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A ética do carma


A vida é um crediário. Não necessariamente um das Casas Bahia, como cantavam os Mamonas Assassinas. Tem mais a ver com a filosofia da logística – a ideia de que toda ação no universo provoca uma reação, mesmo que esta ecoe longe de você. É a mesma premissa citada em grandes slogans através da história, dependendo da sua crença. Talvez seja originada por um provérbio bíblico, ou quem sabe por um fenômeno da natureza (o tal efeito borboleta). Eu não sei. Mas se eu precisasse arriscar, em se tratando do emprego do fundamento universal sobre “aqui se faz, aqui se paga”, o melhor deles poderia ser este aqui:



Enfim, cada um com sua conta em aberto. Ao longo da vida, os dividendos vão se acumulando, dependendo de como você gasta sua energia por aí. Há quem defenda que é dando que se recebe, quanto quem semeia vento colhe tempestade, entre outras figuras de linguagem equipadas com o mesmo efeito. O questionamento em si é o mesmo: tudo que vai, aparentemente volta. É o que me veio a mente, seis meses e um dia atrás, enquanto esperava a resposta de um processo seletivo para uma vaga administrativa em uma empresa. 

Ao me questionarem sobre minhas habilidades, metas de vida e experiências com o pacote Office, listei tudo conforme os artigos vocacionais e testes do Buzzfeed citam ser apropriado para a ocasião. Tudo parecia alinhado em prol da assinatura da minha carteira de trabalho – salvo pela única exceção possível para o exercício pleno da meritocracia: falhei no teste de Q.I. (Quem Indica). Quem passou, no caso, foi uma garota com menos da metade da minha experiência, porém o dobro dos atributos estéticos e – não obstante – um laço afetivo com a gestora do RH da firma. Parabéns, Indicada, por sua efetivação surpreendente.

É claro que eu fiquei frustrado. Quem não ficaria? E passei a questionar tudo – desde as minhas escolhas profissionais até o carma que rege o universo. O mesmo que Caetano Veloso aparentemente crê que negativou o crédito do Brasil. Ou então, o mesmo que (spoiler alert) rege a trama da novela das oito – que começa às nove, porque nada mais é sagrado nesse mundo.

O que invariavelmente sucede situações como esta também parece ser coisa de outro mundo. Não do mundo em que a Márcia Sensitiva vive, mas do mundo além do nosso próprio umbigo. Seis meses atrás, eu perdi aquela vaga tão promissora de... Auxiliar Administrativo. No que eu estava pensando? Certamente não no meu diploma de Psicologia, nem no de Jornalismo que está por vir. Eu só estava cansado e queria colo – institucionalmente, burocraticamente e profissionalmente falando. Qual jovem (ou velho, neste caso) estagiário não sonha com a dor e a delícia de ser consolidado pelas leis do trabalho? Qualquer trabalho, em se tratando de uma recessão que, ao julgar pelos ventos, não tem prazo para acabar.

Seis meses atrás, eu fui rejeitado. Pouco menos de um mês depois disso, uma nova oportunidade foi estendida a mim. Continue sendo estagiário, continue emocionalmente e profissionalmente informal, mas continue sendo jornalista. De janeiro a dezembro, até o mundo (do TCC) acabar. E eu fui. Não era a Terra Prometida, mas era uma jangada navegando na direção certa. Apesar dos pesares, eu continuei (e continuo) sendo jornalista. 

Se este é o meu carma a ser vivido nesta vida, eu não poderia ter sido melhor abençoado. Até porque, desde então, só mais oportunidades tem surgido – embora não tenham sobrevivido a outro teste, o do tempo. A chance de (quase) escrever para a Gazeta do Povo. A credencial para cobrir eventos solenes. A convivência com profissionais com anos de experiência em outras editorias, outras redações, aplicada diariamente na edição das minhas produções, divulgadas para todos os sites de notícia de Foz do Iguaçu – mesmo que estes não saibam que certos textos “De Assessoria” partiram de mim. É uma sensação boa, no final das contas. Se aqui se faz, aqui se paga, tudo indica que estou em dia com o universo.

O que não pode ser dito pela Indicada. Afinal, quem poderia prever a reestruturação socioeconômica e política pela qual a empresa viria a passar? Seis meses depois, eu soube que a Indicada foi dispensada, em meio a tantos outros funcionários, em prol do lema não oficial de 2019: a austeridade. 

Um detalhe importante sobre a política administrativa por trás de “aqui se faz, aqui se paga”: você raramente ganha um demonstrativo para entender exatamente pelo que está pagando. A maioria dos recibos da vida, como diria Márcia, é intuitivo.


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