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A tulipa invertida


            Às vezes eu me sinto a melhor pessoa do mundo. A pessoa capaz de andar pela rua com uma trilha sonora impecável estourando seus ouvidos e um ar de superioridade natural que faz com que todos em seu caminho torçam os pescoços para me ver de novo, porque não acreditaram que alguém tão incrível poderia existir logo aqui, nos confins do Oeste do Paraná. Às vezes eu me sinto muito criativo. Capaz de elaborar técnicas alternativas para estudar para provas, ou para iniciar conversas com as pessoas, ou para alcançar coisas que estão longe. Para incrementar o potencial do meu misto quente em noites mornas, ou para extravazar quaisquer angústias que tem atormentado a minha alma e só serão capazes de encontrarem a redenção se eu as libertar na forma das palavras certas.  Às vezes eu me sinto invencível. Tão invencível que errar seria infame, pedir ajuda seria inconcebível e duvidar da minha autoconfiança seria heresia.
            E então tem os outros dias.
            Às vezes eu me sinto a pior pessoa do mundo. O ser humano mais incorrigível que já caminhou pela face da terra. O solitário mais angustiado que já se viu, que passa seus dias perpetuando o inverno que existe dentro de si mesmo e não é capaz de mais nada a não ser espalhar a frieza e a insensatez da qual é feito para quem cruzar o seu caminho. Às vezes me sinto muito sozinho. A ponto de me sentir dolorosamente confortável com o eco das minhas lágrimas, e ao mesmo tempo invadido quando alguém se atreve a demonstrar interesse em visitar o meu mundo, o meu apartamento ou o meu coração. Sabe como é difícil dar espaço na mesa à outra pessoa quando já se está acostumado a cozinhar jantares para só um? Sou quase graduado em criar  melancolia, enquanto a outra metade é quase disléxica em se tratando de compartilhar felicidade.
            Às vezes sinto que vou perder as pessoas. Às vezes sinto que o esforço para nos mantermos juntos é só meu. Às vezes sinto que o tempo que passamos juntos e as risadas que causamos um no outro não significaram nada. Não há nada tão fatal quanto uma promessa vazia. Às vezes sinto que só o que eu sinto é verdadeiro, apesar de trágico. Às vezes sinto que as pessoas dizem muito sem sentir nada. Às vezes sinto que faço parte delas. Às vezes deixo as cortinas fechadas por dias pra que não me vejam, porque eu sou diferente. Ridiculamente autentico, absurdamente verdadeiro, ironicamente sozinho. Eu sou carente, não vou negar. E neurótico. E ansioso. E incapaz de acreditar que você pode gostar de mim apesar disso. E talvez incapaz de acreditar que alguém pode gostar de mim, ponto. Ando tendo dias ruins e confesso que não sei mais o que fazer deles. Mas eu abri as cortinas. Já é alguma coisa.
            Tudo começou há quatro meses quando me disseram algo que eu não gostei. Porque era algo que eu não podia mais fazer. Pelo menos por enquanto, até que o bem maior, caracterizado aqui como a minha pele, terminasse de se beneficiar com a escolha que eu fiz. A escolha que eu fiz de parar de evitar os espelhos e os olhos das outras pessoas. Eu estava determinado a recuperar o meu reflexo, sem perceber que para isso eu teria que abrir mão de outra coisa que também fazia eu me sentir completo – especialmente na ausência da coragem de olhar para mim mesmo e me contentar com o homem que aparecia. Isto não é sobre álcool, é sobre o que ele representa. Para mim, era o refúgio do meu próprio reflexo. A fuga dos meus pensamentos. O alívio das minhas escolhas erradas. A saída de emergência da minha consciência. Quatro meses atrás, eu fiz uma escolha. Eu queria ser completo, com reflexo e tudo. Eu só não percebi que para seguir em frente, eu precisaria dar dois passos para trás. E que, sim, eu seria capaz de me perder no meio deste pequeno percurso.
            Seis meses atrás, eu viajei e fui a uma festa. Ainda em treinamento sobre me focar aos olhos das pessoas enquanto conversávamos, e ainda passando reto pelos outros espelhos da vida, eu preenchi o vazio da minha autoestima do único jeito que eu sabia como. E o único jeito que estava sendo distribuído pelo open bar: com Heineken. Muita Heineken. Assim como eu em meus dias bons, às vezes meu fígado sente que tem superpoderes. Na verdade, se naquele tempo tivessem pesquisado a fonte do meu egocentrismo latente, certamente o teriam encontrado em meu fígado. No dia seguinte, eu acordei em um aeroporto, perdido entre as escalas que me voariam de volta para casa, atordoado com a ressaca física de um profissional e o arrependimento moral de um amador. E ao criar espaço em meu organismo para absorver as pessoas e as coisas ao meu redor, a primeira coisa que vi logo abaixo dos meus olhos foi a minha jaqueta amassada e decorada com um souvenir daquela noite. Um broche. Mas não era qualquer broche. Era um broche de uma tulipa de chopp da Heineken. E estava invertido, combinando adequadamente com o meu bom senso até então. Minha primeira reação foi a de querer tirar o broche. Em vão, claro, já que mal conseguia parar em pé na fila da cafeteria para comprar 300ml de vida/café para me animar. “Quer saber? Deixa aí!”. Para não parecer tão feio eu o coloquei na posição normal, na esperança de que ele me inspirasse a voltar ao normal também. E crianças, esta é a história do broche da tulipa.
            Quatro meses atrás, quando me disseram que eu não poderia mais beber enquanto estivesse à mercê de antibióticos e efeitos colaterais, eu me lembrei daquela ressaca no aeroporto – uma das melhores da minha coleção, devo confessar – e o simbolismo daquele broche invertido me atraiu. Não queria tirar o broche, porque mesmo sem poder beber ainda apoiava veemente a causa. Então eu o inverti, para combinar mais uma vez comigo. Pra quem adora metáforas como eu, aquilo foi lindo. E me comove até hoje toda vez que o vento o desarruma e eu preciso colocá-lo de volta no lugar, só que ao contrário. Aquela tulipa invertida era exatamente a forma como eu me sentia; como se a vida desde então tivesse sido virada do avesso, mas nem por isso deixasse de ser bonita. Aquela tulipa invertida era eu, que aos poucos com o tempo estava voltando à sua posição normal, mas não sem antes enfrentar o vento e as tempestades que a balançavam. A ironia ainda maior foi que para arrumar o broche eu precisava me olhar no espelho. E crianças, esta é a história de como eu consegui enfrentar meu reflexo de novo. Às vezes, independente de como a gente se sente, a vida se manifesta nas pequenas coisas para nos ensinar grandes lições. E lição aqui é que para vencer os dias ruins, se livrar das pessoas erradas, evitar lugares perigosos e voltar para casa quando a vida te vira do avesso, é melhor estar sóbrio.
            Eu vou endireitar este broche de novo quando a hora chegar. Quem sabe até lá eu já tenha endireitado a mim mesmo.

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