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Psicodrama



            Nós somos psicólogos. Ok, tecnicamente não. Mas nós estamos tentando, e tem sido uma jornada e tanto que já dura quatro anos e já está prestes a terminar, ao contrário do que fazem parecer os inúmeros relatórios de estágio, preparações para o TCC e ansiedades crescentes a respeito do que fazer depois da formatura.
            E não importa qual seja a sua ênfase, abordagem ou neurose em particular, em algum ponto ou outro – seja depois de uma dura orientação de estágio que nos deixou mais desorientados do que quando entramos, ou depois de perceber que quanto mais a gente escreve para o TCC mais parece que ele jamais ficará pronto, ou até mesmo conversando uns com os outros entre os corredores da faculdade e os horários apertados entre aulas para tomar um café ou um pouco de ar – todos nós acabamos pensando a mesma coisa: será que isso é mesmo para mim? Fiz a decisão certa? Serei um bom profissional? Talvez não teria sido mais fácil ter escutado meu pai e ter feito Administração?
            A verdade é que não há verdade. Alguns anos atrás, quando eu ainda estava tentando encontrar um porto seguro para me salvar de toda a perdição que Cascavel trouxe para a minha vida, eu me lembro de estar sentado na sala de aula que eu havia escolhido para mim com toda a certeza do mundo de que era ali que eu deveria estar – exceto pelo fato de que não era assim que eu me sentia.
            Quatro anos atrás, eu escolhi Jornalismo, porque realmente parecia ser tudo o que eu queria. Porque minha paixão pelas histórias das pessoas, dos lugares e combinar tudo isso com reflexões acerca de que tudo no mundo é subjetivo e particular de cada um – e colocar tudo isso em forma de palavras, parágrafos e pontuações – parecia ser exatamente o que a promessa do Jornalismo reservava para mim. Só que não. Depois de alguns meses eu percebi que não era ali que eu deveria estar, e que talvez fosse melhor para mim e quem sabe até para o mundo se eu deixasse a vergonha, a insegurança e o medo de lado para dar uma chance à segunda opção: a Psicologia.
            Independente do meu pai dizendo que eu seria pobre, ou da minha mãe dizendo que eu seria gay e pobre, ou do meu tio dizendo que ainda dava tempo de eu estudar para o concurso público da polícia federal que ia ter no próximo fim de semana, foram precisas apenas algumas aulas em uma semana para que eu percebesse que eu finalmente estava exatamente aonde deveria, e exatamente no tempo em que eu estava.
            Porque se eu não tivesse andado errado por um ano antes, eu não teria conhecido vocês. Eu não teria descoberto o quanto era possível ter um humor bizarro tão coincidente quanto eu tenho com a Lia, ou o quanto eu precisava ouvir tantas verdades que ninguém tinha coragem de me dizer até eu conhecer a Luciana, ou o quanto eu era capaz de chorar de tanto rir como eu já fiz com a Ellen. E ao longo dos anos do curso vieram outros, cada um com sua habilidade especial que se destacava dentre os outros, que aos poucos me mostraram o quanto a Psicologia poderia ser não só divertida, mas especial. E foi graças à amizade e ao grupo de apoio tanto dentro quanto fora da sala de aula que formei com o Renan, a Paula e tantos outros mais que eu descobri muito mais sobre mim do que eu poderia imaginar.
            O Renan sempre tem suas teorias sobre mim e gosta de analisar cada um dos meus comportamentos para tentar entender algumas coisas que eu faço que nem sempre tem muito sentido, enquanto a Paula parece capaz de me enxergar com uma clareza e sensibilidade que eu jamais pensei que alguém poderia ser capaz de me ver. Todos eles e tantos mais que eu conheci, em especial a Joyce que não só continua minha amiga há quatro anos, mas agora divide o mesmo CEP que eu. E não tem coisa melhor do que terminar o dia depois de quatro aulas sobre diferentes teorias sobre a psique humana sentado na sacada debaixo das estrelas tentando perceber o quanto tudo aquilo não é só verdade, mas também é muito difícil de se absorver.
            Cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é, e isso só fica mais evidente quando se divide a vida com alguém. E foi isso que me fez pensar no quanto nós deveríamos comemorar o nosso dia não importa de qual forma. Porque depois de quatro anos de relatórios, trabalhos em grupo, listas de chamada, intervalos no mezanino, cafés da manhã na loja de crepes do outro lado da rua, aulas trágicas aos sábados de manhã e cinquenta tons de neuroses que certamente brotaram em nossas mentes a cada novo conteúdo que aprendemos, o que levaremos para o resto da vida quando tudo isso acabar?
            Eu não sei se eu serei um bom psicólogo, mas coloco minha mão no fogo por cada um de vocês que tem trilhado este caminho comigo. Especialmente os que eu tive o prazer de conhecer muito além da sala de aula, e que eu já nem preciso mais dizer para que se sintam à vontade na minha casa e na minha vida. E se eu não tivesse perdido aquele ano? E se eu não tivesse conhecido vocês? Não sei. Os psicanalistas vão dizer que minhas incertezas estão ligadas a algum trauma não resolvido na minha infância, enquanto os existencialistas vão questionar o que eu vou fazer com isso e os comportamentalistas vão dizer que esta atitude pode mudar. Em um mundo onde tudo é subjetivo, nós aprendemos realmente que só cada um sabe qual é a dor e a delícia de ser o que é.
            Então feliz dia do “e o que você vai fazer com isso?”, “fale mais sobre isso”, “por que e para que você faz isso?”, “e o que você acha que isso significa?”, “o que você está ganhando com isso?”, “não acha que poderia agir diferente?” e assim por diante. Ainda falta um tempo para que nos tornemos psicólogos de verdade, mas em se tratando de todas as análises que já fazemos em uns aos outros e a nós mesmos, nós definitivamente estamos no caminho certo.

Comentários

  1. Adorei Igor, especialmente a parte "Em um mundo onde tudo é subjetivo, nós aprendemos realmente que só cada um sabe qual é a dor e a delícia de ser o que é."

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