Tempo e momentos são coisas distintas. Tempo é aquilo que você tem quando decide que nada nem ninguém justifica o seu deslocamento para fora da cama – portanto é totalmente aceitável passar o resto do seu dia ali. Momento é o intervalo no qual você descobre que uma água importada de 40 reais que você comprou para matar uma curiosidade aleatória, por incrível que pareça, tem mesmo gosto só de água. É triste, mas é só um momento – e pelo menos ele passou.
Ao longo do tempo, a humanidade tentou desesperadamente registrar seus momentos. Primeiro vieram as escrituras nas cavernas, seguidas pelos hieróglifos, até atingir seu ápice com as indiretas no Facebook e, em sua contrapartida contemporânea, as selfies.
Há quem diga que os nudes, além de uma expressão autoerótica de êxtase e impulsividade freudiana, não deixam de ser tentativas infames de registrar o ápice de uma paixão – embora deveras distorcida, dependendo de qual mão você use para tirar a foto – mas isso é uma linha de pensamento paralela. Mas o instinto de colocar-se contra a prova do tempo através de técnicas fotográficas ainda permanece. Se você é homem, por exemplo, logo aprende que seu melhor ângulo é e sempre será contra-plongeé, mas não temos tempo para nos aprofundarmos nisso.
Quando eu era adolescente, registros em fotos eram raridades. Dificilmente alguém era dono de uma câmera e, caso fosse, dificilmente era dotado da cumplicidade e companheirismo necessários para passar as fotos adiante aos colegas menos favorecidos. Os herdeiros desse péssimo hábito caminham entre nós hoje – mesmo com toda a praticidade do mundo de enviar uma foto por WhatsApp, eles ainda alegam preguiça para fazê-lo. Só de pensar nisso me faz lembrar de toda ansiedade e agonia da minha juventude por prezar tanto por momentos que foram registrados, mas cujos registros jamais chegaram até mim. E, claro, vez por outra o dono da câmera era só um babaca que julgou não ter saído bem na foto, então a foto em si não merecia existir. Acontece.
Hoje em dia não só é fácil registrar momentos, como esperado. Como na vez em que passei um final de semana inteiro sem produzir um story sequer no Instagram e, quando finalmente subi uma imagem qualquer, fui questionado por uma amiga surpresa: “achei que tinha morrido”. Pelo visto imortalizar momentos, ainda que disponíveis por 15 segundos para o resto do mundo (ou a sua plateia particular) tornou-se equivalente a uma prova de vida. Como se quem não fosse visto não só não fosse lembrado, mas também é sepultado.
Quanto a mim, que sempre prezei muito pelos meus momentos, cada selfie é uma vitória. Não só por finalmente ter a tecnologia e, convenhamos, tempo de sobra nas mãos para produzir registros vivos da minha história, mas por algo que sempre soube desde a imbecilidade dos meus 15 anos: momentos passam. A única diferença entre nós e nossos avós é que substituímos os porta-retratos por destaques num feed. O impulso e a busca pela atemporalidade permanecem ironicamente intactos.
Uma prova maior da nossa obsessão pela história – a nossa, pelo menos, e a daqueles pelos quais sentimos uma curiosidade constante – está registrada nas próprias visualizações de stories. Existem pessoas com as quais sequer converso mais, mas nos vemos indiretamente todos os dias. Os motivos podem variar – tédio, nostalgia, saudade, competição, amor não correspondido – mas ali estamos nós: atentos.
Vale ressaltar que jamais produziria uma indireta semiótica à vocês – longe disso. Se quisesse mesmo dizer algo, diria por meio de longos e cansativos devaneios crônicos com ares pós-modernistas, acompanhados por trilhas sonoras dotadas de letras igualmente assombrosas tal quais as palavras que direciono a uma tela anteriormente em branco do meu computador. É definitivamente mais do que você merece e ninguém jamais dedicará tal esforço à você de novo, mas é como eu melhor me expresso, então paciência.
Então seguimos firmes nos registros vivos da nossa juventude, eternizando os lugares por onde passamos, as pessoas com quem estávamos e as músicas que tocavam na época, entre tantos outros souvenirs que presenteamos a nós mesmos, dia após dia. Desde a foto do seu café da manhã até o registro da sua mesa no trabalho, passando por uma live acidental ao clicar no botão errado e, por fim, uma selfie da vitória no espelho da academia, pós-treino.
O mais interessante em meio ao caos da modernidade líquida é quando alguém, vez por outra, opta por não acompanhar mais os seus registros. Há quem diga que é porque viram algo em você que despertou algo em si mesmo que necessita desesperadamente de mudança – logo é mais fácil cessar todo e qualquer estímulo visual que me lembre disso. É como diz o ditado: o que os olhos veem o coração não sente.
Ou, quem sabe, talvez só não fizesse mais sentido acompanhar a sua história, visto que você mesma optou por encerrar a nossa. O que me faz pensar que integrar a sua plateia não só deixa de fazer sentido, como torna-se uma verdadeira perda de tempo. E por mais que eu sinta falta dos nossos momentos juntos, a verdade é que quando o público deixa de reagir, uma hora o artista cansa.
Enfim, em uma selfie há sempre muito mais do que se vê. Às vezes um dedo na lente, às vezes uma vida inteira que já passou. E o pior cego sempre será aquele que insiste em não deixar de seguir, mesmo quando não faz mais parte daquela história.
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