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Lá vem o sol


Esses dias eu e a Joyce estávamos conversando sobre como nós temos sorte. Obviamente chegamos a essa conclusão enquanto brisavamos em nosso lugar favorito, a sacada daqui de casa. Eu nem sei como isso começou para falar a verdade, mas parece que quando a vida nos invade demais e a sensação de sufocamento supera a de apreciação, é pra lá que a gente corre. Para sentar, conversar, esquecer dos problemas e quem sabe recuperar o fôlego para então dar o dia como encerrado e ir dormir com um pouco mais de força e otimismo para toda a luta e loucura do dia seguinte que está por vir. E comentamos sobre como não só aquele pequeno espaço em nosso apartamento não só faz bem pra gente, como também sentimos que é para lá que queremos levar todas as outras pessoas em nossa vida quando as coisas apertam, as mágoas nos afogam e as dificuldades nos estreitam. E por incrível que pareça, sempre funciona.
             Foi o que eu disse pra Dayane quando eu a levei ali pela primeira vez e, desde então, antes de qualquer coisa, é ali que a gente senta e conversa por horas e horas até toda aquela agonia se dissipar e a ansiedade sossegar, para então decidir o que faremos do nosso Sábado à noite. E então eu comentei a mesma coisa com o Adriano, e foi assim que, antes de nos reunirmos para encerrar o Domingo assistindo televisão e dando risada de coisas ridículas que também servem para aliviar o nosso estresse, nós tiramos um tempo para ficar por ali só para compartilhar o que tem acontecido com a gente e, quem sabe, encontrar uma maneira de continuar a enfrentar os nossos problemas dia após dia. Dessas conversas o Renan, o Luis e o Chuck já entendem bem.
            Um dia eu disse à Tati o quanto aquilo era incrível. Que a fórmula em si era sempre a mesma; um arguile, um tereré, uma trilha sonora e um céu estrelado podem fazer muita diferença na nossa vida, especialmente quanto se considera o quanto é fácil sair correndo por aí resolvendo conflitos, reescrevendo parágrafos do TCC, respirando fundo para não deixar a canseira do trabalho tomar conta da gente, e esquecer que acima de tudo isso, é preciso cuidar da gente. Em outra ocasião, obriguei meu pai a sentar por alguns minutos na minha cadeira para que ele pudesse entender na prática do que eu estava falando. Apenas entreguei o copo de tereré geladíssimo na sua mão e esperei a magia acontecer. Tiro e queda.
            A Paula e eu sempre que podemos recriamos a sensação e nos reunimos ali quase todos os dias da nossa vida acadêmica corrida e desesperante para aliviar um pouco a carga dos nossos problemas. Conversamos sobre tudo, sobre a vida, sobre exigir demais da gente e esperar demais dos outros também. Se não fosse pela minha preguiça de trocar as músicas do pen-drive mais regularmente eu nem sentiria o tempo passar tão rápido, mas já decorei bem as minhas trilhas sonoras e acho que as minhas companhias também. Mamãe também curtiu a sacada. Uma vez por ano ela vem pra cá e sempre faço questão de que a gente tire alguns instantes das nossas férias juntos para aproveitarmos o pôr-do-sol, a calmaria que aos poucos toma conta do mundo e que nos leva junto no embalo. Pra falar bem a verdade, aprendi isso com o Guilherme, nos nossos tempos de ensino médio quando tudo o que queríamos era esquecer aquilo e só relaxar, até que eu me mudei e só depois de muito tempo consegui minha própria sacada para me refugir da vida. E quando ele me visitou, foi como se ainda estivéssemos no ensino médio, evitando estudar e filosofando sobre o que queríamos ser quando crescêssemos. Na falta de um adjetivo que faça mais justiça ao que estou querendo dizer, tudo isso é muito bom.
            E então tem aqueles dias em que os amigos estão ocupados, os pais estão longe e a Joyce volta pra casa, em que eu me pego com saudades de tudo e de todos. E com vontade de levar tudo e todos para sentarem ali comigo e fazer com que tudo fique bem de novo, começando pela minha ansiedade constante e excessiva de querer ser mais feliz do que eu já sou, apesar de não ter muita consciência disso. Foi aí que eu pensei que, se funciona sempre, talvez funcione comigo mesmo quando não tenha outra pessoa sentada ali comigo. Me escutando, me validando, me criticando construtivamente e me fazendo sentir seguro e confortavelmente acompanhado. E são nesses pequenos momentos que eu me sinto ainda mais sufocado e decido que é preciso deixar o mundo de lado durante algumas músicas para cuidar de mim também. E antes mesmo do pôr-do-sol aparecer, eu já me sentia curado. Em questão de algumas músicas, litros de tereré e carvões de arguile, eu estava quase adormecendo ali mesmo, atordoado por toda a tranquilidade de algo simples e singelo como sentar na sacada e deixar que os ventos e o calor do sol levassem embora toda a complicação que eu vivo convidando para fazer parte da minha vida. E me fez muito bem.
            O que eu espero dessa vida é ser feliz. O que eu espero das pessoas é compreensão, companhia, afeto. O que eu espero dar em troca à elas é felicidade. Talvez eu não seja a melhor pessoa do mundo, mas definitivamente atraí as melhores para passar algum tempo comigo. Claro que ainda tem a preguiça, a briga pra ver quem vai trocar a cabeça do arguile quando ele queima, quem vai buscar mais gelo quando ele derrete e quem vai levantar para alcançar o controle remoto quando o meu lado podre musical toca no pen-drive. Mas a gente se diverte e sempre sai renovado dali. Eu ainda não sei explicar como isso acontece ou porquê. Só sei que depois de um dia daqueles, depois de ser mal entendido, chateado, pisoteado e flagelado emocionalmente por quaisquer sejam as razões, o paraíso está logo ali, a alguns passos da minha sala de estar, só esperando para me deixar inteiro de novo. E as tardes que passei ouvindo clássicos com a Andressa, os desabafos que confiei à Lia, e os conselhos que tentei passar pra minha irmã ali não me deixam mentir.
            A Joyce me disse que nós temos sorte e eu concordo. É por isso que passamos tardes, noites e madrugadas ali, só compartilhando como foi o nosso dia e tentando entender porque certas coisas acontecem. Porque as outras pessoas são tão complicadas. Porque temos tanto azar. Porque o sol se põe tão rápido. Mas a gente se recupera. Quando eu fui atrás de realizar o sonho de passar horas sentado na sacada de casa, eu quis duas cadeiras ali. Eu não conseguiria nada desta vida sozinho, e não havia nada melhor do que ter outra pessoa ali para dividir as alegrias, as tristezas, os eventuais copos de uísque, os famigerados cigarros e charutos, os mistos-quentes antes da aula, as xícaras de leite quente antes de dormir, e toda a felicidade que só é possível existir plenamente se for compartilhada com outra pessoa.

            Eu já ri muito aqui. Já chorei bastante também. Já descobri muito sobre mim mesmo e as outras pessoas que sentaram à minha frente enquanto revezávamos o copo de tereré e a mangueira do arguile. Mas acho que, na maioria das vezes, não havia acessórios. Havia apenas duas pessoas cansadas querendo fugir da loucura do mundo lá fora, sentadas ao sol tentando recuperar seu ânimo para continuar a lidar com a dor e a delícia de estar vivo, e para contemplar as estrelas quando o sol se põe. Felizmente para nós, o sol voltou a nos visitar com mais frequência. Nós temos muita sorte.

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