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O deslocamento

Eu já pensei em absolutamente todas as teorias para tentar entender porque você foi embora. Talvez eu tenha sido “eu” demais, com minhas manias incorrigíveis, meus dramas épicos e minha ansiedade desenfreada. Talvez você tenha conhecido outra pessoa – alguém do seu passado, ou simplesmente alguém novo, presente e menos “eu” o bastante para te agradar. Talvez a graça da novidade tenha se dissipado com o passar dos dias, como se a rotina tivesse tornado a paixão rarefeita e à mercê dos ventos do inverno. Ou talvez, quem sabe, na pior das hipóteses e encarando o maior dos meus medos de hoje em dia, você simplesmente não estivesse disposta a ter um relacionamento. Completo com todas as manias, dramas e ansiedade que o acompanham. *** Eu não queria escrever sobre isso. Juro que não queria. Mas eu não consigo parar de pensar em você, Fulana. Não consigo deixar de me preocupar contigo, e de imaginar como seria bom tê-la em meus braços de novo, e sussurrar que tudo ficará bem. E j...

Pra não dizer que não falei das flores

Tem sido um inverno difícil. Eu sinceramente não me lembro da última vez que me senti assim. Inquieto, incompleto, inconstante. Como se nada fosse capaz de me satisfazer. Nem o café fresco na manhã de domingo, nem o conforto da minha cama ao fim do dia. Para falar a verdade, o que eu ando fazendo à noite também não pode ser chamado de “dormir”. E nem de algo mais divertido de se fazer em uma cama. Eu só fico deitado, acordado, em alerta. Na esperança de que o barulho de mensagem nova no celular me chamasse, avisando que alguém se lembrou de mim. E que bom seria se fosse você. Mas não tem sido. Já faz algum tempo que não é você, e é nisso que eu fico pensando... Você ainda pensa em mim, ou as vezes em que tem cruzado por mim na rua são indiferentes? Comparadas aos dias em que estávamos ansiosos para nos encontrarmos... Lembra da primeira vez que nos vimos? Do sorriso largo que eu inspirei em você? E do quão bobo eu parecia ser, tentando chamar a sua atenção? Eu sinto falta de ...

O outro lado da crevasse

Em 1991 , Gaspar LeMarc, um explorador francês, estava no meio de uma jornada pelas cordilheiras dos Alpes quando uma nevasca o separou de sua equipe e subitamente causou um acidente que o fez cair dentro de uma crevasse – uma abertura natural entre geleiras, cuja profundidade aproximadamente estendia-se até 90 metros abaixo do chão. Quando recuperou a consciência, Gaspar percebeu que sua perna estava severamente ferida, deixando-o impossibilitado de escalar de volta à superfície. Ao lutar contra todos os instintos naturais que possuía, e ao obrigar-se a aceitar a pior alternativa possível no momento, Gaspar decidiu que não havia outro meio a não ser se aprofundar cada vez mais dentro da crevasse e da escuridão que a dominava. Depois de quase dois dias, Gaspar conseguiu encontrar uma saída do outro lado. Ao retornar para a base, Gaspar reencontrou sua equipe auxiliar que estava prestes a abortar todas as tentativas de resgate que já haviam procedido, conforme o código de honra dos e...

A culpa é minha

Eu sinceramente acredito que existe algo a ser dito sobre as coisas que não fazemos. Só não sei ao certo o que, porque dizem que o que não foi feito também não vale a pena ser comentado. Se não aconteceu, não significou nada. Mas aí entram as coisas que acontecem e que, vez por outras, também sofrem pela falta de um significado, um sentimento que as mantenha vivas em nossa memória. Então eu não sei. Particularmente eu gosto de acreditar que tudo que é capaz de me causar algum tipo de impressão marcante, também vale a pena ser discutido. E na falta de alguém para me ouvir, acredito que vale a pena ser escrito. Talvez a poesia seja o exílio dos arrependimentos, ou o porto-seguro dos sentimentos ocos. Tudo parece muito bonito, muito apaixonante, muito sintético, mas sem muita utilidade. Isto é, a não ser para indicar a leitura à alguém que está sofrendo por algo que não sabe como lidar direito. Poesia serve para dar forma a estes sentimentos, como um porta-retratos que enfeita um...

A complicada simplicidade

Você me dispensou. Tudo bem, eu entendo. Não é nenhuma novidade. A essa altura, eu nem leio mais as desculpas na íntegra. Só passo o olho nas já famosas palavras-chave – medo, ansiedade, indecisão – ou nas expressões infames do tipo “não sei o que quero da minha vida agora” ou “não estou pronta para um relacionamento sério”, e sigo em frente. Isto é; eu entendo que preciso seguir em frente. Mas por um instante – um longo e aparentemente arrebatador instante – eu realmente me sinto sem direção. Como alguém que estava tranquilamente em direção a um horizonte, acreditando que dias melhores estavam adiante, só para ser surpreendido por um penhasco. E a queda é certa, derradeira, finita. Mas cá entre nós, e eu não quero ser nenhum estraga-prazeres, a verdade é que eu não entendo. Sabe por que? Porque eu sei o que vai acontecer agora. Não exatamente agora, nem amanhã, nem semana que vem. Mas é o que vai acontecer, porque essa história não é original nem imprevisível. Depois de um tempo,...

O dia depois de amanhã

Das seis da manhã à meia-noite, com raras exceções. Tem dias em que consigo me refugiar em devaneios menos preocupantes, e noites que quase não tenho meu sono interrompido por algum medo do futuro. Mas quando a rotina não falha, este é o horário em que eu vivo ultimamente; das seis da manhã à meia noite. E entre trabalhar, namorar, estudar, ser parte de uma família, beber com os amigos e evitar ter um completo colapso nervoso, tenho que ser sincero: sobra preocupação, ansiedade, medo... e falta tempo. O que aconteceu? *** Era tudo o que eu queria. A carreira, o amor e um despertador programado no meu celular para me acordar todas as manhãs. Para soar a largada da corrida de mais um dia. Algo que, desde que cheguei a Foz do Iguaçu, não era um aplicativo muito utilizado. Ainda faltava uma razão para acordar cedo. Coisa que, infelizmente, ficou para trás durante a mudança. Mas foi exatamente por isso que me mudei. As razões pelas quais eu levantava da minha cama de manhã, naqu...

A crise dos 20 e poucos anos

Tudo começou com uma ressaca. A sensação de que a noite anterior não havia terminado ainda, mas na forma de leves dores de cabeça, uma vontade insaciável por líquidos que não possuíssem o mesmo teor alcoólico de todas as bebidas pelas quais eu passei, e um cheiro intragável de tabaco que demorou dias para que eu deixasse de senti-lo nos meus poros. Foi uma típica sexta-feira à noite, para falar a verdade: sair com amigos para um dos tantos barzinhos da cidade, com direito a alguns copos a mais de cerveja e uns cigarros para ajudar a liberar toda a carga de estresse que se instalou durante a semana. A pressão do trabalho, a correria da faculdade, as obrigações domésticas, e as neuroses usuais sobre não ter dinheiro o suficiente no bolso, nem aquela “alguém especial” da vida. Nada que eu já não tenha vivido milhares de vezes antes. Só havia um porém: eu não tenho mais 17 anos. Longe disso; os 25 estão me encarando cada vez mais de perto. O que explica a primeira ressaca que tive em ...