continua...
            Sabe o que eu quero mesmo? Que alguém pergunte como foi o meu dia. Que alguém me surpreenda com uma mensagem boba e impensada sobre alguma bobagem que aconteceu com a gente e que fez você se lembrar de mim de repente. Quero companhia, mas que entenda que eu não estou pronto para deixar você ficar do meu lado o tempo todo. Acontece que eu desaprendi a gostar tanto assim das pessoas. Esqueci como é depender de alguém para coisas pequenas como ir ao shopping, ou coisas grandes como ser feliz para o resto da vida. Isso agora me assusta.
            Eu não digo isso para dar vazão à minha frustração ou à minha indignação pelo caos que os relacionamentos podem causar às pessoas, principalmente às mais neuróticas. Digo isso só por dizer mesmo. Porque eu já terminei quase tudo que tinha para fazer hoje e resolvi deixar o resto, que não é pouco, para tentar terminar amanhã. E porque de repente eu senti falta de algo. De um carinho. De uma mensagem. De um corpo quente chamando meu nome. Não de um relacionamento sério completo com mensagens de “bom dia” e “boa noite”, troca infinita de satisfações e comprometimentos complexos. Eu nem sei se daria conta de tudo isso agora. Eu só senti falta mesmo de algo a mais.
            Talvez eu divida minha vida com alguém, talvez não. Eu não sei. Só sei que por mais silencioso que o apartamento esteja agora, já faz muito tempo que eu não sei mais o que é me sentir sozinho. O que me faltou agora mesmo foi aquele algo a mais. Ou, alguém a mais, pra ser mais exato.

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