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Ela


Era um domingo de manhã. A chuva era intensa lá fora. Você estava adormecida ainda nos meus braços quando acordei. Sua pele morena refletida levemente pelos primeiros raios de luz que invadiam o quarto. Você estava em paz. Pensei em levantar e preparar o nosso café da manhã, mas não queria interrompê-la. Você estava dormindo tão profundamente. Descansando suavemente. Existindo perfeitamente. Eu não queria que aquele momento acabasse. Então fiquei deitado ali, ao seu lado, com meus braços ao seu redor, me sentindo grato por você. Por nós. Pela sinfonia da chuva. Pelo amor que estava entre nós, são e salvo de tudo. Nós poderíamos ficar ali para sempre. Nós deveríamos ter ficado ali um pouco mais. Mas, não. Eu quis levantar, preparar o café, começar o dia. Eu, afobado pela vida como sempre, nunca soube discernir o que realmente importava nela. Nós importávamos, disso eu tinha certeza. Mas a insistência em querer levantar fez com que eu a soltasse.

Aquele foi o último domingo que passamos juntos.

***

Ultimamente eu não consigo parar de pensar em você. Em como você está, o que tem feito, com quem tem falado. Se está feliz...

Sinto sua falta como nunca sentira antes. Como se uma parte de mim estivesse faltando, e nada nem ninguém me desmotivaria de continuar te procurando. Saudade é o nome, e usava o seu perfume.

Queria que estivesse em casa quando eu chegasse. Eu cuidaria de tudo. Deixe-me preparar o jantar, servir o vinho, puxar sua cadeira. Como sobremesa, podemos só nos aconchegar no sofá, em uma noite amena, com um cobertor e o calor do seu corpo junto ao meu. Você pode me contar como foi o seu dia, ou pode se entregar à preguiça, apoiada em mim. Eu passei o dia só esperando para abraçá-la de novo. Beijá-la de novo. Confessar baixinho em seu ouvido que estou feliz por esta vida. O mundo recomeçou quando você apareceu, e tudo vale mais a pena quando é compartilhado contigo. Pode ficar tranquila. Pode relaxar. Estou aqui, meu bem. Estamos aqui agora. Não sei se pode me ouvir, mas isso era tudo que eu queria.

Sabe quanto tempo eu esperei por você? Você não faz ideia de quantos encontros, quantos quilômetros, quantas promessas foram necessárias para que eu chegasse até você. Eu sei que não sou perfeito. Falo demais, escuto de menos, faço muito caso de coisas pequenas. Não sei reconhecer quando estou errado. Mas soube reconhecer que você era certa. Sei que nossa vida não é fácil. Entre os problemas, a correria, os horários, os compromissos, o cansaço... Às vezes parece que nunca voltaremos para casa. Às vezes tenho medo de que você não estará mais aqui. Mas cá estamos... E eu cheguei a pensar que você não existia. E que viver sozinho não seria tão ruim. Mas aí eu não teria conhecido sua mãe, e minha mãe não teria conhecido nossos filhos. Não teríamos tido a alegria de deixar nossa casa do jeito exato com o qual sonhamos. Eu não teria sentido aquele arrepio quando você topou sair comigo. Ou aquela emoção na igreja quando você aceitou passar o resto da sua vida comigo. Olha onde estamos agora... Eu nunca imaginei que esse tipo de amor pudesse existir, meu bem. Obrigado pela vida que construímos. Pela paciência. Pelas piadas sem graça. Pelo som da sua risada. Pelo brilho dos seus olhos. Por ter ficado.

***

E tudo isso poderia ser verdade hoje, se eu não tivesse insistido em levantar para fazer o café. Eu fui aquele que partiu. À procura de algo que nem sei o que é, e que provavelmente nunca encontrarei.

Mas se eu encontrá-la de novo – por favor, meu amor – não me deixe ir.

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