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Os cinco anos

Cinco anos. Na minha cabeça parecia que isso era bem mais tempo do que realmente foi. Quer dizer, cinco anos atrás, isso parecia bastante tempo. Agora parece que tudo aquilo aconteceu ontem. O vestibular, as despedidas, a mudança, a outra mudança, os móveis novos, o emprego novo, o outro emprego novo, o novo emprego novo, as pessoas, os amigos, os inimigos, as namoradas, as ex-namoradas, os amores platônicos, as decepções, as lembranças, as vitórias, as coisas que eu dizia serem inesquecíveis.
Ficou tudo pra ontem, com algumas exceções. E eu não vi passar. Eu sinceramente não vi passar, mesmo quando me comprometia a viver cada dia ao máximo. Ou, no mínimo, fazer algo diferente todos os dias para poder diferenciar uma terça-feira enfadonha de uma sexta-feira épica, e vice-e-versa. Porque viver dias iguais me dá agonia. O tédio existencial me causa crises existenciais antes mesmo dele realmente se instaurar. Logo eu, que sou fã número um da rotina e das coisas familiares ao meu redor. Ah, vai entender. Quem não vive com base em pelo menos umas cinco contradições diárias, que atire a primeira pedra.
            E aí o tempo foi passando, cada dia com suas cinco contradições rotineiras e perigosamente angustiantes, até que completaram cinco anos. E cinco anos atrás, eu resolvi que queria escrever sobre tudo isso. Porque era uma vida nova começando ali, repleta de territórios desconhecidos e rostos estranhos me cercando a cada passo que eu arriscava dar, e escrever era o equivalente a deixar migalhas de pão pelos caminhos que já havia andado. Em caso de emergência era só segui-los de volta e começar de novo por alguma outra direção. Tudo era muito assustador; muito novo, muito abstrato, muito possível. Nada mais angustiante do que ter todas as possibilidades do mundo te encarando. Não é a toa que assim que cheguei aqui, eu não via a hora de voltar para casa.
            Os anos passaram, pessoas vieram e se foram, algumas ficaram porque se sentiram à vontade o bastante para isso, e muita coisa aconteceu. Entre andanças, apartamentos, assaltos, romances, dramas, músicas, tragédias, casamentos, formaturas, sacadas, tererés, arguiles, cervejas, vodkas com energético, baladas, shows, amizades, risadas, lágrimas, brigas, preguiças, medos e páginas em branco do Word só esperando para que eu as enchesse com tudo isso, eu fui me sentindo cada vez melhor. As ruas pelas quais eu passava pelo centro da cidade já não eram mais tão iguais, assim como os rostos das pessoas não se misturavam mais nas multidões. Porque eu já havia conhecido o bastante desta cidade para dar minha cara a ela. Para relembrar histórias que vivi por aí, e para ter feito parte da história dela também – taí a CGN que não me deixa mentir.
            Eu gosto daqui, agora. Criei raízes aqui mesmo quando estava certo de que jamais o faria. Conheci pessoas aqui mesmo quando tinha certeza de que não iriam ter um futuro comigo. Vivi histórias aqui mesmo quando não sabia por onde começá-las. E aí vieram os cinco anos que deixaram tudo de cabeça pra baixo, me abateram de todos os jeitos possíveis, e me deixaram assim; insistindo na vida, largando mão do que me atrasa, rindo de tudo, chorando por nada, e escrevendo como sempre. Cinco anos. Comparado àquela primeira semana em que cheguei aqui, cinco anos não são só um marco da minha história, ou um círculo desenhado no meu calendário. Cinco anos são uma vitória, cuja linha de chegada já está logo ali adiante. Assim como eu não vi os dias passarem tão rápido assim, nunca imaginei no que seria de mim quando chegasse aqui. Me sinto bem. Me sinto feliz. Me sinto até satisfeito com essa felicidade toda, por mais que quem esteja de fora não perceba tanto a minha paz. Mas está tudo bem. Só me resta agora começar a pensar no que eu quero fazer pelos próximos cinco anos, mas isso também é só uma questão de tempo.

            Você vai adorar o amanhã. Já está adorando...

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