Pular para o conteúdo principal

Mil e um motivos


Você não pode assustar alguém com seu sonho de querer ser feliz para sempre. Para quem ainda não entendeu, ressalto dois principais motivos para isso: 1) o “
nada sério” reina em aplicativos de relacionamento e 2) com uma certa idade você descobre que “para sempre” dura mesmo umas duas semanas em média. 


Dos conceitos que a modernidade líquida nos ajudou a construir, nada me chama tanto a atenção quanto o “nada sério”. Do latim “non factusattachiatus ad” (pesquise, vale a pena), o “nada sério” consiste naquilo que as pessoas dizem que querem quando tentam disfarçar o quanto gostariam mesmo de ter tudo. Só não podem admitir isso para aquele contatinho especial porque, né... Quem diria uma coisa dessas?!


É nessas horas que me vejo como o pobre Ted no episódio piloto de “How I Met Your Mother”. Depois de um primeiro encontro questionável com Robin, Ted a leva até sua porta e começa a se distanciar até finalmente romper com todo o bom senso que ainda tinha para desenfrear esse monólogo incrível:


Ted – Quer saber de uma coisa? Eu cansei de ser solteiro. Não sou bom nisso. Olha, obviamente você não pode dizer que ama uma mulher que acabou de conhecer, mas isso é uma droga. Mas te direi uma coisa: se uma mulher – não você, mas uma mulher hipotética – pudesse superar isso comigo, eu acho que seria um ótimo marido. Porque envolve coisas nas quais eu seria bom: fazer ela rir, ser um bom pai, levar os cinco cachorros hipotéticos dela para passear. Ter um bom beijo...

Robin – Todo mundo acha que beija bem.

Ted – Ah, mas eu tenho referências!


Você não pode dizer isso. Pelo contrário, você pode repetir as mesmas frases prontas, de novo e de novo e de novo, na esperança de que a dança dos matches de aplicativos finalmente chegue ao fim. “Sim, sou daqui”, “Sim, eu trabalho”, “Sim, eu não votei naquele cara”, “Sim, podemos marcar de sair um dia” (e realmente fazer isso!). 


O carrossel da miséria emocional só cessa quando decidimos fazer algo diferente, ou arriscar dizer algo diferente. Fugindo dos roteiros pré-fabricados e ultrapassando os mil e um motivos pelos quais se relacionar com alguém novo é desaconselhável ou, pior ainda, perigoso. Horrível. Péssimo.


Por mais que a gente cresça, as borboletas no estômago nos acompanham em cada passo do caminho. Lembrando-nos que pode não dar certo. Ecoando todas as vezes que pensávamos ter encontrado “ele” ou “ela”, só para reencontrá-los perdidos na lista de contatos do celular. Desencavando presentes que prometiam ser o início de grandes legados, histórias de amor e tradições para contar aos netos, e agora não passam de souvenirs de esperanças passadas. Tudo que falta neles é a inscrição: “Estive apaixonado e lembrei de você”.


Eu não sei porque as pessoas se escondem atrás do “nada sério”. Como se a falsa indiferença fosse mais reconfortante em contraste a uma admissão de culpa: “sim, eu quero encontrar alguém e tentar ter algo sério, real, significativo de novo”. Ou, no meu caso: “sim, eu quero andar de mãos dadas no shopping de novo”. 


Seja lá qual for o seu símbolo favorito, não abra mão do seu romantismo pela liquidez na qual vivemos. Aplicativos de relacionamento nada mais são do que mares desconhecidos, como talvez o próprio Bauman os caracterizaria, nos quais estamos desesperadamente tentando não nos afogar nem nos deixar levar soltos pela maré. O segredo para sobreviver ao mar aberto está justamente na nossa obsessão por levantar âncoras: em algum momento teremos que encontrar um porto seguro.


A maior ironia de todas está escondida justamente no mantra que repetimos para não assustar uns aos outros: não há nada sério por trás de um “nada sério”. Esperança, na falta de um esconderijo melhor, vive nas entrelinhas.


Comentários

  1. Ótimo texto! Parabéns!!! Relato dos dias atuais em que as pessoas não falam o que querem e o que esperam e quando falam, isso assusta. Mas porque assusta?! talvez seja porque as pessoas desacreditaram que o amor existe, que coisas boas existem, que sonhos se realizam, que relações podem ser reais.

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

Os 5 estágios do Roacutan

            Olá. Meu nome é Igor Costa Moresca e eu não sou um alcoólatra. Muito pelo contrário, sou um apreciador, um namorador, um profissional em se tratando de bebidas. Sem preconceito, horário ou frescura com absolutamente nenhuma delas, acredito que existe sim o paraíso, e acredito que o harém particular que está reservado para mim certamente tem open bar. Já tive bebidas de todas as cores, de várias idades, de muitos amores, assim como todas as ressacas que eram possíveis de se tirar delas. Mas todo esse amor, essa dedicação e essas dores de cabeça há muito deixaram de fazer parte do meu dia a dia, tudo por uma causa maior. Até mesmo maior do que churrascos de aniversário, camarotes com bebida liberada e brindes à meia noite depois de um dia difícil. Maior do que o meu gosto pelos drinques, coquetéis e chopes, eu optei por mergulhar de cabeça numa tentativa de aprimorar a mim mesmo, em vês de continuar me afogando na mesmisse da minha mela...

A girafa e o chacal

Melhor do que os ensinamentos propostos por pensadores contemporâneos são as metáforas que eles usam para garantir que o que querem dizer seja mesmo absorvido. Não é à toa que, ao conceituar a importância da empatia dentro dos processos de comunicação não violenta, Marshall Rosenberg destacou as figuras da girafa e do chacal . Somos animais com tendências ambivalentes – logo, nada mais coerente do que sermos tratados como tal.  De acordo com Marshall, as girafas possuem o maior coração entre todos os mamíferos terrestre. O tamanho faz jus à sua força, superior 43 vezes a de um ser humano, necessária para bombear sangue por toda a extensão do seu pescoço até a cabeça. Como se sua visão privilegiada do horizonte não fosse evidente o suficiente, o animal é duplamente abençoado pela figura de linguagem: seu olhar é tão profundo quanto seus sentimentos.  Enquanto isso, o chacal opera primordialmente pelos impulsos violentos, julgando constantemente cada aspecto do ambiente ...

A justificativa sem fim

45 anos atrás, Pink Floyd disse que não precisamos de educação e aqui estamos nós: aparentemente muito confortáveis com a nossa imprudência. Claro: não imaginávamos que um hino rebelde poderia nos deixar tão mal acostumados, e realmente não é de se culpar o hino - nem nada ou alguém na verdade - a não ser nós mesmos pelo estado da nossa cultura. O problema, como é de se esperar, mora na interpretação de texto - ou então, especificamente, no nosso jeito de ler e reproduzir o mundo à nossa volta, à nossa maneira, sob uma visão espetacularmente egocêntrica. Pelo visto Pink Floyd não percebeu que, ao tirar a educação da equação, também estava abrindo a porta para a insensatez sem limites. O que nos leva ao novo grande mal estar da humanidade (e outro sério problema acadêmico): a justificativa sem fim. Assim como Pink Floyd nos absolve da necessidade de qualquer educação ou controle de pensamento, passamos a admirar toda e qualquer instituição capaz de assumir a responsabilidade sobre noss...