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O inferno somos nós


Eu sou difícil. Mimado, arrogante e temperamental. As mesmas qualidades que me garantem eficácia ao atirar comentários sarcásticos, são as mesmas balas perdidas que me atingem quando eu invariavelmente erro o alvo. Há quem defenda, ainda, a premissa de que eu nem deveria estar atirando, pra começar. Ou então, “quem fala o que quer, ouve o que não quer”. O que, por sua vez, explica porque também não ando falando com ninguém e, consequentemente, também justifica a paz que reina no meu grupo de WhatsApp mais bem sucedido: aquele que fiz para mim mesmo, para salvar links e coisas do tipo, alheio a qualquer participação popular. 

Se Sartre estivesse vivo, “o inferno são os outros” seria a capa do seu grupo particular, enquanto todos os outros – com pensadores críticos e especialistas de outras abordagens – estariam silenciados por um ano. 

Não me orgulho de ser difícil. Tampouco foi fácil admitir isso, com o passar dos anos. Depois de inúmeras brigas infames por motivos infantis. Engraçado como toda palavra com aspecto pejorativo começa com “i”. Infame. Infantil. Inconsequente. Insensato. Incorrigível. Igor.

Eu gostaria de ser uma pessoa mais leve. Daquelas que sorri em fotos sem dificuldade e não encara simpatia como sinal de perigo imediato. Mas ao mesmo tempo... pra quê, exatamente? Para me encaixar em todos os grupos? Para ser o melhor amigo de todos? Este é parte do problema: confundir harmonia com banalização. A noção inverossímil de que ser “legal” envolve ser “popular”. 

Se algum dia eu pensei em ser amado por todos, definitivamente falhei. Mas até onde me lembro, sempre optei por correr na direção oposta. Primeiro, por saber que ser “legal” é diferente de ser bom. Segundo, porque meu senso de justiça – embora deveras deturpado – ainda é mais funcional que o da maioria das pessoas que já conheci. Um sistema operacional baseado na premissa de que “aqui se faz, aqui se paga”, adaptado a comportamentos passivo-agressivos para evitar tanta fadiga.

Algumas pessoas são, sem dúvida alguma, como brisas leves. Circulando por aí como se nunca tivessem conhecido uma dificuldade na vida. Driblando todos os obstáculos com fineza, flexíveis diante de qualquer adversidade e adeptas a qualquer sugestão para continuarem melhorando. Vez por outra, me sinto mais como uma mina terrestre: não pise em mim, ou eu explodo. Às vezes, causando mais estrago em mim mesmo – aniquilando-me ao entrar em contato com qualquer toque em falso. Às vezes, falhando ao explodir devido à idade da pólvora, deterioração da carcaça, ou pura preguiça de discutir. Depois de anos brigando por nada, o desgaste foi inevitável.

Eu ainda poderia culpar os astros – Escorpiano com ascendente em Áries só poderia dar mais trabalho a um universo já sobrecarregado. Mas apesar de acompanhar o horóscopo diário (“pra ver se bate mesmo”), seria muito fácil terceirizar minhas falhas, culpando as estrelas ou o João Bidu. Não. Se eu sou difícil, é porque – convenhamos – “eu mereci”. 

Por que admitir isso agora? Bom, talvez seja uma tentativa de colocar em dia duas demandas adormecidas: a parte bibliográfica do meu TCC sobre gerenciamento de crise, e a parte prática da minha personalidade – sobre insistir em causa-las por aí. A primeira regra para gerenciar qualquer crise é admitir que ela existe. Bom... Eu sou difícil. E Sartre não precisa estar vivo para mostrar qual a próxima questão a ser respondida: o que fazer com isso agora?

Reescrever esse personagem talvez ajude. É nisso que dá extinguir o horário de verão; o inferno astral chegou mais cedo este ano.

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