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O pai nosso


“Eu quero paz.” É assim que você me responde a cada ano, toda vez que eu tento descobrir o que você gostaria de ganhar no seu dia. Felizmente ou infelizmente, eu nunca realmente entendi o que você queria dizer, o que invariavelmente me levava a buscar por presentes substitutos na forma de camisas, sapatos ou gravatas. E digo que felizmente não entendia, porque se tem algo que você sempre soube fazer com maestria, foi me proteger o máximo que pôde dos males e injustiças desse mundo, de modo que eu não perdesse o meu sono à noite. E digo que isso também foi infeliz, porque isso sinceramente é o que mantém um pouco distantes as minhas tentativas de te ajudar, te cuidar, te aliviar um pouco da carga que você carrega, mas que eu consigo imaginar muito bem o quanto é difícil.
   Cuidar de uma família por si só já é desafiador. E uma empresa então? E se fossem somente essas esferas a serem mantidas equilibradas no ar, talvez as vinte e quatro horas do dia pudessem até liberar uma folga, mas não. Existem prazos a serem cumpridos, compromissos a serem honrados, e muito, mas muito trabalho a ser feito. Coisas que finalmente me fizeram perceber o quanto o seu pedido de paz não era uma tentativa de confundir a minha cabeça para me deixar desorientado sobre o que escrever no seu cartão, mas que você está falando sério. E agora eu entendo. E antes que você diga que eu demorei demais pra entender, poupe-se; antes tarde do que nunca, porque tem pessoas que passam a vida através de dias serializados e neutralizados por rotinas, afazeres e problemas. Mas nós não somos desses. Nem podemos ser.
   Porque quando eu digo a você que esse dia precisa ser comemorado, eu falo sério. Porque você é uma pessoa que merece ser comemorada, reconhecida, abraçada. Eu sinto muito, mas muito mesmo por não ser capaz de te proporcionar a paz que você precisa – a paz que você merece – mas eu prometo continuar aqui do seu lado; escutando e deixando certas coisas que eu ouço de lado, entendendo e tentando fazer cada vez mais para ajudar, e trabalhando porque ninguém foi feito para carregar o mundo sozinho. Em algum ponto você vai precisar parar para respirar, então por que não confiar um pouco e me deixar tomar conta um pouco?
   Talvez você sinta que tudo depende de você, e talvez você até tenha razão sobre algumas coisas. Mas sobre outras, nem tanto. Porque o homem, o pai, o empresário, o chefe que todos consideram e admiram, e o legado de caráter, honestidade, perseverança e resiliência que você passa para todos que compartilham das suas aventuras, estas sim são facetas insubstituíveis. E são todos frutos do seu trabalho, da sua dedicação e do seu afeto pela vida, que apesar de você sentir que tem sido mais machucada do que poderia aguentar ser ao longo desses últimos anos, ainda é uma vida que tem muito a oferecer.
   Ou talvez seja uma questão de perspectiva, que só quem está de fora consegue enxergar, e às vezes é só disso que a gente realmente precisa para reencontrar forças para continuar lutando. Para continuar a nossa busca louca pela paz, matando um leão por dia e deitando a cabeça no travesseiro à noite um pouco inquieto por saber que amanhã tem mais, mas que por hoje o que podia ser feito, foi feito.


   Ninguém ao seu redor pode negar que você é um bom companheiro, um cara admirável, um administrador competente. Mas acima de tudo, você é um pai para essas pessoas. Um símbolo de dedicação, autoridade e ordem que tenta manter o seu mundo sob controle. E, é claro, um pai em especial para os seus filhos, que apesar de estarem cada vez mostrando um pouco mais do seu potencial nas suas notas no colégio, ou nas tarefas que desempenham, ainda precisam aprender muito com você. Viver em paz é fácil; manter uma vida em equilíbrio enquanto o mundo desaba debaixo dos seus pés é o verdadeiro desafio. E talvez, quem sabe, esteja aí a verdadeira graça da vida; nesses momentos definitivos em que você descobre exatamente o quanto é forte. E você, Marcio Moresca, é.
  

   Feliz aniversário, pai.

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